☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta anos 1990. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta anos 1990. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 25 de março de 2019

Sempre um Isekai : O Isekai e o Contrato Social Quebrado – Parte II

Bellacosa Mainframe e a quebra do contrato social parte II

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Isekai e o Contrato Social Quebrado – Parte II

Quando um Programador COBOL Descobre que os Anos 1990 Talvez Tenham Sido o Grande IPL da Economia Mundial... e Nem Todos os JOBs Voltaram a Executar

No final da Parte I deixei uma pergunta no ar.

Por que justamente nas últimas décadas o isekai deixou de ser um gênero de nicho para se tornar praticamente uma indústria?

É claro que não existe uma resposta única.

Mas existe uma coincidência histórica impossível de ignorar.

O isekai moderno começou a explodir justamente quando milhões de pessoas passaram a acreditar que o futuro seria pior do que o presente.

Parece exagero?

Vamos fazer um pequeno dump da memória da História.


O Mundo Parecia Ter Encontrado o Caminho

Durante boa parte do século XX existia uma sensação relativamente otimista.

Você estudava.

Conseguia um emprego.

A empresa investia na sua carreira.

Com o passar dos anos...

O salário aumentava.

A experiência era valorizada.

A aposentadoria parecia um destino natural.

Havia crises?

Claro.

Mas existia uma expectativa de progresso.

Era como um JOB batch previsível.

Você sabia onde começava.

Sabia aproximadamente onde terminaria.


Então Chegaram os Anos 1990

A década de 1990 foi um verdadeiro IPL da economia mundial.

Empresas foram privatizadas.

Mercados foram globalizados.

A internet nasceu.

A competição deixou de ser apenas entre empresas da mesma cidade.

Agora ela era mundial.

Uma fábrica no Brasil competia com outra na China.

Um programador na Europa disputava projetos com alguém na Índia.

O mundo ficou menor.

Muito menor.


A Estabilidade Virou Custo

Ao mesmo tempo...

Começou uma mudança silenciosa.

Empregados deixaram de ser vistos como patrimônio da empresa.

Passaram a ser tratados como custo operacional.

Palavras bonitas começaram a aparecer.

Reestruturação.

Otimização.

Sinergia.

Eficiência.

Rightsizing.

Downsizing.

Na prática...

Muitas vezes significavam exatamente a mesma coisa.

Menos pessoas.

Mais trabalho.

Mesma cobrança.


A Tecnologia Prometeu um Paraíso

Quem viveu os anos 1980 e 1990 deve lembrar.

Os computadores iriam reduzir o trabalho.

A automação nos daria mais tempo.

A internet eliminaria burocracias.

A inteligência artificial faria as tarefas repetitivas.

Parecia maravilhoso.

Mas aconteceu algo curioso.

Cada ganho de produtividade gerou novas metas.

Se antes um funcionário fazia cem processos por dia...

Agora esperavam duzentos.

Depois trezentos.

Depois quinhentos.

A CPU ficou mais rápida.

Mas aumentaram a fila do JES.


A Geração do "Sempre Disponível"

Existe uma diferença enorme entre trabalhar...

...e nunca deixar de trabalhar.

Hoje carregamos o escritório no bolso.

Celular.

E-mail.

Teams.

Slack.

WhatsApp.

VPN.

Notebook.

O expediente termina.

Mas a disponibilidade continua.

O resultado?

O cérebro nunca recebe um END JOB.

Fica permanentemente em WAIT.


O Sonho da Casa Própria Mudou de Endereço

Converse com pessoas de diferentes gerações.

Muitos contam histórias parecidas.

"Meu pai comprou uma casa com um único salário."

"Minha mãe criou quatro filhos."

"Meu avô trabalhou na mesma empresa por quarenta anos."

Hoje...

Mesmo profissionais altamente qualificados fazem contas para financiar um apartamento durante décadas.

Isso não significa que o passado fosse perfeito.

Longe disso.

Mas a percepção de mobilidade social mudou bastante para muitas pessoas.


O Tempo Virou a Moeda Mais Cara do Mundo

Quando somos jovens...

Achamos que dinheiro compra tudo.

Depois descobrimos outra verdade.

O recurso mais raro não é dinheiro.

É tempo.

Tempo para almoçar sem olhar o celular.

Tempo para brincar com os filhos.

Tempo para viajar.

Tempo para ler.

Tempo para estudar algo porque gostamos.

Tempo para simplesmente...

...não fazer nada.

Curiosamente...

É exatamente isso que o aventureiro de um isekai parece possuir.


O Herói Trabalha Muito

Mas Existe Uma Diferença

Muita gente diz:

"Mas o aventureiro também trabalha."

Sim.

E trabalha muito.

Enfrenta monstros.

Caminha quilômetros.

Arrisca a vida.

Dorme ao relento.

Mas existe uma diferença gigantesca.

Ele escolheu aquela missão.

Pode recusá-la.

Pode mudar de cidade.

Pode abandonar uma guilda.

Pode abrir uma loja.

Pode virar alquimista.

Pode ser fazendeiro.

Pode simplesmente seguir viagem.

Autonomia.

Essa talvez seja a verdadeira habilidade lendária.


O Nível Subiu...

Mas o Salário Não

Outro fenômeno curioso.

Na maioria dos RPGs.

Quanto maior o nível...

Maior a recompensa.

Na vida moderna...

Nem sempre.

Você aprende novas tecnologias.

Novas linguagens.

Novos frameworks.

Novas certificações.

Novos processos.

Novas responsabilidades.

Mas muitas vezes a sensação é que a recompensa cresce muito menos do que o esforço necessário para continuar competitivo.

É como passar do nível 80 para o nível 99...

...e ganhar apenas mais cinco pontos de HP.


O Isekai Nunca Foi Sobre Espadas

Quanto mais observo esse gênero...

Mais tenho certeza.

A espada é um símbolo.

A magia é um símbolo.

O dragão é um símbolo.

O verdadeiro protagonista é outro.

A esperança.

Esperança de que exista algum lugar onde esforço e recompensa voltem a conversar.

Onde trabalhar produza significado.

Onde o reconhecimento exista.

Onde a vida não seja apenas uma sequência infinita de boletos, impostos, metas, reuniões e relógios.


Bellacosa Mainframe

Talvez seja por isso que tanta gente sonhe com um portal mágico.

Não porque queira abandonar computadores, cidades ou tecnologia.

Mas porque deseja abandonar uma sensação.

A sensação de correr cada vez mais rápido...

...para permanecer exatamente no mesmo lugar.

No fundo, o círculo mágico do isekai talvez seja apenas um enorme botão escrito:

RESTART SYSTEM

Porque milhões de trabalhadores não querem necessariamente um mundo medieval.

Querem apenas recuperar aquilo que o mundo moderno parece ter roubado aos poucos.

Tempo.

Esperança.

Autonomia.

E a certeza de que o esforço de hoje ainda pode construir um amanhã melhor.

Continua na Parte III — "A Guilda dos Aventureiros ou o RH? Por Que Trabalhar em um Mundo de Fantasia Parece Mais Justo do que no Mundo Real".

☕ UM CAFÉ NO BELLACOSA MAINFRAME

O Isekai e o Contrato Social Quebrado

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez Nunca Tenhamos Querido Fugir para Outro Mundo... Apenas Entender Este.

PRIMEIRA REGRA DO PORÃO NENHUM ARTIGO DEVE FICAR ESCONDIDO DOS LEITORES

Entre nesta série sobre trabalho, impostos, burnout, sociedade, salarymen, guildas, promessas quebradas e o verdadeiro significado da fuga para mundos paralelos. Escolha um capítulo, abra a prévia ou leia diretamente no Bellacosa Mainframe.

00
SYSTEM DIAGNOSIS

O Verdadeiro Rei Demônio Talvez Seja o Holerite

Quando um Programador COBOL Descobre que o Isekai Não Vende Magia... Vende um Mundo Onde o Esforço Ainda Vale Alguma Coisa.

Uma introdução à relação entre o sucesso do gênero isekai, a exaustão do trabalhador moderno, os descontos no salário, a perda de propósito e o desejo de recomeçar em outro mundo.

HOLERITE TRABALHO ISEKAI CONTRATO SOCIAL
Ler artigo completo ↗
01
CONTRACT ABEND

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte I

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez o Verdadeiro Bug Nunca Tenha Estado no Código... Mas na Promessa Feita ao Trabalhador.

A promessa de trabalhar, contribuir, construir uma carreira e receber segurança no futuro começa a apresentar falhas de processamento.

CONTRATO SOCIAL APOSENTADORIA DIGNIDADE
Ler artigo completo ↗
02
ECONOMY IPL

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte II

Quando um Programador COBOL Descobre que os Anos 1990 Talvez Tenham Sido o Grande IPL da Economia Mundial... e Nem Todos os JOBs Voltaram a Executar.

Globalização, tecnologia, automação, terceirização e produtividade reinicializaram a economia mundial, mas muitos trabalhadores ficaram aguardando uma resposta do sistema.

ANOS 1990 GLOBALIZAÇÃO AUTOMAÇÃO
Ler artigo completo ↗
03
MISSION ACCEPTED

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte III

Quando um Programador COBOL Descobre que a Guilda dos Aventureiros Talvez Tenha um RH Muito Melhor que o Nosso.

Na guilda existem missões claras, riscos conhecidos, recompensas publicadas e liberdade para escolher o próximo trabalho. No escritório moderno, nem sempre.

GUILDA RH RECOMPENSA
Ler artigo completo ↗
04
CANCEL JOB

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte IV

Quando um Programador COBOL Descobre que o Truck-kun Nunca Foi um Caminhão... Mas um Botão de CANCEL JOB para uma Geração Inteira.

Truck-kun representa a interrupção brutal de uma vida repetitiva, exausta e sem perspectiva. Um símbolo sombrio do desejo de cancelar a rotina e recomeçar.

TRUCK-KUN BURNOUT CANCEL JOB
Ler artigo completo ↗
05
SALARYMAN MODE

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte V

Quando um Programador COBOL Descobre que Quase Todo Protagonista de Isekai é um Salaryman... e Isso Está Muito Longe de Ser Coincidência.

Programadores, funcionários de escritório e trabalhadores invisíveis protagonizam histórias de recomeço porque representam milhões de pessoas presas em rotinas semelhantes.

SALARYMAN ESCRITÓRIO PROPÓSITO
Ler artigo completo ↗
06
TIME AVAILABLE

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte VI

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez o Verdadeiro Feitiço do Isekai Não Seja a Magia... Mas o Tempo para Viver.

O maior luxo de um mundo fantástico talvez não seja lançar feitiços, mas ter tempo para conversar, descansar, conviver, caminhar e participar de uma comunidade.

TEMPO COMUNIDADE QUALIDADE DE VIDA
Ler artigo completo ↗
07
RETURN CODE 00

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte VII

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez Nunca Tenhamos Querido Fugir para Outro Mundo... Apenas Recuperar Este.

A conclusão da série propõe que talvez o verdadeiro sonho nunca tenha sido abandonar o mundo real, mas recuperar dignidade, propósito, tempo, comunidade e esperança.

ESPERANÇA RECONSTRUÇÃO FUTURO
Ler artigo completo ↗

quinta-feira, 10 de maio de 2018

🧠 Modems Clássicos dos Anos 1990

Bellacosa Mainframe e os modens classicos dos anos 1990
🧠 Modems Clássicos dos Anos 1990

🧠 Introdução

Muito antes do Wi-Fi, da fibra óptica e das conexões de centenas de megabits por segundo, existia um pequeno equipamento responsável por abrir as portas para um universo completamente novo: o modem. Para milhões de pessoas durante os anos 1990, ele foi o passaporte para as primeiras BBS, para a internet comercial, para o IRC, o ICQ, o e-mail e as intermináveis madrugadas navegando enquanto a linha telefônica permanecia ocupada. Conectar-se era quase um ritual: ligar o computador, iniciar o software de comunicação, ouvir a sequência de chiados, apitos e estalos da negociação entre dois modems e torcer para que ninguém tirasse o telefone do gancho.

Cada nova geração representava uma verdadeira revolução. Dos 9.600 bps aos lendários 56K, fabricantes como U.S. Robotics, Hayes, Supra, Zoom, Motorola e Creative disputavam o mercado oferecendo velocidades maiores, correção de erros, compressão de dados e recursos como fax e secretária eletrônica. Para quem administrava uma BBS, trabalhava remotamente ou simplesmente queria baixar um arquivo sem esperar horas, escolher o modem certo era quase uma decisão estratégica.

Nesta viagem nostálgica do Bellacosa Mainframe, vamos revisitar os modems que marcaram uma geração, entender a evolução dos padrões V.32, V.34, V.90 e V.92, relembrar curiosidades da internet discada e descobrir por que aquele inesquecível som de conexão ainda desperta um sorriso em quem viveu a década de 1990.

🧠 Modems Clássicos dos Anos 1990



AnoModelo / FabricanteVelocidade MáximaTipo / PadrãoObservações
1990U.S. Robotics Courier HST9.600 bpsProprietário (HST)Muito usado por BBS e hackers; top de linha.
1991Hayes Smartmodem 96009.600 bpsV.32Referência da época; “Hayes Compatible” virou padrão.
1992SupraFAXModem 1440014.400 bpsV.32bisPopular por incluir fax e preço acessível.
1993Zoom Telephonics 14.414.400 bpsV.32bisUm dos mais vendidos para uso doméstico.
1994USRobotics Sportster 2880028.800 bpsV.34Alta performance para BBS e primeiras ISPs.
1995Hayes Accura 2880028.800 bpsV.34Modem confiável e fácil de configurar.
1996USRobotics Courier V.34+33.600 bpsV.34+Um dos melhores modems analógicos antes do 56K.
19973Com/USRobotics 56K X256.000 bpsX2 (pré-V.90)Tecnologia proprietária, depois virou padrão.
1998Motorola VoiceSurfer 56K56.000 bpsV.90Primeiro padrão global de 56K.
1999Creative Modem Blaster 56K56.000 bpsV.90 / V.92Incluía software de fax e voz, muito usado no Windows 98.


🧠 Como Funciona um Modem?

A palavra modem é uma abreviação de MOdulator-DEModulator (Modulador-Demodulador), e seu papel é servir como um tradutor entre o computador e a rede telefônica. Enquanto o computador trabalha exclusivamente com sinais digitais — compostos por zeros e uns —, a linha telefônica convencional foi projetada para transportar apenas sinais analógicos, ou seja, variações contínuas de frequência e amplitude semelhantes à voz humana.

Quando você enviava um arquivo ou acessava um site, o modem convertia os bits gerados pelo computador em sons eletrônicos. Esse processo é chamado de modulação. Esses sons percorriam a linha telefônica até o modem do outro lado da conexão. Ao recebê-los, o segundo modem realizava a operação inversa, denominada demodulação, reconstruindo os bits originais para que o computador receptor pudesse interpretá-los corretamente.

Antes da transmissão começar, os dois modems realizavam uma espécie de "aperto de mãos", conhecido como handshake. Era justamente essa sequência de chiados, apitos e ruídos metálicos tão característica dos anos 1990. Durante alguns segundos, os equipamentos negociavam automaticamente a maior velocidade possível, verificavam a qualidade da linha telefônica, escolhiam algoritmos de compressão de dados e ativavam mecanismos de correção de erros.

Depois que a negociação terminava, estabelecia-se uma conexão estável. Os dados passavam a trafegar em pequenos blocos, continuamente verificados para detectar perdas ou interferências. Se algum bloco chegasse corrompido pelo ruído da linha, ele era retransmitido automaticamente, garantindo a integridade da comunicação.

Nos modems mais modernos da era discada, padrões como V.34, V.90 e V.92 permitiam velocidades teóricas de até 56 Kbps. Entretanto, limitações da rede telefônica faziam com que a velocidade real normalmente ficasse entre 40 e 48 Kbps.

Embora extremamente lentos pelos padrões atuais, os modems foram a tecnologia que permitiu a popularização da internet doméstica. Eles conectaram milhões de pessoas ao mundo digital, abriram caminho para BBSs, e-mails, IRC, ICQ e para o nascimento da Web comercial, tornando-se um dos equipamentos mais importantes da história da informática e das telecomunicações.

💾 Extras e curiosidades

  • 🔌 Interface: maioria conectava via porta serial RS-232, e só no fim da década surgiram os modems PCI internos.

  • 📞 Linha telefônica: exigia conexão discada (com aquele som icônico “chiado de modem”).

  • 📠 Fax: muitos modelos tinham função fax embutida (classe 1 e 2).

  • 🖥️ Softmodems (“winmodems”) surgiram no final da década — mais baratos, mas dependentes da CPU.

  • 🌐 Velocidade real: embora chamados “56K”, raramente passavam de 48 Kbps em uso real.,


segunda-feira, 10 de abril de 2017

🧾Os Anos de Ouro : Parte I — Quando o Crachá Valia Sonho

 

Bellacosa Mainframe e os anos de ouro da informatica quando o cracha valia o sonho parte I

🧾 Parte I — Os Anos de Ouro: Quando o Crachá Valia Sonho

por Bellacosa Mainframe ☕💼

Houve um tempo — não muito distante — em que o emprego era quase um sacramento.
Você acordava cedo, vestia a melhor roupa, pegava o ônibus lotado e, ao bater o ponto, sentia um certo orgulho.
O crachá era mais que um cartão magnético: era o símbolo de pertencimento.
Era o “sou alguém” numa cidade que engolia anônimos.

Nos anos 80 e 90, o escritório ainda tinha alma.
O chefe conhecia o nome dos funcionários, o cafezinho era comunitário, o vale-transporte vinha em papel, e o salário — embora modesto — pagava o mês com dignidade.
Havia futuro.
Você podia começar como office-boy, virar, evoluindo como um Pokémon: auxiliar, auxiliar-técnico, técnico, analista,  coordenador, assistente, chefe,  quem sabe gerente, ou mesmo com muito esforço DIRETOR.

Era o tempo dos planos de carreira e das pastas de couro, dos carimbos, dos cheques nominais e da máquina de escrever elétrica que era disputada como se fosse um Tesla. Aqueles sortudos que podiam agendar hora de uso acesso aos Terminais 3270 dos Mainframe IBM.

📠 Curiosidade de época:
Havia um ritual quase sagrado chamado “hollerith”.
Você o recebia em papel, abria com cuidado, e lá estavam seus descontos, seus ganhos, e a prova viva de que você pertencia a algo que fazia sentido.
O mundo do trabalho era humano, previsível, quase paternal.

Comiamos marmitas esquentadas em aquecedores eletricos na sala de reunião transformada em um animado refeitorio improvisado.

E por mais que fosse duro, ainda havia uma relação de reciprocidade entre patrão e empregado.

👔 O pacto invisível

Trabalhar era um contrato de confiança.
Você se dedicava, e a empresa te retribuía.
O chefe tinha palavra, o funcionário tinha lealdade.
Os currículos eram impressos, as entrevistas eram olho no olho — e a palavra “colaborador” ainda não tinha sido inventada pra disfarçar o que se era de fato: empregado.

Havia almoço de fim de ano, amigo screto, festa na firma, cesta de Natal, e até o brinde com refrigerante quente na cozinha improvisada.
Pequenos gestos que, somados, criavam identidade.
O trabalho era mais que salário: era laço social.

💾 Easter-egg: O COBOL das relações humanas

Assim como o COBOL, o trabalho daquela época era direto, estruturado e confiável.
Sem loops infinitos de “feedbacks construtivos” ou “OKRs trimestrais”.
Você entregava, recebia, vivia.
E o sistema, por mais antigo que fosse, funcionava.

🕰️ Nostalgia com propósito

Hoje, pode parecer romantização.
Mas quem viveu sabe: havia mais pertencimento, menos performance.
Mais humanidade, menos “branding pessoal”.
O emprego era porto seguro, não uma roleta emocional.

O office-boy de 15 anos ainda acreditava que o crachá era uma chave — e, de certo modo, era mesmo.
Chave pra independência, pra autoestima, pra esperança.
O crachá valia sonho.
E sonhar, naquela época, ainda era gratuito.


☕ #BellacosaMainframe #ElJefeMidnight #CrônicasDoTrabalho
💼 #MemóriasCorporativas #FuturoDoTrabalho #Anos80 #CracháComAlma #COBOLDaVida


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Crônica — Pilhas Caras, Brinquedos Offline e um Sonho Chamado Ferrorama


Bellacosa Mainframe e historia de pilhas e brinquendo na infancia do pequeno Vagner

Crônica — Pilhas Caras, Brinquedos Offline e um Sonho Chamado Ferrorama

Para o Blog El Jefe Midnight Lunch — Edição Bellacosa Mainframe

A infância não é feita apenas de doces memórias — às vezes ela vem com senha de acesso restrito, versão demo, recurso limitado por orçamento e por boleto vencendo.

E no meu caso, os vilões não eram monstros nem fantasmas.
Eram pilhas.
Essas pequenas tiranas cilíndricas que decidiam quanto tempo um brinquedo podia existir.

Nossa vida era como o mar — ora maré alta, comida farta, risada solta; ora maré baixa, contas apertadas, criatividade para sobreviver.
Meu pai com a fotografia, minha mãe com salgados, manicure, bordados, o que aparecesse.
Quando a grana apertava, a família estendia a mão como ponte.
Nunca faltou amor.
Mas sobravam limites.

E é por isso que eu odiava brinquedos a pilha.

Bellacosa Mainframe e as pilhas do destino

Não que eu não achasse incríveis.

Robôs que andavam, carrinhos que piscavam, fuscas que davam ré quando batiam na parede — aquilo era um trailer do futuro passando no cinema da sala.
Mas o ingresso era caro.
Pilhas custavam quase como ouro, ainda mais no "late-game", ou melhor nos ultimos anos da ditadura, com a inflação mordendo o salário como um pitbull faminto.

Bellacosa Mainframe e o sonho de infancia o trenzinho eletrico

Meus pais compravam um kit por mês.

Acabou? Acabou.

Só no próximo ciclo fiscal familiar.
E aí ficavam lá, meus brinquedos — parados, imóveis, como estátua de marmore, ao melhor estilo greco-romana — esperando energia para viver.
Brincar com eles sem pilha era como tentar ouvir vinil sem agulha.

A solução científica-milenar? A geladeira.
Colocávamos as pilhas no gelo como se fossem soldados feridos na enfermaria.
E elas ressuscitavam por alguns minutos gloriosos.
Depois morriam novamente, dramaticamente, sem música de despedida.

Por isso, os reis do meu quartel não tinham pilha:
Fort Apache e soldados Gulliver.
Movidos a imaginação, sem consumo energético, 100% renovável.
Ali a batalha nunca acabava — era fusão nuclear de fantasia e chão de terra.
A infantaria marchava, o canhão disparava som com a boca, o cavalo corria como búfalo.
Era offline mode, mas com servidor dedicado na mente.

E havia um sonho.
Grandioso, inalcançável, quase mitológico:

O Ferrorama.

Bellacosa Mainframe e o lendario ferrorama da Estrela

O trem elétrico da Estrela.
O Orient Express da infância brasileira.
A Torre Eiffel dos brinquedos.

Eu imaginava aquele trilho montado na sala, locomotiva fumegando, vagões brilhantes, estação lotada de passageiros que só existiam na minha cabeça.
Mas o preço era astronômico, coisa para filho de medico, bancário, dentista do bairro ou empresario.


Eu ficava com versões humildes, trenzinhos simples, plástico cru, motor fraco — mas rodavam sonhos.

Demorei anos para entender, mas aquilo me ensinou algo duro e valioso:

Quem aprende a sonhar com aquilo que não pode ter acaba descobrindo como construir mundos com aquilo que possui.

Hoje olho a prateleira, cheia de itens que eu jamais imaginei um dia possuir — alguns valem mais do que dois ou três Ferroramas dos anos 80.


E o menino de pilha gelada olha para tudo isso com um sorriso torto, meio vitorioso, meio nostálgico.

Porque a verdadeira bateria que movia minha infância não era alcalina —
era imaginação ilimitada com orçamento limitado.

E no fundo, é ela que me move até hoje.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...