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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Tenho 52 Anos, mas o Twitter Quer que Eu Pague para Provar que Sou Adulto

 

Bellacosa Mainframe alem de provar q eu sou eu mesmo tenho q provar q sou velho +18

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Tenho 52 Anos, mas o Twitter Quer que Eu Pague para Provar que Sou Adulto

Ou: como a proteção dos menores criou uma internet com pedágio de identidade, censura indireta e um novo código regional para cinquentões perigosamente alfabetizados

Prólogo — O algoritmo examinou meus documentos imaginários e concluiu que talvez eu tivesse doze anos

Tenho 52 anos.



Trabalho com computadores desde quando eles ocupavam salas inteiras, exigiam ar-condicionado próprio e eram tratados com mais respeito do que muitos diretores. Conheci a internet quando ela ainda chegava acompanhada pelo ruído cerimonial de um modem, uma espécie de grilo eletrônico anunciando que, depois de vinte tentativas, talvez fosse possível abrir uma página.

Atravessei a era do disquete, do CD-ROM, do DVD dividido em regiões, das senhas com oito caracteres, do monitor de fósforo verde e dos sistemas que perguntavam se eu realmente desejava sair antes de me abandonarem para sempre.

Depois de tudo isso, o Twitter — ou X, como prefere ser chamado desde que recebeu nome de projeto secreto recusado por uma empresa de ficção científica — decidiu que talvez eu ainda não tenha idade suficiente para acessar determinados conteúdos e conversas.

Felizmente existe uma solução muito adulta: pagar uma assinatura.

Na minha experiência com a plataforma, o caminho apresentado para recuperar determinadas áreas e provar que sou maior de idade passa pelo serviço pago. A assinatura surge, na prática, como uma espécie de certidão digital de maturidade.

Não importa que eu tenha atravessado mais de meio século, trabalhado em CPDs, pago impostos, criado um filho, participado da vida pública, acumulado cabelos brancos e sobrevivido a incontáveis reuniões corporativas.

Para o algoritmo, continuo sendo um adolescente suspeito até que o cartão de crédito declare:

“Confirmo que este cavalheiro já pode ler.”

O Visconde de Valmont, personagem imortalizado por John Malkovich em Ligações Perigosas, certamente apreciaria a elegância do mecanismo. Não é necessário proibir diretamente. Basta transformar a liberdade em um benefício premium e deixar que a vítima assine voluntariamente o recibo da própria submissão.

É uma sedução muito bem executada.



1. Não provaram que sou menor — presumiram que não paguei

Existe uma diferença fundamental entre proteger menores e tratar todo adulto não pagante como menor presumido.

No primeiro modelo, a plataforma identifica razoavelmente um risco e oferece formas proporcionais de confirmação de idade.

No segundo, temos esta lógica:

não assinou = identidade insuficiente  
identidade insuficiente = idade desconhecida  
idade desconhecida = possível menor  
possível menor = acesso reduzido

Pronto. Uma sequência impecável, quase tão elegante quanto um programa COBOL que move espaços para o campo de data e depois culpa o usuário pelo S0C7.

A assinatura paga não comprova perfeitamente a maioridade. Um adolescente pode usar o cartão dos pais. Um adulto pode não possuir cartão, não desejar fornecê-lo, não querer pagar ou simplesmente considerar absurdo comprar acesso a algo que anteriormente já podia consultar.

Portanto, não estamos diante de um método científico para determinar idade. Estamos diante de uma classificação econômica:

Adulto confiável é o adulto monetizado.

O jovem com cartão familiar atravessa a porta. O cinquentão desconfiado permanece do lado de fora, contemplando o porteiro digital.



2. Aos 52 anos, recebi uma versão infantil da internet

O problema não se limita ao conteúdo pornográfico.

Quando uma plataforma classifica perfis, imagens ou conversas como sensíveis, o bloqueio pode alcançar:

  • notícias sobre guerras;

  • fotografias históricas;

  • debates políticos;

  • relatos de violência;

  • educação sexual;

  • quadrinhos;

  • mangás;

  • animes;

  • obras de arte;

  • campanhas de saúde;

  • denúncias de abuso;

  • conversas entre adultos;

  • perfis inteiros que publicaram algum material considerado sensível.

O algoritmo não lê como um adulto. Ele administra riscos como um departamento jurídico depois do terceiro café e antes da reunião com a diretoria.

Uma pintura renascentista, uma página de Milo Manara, uma cena de anime, uma reportagem policial e pornografia propriamente dita podem terminar na mesma gaveta: “sensível”.

E eu, aos 52 anos, recebo a edição da internet preparada para alguém que talvez ainda precise da autorização dos pais para assistir ao filme das dez.

A infantilização do usuário adulto é vendida como segurança.

Valmont provavelmente diria que a melhor prisão não é aquela que impede a saída. É aquela que convence o prisioneiro de que a chave somente está disponível no plano anual.


3. A censura moderna não precisa usar tesoura

A censura clássica era grosseira.

Havia um funcionário, um carimbo, uma tesoura e uma decisão clara: esta cena pode; aquela não pode; este livro está proibido; aquele filme será cortado.

A censura moderna possui melhor design.

Ela utiliza:

  • termos de serviço;

  • classificação automatizada;

  • redução de alcance;

  • bloqueio geográfico;

  • verificação de idade;

  • suspensão preventiva;

  • remoção silenciosa;

  • desmonetização;

  • assinatura premium;

  • resposta automática sem direito efetivo de contestação.

Ninguém precisa declarar oficialmente que você foi censurado. A plataforma apenas informa que determinado conteúdo “não está disponível”, “pode ser sensível” ou “exige confirmação”.

Não há praça pública, censor visível nem lista de livros proibidos. Existe apenas uma tela vazia e um botão para assinar.

Juridicamente, convém fazer a distinção: uma restrição imposta por empresa privada não é automaticamente censura estatal. Contudo, para o usuário que perdeu acesso a conversas, autores e conteúdos, o efeito material pode ser censório.

A conversa desapareceu.

O perfil ficou invisível.

O acervo deixou de ser acessível.

A memória digital foi reduzida.

Podemos chamar isso de “experiência personalizada”, caso a palavra censura cause desconforto ao departamento de marketing.


4. A proteção de menores tornou-se a chave-mestra

Proteger crianças e adolescentes é obrigação legítima. Existem aliciamento, abuso, exploração sexual, violência transmitida pela internet e redes organizadas que precisam ser combatidas.

O problema começa quando a frase “proteger as crianças” se torna uma chave capaz de abrir qualquer porta jurídica e fechar qualquer porta cultural.

Quem tenta discutir precisão, proporcionalidade ou liberdade artística corre o risco de receber a pergunta fatal:

“Então você é contra a proteção das crianças?”

É uma armadilha retórica perfeita.

A pessoa razoável responde que evidentemente deseja proteger crianças. Nesse momento, já aceitou discutir somente a intensidade do bloqueio, e não se o mecanismo escolhido é adequado.

A Lei nº 15.487/2026 ampliou o alcance do Estatuto da Criança e do Adolescente para incluir representações de crianças ou adolescentes reais ou fictícios em conteúdos definidos como sexualizados ou libidinosos. A norma também alcança determinadas situações produzidas por tecnologias digitais e inteligência artificial.

O objetivo declarado é combater violência sexual e fechar lacunas criadas por deepfakes e materiais inteiramente artificiais. O problema está na amplitude de expressões como “contexto”, “pose”, “enquadramento”, “conotação sexual” e “demais elementos relevantes”.

Um personagem fictício possui idade determinada pela narrativa? Pela aparência? Pelo corpo? Pela opinião do perito? Pela imaginação do promotor? Pela indignação da associação que surgiu na terça-feira e na quarta já representava todas as crianças desenhadas do hemisfério sul?

O texto oficial pode ser consultado na Lei nº 15.487/2026.

A proteção é necessária. A falta de fronteiras claras é perigosa.


5. O velho CD número 17 agora precisa de parecer jurídico

Imagine uma coleção particular com centenas de horas de animes gravados em CDs e DVDs ao longo de vinte ou trinta anos.

O proprietário não se recorda de cada episódio, cada cena de banho, cada piada de duplo sentido nem da idade declarada de cada elfa que frequentava uma escola mágica em 2003.

Quando o material foi adquirido ou gravado, não existia proibição específica envolvendo determinados personagens fictícios. Décadas depois, a legislação muda.

O passado não é punido retroativamente pela lei nova. Entretanto, armazenar material pode ser considerado uma conduta permanente enquanto o arquivo continua sob controle do proprietário.

Surge então o paradoxo: algo adquirido legalmente pode transformar-se em risco jurídico sem que o colecionador tenha produzido, divulgado ou sequer assistido novamente ao conteúdo.

O CD não mudou.

O arquivo não mudou.

O desenho não mudou.

Mudou o olhar do Estado sobre ele.

A partir desse momento, o colecionador precisa imaginar se algum jurista particularmente criativo poderá descobrir uma adolescente onde ele sempre enxergou uma mulher adulta estilizada.

Druuna, de Paolo Eleuteri Serpieri, é representada claramente como mulher adulta. Muitas personagens de Milo Manara também aparecem em narrativas adultas, embora tenham rostos jovens e corpos idealizados.

Mas o desenho não traz certidão de nascimento anexada ao quadrinho.

A acusação poderá chamar uma personagem de “teen”. A defesa poderá chamá-la de jovem adulta. Um perito poderá medir proporções. Outro falará sobre ingenuidade facial. O juiz decidirá se os quadris possuem idade penalmente relevante.

O Direito terá inventado a antropometria da ninfeta fictícia.

Cesare Lombroso talvez retornasse apenas para pedir participação nos direitos autorais.


6. Los Três Amigos e a defensora pública dos Miguelitos

Pensemos em Los Três Amigos, de Angeli, Laerte e Glauco.

A obra nasceu no universo underground da Chiclete com Banana, povoada por Angel Villa, Laerton, Glauquito, violência, sexo, drogas, perversões, mulas e hordas de Miguelitos infernizando a vida de todos no Viejo México.

Era uma sátira adulta, suja, exagerada e moralmente instável — exatamente como deve ser um bom quadrinho underground.

Se surgisse hoje, provavelmente seria acompanhado por:

  • classificação para maiores de 18 anos;

  • embalagem lacrada;

  • aviso sobre conteúdo sensível;

  • parecer jurídico;

  • consultoria de representação;

  • campanha de boicote;

  • denúncia por estereótipos;

  • pedido de proteção integral aos Miguelitos;

  • associação defensora das mulas exploradas;

  • especialista explicando que a obra normaliza ambientes laborais tóxicos no deserto.

A sátira seria obrigada a comprovar que sabe ser sátira.

Uma página seria retirada do álbum e publicada isoladamente. Um influenciador perguntaria se você deixaria seu filho ler aquilo, embora a revista nunca tivesse sido destinada a crianças. Um parlamentar gravaria um vídeo indignado segurando o quadrinho com uma luva, como se tivesse localizado plutônio enriquecido num sebo.

No fim, talvez a obra fosse considerada constitucionalmente protegida.

Cinco anos depois.

Após processos, despesas, apreensões, cancelamentos e o desaparecimento da editora.

A absolvição tardia é uma forma muito elegante de censura. A obra vence, mas já não existe ninguém para reimprimi-la.


7. Ligações Perigosas talvez também precise apresentar documentos

E aqui chegamos ao anfitrião ácido desta conversa.

Ligações Perigosas trata de manipulação, sedução, poder, moralidade, desejo e destruição. Seus personagens não oferecem modelos seguros para uma campanha educativa. Valmont não pede consentimento ao departamento de compliance antes de iniciar seus jogos psicológicos. A Marquesa de Merteuil dificilmente seria aprovada por uma consultoria de relacionamento saudável.

A obra não nos manda imitá-los.

Ela os apresenta.

Essa diferença elementar — representar não é recomendar — parece cada vez mais difícil de preservar.

Um dia alguém poderá dizer que o filme romantiza manipulação, abuso emocional, relações desequilibradas ou exploração de jovens. Outra pessoa pedirá aviso de conteúdo. Uma plataforma poderá restringi-lo. Um algoritmo talvez conclua que determinados diálogos são impróprios.

Não acredito que Ligações Perigosas esteja prestes a ser proibido no Brasil. Mas já não parece absurdo imaginar uma versão cortada, escondida, reclassificada ou indisponível em determinado catálogo nacional.

Valmont não seria derrotado pela virtude.

Seria derrotado pelo geoblocking.


8. A volta do DVD regional

Quem comprava DVDs lembra-se do pequeno globo acompanhado por um número.

  • Região 1: Estados Unidos e Canadá.

  • Região 2: Europa e Japão.

  • Região 4: América Latina e Austrália.

Você adquiria um filme no exterior, chegava em casa e descobria que o aparelho brasileiro se recusava a executá-lo. O disco estava perfeito. O aparelho funcionava. O problema era geopolítico: o cinema havia recebido fronteiras invisíveis.

A internet prometeu eliminar isso.

Agora estamos construindo um sistema ainda mais sofisticado:

DVD antigoInternet atual
Região gravada no discoPaís identificado pelo IP
Bloqueio no aparelhoBloqueio na conta
Catálogo físico diferenteCatálogo digital diferente
Compra permanenteLicença revogável
Disco continuava com vocêObra pode desaparecer da nuvem
Um número no globoRegra invisível
Região geográficaPaís, idade, assinatura e perfil

O novo código regional será formado por uma equação:

localização + idade presumida + identidade + assinatura + lei nacional
= conteúdo permitido

Um japonês poderá acessar determinado mangá.

Um europeu verá uma edição diferente.

O brasileiro encontrará uma página vazia.

O adulto brasileiro não assinante receberá uma página ainda mais vazia, cuidadosamente preparada para sua segurança.


9. A biografia também poderá atravessar a alfândega moral

Imagine uma autobiografia em que uma pessoa relata aventuras da juventude:

  • a primeira relação sexual;

  • namoros entre adolescentes;

  • diferenças de idade toleradas na época;

  • festas;

  • drogas;

  • viagens;

  • prostituição;

  • ambientes clandestinos;

  • comportamentos que hoje seriam julgados de outra maneira.

Contar não é necessariamente promover.

Registrar não é repetir.

Descrever um erro não é convidar o leitor a cometê-lo.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal decidiu na ADI 4815 que biografias não dependem de autorização prévia. O STF considerou que exigir autorização constitui censura prévia, sem eliminar eventual responsabilização posterior por abusos. A decisão pode ser consultada no portal do STF.

Mas a censura contemporânea não precisa impedir formalmente a publicação.

Pode fazer algo mais delicado:

  • a editora rejeita o original;

  • a livraria digital restringe a obra;

  • o processador de pagamento recusa o produto;

  • a plataforma limita sua divulgação;

  • o algoritmo marca a capa;

  • o marketplace remove o anúncio;

  • o autor passa anos explicando uma passagem isolada.

O livro continua teoricamente permitido.

Apenas não pode ser vendido, localizado, divulgado nem monetizado.

Uma liberdade muito bem-comportada: existe no papel, desde que ninguém tente exercê-la.


10. O paradoxo da privacidade

Para provar que sou adulto, posso ser obrigado a fornecer mais informações:

  • documento;

  • fotografia;

  • cartão;

  • dado biométrico;

  • número telefônico;

  • conta associada;

  • histórico de pagamento.

Quanto mais desejo preservar minha privacidade, menor se torna minha internet.

A mensagem é simples:

Entregue seus dados para provar que merece privacidade adulta.

É uma construção digna da Marquesa de Merteuil.

A proteção da intimidade exige a exposição da identidade. A segurança obriga o usuário a compartilhar aquilo que deseja proteger. Quem recusa não é tratado como cidadão cuidadoso, mas como perfil incompleto e, portanto, suspeito.

Não quero pagar uma assinatura apenas para demonstrar algo que o calendário prova diariamente desde 1992.

Não quero transformar meu cartão de crédito em certidão de nascimento.

E não aceito a premissa de que o adulto somente adquire autonomia depois de tornar-se cliente premium.


11. A internet não será proibida — será dividida em castas

Talvez não vejamos uma grande muralha digital brasileira. O modelo mais provável é mais discreto.

Teremos diferentes internets:

  • a internet do menor;

  • a internet do adulto não verificado;

  • a internet do adulto identificado;

  • a internet do assinante;

  • a internet do criador monetizado;

  • a internet permitida no Brasil;

  • a internet liberada no Japão;

  • a internet acadêmica;

  • a internet corporativa;

  • a internet que existe, mas não aparece na busca.

Isso não ocorrerá por meio de um único plano central.

Cada lei acrescentará uma pequena restrição.

Cada plataforma adicionará uma margem de segurança.

Cada departamento jurídico recomendará bloquear um pouco mais.

Cada algoritmo cometerá alguns falsos positivos.

Cada usuário perderá um pequeno pedaço.

Quando percebermos, a biblioteca mundial terá sido transformada em um conjunto de salas. Para entrar em cada uma, será necessário apresentar documento, localização, assinatura e uma declaração de bons costumes.

O censor do futuro não perguntará o que você pensa.

Perguntará qual é o seu plano.


12. Proteger crianças não exige infantilizar adultos

É perfeitamente possível defender simultaneamente:

  • combate rigoroso à exploração sexual infantil;

  • remoção rápida de material criminoso;

  • investigação de aliciadores;

  • responsabilização de plataformas negligentes;

  • proteção de dados dos menores;

  • mecanismos de supervisão parental;

  • liberdade artística;

  • preservação histórica;

  • privacidade dos adultos;

  • acesso proporcional;

  • contestação de decisões automatizadas;

  • verificação etária gratuita e minimamente invasiva.

A escolha não precisa ser entre uma internet sem regras e um condomínio digital administrado por um síndico moralista.

O que precisamos é de precisão.

Leis penais devem definir com clareza aquilo que proíbem. Plataformas devem explicar por que restringiram determinada conta. Adultos devem possuir forma gratuita de contestar classificações incorretas. Obras históricas, jornalísticas, artísticas e acadêmicas precisam de salvaguardas claras.

A proteção de crianças não pode funcionar como cheque em branco para vigiar toda a população.

Quando o Estado e as empresas não conseguem distinguir criança de adulto, arte de abuso, arquivo de propaganda e ficção de incentivo, o problema não é falta de tecnologia.

É falta de critério.


Epílogo — O cinquentão perigosamente não assinante

Tenho 52 anos.

Não sou menor de idade, embora o algoritmo mantenha prudente reserva a esse respeito.

Não preciso que uma plataforma escolha quais conversas posso ler. Não preciso que meu cartão de crédito testemunhe em favor da minha maturidade. E certamente não preciso pagar mensalmente para receber a honra de ser reconhecido como adulto.

O Twitter não me proibiu formalmente.

Apenas reduziu meu acesso, ocultou conteúdos e colocou a solução atrás de uma assinatura.

É uma diferença juridicamente importante e humanamente cômica.

O Visconde de Valmont aprovaria. Afinal, as restrições mais elegantes são aquelas em que a vítima precisa pagar para chamá-las de liberdade.

Talvez um dia Ligações Perigosas seja considerado perigoso demais. Talvez Manara precise anexar certidões de nascimento às suas personagens. Talvez Druuna compareça perante um perito para provar que é adulta. Talvez os Miguelitos conquistem representação processual e as mulas recebam medida protetiva.

Até lá, continuarei aqui: cinquentão, brasileiro, colecionador, leitor, usuário da internet desde o tempo dos modems e oficialmente suspeito de juventude excessiva.

Não por parecer jovem.

Mas por não ter assinado.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

🩸 Lista 21 a 30: O Gekiga Contemporâneo e Suas Derivações Modernas

 

Bellacosa Mainframe e o gekiga contemporaneo

🩸 Lista 21 a 30: O Gekiga Contemporâneo e Suas Derivações Modernas

O Gekiga contemporâneo e alternativo representa a evolução moderna de um movimento que revolucionou os quadrinhos japoneses a partir da década de 1950. Criado como uma resposta aos mangás voltados ao público infantil, o Gekiga buscava contar histórias mais realistas, maduras e emocionalmente complexas. Com o passar dos anos, sua influência ultrapassou os limites do mangá e alcançou também os animes.

Nas obras contemporâneas, essa herança pode ser observada em narrativas que exploram temas como alienação, desigualdade social, violência, política, identidade e conflitos psicológicos. Diferentemente das histórias tradicionais de aventura e superação, os trabalhos inspirados pelo Gekiga costumam apresentar personagens imperfeitos, dilemas morais e finais abertos à interpretação.

Animes como Monster, Pluto, Odd Taxi, Kaiji, Texhnolyze, Ergo Proxy, 91 Days, Welcome to the NHK e Aku no Hana demonstram claramente essa influência. Eles priorizam a construção de personagens e a reflexão sobre a condição humana em vez da ação constante.

O Gekiga contemporâneo também valoriza a liberdade artística, permitindo que autores experimentem estilos visuais e estruturas narrativas menos convencionais. Seu legado permanece vivo porque continua oferecendo histórias que desafiam o espectador a pensar, questionar valores e enxergar o mundo por perspectivas diferentes, consolidando-se como uma das correntes mais importantes da cultura japonesa moderna.

Lista



21. Tokyo Godfathers (東京ゴッドファーザーズ)

  • Autor / Diretor: Satoshi Kon

  • Ano: 2003

  • Sinopse: Três moradores de rua encontram um bebê abandonado na véspera de Natal e decidem procurar seus pais.

  • Personagens: Gin, Hana, Miyuki, o Bebê Kiyoko

  • Curiosidades: Inspirado no filme americano Three Godfathers (1948), mas reinterpretado com crítica social japonesa.

  • Comentário: Gekiga urbano e humanista — mistura humor, redenção e denúncia sobre a desigualdade em Tóquio.


22. Monster (モンスター)

  • Autor: Naoki Urasawa

  • Ano: 2004

  • Sinopse: Um neurocirurgião alemão salva a vida de um garoto que se tornará um assassino em série.

  • Personagens: Dr. Kenzo Tenma, Johan Liebert, Nina Fortner

  • Curiosidades: Baseado em temas de culpa, ética médica e trauma da Guerra Fria.

  • Comentário: Um dos maiores exemplos de Gekiga moderno — realismo psicológico, política e dilemas morais.


23. Texhnolyze (テクノライズ)

  • Autor: Yoshitoshi ABe, Chiaki J. Konaka

  • Ano: 2003

  • Sinopse: Em uma cidade subterrânea decadente, humanos substituem membros por próteses biomecânicas enquanto a sociedade desmorona.

  • Personagens: Ichise, Ran, Onishi, Doc

  • Curiosidades: Ritmo lento e introspectivo; poucos diálogos e forte simbolismo.

  • Comentário: Gekiga cyberpunk filosófico — a decomposição da humanidade e da vontade.


24. Serial Experiments Lain (シリアルエクスペリメンツ・レイン)

  • Autor: Yoshitoshi ABe, Chiaki J. Konaka

  • Ano: 1998

  • Sinopse: Uma adolescente tímida descobre um mundo paralelo na rede “Wired”, dissolvendo os limites entre realidade e virtualidade.

  • Personagens: Lain Iwakura, Masami Eiri, Alice

  • Curiosidades: Antecipou discussões sobre internet, IA e identidade digital.

  • Comentário: Um Gekiga digital — existencialismo e isolamento em tempos de conectividade.


25. Paranoia Agent (妄想代理人)

  • Autor / Diretor: Satoshi Kon

  • Ano: 2004

  • Sinopse: Um misterioso garoto de patins ataca pessoas estressadas, revelando os delírios coletivos de uma cidade.

  • Personagens: Shōnen Bat (Lil' Slugger), Tsukiko Sagi, Keiichi Ikari

  • Curiosidades: Cada episódio é uma metáfora sobre alienação urbana e mídia.

  • Comentário: Uma das obras mais “gekiga” da TV — realismo psicológico travestido de surrealismo.


26. Legend of the Galactic Heroes (銀河英雄伝説)

  • Autor: Yoshiki Tanaka

  • Ano: 1988

  • Sinopse: Dois gênios militares travam uma guerra interestelar que questiona política, ética e história.

  • Personagens: Reinhard von Lohengramm, Yang Wen-li, Kircheis

  • Curiosidades: 110 episódios; debates longos sobre democracia, poder e moral.

  • Comentário: Um Gekiga épico — Shakespeare e Maquiavel no espaço.


27. Human Crossing (人間交差点 / Ningen Kōsaten)

  • Autor: Masao Yajima, Kenshi Hirokane

  • Ano: 2003

  • Sinopse: Antologia de histórias realistas sobre pessoas comuns e suas escolhas morais.

  • Personagens: Variados em cada episódio

  • Curiosidades: Inspirado em casos reais; cada episódio é uma “crônica social animada”.

  • Comentário: Gekiga puro — o drama cotidiano e silencioso da vida urbana.


28. Rainbow: Nisha Rokubou no Shichinin (RAINBOW 二舎六房の七人)

  • Autor: George Abe, Masasumi Kakizaki

  • Ano: 2005

  • Sinopse: Sete jovens em um reformatório japonês dos anos 1950 enfrentam abusos e buscam esperança.

  • Personagens: Mario, Joe, Anchan, Heitai

  • Curiosidades: Baseado em experiências reais do autor; denúncia do sistema prisional.

  • Comentário: Gekiga social intenso — fraternidade e trauma em meio à desesperança pós-guerra.


29. Shoujo Tsubaki / Midori: The Camellia Girl (少女椿)

  • Autor: Suehiro Maruo

  • Ano: 1992

  • Sinopse: Uma garota órfã é explorada em um circo grotesco repleto de aberrações e violência.

  • Personagens: Midori, o Mago Arashi, o Anão Masamitsu

  • Curiosidades: Adaptação independente em Ero Guro (erótico grotesco); censurado no Japão.

  • Comentário: Um dos Gekiga mais extremos — crueldade e inocência em conflito estético.


30. Akudama Drive (アクダマドライブ)

  • Autor: Kazutaka Kodaka (conceito)

  • Ano: 2020

  • Sinopse: Criminosos de elite enfrentam um regime totalitário em uma metrópole cyberpunk.

  • Personagens: Courier, Swindler, Brawler, Hacker

  • Curiosidades: Produção do Studio Pierrot com estética neon noir.

  • Comentário: O Gekiga renascido na era digital — violência estilizada e crítica à desumanização tecnológica.


📚 Conclusão:

O Gekiga começou como uma revolta artística contra o entretenimento infantil dos mangás dos anos 1950 e hoje é um pilar da animação adulta e do realismo japonês.
De Golgo 13 a Akudama Drive, sua influência persiste em temas como:

  • Existencialismo e moralidade cinza

  • Crítica à sociedade moderna

  • Erotismo e violência como linguagem simbólica

  • Estilo cinematográfico e psicológico

domingo, 25 de janeiro de 2026

🩸 Lista de 20 Animes do Movimento Gekiga ou Fortemente Inspirados

 

Bellacosa Mainframe e o movimento Gekiga

O movimento Gekiga surgiu no Japão no final dos anos 1950 como uma alternativa aos mangás infantis e humorísticos que dominavam o mercado. O termo, criado por Yoshihiro Tatsumi, significa algo próximo de "imagens dramáticas", refletindo histórias mais maduras, realistas e psicológicas. Em vez de heróis idealizados, o Gekiga explorava pessoas comuns enfrentando solidão, violência, desigualdade social, crises existenciais e os dilemas da vida adulta.

Embora o Gekiga tenha nascido nos mangás, sua influência alcançou diversos animes ao longo das décadas. Obras como Ashita no Joe, Golgo 13, Monster, Texhnolyze, Perfect Blue, Jin-Roh, Serial Experiments Lain, Ergo Proxy, Kaiji, Rainbow, Paranoia Agent, Aku no Hana, Shigurui, Mushishi, The Tatami Galaxy, Welcome to the NHK, Odd Taxi, Pluto, Black Lagoon e 91 Days carregam elementos característicos do movimento.

Esses animes costumam apresentar narrativas densas, personagens moralmente ambíguos, crítica social e uma atmosfera muitas vezes melancólica. Muitos abandonam a estrutura tradicional de heróis e vilões, preferindo explorar as contradições humanas e as consequências das escolhas individuais.

Mais do que um gênero, o Gekiga representa uma filosofia narrativa. Seu legado continua vivo em obras que desafiam o espectador a refletir sobre a sociedade, a natureza humana e as zonas cinzentas entre o certo e o errado.

🩸 Lista de 20 Animes do Movimento Gekiga ou Fortemente Inspirados



1. Ashita no Joe (あしたのジョー)

  • Autor: Asao Takamori (roteiro), Tetsuya Chiba (arte)

  • Ano: 1970

  • Sinopse: Um jovem delinquente encontra no boxe uma forma de redenção e propósito.

  • Personagens: Joe Yabuki, Danpei Tange, Rikiishi Tōru

  • Curiosidades: Foi fenômeno social no Japão; o funeral simbólico de Rikiishi teve milhares de “fãs enlutados”.

  • Comentário: Símbolo máximo do realismo emocional e da tragédia humana no Gekiga.


2. Lupin the Third (ルパン三世)

  • Autor: Monkey Punch

  • Ano: 1971

  • Sinopse: O neto do lendário ladrão Arsène Lupin vive aventuras de roubo, sedução e perseguição.

  • Personagens: Lupin III, Daisuke Jigen, Goemon Ishikawa XIII, Fujiko Mine, Inspetor Zenigata

  • Curiosidades: Mistura humor e erotismo com temas noir e de crime — um Gekiga disfarçado.

  • Comentário: Introduziu estética adulta ao anime de ação e espionagem.


3. Golgo 13 (ゴルゴ13)

  • Autor: Takao Saito

  • Ano: 1983 (filme) / 2008 (série)

  • Sinopse: O assassino de elite Duke Togo realiza missões letais ao redor do mundo.

  • Personagens: Duke Togo / Golgo 13

  • Curiosidades: Uma das séries mais longas do Japão; Takao Saito fundou o “Gekiga Kobo” em 1959.

  • Comentário: Essência pura do Gekiga — frieza, política e moralidade ambígua.


4. Black Jack (ブラック・ジャック)

  • Autor: Osamu Tezuka

  • Ano: 1993

  • Sinopse: Um cirurgião genial, mas sem licença, ajuda pacientes por altos preços.

  • Personagens: Black Jack, Pinoko, Dr. Kiriko

  • Curiosidades: Tezuka, pioneiro do mangá infantil, criou Black Jack inspirado pelo Gekiga.

  • Comentário: Conecta idealismo médico e dilemas éticos adultos — uma virada séria no legado de Tezuka.


5. Devilman (デビルマン)

  • Autor: Go Nagai

  • Ano: 1972

  • Sinopse: Um jovem se funde com um demônio para lutar contra outros demônios — e contra a humanidade.

  • Personagens: Akira Fudou, Ryo Asuka, Miki Makimura

  • Curiosidades: Mistura horror, filosofia e niilismo; influenciou Evangelion e Berserk.

  • Comentário: Gekiga apocalíptico; crítica brutal à guerra e à intolerância.


6. Akira (アキラ)

  • Autor: Katsuhiro Otomo

  • Ano: 1988

  • Sinopse: Em uma Tóquio pós-apocalíptica, jovens motociclistas se envolvem em conspirações psíquicas.

  • Personagens: Kaneda, Tetsuo, Kei

  • Curiosidades: Marco do anime adulto no Ocidente; animação revolucionária para a época.

  • Comentário: O ápice visual e temático do Gekiga cyberpunk.


7. Barefoot Gen (はだしのゲン)

  • Autor: Keiji Nakazawa

  • Ano: 1983

  • Sinopse: A história de um menino que sobrevive à bomba atômica em Hiroshima.

  • Personagens: Gen Nakaoka, Kimie, Daikichi

  • Curiosidades: Baseado nas experiências reais do autor.

  • Comentário: Um dos mais poderosos manifestos antibelicistas da história da animação.


8. Ningen Konchūki (人間昆虫記)

  • Autor: Osamu Tezuka

  • Ano: 2011 (adaptação live-action com estética anime noir)

  • Sinopse: Uma mulher que “se metamorfoseia” para sobreviver em uma sociedade corrupta.

  • Personagens: Toshiko Tomura

  • Curiosidades: Inspirado pelo existencialismo europeu.

  • Comentário: Um dos trabalhos mais “gekiga” de Tezuka, com erotismo e crítica de gênero.


9. Lady Snowblood (修羅雪姫)

  • Autor: Kazuo Koike, Kazuo Kamimura

  • Ano: 1973 (filme animado em estilo experimental)

  • Sinopse: Mulher busca vingança pelo estupro e assassinato de sua família.

  • Personagens: Yuki Kashima

  • Curiosidades: Inspirou Kill Bill de Tarantino.

  • Comentário: Estética violenta e poética — puro espírito gekiga.


10. Crying Freeman (クライング・フリーマン)

  • Autor: Kazuo Koike, Ryoichi Ikegami

  • Ano: 1988

  • Sinopse: Um assassino de uma organização chinesa chora a cada morte que comete.

  • Personagens: Yo Hinomura, Emu Hino

  • Curiosidades: Mistura arte erótica e ação cinematográfica.

  • Comentário: Realismo anatômico e dilema moral — um Gekiga estilizado.


11. Hokuto no Ken (北斗の拳)

  • Autor: Buronson, Tetsuo Hara

  • Ano: 1984

  • Sinopse: Um guerreiro pós-apocalíptico luta pela justiça em um mundo devastado.

  • Personagens: Kenshiro, Raoh, Rei

  • Curiosidades: Inspirado em Bruce Lee e Mad Max.

  • Comentário: Violência e honra — Gekiga em forma de épico shōnen.


12. Violence Jack (バイオレンスジャック)

  • Autor: Go Nagai

  • Ano: 1986

  • Sinopse: Um homem brutal luta pela sobrevivência em um Japão destruído.

  • Personagens: Jack, Slum Queen, Ken

  • Curiosidades: Antecessor espiritual de Fist of the North Star.

  • Comentário: Exemplo extremo de Gekiga apocalíptico.


13. Akagi (アカギ)

  • Autor: Nobuyuki Fukumoto

  • Ano: 2005

  • Sinopse: Um gênio do mahjong aposta sua vida em jogos mortais.

  • Personagens: Shigeru Akagi, Washizu Iwao

  • Curiosidades: Adaptação de mangá gekiga sobre psicologia e sorte.

  • Comentário: Minimalista e tenso — a essência da frieza existencial.


14. Kaiji (逆境無頼カイジ)

  • Autor: Nobuyuki Fukumoto

  • Ano: 2007

  • Sinopse: Um homem endividado entra em jogos de azar que colocam sua vida em risco.

  • Personagens: Kaiji Itō, Hyōdō Kazutaka

  • Curiosidades: Popularizou o “psicodrama de desespero” no anime moderno.

  • Comentário: O Gekiga renascido na era pós-bolha japonesa.


15. Shigurui (シグルイ)

  • Autor: Takayuki Yamaguchi (baseado em Nanjō Norio)

  • Ano: 2007

  • Sinopse: Duas escolas de samurais mergulham em loucura e mutilação.

  • Personagens: Fujiki Gennosuke, Irako Seigen

  • Curiosidades: Notório pela brutalidade hiper-realista.

  • Comentário: Gekiga histórico e niilista em sua forma mais pura.


16. Redline (レッドライン)

  • Autor: Takeshi Koike

  • Ano: 2009

  • Sinopse: Corrida intergaláctica onde estilo e risco se misturam.

  • Personagens: JP, Sonoshee McLaren

  • Curiosidades: Produzido em 7 anos, desenhado quadro a quadro.

  • Comentário: Estética Gekiga moderna — velocidade, suor e sangue.


17. Angel’s Egg (天使のたまご)

  • Autor: Mamoru Oshii, Yoshitaka Amano

  • Ano: 1985

  • Sinopse: Uma garota protege um ovo misterioso em um mundo desolado.

  • Personagens: A Garota, O Soldado

  • Curiosidades: Simbolismo religioso e existencial — quase sem diálogo.

  • Comentário: Poesia Gekiga surrealista.


18. Aoi Bungaku (青い文学)

  • Autor: Vários (Dazai, Akutagawa, Sakaguchi, entre outros)

  • Ano: 2009

  • Sinopse: Adaptações de clássicos literários japoneses.

  • Personagens: Vários protagonistas literários

  • Curiosidades: Mistura literatura realista com estética Gekiga.

  • Comentário: Reinterpretação sofisticada do realismo psicológico japonês.


19. Jin-Roh: The Wolf Brigade (人狼)

  • Autor: Mamoru Oshii

  • Ano: 1999

  • Sinopse: Soldado da polícia secreta se apaixona por irmã de uma terrorista.

  • Personagens: Kazuki Fuse, Kei

  • Curiosidades: Parte do universo Kerberos Saga.

  • Comentário: Realismo político e tragédia — Gekiga animado de forma magistral.


20. Perfect Blue (パーフェクトブルー)

  • Autor: Yoshikazu Takeuchi (livro), dir. Satoshi Kon

  • Ano: 1997

  • Sinopse: Cantora idol mergulha em psicose após tentar virar atriz.

  • Personagens: Mima Kirigoe, Rumi

  • Curiosidades: Inspirou “Cisne Negro” e “Inland Empire”.

  • Comentário: Psicológico, voyeurístico e adulto — um Gekiga moderno.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

☕🚀 O QUE ANIMES, QUADRINHOS, CENSURA E A INQUISIÇÃO TÊM EM COMUM? UMA VIAGEM PELA PSICOLOGIA HUMANA

Bellacosa Mainframe e a censura nos animes

☕🚀 O QUE ANIMES, QUADRINHOS, CENSURA E A INQUISIÇÃO TÊM EM COMUM? UMA VIAGEM PELA PSICOLOGIA HUMANA

Ao longo das últimas semanas me peguei refletindo sobre um tema aparentemente simples.

Tudo começou com uma notícia sobre tentativas de aumentar controles e restrições sobre determinados animes e mangás japoneses.

Nada de novo.

Quando eu era adolescente, o alvo eram os quadrinhos.

Antes dos quadrinhos, foram os romances populares.

Depois vieram os videogames.

Mais tarde a internet.

Agora os animes.

A cada geração parece surgir uma nova ameaça capaz de destruir a juventude, corromper a sociedade e colocar em risco a civilização.

A pergunta que me veio à mente foi simples:

Por que a humanidade repete esse comportamento há séculos?

Ao investigar essa questão acabamos entrando em um território fascinante que mistura psicologia, sociologia, política, religião e até arqueologia cultural.

Prepare seu café.

A viagem é longa.

☕ A ILUSÃO DE QUE O PROBLEMA ESTÁ SEMPRE NO OBJETO

Quando eu tinha cerca de 15 anos, andar com quadrinhos debaixo do braço era motivo para receber conselhos não solicitados.

Sempre aparecia alguém dizendo:

"Você deveria ler livros de verdade."

O curioso é que eu lia livros.

Muitos livros.

Mas isso não importava.

O quadrinho era visto como um símbolo de atraso intelectual.

Décadas depois, muitos daqueles mesmos quadrinhos são estudados em universidades.

O que mudou?

Os quadrinhos ficaram mais inteligentes?

Ou fomos nós que mudamos nossa percepção?

A resposta nos leva a um fenômeno conhecido na psicologia social como Pânico Moral.

☕ O QUE É PÂNICO MORAL?

O pânico moral ocorre quando uma sociedade identifica um fenômeno novo e passa a enxergá-lo como uma ameaça exagerada aos seus valores.

A lista histórica é impressionante:

  • Romances populares

  • Cinema

  • Rádio

  • Rock and Roll

  • Histórias em quadrinhos

  • RPG

  • Heavy Metal

  • Videogames

  • Internet

  • Redes sociais

  • Animes

O padrão é quase sempre idêntico.

Uma geração mais velha observa um hábito que não compreende completamente.

Surge então a suspeita:

"Isso está estragando os jovens."

Décadas depois, aquilo se torna normal.

Então aparece um novo alvo.

☕ A REATÂNCIA PSICOLÓGICA: O EFEITO DO FRUTO PROIBIDO

Existe uma teoria fascinante proposta pelo psicólogo Jack Brehm chamada Reatância Psicológica.

Ela afirma que quando percebemos que alguém está tentando restringir nossa liberdade, surge um impulso natural para recuperar essa liberdade.

Em termos simples:

Quanto mais tentam proibir algo, mais interessante aquilo se torna.

Esse mecanismo explica o famoso Efeito Streisand.

Quando uma informação é censurada, ela frequentemente se torna mais popular.

O mesmo acontece com livros proibidos, músicas censuradas, filmes vetados e animes controversos.

O cérebro humano possui uma curiosidade quase irresistível pelo proibido.

☕ CORRELAÇÃO NÃO É CAUSALIDADE

Uma das armadilhas mais comuns do pensamento humano é confundir correlação com causalidade.

Se alguém que cometeu um crime assistia filmes violentos, surge a conclusão:

"Os filmes causaram o crime."

Mas essa lógica possui um problema enorme.

Milhões de pessoas assistem exatamente os mesmos filmes e jamais cometem qualquer ato violento.

O mesmo vale para:

  • Animes

  • Jogos

  • Livros

  • Música

A realidade costuma ser muito mais complexa.

Eventos humanos raramente possuem uma única causa.

Massacres, violência e radicalização normalmente envolvem fatores psicológicos, familiares, econômicos, culturais e sociais simultaneamente.

Mas nosso cérebro prefere explicações simples.

E é aí que surgem os bodes expiatórios.

☕ O MECANISMO DO BODE EXPIATÓRIO

Talvez uma das descobertas mais desconfortáveis da psicologia social seja esta:

Seres humanos possuem uma enorme tendência a procurar culpados.

Quando algo dá errado, buscamos alguém para responsabilizar.

É um comportamento ancestral.

Uma colheita fracassou.

Uma epidemia apareceu.

A economia entrou em crise.

Quem é o culpado?

A busca por culpados produz uma sensação temporária de controle.

Mesmo que a explicação seja falsa.

Esse mecanismo aparece repetidamente na história.

☕ DA INQUISIÇÃO ÀS REDES SOCIAIS

Quando estudamos a Inquisição encontramos algo surpreendente.

As vítimas raramente representavam uma ameaça real.

Judeus.

Mouros.

Hereges.

Parteiras.

Mulheres idosas.

Pessoas diferentes.

A grande pergunta é:

Por que eram consideradas tão perigosas?

Porque o medo coletivo amplifica ameaças.

Quando uma sociedade acredita estar enfrentando um perigo existencial, qualquer diferença pode parecer uma ameaça.

A psicologia das multidões transforma suspeitas em certezas.

E certezas em perseguições.

A tecnologia mudou.

A natureza humana nem tanto.

☕ O PODER DOS GRUPOS

Outra teoria importante é a Teoria da Identidade Social.

Ela explica nossa tendência de dividir o mundo em:

"Nós"

e

"Eles"

Essa divisão surge naturalmente.

Meu time.

Minha religião.

Meu partido.

Minha comunidade.

Meu país.

Não há nada de errado nisso.

O problema surge quando passamos a acreditar que:

"Nós somos legítimos."

"Eles são o problema."

É exatamente nesse ponto que conflitos sociais começam a crescer.

☕ A TIRANIA DA MAIORIA

Quando pensamos em regimes autoritários normalmente imaginamos ditadores.

Mas filósofos como Alexis de Tocqueville identificaram outro perigo.

A tirania da maioria.

Imagine uma sociedade dividida em dois grupos.

51% contra 49%.

Se os 51% puderem impor tudo aos demais, a democracia continua existindo apenas no papel.

É por isso que surgiram:

  • Constituições

  • Direitos fundamentais

  • Liberdade religiosa

  • Liberdade de expressão

Esses mecanismos não existem para proteger opiniões populares.

Existem para proteger opiniões impopulares.

☕ O DILEMA DA CENSURA

Toda censura nasce de uma justificativa.

Sempre.

Proteger a moral.

Proteger as crianças.

Proteger a sociedade.

Proteger a segurança nacional.

O problema raramente está na intenção inicial.

O problema está na pergunta seguinte:

Quem decide?

Quem recebe o poder de determinar o que pode ser lido?

O que pode ser assistido?

O que pode ser publicado?

A história mostra que essa pergunta é mais importante do que a justificativa utilizada.

Porque governos mudam.

Ideologias mudam.

Maiorias mudam.

Mas os mecanismos de controle permanecem.

☕ O JAPÃO, OS ANIMES E UMA CONTRADIÇÃO INTERESSANTE

Muitas críticas modernas aos animes partem da ideia de que obras violentas produzem comportamentos violentos.

Mas a realidade apresenta um quadro mais complexo.

O Japão produz algumas das obras mais violentas e sombrias da cultura popular moderna.

Ainda assim apresenta índices de violência muito inferiores aos de diversos países ocidentais.

Isso não prova que a mídia não influencia ninguém.

Mas demonstra que explicações simplistas raramente funcionam.

O comportamento humano é multifatorial.

E talvez essa seja uma das palavras mais importantes da psicologia moderna:

Multifatorial.

☕ O SER HUMANO É UMA MÁQUINA DE NARRATIVAS

Existe uma razão pela qual gostamos tanto de histórias.

Nosso cérebro foi moldado para compreender o mundo através delas.

Mitologias.

Religiões.

Romances.

Quadrinhos.

Animes.

Filmes.

Todas essas formas narrativas servem para explorar medos, sonhos e conflitos humanos.

Quando alguém lê Berserk, assiste Attack on Titan ou acompanha um drama psicológico, não está necessariamente procurando um modelo de comportamento.

Muitas vezes está explorando simbolicamente aspectos da condição humana.

☕ O ARQUEÓLOGO DE 2526

Durante uma conversa surgiu uma hipótese divertida.

Imagine um arqueólogo vivendo daqui a 500 anos.

Ele encontra:

  • Garrafas de Coca-Cola

  • Smartphones

  • Mangás

  • Bonecos de Pokémon

  • Estatuetas de Goku

O que ele concluiria?

Talvez que esses símbolos possuíam enorme importância cultural.

E provavelmente estaria correto.

Assim como estudamos vasos gregos e moedas romanas, futuros historiadores talvez estudem Pikachu, Mario e Goku para compreender o século XXI.

Isso mostra algo fascinante.

Os objetos culturais frequentemente sobrevivem mais do que os debates sobre eles.

As críticas desaparecem.

Os símbolos permanecem.

☕ UMA LIÇÃO DE HUMILDADE HISTÓRICA

Talvez a maior lição de toda essa jornada seja a humildade.

Quase todas as gerações acreditaram ter identificado uma ameaça cultural devastadora.

Quase todas estavam convencidas.

E quase todas erraram em algum grau.

Os quadrinhos não destruíram a juventude.

O rock não destruiu a juventude.

Os videogames não destruíram a juventude.

A internet certamente trouxe problemas reais, mas também transformou o acesso ao conhecimento.

Os animes provavelmente seguirão caminho semelhante.

Isso não significa que devemos abandonar o pensamento crítico.

Significa apenas reconhecer que o medo coletivo frequentemente exagera ameaças.

☕ CONCLUSÃO

Depois de décadas observando tecnologia, sociedade e comportamento humano, cheguei a uma conclusão simples.

As ferramentas mudam.

Os medos mudam.

Os alvos mudam.

Mas os mecanismos psicológicos permanecem surpreendentemente estáveis.

Continuamos formando tribos.

Continuamos procurando culpados.

Continuamos desconfiando do novo.

Continuamos acreditando que nossa geração finalmente descobriu o verdadeiro problema.

Talvez por isso estudar psicologia seja tão fascinante.

No fundo, ela não fala apenas sobre indivíduos.

Ela fala sobre nós.

Sobre nossas esperanças.

Nossos medos.

Nossas certezas.

E principalmente sobre nossa incrível capacidade de repetir os mesmos padrões ao longo dos séculos.

Da próxima vez que alguém disser que uma nova forma de cultura está destruindo a civilização, talvez valha a pena fazer uma pausa e lembrar:

Alguém já disse exatamente a mesma coisa sobre os quadrinhos que eu carregava debaixo do braço quando tinha 15 anos.


sábado, 11 de maio de 2024

Los 3 Amigos — Quando Três Cartunistas Entraram num Saloon e Saíram Quatro

 

Bellacosa Mainframe apresenta Los 3 amigos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Los 3 Amigos — Quando Três Cartunistas Entraram num Saloon e Saíram Quatro

Ou: Angeli teve uma ideia, Laerte trouxe o cérebro, Glauco apareceu com a dinamite, Adão entrou sem ninguém atualizar o nome da equipe — e o México nunca mais se recuperou

Pegue o café.

Hoje não adianta trazer espresso gourmet servido numa xícara minimalista de porcelana japonesa.

Precisamos de café de firma.

Aquele café preto que ficou quarenta minutos na garrafa térmica, adquiriu personalidade própria e provavelmente já pode pedir CPF.

Porque vamos voltar para uma época maravilhosa dos quadrinhos brasileiros na qual ninguém tinha social media manager, ninguém falava em personal branding, ninguém perguntava se determinada piada estava alinhada à estratégia omnichannel da organização.

O sujeito simplesmente tinha uma ideia.

Desenhava.

Entregava.

E esperava alguém reclamar.

Nosso destino é o Viejo México.

Mais precisamente algum lugar miserável entre Marisales, Gran El Piso e o Deserto de Plegas Ardientes.

Ali vivem três mexicanos.

Quer dizer...

Quatro.

Mas o nome continua sendo:

Los 3 Amigos

Não tente corrigir.

É como descobrir que aquele sistema chamado NOVO_FATURAMENTO está rodando em produção desde 1987.

Você simplesmente aceita.



🌵 1. Antes de tudo: quem diabos eram Los 3 Amigos?

A resposta curta:

Angeli, Laerte e Glauco.

A resposta tecnicamente correta:

Angel Villa, Laertón e Glauquito.

A resposta posteriormente correta:

Angel Villa, Laertón, Glauquito e Adón.

Sim.

Los 3 Amigos eram quatro.

A literatura francesa já havia preparado o terreno, porque Os Três Mosqueteiros também acabaram funcionando como quatro com a chegada de D'Artagnan.

Os brasileiros apenas perceberam que atualizar documentação depois de colocar um componente novo em produção dá trabalho.

Segundo a própria história registrada pela Folha de S.Paulo, Laerte e Angeli já se conheciam desde 1972, quando colaboravam com a revista Balão. Glauco entrou nessa confraria alguns anos depois, após encontrá-los num Salão de Humor de Piracicaba.

Portanto, antes de Los 3 Amigos existir como quadrinho, os três amigos já existiam.

E isso é importante.

Porque a série não nasceu simplesmente de três profissionais contratados para desenvolver personagens.

Nasceu de amizade.

De convivência.

De cartunistas conhecendo as manias uns dos outros.

E principalmente daquela capacidade perigosíssima que amigos possuem de transformar os defeitos do companheiro em patrimônio cultural.



🎬 2. O bug começou com John Landis

Em 1986 estreou a comédia cinematográfica ¡Three Amigos!, dirigida por John Landis e estrelada por Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short.

Angeli viu aquilo.

E algum neurônio que deveria estar supervisionado pelo departamento jurídico decidiu trabalhar sozinho.

A ideia inicial teria sido relativamente inocente:

fazer uma capa comemorativa da Chiclete com Banana, mostrando Angeli, Laerte e Glauco vestidos como mexicanos.

Pronto.

Acabava ali.

Era uma capa.

Só que existe um princípio fundamental da engenharia de software:

Nunca coloque em produção uma piada que possa adquirir vida própria.

A brincadeira funcionou.


Os personagens começaram a ganhar histórias.

E nasceram:

Angel Villa, alter ego de Angeli.

Laertón, versão mexicana de Laerte.

Glauquito, manifestação radioativa de Glauco.

A série apareceu na Chiclete com Banana no fim dos anos 1980; fontes registram sua estreia na revista em 1987, enquanto a própria Folha situava a criação em 1986.

Não é uma contradição particularmente dramática.

É arqueologia de quadrinhos brasileiros.

Datas naquela época às vezes funcionavam como documentação de programa COBOL:

alguém sabe que existe.

Só precisamos encontrar onde guardaram.


🍌 3. Chiclete com Banana: o datacenter onde nasceu a confusão

Para entender Los 3 Amigos é preciso entender a Chiclete com Banana.

A revista surgiu em meados dos anos 1980 dentro da extraordinária experiência editorial da Circo Editorial, comandada por Toninho Mendes.

E aquilo não era simplesmente uma revista em quadrinhos.

Era praticamente um vazamento radioativo da cultura urbana brasileira.

Angeli estava ali.

Laerte estava ali.

Glauco estava ali.

Luiz Gê estava por perto.

Fernando Gonsales fazia parte daquele universo.

E uma geração inteira percebeu que quadrinho brasileiro não precisava obrigatoriamente significar aventura infantil, super-herói importado ou personagem bonitinho vendendo lancheira.

Podia falar de:

sexo,

drogas,

política,

neurose,

cidade,

fracasso,

contracultura,

solidão,

hipocrisia,

ressaca,

e daquele cidadão que acordou domingo às duas da tarde sem saber exatamente onde deixou a dignidade na noite anterior.

A Circo tornou-se um dos grandes polos do humor gráfico brasileiro pós-Pasquim. Toninho Mendes posteriormente descreveu aquele período como um momento em que os autores tinham muita coisa para criticar, observar e — usando uma palavra bastante adequada ao espírito da casa — sacanear.

Los 3 Amigos são filhos legítimos desse ambiente.

Ou ilegítimos.

Provavelmente ilegítimos.

Combina mais.



🕶️ 4. Angeli — o sysadmin da decadência urbana

Arnaldo Angeli Filho nasceu em São Paulo em 1956.

Publicou seu primeiro desenho ainda adolescente e acabaria se tornando durante décadas um dos grandes nomes do cartum brasileiro e da própria Folha de S.Paulo.

Mas apresentar Angeli apenas como cartunista é quase injusto.

Angeli era um catalogador de tipos humanos.

Ele olhava para São Paulo e encontrava personagens no meio da fumaça.

Rê Bordosa.

Bob Cuspe.

Wood & Stock.

Os Skrotinhos.

Bibelô.

Walter Ego.

Cada personagem parecia resultado de uma query executada diretamente no banco de dados das neuroses paulistanas.

Rê Bordosa era a ressaca de uma geração.

Bob Cuspe era o punk transformado em cusparada gráfica.

Wood & Stock eram dois sobreviventes da contracultura descobrindo que Woodstock acabou, os cabelos embranqueceram e alguém precisa verificar o colesterol.

Angeli possuía uma característica essencial para Los 3 Amigos:

autoironia.

Porque Angel Villa não é exatamente uma homenagem majestosa ao próprio criador.

É Angeli permitindo que Angeli seja ridicularizado por Angeli.

Esse detalhe une boa parte do trabalho dos três autores. Uma análise da Folha sobre aquela geração observou justamente essa tendência: em vez de apenas rir dos outros, Angeli, Glauco e Laerte frequentemente faziam de si mesmos o alvo.

Isso muda tudo.

O cartunista não fica acima da piada.

Ele entra nela.

Fecha a porta.

E alguém joga a chave fora.



🧠 5. Laerte — a pessoa que colocou um compilador Lisp dentro do saloon

Se Angeli observava a decadência urbana, Laerte parecia perguntar:

— Tudo bem, mas e se o universo inteiro estiver errado?

Laerte Coutinho nasceu em São Paulo em 1951 e se tornou uma das figuras fundamentais dos quadrinhos brasileiros.

Piratas do Tietê.

Overman.

Gato e Gata.

Suriá.

Fagundes.

E dezenas de experimentações gráficas e narrativas.

O humor de Laerte frequentemente possui uma característica maravilhosa:

você ri.

Depois pensa.

Depois percebe que talvez não tenha entendido.

Depois entende.

E então fica preocupado.

É quase uma exceção NullPointerException filosófica.

Laerte consegue pegar uma situação banal, deslocar uma pequena variável e criar um universo completamente absurdo que, cinco segundos depois, parece assustadoramente lógico.

Nos Los 3 Amigos, Laertón carregava inevitavelmente essa assinatura.

Mas existe outra característica interessante.

Os três tinham estilos muito diferentes.

E mesmo assim desenhavam juntos.

A própria Folha observou que a amizade pessoal entre Laerte, Glauco e Angeli não apagava as diferenças enormes de estilo entre eles.

Isso deveria resultar num desastre.

E resultava.

Só que num desastre maravilhoso.



💣 6. Glauco — DELETE FROM realidade WHERE bom_senso = 1

Então chegamos a Glauco Villas Boas.

Criador do Geraldão.

E aqui qualquer tentativa de explicar delicadamente o humor de Glauco provavelmente termina em fracasso.

Geraldão era grosso.

Exagerado.

Grotesco.

Impulsivo.

Sexual.

Absurdo.

Era como se alguém tivesse removido todas as verificações de consistência antes de executar o programa.

Glauco tinha uma capacidade extraordinária de produzir movimento com poucos traços.

O desenho parecia estar sempre prestes a escapar do quadrinho.

Geraldão não entrava numa situação.

Ele colidia com ela.

Essa energia passou naturalmente para Glauquito.

Se Angel Villa carregava a acidez de Angeli e Laertón podia introduzir o absurdo conceitual de Laerte, Glauquito parecia perfeitamente capaz de entrar numa igreja carregando dinamite apenas porque confundiu a porta.

E provavelmente sairia culpando os outros.

Glauco morreria tragicamente em março de 2010, assassinado junto com seu filho Raoni, encerrando brutalmente a trajetória de um dos cartunistas mais singulares do Brasil.

Mas Geraldão, Glauquito e aquela linha aparentemente simples continuam imediatamente reconhecíveis.

Há artistas cujo desenho você identifica pela assinatura.

Glauco você reconhece antes de procurar a assinatura.



🐎 7. Como três pessoas desenham a mesma história sem chamar o Scrum Master?

Agora vem uma das partes mais deliciosas.

Como Los 3 Amigos era produzido?

Toninho Mendes descreveu o processo.

Os três se reuniam durante algumas horas, rabiscavam, discutiam e desenvolviam a história juntos.

Depois começava uma espécie de Git gráfico décadas antes de Git existir.

Em certas histórias, Glauco desenhava seus personagens e passava o trabalho para Angeli.

Angeli acrescentava sua parte.

Laerte podia finalizar.

Em outros casos, especialmente quando o cenário exigia mais trabalho, a ordem podia mudar.

Pense nisso.

Hoje teríamos:

los-amigos-final.ai

los-amigos-final-v2.ai

los-amigos-final-agora-vai.ai

los-amigos-final-aprovado-laerte.ai

los-amigos-final-aprovado-laerte-angeli.ai

los-amigos-FINAL-MESMO.ai

Na época?

Papel.

Caneta.

Mesa.

Café.

Provavelmente alguma substância que o compliance moderno preferiria não catalogar.

E confiança.

Um autor literalmente desenhava sobre o trabalho do outro.

Era integração contínua.

Continuous Illustration.



🌮 8. Viejo México: uma infraestrutura completamente fora de suporte

Los 3 Amigos não viviam exatamente no México.

Viviam no Viejo México.

Isso é diferente.

O Viejo México era uma espécie de western spaghetti que caiu do caminhão, passou três dias no deserto, perdeu documentos e resolveu abrir um bar.

Havia lugares como Marisales.

Gran El Piso.

Deserto de Plegas Ardientes.

Sombreros.

Tequila.

Bandidos.

Confusiones.

E os Miguelitos, pequenas criaturas infernais cuja principal função narrativa parecia ser demonstrar que crianças também podem funcionar como ataque distribuído de negação de serviço.

DDoS de sombrero.

O cenário mexicano permitia aos autores fazer algo muito inteligente.

Criavam distância.

Não estavam falando diretamente de São Paulo.

Mas estavam.

Não estavam falando diretamente do Brasil.

Mas estavam.

Não estavam falando diretamente das próprias vidas.

Mas obviamente estavam.

O Viejo México era uma sandbox.

Podia receber violência cartunesca, política, sexo, drogas, machismo, fracasso, amizade e completa ausência de dignidade.

Tudo entrava.

Nada precisava sair funcionando.



🤠 9. Então chegou Adão e ninguém atualizou o README

Em 1994 acontece uma maravilha administrativa.

Chega Adão Iturrusgarai.

Cartunista gaúcho, criador de personagens como Aline, Adão já orbitava aquele universo e acabou incorporado oficialmente à turma.

Nasceu:

Adón.

Agora eram quatro.

Nome da série?

Los 3 Amigos.

Perfeito.

Não mexe.

Está funcionando.

Adão era o D'Artagnan da equipe.

Uma reportagem de 1998 chegou a brincar exatamente com a comparação aos quatro mosqueteiros e descreveu o grupo como quatro autores compondo coletivamente algo próximo de um “cartunista perfeito”.

A entrada de Adão também mostra algo importante:

Los 3 Amigos nunca foram apenas uma propriedade intelectual rigidamente planejada.

Era uma turma.

Uma mesa de bar transformada em método editorial.

Adão chegou.

Sentou.

Pegou a caneta.

Pronto.

Deploy concluído.



📰 10. Do underground para a Folha

A coisa cresceu.

Los 3 Amigos deixaram o território relativamente underground da Chiclete com Banana e chegaram ao Folhateen, suplemento da Folha de S.Paulo.

A estreia no suplemento ocorreu em dezembro de 1991.

Isso criou uma situação curiosíssima.

Um quadrinho nascido dentro daquele caldo adulto, anárquico e contracultural estava agora dentro de um suplemento juvenil de um dos maiores jornais brasileiros.

É aproximadamente como contratar Bob Cuspe para apresentar treinamento de integração do RH.

Vai funcionar?

Provavelmente.

Vai seguir o PowerPoint?

Deus nos livre.

Angeli posteriormente comentou que o espaço natural de Los 3 Amigos eram histórias maiores, verdadeiras sagas, e não necessariamente o formato comprimido do jornal.

Mesmo assim, foi justamente ali que muita gente conheceu aqueles mexicanos completamente desqualificados.


📚 11. Os álbuns: quando o incidente vira documentação oficial

A bagunça também virou livro.

Entre as publicações associadas ao trio aparecem volumes como:

Los 3 Amigos 1

Los 3 Amigos 2

e posteriormente Seis Mãos Bobas.

Também circulou o maravilhoso título:

Más Sexo, Más Drogas y Más Guacamoles.

Porque aparentemente alguém concluiu que sexo e drogas não eram suficientes.

Faltava guacamole.

E eu respeito profundamente essa decisão editorial.


🧨 12. O politicamente incorreto antes do departamento jurídico descobrir o e-mail

É impossível falar de Los 3 Amigos sem mencionar uma coisa.

Muito daquele material dificilmente seria publicado hoje da mesma maneira.

Havia sexo.

Drogas.

Estereótipos.

Violência.

Palavrões.

Machismo satirizado através do próprio machismo.

Piadas deliberadamente ofensivas.

Grotesco.

Personagens moralmente indefensáveis.

Só que analisar aquilo apenas aplicando os critérios culturais de 2026 produz uma leitura incompleta.

Los 3 Amigos pertencem ao ambiente da contracultura brasileira dos anos 1980 e 1990.

Era humor interessado justamente em atravessar fronteiras.

O próprio Toninho Mendes, olhando retrospectivamente para aquele período, comentou que republicar determinadas revistas hoje provavelmente provocaria uma reação muito diferente.

Não significa que toda piada envelheceu bem.

Algumas envelheceram.

Outras envelheceram como vinho.

Outras como leite esquecido atrás da geladeira desde o Plano Collor.

Mas isso também transforma essas revistas em documentos culturais.

Elas registram o que podia ser dito, como era dito e do que uma geração ria.

Isso é história.


🧠 13. A verdadeira genialidade: eles próprios eram a piada

Aqui está, para mim, uma das chaves de Los 3 Amigos.

Angel Villa era Angeli.

Laertón era Laerte.

Glauquito era Glauco.

Adón era Adão.

Portanto, quando aqueles quatro sujeitos apareciam como covardes, bêbados, incompetentes, tarados, confusos ou simplesmente idiotas...

os autores estavam destruindo suas próprias personas.

Isso é poderoso.

Porque impede que o cartunista ocupe permanentemente o confortável cargo de:

“Eu sou inteligente e vou mostrar como vocês são burros.”

Não.

Aqui o autor também é burro.

Talvez seja o mais burro da história.

A crítica social continua existindo.

A política continua aparecendo.

A sociedade continua sendo satirizada.

Mas o autor não recebe imunidade diplomática.

Ele está dentro do saloon.

E também pode levar uma garrafada.


🪦 14. Em 2001, JOB LOS3AMIGOS ENDED - RC=0000

Depois de anos de histórias, a série terminou sua passagem regular pelo Folhateen em fevereiro de 2001.

Laerte explicou na época que aquele ciclo havia sido cumprido e que o encerramento não significava necessariamente o fim das colaborações entre os autores, mas a aposentadoria daquela série específica.

Isso é importante.

Não houve necessidade de inventar:

Los 3 Amigos — Next Generation.

Nem:

Los 3 Amigos Multiverse of Madness.

Nem reboot cinematográfico em oito episódios explicando a infância traumática de Glauquito.

Terminou.

Um conceito revolucionário atualmente.


🎞️ 15. Mas o cadáver ainda mexeu

Em 2009, Los 3 Amigos chegaram à animação num curta dirigido por Daniel Messias.

No ano seguinte, a adaptação recebeu o Troféu HQ Mix de melhor adaptação para outro veículo.

O que demonstra uma característica curiosa das boas criações.

Você pode desligar o sistema.

Mas alguém sempre encontra um batch esquecido rodando.


🇧🇷 16. Por que Los 3 Amigos importam?

Porque eles representam uma coisa que praticamente desapareceu das bancas brasileiras:

o ecossistema de revistas autorais de humor.

Durante os anos 1980 e 1990, revistas como Chiclete com Banana, Circo, Geraldão, Piratas do Tietê e Níquel Náusea criaram um ambiente onde cartunistas podiam desenvolver personagens próprios e dialogar diretamente com uma cultura urbana brasileira.

A banca de jornal funcionava como algoritmo.

Você chegava.

Olhava as capas.

Uma delas dizia alguma barbaridade.

Você comprava.

Pronto.

Recomendação analógica concluída com sucesso.

Não havia feed infinito.

Havia 36 páginas.

E depois você emprestava para alguém.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais aquela geração deixou memória tão forte.

Os leitores não apenas consumiam aquelas revistas.

Carregavam aquelas revistas.

Emprestavam.

Colecionavam.

Escondiam dos pais.

Levavam para escola.

Deixavam no banheiro.

Recortavam.

Perdiam.

Encontravam quinze anos depois dentro de uma caixa.

Isso cria uma relação física com cultura que nenhum scroll consegue reproduzir perfeitamente.


🏜️ 17. O Viejo México era o Brasil usando bigode falso

E talvez essa seja a melhor piada de todas.

Los 3 Amigos fingiam estar no México.

Mas aquele México nunca existiu.

Era cenário.

Era paródia de western.

Era Sergio Leone contaminado pela Vila Madalena.

Atrás do sombrero havia São Paulo.

Atrás da tequila havia Brasil.

Atrás dos bandidos havia política.

Atrás dos fracassados havia uma geração inteira tentando entender o que fazer depois da ditadura, da contracultura, da abertura política, da inflação e das transformações sociais dos anos 1980 e 1990.

Tudo embrulhado numa piada idiota.

E essa é uma das coisas maravilhosas dos quadrinhos.

Você pode escrever um tratado de 600 páginas sobre alienação urbana.

Ou desenhar Glauquito levando uma garrafada.

Dependendo do cartunista...

a garrafada explica melhor.


🥃 18. Easter egg: o verdadeiro Los 3 Amigos era a mesa

Talvez este seja o detalhe que mais gosto nessa história.

Los 3 Amigos não nasceram primeiro como personagens.

Nasceram como amigos.

Angeli e Laerte já conviviam desde o começo dos anos 1970.

Glauco entrou naquela órbita.

Vieram trabalhos coletivos.

Revistas.

Folha.

Chiclete.

Circo.

Depois Adão.

E o processo de criação preservava exatamente isso.

Eles sentavam juntos.

Conversavam.

Rabiscavam.

Um desenhava sobre o desenho do outro.

Hoje chamaríamos isso de:

collaborative creative workflow.

Naquela época provavelmente chamavam:

— Glauco, passa essa porra pra cá.

E funcionava.

Talvez melhor.


☕ Epílogo — Quatro mexicanos entram num bar

Imagine a cena.

Fim de tarde no Viejo México.

O sol está descendo.

Uma tumbleweed atravessa a rua.

As portas do saloon abrem.

Entra Angel Villa.

Atrás dele vem Laertón.

Depois Glauquito.

O barman olha.

— Los Tres Amigos!

Então entra Adón.

O barman conta novamente.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

Olha para a placa.

LOS 3 AMIGOS

Olha para Adón.

Olha novamente para a placa.

Pensa em chamar alguém para trocar.

Calcula o orçamento.

Lembra que seria necessário alterar também os cartazes, capas, arquivos, contratos, documentação, identidade visual e provavelmente aquele programa COBOL que ninguém sabe por que participa do processo.

Desiste.

Serve quatro tequilas.

E talvez essa seja a homenagem perfeita para Angeli, Laerte, Glauco e Adão Iturrusgarai.

Quatro autores completamente diferentes.

Quatro maneiras de desenhar.

Quatro maneiras de pensar humor.

Quatro egos que tiveram a rara capacidade de permitir que os outros desenhassem literalmente sobre seu trabalho.

E uma série chamada Los 3 Amigos.

Porque algumas inconsistências não são bugs.

São patrimônio histórico.

E em algum lugar perdido do Viejo México, entre Marisales e o Deserto de Plegas Ardientes, provavelmente existe um velho mainframe executando um programa escrito em 1987.

No console aparece:

LOS3AMIGOS ACTIVE

MEMBERS = 4

O operador olha.

Pensa durante alguns segundos.

Toma um gole de café.

E decide corretamente:

Não mexe nessa porra. Está funcionando.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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