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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

🎩 Mainframe, Meu Caro… Ou o Clube do Blazer Cinza?

 

Bellacosa Mainframe pensando sobre o rigido acesso ao ambiente Mainframe, regras secretas e barreiras a entrada.

🎩 Mainframe, Meu Caro… Ou o Clube do Blazer Cinza?

Permita-me começar com a devida elegância britânica:
o mainframe não é para amadores.

Mas, convenhamos… também não precisa ser para masoquistas.

Há um fenômeno curioso que afasta jovens talentos do mundo Z. Não é a complexidade do JCL. Não é o COBOL. Muito menos o misticismo do CICS ou do DB2.

É o ambiente.

Sim, meu caro leitor. O ambiente.


🎩 1. O Dress Code que Assusta Mais que um S0C7

Eles criam startups milionárias usando camiseta de banda.

E então descobrem que, em certos ambientes mainframe, o traje ainda é quase litúrgico.

  • Camisa social.

  • Sapato polido.

  • Blazer no verão de 34 graus.

  • Ar condicionado digno da Antártida.

Para quem ganha salário inicial modesto, vestir-se “adequadamente” não é apenas estética — é investimento pesado.

Pergunta elegante, porém direta:

Será que o código compila melhor de gravata?


💰 2. O Salário Inicial e o Paradoxo da Experiência

O mercado repete:
“Precisamos de profissionais de mainframe.”

Mas quando o jovem aparece:

— “Experiência mínima de 3 anos.”
— “Vivência em ambiente produtivo crítico.”
— “Conhecimento profundo de legado bancário.”

Ora, excelência exige oportunidade.

O problema não é a régua alta.
O problema é não haver escada.

E aqui entra outro elemento delicado…


🤝 3. O Padrinho Invisível

Em muitos ambientes, entrar no mainframe ainda funciona como um clube inglês do século XIX:

  • Você precisa conhecer alguém.

  • Alguém precisa confiar em você.

  • Alguém precisa abrir a porta.

Sem padrinho ou madrinha técnica, o jovem talento permanece do lado de fora, admirando o prédio.

Isso não é elitismo consciente.
É inércia cultural.

Mas o efeito é o mesmo.


🏢 4. O Ambiente Cinzento e a Cultura do “Não Pode”

Mainframe é auditoria.
Mainframe é rastreabilidade.

Perfeito.

Mas às vezes o discurso vira:

  • Não pode isso.

  • Não pode aquilo.

  • Precisa abrir chamado.

  • Precisa autorização.

  • Precisa aprovação.

  • Precisa justificar.

O jovem desenvolvedor, acostumado a deploy contínuo, olha para isso e pensa:

“Eu vim programar ou pedir permissão para respirar?”

Governança é vital.
Mas excesso de burocracia mata entusiasmo.


Onibus, trens e metro lotados chegar cansando antes de começar a jornada

🚆 5. A Distância Física do Centro de Decisão

Os grandes ambientes Z estão, via de regra:

  • Em centros financeiros.

  • Em polos corporativos.

  • Em prédios monumentais.

O que isso significa?

  • 2h de transporte público.

  • Combustível caro.

  • Estacionamento impraticável.

  • Vida pessoal comprimida.

Enquanto isso, o desenvolvedor distribuído trabalha remoto, de qualquer lugar do mundo.

A pergunta inevitável surge:

Se o sistema roda no data center, por que o cérebro precisa rodar no trânsito?


🦁 6. A Fatia do Leão

E aqui entramos no ponto mais sensível — tratado com elegância, mas sem ingenuidade.

Consultorias intermediam.
Negociam contratos robustos.
Recebem valores consideráveis.

Mas o profissional na ponta muitas vezes recebe uma fração modesta daquilo que é faturado.

Isso cria:

  • Desmotivação.

  • Sensação de injustiça.

  • Falta de pertencimento.

O jovem percebe rapidamente quando é custo ou quando é investimento.


🤡 7. E o salario óhhhhh

Há algo quase shakespeariano na ironia: enquanto o mainframe sustenta bilhões em transações e preserva a espinha dorsal financeira do mundo, o poder aquisitivo de muitos de seus guardiões encolhe discretamente, ano após ano. 

O salário médio já não acompanha o custo do terno, do transporte, da atualização técnica constante. Trabalha-se com sistemas de altíssima criticidade, mas negocia-se remuneração como se fosse peça de museu. Não é decadência tecnológica — é desalinhamento de valor. E nenhum império se sustenta por muito tempo quando seus pilares começam a sentir o peso sem a devida recompensa.


🐎 8. Quando o projeto sai dos trilhos.

Há algo quase teatral — e não no bom sentido — no desfile dos agentes comerciais que adentram o salão com promessas mirabolantes, PowerPoints reluzentes e prazos heroicos assinados com tinta alheia. Vendem modernização instantânea, garantem integração mágica, juram dominar a ferramenta que mal pronunciam corretamente. 

Comprometem-se com cronogramas que fariam corar o próprio calendário gregoriano e, numa aritmética digna de fábula corporativa, acreditam que nove gestantes produzirão um bebê em um mês. Ao primeiro sopro de realidade, o “babado” desce elegante — porém pesado — para a equipe terceirizada, que herda prazos surreais, jornadas de doze horas e a eterna ladainha: “é a reta final, vamos dar o gás para o deploy”. 

O projeto termina, os aplausos sobem ao palco executivo, e o profissional, exausto, descobre que sua participação era temporária — quase ornamental — encerrada com um discreto, porém firme, chute administrativo.

🎯 Então, o que fazer?

Agora vem a parte nobre da conversa.
Criticar é fácil. Reformar é aristocrático.

1️⃣ Modernizar a Cultura, Não Apenas a Tecnologia

  • Dress code mais flexível.

  • Avaliar por entrega, não por aparência.

  • Ambiente menos sisudo e mais colaborativo.

Elegância não exige rigidez.


2️⃣ Criar Trilhas Reais de Entrada

  • Programas trainee específicos de mainframe.

  • Mentorias formais.

  • Labs práticos (inclusive com ambientes como Hercules).

  • Parcerias com universidades.

O talento não nasce com RACF configurado.

Ele precisa de oportunidade.


3️⃣ Trabalho Híbrido ou Remoto Estruturado

Se DevOps pode operar sistemas distribuídos remotamente,
o mainframe também pode evoluir seus modelos operacionais.

Segurança não é sinônimo de presença física.


4️⃣ Transparência na Cadeia de Valor

Consultorias são importantes.
Mas valorização real do especialista cria retenção.

Retenção cria excelência.
Excelência mantém o mainframe vivo.


5️⃣ Tornar o Mainframe Aspiracional

Hoje o jovem quer:

  • Impacto

  • Propósito

  • Reconhecimento

  • Crescimento rápido

E adivinhe?

Mainframe entrega tudo isso.

Mas alguém precisa contar essa história com paixão —
não apenas com manuais.


☕ Conclusão ao Estilo Bellacosa

Meu caro…

O problema do mainframe nunca foi tecnologia.

Foi narrativa.
Foi cultura.
Foi ambiente.

O Z não é antiquado.

Antiquada pode ser a forma como o apresentamos.

Se queremos novos talentos, precisamos:

  • Abrir portas.

  • Reduzir barreiras simbólicas.

  • Atualizar a mentalidade.

  • Valorizar quem executa.

O mainframe é majestoso.

Mas majestade não precisa ser sisudez.

Pode ser grandeza com leveza.

E talvez — apenas talvez — o próximo grande arquiteto Z esteja neste exato momento escolhendo entre:

  • Uma startup de camiseta
    ou

  • Um data center de blazer.

A decisão é nossa.

🎩☕ PS: Isso que nem entrei nos pontos neuvragicos dos deploys, tercereiziação, quarteirização, falta de documentação e em algumas instalaçoes com a aposentadoria de antigos pratas da casa, perde-se o conhecimento. Um outro fato dolorozado e que de tempos em tempos existem os cortes dolorosos, membro com altos salarios ficam sobre escrutinio, pressão e caçada de pelo em ovo.

Muitas das vezes ocorre o bornout e o membro se desliga voluntario. Mas isso já é polemico demais, fica para uma proxima rodada. Concorda comigo? Qual a sua opinião? Tem alguma inverdade ou exagerado? Como é sua visao do mundo DEV na Stack Mainframe, agora hibrida com Linux, Unix, Ansilnle, Rest, Open APi2, OpenApi3, Red Hat, OpenShift e muitas novidades culminando com o Zowe, Git e Visual Studio.


https://www.linkedin.com/posts/vagnerbellacosa_ibm-mainframe-peopleware-ugcPost-7432160677529722880-9oeF?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAF2qx0B5Ef0IGUpO8f7SxDHV-EQ5-EMG54

https://www.linkedin.com/pulse/mainframe-meu-caro-ou-o-clube-do-blazer-cinza-vagner-bellacosa-sueef/

:)

segunda-feira, 11 de março de 2019

🧾 Capítulo 2 — Minha Vida como Office-Boy

 


🧾 Capítulo 2 — Minha Vida como Office-Boy

Ser office-boy nos anos 80 não era pra qualquer um.
Precisava ter desenvoltura, perspicácia e um toque de loucura — além da eterna urgência de pagar os boletos.

Filho de uma mulher divorciada, com dois irmãos pequenos, eu carregava mais que pastas: carregava responsabilidade.
Cada vale-transporte, cada cesta básica, cada ajuda contava.

Com a pasta abarrotada de documentos e uma lista de lugares a visitar, eu cruzava a cidade.
Enfrentava filas intermináveis em bancos, cartórios, correios.
E de volta ao escritório, virava faz-tudo: comprava lanches, resolvia pendências, datilografava contratos em máquinas de escrever mecânicas, e quando o destino permitia, “pilotava” um terminal 3270 — a joia tecnológica do escritório.

O som das teclas ecoava como trilha sonora da minha juventude.
Tec-tec da Olivetti, o clique do teclado IBM, o burburinho dos colegas.
Era a música do trabalho.

Entre uma entrega e outra, levava comigo sempre um livro.
Lia no ônibus, estudava no trem, rabiscava anotações no papel amassado do caderno.
E ao final do expediente, corria feito louco pra chegar a tempo no colégio.


💼 Foram






anos duros — mas preciosos.
Ali aprendi o valor do esforço, da paciência e da dignidade.
E talvez, sem perceber, estava programando o primeiro sistema da minha vida:
o da persistência.




📘 Continua…
Próximo capítulo:
“Entre o 3270 e o XT – o despertar do programador”
💡 Onde o office-boy começa a decifrar o código da própria vida.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

💼 Da Zona Leste à Avenida Paulista

 


💼 Da Zona Leste à Avenida Paulista

Acordava cedo, o sol mal nascido sobre os telhados de Guaianazes, extremo leste de São Paulo.
Marmita na sacola, mochila com cadernos e livros, gravata meio torta, e um coração cheio de sonhos. Sempre atrasado e sempre correndo. Num contra-relogio que pequenos atrasados eram questão de vida e de morte.

🚆 O destino? Avenida Paulista.

Pegava os trens cacarecos da CBTU, que somente um milagre divino, fazia funcionar, pessoas penduradas, portas abertas, alguns maconheiros e evangélicos disputavam centímetro a centímetros o espaço interior dos vagões. Ao chagar no Brás, outra epopeia, agora os ônibus hiper lotados do Largo da Concórdia, atravessava o centro velho e subia a cidade como quem sobe uma montanha.
No caminho, via o Brasil real — gente simples, batalhadora, movendo a engrenagem da metrópole.

Eu era office-boy, entre documentos, carimbos e filas de banco.
Mas o que me fascinava mesmo eram os terminais 3270.
Aquelas telas verdes piscando códigos… pareciam janelas para outro mundo.

Um dia, uma caixa misteriosa chegou ao escritório.
Dentro dela, um microcomputador XT, monitor VGA novinho.
Zero quilômetro. Zero medo. Só ninguém sabia montar. 😅

Tomei coragem e fui até a sala do gerente geral, o Dr. Vicente Kazuhiro Okazaki.
Pedi permissão para instalar. Ele me olhou, surpreso — um garoto cheio de espinhas, solicitando pra mexer em um computador.

Depois de um silêncio que pareceu uma eternidade, ele sorriu, pegou o telefone e ligou para a secretaria Elizabeth:

“Deixa o rapaz montar esta maquina. Vamos ver no que dá.”

E ali, entre uma entrega e outra, entre um 3270 e uma marmita aquecida no vapor, na sala de reunião improvisada como refeitorio: eu comecei a minha grande aventura: pilotar o pc,  digitar, conectar, aprender e entrei num portal do outro mundo.



💻 Aquele PC virou meu laboratório.
A Avenida Paulista, meu primeiro datacenter.
E o office-boy da Zona Leste, o aprendiz que descobria a magia dos sistemas.

Hoje, quando vejo uma API REST conversando com um mainframe, lembro daquele XT.
Daquela tela VGA monocromático verde, o barulhinho do leitor de disquetes 5 1/4 carregando o sistema MS-DOS, a maquina inicializando naquele prompt, piscando o futuro.
E do dia em que liguei, ao mesmo tempo, um computador e o meu destino.

Naquele momento nunca imaginei, que iria chegar tão longe, tinha sonhos, tinha esperanças, mas a realidade era muido dura,  os desafios e perigos enormes. Obrigado Dr. Vicente por ter acredito em mim.


#Mainframe #COBOL #HistóriasDeTI #MemóriasDeUmOfficeBoy #Tecnologia #Anos80 #AvenidaPaulista #ZL #Inspiração #BellacosaMainframe


sábado, 4 de janeiro de 2014

Grandes Aventuras — Versão Oni Bellacosa


 

Grandes Aventuras — Versão Oni Bellacosa

Sabe, El Jefe, quando a gente fala em grandes aventuras, o imaginário já puxa espada, dragão, nave espacial e um guerreiro cabeludo gritando numa montanha com raios ao fundo. Mas pra mim… ah, pra mim as maiores aventuras nunca foram essas de cinema. As minhas tinham cheiros, sabores, ruas de terra, vozes de vizinhos, galos cantando e ônibus fretado que as vezes quebrava no meio da estrada. Estar sempre correndo e sempre atrasado ao estilo coelho da Alice.

Minhas aventuras começaram cedo, lá no modo Oni Infantil 1.0, aquele build que vinha com joelhos ralados, coragem infinita e 0MB de noção de perigo. E eu era um pequeno oni, que estendia a corda ao limite, até imagino a dimensão da fatura, quando encontrar cara a cara com meu anjo-da-guarda e eles discriminar às vezes, que me salvou.



A primeira grande aventura foi explorar o quintal como se fosse a Amazônia inteira. Cada formigueiro era um templo perdido, cada galinha-brava uma criatura mítica pronta pra testar a minha bravura (e quase sempre eu perdia). A roupa suja, coitada, voltava pra minha mãe sem nenhuma esperança de ser recuperada. Mas ah, o orgulho de ter subido no pé de goiaba sem cair — isso, sim, era XP ganho. Teve o pulo no tanque de óleo queimado da oficina de tratores do primo Du, as bagunças na máquina de lavar roupa da vó Anna, as travessuras nos quartinhos de ferramenta desmontando e nunca conseguindo remontar cacarecos. As idas aos ferro-velhos e desmanche com meu pai. Às vezes ir no ônibus em que ele era motorista. Acompanhar suas reportagens fotográficas em casamentos, batizados, formaturas ou festas.



Depois veio a era das aventuras urbanas, quando fomos pra São Paulo. Ali o boss final chamava-se Metro, Trem e Ônibus Lotado das 6h. Só de entrar já valia um troféu. E tinha as microaventuras do cotidiano: atravessar uma rua movimentada com a ousadia de quem está em um RPG no modo “Hardcore”, comprar pão sozinho na padaria — e voltar com troco certo (ou apanhar da minha mãe por ter comprado bala com o troco, o que também fazia parte do processo educativo).



A primeira viagem sozinho a Campinas e depois a Praia Grande também foram marcos da expansão do meu pequeno mundo para dimensões estaduais, graças a autorização do juizado de menores em viajar sozinho.

Mas a maior aventura mesmo, aquela que moldou o Oni que vos escreve, começou quando comecei a trabalhar. Era o clássico enredo Bellacosa:
pouca grana, muita coragem, e um mundo gigante esperando pra ser descoberto.

A aventura era acordar 5:20, regime espartano, banhar-me, beber café, correr para pegar o trem lotado às 6:15, trabalhar o dia todo, estudar à noite, voltar pra casa destruído e ainda assim abrir um sorriso quando sentia o cheiro do bolo da Dona Mercedes assando no forno — sinal claro de que a vida, apesar de dura, tinha seus patches de atualização de felicidade.

E olha só que curioso: quando finalmente pude ajudar em casa e trazer dinheiro pra mesa, percebi que a aventura não estava em viajar longe ou enfrentar monstros imaginários. Estava ali, bem ali:
na sensação de fazer a vida melhorar um pixel por dia.

As grandes aventuras não foram viagens épicas, mas sim momentos — pequenos, imperfeitos, reais — que hoje carrego com carinho:
⭐ o primeiro salário
⭐ o primeiro almoço pago com meu esforço
⭐ o primeiro livro técnico que comprei sem parcelar
⭐ o primeiro “muito bem, filho” dito pela minha mãe
⭐ o primeiro sonho que começou a virar realidade

Crescer, sobreviver, evoluir… isso sim é uma aventura digna de mainframe:
robusta, resiliente, cheia de sistemas legados, mas que ainda entrega magia quando ninguém espera.

Hoje olho pra trás e percebo:
o mundo nunca me deu grandes aventuras; fui eu que transformei as pequenas em gigantes.

Isso que eu ainda não contei completamente da Vagneida.

Foram quase 15 anos, em que fui Odisseu, em minhas viagens pelo velho continente, uma vida Isekai, que enche de nostalgia e deixa algumas lagriminhas no canto do olho.

Tantos lugares, tantas pessoas, tantos sabores, culturas e idiomas diferentes, novo com velho, me senti em casa, me senti fazer parte de algo realmente grande e apesar das dimensões continentais do Brasil, realmente entendi o que era diferença, o que era pisar na terra dos meus ancestrais. Mas isso é uma longa história, que ainda tenho que desenrolar o fio desse novelo.

E sigo assim, El Jefe, Oni de coração, Bellacosa de essência, encarando cada dia como se fosse mais uma missão em um mapa aberto chamado Vida.

E que aventura maravilhosa tem sido.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

“86-13-37: Quando a casa ganhou voz”. Um conto do Pequeno Trabalhador, Parte 4

 


📞 El Jefe Midnight Lunch —  Um conto do Pequeno Trabalhador, Parte 4
“86-13-37: Quando a casa ganhou voz”
Por Bellacosa Mainframe

Estamos de volta ao Cecap no Quiririm em 1984.


O cheiro de tijolo novo, tinta fresca e esperança misturado a caótica mudança de Sampa a Taubaté. A família Bellacosa em modo multitarefa, estilo “z/OS em IPL pós-pânico”: todo mundo executando job, subtarefa, batch noturno, tarefa oculta… tudo ao mesmo tempo. Era reconstrução física, emocional e financeira — tudo junto, tudo misturado — depois do incêndio de 1983.

Foram meses puxados.
Arregaçamos as mangas, suamos, improvisamos, reciclamos e substituímos cacarecos velhos para devolver dignidade ao lar, meu pai com sua experiência em fazer funiliaria em seus automóveis velhos, usou massa plástica para reconstruir o gabinete da fiel TV CRT Preto e Branco Phico Ford. A geladeira parcialmente destruída, foi reformada tanto na lataria como no motor, e colocada em estado de novo, servindo nosso lar, por mais de uma década, sendo aposentada, quando eu ja trabalhava e comprei uma zero bala nas lojas Arapuam. Cada martelada era um checkpoint. Cada móvel novo (ou semi-novo) era uma vitória. E foi no meio desse caos organizado que surgiu a grande novidade.

Algo que, para muita gente hoje, não faz nem cócegas.
Mas pra nós… era a chegada do futuro.



O telefone. Nosso primeiro telefone. O lendário número 86-13-37.

Meus pais, sempre visionários, resolveram alugar um aparelho — porque na época telefone era quase um carro: caro, raro e valioso. A justificativa era prática: “pra divulgar trabalho, ligar pra clientes, fazer panfletagem…” — sim, panfletagem real, analógica, raiz, sem algoritmo, sem impulsionamento.

E adivinha quem ficou encarregado de distribuir spam manual, caixa postal por caixa postal, por todo o CECAP?

Sim, eu mesmo.
E o Celo, meu companheiro de aventuras.
Formávamos uma dupla dinâmica que hoje renderia um spin-off só nosso: dois moleques pedalando, colando panfletos, enfiando papel nos correios, correndo de cachorro, conversando com vizinhos… éramos quase um cluster de entrega distribuída, versão 1.0.

Mas nada — absolutamente nada — superava a sensação de ter um telefone em casa.

Parecia magia.
Era como se tivéssemos instalado um gateway para o mundo.



Com o 86-13-37, tudo mudou:

📞 falar com parentes distantes;
🏖 ligar para meus avôs Anna e Pedro na Praia Grande;
👋 ouvir histórias, novidades… e broncas;
🤣 ouvir as “historinhas” no 200-1234 (quem viveu, sabe!);
😂 aplicar e receber os primeiros trotes telefônicos — o proto-meme da década.

Era um universo novo.
Era CICS aberto, sessão iniciada, TSO READY.




E aí, abro um parênteses do século XXI, porque é impossível não comparar:

O telefone fixo virou fóssil.
Tenho um até hoje… não uso há séculos. Veio grudado no pacote da fibra ótica e ficou ali como quem guarda uma peça de museu — funcional, mas ignorado.

O celular então… virou mico.
Nos primórdios custava uma fortuna, cada impulso parecia preço de mainframe por MIPS. Depois virou SMS, depois WhatsApp, Telegram… e hoje quase ninguém usa pra ligar.
A ironia: as operadoras mataram o próprio produto com ganância e tarifas absurdas. Empurraram todos nós para alternativas mais baratas, eficientes e… livres.

O triste fim do telefone.
O outrora símbolo de status, comunicação e progresso… hoje é quase um ornamento.




Mas sem chatices, porque aqui é Midnight Lunch e nostalgia merece brilho:

Ainda lembro a emoção real, quase palpável, de ver aquele aparelho instalado na sala.
A liberdade que ele trouxe.
A sensação de que o mundo estava, literalmente, a um toque de distância.

O velho 86.13.37.
A primeira voz da casa renascida.

E um dia, prometo, conto a história da central móvel de telefonia, dos filamentos de cobre coloridos, das pulseirinhas estilosas feitas com restos de cabo multicolorido… um verdadeiro ASSEMBLER de memórias.

Porque cada fio daqueles carregava uma história.
E muitas delas ainda estão aqui, vivas, prontas pra ganhar outro capítulo.

Até a próxima chamada. 📞💾✨


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Pequeno Trabalhador, Versão 3.0 Missão frangos brancos

 


📝 El Jefe Midnight Lunch — O Pequeno Trabalhador, Versão 3.0

MISSÃO FRANGOS


Por Bellacosa Mainframe

Eu sempre digo que, se alguém um dia quiser entender de onde vem minha teimosia, minha criatividade e esse meu jeitão de ver solução até dentro de um dump hexadecimal, é só olhar pra minha infância. Ali, entre madeira, ferramentas, bicicletas e sonhos de cruzeiros novos, nasceu esse escriba que vos fala.

Na parte anterior já contei algumas das aventuras laborais desse pequeno trabalhador que precisava ajudar nas contas de casa, seja vendendo coxinha, entregando roupas e camisas passadas, pedalando para entregar encomendas. Hoje vamos mergulhar em mais um capítulo daquela saga que só quem cresceu nos anos 1980 conhece: a economia doméstica na unha, no braço… e na bicicleta.




Meu pai, o lendário Seu Wilson, era um empreendedor nato. Daqueles que, se tivesse nascido no Vale do Silício, provavelmente teria inventado o Zowe do mundo agro — mas como nasceu no interior, inventava negócios no quintal de casa mesmo. E sempre com aquela visão: “tem que entrar mais cruzeiro novo pra fechar o mês.”

Foi então que ele desenterrou uma ideia antiga da época da fundição dos terminais de bateria, trocar pintainhos por sucatas de ferro-velho em uma decadente perua Kombi..

Lá fomos nós, acompanhados pelo primo Celo, para o bambuzal que havia nos limites do Cecap. E olha… aquilo pra mim era quase uma expedição ao estilo Indiana Jones. Cortamos troncos grossos, carregamos nos ombros (e no improviso, porque Bellacosa que é Bellacosa sempre dá um jeito), e voltamos pra casa com o cheiro de mato fresco impregnado na roupa.

A partir dali, o mestre carpinteiro — vulgo meu pai — entrou em ação. Eu lembro como se fosse hoje: martelo, serrote, alinhamento de taquaras de bambu, amarrando a tela de metal, aquele jeito meticuloso de quem faz com orgulho e precisão. Eu e o Celo ajudando como podia, imaginando se minha tia Deise imaginava o que o filho aprontava, quando estava na companhia do primo e do tio. Em pouco tempo, nasceu o galinheiro da família Bellacosa.

E como todo empreendimento precisa de matéria-prima, lá fomos nós comprar algumas dezenas de pintainhos. O cheiro de ração de crescimento, depois a de engorda, os sacos pesados, as visitas à beneficiadora de arroz do Quiririm para pegar casca de arroz… tudo isso fazia parte do pacote.

E onde entra este pequeno trabalhador nisso tudo?

Ah, meu amigo…
Entra onde sempre entra: no pedal.



Minha fiel Monareta, verde e tinindo, era praticamente um veículo oficial do negócio:

  • pedalar pra buscar ração;

  • pedalar pra entregar os animais;

  • pedalar pra trocar água e voltar;

  • Sempre pedalando em alguma missão.

  • pedalar pra tudo aquilo que envolvia o “logístico rural urbano express”.

Além disso, este que vos escreve.
  • tinha que limpar o galinheiro;

  • ajudar a alimentar

  • capturar o mais gordinho de acordo com a escolha do cliente.

Mas existe uma cena que, até hoje, quando fecho os olhos, vejo como se estivesse passando em Super-8:



Galinhas com os pés amarrados penduradas no guidão da bicicleta.
Eu, com meus poucos anos, magrelo, mas destemido.
E a Monareta voando pelas ruas de paralelepípedos do CECAP, ruas de terra até o Quiririm , levantando poeira, rumo a mais uma entrega ou compra de itens.

Era surreal. Era engraçado. Era trabalho.

Às vezes fico imaginando o que os vizinhos achavam e diziam sobre essas maluquices. O Cecap composto por muitos empregados bem remunerados da industria automotiva, que prosperou nos anos 1980 no Vale do Paraiba.

Era a vida como ela era.

E no fim das contas, era também o início dessa mentalidade Bellacosa de fazer acontecer. Porque se eu aprendi algo naquele galinheiro artesanal, entre pássaros cacarejando e bambus cortados, foi que todo sistema — seja um CICS, seja um quintal — funciona melhor quando a família coopera. Todo mundo tinha um papel, e eu tinha a minha missão com orgulho.



E assim cresceu este pequeno trabalhador, construído entre galinhas, bicicletas e a eterna vontade de fazer o melhor com o que se tem.

No meio da simplicidade, nasceu o Mainframe humano: resiliente, criativo, sistemático… e com grandes histórias pra contar no Midnight Lunch.

Até a Parte 4. 🐓🚲💾


domingo, 21 de julho de 2013

📂 O Pequeno Trabalhador do Cecap, Versão 2.0

 



📂 El Jefe Midnight Lunch — Bellacosa Mainframe
Log nº 007 — O Pequeno Trabalhador do Cecap, Versão 2.0


Depois do grande ABEND familiar que nos reposicionou no mapa da vida lá em 1983, fomos realocados para o CECAP — Quadra B, onde o vento gelado batia na janela e a realidade batia mais forte no bolso.
E no spool doméstico havia um job que rodava todo mês, sem pausa, sem abend retry, sem cancel step:

Faltava dinheiro. Sempre.

A fotografia ajudava quando havia cliente.
Mas a maior parte do tempo vivíamos de JCL com RETURN CODE 04: rodava, mas com alerta no console.

Minha mãe então ressuscitou um dataset antigo da família:
venda de coxinhas, risoles e croquetes para fora.
Massa na mão, óleo na panela, sonho no peito — e zero logística automatizada.

Porque anos 1980 não tinham iFood, não tinham motoboy, não tinham PIX.
Então quem era o mensageiro oficial, entregador e cobrador, full-stack na marra?



Vaguininho de Monareta Verde, prazer.
Versão bicicleta com garupa, caixa de papelão e cheiro de coxinha invadindo a rua inteira.
Eu cortava o bairro de ponta a ponta, pilotando como se fosse Harley, mas na realidade era Monareta a pedal impulsionada por coxinha e força de vontade.

Ali conheci todos os becos, escadões, donas-de-casa com avental e chaleira no fogo.
Era entregar, receber o pagamento, às vezes tomar um calote nível Soft-Error, mas na maioria volto vitorioso com troco e sorriso gorduroso.

Mas achou que parava aí?
Negativo, padawan do pão dormido.

Minha mãe também lavava e passava roupas para fora, e adivinha quem entregava as peças no cabide, embaladas no plástico?

Sim.
Eu. Office-boy de ferro, XP subindo na raça.

E então veio o job mais épico, o Workload Manager rodando no limite:



🌳 Missão: Desbravar a Floresta — Praça da Quadra G

Meu pai fechou contrato para limpar a praça inteira.
Mas limpar é eufemismo — aquilo era Amazônia versão pocket, mato na altura do peito, arbustos demoníacos, árvores com galhos que pareciam ter alma.

Escalação do time:

FunçãoNomeNível
Chefe do SquadSeu WilsonRAID 1 de coragem
Capataz MirimEu, VaguininhoCPU a carvão
Primo Braço ForteCeloAgilidade +2, Força +3

Trabalhamos dias inteiros.
Sol torrando, blusa suada, calo na mão, cheiro de terra molhada — o inferno e o paraíso da infância no mesmo pacote.

E foi ali, na grieta verde da praça, que o destino deu ENTER.



Conhecemos Andrea.

Linda. Riso iluminado. Olhos que derrubavam firewall emocional.
Eu e o Celo?
Completamente derrotados — RESPONSE CODE 00: SUCESSO TOTAL DA PAIXÃO.

Mas essa história…
Essa continua em outro log.
Outro turno.
Outro spool de memória.



Porque o capítulo que vem, meu parceiro — é aventura com final de boss, XP alto e plot twist digno de mainframe 3390 explodindo trilha.

E eu prometo:
Vou contar.

Bellacosa, encerrando job, segurando a Monareta e lembrando do perfume da Andrea no vento.

Ps: Quem diria que aquele vendedor de coxinhas em Pirassununga iria assumir ares tão, grandes em Taubaté

Ps2: Em outra oportunidade falo da mini granja Bellacosa, outro dos empreendimentos do sr. Wilson e mais uma vez este pequeno trabalhador dando duro no alto dos meus 9 para 10 anos...