☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta Cartum. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cartum. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de maio de 2024

Los 3 Amigos — Quando Três Cartunistas Entraram num Saloon e Saíram Quatro

 

Bellacosa Mainframe apresenta Los 3 amigos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Los 3 Amigos — Quando Três Cartunistas Entraram num Saloon e Saíram Quatro

Ou: Angeli teve uma ideia, Laerte trouxe o cérebro, Glauco apareceu com a dinamite, Adão entrou sem ninguém atualizar o nome da equipe — e o México nunca mais se recuperou

Pegue o café.

Hoje não adianta trazer espresso gourmet servido numa xícara minimalista de porcelana japonesa.

Precisamos de café de firma.

Aquele café preto que ficou quarenta minutos na garrafa térmica, adquiriu personalidade própria e provavelmente já pode pedir CPF.

Porque vamos voltar para uma época maravilhosa dos quadrinhos brasileiros na qual ninguém tinha social media manager, ninguém falava em personal branding, ninguém perguntava se determinada piada estava alinhada à estratégia omnichannel da organização.

O sujeito simplesmente tinha uma ideia.

Desenhava.

Entregava.

E esperava alguém reclamar.

Nosso destino é o Viejo México.

Mais precisamente algum lugar miserável entre Marisales, Gran El Piso e o Deserto de Plegas Ardientes.

Ali vivem três mexicanos.

Quer dizer...

Quatro.

Mas o nome continua sendo:

Los 3 Amigos

Não tente corrigir.

É como descobrir que aquele sistema chamado NOVO_FATURAMENTO está rodando em produção desde 1987.

Você simplesmente aceita.



🌵 1. Antes de tudo: quem diabos eram Los 3 Amigos?

A resposta curta:

Angeli, Laerte e Glauco.

A resposta tecnicamente correta:

Angel Villa, Laertón e Glauquito.

A resposta posteriormente correta:

Angel Villa, Laertón, Glauquito e Adón.

Sim.

Los 3 Amigos eram quatro.

A literatura francesa já havia preparado o terreno, porque Os Três Mosqueteiros também acabaram funcionando como quatro com a chegada de D'Artagnan.

Os brasileiros apenas perceberam que atualizar documentação depois de colocar um componente novo em produção dá trabalho.

Segundo a própria história registrada pela Folha de S.Paulo, Laerte e Angeli já se conheciam desde 1972, quando colaboravam com a revista Balão. Glauco entrou nessa confraria alguns anos depois, após encontrá-los num Salão de Humor de Piracicaba.

Portanto, antes de Los 3 Amigos existir como quadrinho, os três amigos já existiam.

E isso é importante.

Porque a série não nasceu simplesmente de três profissionais contratados para desenvolver personagens.

Nasceu de amizade.

De convivência.

De cartunistas conhecendo as manias uns dos outros.

E principalmente daquela capacidade perigosíssima que amigos possuem de transformar os defeitos do companheiro em patrimônio cultural.



🎬 2. O bug começou com John Landis

Em 1986 estreou a comédia cinematográfica ¡Three Amigos!, dirigida por John Landis e estrelada por Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short.

Angeli viu aquilo.

E algum neurônio que deveria estar supervisionado pelo departamento jurídico decidiu trabalhar sozinho.

A ideia inicial teria sido relativamente inocente:

fazer uma capa comemorativa da Chiclete com Banana, mostrando Angeli, Laerte e Glauco vestidos como mexicanos.

Pronto.

Acabava ali.

Era uma capa.

Só que existe um princípio fundamental da engenharia de software:

Nunca coloque em produção uma piada que possa adquirir vida própria.

A brincadeira funcionou.


Os personagens começaram a ganhar histórias.

E nasceram:

Angel Villa, alter ego de Angeli.

Laertón, versão mexicana de Laerte.

Glauquito, manifestação radioativa de Glauco.

A série apareceu na Chiclete com Banana no fim dos anos 1980; fontes registram sua estreia na revista em 1987, enquanto a própria Folha situava a criação em 1986.

Não é uma contradição particularmente dramática.

É arqueologia de quadrinhos brasileiros.

Datas naquela época às vezes funcionavam como documentação de programa COBOL:

alguém sabe que existe.

Só precisamos encontrar onde guardaram.


🍌 3. Chiclete com Banana: o datacenter onde nasceu a confusão

Para entender Los 3 Amigos é preciso entender a Chiclete com Banana.

A revista surgiu em meados dos anos 1980 dentro da extraordinária experiência editorial da Circo Editorial, comandada por Toninho Mendes.

E aquilo não era simplesmente uma revista em quadrinhos.

Era praticamente um vazamento radioativo da cultura urbana brasileira.

Angeli estava ali.

Laerte estava ali.

Glauco estava ali.

Luiz Gê estava por perto.

Fernando Gonsales fazia parte daquele universo.

E uma geração inteira percebeu que quadrinho brasileiro não precisava obrigatoriamente significar aventura infantil, super-herói importado ou personagem bonitinho vendendo lancheira.

Podia falar de:

sexo,

drogas,

política,

neurose,

cidade,

fracasso,

contracultura,

solidão,

hipocrisia,

ressaca,

e daquele cidadão que acordou domingo às duas da tarde sem saber exatamente onde deixou a dignidade na noite anterior.

A Circo tornou-se um dos grandes polos do humor gráfico brasileiro pós-Pasquim. Toninho Mendes posteriormente descreveu aquele período como um momento em que os autores tinham muita coisa para criticar, observar e — usando uma palavra bastante adequada ao espírito da casa — sacanear.

Los 3 Amigos são filhos legítimos desse ambiente.

Ou ilegítimos.

Provavelmente ilegítimos.

Combina mais.



🕶️ 4. Angeli — o sysadmin da decadência urbana

Arnaldo Angeli Filho nasceu em São Paulo em 1956.

Publicou seu primeiro desenho ainda adolescente e acabaria se tornando durante décadas um dos grandes nomes do cartum brasileiro e da própria Folha de S.Paulo.

Mas apresentar Angeli apenas como cartunista é quase injusto.

Angeli era um catalogador de tipos humanos.

Ele olhava para São Paulo e encontrava personagens no meio da fumaça.

Rê Bordosa.

Bob Cuspe.

Wood & Stock.

Os Skrotinhos.

Bibelô.

Walter Ego.

Cada personagem parecia resultado de uma query executada diretamente no banco de dados das neuroses paulistanas.

Rê Bordosa era a ressaca de uma geração.

Bob Cuspe era o punk transformado em cusparada gráfica.

Wood & Stock eram dois sobreviventes da contracultura descobrindo que Woodstock acabou, os cabelos embranqueceram e alguém precisa verificar o colesterol.

Angeli possuía uma característica essencial para Los 3 Amigos:

autoironia.

Porque Angel Villa não é exatamente uma homenagem majestosa ao próprio criador.

É Angeli permitindo que Angeli seja ridicularizado por Angeli.

Esse detalhe une boa parte do trabalho dos três autores. Uma análise da Folha sobre aquela geração observou justamente essa tendência: em vez de apenas rir dos outros, Angeli, Glauco e Laerte frequentemente faziam de si mesmos o alvo.

Isso muda tudo.

O cartunista não fica acima da piada.

Ele entra nela.

Fecha a porta.

E alguém joga a chave fora.



🧠 5. Laerte — a pessoa que colocou um compilador Lisp dentro do saloon

Se Angeli observava a decadência urbana, Laerte parecia perguntar:

— Tudo bem, mas e se o universo inteiro estiver errado?

Laerte Coutinho nasceu em São Paulo em 1951 e se tornou uma das figuras fundamentais dos quadrinhos brasileiros.

Piratas do Tietê.

Overman.

Gato e Gata.

Suriá.

Fagundes.

E dezenas de experimentações gráficas e narrativas.

O humor de Laerte frequentemente possui uma característica maravilhosa:

você ri.

Depois pensa.

Depois percebe que talvez não tenha entendido.

Depois entende.

E então fica preocupado.

É quase uma exceção NullPointerException filosófica.

Laerte consegue pegar uma situação banal, deslocar uma pequena variável e criar um universo completamente absurdo que, cinco segundos depois, parece assustadoramente lógico.

Nos Los 3 Amigos, Laertón carregava inevitavelmente essa assinatura.

Mas existe outra característica interessante.

Os três tinham estilos muito diferentes.

E mesmo assim desenhavam juntos.

A própria Folha observou que a amizade pessoal entre Laerte, Glauco e Angeli não apagava as diferenças enormes de estilo entre eles.

Isso deveria resultar num desastre.

E resultava.

Só que num desastre maravilhoso.



💣 6. Glauco — DELETE FROM realidade WHERE bom_senso = 1

Então chegamos a Glauco Villas Boas.

Criador do Geraldão.

E aqui qualquer tentativa de explicar delicadamente o humor de Glauco provavelmente termina em fracasso.

Geraldão era grosso.

Exagerado.

Grotesco.

Impulsivo.

Sexual.

Absurdo.

Era como se alguém tivesse removido todas as verificações de consistência antes de executar o programa.

Glauco tinha uma capacidade extraordinária de produzir movimento com poucos traços.

O desenho parecia estar sempre prestes a escapar do quadrinho.

Geraldão não entrava numa situação.

Ele colidia com ela.

Essa energia passou naturalmente para Glauquito.

Se Angel Villa carregava a acidez de Angeli e Laertón podia introduzir o absurdo conceitual de Laerte, Glauquito parecia perfeitamente capaz de entrar numa igreja carregando dinamite apenas porque confundiu a porta.

E provavelmente sairia culpando os outros.

Glauco morreria tragicamente em março de 2010, assassinado junto com seu filho Raoni, encerrando brutalmente a trajetória de um dos cartunistas mais singulares do Brasil.

Mas Geraldão, Glauquito e aquela linha aparentemente simples continuam imediatamente reconhecíveis.

Há artistas cujo desenho você identifica pela assinatura.

Glauco você reconhece antes de procurar a assinatura.



🐎 7. Como três pessoas desenham a mesma história sem chamar o Scrum Master?

Agora vem uma das partes mais deliciosas.

Como Los 3 Amigos era produzido?

Toninho Mendes descreveu o processo.

Os três se reuniam durante algumas horas, rabiscavam, discutiam e desenvolviam a história juntos.

Depois começava uma espécie de Git gráfico décadas antes de Git existir.

Em certas histórias, Glauco desenhava seus personagens e passava o trabalho para Angeli.

Angeli acrescentava sua parte.

Laerte podia finalizar.

Em outros casos, especialmente quando o cenário exigia mais trabalho, a ordem podia mudar.

Pense nisso.

Hoje teríamos:

los-amigos-final.ai

los-amigos-final-v2.ai

los-amigos-final-agora-vai.ai

los-amigos-final-aprovado-laerte.ai

los-amigos-final-aprovado-laerte-angeli.ai

los-amigos-FINAL-MESMO.ai

Na época?

Papel.

Caneta.

Mesa.

Café.

Provavelmente alguma substância que o compliance moderno preferiria não catalogar.

E confiança.

Um autor literalmente desenhava sobre o trabalho do outro.

Era integração contínua.

Continuous Illustration.



🌮 8. Viejo México: uma infraestrutura completamente fora de suporte

Los 3 Amigos não viviam exatamente no México.

Viviam no Viejo México.

Isso é diferente.

O Viejo México era uma espécie de western spaghetti que caiu do caminhão, passou três dias no deserto, perdeu documentos e resolveu abrir um bar.

Havia lugares como Marisales.

Gran El Piso.

Deserto de Plegas Ardientes.

Sombreros.

Tequila.

Bandidos.

Confusiones.

E os Miguelitos, pequenas criaturas infernais cuja principal função narrativa parecia ser demonstrar que crianças também podem funcionar como ataque distribuído de negação de serviço.

DDoS de sombrero.

O cenário mexicano permitia aos autores fazer algo muito inteligente.

Criavam distância.

Não estavam falando diretamente de São Paulo.

Mas estavam.

Não estavam falando diretamente do Brasil.

Mas estavam.

Não estavam falando diretamente das próprias vidas.

Mas obviamente estavam.

O Viejo México era uma sandbox.

Podia receber violência cartunesca, política, sexo, drogas, machismo, fracasso, amizade e completa ausência de dignidade.

Tudo entrava.

Nada precisava sair funcionando.



🤠 9. Então chegou Adão e ninguém atualizou o README

Em 1994 acontece uma maravilha administrativa.

Chega Adão Iturrusgarai.

Cartunista gaúcho, criador de personagens como Aline, Adão já orbitava aquele universo e acabou incorporado oficialmente à turma.

Nasceu:

Adón.

Agora eram quatro.

Nome da série?

Los 3 Amigos.

Perfeito.

Não mexe.

Está funcionando.

Adão era o D'Artagnan da equipe.

Uma reportagem de 1998 chegou a brincar exatamente com a comparação aos quatro mosqueteiros e descreveu o grupo como quatro autores compondo coletivamente algo próximo de um “cartunista perfeito”.

A entrada de Adão também mostra algo importante:

Los 3 Amigos nunca foram apenas uma propriedade intelectual rigidamente planejada.

Era uma turma.

Uma mesa de bar transformada em método editorial.

Adão chegou.

Sentou.

Pegou a caneta.

Pronto.

Deploy concluído.



📰 10. Do underground para a Folha

A coisa cresceu.

Los 3 Amigos deixaram o território relativamente underground da Chiclete com Banana e chegaram ao Folhateen, suplemento da Folha de S.Paulo.

A estreia no suplemento ocorreu em dezembro de 1991.

Isso criou uma situação curiosíssima.

Um quadrinho nascido dentro daquele caldo adulto, anárquico e contracultural estava agora dentro de um suplemento juvenil de um dos maiores jornais brasileiros.

É aproximadamente como contratar Bob Cuspe para apresentar treinamento de integração do RH.

Vai funcionar?

Provavelmente.

Vai seguir o PowerPoint?

Deus nos livre.

Angeli posteriormente comentou que o espaço natural de Los 3 Amigos eram histórias maiores, verdadeiras sagas, e não necessariamente o formato comprimido do jornal.

Mesmo assim, foi justamente ali que muita gente conheceu aqueles mexicanos completamente desqualificados.


📚 11. Os álbuns: quando o incidente vira documentação oficial

A bagunça também virou livro.

Entre as publicações associadas ao trio aparecem volumes como:

Los 3 Amigos 1

Los 3 Amigos 2

e posteriormente Seis Mãos Bobas.

Também circulou o maravilhoso título:

Más Sexo, Más Drogas y Más Guacamoles.

Porque aparentemente alguém concluiu que sexo e drogas não eram suficientes.

Faltava guacamole.

E eu respeito profundamente essa decisão editorial.


🧨 12. O politicamente incorreto antes do departamento jurídico descobrir o e-mail

É impossível falar de Los 3 Amigos sem mencionar uma coisa.

Muito daquele material dificilmente seria publicado hoje da mesma maneira.

Havia sexo.

Drogas.

Estereótipos.

Violência.

Palavrões.

Machismo satirizado através do próprio machismo.

Piadas deliberadamente ofensivas.

Grotesco.

Personagens moralmente indefensáveis.

Só que analisar aquilo apenas aplicando os critérios culturais de 2026 produz uma leitura incompleta.

Los 3 Amigos pertencem ao ambiente da contracultura brasileira dos anos 1980 e 1990.

Era humor interessado justamente em atravessar fronteiras.

O próprio Toninho Mendes, olhando retrospectivamente para aquele período, comentou que republicar determinadas revistas hoje provavelmente provocaria uma reação muito diferente.

Não significa que toda piada envelheceu bem.

Algumas envelheceram.

Outras envelheceram como vinho.

Outras como leite esquecido atrás da geladeira desde o Plano Collor.

Mas isso também transforma essas revistas em documentos culturais.

Elas registram o que podia ser dito, como era dito e do que uma geração ria.

Isso é história.


🧠 13. A verdadeira genialidade: eles próprios eram a piada

Aqui está, para mim, uma das chaves de Los 3 Amigos.

Angel Villa era Angeli.

Laertón era Laerte.

Glauquito era Glauco.

Adón era Adão.

Portanto, quando aqueles quatro sujeitos apareciam como covardes, bêbados, incompetentes, tarados, confusos ou simplesmente idiotas...

os autores estavam destruindo suas próprias personas.

Isso é poderoso.

Porque impede que o cartunista ocupe permanentemente o confortável cargo de:

“Eu sou inteligente e vou mostrar como vocês são burros.”

Não.

Aqui o autor também é burro.

Talvez seja o mais burro da história.

A crítica social continua existindo.

A política continua aparecendo.

A sociedade continua sendo satirizada.

Mas o autor não recebe imunidade diplomática.

Ele está dentro do saloon.

E também pode levar uma garrafada.


🪦 14. Em 2001, JOB LOS3AMIGOS ENDED - RC=0000

Depois de anos de histórias, a série terminou sua passagem regular pelo Folhateen em fevereiro de 2001.

Laerte explicou na época que aquele ciclo havia sido cumprido e que o encerramento não significava necessariamente o fim das colaborações entre os autores, mas a aposentadoria daquela série específica.

Isso é importante.

Não houve necessidade de inventar:

Los 3 Amigos — Next Generation.

Nem:

Los 3 Amigos Multiverse of Madness.

Nem reboot cinematográfico em oito episódios explicando a infância traumática de Glauquito.

Terminou.

Um conceito revolucionário atualmente.


🎞️ 15. Mas o cadáver ainda mexeu

Em 2009, Los 3 Amigos chegaram à animação num curta dirigido por Daniel Messias.

No ano seguinte, a adaptação recebeu o Troféu HQ Mix de melhor adaptação para outro veículo.

O que demonstra uma característica curiosa das boas criações.

Você pode desligar o sistema.

Mas alguém sempre encontra um batch esquecido rodando.


🇧🇷 16. Por que Los 3 Amigos importam?

Porque eles representam uma coisa que praticamente desapareceu das bancas brasileiras:

o ecossistema de revistas autorais de humor.

Durante os anos 1980 e 1990, revistas como Chiclete com Banana, Circo, Geraldão, Piratas do Tietê e Níquel Náusea criaram um ambiente onde cartunistas podiam desenvolver personagens próprios e dialogar diretamente com uma cultura urbana brasileira.

A banca de jornal funcionava como algoritmo.

Você chegava.

Olhava as capas.

Uma delas dizia alguma barbaridade.

Você comprava.

Pronto.

Recomendação analógica concluída com sucesso.

Não havia feed infinito.

Havia 36 páginas.

E depois você emprestava para alguém.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais aquela geração deixou memória tão forte.

Os leitores não apenas consumiam aquelas revistas.

Carregavam aquelas revistas.

Emprestavam.

Colecionavam.

Escondiam dos pais.

Levavam para escola.

Deixavam no banheiro.

Recortavam.

Perdiam.

Encontravam quinze anos depois dentro de uma caixa.

Isso cria uma relação física com cultura que nenhum scroll consegue reproduzir perfeitamente.


🏜️ 17. O Viejo México era o Brasil usando bigode falso

E talvez essa seja a melhor piada de todas.

Los 3 Amigos fingiam estar no México.

Mas aquele México nunca existiu.

Era cenário.

Era paródia de western.

Era Sergio Leone contaminado pela Vila Madalena.

Atrás do sombrero havia São Paulo.

Atrás da tequila havia Brasil.

Atrás dos bandidos havia política.

Atrás dos fracassados havia uma geração inteira tentando entender o que fazer depois da ditadura, da contracultura, da abertura política, da inflação e das transformações sociais dos anos 1980 e 1990.

Tudo embrulhado numa piada idiota.

E essa é uma das coisas maravilhosas dos quadrinhos.

Você pode escrever um tratado de 600 páginas sobre alienação urbana.

Ou desenhar Glauquito levando uma garrafada.

Dependendo do cartunista...

a garrafada explica melhor.


🥃 18. Easter egg: o verdadeiro Los 3 Amigos era a mesa

Talvez este seja o detalhe que mais gosto nessa história.

Los 3 Amigos não nasceram primeiro como personagens.

Nasceram como amigos.

Angeli e Laerte já conviviam desde o começo dos anos 1970.

Glauco entrou naquela órbita.

Vieram trabalhos coletivos.

Revistas.

Folha.

Chiclete.

Circo.

Depois Adão.

E o processo de criação preservava exatamente isso.

Eles sentavam juntos.

Conversavam.

Rabiscavam.

Um desenhava sobre o desenho do outro.

Hoje chamaríamos isso de:

collaborative creative workflow.

Naquela época provavelmente chamavam:

— Glauco, passa essa porra pra cá.

E funcionava.

Talvez melhor.


☕ Epílogo — Quatro mexicanos entram num bar

Imagine a cena.

Fim de tarde no Viejo México.

O sol está descendo.

Uma tumbleweed atravessa a rua.

As portas do saloon abrem.

Entra Angel Villa.

Atrás dele vem Laertón.

Depois Glauquito.

O barman olha.

— Los Tres Amigos!

Então entra Adón.

O barman conta novamente.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

Olha para a placa.

LOS 3 AMIGOS

Olha para Adón.

Olha novamente para a placa.

Pensa em chamar alguém para trocar.

Calcula o orçamento.

Lembra que seria necessário alterar também os cartazes, capas, arquivos, contratos, documentação, identidade visual e provavelmente aquele programa COBOL que ninguém sabe por que participa do processo.

Desiste.

Serve quatro tequilas.

E talvez essa seja a homenagem perfeita para Angeli, Laerte, Glauco e Adão Iturrusgarai.

Quatro autores completamente diferentes.

Quatro maneiras de desenhar.

Quatro maneiras de pensar humor.

Quatro egos que tiveram a rara capacidade de permitir que os outros desenhassem literalmente sobre seu trabalho.

E uma série chamada Los 3 Amigos.

Porque algumas inconsistências não são bugs.

São patrimônio histórico.

E em algum lugar perdido do Viejo México, entre Marisales e o Deserto de Plegas Ardientes, provavelmente existe um velho mainframe executando um programa escrito em 1987.

No console aparece:

LOS3AMIGOS ACTIVE

MEMBERS = 4

O operador olha.

Pensa durante alguns segundos.

Toma um gole de café.

E decide corretamente:

Não mexe nessa porra. Está funcionando.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...