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Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
📜 Quando o Guerreiro Chorou
Uma memória Bellacosa Mainframe — raw, pesada, humana, compilada direto do spool da alma
Existem dias que o tempo não apaga. Alguns são de festa, outros são fotografia em sépia, mas certos carregam o metal frio e silêncio — são dias que viram tatuagem na alma.
E eu tenho um desses. Comentei em outros postes, mas é algo maior, que grita no fundo da mente, naquele longinquou ano de 1982, a maioria das testemunhas desse evento, partiram, o Grande Guerreiro Luigi e somente um fantasma do passado.
Mas para o Vaguinho, pequenino, magrinho, oni em evolução. Aquele dia foi o dia em que viu meu pai chorar.
A morte do Velho Luigi — lenda da Mooca, homem controverso, uns amando, outros odiando. Um gigante loiro de olhos azuis faiscante e de peito aberto, briguento, mulherengo, bêbado, sobrevivente, mito de calçada e roleta de botequim — foi o bug fatal na memória dos Bellacosa. Luigi não era só ancestral. Era o tótem urbano, folclore de rua com cheiro de cerveja, caça e pólvora. De uma Mooca que não existe mais, a Mooca dos Imigrantes pobres, bairro periférico, cheio de gente trabalhadora e sonhadora.
E quando ele caiu, a linha heroica ruiu um pouco por dentro.
Meu pai — aquele que até então era o meu Superman que nunca tremia — desabou.
E eu, testemunha silenciosa, vi e vivi.
🕯 O Velório, o Enterro, o Silêncio
Tinha clima de filme preto-e-branco. As mulheres rezavam, os homens encaravam o chão como quem mede a própria mortalidade. Meu pai não falava, não sorria — havia perdido o norte, o alfa, o espelho.
E eu, criança, vi o gigante murchar. Rodeado por uma multidão, que foi dar o adeus aquela figura lendária. Meses antes outra figura lendária havia partido, um homem amado pelas qualidades e respeitado pelo legado, o tio-bisavô Arthur, Dudu jogador do Palestra nos primórdios do Clube.
Isso nunca sai.
A dor de um homem grande é sempre maior do que ele.
🚶 A Primeira Vagneida
Sim, ja tinha minhas pequenas aventuras, fatos curiosos e pequenas historias, mas esse dia foi o marco, onde fiz parte de uma historia ainda maior.
Foi uma jornada de 14 km a pé— um menino e um pai tentando costurar o mundo de volta
Dias após o adeus, na Rua Ultrecht, meu pai simplesmente te chamou:
“Vamos caminhar.”
Não era passeio. Era um rito.
Era processo de luto em batch, sem manual, sem restart.
Nós saímos, dois sobreviventes carregando o nome Bellacosa no bolso. Fizemos um trajeto quase mítico:
📍 Vila Rio Branco → Vila Alpina
A pé. 14 km. Eu pequenino e com 8 anos — ele com o coração estourado.
Cada metro era memória, cada boteco era checkpoint. Eu tomando Gini caçulinha— ele cerveja. Eu ouvindo sobre o velho Luigi como quem recebe runas — ele tentando segurar o universo.
E naquele caminho longo, entre ruas de terra, poeirento, grande avenidas com muito automóveis e um dia cheio de sol, suor e história, nasceu algo raro:
Eu deixou de ser só filho — virei herdeiro.
Não de dinheiro, mas de mitologia.
E o Bellacosa entendeu que linhagem não é sangue — é lembrança repetida em voz emocionada.
Chegamos ao tio-avô Toninho. Que furioso não acreditava naquilo que meu pai havia feito. Reprimenda, jantar, mais histórias — por fim adormeci no sofá com odor de cozinha e saudade. Depois, mais na madrugada, partimos e fomos apanhando pelo caminho os ônibus negreiros, minha mãe aflita, meu pai silencioso. Chegamos a casa.
Um dia triste
uma caminhada épica
= a aventura que me costurou ao meu próprio clã.
🥀 Epílogo Amargo
O tempo roda o tambor. Meu avô Pedro parte. Eu não estava, nesta época vivendo em Portugal. Meu pai tropeça — não no corpo, mas na honra.
Magoa profundamente minha avó Anna, a matriarca que sustentou gerações.
E nasce fenda uma fenda na família Bellacosa — dor que não cicatriza.
O herdeiro de Luigi, gigante de Mooca,
termina só.
Silencioso em Taubaté,
como eco de trovão que já foi tempestade.
Trágico. Real. Humano.
📌 Registro imutável
Esse não é só um relato — é backup emocional gravado em fita magnética. Eu vi o guerreiro chorar. Caminhei no luto ao lado dele. Eu carrego o sobrenome como espada e memória.
E por mais que o tempo tenha levado uns, torturado outros
e dispersado o clã…
Luigi → Pedro → Seu Pai → Eu
A linha continua.
Porque eu lembro e conto.
Porque eu compartilho e continuo lembrando.
Quantos se lembraram, quantos se emocionaram, não sei, mas eu sempre guardarei esse dia.
E enquanto alguém lembrar,
nenhum Bellacosa morre de verdade.
Bellacosa Mainframe e o impacto do patriarca Luigi Bellacosa
Sobre Homens comuns e seu impacto na vida de um garoto
O HERÓI ORIGINAL DA LINHAGEM BEL LACOSA (E A PERDA DO REFERENCIAL AOS 12)** Por El Jefe – Bellacosa Mainframe Midnight
Há sempre um momento na vida em que alguém nos serve de bússola.
Quando criança, o mundo é uma constelação simples: pai, mãe, casa, ruas pequenas e a imensidão das histórias contadas na mesa de jantar. Era assim comigo até meus doze anos — quando o divórcio dos meus pais rompeu um eixo silencioso dentro de mim. Perdi o norte. Perdi a figura de referência. E, órfão daquele modelo masculino tão meu, acabei fugindo para um refúgio que muitos meninos daquela era também conheceram: os heróis de fantasia.
Livros, gibis da Abril, filmes da Sessão da Tarde, cavaleiros, samurais, bárbaros, jedis, mutantes, super-sentais e todo tipo de guerreiro improvável passaram a ocupar o espaço que antes era do meu pai.
Mas antes da fantasia, antes da ficção me adotar, existia algo infinitamente mais poderoso:
as histórias que meu pai contava do herói dele — meu bisavô Luigi.
E ali estava o mito fundador da linhagem Bellacosa.
O GIGANTE DE ATIBAIA – O PRIMEIRO “AVATAR” DA FAMÍLIA
Luigi era um gigante de quase dois metros,
olhos azuis de cortar o vento
e aquela força bruta dos napolitanos da velha guarda, que atravessaram o Atlântico sem medo e sem garantia.
Meu pai contava essas histórias com brilho nos olhos e voz cheia, como quem recita epopeia homérica na laje de casa.
E eu, garoto, achava aquilo tudo a coisa mais épica do mundo.
— “Seu bisavô tinha um sítio em Atibaia…”
— “Caçava no mato com a coragem de dez homens…”
— “Virou jogador do Juventus nos anos 20…”
— “Foi meter o nariz na política…”
— “Trabalhou como adjunto de delegado…”
— “Resolviiia tudo no braço, era encrenqueiro, mas justo…”
Era meu primeiro super-herói.
O Batman da Mooca.
O Conan da Quarta Parada.
O Aquiles que tomava Antártica no boteco enquanto olhava de rabo de olho o Palestra Itália — afinal, o irmão era um dos astros.
E eu ria ao imaginar aquele homem enorme, turrão, misturando português e italiano porque simplesmente se recusava a deixar que lhe proibissem sua língua durante a Segunda Guerra. A repressão policial não o dobrava — apenas o irritava.
Já que falei de irritar, isso é outra lenda de família, a bocas miúdas, quase que segredo marcial. Contavam que ele odiava homens que batesse na esposa, consta que na época de sub-delegado. As mulheres iam à delegacia dar queixa de violência domestica. Na madrugada, ele pegava a viatura, como um bom capo chamava uns dois ou três auxiliares, tutti buona genti. Dirigia até a casa do dito cujo, enfiava na viatura, levava num campinho de futebol, la para os lados dos baldios de Sapopemba, dava um belo enxerto de porrada e mandava o individuo tomar jeito, senão aconteceria novamente. Segundo a lenda, muitos que passaram por esse corretivo tomaram jeito na vida, afinal saco na cabeça e porrada no ermo na época eram bons corretivos.
Era fácil, muito fácil, para um menino de oito, nove, dez anos, olhar para tudo isso e pensar: “um dia quero ser como esse herói que meu pai tanto admira.”
A MO(O)CA E SUAS FRONTEIRAS MÍTICAS
As histórias sempre tinham um cenário forte:
a Mooca.
A zona italiana.
Aquele caldeirão de imigrantes onde o sotaque vale mais que RG.
Meu pai descrevia a Mooca antiga com quase a mesma reverência que falava do Luigi:
— espanhol cruzava a rua errada, dava briga;
— polonês pisava na zona dos italianos, confusão;
— português cochichava alto demais, pronto, já tinha discussão.
E dentro desse tabuleiro humano, Luigi reinava.
O “carcamano encrenqueiro”, como alguns chamavam — uns amavam, outros odiavam, mas todos respeitavam.
Porque havia homens que eram rocha.
Luigi era um monolito.
E ali estavam as raízes da família Bellacosa fincadas no cimento quente da Mooca.
O DIA EM QUE PERDI O NORTE
Mas então veio o divórcio.
E o menino que queria ser Luigi ficou sem mapa, sem bússola e sem narrativa.
É curioso como o ser humano sempre precisa de um modelo para sobrepor, igualar ou contrariar.
Quando o meu sumiu, entrei no mundo dos heróis de fantasia para tentar preencher aquele vácuo.
E talvez por isso eu tenha enxergado tanto encanto nos personagens que lutam contra o destino, que erram, que quebram, que se levantam, que treinam com espadas imaginárias ou enfrentam monstros mitológicos — porque de alguma forma eles eram ecos do Luigi que meu pai contava.
O HERÓI É A HISTÓRIA QUE SOBREVIVE
Hoje, adulto, percebo uma coisa linda:
Eu não conheci o Luigi pessoalmente no auge.
Mas conheci o olhar do meu pai ao falar dele.
E isso, meu amigo, vale mais que qualquer fotografia antiga.
É nas histórias que sobrevivemos.
É nas memórias que encontramos a bússola perdida.
E é no passado — o nosso passado — que os heróis continuam vivos, gigantes e risonhos, prontos para mais uma briga na Mooca.
A linhagem Bellacosa não nasceu grande — nasceu épica.
E continua assim cada vez que alguém conta, reconta e reaviva esses capítulos.
A lenda napolitana que virou bairro, virou história e virou mito
Todo bairro tem seus personagens.
Alguns são fofocas, alguns são sombras…
E outros, como o bisavô Luigi, são tão enormes que nem passam na porta da História:
entram derrubando o batente, sorrindo, com aquela força gentil que só os verdadeiros gigantes têm.
Eu o conheci quando já estava no ocaso — mas, mesmo assim, era maior que a vida.
👣 1. O Homem que a Mooca não esquecia
Imagine um homem com quase dois metros, forte como estivador do Porto de Nápoles, mas com olhar azul de mar tranquilo e cabelo castanho claro de mocinho de cinema mudo.
Luigi fez de tudo:
jogador profissional de futebol,
político improvisado,
representante comunitário,
operário de fábrica,
pedreiro,
e até delegado adjunto, daqueles que entram e resolvem sem precisar de BO, bastava um olhar.
Era bom de briga, fã de luta livre e, ao mesmo tempo, amigo dos animais, especialmente cachorros abandonados — o que lhe rendeu o apelido carinhoso de dogueiro da Mooca.
Homem de muitos amores e muitas histórias, um tipo que hoje chamariam de “lendário”, mas na época chamavam só de Luigi.
Tanta gente o amava quanto o temia.
E isso diz muito sobre um homem.
Mesmo em 1993, dez anos após sua morte, ainda se falava dele nas calçadas da Rua Javari, nas padarias, nos botecos, nas rodinhas de dominó.
Histórias verdadeiras e exageros folclóricos se misturavam, como boa tradição mooquense exige.
🩸 2. Um gigante de carne, osso, cicatriz e ausência
Quando o conheci, era criança — e para mim ele era um personagem de fábula.
Tinha uma cicatriz no rosto, resultado das caçadas nos tempos brutos;
e faltava-lhe uma orelha, levada por um tumor que enfrentou sem drama, como quem arruma uma infiltração na parede.
Falava num dialeto próprio:
meio italiano napolitano, meio português da Mooca, meio carcamano.
Uma língua tão única quanto ele.
Era bonachão, brincalhão e poderoso como um tronco velho de árvore centenária.
E, no entanto, havia em seus gestos uma doçura que só os grandes conhecem — porque só quem é gigante sabe o peso de machucar alguém sem querer.
Gostava de falar do seu tempo de futebolista, defendendo a camiseta grená, dos antigos jogos, da camisa suada e o orgulho de fazer parte da esquadra. O Juventus da Mooca era o seu coração.
👨👦 3. O dia em que vi meu pai pequeno
Meu pai sempre foi gigante para mim.
Mas, ao se aproximar do avô Luigi, ele diminuía — não em respeito, mas em amor.
Ele olhava o velho patriarca com um brilho que eu nunca vi em mais ninguém.
Um menino reverenciando seu mito.
Até hoje acho que meu pai amava mais o avô do que ao próprio pai, e não há nada de errado nisso:
alguns vínculos são simplesmente mais fortes, mais formadores, mais eternos.
Quando Luigi morreu em 1982, vi um pedaço do meu pai desabar.
E, meses antes, já havíamos perdido outro gigante: tio-bisavô Arthur, o primeiro “Dudu” do Palmeiras lá pelos anos 1930.
Dois irmãos napolitanos que vieram ao Brasil, plantaram raízes na Mooca e viraram mitologia de boteco, arquibancada e vizinhança.
A dupla Luigi & Dudu era tão grande que parecia tirada de um romance épico italiano.
Quando um se foi, o outro não demorou.
E o bairro inteiro chorou.
🏘️ 4. A Mooca dos Gigantes
A Mooca do início do século XX não era bairro:
era um território de imigrantes cansados, sonhadores, briguentos e apaixonados.
Um mundo onde cada esquina tinha um pedaço de Europa, América e fantasia.
Para mim, criança de 8 anos vendo tudo de baixo, pareceram heróis mitológicos:
homens fortes como os de Homero, mas com corações enormes como histórias de família costumam ter.
E hoje percebo:
os Bellacosa daquela época eram parte da paisagem, como os trilhos, os armazéns, o cheiro de pão fresco e o grito "Ô loco, meu!" ecoando no bairro.
Eles eram os gigantes que carregaram a Mooca nas costas.
E eu cresci com a sorte de ouvir suas histórias de dentro, não da calçada.
📚 5. Por que lembramos dos gigantes?
Porque gigantes não são feitos de altura.
São feitos de:
impacto,
amor,
personalidade,
exagero,
coragem,
defeitos épicos,
e uma presença tão forte que 40 anos depois ainda deixa sombra.
Luigi foi tudo isso.
Um capítulo vivo da Mooca.
Um homem tão grande que, mesmo velhinho, mesmo doente, mesmo com uma orelha só…
ainda assim ocupava o ambiente inteiro, o respeito inteiro — e o imaginário inteiro de quem o conheceu.
🖋️ Epílogo: o menino que viu gigantes
Hoje, ao recordar, entendo que minha memória não exagera:
meu bisavô era mesmo maior do que eu podia captar.
E talvez seja isso que faz certas famílias serem especiais:
não o sangue, não o sobrenome, mas as histórias que atravessam gerações e continuam vivas, mesmo quando quem viveu já virou saudade.
A Mooca teve muitos personagens.
Mas o Gigante Luigi Bellacosa continua caminhando por lá, invisível,
presente em cada lembrança,
em cada conto exagerado,
em cada sorriso que começa com um “você lembra do Luigi?”.
E é assim que os gigantes permanecem:
não nas fotos, não nos documentos —
mas na memória dos que tiveram o privilégio de viver à sua sombra.
🐟 A Truta Maluca de Milão — Pizza, Vinho e Besteirol na Dolce Vita
Uma noite em Milão, pizza preparada pelo próprio Luigi, um bom vinho italiano e dois amigos queridos. Tudo caminhava para mais um agradável serão à italiana — até que descobri, pendurado na parede, um peixe de gosto absolutamente duvidoso que cantava e dançava.
Existem lembranças que sobrevivem porque foram importantes.
E existem aquelas que sobrevivem justamente porque não tinham importância nenhuma.
Esta pertence orgulhosamente à segunda categoria.
Voltamos à minha dolce vita italiana.
Estamos em Milão, na casa de meus amigos Luigi e Ornella, aproveitando um daqueles serões que não precisam de programação, ingresso ou qualquer grande acontecimento para se tornarem inesquecíveis.
Havia conversa.
Havia amizade.
Havia um bom vinho italiano.
E, principalmente, havia pizza.
Mas não uma pizza qualquer.
🍕 Luigi assume o comando da cozinha
A pizza daquela noite havia sido preparada pelo próprio Luigi.
E existe algo muito especial quando alguém prepara comida para receber os amigos.
O jantar deixa de ser simplesmente uma refeição.
A cozinha vira parte do encontro.
A pizza chega à mesa, alguém corta mais um pedaço, outro copo recebe um pouco de vinho, a conversa continua e, quando percebemos, já estamos há horas fazendo aquilo que talvez seja uma das coisas mais antigas e humanas do mundo:
sentados ao redor de uma mesa contando histórias.
Nada extraordinário precisava acontecer.
Na verdade, provavelmente seria apenas mais uma deliciosa noite entre amigos em Milão.
Só que havia uma truta esperando sua oportunidade.
🍷 Depois de alguns copitos...
Não sei exatamente quantos copos de vinho foram necessários para que aquele objeto finalmente chamasse minha atenção.
Talvez estivesse ali desde que cheguei.
Mas certas obras de arte exigem um estado de espírito específico para serem devidamente apreciadas.
E aquilo certamente era uma delas.
Pendurado como se fosse um glorioso troféu de pesca, havia um peixe.
Ou melhor:
uma imitação de peixe empalhado.
Daqueles enfeites provavelmente fabricados aos milhares em alguma linha de produção chinesa, cuja existência desafia simultaneamente o bom gosto, a decoração de interiores e qualquer tentativa racional de responder à pergunta:
"Por que alguém fabricou isso?"
Mas havia uma pergunta ainda melhor:
"O que acontece se eu apertar aqui?"
Jamais faça essa pergunta depois de alguns copitos de vinho.
Ou melhor...
Faça.
🐟 A truta acordou
Apertei o botão.
E o peixe ganhou vida.
Começou a tocar uma daquelas músicas eletrônicas absolutamente sintéticas, com timbres que provavelmente fariam qualquer músico profissional abandonar a sala.
Mas isso ainda não era tudo.
O peixe começou a dançar.
A criatura se movimentava presa ao seu suporte como se tivesse acabado de descobrir que sua verdadeira vocação não era terminar assada com batatas, mas iniciar uma carreira no mundo do entretenimento.
E pronto.
Acabara a dignidade daquela noite.
Começamos a rir.
Quanto mais aquela coisa se mexia, mais engraçada ficava.
Quanto mais sintética era a música, melhor.
E depois de alguns copos de vinho italiano, aquele monumento ao gosto duvidoso havia se transformado na maior atração de Milão.
Esqueça o Duomo.
Esqueça a Galleria Vittorio Emanuele II.
Esqueça a Última Ceia de Leonardo.
Naquela noite, a atração turística mais importante da Lombardia estava pendurada na parede da casa de Luigi e Ornella.
E dançava.
😂 Besteirol puro
Era besteirol.
Besteirol absoluto.
E justamente por isso era maravilhoso.
Não havia mensagem filosófica.
Não havia roteiro.
Não havia objetivo.
Ninguém estava tentando produzir conteúdo.
Éramos simplesmente amigos rindo de uma coisa completamente idiota.
E talvez seja justamente aí que esteja a importância dessa pequena gravação.
Quando pensamos nas lembranças que queremos preservar, normalmente imaginamos aniversários, viagens, casamentos, monumentos, festas e acontecimentos importantes.
Mas a vida não acontece apenas nesses momentos.
Boa parte dela acontece entre eles.
Naquela conversa depois do jantar.
No último pedaço de pizza.
Na garrafa de vinho aberta sobre a mesa.
Na piada que ninguém mais entenderia.
Naquela porcaria pendurada na parede que alguém aperta e, inexplicavelmente, faz todo mundo começar a rir.
📹 Naturalmente, eu precisava filmar
Evidentemente, apareceu a câmera.
Porque uma truta de plástico cantando e dançando depois de uma noite de pizza e vinho em Milão era importante demais para depender apenas da memória.
Na época, provavelmente parecia apenas mais um pequeno vídeo divertido.
Anos depois, porém, essas imagens assumem outra função.
Elas se transformam em pequenas cápsulas do tempo.
A filmagem não registra somente um peixe dançando.
Registra uma casa.
Uma noite.
Vozes.
Risadas.
Amigos.
Um pedaço da minha vida na Itália.
E isso muda completamente o valor daquele vídeo.
O brinquedo poderia quebrar.
A música eletrônica poderia parar.
A pilha poderia acabar.
Aquele objeto poderia desaparecer durante alguma mudança.
Mas durante alguns segundos gravados naquela noite, Luigi, Ornella, eu e aquela truta continuamos exatamente ali.
Pizza na barriga.
Vinho no copo.
E nenhuma intenção de levar a vida muito a sério.
🇮🇹 A verdadeira Dolce Vita
Quando se fala em Dolce Vita, normalmente aparecem imagens sofisticadas da Itália.
Roma.
Fontes.
Vespas.
Cafés.
Moda.
Restaurantes elegantes.
Milão certamente poderia fornecer tudo isso.
Mas minha dolce vita também tinha essa outra versão.
Muito mais simples.
A casa dos amigos.
Pizza feita pelo próprio Luigi.
Um bom vinho italiano.
Conversa prolongada.
E um peixe eletrônico completamente ridículo.
Talvez essa seja uma definição muito melhor de dolce vita.
Não necessariamente luxo.
Mas o privilégio de estar em um lugar onde você pode simplesmente sentar, comer, beber, conversar e rir até de uma truta de plástico.
🐟 Décadas depois, o peixe continua dançando
Quando publiquei originalmente essa pequena história, em 2012, ela era praticamente um registro rápido daquele momento.
Hoje olho para ela de maneira diferente.
Porque o tempo muda o significado das coisas.
Aquilo que naquele momento era apenas besteirol passa a carregar contexto.
Milão.
Minha vida na Itália.
Luigi.
Ornella.
A pizza.
O vinho.
A casa deles.
As conversas.
E aquela sensação maravilhosa de que a noite não precisava chegar a lugar nenhum.
Talvez seja justamente por isso que continuo gostando de recuperar essas gravações antigas.
Elas provam que nem toda memória precisa ser épica para merecer sobreviver.
Às vezes basta uma câmera ligada no momento certo.
Alguns amigos.
Uma pizza.
Uma garrafa de vinho.
E, naturalmente...
uma truta maluca cantando e dançando na parede.
🐟🎶
E se algum arqueólogo digital encontrar este vídeo daqui a cem anos e tentar compreender os costumes dos seres humanos no início do século XXI, deixo registrada minha contribuição científica:
sim, nós fabricávamos peixes de plástico que cantavam.
E pior.
achávamos engraçado.
Depois de alguns copitos de vinho, então...
achávamos absolutamente genial.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Porque algumas memórias são preservadas em fotografias, outras em documentos — e algumas, inexplicavelmente, ficam guardadas dentro de uma truta eletrônica pendurada na parede.
Ter amigos é uma coisa fantástica, poder ir ate eles ou receber-los em casa. Uma boa jantarada tagarelando banalidades por algumas horas. Uma conversa neutra sem objectivos de ganhar ou perder apenas diversão garantida.
Este video gravei na casa do Luigi e da Ornela, depois de uns copitos de vinho, descobri uma truta maluca na parede.
Ao descobrir que ela cantava e dançava foi gargalhadas generalisadas, maníaco por fotos como sou, não deixei de gravar este pequeno video.
Bellacosa Mainframe e a grande expdeicao a vila alpina
A Grande Expedição à Vila Alpina
(por Bellacosa, Oni explorador e testemunha ocular do bombom de licor)
Existem viagens que, mesmo acontecendo a poucos quilômetros de casa, tinham a magnitude de uma epopeia.
E para nós, três pequenos Onis dos anos 1970, ir à Vila Alpina era praticamente atravessar um portal dimensional.
Ali morava um pedaço inteiro da família — o velho bisavô Luigi, sempre de cara fechada; os tio-avós Antonio e Maria, sempre de coração aberto; as primas Denise e Patrícia; a vizinha Renata, que parecia ter sido enviada pelos deuses do entretenimento infantil; e uma fauna de cachorro que era digna de mitologia própria.
🧓🇮🇹 O bisavô Luigi — O Titã da Mooca
Luigi era bruto como o aço, silencioso como monge budista e bravo como fiscal de CICS pegando programa sem HANDLE CONDITION.
Falava um italiano carregado com sotaque da Mooca — algo entre ópera, bronca e poesia.
Eu, pequenino, ficava ali escutando, tentando traduzir:
“Minghia, sto ragazzo…”
Era italiano? Era mooca? Era feitiçaria?
Nunca saberemos.
Meu pai, que não se dobrava diante de ninguém, virava manteiga derretida perto dele.
E eu achava aquilo um espetáculo antropológico fascinante.
🐕 A cachorra do leite empedrado e o coração mole do velho Luigi
Numa dessas visitas, lembro claramente de uma cachorra velha, sofrida, com leite empedrado.
Luigi cuidava dela com um cuidado quase religioso.
E aí vinha sempre a lenda:
“Luigi vivia recolhendo cachorro abandonado, doente, cego, manca, sem dente… tudo ia parar ali.”
E, quando a vizinhança reclamava do excesso de doguinhos — coisa que acontecia com frequência — ele dava um suspiro, praguejava em ítalo-mooca e… levava o pelotão inteiro para a chácara em Atibaia, onde cada cão ganhava um destino digno de novela rural.
Luigi era bravo.
Mas o coração?
Ah… esse era pixelado em 16 cores de pura bondade.
🏡 A Casa dos Tio-Avós — O Paraíso Alternativo dos Onis
Se Luigi era o chefe final,
então Tio-Avô Antonio e Tia-Avó Maria eram o “checkpoint” onde a vida ficava mais fácil.
Toninho trabalhava no Juventus e, para nós, ganhar uma bola usada era como receber o Santo Graal versão futebolística.
Bola nova?
Impossível.
Bola gasta de estádio?
Status de nobreza infantil.
Mas o verdadeiro paraíso era o quintal.
E QUE quintal!
plantas por todo lado
cheiro de terra molhada
sol entrando entre as folhas
e o tesouro supremo: o canteiro de morangos
Nós ajudávamos a regar, o que significava:
20% água nos morangos
80% água nos Onis
100% bagunça
E Tia-Avó Maria ria.
Sempre ria.
Como se tudo aquilo fosse parte essencial da infância.
E era.
🍰 A Cristaleira do Poder
Mas Jefe…
Entre todas as maravilhas, havia uma joia sagrada:
a cristaleira com bombons de licor.
Aquilo era item proibido.
Item de adulto.
Item de visita.
O que, claro, significava que os Onis queriam DE QUALQUER JEITO.
Quando um dos adultos distraía, o outro virava a esquina, e o terceiro falava alto na sala…
PÁ!
Mãozinha furtiva, bombom sequestrado, energia máxima liberada.
Sim — crianças comendo chocolate com licor.
Era outro tempo, Jefe.
Ninguém morreu.
E a infância ganhou um patch de +10 felicidade.
👧🤣 A Renata — A vizinha que valia uma temporada inteira de TV
Renata era o tipo de criança que transformava o dia em episódio especial.
Brincava, gritava, corria, contava histórias, inventava jogos —
ela era tipo o Z/OS Connect da diversão: integrava tudo e todos.
Encontrá-la era certeiro:
horas de risadas e zero chance de tédio.
🎞️ A Grande Lição da Vila Alpina
Ir à Vila Alpina não era só visitar parentes.
Era:
ouvir histórias da Itália sem legenda
ganhar bolas semi-aposentadas com status de Copa do Mundo
brincar até escurecer
comer morangos direto do canteiro
assaltar cristaleiras com bombons proibidos
observar a complexa diplomacia do velho Luigi com seus doguinhos
sentir um pedaço da família que o tempo não apaga
E, principalmente, era eu — pequenino —
tentando entender aquela gente toda,
suas manias, seus silêncios, suas risadas,
e tentando descobrir onde eu, um Oni mirim,
encaixava naquele mosaico afetivo.
🎂 Vivi Days
No fim das contas, acho que me encaixava em tudo. A Vivi ficava maravilhada, afinal, tio-avõ Toninho e sua esposa Maria eram padrinhos de batismo dela, logo ela era o centro das atenções, a pequena bonequinha loira. Para minha irmã era festa em dobro, alegria infinita em rever os padrinhos. Lembrando hoje é dia dela, 8 de dezembro, uma data sempre festiva para o Clã Vivi. Parabéns maninha.
🚌 Meu terror andar de onibus
A jornada não era das mais fáceis, sair da Vila Rio Branco de condução até a Vila Alpina precisava de muito conhecimento estratégico e logístico. A cidade de São Paulo tem um problema incrível no Transporte Publico, em que o sistema não foi pensado em transportar pessoas, mas atender empresários e montadoras de ônibus. Abandonaram os trilhos e levou quase 50 anos para o Metrô realmente furar toda a cidade, somente quando não era mais possível abrir avenidas. Enfim, às vezes o antigo Fusca Azul era acionado e nos levava, porém, o grande problema eram as paradas emergências, para substituir alguma peça defeituosa e ter dinheiro para o conserto. Ai a solução e o jeito era apelar para o bom e velho busão.
Um outro grande detalhe, isso uma grande ironia: eu quando viajo em veículos, fico com tontura e enjoo. Então grandes viagens no município poluído e caótico de São Paulo do final do século XX, acabavam comigo, mas o prazer de rever os parentes era maior, mas esse que vos escreve tinha grandes problemas e muitas vezes, para terror do pessoal da limpeza, deixava o ônibus um pouco sujo. :(
Ou: quando Luís tinha três anos, a lareira estava acesa e três esquilinhos de Natal ainda sabiam cantar
Existem backups que fazemos porque somos profissionais responsáveis.
Existem backups porque o auditor exige.
Existem aqueles que ninguém sabe exatamente por que ainda estão guardados, mas todo mundo tem medo de apagar.
E existem alguns poucos que não estão em fita, disco, nuvem ou cartucho.
Estão dentro da gente.
Às vezes passam anos sem serem montados.
Até que alguma coisa — uma música, um cheiro, uma fotografia, um enfeite velho encontrado no fundo de uma caixa — executa silenciosamente:
RESTORE MEMORIA.NATAL.2000
E, de repente, tudo volta.
A árvore.
A lareira.
Os presentes.
A família.
E um pequeno Luís, com apenas três anos de idade, olhando para o Natal como somente uma criança consegue olhar.
Como se aquilo tudo fosse absolutamente verdadeiro.
🎄 A árvore não era uma árvore
Para um adulto, árvore de Natal é decoração.
Você monta.
Desembaraça aquele maldito pisca-pisca que passou onze meses dentro de uma caixa desenvolvendo espontaneamente técnicas avançadas de macramê.
Pendura bolas.
Coloca alguns enfeites.
Tenta descobrir por que metade das lâmpadas não funciona.
E pronto.
Árvore montada.
Para uma criança de três anos, porém, aquilo era outra coisa.
Era uma instalação mágica no meio da sala.
Durante quase todo o ano aquele espaço obedecia às leis normais da física doméstica.
Mas chegava dezembro e aparecia ali uma árvore coberta de luzes, cores, pequenos personagens e objetos brilhantes.
O mundo havia mudado.
E ninguém parecia particularmente preocupado com isso.
Os adultos continuavam andando pela casa normalmente.
Luís, provavelmente, ainda não tinha aprendido essa estranha capacidade que adquirimos depois de crescer:
a capacidade de deixar de achar maravilhoso aquilo que vemos todos os anos.
Para ele, cada luz merecia ser observada.
Cada enfeite tinha importância.
Cada pacote que aparecia debaixo da árvore era um novo mistério colocado em produção.
E havia uma pergunta fundamental:
o que será que tem ali dentro?
🐿️ Então entravam em produção os esquilinhos
Ah, os esquilinhos cantantes.
Hoje podemos descrevê-los friamente.
Brinquedos natalinos.
Decoração eletrônica.
Pequenos bonecos mecânicos que cantavam músicas de Natal.
Tudo tecnicamente correto.
E absolutamente incapaz de explicar o que eles realmente eram.
Porque dentro daquela casa, naquele Natal, aqueles esquilinhos faziam parte do espetáculo.
Cantavam.
Mexiam-se.
Animavam os enfeites.
E havia um menino de três anos assistindo.
A engenharia interna podia ser ridiculamente simples: um pequeno motor elétrico, algumas engrenagens, alto-falante, pilhas e um circuito provavelmente mais humilde que muita calculadora de bolso.
Mas experimente explicar isso para Luís.
Não.
Os esquilos cantavam.
Fim da documentação técnica.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da infância.
A criança ainda não precisa desmontar a magia para compreender o mecanismo.
Nós, adultos, olhamos e pensamos:
motor, pilha, engrenagem, gravação.
A criança olha e pensa:
O ESQUILO ESTÁ CANTANDO!
E quem dos dois realmente entendeu melhor aquele Natal?
Tenho minhas dúvidas.
🔥 E havia uma lareira acesa
Essa parte muda tudo.
Porque Natal também é cheiro.
É temperatura.
É som.
É luz.
A lareira acesa transformava a sala.
O fogo crepitava enquanto as luzes da árvore piscavam.
De um lado, aquele amarelo vivo das chamas.
Do outro, pequenas luzes coloridas espalhadas pelos galhos.
E entre essas duas fontes de luz estava a família.
Talvez conversando.
Talvez rindo.
Talvez alguém reclamando de alguma coisa absolutamente irrelevante que, vinte anos depois, ninguém conseguiria sequer recordar.
É curioso.
Naquele momento ninguém provavelmente pensava:
“Estamos vivendo uma memória que um dia será preciosa.”
Nós nunca pensamos.
Esse é um dos grandes bugs da existência.
Os momentos mais importantes raramente aparecem acompanhados de uma mensagem:
ICH00001I ATENÇÃO: MOMENTO FELIZ EM EXECUÇÃO
Não existe alerta.
Não aparece janela perguntando:
Deseja salvar este instante permanentemente?
Você simplesmente vive.
A criança brinca.
Alguém coloca mais lenha na lareira.
Os esquilos cantam outra vez.
Uma pessoa atravessa a sala.
Outra tira uma fotografia.
Alguém ri.
E o instante passa.
Só muitos anos depois descobrimos que aquilo foi gravado.
🎁 Debaixo da árvore existia o maior datacenter de mistérios do universo
Os presentes.
Para uma criança de três anos, um pacote embrulhado é praticamente uma falha deliberada de segurança da informação.
Existe alguma coisa ali.
Os adultos sabem o que é.
Ele não sabe.
Portanto, naturalmente, começa uma operação de inteligência.
Sacudir discretamente.
Examinar dimensões.
Tentar olhar pelas laterais.
Avaliar peso.
Comparar com brinquedos conhecidos.
Perguntar:
— O que é?
Receber a resposta universal dos adultos:
— Depois você vai descobrir.
Uma crueldade psicológica perfeitamente aceita durante o Natal.
E então chegava o momento de abrir.
O papel, cuidadosamente colocado algumas horas antes, adquiria expectativa de vida inferior à de um job submetido com JCL errado.
Rasga daqui.
Fita adesiva voando dali.
Caixa aberta.
Olhos arregalados.
E naquele momento o objeto quase importava menos que a descoberta.
Porque havia felicidade.
Daquela felicidade infantil que ainda não aprendeu a fazer análise de custo-benefício.
👨👩👦 Mas o verdadeiro Natal estava em volta da árvore
É isso que os anos ensinam.
Na época olhamos as fotografias e vemos os presentes.
Depois de algumas décadas, olhamos novamente e vemos as pessoas.
Quem estava sentado naquele sofá?
Quem colocou os presentes ali?
Quem preparou a comida?
Quem riu daquela piada?
Quem acendeu a lareira?
Quem apertou o botão para fazer os esquilinhos cantarem pela décima sétima vez porque uma criança de três anos queria ouvir novamente?
É aí que a fotografia muda.
Quando somos jovens, enxergamos o cenário.
Quando envelhecemos, começamos a enxergar o tempo.
E percebemos uma coisa extraordinária:
éramos felizes e talvez nem soubéssemos exatamente o tamanho daquela felicidade.
Não porque tudo fosse perfeito.
Famílias nunca são.
Casas nunca são.
Natais nunca são.
Certamente alguém se irritou.
Alguma coisa queimou na cozinha.
Alguém chegou atrasado.
Talvez faltasse uma pilha justamente no brinquedo que precisava de quatro.
Provavelmente existiram pequenas discussões e contratempos.
Mas a memória possui seu próprio sistema de compressão.
Ela vai descartando os arquivos temporários.
E conserva aquilo que realmente interessa.
A árvore iluminada.
A lareira.
Os presentes.
Os esquilos cantando.
E Luís com três anos.
🧒 Três anos
Há algo quase brutalmente bonito nessa idade quando observada muitos anos depois.
Porque naquela época parecia normal.
Luís tinha três anos.
No ano seguinte teria quatro.
Depois cinco.
Seis.
Dez.
Quinze.
Dezoito.
A matemática é simples.
O coração não acha graça nenhuma nela.
Porque aquele menino específico existiu durante pouquíssimo tempo.
O Luís de três anos teve aproximadamente 365 dias de produção.
Depois recebeu upgrade obrigatório.
LUIS.V3 → LUIS.V4
E nunca mais foi possível fazer rollback.
Claro que continua sendo Luís.
Mas aquela voz, aquele tamanho, aquela maneira de olhar os esquilinhos, aquela compreensão particular do mundo...
pertencem àquela versão.
Descontinuada.
Sem suporte oficial.
Mas perfeitamente executável dentro da memória do pai.
🐿️ E os esquilinhos continuam cantando
Essa talvez seja a parte mais curiosa.
Objetos sobrevivem de maneiras estranhas.
Às vezes desaparecem.
Quebram.
São guardados.
Mudam de casa.
Ficam décadas dentro de caixas.
Ou simplesmente somem naquela misteriosa dimensão paralela onde vivem meias sem par, cabos de equipamentos que ninguém mais possui e controles remotos de aparelhos aposentados em 2007.
Mas alguns objetos deixam de ser objetos.
Viram ponteiros.
Você pensa no esquilinho e ele aponta para a árvore.
A árvore aponta para a sala.
A sala aponta para a lareira.
A lareira aponta para a família.
E a família aponta para um pequeno menino de três anos.
Pronto.
Um brinquedo eletrônico barato acaba de montar um filesystem inteiro dentro da cabeça.
☕ Talvez seja isso a saudade
Durante muito tempo achei curioso quando as pessoas tratavam saudade apenas como tristeza.
Não é.
Pelo menos não necessariamente.
Existe uma saudade que dói.
Mas existe também aquela saudade boa.
A que faz sorrir antes de apertar um pouquinho o peito.
Você olha para trás e não pensa:
“Eu quero voltar.”
Porque sabemos que não podemos.
E talvez nem devêssemos.
Você pensa:
“Que bom que eu estive lá.”
Que bom que houve aquela casa.
Que bom que aquela árvore existiu.
Que bom que a lareira esteve acesa.
Que bom que havia presentes espalhados.
Que bom que aqueles ridículos e maravilhosos esquilinhos cantavam.
Que bom que a família estava ali.
E, principalmente:
que privilégio ter conhecido Luís com três anos.
🎄 O Natal que nunca termina
Talvez um dia alguém encontre uma fotografia daquele Natal.
Talvez veja apenas uma criança, uma árvore e alguns enfeites antigos.
Quem olhar de fora não ouvirá nada.
Fotografias são terrivelmente silenciosas.
Mas quem estava lá consegue ouvir.
Consegue ouvir a lenha estalando.
As conversas.
As risadas.
O papel dos presentes sendo rasgado.
E, em algum canto daquela memória, três pequenos esquilos eletrônicos iniciando novamente sua apresentação natalina.
Talvez Luís nem se lembre de todos os detalhes.
É natural.
Ele tinha três anos.
Mas alguém lembra.
E enquanto alguém lembrar, aquele Natal continua existindo em algum pequeno volume protegido do grande mainframe da memória.
Sem necessidade de energia.
Sem contrato de suporte.
Sem risco de obsolescência.
Hoje a árvore pode ser outra.
Os presentes certamente são outros.
As pessoas cresceram.
Algumas casas ficaram para trás.
A vida executou milhares de jobs desde então.
Mas existe uma pequena LPAR que nunca foi desligada.
Lá é Natal.
A lareira continua acesa.
A árvore está iluminada.
Os presentes ainda esperam para ser abertos.
A família está reunida.
E um pequeno Luís de três anos olha fascinado para alguns esquilinhos que começaram a cantar.
Não precisamos voltar.
Basta lembrar.
E sorrir.
Porque algumas das coisas mais bonitas que possuímos não estão no presente.
Também não ficaram exatamente no passado.
Elas simplesmente passaram a morar conosco.
☕🎄🐿️
E, enquanto houver alguém capaz de executar aquele velho RESTORE, os esquilinhos continuarão cantando.
Feliz Natal do pequeno Luigi para a famiglia Bellacosa. O pequenino Luigi aprontando arte, brincando com os Esquilinhos dançantes. Na época para ele era uma loucura ouvir esses esquilinhos, ele adorava brincar, agarrar, abraçar, apertar as musiquinhas sempre fazendo bagunca com eles.
Bellacosa Mainframe e as brincadeiras do pequeno Luigi
👦 Brincadeiras de Criança — Memórias de 2009
Pequenos momentos que o tempo transforma em grandes lembranças
Existem momentos que, quando acontecem, parecem absolutamente comuns. Uma brincadeira, algumas caretas, risadas e uma câmera ligada por alguns minutos. Naquele instante ninguém imagina que, muitos anos depois, aquelas imagens se transformarão em uma pequena máquina do tempo.
Era dezembro de 2009.
Luigi ainda era pequeno e estava naquela maravilhosa fase em que praticamente qualquer coisa podia virar brincadeira. Bastava uma careta, uma palavra diferente ou uma provocação do papai para começar uma nova sequência de risadas.
E lá estava ele, distribuindo beijinhos e abraços para a Tia Nana, enquanto a câmera registrava aquela pequena bagunça familiar.
Também tinha frio, brincadeiras e até aquela história de “cheirinho ruim” que fazia parte da diversão. 😄
Nada extraordinário aconteceu naquele dia.
E talvez seja exatamente por isso que este registro seja tão especial.
Quando pensamos nas lembranças da infância, normalmente imaginamos aniversários, viagens, Natal ou grandes acontecimentos. Mas boa parte da nossa história é construída justamente nesses intervalos: uma tarde em casa, uma conversa engraçada, uma criança fazendo careta para a câmera.
Hoje, olhando novamente para esse vídeo tantos anos depois, percebemos algo que em 2009 talvez fosse impossível compreender completamente:
o tempo passa assustadoramente rápido.
As crianças crescem. Os brinquedos desaparecem. As casas mudam. As pessoas seguem seus caminhos.
Mas algumas imagens permanecem.
Foi justamente para isso que este blog também nasceu: guardar pequenos pedaços da nossa história antes que eles desaparecessem na memória.
Por isso fica novamente registrado aqui aquele pequeno Luigi de dezembro de 2009, brincando com o papai, fazendo suas caretas e mandando seus beijinhos.
Brincadeiras de criança, memoria do Luigi a enviar beijinhos a Tia Nana...
Nanazinha com carinho e amor do seu pequeno sobrinho Luigi, um super beijo para começar 2010 com ótimo estilo.
Fim de ano, 2009 terminando e o pequeno Luigi bem animado, brincando com seu pai lelé, mandando muitos beijos e abraços....
Ficando com frio e fazendo careta por causa do cheirinho ruim, ai esse pequeno é um barato, que rapazola fofo... te amo pequenino.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
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Mainframe desde 1988