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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Nós, os Vivos, Éramos os Mortos: Quando o Mundo Parou e a Última Praça Pública Era a Janela

 

Bellacosa Mainframe e a pandemia do covid 19

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe — Especial

Nós, os Vivos, Éramos os Mortos: Quando o Mundo Parou e a Última Praça Pública Era a Janela

🪟 Papel higiênico, entregadores, violência doméstica, política, curas milagrosas, covas, Netflix e o panelaço que me fez voltar instantaneamente a Madri em 2004

Existem acontecimentos históricos que você acompanha pela televisão.

Existem aqueles que acontecem na cidade onde você está.

E existe uma terceira categoria, muito mais rara e assustadora:

o acontecimento acontece em todos os lugares ao mesmo tempo.

Não havia outro país para onde olhar.

Não havia outro continente funcionando normalmente.

Não havia um aeroporto onde fosse possível embarcar e simplesmente sair da história.

Nova York parou.

Madri parou.

São Paulo parou.

Roma parou.

Paris parou.

Tóquio parou.

Pequenas cidades pararam.

Grandes cidades pararam.

Aeroportos ficaram vazios.

Escritórios ficaram vazios.

Escolas ficaram vazias.

Restaurantes fecharam.

Fronteiras fecharam.

A humanidade inteira recebeu praticamente a mesma mensagem:

Fique em casa.

Era 2020.

E, pela primeira vez em minha vida, parecia que o roteirista maluco responsável pelo planeta havia finalmente conseguido algo que nem os melhores filmes-catástrofe ousavam tentar:

parar o mundo.


🧻 O apocalipse começou pelo papel higiênico

Talvez daqui a cem anos algum historiador tente compreender o comportamento humano durante as primeiras semanas da pandemia.

Espero sinceramente que ele encontre boas fontes.

Porque, se depender apenas das fotografias dos supermercados, poderá concluir que a COVID-19 atacava prioritariamente o sistema digestivo.

As prateleiras de papel higiênico começaram a desaparecer.

Carrinhos abarrotados.

Pacotes enormes.

Pessoas disputando rolos.

E eu me lembro de pensar:

Por que diabos alguém está estocando papel higiênico numa pandemia?

Era uma doença respiratória.

Mas a humanidade aparentemente decidiu que, antes de compreender vírus, máscaras, transmissão e quarentena, precisava garantir que jamais faltariam condições adequadas para limpar a bunda.

É engraçado hoje.

Naquele momento, porém, aquilo dizia alguma coisa importante.

Não estávamos comprando apenas papel.

Estávamos tentando comprar controle.

Diante de uma ameaça invisível, desconhecida e aparentemente incontrolável, colocar vinte pacotes dentro de um carrinho talvez produzisse a sensação de que pelo menos alguma coisa estava sob nosso domínio.

O medo havia entrado no supermercado.


🛒 Depois começaram a desaparecer outras coisas

Álcool.

Máscaras.

Produtos de limpeza.

Macarrão.

Arroz.

Feijão.

Enlatados.

E começaram também as perguntas.

Quanto tempo isso vai durar?

Duas semanas?

Um mês?

Três meses?

Vai faltar comida?

Os bancos vão funcionar?

Meu emprego continuará existindo?

Posso visitar meus pais?

Posso abraçar alguém?

Posso pegar elevador?

A sacola do supermercado transmite?

Preciso limpar cada embalagem?

Quanto tempo o vírus permanece numa superfície?

E aquela tosse?

É COVID?

É alergia?

É ansiedade?

Provavelmente nunca houve tanta gente observando a própria garganta simultaneamente.


🚪 FIQUE EM CASA

A mensagem parecia simples.

Fique em casa.

E, epidemiologicamente, reduzir contatos enquanto se compreendia o novo vírus fazia sentido.

Só havia um pequeno problema.

Para milhões de pessoas, ficar em casa era um privilégio.

A cidade precisava continuar funcionando.

Alguém precisava manter os hospitais.

Alguém precisava trabalhar nas farmácias.

Alguém precisava abrir o supermercado.

Alguém precisava transportar comida.

Alguém precisava dirigir.

Alguém precisava limpar.

Alguém precisava manter água, eletricidade, telecomunicações e sistemas bancários.

E alguém precisava levar até nossa porta aquilo que comprávamos pelo celular.


🛵 “Seu pedido está a caminho”

Poucas frases daquele período ficaram tão sinistras retrospectivamente:

“Seu pedido está a caminho.”

Nós estávamos protegidos dentro de casa.

O entregador estava lá fora.

Nós tocávamos numa tela.

Pizza.

Hambúrguer.

Remédio.

Mercado.

Comida japonesa.

Ração.

Qualquer coisa.

Alguns minutos depois aparecia no mapa uma pequena motocicleta.

Ela atravessava uma cidade estranhamente vazia.

Até nossa casa.

O sujeito deixava o pacote.

Às vezes nem havia contato.

E desaparecia novamente.

Essencial.

Essa palavra tornou-se uma espécie de condecoração durante a pandemia.

“Trabalhador essencial.”

Mas havia uma ironia amarga escondida nela.

Muitas vezes “essencial” significava:

“Não podemos viver sem o seu trabalho, portanto você continuará se expondo enquanto nós permanecemos protegidos.”

Havia dois mundos.

No primeiro, home office.

Notebook.

Internet.

Delivery.

Netflix.

Reunião por vídeo.

No segundo:

rua.

Ônibus.

Moto.

Hospital.

Supermercado.

Limpeza.

Risco.

A pandemia não inventou a desigualdade.

Apenas colocou iluminação de emergência sobre ela.


🏙️ A cidade dos protegidos e a cidade dos descartáveis

Do alto dos prédios, havia pessoas trabalhando remotamente em apartamentos confortáveis.

Na rua, outras pessoas atravessavam a cidade para manter aqueles apartamentos funcionando.

Era quase uma arquitetura social perfeita.

Redomas de vidro em cima.

Infraestrutura humana embaixo.

O mundo digital parecia ter vencido.

Reuniões migraram para telas.

Compras migraram para aplicativos.

Restaurantes viraram cozinhas invisíveis.

Escritórios viraram quartos.

Só que havia uma mentira confortável escondida nessa transformação:

o mundo nunca ficou realmente digital.

Atrás de cada botão continuava existindo alguém.

Você clicava:

COMPRAR

Um ser humano separava.

Outro embalava.

Outro carregava.

Outro dirigia.

Outro entregava.

A interface era digital.

O risco continuava analógico.


💰 E o dinheiro?

Então apareceu outro vírus.

Não biológico.

Econômico.

Empresas fecharam.

Projetos foram suspensos.

Contratos desapareceram.

Pessoas perderam renda.

Negócios que pareciam perfeitamente saudáveis algumas semanas antes começaram a morrer.

E eu também tive meu pequeno encontro particular com o apocalipse.

Minha conta corrente chegou a zero.

Zero.

Não “estou economizando”.

Não “este mês apertou”.

ZERO.

E existe uma sensação particularmente desagradável em observar o mundo inteiro entrando em colapso ao mesmo tempo em que seu próprio sistema financeiro pessoal decide acompanhá-lo.

Era como olhar para o extrato e receber:

BALANCE = 0

WORLD_STATUS = UNKNOWN

RECOVERY_DATE = NULL

Excelente.

Ground Control havia perdido contato com Major Tom novamente.


🧠 Ninguém sabia exatamente o que fazer

Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de reconstruir depois.

Hoje conhecemos muito mais sobre SARS-CoV-2.

Naquele começo, havia incerteza real.

Pesquisadores aprendiam.

Governos aprendiam.

Hospitais aprendiam.

A população aprendia.

Informações mudavam conforme surgiam evidências.

E nesse espaço entre “não sabemos ainda” e “precisamos fazer alguma coisa agora”, floresceu praticamente tudo.

Boa ciência.

Má ciência.

Hipóteses legítimas.

Boatos.

Charlatanismo.

Política.

Desespero.

Oportunismo.


💊 A farmácia virou campo de batalha

Medicamentos passaram a ser discutidos como se fossem times de futebol.

Hidroxicloroquina.

Ivermectina.

Combinações diversas.

Tratamentos precoces.

Receitas compartilhadas em WhatsApp.

Vídeos.

Médicos discordando.

Políticos opinando.

Influenciadores recomendando.

Parentes encaminhando mensagens com:

“REPASSE!!! MÉDICO NÃO QUER QUE VOCÊ SAIBA!!!”

Nunca tantos epidemiologistas haviam surgido simultaneamente numa lista de família.

E havia uma dificuldade genuína no meio daquele ruído:

como distinguir uma hipótese científica ainda em avaliação de uma certeza fabricada para consumo político?

A ciência dizia frequentemente:

“Precisamos de evidências.”

A internet respondia:

“Minha prima tomou e melhorou.”


⛪ E chegaram os feijões mágicos

Crises sempre atraem duas categorias de pessoas.

Aquelas que querem ajudar.

E aquelas que percebem uma oportunidade comercial.

A pandemia não foi diferente.

Apareceram curas.

Proteções espirituais.

Objetos milagrosos.

Promessas.

Profecias.

Receitas.

Teorias.

Havia líderes religiosos sérios tentando amparar comunidades assustadas.

E havia também gente vendendo, metaforicamente ou literalmente, feijões mágicos para pessoas desesperadas.

Porque existe uma regra antiga da humanidade:

quando o medo cresce, o mercado da certeza cresce junto.


🇧🇷 E tínhamos um presidente

No Brasil, tudo isso ganhou uma camada adicional.

Jair Bolsonaro minimizou repetidamente a gravidade da COVID-19, confrontou medidas de distanciamento adotadas por governadores e prefeitos e promoveu medicamentos cuja eficácia contra a doença não seria demonstrada de maneira confiável.

A pandemia tornou-se também uma batalha política.

Máscara virou política.

Vacina virou política.

Quarentena virou política.

Remédio virou política.

Abrir comércio virou política.

Fechar comércio virou política.

Até espirrar parecia correr o risco de adquirir filiação partidária.

E famílias começaram a brigar.


🗣️ DIREITA!

🗣️ ESQUERDA!

Grupos de WhatsApp transformaram-se em trincheiras.

Amigos brigaram.

Parentes brigaram.

Casais brigaram.

Colegas brigaram.

Um lado acusava o outro de irresponsabilidade.

O outro acusava o primeiro de histeria.

Todo mundo tinha gráficos.

Todo mundo tinha médicos.

Todo mundo tinha vídeos.

Todo mundo tinha “um amigo que trabalha em hospital”.

Todo mundo tinha absoluta certeza.

E havia uma ironia gigantesca:

o vírus não votava.

Não estava interessado em direita.

Não estava interessado em esquerda.

Não lia Twitter.

Não assistia televisão.

Não participava de manifestações.

Apenas se replicava.

E enquanto discutíamos...

os números subiam.


🏠 Maridos versus mulheres

Havia ainda outra guerra muito menos visível.

Aquela que acontecia dentro das casas.

A casa havia sido apresentada como lugar seguro:

“Fique em casa.”

Mas casa não é lugar seguro para todo mundo.

Nos primeiros dois meses das medidas de confinamento no Brasil, março e abril de 2020, dados reunidos pelo Banco Mundial apontaram aumento de 22% nos casos de feminicídio e de 27% nas denúncias ao Ligue 180, comparados ao mesmo período de 2019. Perda de renda, ansiedade, medo, isolamento e convivência contínua com possíveis agressores criaram uma combinação particularmente perigosa. (Banco Mundial)

Para algumas pessoas:

rua = perigo de contágio.

Para outras:

casa = perigo de violência.

Escolha seu inferno.


📺 Netflix

E então havia nós.

Os sobreviventes provisórios.

Presos.

Esperando.

Acordava.

Café.

Computador.

Notícia.

Trabalho, quando havia.

Comida.

Televisão.

Netflix.

Próximo episódio.

Próximo episódio.

Próximo episódio.

Dormir.

Repeat.

O calendário começou a perder significado.

Segunda-feira parecia sábado.

Sábado parecia terça.

Feriado parecia qualquer coisa.

O tempo havia virado uma sopa.

E foi aí que comecei a pensar em The Walking Dead.


🧟 Nós, os vivos, éramos os mortos

A ficção havia nos ensinado que o apocalipse seria espetacular.

Carros destruídos.

Prédios queimando.

Explosões.

Exércitos.

Gritos.

Zumbis caminhando pelas avenidas.

Mas nosso apocalipse era assustador justamente porque era silencioso.

A avenida estava inteira.

Mas vazia.

O shopping estava inteiro.

Mas fechado.

O aeroporto estava inteiro.

Mas sem passageiros.

A escola estava inteira.

Mas sem crianças.

O restaurante estava inteiro.

Mas com as cadeiras sobre as mesas.

As cidades não tinham sido destruídas.

Tinham sido desligadas.

E nós continuávamos vivos.

Biologicamente.

Mas alguma coisa da vida havia sido suspensa.

Sem encontros.

Sem viagens.

Sem festas.

Sem abraços.

Sem planos confiáveis.

Sem saber quando terminaria.

Andávamos da cama para a cozinha.

Da cozinha para o computador.

Do computador para o sofá.

Do sofá para a cama.

Foi quando pensei:

Nós, os vivos, éramos os mortos.

Walking Dead sem walking.


⚰️ E então vieram as covas

No começo eram números pequenos.

Depois centenas.

Depois milhares.

Depois dezenas de milhares.

Depois centenas de milhares.

O Ministério da Saúde registraria posteriormente mais de 700 mil mortes por COVID-19 no Brasil; dados oficiais posteriores já passaram de 710 mil registros. (Serviços e Informações do Brasil)

Mas existe um problema cognitivo com números dessa magnitude.

700.000 é uma abstração.

Nosso cérebro não foi construído para sentir setecentas mil pessoas.

Então precisamos converter.

Uma cidade.

Imagine uma cidade brasileira inteira.

Bairros.

Padarias.

Escolas.

Ônibus.

Casas.

Casamentos.

Aniversários.

Avós.

Pais.

Mães.

Filhos.

Vizinhos.

Professores.

Médicos.

O sujeito que você cumprimenta na rua sem saber o nome.

Agora imagine:

a cidade desapareceu.

Ainda assim, provavelmente continuamos sem compreender completamente.


🏥 Os que entravam onde ninguém queria entrar

Enquanto ficávamos em casa, profissionais de saúde faziam exatamente o contrário.

Entravam nos hospitais.

Todos os dias.

Médicos.

Enfermeiros.

Técnicos.

Fisioterapeutas.

Limpeza.

Ambulâncias.

Laboratórios.

Administrativos.

Pessoas colocando equipamentos de proteção para entrar voluntariamente em ambientes onde havia aquilo de que o restante da população tentava fugir.

Depois voltavam para casa.

Alguns evitavam abraçar os próprios filhos.

Alguns dormiam separados da família.

Alguns adoeceram.

Alguns morreram.

Quando o Ministério da Saúde começou posteriormente a discutir a criação de um memorial da pandemia, representantes das famílias das vítimas fizeram questão de lembrar também os trabalhadores da saúde que enfrentaram diretamente a doença. (Serviços e Informações do Brasil)

A palavra essencial novamente adquiria um significado bastante concreto.


💉 Então veio a vacina

E talvez poucas coisas demonstrem tão bem nossa capacidade de adaptação quanto o fato de que, em menos de um ano, diferentes equipes científicas conseguiram desenvolver vacinas eficazes contra formas graves da doença.

A vacinação não fez o vírus desaparecer magicamente.

Mas mudou dramaticamente a relação entre infecção, hospitalização e morte. O próprio Ministério da Saúde registraria redução importante de hospitalizações e óbitos após a obtenção de boas coberturas vacinais, especialmente a partir de 2022. (Serviços e Informações do Brasil)

O apocalipse começou lentamente a perder potência.

Mas ainda não sabíamos exatamente quando poderíamos declarar:

acabou.


🪟 Até que alguém abriu uma janela

E aqui minha história dá um salto.

Dezesseis anos para trás.

Madri.

11-M.

Atocha.

Atentados.

Mortos.

Dúvidas.

Indignação.

Manifestações.

Puerta del Sol.

E panelas.

Eu estava lá.

Eu havia ouvido uma cidade descobrir que uma panela doméstica podia transformar-se em instrumento político.

TUM.

Outra pessoa responde.

TUM TUM.

Outra janela.

TUM TUM TUM.

De repente não existe mais uma pessoa batendo panela.

Existe uma rua.

Uma praça.

Uma cidade.

Eu conhecia aquele protocolo.


🇧🇷 2020

Então, durante a pandemia brasileira, ouvi novamente.

TUM.

Parei.

Outra janela:

TUM TUM.

Outra:

TUM TUM TUM.

Panelas começaram a bater contra Bolsonaro.

E alguma coisa dentro da minha memória abriu instantaneamente um arquivo antigo.

MADRID_2004.LOG

Eu conhecia aquele som.


🥘 O protocolo mais simples do mundo

Não precisava de aplicativo.

Não precisava de login.

Não precisava de algoritmo.

Não precisava de 5G.

Não precisava de líder.

Não precisava sequer sair de casa.

Precisava de:

1 janela

1 panela

1 colher

1 pessoa irritada

A pessoa transmite:

TUM TUM TUM

O vizinho recebe:

PACKET RECEIVED

Responde:

TUM TUM

ACK

Outro apartamento entra:

JOIN

Mais outro.

JOIN

O prédio inteiro:

BROADCAST

E alguns minutos depois você possui um sistema distribuído de protesto popular sem servidor central.

Como homem de mainframe, preciso reconhecer:

arquitetura elegante.


🏛️ A última praça pública

Existe uma diferença fundamental entre Madri em 2004 e Brasil em 2020.

Em Madri, podíamos sair.

As pessoas ocuparam as ruas.

Caminharam.

Encontraram outras pessoas.

Chegaram às praças.

A multidão podia existir fisicamente.

Em 2020, a própria natureza da crise dizia:

não forme uma multidão.

A praça pública havia sido temporariamente interditada.

Então fizemos uma coisa extraordinariamente humana.

Transformamos nossas janelas em praça.

Cada apartamento tornou-se um pequeno pedaço da manifestação.

Cada varanda virou alguns centímetros quadrados de espaço público.

Não podíamos estar juntos.

Mas podíamos fazer barulho juntos.


🪟 TUM

Talvez seja por isso que aquele som tenha me atingido de maneira diferente.

Para muita gente era simplesmente o panelaço daquele momento.

Para mim havia uma camada adicional.

Eu estava novamente em Madri.

Por alguns segundos:

2004 e 2020 coexistiram.

Puerta del Sol e uma janela brasileira estavam conectadas por uma colher batendo numa panela.

Dezesseis anos.

Dois países.

Duas crises completamente diferentes.

A mesma tecnologia.

TUM.


🌎 O mundo literalmente parou

Usamos essa expressão o tempo inteiro.

“O mundo parou.”

Normalmente é metáfora.

Na pandemia, chegou assustadoramente perto de ser descrição operacional.

Companhias aéreas estacionaram frotas.

Fronteiras fecharam.

Turismo evaporou.

Escritórios esvaziaram.

Eventos desapareceram.

Estádios ficaram silenciosos.

Templos fecharam ou limitaram presença.

Milhões passaram a trabalhar de casa.

Milhões perderam trabalho.

Milhões adoeceram.

Milhões morreram no mundo.

E bilhões descobriram simultaneamente que a civilização moderna, aparentemente tão sólida, podia entrar em modo de emergência por causa de uma entidade microscópica.

Nenhum ataque alienígena.

Nenhum meteoro.

Nenhum Skynet.

Nenhuma guerra mundial.

Um vírus.


🧀 O Swiss Cheese da civilização

Olhando retrospectivamente, vejo a pandemia quase como uma demonstração planetária do Swiss Cheese Model.

Saúde pública.

Hospitais.

Governos.

Ciência.

Comunicação.

Famílias.

Economia.

Logística.

Tecnologia.

Comportamento individual.

Cada camada tinha buracos.

Algumas funcionaram extraordinariamente bem.

Outras falharam.

Algumas foram sabotadas pela desinformação.

Outras simplesmente não tinham capacidade suficiente para enfrentar algo daquela escala.

E o vírus procurava alinhamentos.

Quando os buracos coincidiam:

tragédia.


🤡 E nós continuávamos sendo humanos

Mesmo durante uma das maiores crises sanitárias de nossa geração, continuamos fazendo aquilo que humanos fazem.

Piadas.

Memes.

Receitas.

Pão caseiro.

Lives.

Desafios.

Brigas.

Teorias conspiratórias.

Romances.

Separações.

Pornografia.

Cursos online.

Vídeos de gatos.

Reuniões em que alguém inevitavelmente dizia:

“Você está no mudo.”

Talvez isso também tenha nos salvado um pouco.

A capacidade absolutamente ridícula da humanidade de continuar produzindo banalidade enquanto o mundo está desabando.


☕ Café

Eu continuei tomando café.

Porque algumas infraestruturas críticas precisam permanecer disponíveis mesmo durante o fim da civilização.

Computador.

Internet.

Café.

Notícia.

Netflix.

Janela.

Panela.

Repeat.


🧠 Trauma coletivo

Hoje é tentador olhar para 2020 como um arquivo fechado.

COVID19_ARCHIVE.zip

Mas não foi simplesmente uma interrupção temporária.

Foi trauma coletivo.

Crianças perderam escola presencial.

Jovens perderam experiências.

Idosos perderam amigos.

Famílias perderam parentes.

Profissionais de saúde carregaram experiências difíceis de explicar.

Pessoas perderam empresas.

Empregos.

Dinheiro.

Relacionamentos.

Tempo.

E talvez ainda estejamos descobrindo algumas consequências.

O Ministério da Saúde chegou a promover discussões sobre a criação de um Memorial da Pandemia de Covid-19, justamente reconhecendo que a experiência deixou marcas profundas e merece preservação histórica. (Serviços e Informações do Brasil)

Memória também é infraestrutura.

Uma sociedade que esquece como falhou fica disponível para repetir o erro.


🪟 A janela

Quando penso naquele período, porém, não vejo primeiro gráficos.

Vejo uma janela.

Do lado de dentro:

um homem preocupado.

Conta corrente vazia.

Computador.

Televisão.

Netflix.

Café.

Incerteza.

Do lado de fora:

uma cidade estranhamente silenciosa.

E então:

TUM.

Uma panela.

Outra janela responde.

TUM TUM.

Outra.

TUM TUM TUM.

E meu cérebro imediatamente viaja dezesseis anos.

Madri.

Puerta del Sol.

Carmen.

Atocha.

Panelas.

Pessoas nas ruas.


🔁 Eu conheço esse som

Talvez essa seja uma das características mais estranhas da memória.

Ela não respeita calendário.

Um cheiro.

Uma música.

Uma frase.

Um som metálico.

E subitamente você não está mais em 2020.

Está em 2004.

Não está mais no Brasil.

Está em Madri.

A panela brasileira não precisava conhecer a panela espanhola.

Eu conhecia as duas.

E fui a ponte involuntária entre elas.


❤️ Nós, os vivos

O título deste texto parece pessimista:

Nós, os vivos, éramos os mortos.

Mas talvez agora eu perceba que ele contém também o contrário.

Estávamos assustados.

Parados.

Isolados.

Entorpecidos.

Muitas vezes sem objetivo.

Mas ainda fazíamos alguma coisa.

Telefonávamos.

Cozinhávamos.

Entregávamos comida.

Cuidávamos de doentes.

Pesquisávamos vacinas.

Mantínhamos sistemas funcionando.

Tentávamos proteger nossos pais.

Inventávamos maneiras de trabalhar.

Fazíamos piadas ruins.

Assistíamos Netflix demais.

E batíamos panelas.

Os vivos ainda estavam vivos.

Mesmo quando não parecia.


☕ Epílogo: quando o mundo reiniciou

Sistemas eventualmente voltam.

RECOVERY STARTED

Portas abriram.

Aviões voltaram.

Restaurantes colocaram novamente as cadeiras no chão.

Escolas receberam crianças.

Aeroportos recuperaram aquele barulho infernal que um dia descobrimos sentir falta.

Pessoas voltaram a se abraçar.

A vida executou lentamente:

RESTART

Mas não houve:

ROLLBACK

Os mortos não voltaram.

O dinheiro perdido não voltou automaticamente.

O tempo não voltou.

Algumas empresas não voltaram.

Alguns relacionamentos não voltaram.

Algumas pessoas que entraram em 2020 nunca saíram dele.

O Brasil ultrapassou 700 mil mortes oficialmente registradas por COVID-19. (Serviços e Informações do Brasil)

Isso não cabe numa estatística.

Cabe em centenas de milhares de cadeiras vazias.


E talvez seja por isso que ainda me lembre daquela panela.

Porque, quando praticamente tudo havia sido retirado de nós — rua, praça, viagem, encontro, certeza, dinheiro, rotina e às vezes até esperança — restava uma coisa extremamente simples.

Abrir a janela.

Olhar para uma cidade silenciosa.

Pegar uma panela.

E dizer da única maneira disponível:

EU AINDA ESTOU AQUI.

TUM.

Uma janela responde.

TUM TUM.

Outra responde.

TUM TUM TUM.

Madri, 2004.

Brasil, 2020.

O mundo podia estar parado.

Mas enquanto alguém ainda respondesse da janela ao lado,

nós, os vivos, ainda não éramos os mortos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

😶‍🌫️ 2022: O Ano da Ressaca Pandêmica

 


😶‍🌫️ 2022: O Ano da Ressaca Pandêmica

Por ElJefe — crônicas do mundo pós-COVID para padawans cansados


Padawan, respire fundo.
Chegamos a 2022, o ano em que o planeta acordou com uma ressaca coletiva — física, mental e espiritual.
Depois de dois anos de caos, isolamento e paranoia, o mundo queria festejar… mas ainda tropeçava nas próprias cicatrizes.

Era o começo do novo normal, aquele que ninguém pediu, mas todos tiveram que aceitar.


🕊️ O Mundo Sai da Caverna

As máscaras começaram a cair — literalmente.
Bares reabriram, estádios voltaram a gritar, aviões voltaram a voar.
Mas havia algo estranho no ar (e não era o vírus, desta vez):
as pessoas voltaram diferentes.

O silêncio de 2020 e 2021 tinha deixado marcas.
Muitos não sabiam mais socializar, outros tinham medo de tudo,
e alguns fingiam que nada tinha acontecido — como se a pandemia fosse um pesadelo coletivo convenientemente esquecido.

“O corpo se cura mais rápido que a mente, padawan.”


💉 A Ciência Triunfa… Mas a Desinformação Fica

As vacinas funcionaram.
O mundo começou a se proteger em massa, e os hospitais esvaziaram.
Mas o inimigo invisível mudou de forma: agora era a mentira.

Fake news continuavam, mas com novos temas:
microchips, mutações zumbis, conspirações políticas.
Era o mesmo script, só mudava o vilão da semana.

O algoritmo, esse novo imperador do caos, percebeu uma coisa:
a verdade cansa, mas a teoria da conspiração diverte.

E assim, o pós-pandemia virou o palco de uma nova guerra —
a guerra pela narrativa.


🧠 A Crise Silenciosa: Saúde Mental

Em 2022, o vírus saiu das manchetes e deu lugar a outro tipo de pandemia — a da ansiedade.
Empresas voltaram ao trabalho híbrido, mas ninguém sabia mais o que era equilíbrio.
Gente exausta, emocionalmente drenada, e uma avalanche de “coachs de resiliência” pipocando em todo canto.

As redes sociais, que haviam sido o refúgio do isolamento, agora mostravam um novo tipo de contágio:
a comparação, o cansaço e o medo de não estar “vivendo o suficiente” depois de dois anos trancado.

Padawan, 2022 ensinou que:

“Nem toda cura vem de um remédio — às vezes, vem de uma conversa sincera e de um bom café.”


🕹️ O Novo Normal: Híbrido, Digital, Estranho

O trabalho remoto virou rotina, o QR Code virou idioma, e o metaverso surgiu prometendo mundos paralelos onde ninguém pegava vírus.
Enquanto isso, escolas, empresas e governos tentavam se adaptar a um planeta que já não cabia mais nos moldes antigos.

O “novo normal” era um Frankenstein social:
um pouco analógico, um pouco digital, um pouco cansado.

Mas, como bons padawans da era moderna, aprendemos a navegar —
mesmo com o GPS quebrado.


💔 O Luto Coletivo

Entre as risadas dos reencontros e o som dos brindes, havia silêncio.
Milhões tinham partido, e nem todos tiveram chance de se despedir.
2022 foi o ano em que o luto veio atrasado.
O mundo chorou em silêncio — não por falta de lágrimas, mas por falta de tempo.

E nesse silêncio, nasceu um novo tipo de consciência:
a de que viver é urgente.


☕ Epílogo de ElJefe

2022 não foi o fim da pandemia — foi o fim da inocência.
Descobrimos que a vida não volta a ser o que era,
porque nós não somos mais quem éramos.

A humanidade tropeçou, caiu, chorou, e mesmo assim… continuou.
E como todo padawan que passa por uma prova difícil, saímos diferentes:
menos ingênuos, mais atentos, e talvez — só talvez — um pouco mais sábios.

“O vírus mostrou que somos frágeis.
A solidão mostrou que somos humanos.
E a esperança mostrou que ainda vale a pena lutar.”

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Brasil 2022: quando o sistema saiu do modo emergência, aplicou o patch certo — e o legado voltou a fazer sentido

 

Bellacosa Mainframe e o recomeço após a pandemia do covid

Brasil 2022: quando o sistema saiu do modo emergência, aplicou o patch certo — e o legado voltou a fazer sentido

Meu nono ano pós-retorno ao Brasil foi 2022. Um ano que não começou leve, mas terminou diferente. Não foi redenção, nem milagre. Foi algo mais raro em sistemas grandes: estabilização real depois do caos. Para quem viveu doze anos na Europa e atravessou, já no Brasil, uma sequência quase didática de colapsos, 2022 teve gosto de restart limpo, ainda com arquivos corrompidos, mas com o sistema respirando outra vez.

Depois de 2020 e 2021, isso já era muita coisa.

A vacina: o patch que salvou o sistema

A vacina salvou vidas. Isso não é metáfora, é fato técnico. Em linguagem de mainframe: foi o patch crítico que impediu o shutdown definitivo. Não resolveu tudo, não apagou traumas, mas devolveu algo essencial — previsibilidade mínima.

Quando a vacinação avançou, algo mudou no ar. As pessoas voltaram a sair sem culpa. A respirar sem medo constante. A planejar de novo, mesmo que em curto prazo. Para quem viveu na Europa, onde a vacina também simbolizou retomada, foi nítido perceber: sem ela, o Brasil teria entrado em colapso social irreversível.

O sistema humano voltou a responder.

Economia: não prosperidade, mas movimento

Economicamente, 2022 não foi abundância — foi movimento. E depois de anos de paralisia, movimento já é sinal de vida. Pequenos negócios retomaram, serviços reapareceram, projetos voltaram à mesa.

O home-office deixou de ser improviso e virou arquitetura. Muita gente percebeu que não precisava mais estar fisicamente presa a centros caros, congestionados e emocionalmente desgastantes. Para quem tinha vivido fora, isso soava familiar: trabalho orientado a entrega, não a presença.

O Brasil começou, tardiamente, a entender algo básico do mundo moderno.

Sociedade: menos grito, mais cansaço — e alguma lucidez

Socialmente, 2022 foi menos explosivo que os anos anteriores. Não porque os problemas sumiram, mas porque as pessoas estavam cansadas demais para berrar o tempo todo. E o cansaço, às vezes, produz lucidez.

Houve polarização, sim. Mas também houve uma vontade silenciosa de seguir em frente. De reconstruir rotinas. De não viver mais em estado permanente de alerta.

O tecido social ainda estava rasgado — mas já não sangrava o tempo todo.

Cultura: reaprendendo a criar

Culturalmente, 2022 foi um recomeço tímido. Eventos voltaram. Encontros reapareceram. A arte saiu do modo sobrevivência e voltou, devagar, ao modo criação.

O Brasil reaprendeu algo essencial: cultura não é luxo, é manutenção do sistema. Sem ela, a máquina enlouquece.

Educação, DIO e o inesperado renascimento do legado

E aqui veio a grande surpresa do ano.

Enquanto muita gente ainda apostava apenas no “novo pelo novo”, 2022 mostrou algo que todo veterano de mainframe já sabia: sistemas críticos não são descartados — são mantidos.

A DIO e outras plataformas começaram a oferecer cursos gratuitos, acessíveis, práticos. Gente que jamais teria acesso a formação técnica começou a estudar de casa. Home-office, cursos online, capacitação assíncrona — tudo isso abriu portas reais.

E então aconteceu o impensável para quem só conhece tecnologia por hype:
o mainframe voltou ao centro do jogo.

Choveu vaga de COBOL. Literalmente.

Bancos, seguradoras, governos, empresas globais — todos dependentes de sistemas escritos décadas atrás — perceberam que não tinham operadores suficientes. O legado não morreu. Ele sobreviveu a todas as modas. E agora pedia gente que soubesse ler, entender e manter código crítico.

Para mim, isso teve gosto de justiça histórica.

O renascimento do mainframe: quando experiência vira ativo

Depois de anos em que “antigo” era tratado como sinônimo de “obsoleto”, 2022 lembrou o óbvio: antigo é o que continua funcionando quando tudo o resto falha.

COBOL não voltou por nostalgia. Voltou por necessidade. Voltou porque sistemas que pagam salários, aposentadorias, benefícios e movimentam trilhões não podem cair.

E, de repente, quem carregava conhecimento profundo deixou de ser peso e voltou a ser pilar.

Todo operador de mainframe sorriu em silêncio.

População: machucada, mas de pé

O povo em 2022 ainda estava machucado. Mentalmente, financeiramente, emocionalmente. Mas estava de pé. Mais cauteloso. Menos iludido. Um pouco mais sábio — no sentido duro da palavra.

A esperança voltou, mas não era mais ingênua. Era técnica. Condicionada. Baseada em evidência, não em promessa.

Nono ano pós-retorno: reconciliação com o tempo

Em 2022, pela primeira vez desde que voltei ao Brasil, senti algo próximo de reconciliação. Não com o país idealizado. Mas com o país real. Complexo. Difícil. Injusto em muitos pontos. Mas vivo.

E comigo mesmo também. Entendi que voltar não foi erro nem acerto simples. Foi parte do job.

Epílogo: a lição final do ano

2022 ensinou uma verdade que só sistemas grandes revelam depois de crises profundas:

o futuro não elimina o passado — ele o integra.

O Brasil só voltou a respirar porque aplicou ciência, tecnologia, trabalho remoto, educação acessível —
e porque o legado estava lá, silencioso, sustentando tudo.

O sistema não virou perfeito.
Mas voltou a funcionar com propósito.

E todo veterano de mainframe sabe:
quando o legado resiste,
é sinal de que ainda há muito sistema pela frente.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

O Tesouro Perdido de Itatiba — Quando Jack Sparrow Desembarcou no Jacaré, Procurou Dois Milhões numa Chácara e Descobriu que Toda Cidade Tem sua Ilha da Caveira

 


☕ Lendas de Itatiba

O Tesouro Perdido de Itatiba — Quando Jack Sparrow Desembarcou no Jacaré, Procurou Dois Milhões numa Chácara e Descobriu que Toda Cidade Tem sua Ilha da Caveira

Ou: uns juram que eram 600 mil, outros aumentam para 2 milhões, um segredo teria morrido durante a pandemia, paredes foram interrogadas a marretadas — e até hoje ninguém sabe se o tesouro existiu, desapareceu ou já paga gasolina de carro novo.

Nota ao leitor — antes que Igor chame a perícia: este texto registra uma lenda oral do imaginário popular de Itatiba. Não é denúncia, investigação nem afirmação de fatos. Não apresentamos documentos, provas ou testemunhos verificáveis. Os personagens são tratados de forma genérica, os valores variam conforme a versão e nenhuma pessoa ou organização deve ser considerada identificada ou acusada. É um “causo”: mistura de diz que me diz, memória coletiva, humor e folclore político.


Prólogo — Um pirata pergunta onde fica o porto

Jack Sparrow chegou a Itatiba sem navio.

Isso, por si só, não o incomodou. Jack já perdera embarcações, tripulações, bússolas, garrafas, reputações e provavelmente alguns processos administrativos. O que realmente o deixou desconcertado foi descobrir que a cidade não tinha mar.

— Toda cidade com tesouro deveria ter um porto — reclamou, diante do Ribeirão Jacaré. — É uma questão de organização narrativa.

Igor, que fora designado guia por ninguém em particular, apontou para a água e garantiu que, em época de chuva, aquilo quase parecia o Caribe.

Jack examinou o ribeirão, depois Igor e, por fim, a garrafa que trazia no casaco.

— O Caribe piorou muito.

Mas o capitão não atravessara metade do imaginário popular para discutir hidrografia. Uma história extraordinária circulava pelos balcões, grupos de mensagens e conversas ditas em voz baixa — embora sempre alta o suficiente para a mesa ao lado ouvir.

Em algum lugar de Itatiba estaria escondido um tesouro político.

Uns diziam 600 mil reais. Outros, mais generosos com o dinheiro alheio, garantiam 2 milhões. Havia quem falasse numa mala, quem preferisse caixas e quem descrevesse pacotes escondidos como se tivesse pessoalmente conferido o lacre. De acordo com a lenda, seria dinheiro de uma campanha política. Entretanto, o único guardião da localização teria morrido de Covid durante a pandemia, levando consigo a coordenada final.

Não havia mapa. Não havia recibo. Não havia fotografia. Não havia prova de que o tesouro existira.

Ou seja: para Jack Sparrow, era uma pista perfeita.


1. Todo bom tesouro começa com uma conta que não fecha

No primeiro boteco, o valor era de 600 mil.

No segundo, depois de dois cafés e uma cerveja, subiu para 800 mil.

No terceiro, um homem que conhecia um primo de alguém que “esteve perto de tudo” bateu a mão na mesa:

— Dois milhões. Posso não saber onde estão, mas sei quanto havia.

Jack inclinou-se para Igor.

— Admirável. O homem desconhece o esconderijo, a embalagem, a origem e o destino, mas conhece o saldo.

— É a contabilidade oral — explicou Igor. — Não precisa de planilha.

Essa é uma das leis mais antigas das lendas urbanas: o número nunca permanece quieto. Ele engorda a cada narrador porque a memória coletiva não trabalha com auditoria; trabalha com impacto. Seiscentos mil podem caber numa conversa. Dois milhões exigem iluminação, trilha sonora e alguém olhando para os lados antes de continuar.

O dinheiro da história, portanto, rendia sem precisar estar aplicado. Bastava mudar de mesa.


2. O homem que, segundo a lenda, conhecia o X

Toda caça ao tesouro precisa de alguém que tenha visto o mapa.

Na lenda itatibense, esse papel caberia a um secretário partidário. Segundo o causo, ele seria o único a conhecer o esconderijo. Não o prefeito, não o tesoureiro, não os candidatos, não os aliados, não o sujeito responsável por buscar café. Somente ele.

Então veio a pandemia — aquele período real, trágico e desorganizador, no qual tantas vidas e histórias foram interrompidas. O suposto guardião faleceu. Com ele, teria desaparecido a última indicação do lugar onde o dinheiro estaria.

A partir desse ponto, o relato deixa de parecer política municipal e começa a funcionar como lenda de piratas.

O morto se torna o único possuidor do segredo. O segredo se torna impossível de confirmar. E a impossibilidade de confirmação, em vez de matar a história, passa a alimentá-la.

Jack abriu sua bússola. O ponteiro girou, parou numa padaria, hesitou diante de uma adega e depois apontou para lugar nenhum.

— Ela indica aquilo que mais desejamos — disse o capitão.

— Então não serve para encontrar dinheiro dos outros — respondeu Igor.

— Meu caro, dinheiro dos outros é uma das coisas que piratas mais desejam.


3. O apartamento e a arqueologia da suspeita

Segundo uma das versões, depois da morte do guardião alguém teria entrado em seu apartamento e revirado tudo.

No edifico Praxx confusão não faltou, pobre Gavetas abertas. Armários examinados. Papéis vasculhados. Fundos falsos procurados. Talvez colchões apertados, livros sacudidos e potes de mantimentos interrogados. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu; cada narrador reorganiza o cenário conforme a própria experiência com filmes policiais.

Nada teria sido encontrado.

Mas numa lenda, “nada encontrado” não significa que nada existia. Significa apenas que o próximo capítulo precisa de um cenário maior.

Jack avaliou a situação com autoridade:

— Apartamentos são péssimos para tesouros. Muitos vizinhos, paredes finas e síndicos que tratam papagaios como infração condominial.

— E onde um profissional esconderia? — perguntou Igor.

— Numa ilha deserta.

— Não temos.

— Num navio naufragado.

— Também não.

— Numa chácara?

Igor sorriu.

O capitão percebeu que finalmente encontrara o Caribe itatibense.


4. A chácara, as paredes e a pá patriótica

Outra versão da lenda fala de uma chácara que diziam “pertencer” ao guardião. As aspas são importantes: em causos políticos, propriedade é um conceito tão flexível quanto o valor do tesouro.

Foi ali, conforme o relato popular, que a busca teria ganhado entusiasmo de expedição espanhola. Paredes teriam sido quebradas. Pontos considerados promissores teriam sido escavados. Talvez alguém tenha batido nos tijolos à procura de som oco, observado pisos recentes ou desconfiado daquela árvore plantada num ângulo excessivamente misterioso.

Não sabemos quem teria procurado, quando, com qual autorização ou se a escavação ocorreu como contam. Sabemos apenas que a imagem sobreviveu: homens sérios, possivelmente ligados à política, convertidos por algumas horas em caçadores de tesouro, perguntando a uma parede onde estavam os milhões.

Jack Sparrow caminhou pela representação imaginária da propriedade, encostou o ouvido num muro e bateu três vezes.

— O que ele disse? — perguntou Igor.

— Que deseja um advogado.

As paredes, aparentemente, conheciam melhor seus direitos do que os exploradores.


5. Hernán Cortés de Itatiba entra na expedição

Foi então que surgiu Don Alonso de los Cofres Perdidos, caçador espanhol de tesouros, falsificador de mapas turísticos e autoproclamado especialista em ouro que jamais encontrou.

Don Alonso usava chapéu largo, botas cobertas de barro e um detector de metais comprado pela internet. Falava como se cada terreno baldio fosse a entrada secreta de El Dorado.

— Capitán — anunciou —, todo tesoro deja una señal.

— Qual? — perguntou Jack.

— Gente nerviosa alrededor.

— Isso não reduz muito o mapa quando envolve política — observou Igor.

Don Alonso apresentou três pergaminhos. O primeiro marcava o apartamento. O segundo indicava a chácara. O terceiro era um mapa de pizzaria que ele havia apanhado por engano.

O detector apitou perto de uma cerca. Todos correram. Cavaram cuidadosamente e encontraram uma ferradura, duas latas enferrujadas e uma ficha telefônica.

— Sinais de uma civilização avançada — declarou Don Alonso.

Jack discordou:

— Se fosse avançada, teria escondido rum.



6. A cidade inteira transforma-se num mapa

Quando uma busca não encontra nada, duas conclusões seriam razoáveis: o objeto não estava ali ou talvez nunca tenha existido.

Mas a lenda oferece uma terceira possibilidade, muito mais divertida: procuraram no lugar errado.

Assim, qualquer imóvel relacionado remotamente à história pode ganhar um X imaginário. Um muro reformado torna-se pista. Um piso trocado parece confissão. Uma árvore removida vira operação noturna. Uma venda apressada de propriedade passa a significar que alguém sabia de alguma coisa.

Até a prosperidade posterior de qualquer conhecido pode ser absorvida pelo enredo.

Comprou carro? Achou uma parte.

Abriu empresa? Lavou o tesouro.

Reformou a cozinha? O dinheiro estava atrás do azulejo.

Mudou de cidade? Fugiu com a mala.

Continua pobre? Está disfarçando muito bem.

É assim que uma boa lenda se protege contra a realidade: qualquer evidência serve, inclusive a ausência de evidência.


7. O maior esconderijo é aquele que não pode ser revelado

O tesouro de Itatiba possui uma qualidade superior ao ouro pirata: se alguém o encontrar, provavelmente não contará.

Imagine a cena. Uma pá toca algo sólido. Surge uma caixa. Dentro dela, maços preservados pelo acaso e pela criatividade logística. O descobridor olha para os lados, fecha o buraco e passa os dez anos seguintes tentando explicar por que sua vida financeira melhorou justamente depois de uma pescaria numa chácara sem lago.

Se o dinheiro tivesse origem ilícita, apresentá-lo ao mundo seria convidar perguntas. Se tivesse origem inocente, ainda assim seria necessário explicar propriedade, localização e circunstâncias. O silêncio seria parte do prêmio.

Por isso, mesmo uma descoberta não encerraria a narrativa. Apenas criaria novos indícios: uma viagem, uma compra, uma reforma, uma generosidade inesperada.

Jack resumiu:

— O tesouro perfeito não é aquele que ninguém encontra. É aquele que, depois de encontrado, obriga o homem a continuar fingindo que procura.

Don Alonso tirou o chapéu. Igor anotou a frase para usar numa postagem sem dar crédito.


8. O que a lenda conta quando não consegue contar a verdade

Talvez nunca tenha existido dinheiro algum.

Talvez tenha existido dinheiro, mas não como a história descreve.

Talvez as buscas tenham sido reformas comuns, transformadas em escavações por vizinhos atentos. Talvez alguém realmente tenha procurado alguma coisa — documentos, objetos pessoais, papéis — e a imaginação coletiva tenha colocado maços de notas no fundo da cena.

Sem documentos e provas, não é possível ir além dessas hipóteses. E não precisamos ir.

O valor cultural do causo não está em provar um crime, mas em mostrar como uma cidade processa seus silêncios. Quando instituições não esclarecem rumores, quando personagens desaparecem e quando a política produz mais desconfiança que respostas, o povo escreve sua própria versão. Acrescenta cifras, constrói mapas e convoca testemunhas que sempre ouviram de alguém confiável.

A lenda é uma forma popular de preencher espaços vazios. Não é necessariamente verdade, mas revela aquilo que uma comunidade considerou plausível — e isso também diz muito sobre uma época.


9. Manual do caçador de tesouros que deseja continuar fora da cadeia

Antes de alguém comprar uma pá, Jack Sparrow pediu a palavra para uma rara manifestação de responsabilidade cívica.

— Não invadam imóveis. Não derrubem paredes. Não escavem propriedades. Não acusem pessoas. Não publiquem nomes. E, principalmente, não levem Igor.

O capitão estava certo.

Registrar folclore não autoriza perseguição, invasão, dano ao patrimônio ou difamação. Terrenos têm donos; mortos têm famílias; suspeitas não substituem provas. A graça está em preservar a narrativa, não em reiniciar uma suposta operação de busca.

Se algum documento autêntico surgir um dia, ele pertencerá ao campo do jornalismo, da história ou das autoridades competentes. Até lá, o tesouro vive onde sempre viveu: na conversa.


Epílogo — A bússola aponta para o boteco

Depois de dias seguindo pistas que não existiam, Jack Sparrow abriu novamente sua bússola. Dessa vez, o ponteiro permaneceu firme.

Ele atravessou algumas ruas, dobrou uma esquina e entrou no boteco onde a história começara. Na mesa do fundo, um homem contava para outros três que o valor correto não era 600 mil nem 2 milhões.

— Eram 5 milhões — sussurrou. — Meu cunhado conhece uma pessoa que viu as caixas.

Jack sorriu. Don Alonso pediu outra rodada. Igor abriu uma planilha para atualizar o patrimônio lendário.

O tesouro acabara de render novamente.

Talvez o dinheiro nunca tenha existido. Talvez tenha sido encontrado. Talvez continue sob uma parede, uma árvore ou um piso que ninguém ainda considerou promissor. Não sabemos — e qualquer pessoa honesta precisa admitir isso.

Mas, como toda boa lenda, o Tesouro Perdido de Itatiba já encontrou um esconderijo melhor que qualquer cofre: a memória da cidade.

Ali ele não mofa, não desvaloriza e não pode ser apreendido. A cada nova narração, recebe mais alguns zeros, uma parede adicional e outra testemunha indireta.

E se um dia alguém perguntar quem conhece a verdade, haverá sempre um sujeito no canto do boteco disposto a olhar para os lados, baixar a voz e dizer:

— Eu não posso provar nada… mas sei onde começaram a cavar.

Jack erguerá a caneca.

Igor salvará o mapa.

E Itatiba responderá, em seu dialeto oficial para histórias grandes demais para caber num documento:

Piu. Corcorcó.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2018/04/um-dos-ultimos-boteco-analogico-de.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2018/02/carnaval-de-itatiba-foi-invadido-pelos.html



domingo, 17 de outubro de 2021

🎺 A Música do Cambuí

 


🎺 A Música do Cambuí

Por Vagner Bellacosa Mainframe

Em meio ao medo, havia som.
Não o som das panelas — que soava como protesto —
mas o som da beleza tentando sobreviver.

No Cambuí, em Campinas, músicos anônimos começaram a sair às ruas, mantendo o distanciamento,
andando devagar pelas calçadas vazias, tocando saxofones, violinos, flautas e tambores.
As notas ecoavam entre os prédios, subindo pelas varandas,
encontrando rostos cansados e olhos marejados.

Era um gesto simples — e talvez por isso, tão comovente.
As pessoas, isoladas em seus apartamentos, aplaudiam das janelas,
outras choravam, outras acompanhavam batendo palmas no ritmo.
Por um instante, a rua voltou a ter alma.

O vírus estava por toda parte — invisível e letal.
Os telejornais mostravam hospitais de campanha, leitos improvisados,
médicos exaustos, corpos enrolados em lençóis,
e números que pareciam não ter fim.
Era como assistir a uma guerra sem som,
até que esses músicos decidiram devolver o som ao mundo.

Naquele tempo, a música era uma prece.
E o Cambuí virou uma pequena catedral a céu aberto,
onde cada nota dizia o que as palavras não podiam:
“Estamos com medo, mas ainda estamos vivos.”

A cena era surreal: ruas vazias, janelas iluminadas,
o som flutuando sobre o asfalto molhado,
e o coração, por alguns minutos, esquecendo as estatísticas.
Talvez fosse isso o que Deus esperava de nós —
não heroísmo, nem fé cega,
mas a capacidade de ainda se comover.

Lembro-me da história que minha bisavó Isabel contava —
a gripe espanhola, os corpos enrolados em lençóis,
o homem da carrocinha puxada a burro, recolhendo os mortos pelas ruas.
Cem anos depois, o mesmo medo, a mesma dor, o mesmo silêncio.
Mudaram as roupas, os carros, os prédios —
mas o susto diante da morte continua igual.

E no entanto, havia música.
E enquanto houvesse música,
a humanidade ainda tinha chance.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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