| Bellacosa Mainframe em historias da epoca da censura |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O Coelho Branco da Censura
Ou: enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez a informação simplesmente pegasse o ônibus
Existem histórias sobre censura que começam com generais.
Outras começam com jornalistas.
Algumas começam com compositores, escritores, cineastas, estudantes, sindicalistas, intelectuais ou políticos.
Esta começa com um sujeito olhando desesperadamente para o relógio.
Ele tem uma pasta debaixo do braço.
Alguns envelopes.
Talvez uma guia que precisa ser carimbada.
Uma assinatura que precisa buscar.
Um documento que deveria ter chegado ao outro lado da cidade quinze minutos atrás.
O ônibus não vem.
Ele olha novamente para o relógio.
Está atrasado.
Muito atrasado.
E, em algum escritório distante, existe uma Rainha de Copas corporativa pronta para berrar:
— CORTEM-LHE A CABEÇA!
Ou, traduzindo para o português empresarial:
— Se você não entregar isso hoje, está na rua!
Nosso personagem não é jornalista.
Não é líder estudantil.
Não é guerrilheiro.
Não é agente secreto.
Não usa sobretudo.
Não possui câmera escondida dentro de uma caneta.
Não sabe artes marciais.
Provavelmente não dirige um Aston Martin.
Ele é apenas...
o office-boy.
O coadjuvante do coadjuvante.
E justamente por isso talvez seja uma das figuras mais interessantes para pensarmos quando falamos sobre circulação de informação num mundo anterior à Internet.
🐇 O Coelho Branco da burocracia
Quem viveu o escritório brasileiro antes da digitalização conhece aquele personagem.
— Leva isso ao banco.
— Passa no cartório.
— Entrega esse envelope.
— Busca assinatura no doutor Fulano.
— Depois vai à gráfica.
— Aproveita e deixa isto no prédio da Rua Boa Vista.
— Volta antes das quatro.
O garoto pega a pasta.
Olha para o relógio.
E começa a correr.
🐇💨
É difícil imaginar metáfora melhor que o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas.
Sempre atrasado.
Sempre atravessando portas.
Sempre desaparecendo por corredores.
Só que nosso Coelho Branco pega ônibus.
Entra numa repartição.
— É aqui que entrega?
— Terceiro andar.
Terceiro andar:
— Não, mudou para o prédio ao lado.
Prédio ao lado:
— Falta o carimbo.
— Onde carimba?
— No primeiro prédio.
CARALHO.
Volta correndo.
E Lewis Carroll provavelmente teria reconhecido imediatamente aquele universo.
Porque poucas coisas são tão próximas do País das Maravilhas quanto uma burocracia que exige um documento para fornecer o documento necessário para solicitar o documento anterior.
👑 A Rainha de Copas
Agora mudemos a câmera.
Estamos durante a ditadura militar brasileira.
Existe censura.
Textos são examinados.
Músicas são vetadas.
Filmes enfrentam cortes ou proibições.
Peças encontram obstáculos.
Reportagens podem desaparecer.
Há documentos, pareceres, processos, cópias, formulários e decisões circulando por estruturas administrativas.
E a imagem tradicional que construímos desse sistema costuma olhar para cima.
Quem mandava?
Quem censurava?
Quem foi censurado?
Quem resistiu?
Quem assinou?
Quem foi preso?
Quem publicou?
Perguntas fundamentais.
Mas existe outra pergunta muito menos glamourosa:
quem carregava os papéis?
📂 Para censurar uma informação, alguém precisa conhecê-la
Existe um pequeno paradoxo operacional em qualquer sistema de censura.
Para decidir que alguma coisa não deve circular, alguém precisa primeiro ter acesso àquilo.
A música precisa ser ouvida.
O texto precisa ser lido.
O filme precisa ser assistido.
O roteiro precisa ser analisado.
O jornal precisa ser examinado.
Isso gera registros.
Cópias.
Pareceres.
Anotações.
Protocolos.
Pessoas.
Em linguagem de mainframe:
CONTENT_STATUS = BLOCKED
REASON_CODE = CENSURA
PAYLOAD = RESTRICTED
O censor tenta eliminar o payload público.
Mas cria metadados.
E às vezes o metadado mais poderoso de todos é simplesmente:
CENSURADO
Porque essa palavra comunica duas coisas simultaneamente.
A primeira:
Você não pode ver isto.
A segunda:
Existe aqui alguma coisa que alguém não quer que você veja.
Adivinhe qual das duas interessa mais ao chimpanzé.
🐒
— Onde?
📰 O ancestral analógico do “não olhe”
Muito antes de Google, Twitter, Facebook, Reddit, TikTok ou qualquer algoritmo de recomendação, já existia um fenômeno profundamente humano:
proibir pode aumentar a curiosidade.
Isso não significa que censura seja ineficiente.
Seria historicamente absurdo afirmar isso.
Censura destruiu carreiras, impediu circulação de obras, dificultou acesso à informação e foi acompanhada por repressão muito mais séria que simplesmente riscar algumas linhas de jornal.
Mas existe uma diferença enorme entre:
informação invisivelmente eliminada
e
informação visivelmente proibida.
Quando o público percebe a intervenção, nasce uma pergunta:
O que havia ali?
E perguntas são criaturas perigosas.
Porque viajam sem precisar de papel.
📻 A informação aprende a procurar outra estrada
Uma música é proibida.
Mas alguém conhece a letra.
Outro ouviu num show.
Outro possui uma gravação.
Outro conta para um amigo.
Um texto desaparece.
Mas existe uma cópia.
Um mimeógrafo.
Uma universidade.
Uma redação.
Uma mala vindo do exterior.
Um filme não pode circular oficialmente.
Mas alguém encontra uma fita.
Outra pessoa copia.
Uma terceira leva para outra cidade.
Um quarto sujeito assiste.
Depois conta para vinte.
A arquitetura oficial funciona assim:
CENTRALIZAR → INSPECIONAR → AUTORIZAR
A cultura responde:
COPIAR → DISTRIBUIR → RECONTAR
De repente temos algo muito parecido com uma rede peer-to-peer.
Só que os peers usam sapatos.
🚌 Napster de ônibus
Hoje é fácil esquecer o custo físico da informação.
Copiar um arquivo:
Ctrl+C
Copiar uma fita cassete exigia outra fita.
Copiar VHS exigia equipamento e tempo.
Mimeografar exigia papel, matriz e tinta.
Fotocopiar custava dinheiro.
Transportar informação exigia pernas.
Carro.
Trem.
Ônibus.
Correio.
Mala.
E gente.
Muita gente.
A rede social existia antes da rede social.
Só não tinha botão Compartilhar.
Tinha:
— Passa isso para o Carlos.
🕵️ Todo mundo procura James Bond
Quando pensamos em vazamento de informação, nossa imaginação procura imediatamente alguém importante.
Um agente infiltrado.
Um funcionário graduado.
Um jornalista famoso.
Um intelectual.
Um opositor conhecido.
Alguém que mereça relatório, fotografia e vigilância.
Porque histórias gostam de protagonistas.
E instituições também.
Se chega à mesa de um chefe:
“Possível jornalista ligado à oposição.”
Interessante.
Investigue.
Agora chega:
“Office-boy de dezenove anos levou alguns envelopes para outro prédio.”
— E daí?
Aí mora uma vulnerabilidade organizacional maravilhosa.
Não porque office-boys fossem automaticamente agentes clandestinos.
Não eram.
Não devemos transformar uma possibilidade estrutural numa afirmação histórica sem documentação.
Mas porque sistemas frequentemente confundem:
baixo status
com
baixa relevância informacional.
E essas coisas não são iguais.
🔐 LOW PRIVILEGE, HIGH MOBILITY
O diretor possui poder.
Mas passa boa parte do dia dentro de determinada estrutura.
O office-boy possui quase nenhum poder.
Mas atravessa estruturas.
Diretoria.
Financeiro.
Banco.
Correio.
Cartório.
Gráfica.
Fornecedor.
Outro escritório.
Outra repartição.
Outra portaria.
Outro office-boy.
Ele pode possuir:
LOW FORMAL PRIVILEGE
mas simultaneamente:
HIGH PHYSICAL MOBILITY
HIGH CONTACT SURFACE
INCIDENTAL INFORMATION ACCESS
Para um profissional moderno de segurança, isso deveria soar familiar.
Porque aprendemos dolorosamente que uma conta aparentemente insignificante pode representar um caminho excelente até alguma coisa importante.
👻 A invisibilidade social
Existe ainda uma propriedade mais interessante.
Algumas pessoas tornam-se invisíveis não porque ninguém literalmente as veja, mas porque são percebidas como parte do ambiente.
O motorista está dirigindo.
A copeira está servindo café.
O faxineiro está limpando.
O porteiro está na porta.
O técnico está consertando alguma coisa.
O office-boy está esperando o envelope.
E pessoas conversam.
Às vezes conversam como se ninguém estivesse ali.
Deixam papéis sobre mesas.
Comentam nomes.
Discutem decisões.
Entregam envelopes.
Porque aquele sujeito não pertence ao círculo de poder.
Ele é cenário.
Só que cenário também possui olhos.
E ouvidos.
Daí nasce uma frase que merece ficar:
Invisibilidade social pode produzir visibilidade informacional.
🕸️ O organograma mentia
Pegue um organograma antigo.
Presidente.
Diretor.
Gerente.
Supervisor.
Funcionário.
Tudo perfeitamente hierárquico.
Agora desenhe outra rede por cima:
office-boy ↔ recepcionista ↔ motorista ↔ gráfica ↔ banco ↔ outro office-boy ↔ estudante ↔ jornalista ↔ músico
Essa rede não aparece no organograma.
Mas existe.
São relações construídas esperando elevador.
Tomando café.
Entregando documento.
Encontrando sempre o mesmo funcionário no protocolo.
Pegando ônibus.
Fazendo favor.
— Quando passar lá, entrega isso para mim?
Pronto.
Criamos outra aresta.
O organograma descreve autoridade.
Não necessariamente descreve circulação.
📼 A cópia que misteriosamente não morreu
E então chegamos às histórias deliciosamente nebulosas daquele período.
Uma obra desaparece oficialmente.
Mas reaparece.
Uma música proibida continua sendo conhecida.
Um texto circula.
Um panfleto aparece.
Uma gravação atravessa fronteiras.
Um filme encontra algum caminho alternativo.
Às vezes sabemos como.
Outras vezes a cadeia de transmissão se perde.
Décadas depois sobra apenas:
“Alguém conseguiu uma cópia.”
Quem?
Não sabemos.
E talvez justamente aí esteja uma das partes mais fascinantes da história da informação.
Nós lembramos de quem escreveu.
Lembramos de quem cantou.
Lembramos de quem dirigiu.
Lembramos de quem proibiu.
Mas frequentemente esquecemos de quem:
carregou.
🐇 O coadjuvante do coadjuvante
Imagine nosso personagem novamente.
Ele não está tentando derrubar governo nenhum.
Talvez nem saiba exatamente o que existe dentro da pasta.
Está preocupado com uma coisa muito mais urgente:
o ônibus está atrasado.
Olha o relógio.
Corre.
Entra no prédio.
Sobe.
Desce.
Pega assinatura.
Recebe outro envelope.
Alguém diz:
— Leva isso também.
Ele coloca na pasta.
E continua.
Enquanto a Rainha de Copas procura inimigos importantes...
🐇💨
...o Coelho Branco atravessa outra porta.
Essa é a imagem que me interessa.
Não porque possamos afirmar que todo office-boy era mensageiro clandestino.
Mas porque ela revela uma verdade organizacional muito maior:
Informação importante não precisa ser transportada por pessoas importantes.
💾 O office-boy desapareceu. A vulnerabilidade não.
Avancemos quarenta anos.
O office-boy praticamente desapareceu de muitos escritórios.
Documentos viraram arquivos.
Assinaturas viraram certificados.
Correspondência virou e-mail.
Memorandos viraram mensagens.
Pastas viraram diretórios.
O Coelho Branco ganhou login.
E então descobrimos:
conta de serviço esquecida;
usuário terceirizado;
credencial antiga;
fornecedor;
estagiário;
API mal configurada;
permissão herdada;
servidor legado.
O princípio permanece.
Todo mundo protege o CEO.
O atacante olha para a lavanderia.
Porque ninguém precisa invadir o portão principal do castelo quando existe uma janela lateral aberta.
🧠 Zero Trust encontrou o Coelho Branco
A segurança moderna criou expressões sofisticadas:
Least Privilege.
Need to Know.
Insider Threat.
Data Loss Prevention.
Zero Trust.
Por trás de todas existe uma descoberta pouco glamourosa:
não importa quanto poder alguém possui no organograma.
Importa:
o que consegue acessar, para onde consegue ir e o que consegue transportar.
O office-boy de ontem carregava envelopes.
A identidade digital de hoje carrega tokens.
Mudou o veículo.
Não mudou completamente o problema.
👑 A Rainha continua procurando protagonistas
Existe ainda uma lição para além da segurança.
Instituições adoram olhar para cima.
A imprensa olha para celebridades.
Empresas olham para executivos.
Governos olham para lideranças.
Historiadores olham para personagens conhecidos.
Algoritmos olham para aquilo que já possui atenção.
Enquanto isso, uma quantidade enorme de história acontece nas mãos de pessoas cujos nomes jamais chegam ao índice remissivo.
Alguém guardou aquele papel.
Alguém fez aquela cópia.
Alguém levou aquela fita.
Alguém entregou aquele envelope.
Alguém contou aquela história.
E provavelmente estava atrasado.
🐒 Os chimpanzés aparecem novamente
Evidentemente eles apareceriam.
Começamos falando sobre sonhos.
Fomos parar numa estação impossível da CPTM.
Depois loteria.
Depois Lost.
Depois números malditos.
Probabilidade.
Lei dos Grandes Números.
Um milhão de chimpanzés.
Imprensa.
Efeito VEJA.
Censura.
Vazamentos.
Office-boys.
Até que um sujeito atrasado olhando para o relógio resolveu atravessar correndo a história de Lewis Carroll.
Quando percebemos, havia outro artigo sobre a mesa.
Os chimpanzés são assim.
Você entrega uma máquina de escrever.
Eles devolvem uma banana.
Você pergunta sobre a banana.
Eles devolvem um artigo.
☕ Epílogo — A informação simplesmente pegou o ônibus
Talvez nunca saibamos quantas histórias sobreviveram porque alguém aparentemente irrelevante resolveu guardar alguma coisa.
Talvez nunca saibamos quantas informações atravessaram sistemas rígidos porque seus criadores observaram cuidadosamente os protagonistas...
e esqueceram dos figurantes.
Não devemos romantizar.
Havia risco.
Havia repressão.
Havia consequências reais.
E não devemos inventar heróis onde os documentos históricos não permitem encontrá-los.
Mas podemos aprender alguma coisa observando a arquitetura.
Sistemas de controle enxergam hierarquias.
Informação enxerga caminhos.
E caminhos podem passar pelos lugares mais improváveis.
Uma pasta.
Uma gráfica.
Um mimeógrafo.
Uma fita cassete.
Uma mala.
Um amigo.
Um office-boy.
Um ônibus.
Enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez alguma informação proibida estivesse simplesmente atravessando São Paulo no colo de um garoto desesperado porque precisava voltar ao escritório antes das cinco.
Ele olha para o relógio.
🐇
— Estou atrasado!
Corre.
A porta fecha.
O ônibus parte.
E dentro da pasta...
a história continua viajando.
Para ir mais longe
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P.S. — O que meu pai nunca me contou
Depois de terminar este causo, fiquei diante de uma pergunta muito menos divertida que o Coelho Branco, a Rainha de Copas e o office-boy correndo atrás do ônibus:
eu teria coragem de escrever tudo isso naquela época?
Não sei.
É fácil imaginar coragem retrospectiva.
Hoje posso sentar diante de um computador, escrever sobre censura, questionar autoridades, fazer piada, publicar, pesquisar documentos e transformar até os mecanismos de repressão em personagens de uma história de boteco.
Naquele tempo, a conta era outra.
E talvez eu saiba disso não apenas pelos livros.
Meu pai foi militar da Polícia do Exército entre 1969 e 1970.
Décadas depois, quando passávamos pela região da Estação da Luz, eu percebia nele uma reação particular diante do lugar que eu associaria mais tarde ao antigo DOPS.
Eu era apenas o filho.
Não conhecia organogramas da repressão.
Não sabia distinguir DOPS, DOI-CODI, Polícia do Exército ou qualquer uma das engrenagens daquele sistema.
Mas criança não precisa conhecer organograma para perceber medo.
Basta conhecer o rosto do próprio pai.
Hoje conheço muito mais sobre aquele período do que conhecia então.
Mas existe uma coisa que continuo não sabendo.
O que exatamente meu pai sabia?
O que ouviu?
O que viu?
O que lhe contaram?
Por que aquele lugar provocava aquela reação?
Não sei.
E não vou completar a história por ele.
Seria fácil juntar as datas, seu serviço militar, aquele prédio e minha lembrança e construir uma narrativa perfeita.
Perfeita demais.
Seria pintar o alvo depois do tiro.
Seria colocar o nosso famoso sexto dedo.
Há histórias em que aquilo que não sabemos precisa permanecer escrito exatamente assim:
não sei.
Talvez ele simplesmente conhecesse a reputação daquele lugar.
Talvez tivesse ouvido histórias durante o serviço militar.
Talvez existisse alguma experiência que nunca compartilhou comigo.
Talvez a explicação fosse outra.
A resposta pertencia a ele.
E foi embora com ele.
Foi então que percebi que havia esquecido um personagem neste artigo inteiro.
Falamos sobre o censor.
Sobre o censurado.
Sobre o jornalista.
Sobre o músico.
Sobre a fita clandestina.
Sobre o panfleto.
Sobre o documento que escapava.
Sobre o office-boy que atravessava a cidade carregando envelopes.
Mas existe uma forma de informação muito mais difícil de encontrar nos arquivos:
aquilo que alguém decidiu nunca contar.
A reportagem censurada pode deixar um espaço em branco.
A música proibida pode deixar um processo.
O filme cortado pode sobreviver numa cópia.
O panfleto clandestino pode reaparecer quarenta anos depois dentro de uma caixa.
Mas uma história que alguém resolveu guardar consigo talvez não deixe documento algum.
Nenhuma assinatura.
Nenhum protocolo.
Nenhum carimbo.
Nenhum arquivo.
Apenas pequenos sinais.
Uma mudança de expressão.
Um silêncio inesperado.
Um olhar para determinado prédio.
Talvez uma frase interrompida.
E um filho que percebe que alguma coisa aconteceu ali, embora não saiba exatamente o quê.
Foi assim que compreendi outra dimensão da censura.
A mais eficiente talvez não seja aquela que coloca um carimbo vermelho sobre uma página.
É aquela que consegue fazer alguém pensar:
“É melhor não falar sobre isso.”
Nesse momento o censor já nem precisa estar presente.
O medo executa o programa sozinho.
E talvez seja por isso que não consigo responder heroicamente à pergunta que abriu este P.S.
Eu teria escrito este artigo naquela época?
Gostaria de dizer que sim.
Seria uma bela história.
Eu, enfrentando a Rainha de Copas, escondendo textos na pasta do Coelho Branco e mandando a censura para /dev/null.
Mas não sei.
Eu vi, muitos anos depois, algo daquele período ainda existir no rosto do meu pai.
Isso basta para desconfiar de qualquer coragem que eu invente retrospectivamente para mim mesmo.
Hoje posso escrever.
Posso perguntar.
Posso discordar.
Posso pesquisar.
Posso publicar.
Posso olhar para um documento marcado CENSURADO e perguntar o que havia embaixo.
E posso contar que meu pai serviu na Polícia do Exército entre 1969 e 1970 e que havia coisas sobre aquele tempo que ele nunca me contou.
Sem acusá-lo.
Sem absolvê-lo.
Sem completar os espaços vazios.
Apenas preservando aquilo que realmente sei.
Porque talvez os arquivos mais difíceis de recuperar sejam justamente aqueles que nunca chegaram a ser gravados.
Meu pai carregou alguma coisa daquele período.
Não sei o quê.
Mas lembro do seu rosto.
E há memórias que o tempo não consegue censurar.
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