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domingo, 14 de setembro de 2014

O Jovem Frankenstein — Quando Mel Brooks Ressuscitou o Monstro, Gene Wilder Ligou a Máquina e Igor Jurou que Nunca Teve Corcunda

 

Bellacosa Mainframe apresenta as aventuras do jovem frankenstein

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Em parceria com Igor — pronuncia-se “Eye-gor” — apresenta:

O Jovem Frankenstein — Quando Mel Brooks Ressuscitou o Monstro, Gene Wilder Ligou a Máquina e Igor Jurou que Nunca Teve Corcunda

Ou: encontramos o laboratório original de 1931, colocamos o cinema clássico na mesa de operações, instalamos um cérebro “Abby Normal” — e descobrimos que até um monstro de sete pés pode aprender a dançar “Puttin’ on the Ritz”

A porta da estação ferroviária se abriu.

Do lado de fora havia neblina, montanhas, um castelo ligeiramente fora das normas municipais e um homem corcunda segurando uma lanterna.

— Você deve ser Igor.

Eye-gor.

— E viemos conhecer o doutor Frankenstein.

Fronkensteen.

— Naturalmente.

O cocheiro levantou as malas. Os cavalos relincharam ao longe, embora ninguém ainda tivesse pronunciado o nome de Frau Blücher. Em algum ponto do caminho, uma viola começou a tocar sozinha, um lobo uivou com precisão musical e um chimpanzé recebeu a função de verificar se o cérebro estava corretamente etiquetado.

Foi assim que o Bellacosa Mainframe chegou ao castelo de O Jovem Frankenstein, filme que Mel Brooks dirigiu em 1974, Gene Wilder ajudou a conceber e Igor insiste até hoje que nunca teve corcunda.

O plano parecia simples: abrir o laboratório, examinar a arquitetura da obra e descobrir por que uma paródia produzida há mais de meio século continua parecendo mais viva do que muito cinema recém-saído da linha de montagem.

Igor apontou para uma escadaria.

— Por aqui.

E começou a andar de maneira estranhamente curvada.

Naturalmente, caminhamos exatamente do mesmo jeito.


🧟 Ficha técnica recuperada do laboratório

Título original: Young Frankenstein
Título no Brasil: O Jovem Frankenstein
Ano: 1974
Lançamento nos Estados Unidos: 15 de dezembro de 1974
Direção: Mel Brooks
Roteiro: Gene Wilder e Mel Brooks
Produção: Michael Gruskoff
Fotografia: Gerald Hirschfeld
Música: John Morris
Montagem: John C. Howard
Distribuição: 20th Century Fox
Duração: aproximadamente 105 minutos
Gêneros: comédia, paródia, terror, ficção científica e homenagem cinematográfica
Classificação original: PG
Elenco principal: Gene Wilder, Peter Boyle, Marty Feldman, Teri Garr, Cloris Leachman, Madeline Kahn, Kenneth Mars, Richard Haydn e Gene Hackman.

O catálogo do American Film Institute registra o filme como comédia, terror, sátira e ficção científica — classificação adequada para uma obra em que cadáveres voltam à vida, cérebros desaparecem, cientistas perdem o controle e o maior perigo imediato pode ser alguém servir sopa quente demais.


⚡ A criatura de Gene Wilder

Embora o nome de Mel Brooks apareça naturalmente como a força central do projeto, a primeira descarga elétrica veio de Gene Wilder.

Depois de interpretar Leo Bloom em Os Produtores e o pistoleiro alcoólatra Waco Kid em Banzé no Oeste, Wilder imaginou a história de um descendente do doutor Frankenstein que sentisse vergonha de sua herança.

O personagem não seria mais um cientista louco começando do zero. Seria um professor respeitável, racional e moderno tentando desesperadamente convencer o mundo — e a si mesmo — de que não tinha qualquer ligação com aquele avô desequilibrado que roubava cadáveres e instalava para-raios em castelos.

Seu nome era Frederick Frankenstein.

Perdão.

Frederick Fronkensteen.

A mudança de pronúncia resume o personagem. Frederick acredita que pode alterar a documentação do sistema e apagar o legado familiar apenas renomeando o arquivo.

Não é possível.

A família Frankenstein é um código legado rodando no sangue.

Gene Wilder levou a ideia a Mel Brooks. Os dois começaram a escrever juntos, num processo em que Wilder tentava preservar alguma elegância enquanto Brooks procurava lugares onde pudesse instalar dinamite.

A combinação funcionou porque os dois se equilibravam.

Wilder queria que o universo fosse levado a sério pelos personagens. Brooks trazia a anarquia. Wilder protegia a emoção. Brooks testava os limites do absurdo. Quando um exagerava, o outro puxava o freio — ou cortava os cabos, dependendo da cena.

O resultado não foi simplesmente uma coleção de piadas sobre Frankenstein.

Foi um verdadeiro filme de Frankenstein que, por coincidência, também era uma das comédias mais engraçadas da história.


🚂 Um cientista tentando fugir do próprio sobrenome

Frederick é apresentado ensinando neurologia a estudantes norte-americanos.

Ele se considera um homem da ciência moderna. Para provar que mente e corpo não são inseparáveis, enfia um bisturi na própria perna, mantendo a expressão de superioridade acadêmica até perceber que havia esquecido de aplicar o anestésico corretamente.

A mensagem do filme aparece cedo:

Um diploma pode elevar o discurso, mas não impede ninguém de espetar a própria coxa.

Quando recebe a notícia de que herdou a propriedade de seu bisavô na Transilvânia, Frederick viaja para resolver os assuntos familiares.

Na estação encontra Igor, interpretado por Marty Feldman, cuja capacidade de observar simultaneamente duas alas do castelo talvez explique sua extraordinária eficiência como assistente.

Igor informa que seu nome deve ser pronunciado “Eye-gor”. Frederick, que insiste em “Fronkensteen”, não possui autoridade moral para reclamar.

Também conhece Inga, assistente interpretada por Teri Garr, dona de um sotaque transilvano cuidadosamente construído sobre bases linguísticas inexistentes. Durante a viagem de carroça, ela oferece a Frederick a possibilidade de um “rolar no feno”.

O feno vence a primeira rodada.

Ao chegar ao castelo, Frederick encontra Frau Blücher, interpretada por Cloris Leachman.

Os cavalos relincham.

Não importa a distância, o clima ou a quantidade de paredes entre eles. Sempre que ouvem “Blücher”, os animais reagem como se tivessem consultado a ficha funcional da governanta.

Frau Blücher guarda o segredo do velho doutor Frankenstein. Aos poucos, conduz Frederick ao laboratório oculto, onde ele encontra os registros do avô e o livro que jamais deveria ter sido deixado sobre uma mesa:

Como Eu Fiz.

O cientista que passou a vida rejeitando o passado familiar finalmente abre a documentação.

O chamado de produção é reaberto.


🧠 Abby Normal assume o controle

Frederick decide repetir a experiência do avô.

Ele, Igor e Inga recuperam um cadáver gigantesco. Para completar a instalação, precisam de um cérebro.

Igor recebe uma tarefa simples: entrar no laboratório, escolher o recipiente correto e voltar sem provocar nenhum incidente.

Naturalmente, ele derruba o cérebro selecionado.

Diante da possibilidade de admitir o erro, pega outro frasco. A etiqueta parece identificar o órgão como pertencente a alguém chamado “Abby Normal”.

Frederick instala o cérebro no corpo.

A criatura desperta com instabilidade emocional, dificuldade de comunicação e reações violentas.

Só então o doutor pergunta qual cérebro Igor havia utilizado.

A resposta produz uma das maiores revelações da história da medicina cinematográfica:

— Abby Normal.

O chimpanzé responsável pelo inventário deixou cair a prancheta.

“Abby Normal” não era uma doadora. Era a leitura equivocada de abnormal: anormal.

Igor implantou no monstro um cérebro defeituoso porque leu errado a etiqueta e depois omitiu o incidente.

É o maior caso de falha de gestão de configuração da Transilvânia.

Não houve dupla verificação.

Não houve inventário.

Não houve controle de mudanças.

O cérebro de produção caiu no chão, e o operador instalou o primeiro pacote encontrado no ambiente de testes.

O monstro recebeu culpa pela instabilidade, mas o verdadeiro problema estava na cadeia de implantação.

Abby Normal é praticamente o primeiro bug report neurológico da história do cinema.

🎥 Não é uma paródia barata: é um filme clássico clandestino

A grandeza de O Jovem Frankenstein está no modo como a comédia foi construída dentro de um filme visualmente legítimo.

Brooks e Wilder não colocaram atores modernos diante de um cenário vagamente gótico para fazer piadas sobre monstros. Recriaram cuidadosamente a linguagem dos filmes da Universal dirigidos por James Whale nos anos 1930.

O longa foi filmado integralmente em preto e branco.

Utilizou abertura com letras antigas, música sinistra, sombras profundas, neblina, transições por íris, cortinas visuais, castelos úmidos e uma fotografia que poderia ter saído de uma cópia esquecida de Frankenstein, de 1931.

A Columbia Pictures demonstrou interesse no projeto, mas queria preservar a possibilidade de lançá-lo em cores.

Mel Brooks recusou.

Para ele e Gene Wilder, a fotografia em preto e branco não era detalhe estético. Era parte essencial da piada. Os personagens precisavam acreditar que realmente viviam naquele velho universo cinematográfico. Se tudo parecesse uma comédia colorida dos anos 1970, a ilusão seria destruída.

A 20th Century Fox aceitou a exigência.

O resultado é tão visualmente convincente que alguém poderia assistir aos primeiros minutos sem saber que se trata de uma comédia. A câmera avança sobre o castelo, os trovões explodem, um caixão é mostrado em tom solene — e apenas lentamente o absurdo começa a infiltrar-se.

A Library of Congress descreve justamente essa qualidade: o filme funciona primeiro como comédia e depois como uma história estranhamente comovente por direito próprio. Em 2003, foi selecionado para preservação no National Film Registry por sua importância cultural, histórica e estética. A Biblioteca do Congresso voltou a exibi-lo em 2026, destacando a fotografia, os cenários, o roteiro e a autenticidade do laboratório.

Brooks não profanou o templo.

Entrou nele, acendeu as velas originais e colocou uma casca de banana diante do altar.

🔌 O laboratório original de 1931 saiu da garagem

Igor abriu a porta de aço.

Atrás dela estavam bobinas, eletrodos, arcos elétricos, interruptores, rodas metálicas e aparelhos cuja função científica provavelmente consistia em piscar de maneira ameaçadora.

Boa parte daqueles equipamentos era verdadeira.

A produção descobriu que Kenneth Strickfaden, responsável pelos aparelhos elétricos do Frankenstein de 1931, ainda estava vivo e havia guardado muitas das peças em sua garagem.

Mel Brooks e sua equipe foram visitá-lo.

Os aparelhos continuavam funcionando.

Quarenta anos depois do clássico de James Whale, as mesmas máquinas que ajudaram Boris Karloff a voltar à vida foram instaladas no laboratório de Gene Wilder e Peter Boyle. Brooks deu a Strickfaden um crédito especial, reconhecimento que ele não havia recebido adequadamente no filme original.

A descoberta forneceu ao projeto algo impossível de fabricar apenas com orçamento: continuidade física.

Não era uma réplica moderna tentando parecer velha.

Era o próprio hardware legado voltando ao ambiente de produção.

O mainframe de 1931 recebeu energia em 1974 e subiu sem perda de dados.

🎭 Gene Wilder: o doutor que começa controlado e termina elétrico

Frederick Frankenstein é uma das grandes criações de Gene Wilder porque começa quase reprimido.

Ele fala baixo, tenta parecer civilizado e corrige com educação qualquer pessoa que pronuncie seu nome da maneira tradicional.

Pouco a pouco, porém, o legado familiar assume o controle.

O cabelo se desorganiza.

Os olhos se arregalam.

A voz sobe.

O cientista racional transforma-se num profeta elétrico berrando para os céus.

Wilder possuía uma habilidade extraordinária para atravessar a fronteira entre contenção e histeria sem perder o personagem. Quando explode, não parece um ator tentando ser engraçado. Parece um homem cujo sistema emocional ultrapassou o limite de armazenamento.

Gene Wilder impôs uma condição para realizar o filme: Mel Brooks não apareceria diante das câmeras.

Não porque considerasse Brooks um ator ruim. O problema era sua energia.

Brooks tinha tendência a quebrar a quarta parede, comunicar-se diretamente com a plateia e lembrar ao espectador de que estava assistindo a uma comédia. Wilder queria que todos os personagens acreditassem completamente naquele mundo.

Brooks concordou.

Concentrou-se na direção, embora tenha fornecido algumas vozes e sons escondidos.

Foi uma decisão fundamental. A ausência física de Brooks permitiu que sua presença criativa ocupasse todo o filme sem romper a atmosfera.

👁️ Igor: o Red Team do castelo

Marty Feldman não interpreta Igor apenas como assistente.

Ele é uma vulnerabilidade ambulante.

Sabe onde estão as passagens secretas, domina o sistema elétrico, transporta órgãos humanos, possui acesso privilegiado ao laboratório e nunca preencheu um formulário de conformidade.

O mais perigoso é que parece compreender coisas que os outros personagens não percebem.

Seus olhos dão a impressão de monitorar simultaneamente o doutor, a câmera e o espectador.

Igor também funciona como ponte entre o filme e a velha tradição do vaudeville. Sua postura, suas pausas, sua bengala e sua forma de entregar as falas pertencem a uma escola de comédia muito anterior a 1974.

A famosa cena “walk this way” é exemplo perfeito.

Igor pede que Frederick e Inga caminhem por determinado caminho, mas a expressão é interpretada literalmente. Os dois precisam imitar sua maneira curvada de andar.

A piada era antiga quando Brooks a colocou no filme. Gene Wilder contou que nem sequer conhecia sua origem. Brooks explicou que vinha de uma rotina de vaudeville envolvendo um homem com hemorroidas e um farmacêutico.

Anos depois, o Aerosmith usaria “Walk This Way” como título de uma de suas músicas mais famosas. Uma piada antiga atravessou o vaudeville, entrou no castelo de Frankenstein e acabou conectada a uma guitarra elétrica.

A corcunda migratória

Marty Feldman começou a mover a corcunda de Igor de um ombro para o outro entre as tomadas.

Não avisou ninguém.

Durante dias, aguardou que algum colega percebesse.

Quando finalmente notaram, a brincadeira foi incorporada ao roteiro.

Frederick oferece ajuda médica para a deformidade.

Igor reage:

— Que corcunda?

O ator transformou continuidade defeituosa em personagem.

Em qualquer outro filme, a equipe corrigiria o figurino.

Mel Brooks promoveu o erro a patrimônio cultural.

👩‍🔬 Inga, Elizabeth e Frau Blücher

As mulheres de O Jovem Frankenstein não estão no filme apenas para reagir à loucura masculina. Cada uma opera numa frequência cômica diferente.

Inga — Teri Garr

Inga é calorosa, sensual, inocente e muito mais consciente do que aparenta. Teri Garr constrói uma personagem que parece saída de um conto alpino escrito depois de várias garrafas de vinho.

Seu sotaque não busca autenticidade linguística. Busca musicalidade.

Garr entendeu que, no universo de Mel Brooks, uma vogal colocada no lugar errado pode funcionar melhor do que uma página inteira de diálogo.

Elizabeth — Madeline Kahn

Elizabeth começa como noiva sofisticada, preocupada com roupas, aparência e qualquer contato físico que possa desorganizar seus cabelos.

Madeline Kahn transforma cada restrição da personagem em material cômico. Elizabeth não quer beijos que prejudiquem a maquiagem, abraços que amassem o vestido nem intimidade que provoque atrasos sociais.

Depois de encontrar o monstro, porém, passa por uma atualização bastante radical.

Sua transformação visual remete diretamente à noiva de Frankenstein interpretada por Elsa Lanchester em 1935. O cabelo ganha as faixas claras, a sexualidade reprimida invade o datacenter e Elizabeth finalmente encontra alguém compatível com seus requisitos de hardware.

Frau Blücher — Cloris Leachman

Cloris Leachman interpreta Frau Blücher como se estivesse participando de um drama expressionista alemão completamente sério.

Esse comprometimento torna tudo mais engraçado.

A personagem surge em corredores escuros, segura candelabros, conhece os segredos do velho laboratório e trata o falecido Frankenstein com uma devoção que sugere relacionamento muito além do profissional.

Sempre que seu nome é pronunciado, cavalos relincham.

Circulou durante anos a explicação de que “Blücher” significaria “cola” em alemão e que os animais teriam medo de virar matéria-prima.

Não significa.

A lenda é falsa.

Os cavalos apenas leram o roteiro e decidiram colaborar.

🧟‍♂️ Peter Boyle e o monstro que encontra humanidade

Peter Boyle recebeu talvez a tarefa mais difícil do elenco.

O monstro fala pouco durante boa parte do filme. Precisa ser engraçado, ameaçador, infantil e comovente sem transformar a criatura numa simples caricatura.

Boyle utiliza o corpo inteiro.

A maneira como anda, observa, recua, sente medo e tenta compreender os humanos dá à criatura uma vulnerabilidade genuína.

O filme repete uma das ideias centrais das melhores versões de Frankenstein: o monstro não nasce monstro. Ele é produto das decisões, erros e rejeições daqueles que o criaram.

Recebeu um cérebro defeituoso por negligência de Igor.

Foi lançado num mundo que reage à sua aparência com violência.

Seu criador tenta amá-lo, mas também o utiliza como prova científica.

A aldeia não quer saber se ele compreende alguma coisa. Quer tochas.

Por baixo da comédia, existe uma narrativa sobre herança, responsabilidade e aceitação.

É por isso que a relação entre Frederick e a criatura funciona emocionalmente. O cientista começa vendo o monstro como experimento. Aos poucos, assume responsabilidade paternal por aquilo que colocou no mundo.

O verdadeiro sucesso da experiência não consiste em produzir vida.

Consiste em reconhecer humanidade.

🔥 Gene Hackman e o pior anfitrião da Transilvânia

Uma das sequências mais engraçadas apresenta o monstro refugiando-se na casa de um eremita cego, interpretado por Gene Hackman.

O homem deseja apenas oferecer amizade, comida e abrigo.

O problema é que não enxerga.

Serve sopa diretamente no colo do visitante, quebra sua caneca e acende seu polegar em vez do charuto.

Peter Boyle suporta tudo em silêncio crescente, até concluir que enfrentar uma multidão armada talvez seja menos perigoso.

Hackman era conhecido principalmente por papéis dramáticos. Sua presença adiciona outra camada de surpresa. O público reconhece a autoridade do ator, mas encontra um homem perfeitamente gentil operando como desastre doméstico.

A frase final sobre preparar café expresso foi improvisada. A cena precisou terminar rapidamente porque a equipe começou a rir.

Mais uma vez, o acidente entrou na versão definitiva.

🎩 “Puttin’ on the Ritz”: o monstro entra no show business

Frederick decide demonstrar ao mundo que sua criatura pode ser civilizada.

Em vez de apresentar exames neurológicos, gráficos ou relatórios científicos, escolhe o método mais confiável disponível:

Um número musical.

Doutor e criatura sobem ao palco vestidos de fraque para cantar “Puttin’ on the Ritz”, composição de Irving Berlin.

Gene Wilder dança e canta com elegância exagerada.

Peter Boyle tenta acompanhar, pronunciando o refrão com a capacidade vocal de uma avalanche aprendendo inglês.

Mel Brooks inicialmente não queria a sequência.

Considerava absurdo demais o monstro cantar e dançar. Gene Wilder insistiu. Durante uma discussão, demonstrou por que a cena era fundamental: Frederick não queria apenas provar que havia criado vida; queria apresentar sua criatura ao mundo como artista, cidadão e extensão de si mesmo.

Brooks cedeu.

Mais tarde reconheceu que Wilder estava certo.

A apresentação tornou-se a imagem definitiva do filme. O American Film Institute incluiu a sequência entre as grandes canções do cinema.

O monstro não recebe plena aceitação numa universidade, tribunal ou laboratório.

Recebe-a no palco.

Talvez Mel Brooks soubesse que, depois da ciência, todo Frankenstein acaba no show business.

😂 A engenharia da piada

O Jovem Frankenstein demonstra que humor não depende apenas da frase engraçada.

Brooks e Wilder utilizam diferentes camadas:

Preparação

O cenário é tratado seriamente. A câmera cria expectativa. A música anuncia perigo.

Pausa

Os personagens permanecem dentro da realidade. Ninguém se apressa em explicar que aquilo é engraçado.

Impacto

A lógica se quebra por um detalhe: uma corcunda trocou de lado, uma porta secreta não funciona, um cérebro foi etiquetado de maneira suspeita.

Mel Brooks aprendera bateria quando jovem. Seu senso de ritmo aparece na montagem das piadas. Cada cena possui compasso.

Preparação.

Pausa.

Impacto.

A piada também tem batida.

Brooks chegou a fornecer lenços brancos à equipe para que técnicos pudessem colocá-los na boca e abafar as risadas durante as filmagens. Quando olhava para trás e via uma fileira de pessoas mordendo lenços, sabia que a cena estava funcionando.

Era o monitoramento de produção mais analógico possível.

🥚 Easter eggs encontrados por Igor

1. O equipamento de 1931

Grande parte do laboratório veio dos aparelhos criados por Kenneth Strickfaden para o Frankenstein original.

2. O preto e branco foi inegociável

Brooks preferiu mudar de estúdio a filmar em cores.

3. Mel Brooks ficou fora das câmeras

Foi uma condição de Gene Wilder para manter o universo da história intacto.

4. A corcunda muda de lado

Marty Feldman iniciou a brincadeira por conta própria.

5. “Abby Normal”

O nome é a leitura errada de “abnormal”.

6. O monstro não possui os famosos parafusos tradicionais

Para evitar problemas de propriedade visual, recebeu um grande zíper metálico no pescoço.

7. Elizabeth vira a noiva de Frankenstein

O cabelo de Madeline Kahn homenageia diretamente Elsa Lanchester em A Noiva de Frankenstein.

8. “Puttin’ on the Ritz” quase foi removida

Gene Wilder venceu a discussão com Brooks.

9. Gene Hackman improvisou sua despedida

A equipe riu e a tomada entrou no filme.

10. Frau Blücher não significa cola

Os cavalos não apresentaram justificativa oficial.

11. O cartaz também virou parte da cultura

A imagem promocional ajudou a consolidar o filme como encontro entre terror clássico e comédia moderna.

12. O filme ganhou vida própria

Recebeu duas indicações ao Oscar — roteiro adaptado e som —, foi preservado pela Biblioteca do Congresso e posteriormente transformado em musical.

🧬 A mensagem escondida no cérebro anormal

Por trás da superfície, O Jovem Frankenstein fala sobre a impossibilidade de escapar completamente da herança.

Frederick tenta eliminar a história da família alterando a pronúncia do sobrenome.

Fracassa.

Porém, ele não está condenado apenas a repetir o avô.

Pode revisar o legado.

O velho Frankenstein queria vencer a morte. Frederick começa buscando a mesma glória, mas termina aprendendo responsabilidade, empatia e conexão.

O passado não desaparece.

Pode ser reinterpretado.

O filme faz com Frankenstein aquilo que Frederick faz com sua família. Herda uma tradição antiga, abre seus registros, preserva seus melhores componentes e corrige parte do código.

Mel Brooks e Gene Wilder não destruíram o clássico de 1931.

Deram-lhe uma nova criatura.

🎬 Uma paródia construída por quem amava o original

Existe uma diferença enorme entre rir de uma obra e rir com ela.

Paródias preguiçosas reconhecem apenas os elementos mais famosos de um gênero. Colocam um monstro, uma capa, uma tempestade e esperam que a lembrança do público realize todo o trabalho.

O Jovem Frankenstein conhece profundamente suas referências.

Dialoga principalmente com:

  • Frankenstein (1931);

  • A Noiva de Frankenstein (1935);

  • O Filho de Frankenstein (1939);

  • e outras continuações do ciclo clássico da Universal.

A fotografia, o desenho de produção, o som e as interpretações recriam a atmosfera antes de deformá-la.

Isso permite que o filme funcione para dois públicos.

Quem nunca assistiu aos originais encontra uma excelente comédia.

Quem conhece James Whale, Boris Karloff, Colin Clive, Elsa Lanchester e Bela Lugosi encontra uma segunda camada inteira de piadas e homenagens.

Brooks não aponta para o clássico dizendo:

— Vejam como era ridículo.

Ele diz:

— Vejam como era maravilhoso. Agora deixem Igor mexer nos controles.

🏆 O monstro sobreviveu ao criador

Lançado em dezembro de 1974, O Jovem Frankenstein chegou no mesmo ano em que Brooks havia lançado Banzé no Oeste.

Produzir uma dessas obras já garantiria lugar na história da comédia.

Produzir as duas no intervalo de poucos meses parece consequência de alguém ter instalado dois cérebros no mesmo diretor.

O filme tornou-se sucesso comercial, recebeu indicações ao Oscar e atravessou gerações. Em 2003, entrou para o National Film Registry. Suas frases continuam citadas, as cenas permanecem reconhecíveis e sua aparência visual envelheceu menos do que muitas produções coloridas da mesma década.

Isso acontece porque Brooks não tentou modernizar Frankenstein para 1974.

Voltou a 1931 e filmou de lá.

Ao aceitar a estética antiga, tornou o resultado estranhamente atemporal.

Não parece uma comédia tentando imitar um filme velho.

Parece um filme velho que enlouqueceu durante a restauração.

☕ Epílogo — Está vivo

A visita terminou.

Igor conduziu-nos de volta à estação.

Antes de partir, perguntamos se o laboratório continuava funcionando.

Ele olhou para o castelo.

Uma descarga elétrica atravessou as nuvens.

Os cavalos relincharam.

Em alguma sala, Frederick gritava ordens. Inga preparava os equipamentos. Frau Blücher fechava as cortinas. Elizabeth penteava os cabelos. O monstro ajustava o fraque diante do espelho.

Um chimpanzé entrou correndo com um recipiente de vidro.

— Igor, você conferiu a etiqueta do cérebro?

Ele sorriu.

A corcunda mudou de ombro.

— Que cérebro?

O trem começou a andar.

Ao longe, ouvimos os primeiros acordes de “Puttin’ on the Ritz”.

Mel Brooks e Gene Wilder haviam conseguido algo mais difícil do que ressuscitar um cadáver. Ressuscitaram uma forma inteira de cinema sem transformá-la numa peça de museu.

Colocaram o passado sobre a mesa.

Ligaram os eletrodos.

Injetaram vaudeville, paródia, música, carinho, obscenidade, elegância e um cérebro ligeiramente anormal.

Então esperaram a tempestade.

A criatura abriu os olhos.

Mais de meio século depois, continua dançando.

Está vivo.

Está vivo!

ESTÁ VIVO! ⚡🧟‍♂️☕

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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