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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Nós, os Vivos, Éramos os Mortos: Quando o Mundo Parou e a Última Praça Pública Era a Janela

 

Bellacosa Mainframe e a pandemia do covid 19

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe — Especial

Nós, os Vivos, Éramos os Mortos: Quando o Mundo Parou e a Última Praça Pública Era a Janela

🪟 Papel higiênico, entregadores, violência doméstica, política, curas milagrosas, covas, Netflix e o panelaço que me fez voltar instantaneamente a Madri em 2004

Existem acontecimentos históricos que você acompanha pela televisão.

Existem aqueles que acontecem na cidade onde você está.

E existe uma terceira categoria, muito mais rara e assustadora:

o acontecimento acontece em todos os lugares ao mesmo tempo.

Não havia outro país para onde olhar.

Não havia outro continente funcionando normalmente.

Não havia um aeroporto onde fosse possível embarcar e simplesmente sair da história.

Nova York parou.

Madri parou.

São Paulo parou.

Roma parou.

Paris parou.

Tóquio parou.

Pequenas cidades pararam.

Grandes cidades pararam.

Aeroportos ficaram vazios.

Escritórios ficaram vazios.

Escolas ficaram vazias.

Restaurantes fecharam.

Fronteiras fecharam.

A humanidade inteira recebeu praticamente a mesma mensagem:

Fique em casa.

Era 2020.

E, pela primeira vez em minha vida, parecia que o roteirista maluco responsável pelo planeta havia finalmente conseguido algo que nem os melhores filmes-catástrofe ousavam tentar:

parar o mundo.


🧻 O apocalipse começou pelo papel higiênico

Talvez daqui a cem anos algum historiador tente compreender o comportamento humano durante as primeiras semanas da pandemia.

Espero sinceramente que ele encontre boas fontes.

Porque, se depender apenas das fotografias dos supermercados, poderá concluir que a COVID-19 atacava prioritariamente o sistema digestivo.

As prateleiras de papel higiênico começaram a desaparecer.

Carrinhos abarrotados.

Pacotes enormes.

Pessoas disputando rolos.

E eu me lembro de pensar:

Por que diabos alguém está estocando papel higiênico numa pandemia?

Era uma doença respiratória.

Mas a humanidade aparentemente decidiu que, antes de compreender vírus, máscaras, transmissão e quarentena, precisava garantir que jamais faltariam condições adequadas para limpar a bunda.

É engraçado hoje.

Naquele momento, porém, aquilo dizia alguma coisa importante.

Não estávamos comprando apenas papel.

Estávamos tentando comprar controle.

Diante de uma ameaça invisível, desconhecida e aparentemente incontrolável, colocar vinte pacotes dentro de um carrinho talvez produzisse a sensação de que pelo menos alguma coisa estava sob nosso domínio.

O medo havia entrado no supermercado.


🛒 Depois começaram a desaparecer outras coisas

Álcool.

Máscaras.

Produtos de limpeza.

Macarrão.

Arroz.

Feijão.

Enlatados.

E começaram também as perguntas.

Quanto tempo isso vai durar?

Duas semanas?

Um mês?

Três meses?

Vai faltar comida?

Os bancos vão funcionar?

Meu emprego continuará existindo?

Posso visitar meus pais?

Posso abraçar alguém?

Posso pegar elevador?

A sacola do supermercado transmite?

Preciso limpar cada embalagem?

Quanto tempo o vírus permanece numa superfície?

E aquela tosse?

É COVID?

É alergia?

É ansiedade?

Provavelmente nunca houve tanta gente observando a própria garganta simultaneamente.


🚪 FIQUE EM CASA

A mensagem parecia simples.

Fique em casa.

E, epidemiologicamente, reduzir contatos enquanto se compreendia o novo vírus fazia sentido.

Só havia um pequeno problema.

Para milhões de pessoas, ficar em casa era um privilégio.

A cidade precisava continuar funcionando.

Alguém precisava manter os hospitais.

Alguém precisava trabalhar nas farmácias.

Alguém precisava abrir o supermercado.

Alguém precisava transportar comida.

Alguém precisava dirigir.

Alguém precisava limpar.

Alguém precisava manter água, eletricidade, telecomunicações e sistemas bancários.

E alguém precisava levar até nossa porta aquilo que comprávamos pelo celular.


🛵 “Seu pedido está a caminho”

Poucas frases daquele período ficaram tão sinistras retrospectivamente:

“Seu pedido está a caminho.”

Nós estávamos protegidos dentro de casa.

O entregador estava lá fora.

Nós tocávamos numa tela.

Pizza.

Hambúrguer.

Remédio.

Mercado.

Comida japonesa.

Ração.

Qualquer coisa.

Alguns minutos depois aparecia no mapa uma pequena motocicleta.

Ela atravessava uma cidade estranhamente vazia.

Até nossa casa.

O sujeito deixava o pacote.

Às vezes nem havia contato.

E desaparecia novamente.

Essencial.

Essa palavra tornou-se uma espécie de condecoração durante a pandemia.

“Trabalhador essencial.”

Mas havia uma ironia amarga escondida nela.

Muitas vezes “essencial” significava:

“Não podemos viver sem o seu trabalho, portanto você continuará se expondo enquanto nós permanecemos protegidos.”

Havia dois mundos.

No primeiro, home office.

Notebook.

Internet.

Delivery.

Netflix.

Reunião por vídeo.

No segundo:

rua.

Ônibus.

Moto.

Hospital.

Supermercado.

Limpeza.

Risco.

A pandemia não inventou a desigualdade.

Apenas colocou iluminação de emergência sobre ela.


🏙️ A cidade dos protegidos e a cidade dos descartáveis

Do alto dos prédios, havia pessoas trabalhando remotamente em apartamentos confortáveis.

Na rua, outras pessoas atravessavam a cidade para manter aqueles apartamentos funcionando.

Era quase uma arquitetura social perfeita.

Redomas de vidro em cima.

Infraestrutura humana embaixo.

O mundo digital parecia ter vencido.

Reuniões migraram para telas.

Compras migraram para aplicativos.

Restaurantes viraram cozinhas invisíveis.

Escritórios viraram quartos.

Só que havia uma mentira confortável escondida nessa transformação:

o mundo nunca ficou realmente digital.

Atrás de cada botão continuava existindo alguém.

Você clicava:

COMPRAR

Um ser humano separava.

Outro embalava.

Outro carregava.

Outro dirigia.

Outro entregava.

A interface era digital.

O risco continuava analógico.


💰 E o dinheiro?

Então apareceu outro vírus.

Não biológico.

Econômico.

Empresas fecharam.

Projetos foram suspensos.

Contratos desapareceram.

Pessoas perderam renda.

Negócios que pareciam perfeitamente saudáveis algumas semanas antes começaram a morrer.

E eu também tive meu pequeno encontro particular com o apocalipse.

Minha conta corrente chegou a zero.

Zero.

Não “estou economizando”.

Não “este mês apertou”.

ZERO.

E existe uma sensação particularmente desagradável em observar o mundo inteiro entrando em colapso ao mesmo tempo em que seu próprio sistema financeiro pessoal decide acompanhá-lo.

Era como olhar para o extrato e receber:

BALANCE = 0

WORLD_STATUS = UNKNOWN

RECOVERY_DATE = NULL

Excelente.

Ground Control havia perdido contato com Major Tom novamente.


🧠 Ninguém sabia exatamente o que fazer

Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de reconstruir depois.

Hoje conhecemos muito mais sobre SARS-CoV-2.

Naquele começo, havia incerteza real.

Pesquisadores aprendiam.

Governos aprendiam.

Hospitais aprendiam.

A população aprendia.

Informações mudavam conforme surgiam evidências.

E nesse espaço entre “não sabemos ainda” e “precisamos fazer alguma coisa agora”, floresceu praticamente tudo.

Boa ciência.

Má ciência.

Hipóteses legítimas.

Boatos.

Charlatanismo.

Política.

Desespero.

Oportunismo.


💊 A farmácia virou campo de batalha

Medicamentos passaram a ser discutidos como se fossem times de futebol.

Hidroxicloroquina.

Ivermectina.

Combinações diversas.

Tratamentos precoces.

Receitas compartilhadas em WhatsApp.

Vídeos.

Médicos discordando.

Políticos opinando.

Influenciadores recomendando.

Parentes encaminhando mensagens com:

“REPASSE!!! MÉDICO NÃO QUER QUE VOCÊ SAIBA!!!”

Nunca tantos epidemiologistas haviam surgido simultaneamente numa lista de família.

E havia uma dificuldade genuína no meio daquele ruído:

como distinguir uma hipótese científica ainda em avaliação de uma certeza fabricada para consumo político?

A ciência dizia frequentemente:

“Precisamos de evidências.”

A internet respondia:

“Minha prima tomou e melhorou.”


⛪ E chegaram os feijões mágicos

Crises sempre atraem duas categorias de pessoas.

Aquelas que querem ajudar.

E aquelas que percebem uma oportunidade comercial.

A pandemia não foi diferente.

Apareceram curas.

Proteções espirituais.

Objetos milagrosos.

Promessas.

Profecias.

Receitas.

Teorias.

Havia líderes religiosos sérios tentando amparar comunidades assustadas.

E havia também gente vendendo, metaforicamente ou literalmente, feijões mágicos para pessoas desesperadas.

Porque existe uma regra antiga da humanidade:

quando o medo cresce, o mercado da certeza cresce junto.


🇧🇷 E tínhamos um presidente

No Brasil, tudo isso ganhou uma camada adicional.

Jair Bolsonaro minimizou repetidamente a gravidade da COVID-19, confrontou medidas de distanciamento adotadas por governadores e prefeitos e promoveu medicamentos cuja eficácia contra a doença não seria demonstrada de maneira confiável.

A pandemia tornou-se também uma batalha política.

Máscara virou política.

Vacina virou política.

Quarentena virou política.

Remédio virou política.

Abrir comércio virou política.

Fechar comércio virou política.

Até espirrar parecia correr o risco de adquirir filiação partidária.

E famílias começaram a brigar.


🗣️ DIREITA!

🗣️ ESQUERDA!

Grupos de WhatsApp transformaram-se em trincheiras.

Amigos brigaram.

Parentes brigaram.

Casais brigaram.

Colegas brigaram.

Um lado acusava o outro de irresponsabilidade.

O outro acusava o primeiro de histeria.

Todo mundo tinha gráficos.

Todo mundo tinha médicos.

Todo mundo tinha vídeos.

Todo mundo tinha “um amigo que trabalha em hospital”.

Todo mundo tinha absoluta certeza.

E havia uma ironia gigantesca:

o vírus não votava.

Não estava interessado em direita.

Não estava interessado em esquerda.

Não lia Twitter.

Não assistia televisão.

Não participava de manifestações.

Apenas se replicava.

E enquanto discutíamos...

os números subiam.


🏠 Maridos versus mulheres

Havia ainda outra guerra muito menos visível.

Aquela que acontecia dentro das casas.

A casa havia sido apresentada como lugar seguro:

“Fique em casa.”

Mas casa não é lugar seguro para todo mundo.

Nos primeiros dois meses das medidas de confinamento no Brasil, março e abril de 2020, dados reunidos pelo Banco Mundial apontaram aumento de 22% nos casos de feminicídio e de 27% nas denúncias ao Ligue 180, comparados ao mesmo período de 2019. Perda de renda, ansiedade, medo, isolamento e convivência contínua com possíveis agressores criaram uma combinação particularmente perigosa. (Banco Mundial)

Para algumas pessoas:

rua = perigo de contágio.

Para outras:

casa = perigo de violência.

Escolha seu inferno.


📺 Netflix

E então havia nós.

Os sobreviventes provisórios.

Presos.

Esperando.

Acordava.

Café.

Computador.

Notícia.

Trabalho, quando havia.

Comida.

Televisão.

Netflix.

Próximo episódio.

Próximo episódio.

Próximo episódio.

Dormir.

Repeat.

O calendário começou a perder significado.

Segunda-feira parecia sábado.

Sábado parecia terça.

Feriado parecia qualquer coisa.

O tempo havia virado uma sopa.

E foi aí que comecei a pensar em The Walking Dead.


🧟 Nós, os vivos, éramos os mortos

A ficção havia nos ensinado que o apocalipse seria espetacular.

Carros destruídos.

Prédios queimando.

Explosões.

Exércitos.

Gritos.

Zumbis caminhando pelas avenidas.

Mas nosso apocalipse era assustador justamente porque era silencioso.

A avenida estava inteira.

Mas vazia.

O shopping estava inteiro.

Mas fechado.

O aeroporto estava inteiro.

Mas sem passageiros.

A escola estava inteira.

Mas sem crianças.

O restaurante estava inteiro.

Mas com as cadeiras sobre as mesas.

As cidades não tinham sido destruídas.

Tinham sido desligadas.

E nós continuávamos vivos.

Biologicamente.

Mas alguma coisa da vida havia sido suspensa.

Sem encontros.

Sem viagens.

Sem festas.

Sem abraços.

Sem planos confiáveis.

Sem saber quando terminaria.

Andávamos da cama para a cozinha.

Da cozinha para o computador.

Do computador para o sofá.

Do sofá para a cama.

Foi quando pensei:

Nós, os vivos, éramos os mortos.

Walking Dead sem walking.


⚰️ E então vieram as covas

No começo eram números pequenos.

Depois centenas.

Depois milhares.

Depois dezenas de milhares.

Depois centenas de milhares.

O Ministério da Saúde registraria posteriormente mais de 700 mil mortes por COVID-19 no Brasil; dados oficiais posteriores já passaram de 710 mil registros. (Serviços e Informações do Brasil)

Mas existe um problema cognitivo com números dessa magnitude.

700.000 é uma abstração.

Nosso cérebro não foi construído para sentir setecentas mil pessoas.

Então precisamos converter.

Uma cidade.

Imagine uma cidade brasileira inteira.

Bairros.

Padarias.

Escolas.

Ônibus.

Casas.

Casamentos.

Aniversários.

Avós.

Pais.

Mães.

Filhos.

Vizinhos.

Professores.

Médicos.

O sujeito que você cumprimenta na rua sem saber o nome.

Agora imagine:

a cidade desapareceu.

Ainda assim, provavelmente continuamos sem compreender completamente.


🏥 Os que entravam onde ninguém queria entrar

Enquanto ficávamos em casa, profissionais de saúde faziam exatamente o contrário.

Entravam nos hospitais.

Todos os dias.

Médicos.

Enfermeiros.

Técnicos.

Fisioterapeutas.

Limpeza.

Ambulâncias.

Laboratórios.

Administrativos.

Pessoas colocando equipamentos de proteção para entrar voluntariamente em ambientes onde havia aquilo de que o restante da população tentava fugir.

Depois voltavam para casa.

Alguns evitavam abraçar os próprios filhos.

Alguns dormiam separados da família.

Alguns adoeceram.

Alguns morreram.

Quando o Ministério da Saúde começou posteriormente a discutir a criação de um memorial da pandemia, representantes das famílias das vítimas fizeram questão de lembrar também os trabalhadores da saúde que enfrentaram diretamente a doença. (Serviços e Informações do Brasil)

A palavra essencial novamente adquiria um significado bastante concreto.


💉 Então veio a vacina

E talvez poucas coisas demonstrem tão bem nossa capacidade de adaptação quanto o fato de que, em menos de um ano, diferentes equipes científicas conseguiram desenvolver vacinas eficazes contra formas graves da doença.

A vacinação não fez o vírus desaparecer magicamente.

Mas mudou dramaticamente a relação entre infecção, hospitalização e morte. O próprio Ministério da Saúde registraria redução importante de hospitalizações e óbitos após a obtenção de boas coberturas vacinais, especialmente a partir de 2022. (Serviços e Informações do Brasil)

O apocalipse começou lentamente a perder potência.

Mas ainda não sabíamos exatamente quando poderíamos declarar:

acabou.


🪟 Até que alguém abriu uma janela

E aqui minha história dá um salto.

Dezesseis anos para trás.

Madri.

11-M.

Atocha.

Atentados.

Mortos.

Dúvidas.

Indignação.

Manifestações.

Puerta del Sol.

E panelas.

Eu estava lá.

Eu havia ouvido uma cidade descobrir que uma panela doméstica podia transformar-se em instrumento político.

TUM.

Outra pessoa responde.

TUM TUM.

Outra janela.

TUM TUM TUM.

De repente não existe mais uma pessoa batendo panela.

Existe uma rua.

Uma praça.

Uma cidade.

Eu conhecia aquele protocolo.


🇧🇷 2020

Então, durante a pandemia brasileira, ouvi novamente.

TUM.

Parei.

Outra janela:

TUM TUM.

Outra:

TUM TUM TUM.

Panelas começaram a bater contra Bolsonaro.

E alguma coisa dentro da minha memória abriu instantaneamente um arquivo antigo.

MADRID_2004.LOG

Eu conhecia aquele som.


🥘 O protocolo mais simples do mundo

Não precisava de aplicativo.

Não precisava de login.

Não precisava de algoritmo.

Não precisava de 5G.

Não precisava de líder.

Não precisava sequer sair de casa.

Precisava de:

1 janela

1 panela

1 colher

1 pessoa irritada

A pessoa transmite:

TUM TUM TUM

O vizinho recebe:

PACKET RECEIVED

Responde:

TUM TUM

ACK

Outro apartamento entra:

JOIN

Mais outro.

JOIN

O prédio inteiro:

BROADCAST

E alguns minutos depois você possui um sistema distribuído de protesto popular sem servidor central.

Como homem de mainframe, preciso reconhecer:

arquitetura elegante.


🏛️ A última praça pública

Existe uma diferença fundamental entre Madri em 2004 e Brasil em 2020.

Em Madri, podíamos sair.

As pessoas ocuparam as ruas.

Caminharam.

Encontraram outras pessoas.

Chegaram às praças.

A multidão podia existir fisicamente.

Em 2020, a própria natureza da crise dizia:

não forme uma multidão.

A praça pública havia sido temporariamente interditada.

Então fizemos uma coisa extraordinariamente humana.

Transformamos nossas janelas em praça.

Cada apartamento tornou-se um pequeno pedaço da manifestação.

Cada varanda virou alguns centímetros quadrados de espaço público.

Não podíamos estar juntos.

Mas podíamos fazer barulho juntos.


🪟 TUM

Talvez seja por isso que aquele som tenha me atingido de maneira diferente.

Para muita gente era simplesmente o panelaço daquele momento.

Para mim havia uma camada adicional.

Eu estava novamente em Madri.

Por alguns segundos:

2004 e 2020 coexistiram.

Puerta del Sol e uma janela brasileira estavam conectadas por uma colher batendo numa panela.

Dezesseis anos.

Dois países.

Duas crises completamente diferentes.

A mesma tecnologia.

TUM.


🌎 O mundo literalmente parou

Usamos essa expressão o tempo inteiro.

“O mundo parou.”

Normalmente é metáfora.

Na pandemia, chegou assustadoramente perto de ser descrição operacional.

Companhias aéreas estacionaram frotas.

Fronteiras fecharam.

Turismo evaporou.

Escritórios esvaziaram.

Eventos desapareceram.

Estádios ficaram silenciosos.

Templos fecharam ou limitaram presença.

Milhões passaram a trabalhar de casa.

Milhões perderam trabalho.

Milhões adoeceram.

Milhões morreram no mundo.

E bilhões descobriram simultaneamente que a civilização moderna, aparentemente tão sólida, podia entrar em modo de emergência por causa de uma entidade microscópica.

Nenhum ataque alienígena.

Nenhum meteoro.

Nenhum Skynet.

Nenhuma guerra mundial.

Um vírus.


🧀 O Swiss Cheese da civilização

Olhando retrospectivamente, vejo a pandemia quase como uma demonstração planetária do Swiss Cheese Model.

Saúde pública.

Hospitais.

Governos.

Ciência.

Comunicação.

Famílias.

Economia.

Logística.

Tecnologia.

Comportamento individual.

Cada camada tinha buracos.

Algumas funcionaram extraordinariamente bem.

Outras falharam.

Algumas foram sabotadas pela desinformação.

Outras simplesmente não tinham capacidade suficiente para enfrentar algo daquela escala.

E o vírus procurava alinhamentos.

Quando os buracos coincidiam:

tragédia.


🤡 E nós continuávamos sendo humanos

Mesmo durante uma das maiores crises sanitárias de nossa geração, continuamos fazendo aquilo que humanos fazem.

Piadas.

Memes.

Receitas.

Pão caseiro.

Lives.

Desafios.

Brigas.

Teorias conspiratórias.

Romances.

Separações.

Pornografia.

Cursos online.

Vídeos de gatos.

Reuniões em que alguém inevitavelmente dizia:

“Você está no mudo.”

Talvez isso também tenha nos salvado um pouco.

A capacidade absolutamente ridícula da humanidade de continuar produzindo banalidade enquanto o mundo está desabando.


☕ Café

Eu continuei tomando café.

Porque algumas infraestruturas críticas precisam permanecer disponíveis mesmo durante o fim da civilização.

Computador.

Internet.

Café.

Notícia.

Netflix.

Janela.

Panela.

Repeat.


🧠 Trauma coletivo

Hoje é tentador olhar para 2020 como um arquivo fechado.

COVID19_ARCHIVE.zip

Mas não foi simplesmente uma interrupção temporária.

Foi trauma coletivo.

Crianças perderam escola presencial.

Jovens perderam experiências.

Idosos perderam amigos.

Famílias perderam parentes.

Profissionais de saúde carregaram experiências difíceis de explicar.

Pessoas perderam empresas.

Empregos.

Dinheiro.

Relacionamentos.

Tempo.

E talvez ainda estejamos descobrindo algumas consequências.

O Ministério da Saúde chegou a promover discussões sobre a criação de um Memorial da Pandemia de Covid-19, justamente reconhecendo que a experiência deixou marcas profundas e merece preservação histórica. (Serviços e Informações do Brasil)

Memória também é infraestrutura.

Uma sociedade que esquece como falhou fica disponível para repetir o erro.


🪟 A janela

Quando penso naquele período, porém, não vejo primeiro gráficos.

Vejo uma janela.

Do lado de dentro:

um homem preocupado.

Conta corrente vazia.

Computador.

Televisão.

Netflix.

Café.

Incerteza.

Do lado de fora:

uma cidade estranhamente silenciosa.

E então:

TUM.

Uma panela.

Outra janela responde.

TUM TUM.

Outra.

TUM TUM TUM.

E meu cérebro imediatamente viaja dezesseis anos.

Madri.

Puerta del Sol.

Carmen.

Atocha.

Panelas.

Pessoas nas ruas.


🔁 Eu conheço esse som

Talvez essa seja uma das características mais estranhas da memória.

Ela não respeita calendário.

Um cheiro.

Uma música.

Uma frase.

Um som metálico.

E subitamente você não está mais em 2020.

Está em 2004.

Não está mais no Brasil.

Está em Madri.

A panela brasileira não precisava conhecer a panela espanhola.

Eu conhecia as duas.

E fui a ponte involuntária entre elas.


❤️ Nós, os vivos

O título deste texto parece pessimista:

Nós, os vivos, éramos os mortos.

Mas talvez agora eu perceba que ele contém também o contrário.

Estávamos assustados.

Parados.

Isolados.

Entorpecidos.

Muitas vezes sem objetivo.

Mas ainda fazíamos alguma coisa.

Telefonávamos.

Cozinhávamos.

Entregávamos comida.

Cuidávamos de doentes.

Pesquisávamos vacinas.

Mantínhamos sistemas funcionando.

Tentávamos proteger nossos pais.

Inventávamos maneiras de trabalhar.

Fazíamos piadas ruins.

Assistíamos Netflix demais.

E batíamos panelas.

Os vivos ainda estavam vivos.

Mesmo quando não parecia.


☕ Epílogo: quando o mundo reiniciou

Sistemas eventualmente voltam.

RECOVERY STARTED

Portas abriram.

Aviões voltaram.

Restaurantes colocaram novamente as cadeiras no chão.

Escolas receberam crianças.

Aeroportos recuperaram aquele barulho infernal que um dia descobrimos sentir falta.

Pessoas voltaram a se abraçar.

A vida executou lentamente:

RESTART

Mas não houve:

ROLLBACK

Os mortos não voltaram.

O dinheiro perdido não voltou automaticamente.

O tempo não voltou.

Algumas empresas não voltaram.

Alguns relacionamentos não voltaram.

Algumas pessoas que entraram em 2020 nunca saíram dele.

O Brasil ultrapassou 700 mil mortes oficialmente registradas por COVID-19. (Serviços e Informações do Brasil)

Isso não cabe numa estatística.

Cabe em centenas de milhares de cadeiras vazias.


E talvez seja por isso que ainda me lembre daquela panela.

Porque, quando praticamente tudo havia sido retirado de nós — rua, praça, viagem, encontro, certeza, dinheiro, rotina e às vezes até esperança — restava uma coisa extremamente simples.

Abrir a janela.

Olhar para uma cidade silenciosa.

Pegar uma panela.

E dizer da única maneira disponível:

EU AINDA ESTOU AQUI.

TUM.

Uma janela responde.

TUM TUM.

Outra responde.

TUM TUM TUM.

Madri, 2004.

Brasil, 2020.

O mundo podia estar parado.

Mas enquanto alguém ainda respondesse da janela ao lado,

nós, os vivos, ainda não éramos os mortos.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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