☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
A Guilda dos Aventureiros Mainframe — Por Que Quase Não Existem Programadores Velhos no CPD?
Ou: como COBOL, Db2, CICS, cursos, certificações, horas extras, releases, burnout, boletos e um Ceifeiro Silencioso transformaram a carreira de TI numa dungeon em que sobreviver é apenas o começo
Existe uma coisa estranha nos animes de fantasia.
Entre numa Guilda dos Aventureiros.
Olhe ao redor.
Há guerreiros de vinte anos, arqueiras de dezoito, magos adolescentes, sacerdotisas jovens, aventureiros iniciantes carregando espadas maiores do que eles e meia dúzia de veteranos aparentemente na casa dos trinta.
Agora procure alguém com cinquenta anos.
Boa sorte.
Sessenta?
Talvez exista um velho Rank S sentado misteriosamente no fundo da taverna.
Mulheres com mais de cinquenta anos?
Em algumas aldeias parece que a população feminina passa diretamente dos 29 para os 78.
Isso sempre me deixou pensativo.
A princípio parece apenas uma convenção visual dos animes. Afinal, protagonistas jovens vendem mangá, figures e Blu-rays.
Mas existe outra possibilidade muito mais divertida — e assustadora.
Talvez aventureiros idosos sejam raros porque aventurar-se é uma profissão terrivelmente insalubre.
Você começa aos dezesseis anos.
Enfrenta goblins.
Depois orcs.
Depois trolls.
Depois dungeons.
Depois dragões.
No meio disso existem venenos, quedas, armadilhas, frio, fome, espadas, magia, infecções e monstros que aparentemente desenvolveram uma preferência gastronômica por aventureiros iniciantes.
Um único erro pode terminar a carreira.
Ou a vida.
Então comecei a imaginar a pirâmide profissional daquela Guilda.
Cem aventureiros entram.
Sessenta abandonam.
Vinte ficam incapacitados.
Quinze morrem.
Quatro encontram profissões mais sensatas.
Um chega aos cinquenta anos ainda carregando uma espada.
É justamente aquele sujeito grisalho sentado no canto da taverna que todos respeitam.
E então percebi algo.
Eu já conhecia essa Guilda.
Trabalhei nela durante décadas.
Só que não havia goblins.
Havia computadores.
Bem-vindo à Guilda dos Aventureiros Mainframe.
1. O jovem aventureiro recebe sua primeira espada
Todo programador começa aproximadamente da mesma maneira.
Você chega à empresa.
Recebe um crachá.
Um computador.
Algumas senhas.
E alguém lhe mostra o sistema.
Se for mainframe, aparecem diante dos seus olhos coisas como:
COBOL.
JCL.
TSO.
ISPF.
CICS.
Db2.
VSAM.
JES2.
SDSF.
Talvez IMS.
Talvez MQ.
Talvez RACF.
Você olha aquilo tudo como um aventureiro entrando pela primeira vez numa cidade gigantesca.
Os veteranos parecem magos.
Um programa apresenta S0C7.
Você ainda está tentando entender o que significa aquela sopa de letras quando um sujeito grisalho olha o dump e diz:
— Veja o offset.
Cinco minutos depois encontrou o problema.
Você pensa:
“Quero aprender a fazer isso.”
Parabéns.
Você acabou de aceitar sua primeira quest.
2. A primeira dungeon chama-se Produção
Nos primeiros anos tudo é novidade.
Cada incidente ensina alguma coisa.
Você descobre que aquilo que funcionava perfeitamente no ambiente de desenvolvimento pode desenvolver personalidade própria quando chega à produção.
Aprende sobre dados reais.
Volume real.
Concorrência.
Locks.
Timeouts.
Permissões.
Janelas de processamento.
Dependências.
Jobs.
Arquivos.
Filas.
Programas que chamam programas que chamam programas escritos por alguém que se aposentou quando você ainda usava Windows 95.
E então chega aquele momento iniciático da carreira:
o telefone toca de madrugada.
03:17.
Produção parou.
Nesse momento você deixa de ser apenas programador.
Você virou aventureiro.
A dungeon está aberta.
3. O problema é que monstros não respeitam horário comercial
O aventureiro dos animes trabalha em condições terríveis.
Caminha durante dias.
Dorme em florestas.
Carrega equipamento.
Enfrenta monstros.
Come quando consegue.
O consultor de tecnologia possui sua própria versão disso.
Horas extras.
Viradas de produção.
Fim de semana.
Feriado.
Implantação noturna.
Conference call internacional.
Incidente.
War room.
Mudança emergencial.
Telefone durante jantar.
Notebook durante férias.
Depois de alguns anos aparecem as marcas da batalha.
Tendinite.
Dor nas costas.
Problemas de sono.
Estresse.
Exaustão.
Ansiedade antes de determinadas implantações.
E, em situações mais graves, burnout.
Não existe espada atravessando sua armadura.
Mas o corpo mantém um log próprio.
E esse log também acumula eventos.
4. Onde estão os aventureiros de cinquenta anos?
Aqui surge a pergunta que iniciou toda esta reflexão.
Você entra em determinadas empresas e encontra equipes extraordinariamente jovens.
Isso pode parecer maravilhoso.
“Que empresa moderna!”
“Que equipe dinâmica!”
“Quanto talento jovem!”
Tudo verdade.
Mas existe outra pergunta possível:
Onde estão os profissionais que estavam aqui vinte anos atrás?
Onde está o programador COBOL que conhecia aquele sistema inteiro?
Onde está a especialista em Db2?
Onde foi parar aquele administrador CICS?
E aquele sujeito que conhecia IMS como se tivesse ajudado a escrever o produto?
Alguns se aposentaram.
Outros mudaram de carreira.
Alguns viraram gestores.
Outros fornecedores.
Muitos passaram a trabalhar como consultores.
E alguns conheceram uma criatura peculiar do universo corporativo.
Eu a chamo de:
O Ceifeiro Silencioso.
5. O Ceifeiro dos Salários Altos
Ele não usa manto preto.
Não carrega foice.
Carrega Excel.
Às vezes PowerPoint.
Sua apresentação geralmente possui algum título como:
Workforce Optimization Initiative
ou:
Operational Efficiency Program
Ele entra silenciosamente no CPD.
Não vê João, especialista em CICS com vinte e cinco anos de experiência.
Vê:
RESOURCE 8472 — HIGH COST
Não vê Maria, que sabe por que determinado batch não pode executar antes das 23:40.
Vê:
SENIOR RESOURCE
Não vê Carlos, uma das três pessoas que sabem recuperar determinado subsistema depois de uma falha específica.
Vê:
ANNUAL COST: $$$$
E então surge a pergunta fatal:
— Por que estamos pagando tanto para uma pessoa?
Alguém responde:
— Porque ele possui vinte e cinco anos de experiência.
Então a planilha realiza sua magia:
1 especialista = 3 profissionais iniciantes pelo mesmo custo.
Pronto.
Nasceram três aventureiros Rank D.
E o Rank A desapareceu da Guilda.
6. Três juniores não são necessariamente um senior
Isso precisa ser dito com cuidado.
Todo senior já foi junior.
Profissionais jovens precisam receber oportunidades.
Precisamos formar novas gerações.
O problema não está nisso.
O erro está em imaginar que conhecimento profissional funciona como memória RAM.
Se preciso de 32 GB, posso colocar quatro módulos de 8 GB.
Experiência não funciona assim.
3 × Junior ≠ 1 × Senior
Às vezes:
10 × Junior ≠ 1 × Senior
Não porque os dez sejam incapazes.
Mas porque o veterano possui uma coisa extremamente difícil de medir:
contexto acumulado.
Ele sabe que aquele programa estranho existe porque uma legislação mudou em 1998.
Foi alterado novamente em 2005.
Recebeu integração em 2011.
Foi remendado durante uma crise em 2017.
E continua daquele jeito porque outro sistema ainda depende daquela estrutura.
O jovem olha o código e pergunta:
— Por que isso existe?
O veterano responde:
— Não mexe.
— Por quê?
— Mexemos uma vez em 2014.
— E?
— Parou faturamento.
Isso parece superstição.
Muitas vezes é arqueologia corporativa.
7. O veterano não sabe apenas matar monstros
Num mundo de fantasia, um aventureiro de sessenta anos deveria valer uma fortuna.
Não porque ainda consiga correr mais rápido que o guerreiro de vinte.
Mas porque sabe coisas que o jovem ainda precisa descobrir.
O jovem pergunta:
— Que espada devemos levar?
O veterano responde:
— Nenhuma.
— Como assim?
— Choveu três dias. A dungeon alaga pelo oeste. Os kobolds vão migrar para o segundo nível. Voltamos terça-feira.
Isso é experiência.
No CPD acontece a mesma coisa.
O jovem possui dez ferramentas modernas abertas.
O veterano olha o horário do incidente e diz:
— Isso não é Db2.
— Como sabe?
— O batch começou enquanto CICS ainda estava segurando aquele recurso.
Ele reconheceu o padrão.
Experiência profissional é, em grande parte, uma gigantesca biblioteca interna de padrões.
8. Só que o aventureiro precisa pagar pela própria espada
Existe outra semelhança cruel.
Aventureiros aparentemente ganham muito dinheiro.
Matam monstros.
Recebem recompensas.
Encontram tesouros.
Vendem materiais raros.
Mas continuam vivendo modestamente.
Por quê?
Porque faturamento não é lucro.
Recebeu 1.000 moedas.
Gastou 200 em poções.
150 reparando armadura.
100 afiando espada.
120 em hospedagem.
80 em transporte.
100 em comida.
150 substituindo equipamento destruído.
Sobrou pouco.
O aventureiro descobriu fluxo de caixa.
O profissional de tecnologia também.
Só que seu equipamento possui outra natureza.
Curso.
Livro.
Laboratório.
Certificação.
Webinar.
Evento.
Assinatura.
Computador.
Internet.
Cloud.
Software.
Idioma estrangeiro.
E sobretudo:
tempo.
9. Curso gratuito não significa custo zero
Essa é uma das grandes ilusões da educação profissional.
“Curso gratuito!”
Excelente.
Duração:
40 horas.
Então ele não custa zero.
Custa quarenta horas da sua vida.
Quarenta horas que poderiam ser usadas dormindo.
Caminhando.
Conversando.
Viajando.
Lendo.
Ou realizando aquela atividade cultural extremamente importante para a manutenção psicológica do profissional mainframe:
assistir anime.
O verdadeiro custo de uma formação não é apenas financeiro.
Existe custo de oportunidade.
Depois de determinada idade, começamos a perguntar menos:
“Quanto custa este curso?”
e mais:
“Isso vale vinte horas da minha vida?”
Essa pergunta é muito mais importante.
10. XP não garante promoção
Nos RPGs existe uma lógica maravilhosa:
XP aumenta.
Level aumenta.
Skills aumentam.
Rank aumenta.
Recompensa aumenta.
Na vida corporativa:
XP aumenta.
Certificações aumentam.
Responsabilidade aumenta.
Skills aumentam.
Conhecimento aumenta.
A empresa responde:
— Excelente trabalho!
Você espera.
— Continue assim!
Você continua esperando.
— Vamos discutir oportunidades no próximo ciclo.
E o salário permanece observando tudo de longe.
Esse é um problema interessante da carreira tecnológica:
o crescimento do conhecimento não possui relação linear com o crescimento da remuneração.
Você pode estudar duzentas horas durante um ano e receber exatamente o mesmo salário.
O conhecimento possui valor.
Aumenta empregabilidade.
Aumenta capacidade.
Pode aumentar poder de negociação.
Mas a conversão em dinheiro não acontece automaticamente.
11. Skill Inflation — o monstro que cresce junto com você
Quando comecei, uma determinada vaga poderia pedir algumas tecnologias.
Com o passar dos anos, a lista foi crescendo.
COBOL.
JCL.
CICS.
Db2.
VSAM.
Depois MQ.
RACF.
APIs.
REST.
Git.
CI/CD.
Java.
Python.
Cloud.
DevOps.
OpenShift.
Containers.
Observabilidade.
Segurança.
Agile.
Agora IA.
E inglês.
Naturalmente.
A profissão desenvolveu uma espécie de inflação de habilidades.
Aquilo que ontem era diferencial hoje virou requisito.
O que hoje é diferencial amanhã aparecerá discretamente na vaga como:
“conhecimento desejável”.
Depois:
“conhecimento obrigatório”.
A Guilda continua adicionando skills necessárias.
Só esqueceu de aumentar proporcionalmente a recompensa das quests.
12. A esteira tecnológica anda para trás
Existe uma crueldade particular na tecnologia.
Parte do conhecimento acumula.
Parte envelhece.
Alguns fundamentos permanecem valiosos durante décadas:
lógica;
algoritmos;
arquitetura;
modelagem;
transações;
concorrência;
segurança;
debugging;
sistemas operacionais;
bancos de dados;
análise de problemas.
Mas ferramentas mudam.
Versões mudam.
Interfaces mudam.
Produtos mudam.
Menus mudam.
E finalmente acontece aquela experiência maravilhosa.
Você abre uma ferramenta que conhece há dez anos.
Houve atualização.
Olha a tela.
E pensa:
“Onde colocaram essa porcaria?”
13. “Eu sei fazer isso!”
Essa frase merece atenção.
Você sabe fazer.
Realmente sabe.
Só não sabe mais onde fazer.
Antes:
Settings > Security > Authentication
Depois:
Workspace > Identity > Access > Advanced
Seu conhecimento não desapareceu.
Seu mapa desapareceu.
É como voltar para uma cidade onde você morou vinte anos antes.
Você conhece o destino.
Mas construíram viadutos.
Mudaram ruas.
Alteraram sentidos.
Transferiram a estação.
Você não desaprendeu a dirigir.
O território mudou.
E UI/UX consegue produzir no especialista uma sensação extremamente desagradável:
sentir-se iniciante numa atividade que domina.
14. Conhecimento possui meia-vida
Por isso gosto de separar conhecimento profissional em camadas.
Conhecimento fundamental
Algoritmos, arquitetura, lógica, debugging, transações, concorrência.
Possui longa duração.
Conhecimento de ecossistema
COBOL, Db2, CICS, IMS, MQ, Java, Python.
Muda, mas mantém continuidade conceitual.
Conhecimento de versão
“Na versão X esta configuração funciona desta maneira.”
Envelhece mais rápido.
Conhecimento de interface
“Clique no terceiro botão da esquerda.”
Esse pode morrer amanhã de manhã.
O erro é gastar energia demais memorizando conhecimento altamente perecível como se fosse fundamento.
15. A skill Rank S: reaprender
Depois de décadas, acontece algo curioso.
Você percebe que jamais conseguirá saber tudo.
E para de tentar.
Em compensação desenvolve uma habilidade extraordinária:
aprender novamente muito rápido.
Diante de uma ferramenta nova, o veterano começa fazendo perguntas conhecidas.
Onde estão os logs?
Como autentica?
Onde ficam permissões?
Como configura?
Existe CLI?
Existe API?
Como exporta?
Como automatiza?
Onde está a documentação?
O produto mudou.
As perguntas fundamentais não.
E saber quais perguntas fazer é uma forma sofisticada de conhecimento.
16. O eterno DLC chamado inglês
Então você decide estudar tecnologia.
Descobre que grande parte da documentação está em inglês.
Os melhores webinars aparecem em inglês.
Conferências internacionais usam inglês.
Fóruns técnicos usam inglês.
Manuais usam inglês.
Cursos usam inglês.
Você queria aprender COBOL.
Descobriu uma dependência:
COBOL REQUIRES ENGLISH
Então investe centenas ou milhares de horas aprendendo outro idioma.
E depois de anos aparece uma vaga:
English required.
Todo aquele esforço virou uma linha.
A Guilda considera simplesmente que você deveria possuir aquela skill.
17. O Ceifeiro volta
Depois de décadas estudando, trabalhando e sobrevivendo a produções, acontece algo irônico.
Seu salário finalmente ficou alto.
Porque você acumulou experiência.
E justamente por ter ficado alto...
chama atenção.
O Ceifeiro Silencioso retorna.
Olha a planilha.
Olha seu salário.
Olha novamente a planilha.
A foice começa a brilhar.
18. O nascimento do mercenário mainframe
O especialista deixa a grande empresa.
Mas existe um problema.
Ele possui uma criatura doméstica extremamente exigente.
Seu nome é:
BOLETO.
O verdadeiro Demon Lord.
Level 99.
Resistente a magia.
Imune a argumento.
E possui uma habilidade terrível:
Respawn mensal.
Então o veterano aceita outro projeto.
Seis meses.
Um ano.
Migração.
Upgrade.
Assessment.
Incidente.
Treinamento.
Conversão.
Modernização.
Ele virou mercenário.
Ou, usando terminologia empresarial:
consultor independente.
19. A ironia final
Alguns anos depois, a empresa percebe que perdeu determinado conhecimento.
Surge um projeto crítico.
Precisam urgentemente de alguém experiente.
Contratam uma grande consultoria.
A consultoria procura especialistas.
E encontra...
o mesmo sujeito dispensado anos antes.
Ele retorna.
Antes tinha crachá azul.
Agora possui crachá vermelho:
EXTERNAL CONSULTANT
Antes seu salário era considerado caro.
Agora sua hora custa três vezes mais.
Mas está em outro centro de custo.
Portanto:
aprovado.
Se isso não é roteiro de anime, não sei o que é.
20. O paradoxo do sistema que funciona
Existe ainda uma característica especialmente cruel de infraestrutura.
Quanto melhor funciona, menos visível fica seu valor.
Sistema cai semanalmente:
— Precisamos desses especialistas!
Especialistas trabalham.
Corrigem problemas.
Criam procedimentos.
Automatizam.
Estabilizam.
Cinco anos depois quase não existem incidentes.
Então alguém pergunta:
— Por que precisamos de tantos especialistas?
É extraordinário.
O aventureiro matou todos os monstros ao redor da aldeia.
Durante dez anos ninguém viu um goblin.
O prefeito conclui:
“Estamos desperdiçando dinheiro com aventureiros.”
Dispensa todos.
Dois anos depois aparece um dragão.
Nasce imediatamente:
Dragon Remediation Transformation Program
Orçamento: dez vezes maior.
Consultoria externa: contratada.
Prazo: ontem.
21. E finalmente chegamos ao sorriso ninja
Depois de décadas nessa profissão, surge uma cena recorrente.
Cliente:
— Você sabe fazer?
O veterano olha calmamente.
Sorri.
😎
— Sei.
Por dentro:
🦋🦋🦋🦋🦋
“Puta que pariu.”
Porque ele sabia perfeitamente fazer aquilo na versão anterior.
Agora existe release nova.
Interface nova.
Menus diferentes.
Funções renomeadas.
Documentação atualizada.
Talvez uma arquitetura parcialmente diferente.
Mas ele mantém o sorriso.
Não necessariamente porque conhece exatamente o caminho.
E certamente não porque seja irresponsável.
Existe algo mais profundo.
Ele pensa:
“Nunca fiz exatamente isso.”
E imediatamente:
“Mas já fiz quinze coisas parecidas.”
Essa é a diferença.
22. O veterano entra na dungeon
O monstro chama-se:
Enterprise Platform Ultimate Cloud AI Edition 2027.
Ele nunca viu aquela versão.
O monstro olha para ele.
Ele olha para o monstro.
🦋
Abre documentação.
🦋🦋
“Por que mudaram isso?”
Abre release notes.
🦋🦋🦋
“Claro. Deprecated.”
Encontra um manual de 684 páginas.
Café.
Laboratório.
Primeiro teste.
ERROR
— Interessante.
Segundo teste.
ERROR
— Muito interessante.
Terceiro teste.
SUCCESS
Silêncio.
Ele fecha 37 abas.
Volta para a reunião.
😎
— Como eu estava dizendo, podemos fazer.
Ninguém viu as borboletas.
23. Easter egg: o verdadeiro significado de Senior
Talvez senioridade nunca tenha significado:
“Eu sei tudo.”
Isso seria impossível.
Senioridade talvez seja:
“Já estive perdido vezes suficientes para saber que consigo encontrar o caminho.”
Essa diferença é gigantesca.
O iniciante teme não saber.
O veterano também não sabe algumas coisas.
Mas já aprendeu a funcionar dentro da incerteza.
Sabe pesquisar.
Testar.
Comparar.
Eliminar hipóteses.
Ler logs.
Criar laboratório.
Voltar atrás.
Perguntar.
Experimentar.
Errar pequeno antes de errar grande.
Essa talvez seja a maior skill adquirida depois de décadas trabalhando com tecnologia.
24. Então por que existem tão poucos aventureiros grisalhos?
Porque a carreira seleciona.
Alguns abandonam.
Alguns mudam.
Alguns viram gestores.
Alguns ensinam.
Alguns tornam-se arquitetos.
Alguns passam para fornecedores.
Alguns viram consultores.
Alguns são encontrados pelo Ceifeiro.
E alguns simplesmente decidem que já passaram noites demais acordados esperando um job terminar.
Os que permanecem carregam cicatrizes invisíveis.
Mas carregam também uma coisa extraordinariamente valiosa:
memória institucional.
Eles lembram monstros que já não existem.
Sabem por que determinadas muralhas foram construídas.
Reconhecem sinais que os demais ainda não aprenderam a observar.
São bibliotecas ambulantes de incidentes, soluções, fracassos e decisões.
Uma empresa inteligente não deveria perguntar apenas:
“Quanto custa esse profissional?”
Deveria perguntar:
“Quanto custa perder aquilo que somente ele sabe?”
São perguntas completamente diferentes.
Epílogo — 03:17
O telefone toca.
O jovem programador atende.
Produção está parada.
Ele olha os logs.
Não entende.
Tenta novamente.
Nada.
Ao lado existe um velho consultor tomando café.
— Posso perguntar uma coisa?
O veterano aproxima a cadeira.
Olha a tela durante alguns segundos.
— Quando começou?
— 02:46.
Ele sorri.
— Veja o job que executou às 02:45.
O jovem encontra.
Ali está.
O problema.
— Como você sabia?
O veterano pega novamente a caneca.
— Em 2009 aconteceu algo parecido.
Silêncio.
O jovem olha para ele como eu olhava para os veteranos quando comecei.
Talvez pense:
“Um dia quero saber tudo isso.”
Mas o veterano sabe de uma coisa que o jovem ainda descobrirá.
Nunca saberá tudo.
A dungeon continuará mudando.
Novos monstros aparecerão.
Novas releases serão instaladas.
Interfaces serão redesenhadas.
Skills ficarão obsoletas.
Cursos serão necessários.
Certificações vencerão.
O Ceifeiro continuará andando silenciosamente pelos corredores.
E o Boleto continuará ressuscitando todo mês.
O que resta ao aventureiro?
Continuar aprendendo.
Continuar curioso.
Ensinar aquilo que sabe.
Preservar os fundamentos.
Não confundir interface com conhecimento.
Não gastar a vida tentando decorar tudo.
E, principalmente, entender que experiência não é conhecer antecipadamente todas as respostas.
Experiência é saber o que fazer quando você não conhece a resposta.
O jovem fecha o incidente.
03:42.
— Resolvido.
O veterano levanta.
— Ótimo.
— Posso perguntar mais uma coisa?
— Claro.
— Quando o diretor perguntou se você sabia resolver isso... você já sabia?
O velho aventureiro para por alguns segundos.
Olha para o jovem.
Abre aquele sorriso ninja desenvolvido depois de décadas entrando em dungeons corporativas.
😎
— Claro que sabia.
E continua andando pelo corredor.
Enquanto, invisíveis para todos os outros...
🦋🦋🦋
...as últimas borboletas finalmente abandonam seu estômago.
Porque existe uma coisa que nenhum curso ensina e nenhuma certificação consegue medir:
o veterano não entra tranquilo na dungeon porque sabe o que encontrará.
Ele entra porque já voltou vivo de muitas outras.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Onde todo programador é um aventureiro, toda produção é uma dungeon e todo boleto tem respawn automático.