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domingo, 6 de setembro de 2026

A Guilda dos Aventureiros Mainframe — Por Que Quase Não Existem Programadores Velhos no CPD?

Bellacosa Mainframe e os velhos aventureiros do CPD

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Guilda dos Aventureiros Mainframe — Por Que Quase Não Existem Programadores Velhos no CPD?

Ou: como COBOL, Db2, CICS, cursos, certificações, horas extras, releases, burnout, boletos e um Ceifeiro Silencioso transformaram a carreira de TI numa dungeon em que sobreviver é apenas o começo

Existe uma coisa estranha nos animes de fantasia.

Entre numa Guilda dos Aventureiros.

Olhe ao redor.

Há guerreiros de vinte anos, arqueiras de dezoito, magos adolescentes, sacerdotisas jovens, aventureiros iniciantes carregando espadas maiores do que eles e meia dúzia de veteranos aparentemente na casa dos trinta.

Agora procure alguém com cinquenta anos.

Boa sorte.

Sessenta?

Talvez exista um velho Rank S sentado misteriosamente no fundo da taverna.

Mulheres com mais de cinquenta anos?

Em algumas aldeias parece que a população feminina passa diretamente dos 29 para os 78.

Isso sempre me deixou pensativo.

A princípio parece apenas uma convenção visual dos animes. Afinal, protagonistas jovens vendem mangá, figures e Blu-rays.

Mas existe outra possibilidade muito mais divertida — e assustadora.

Talvez aventureiros idosos sejam raros porque aventurar-se é uma profissão terrivelmente insalubre.

Você começa aos dezesseis anos.

Enfrenta goblins.

Depois orcs.

Depois trolls.

Depois dungeons.

Depois dragões.

No meio disso existem venenos, quedas, armadilhas, frio, fome, espadas, magia, infecções e monstros que aparentemente desenvolveram uma preferência gastronômica por aventureiros iniciantes.

Um único erro pode terminar a carreira.

Ou a vida.

Então comecei a imaginar a pirâmide profissional daquela Guilda.

Cem aventureiros entram.

Sessenta abandonam.

Vinte ficam incapacitados.

Quinze morrem.

Quatro encontram profissões mais sensatas.

Um chega aos cinquenta anos ainda carregando uma espada.

É justamente aquele sujeito grisalho sentado no canto da taverna que todos respeitam.

E então percebi algo.

Eu já conhecia essa Guilda.

Trabalhei nela durante décadas.

Só que não havia goblins.

Havia computadores.

Bem-vindo à Guilda dos Aventureiros Mainframe.



1. O jovem aventureiro recebe sua primeira espada

Todo programador começa aproximadamente da mesma maneira.

Você chega à empresa.

Recebe um crachá.

Um computador.

Algumas senhas.

E alguém lhe mostra o sistema.

Se for mainframe, aparecem diante dos seus olhos coisas como:

COBOL.

JCL.

TSO.

ISPF.

CICS.

Db2.

VSAM.

JES2.

SDSF.

Talvez IMS.

Talvez MQ.

Talvez RACF.

Você olha aquilo tudo como um aventureiro entrando pela primeira vez numa cidade gigantesca.

Os veteranos parecem magos.

Um programa apresenta S0C7.

Você ainda está tentando entender o que significa aquela sopa de letras quando um sujeito grisalho olha o dump e diz:

— Veja o offset.

Cinco minutos depois encontrou o problema.

Você pensa:

“Quero aprender a fazer isso.”

Parabéns.

Você acabou de aceitar sua primeira quest.


2. A primeira dungeon chama-se Produção

Nos primeiros anos tudo é novidade.

Cada incidente ensina alguma coisa.

Você descobre que aquilo que funcionava perfeitamente no ambiente de desenvolvimento pode desenvolver personalidade própria quando chega à produção.

Aprende sobre dados reais.

Volume real.

Concorrência.

Locks.

Timeouts.

Permissões.

Janelas de processamento.

Dependências.

Jobs.

Arquivos.

Filas.

Programas que chamam programas que chamam programas escritos por alguém que se aposentou quando você ainda usava Windows 95.

E então chega aquele momento iniciático da carreira:

o telefone toca de madrugada.

03:17.

Produção parou.

Nesse momento você deixa de ser apenas programador.

Você virou aventureiro.

A dungeon está aberta.



3. O problema é que monstros não respeitam horário comercial

O aventureiro dos animes trabalha em condições terríveis.

Caminha durante dias.

Dorme em florestas.

Carrega equipamento.

Enfrenta monstros.

Come quando consegue.

O consultor de tecnologia possui sua própria versão disso.

Horas extras.

Viradas de produção.

Fim de semana.

Feriado.

Implantação noturna.

Conference call internacional.

Incidente.

War room.

Mudança emergencial.

Telefone durante jantar.

Notebook durante férias.

Depois de alguns anos aparecem as marcas da batalha.

Tendinite.

Dor nas costas.

Problemas de sono.

Estresse.

Exaustão.

Ansiedade antes de determinadas implantações.

E, em situações mais graves, burnout.

Não existe espada atravessando sua armadura.

Mas o corpo mantém um log próprio.

E esse log também acumula eventos.



4. Onde estão os aventureiros de cinquenta anos?

Aqui surge a pergunta que iniciou toda esta reflexão.

Você entra em determinadas empresas e encontra equipes extraordinariamente jovens.

Isso pode parecer maravilhoso.

“Que empresa moderna!”

“Que equipe dinâmica!”

“Quanto talento jovem!”

Tudo verdade.

Mas existe outra pergunta possível:

Onde estão os profissionais que estavam aqui vinte anos atrás?

Onde está o programador COBOL que conhecia aquele sistema inteiro?

Onde está a especialista em Db2?

Onde foi parar aquele administrador CICS?

E aquele sujeito que conhecia IMS como se tivesse ajudado a escrever o produto?

Alguns se aposentaram.

Outros mudaram de carreira.

Alguns viraram gestores.

Outros fornecedores.

Muitos passaram a trabalhar como consultores.

E alguns conheceram uma criatura peculiar do universo corporativo.

Eu a chamo de:

O Ceifeiro Silencioso.


5. O Ceifeiro dos Salários Altos

Ele não usa manto preto.

Não carrega foice.

Carrega Excel.

Às vezes PowerPoint.

Sua apresentação geralmente possui algum título como:

Workforce Optimization Initiative

ou:

Operational Efficiency Program

Ele entra silenciosamente no CPD.

Não vê João, especialista em CICS com vinte e cinco anos de experiência.

Vê:

RESOURCE 8472 — HIGH COST

Não vê Maria, que sabe por que determinado batch não pode executar antes das 23:40.

Vê:

SENIOR RESOURCE

Não vê Carlos, uma das três pessoas que sabem recuperar determinado subsistema depois de uma falha específica.

Vê:

ANNUAL COST: $$$$

E então surge a pergunta fatal:

— Por que estamos pagando tanto para uma pessoa?

Alguém responde:

— Porque ele possui vinte e cinco anos de experiência.

Então a planilha realiza sua magia:

1 especialista = 3 profissionais iniciantes pelo mesmo custo.

Pronto.

Nasceram três aventureiros Rank D.

E o Rank A desapareceu da Guilda.


6. Três juniores não são necessariamente um senior

Isso precisa ser dito com cuidado.

Todo senior já foi junior.

Profissionais jovens precisam receber oportunidades.

Precisamos formar novas gerações.

O problema não está nisso.

O erro está em imaginar que conhecimento profissional funciona como memória RAM.

Se preciso de 32 GB, posso colocar quatro módulos de 8 GB.

Experiência não funciona assim.

3 × Junior ≠ 1 × Senior

Às vezes:

10 × Junior ≠ 1 × Senior

Não porque os dez sejam incapazes.

Mas porque o veterano possui uma coisa extremamente difícil de medir:

contexto acumulado.

Ele sabe que aquele programa estranho existe porque uma legislação mudou em 1998.

Foi alterado novamente em 2005.

Recebeu integração em 2011.

Foi remendado durante uma crise em 2017.

E continua daquele jeito porque outro sistema ainda depende daquela estrutura.

O jovem olha o código e pergunta:

— Por que isso existe?

O veterano responde:

— Não mexe.

— Por quê?

— Mexemos uma vez em 2014.

— E?

— Parou faturamento.

Isso parece superstição.

Muitas vezes é arqueologia corporativa.


7. O veterano não sabe apenas matar monstros

Num mundo de fantasia, um aventureiro de sessenta anos deveria valer uma fortuna.

Não porque ainda consiga correr mais rápido que o guerreiro de vinte.

Mas porque sabe coisas que o jovem ainda precisa descobrir.

O jovem pergunta:

— Que espada devemos levar?

O veterano responde:

— Nenhuma.

— Como assim?

— Choveu três dias. A dungeon alaga pelo oeste. Os kobolds vão migrar para o segundo nível. Voltamos terça-feira.

Isso é experiência.

No CPD acontece a mesma coisa.

O jovem possui dez ferramentas modernas abertas.

O veterano olha o horário do incidente e diz:

— Isso não é Db2.

— Como sabe?

— O batch começou enquanto CICS ainda estava segurando aquele recurso.

Ele reconheceu o padrão.

Experiência profissional é, em grande parte, uma gigantesca biblioteca interna de padrões.


8. Só que o aventureiro precisa pagar pela própria espada

Existe outra semelhança cruel.

Aventureiros aparentemente ganham muito dinheiro.

Matam monstros.

Recebem recompensas.

Encontram tesouros.

Vendem materiais raros.

Mas continuam vivendo modestamente.

Por quê?

Porque faturamento não é lucro.

Recebeu 1.000 moedas.

Gastou 200 em poções.

150 reparando armadura.

100 afiando espada.

120 em hospedagem.

80 em transporte.

100 em comida.

150 substituindo equipamento destruído.

Sobrou pouco.

O aventureiro descobriu fluxo de caixa.

O profissional de tecnologia também.

Só que seu equipamento possui outra natureza.

Curso.

Livro.

Laboratório.

Certificação.

Webinar.

Evento.

Assinatura.

Computador.

Internet.

Cloud.

Software.

Idioma estrangeiro.

E sobretudo:

tempo.


9. Curso gratuito não significa custo zero

Essa é uma das grandes ilusões da educação profissional.

“Curso gratuito!”

Excelente.

Duração:

40 horas.

Então ele não custa zero.

Custa quarenta horas da sua vida.

Quarenta horas que poderiam ser usadas dormindo.

Caminhando.

Conversando.

Viajando.

Lendo.

Ou realizando aquela atividade cultural extremamente importante para a manutenção psicológica do profissional mainframe:

assistir anime.

O verdadeiro custo de uma formação não é apenas financeiro.

Existe custo de oportunidade.

Depois de determinada idade, começamos a perguntar menos:

“Quanto custa este curso?”

e mais:

“Isso vale vinte horas da minha vida?”

Essa pergunta é muito mais importante.


10. XP não garante promoção

Nos RPGs existe uma lógica maravilhosa:

XP aumenta.

Level aumenta.

Skills aumentam.

Rank aumenta.

Recompensa aumenta.

Na vida corporativa:

XP aumenta.

Certificações aumentam.

Responsabilidade aumenta.

Skills aumentam.

Conhecimento aumenta.

A empresa responde:

— Excelente trabalho!

Você espera.

— Continue assim!

Você continua esperando.

— Vamos discutir oportunidades no próximo ciclo.

E o salário permanece observando tudo de longe.

Esse é um problema interessante da carreira tecnológica:

o crescimento do conhecimento não possui relação linear com o crescimento da remuneração.

Você pode estudar duzentas horas durante um ano e receber exatamente o mesmo salário.

O conhecimento possui valor.

Aumenta empregabilidade.

Aumenta capacidade.

Pode aumentar poder de negociação.

Mas a conversão em dinheiro não acontece automaticamente.


11. Skill Inflation — o monstro que cresce junto com você

Quando comecei, uma determinada vaga poderia pedir algumas tecnologias.

Com o passar dos anos, a lista foi crescendo.

COBOL.

JCL.

CICS.

Db2.

VSAM.

Depois MQ.

RACF.

APIs.

REST.

Git.

CI/CD.

Java.

Python.

Cloud.

DevOps.

OpenShift.

Containers.

Observabilidade.

Segurança.

Agile.

Agora IA.

E inglês.

Naturalmente.

A profissão desenvolveu uma espécie de inflação de habilidades.

Aquilo que ontem era diferencial hoje virou requisito.

O que hoje é diferencial amanhã aparecerá discretamente na vaga como:

“conhecimento desejável”.

Depois:

“conhecimento obrigatório”.

A Guilda continua adicionando skills necessárias.

Só esqueceu de aumentar proporcionalmente a recompensa das quests.


12. A esteira tecnológica anda para trás

Existe uma crueldade particular na tecnologia.

Parte do conhecimento acumula.

Parte envelhece.

Alguns fundamentos permanecem valiosos durante décadas:

lógica;

algoritmos;

arquitetura;

modelagem;

transações;

concorrência;

segurança;

debugging;

sistemas operacionais;

bancos de dados;

análise de problemas.

Mas ferramentas mudam.

Versões mudam.

Interfaces mudam.

Produtos mudam.

Menus mudam.

E finalmente acontece aquela experiência maravilhosa.

Você abre uma ferramenta que conhece há dez anos.

Houve atualização.

Olha a tela.

E pensa:

“Onde colocaram essa porcaria?”


13. “Eu sei fazer isso!”

Essa frase merece atenção.

Você sabe fazer.

Realmente sabe.

Só não sabe mais onde fazer.

Antes:

Settings > Security > Authentication

Depois:

Workspace > Identity > Access > Advanced

Seu conhecimento não desapareceu.

Seu mapa desapareceu.

É como voltar para uma cidade onde você morou vinte anos antes.

Você conhece o destino.

Mas construíram viadutos.

Mudaram ruas.

Alteraram sentidos.

Transferiram a estação.

Você não desaprendeu a dirigir.

O território mudou.

E UI/UX consegue produzir no especialista uma sensação extremamente desagradável:

sentir-se iniciante numa atividade que domina.


14. Conhecimento possui meia-vida

Por isso gosto de separar conhecimento profissional em camadas.

Conhecimento fundamental

Algoritmos, arquitetura, lógica, debugging, transações, concorrência.

Possui longa duração.

Conhecimento de ecossistema

COBOL, Db2, CICS, IMS, MQ, Java, Python.

Muda, mas mantém continuidade conceitual.

Conhecimento de versão

“Na versão X esta configuração funciona desta maneira.”

Envelhece mais rápido.

Conhecimento de interface

“Clique no terceiro botão da esquerda.”

Esse pode morrer amanhã de manhã.

O erro é gastar energia demais memorizando conhecimento altamente perecível como se fosse fundamento.


15. A skill Rank S: reaprender

Depois de décadas, acontece algo curioso.

Você percebe que jamais conseguirá saber tudo.

E para de tentar.

Em compensação desenvolve uma habilidade extraordinária:

aprender novamente muito rápido.

Diante de uma ferramenta nova, o veterano começa fazendo perguntas conhecidas.

Onde estão os logs?

Como autentica?

Onde ficam permissões?

Como configura?

Existe CLI?

Existe API?

Como exporta?

Como automatiza?

Onde está a documentação?

O produto mudou.

As perguntas fundamentais não.

E saber quais perguntas fazer é uma forma sofisticada de conhecimento.


16. O eterno DLC chamado inglês

Então você decide estudar tecnologia.

Descobre que grande parte da documentação está em inglês.

Os melhores webinars aparecem em inglês.

Conferências internacionais usam inglês.

Fóruns técnicos usam inglês.

Manuais usam inglês.

Cursos usam inglês.

Você queria aprender COBOL.

Descobriu uma dependência:

COBOL REQUIRES ENGLISH

Então investe centenas ou milhares de horas aprendendo outro idioma.

E depois de anos aparece uma vaga:

English required.

Todo aquele esforço virou uma linha.

A Guilda considera simplesmente que você deveria possuir aquela skill.


17. O Ceifeiro volta

Depois de décadas estudando, trabalhando e sobrevivendo a produções, acontece algo irônico.

Seu salário finalmente ficou alto.

Porque você acumulou experiência.

E justamente por ter ficado alto...

chama atenção.

O Ceifeiro Silencioso retorna.

Olha a planilha.

Olha seu salário.

Olha novamente a planilha.

A foice começa a brilhar.


18. O nascimento do mercenário mainframe

O especialista deixa a grande empresa.

Mas existe um problema.

Ele possui uma criatura doméstica extremamente exigente.

Seu nome é:

BOLETO.

O verdadeiro Demon Lord.

Level 99.

Resistente a magia.

Imune a argumento.

E possui uma habilidade terrível:

Respawn mensal.

Então o veterano aceita outro projeto.

Seis meses.

Um ano.

Migração.

Upgrade.

Assessment.

Incidente.

Treinamento.

Conversão.

Modernização.

Ele virou mercenário.

Ou, usando terminologia empresarial:

consultor independente.


19. A ironia final

Alguns anos depois, a empresa percebe que perdeu determinado conhecimento.

Surge um projeto crítico.

Precisam urgentemente de alguém experiente.

Contratam uma grande consultoria.

A consultoria procura especialistas.

E encontra...

o mesmo sujeito dispensado anos antes.

Ele retorna.

Antes tinha crachá azul.

Agora possui crachá vermelho:

EXTERNAL CONSULTANT

Antes seu salário era considerado caro.

Agora sua hora custa três vezes mais.

Mas está em outro centro de custo.

Portanto:

aprovado.

Se isso não é roteiro de anime, não sei o que é.


20. O paradoxo do sistema que funciona

Existe ainda uma característica especialmente cruel de infraestrutura.

Quanto melhor funciona, menos visível fica seu valor.

Sistema cai semanalmente:

— Precisamos desses especialistas!

Especialistas trabalham.

Corrigem problemas.

Criam procedimentos.

Automatizam.

Estabilizam.

Cinco anos depois quase não existem incidentes.

Então alguém pergunta:

— Por que precisamos de tantos especialistas?

É extraordinário.

O aventureiro matou todos os monstros ao redor da aldeia.

Durante dez anos ninguém viu um goblin.

O prefeito conclui:

“Estamos desperdiçando dinheiro com aventureiros.”

Dispensa todos.

Dois anos depois aparece um dragão.

Nasce imediatamente:

Dragon Remediation Transformation Program

Orçamento: dez vezes maior.

Consultoria externa: contratada.

Prazo: ontem.


21. E finalmente chegamos ao sorriso ninja

Depois de décadas nessa profissão, surge uma cena recorrente.

Cliente:

— Você sabe fazer?

O veterano olha calmamente.

Sorri.

😎

— Sei.

Por dentro:

🦋🦋🦋🦋🦋

“Puta que pariu.”

Porque ele sabia perfeitamente fazer aquilo na versão anterior.

Agora existe release nova.

Interface nova.

Menus diferentes.

Funções renomeadas.

Documentação atualizada.

Talvez uma arquitetura parcialmente diferente.

Mas ele mantém o sorriso.

Não necessariamente porque conhece exatamente o caminho.

E certamente não porque seja irresponsável.

Existe algo mais profundo.

Ele pensa:

“Nunca fiz exatamente isso.”

E imediatamente:

“Mas já fiz quinze coisas parecidas.”

Essa é a diferença.


22. O veterano entra na dungeon

O monstro chama-se:

Enterprise Platform Ultimate Cloud AI Edition 2027.

Ele nunca viu aquela versão.

O monstro olha para ele.

Ele olha para o monstro.

🦋

Abre documentação.

🦋🦋

“Por que mudaram isso?”

Abre release notes.

🦋🦋🦋

“Claro. Deprecated.”

Encontra um manual de 684 páginas.

Café.

Laboratório.

Primeiro teste.

ERROR

— Interessante.

Segundo teste.

ERROR

— Muito interessante.

Terceiro teste.

SUCCESS

Silêncio.

Ele fecha 37 abas.

Volta para a reunião.

😎

— Como eu estava dizendo, podemos fazer.

Ninguém viu as borboletas.


23. Easter egg: o verdadeiro significado de Senior

Talvez senioridade nunca tenha significado:

“Eu sei tudo.”

Isso seria impossível.

Senioridade talvez seja:

“Já estive perdido vezes suficientes para saber que consigo encontrar o caminho.”

Essa diferença é gigantesca.

O iniciante teme não saber.

O veterano também não sabe algumas coisas.

Mas já aprendeu a funcionar dentro da incerteza.

Sabe pesquisar.

Testar.

Comparar.

Eliminar hipóteses.

Ler logs.

Criar laboratório.

Voltar atrás.

Perguntar.

Experimentar.

Errar pequeno antes de errar grande.

Essa talvez seja a maior skill adquirida depois de décadas trabalhando com tecnologia.


24. Então por que existem tão poucos aventureiros grisalhos?

Porque a carreira seleciona.

Alguns abandonam.

Alguns mudam.

Alguns viram gestores.

Alguns ensinam.

Alguns tornam-se arquitetos.

Alguns passam para fornecedores.

Alguns viram consultores.

Alguns são encontrados pelo Ceifeiro.

E alguns simplesmente decidem que já passaram noites demais acordados esperando um job terminar.

Os que permanecem carregam cicatrizes invisíveis.

Mas carregam também uma coisa extraordinariamente valiosa:

memória institucional.

Eles lembram monstros que já não existem.

Sabem por que determinadas muralhas foram construídas.

Reconhecem sinais que os demais ainda não aprenderam a observar.

São bibliotecas ambulantes de incidentes, soluções, fracassos e decisões.

Uma empresa inteligente não deveria perguntar apenas:

“Quanto custa esse profissional?”

Deveria perguntar:

“Quanto custa perder aquilo que somente ele sabe?”

São perguntas completamente diferentes.


Epílogo — 03:17

O telefone toca.

O jovem programador atende.

Produção está parada.

Ele olha os logs.

Não entende.

Tenta novamente.

Nada.

Ao lado existe um velho consultor tomando café.

— Posso perguntar uma coisa?

O veterano aproxima a cadeira.

Olha a tela durante alguns segundos.

— Quando começou?

— 02:46.

Ele sorri.

— Veja o job que executou às 02:45.

O jovem encontra.

Ali está.

O problema.

— Como você sabia?

O veterano pega novamente a caneca.

— Em 2009 aconteceu algo parecido.

Silêncio.

O jovem olha para ele como eu olhava para os veteranos quando comecei.

Talvez pense:

“Um dia quero saber tudo isso.”

Mas o veterano sabe de uma coisa que o jovem ainda descobrirá.

Nunca saberá tudo.

A dungeon continuará mudando.

Novos monstros aparecerão.

Novas releases serão instaladas.

Interfaces serão redesenhadas.

Skills ficarão obsoletas.

Cursos serão necessários.

Certificações vencerão.

O Ceifeiro continuará andando silenciosamente pelos corredores.

E o Boleto continuará ressuscitando todo mês.

O que resta ao aventureiro?

Continuar aprendendo.

Continuar curioso.

Ensinar aquilo que sabe.

Preservar os fundamentos.

Não confundir interface com conhecimento.

Não gastar a vida tentando decorar tudo.

E, principalmente, entender que experiência não é conhecer antecipadamente todas as respostas.

Experiência é saber o que fazer quando você não conhece a resposta.

O jovem fecha o incidente.

03:42.

— Resolvido.

O veterano levanta.

— Ótimo.

— Posso perguntar mais uma coisa?

— Claro.

— Quando o diretor perguntou se você sabia resolver isso... você já sabia?

O velho aventureiro para por alguns segundos.

Olha para o jovem.

Abre aquele sorriso ninja desenvolvido depois de décadas entrando em dungeons corporativas.

😎

— Claro que sabia.

E continua andando pelo corredor.

Enquanto, invisíveis para todos os outros...

🦋🦋🦋

...as últimas borboletas finalmente abandonam seu estômago.

Porque existe uma coisa que nenhum curso ensina e nenhuma certificação consegue medir:

o veterano não entra tranquilo na dungeon porque sabe o que encontrará.

Ele entra porque já voltou vivo de muitas outras.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde todo programador é um aventureiro, toda produção é uma dungeon e todo boleto tem respawn automático.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Reconhecimento pelos 5 anos no DIO Global - Digital Innovation One

 

Bellacosa Mainframe DIO Global 5 anos

O DIO Global faz 5 anos esse mês. E quando a gente olhar para essa data de verdade, o que aparece não é um número. São rostos. 

São mais de 50.000 profissionais que foram contratados em empresas de tecnologia através da DIO. Pessoas que estavam em transição de carreira, que buscavam a primeira vaga, que precisavam do inglês certo para competir com qualquer profissional do mundo. Que tinham talento, mas precisavam de um caminho. 

Você ajudou a construir esse caminho. 

O conteúdo que você produziu chegou a profissionais que mudaram de vida por conta do que aprenderam. Isso é raro. A maioria das pessoas passa anos trabalhando sem saber ao certo o impacto do que faz. Você sabe. 

Cinco anos é tempo suficiente para olhar para trás e ter clareza sobre quem construiu isso junto. E o seu nome está nessa lista. 

Em anexo você encontra um reconhecimento de gratidão da DIO pelo que você fez pela educação e pela carreira de tanta gente que confiou nesse projeto.  
 
Nosso agradecimento e reconhecimento por você ter impactado milhares de pessoas por meio da educação e empregabilidade. 
 
Obrigada pela sua contribuição.


DIO
Learning & Curriculum Lead

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Gratidão

Alcançar cinco anos de participação na DIO (Digital Innovation One) representa muito mais do que uma marca temporal. É o reconhecimento de uma trajetória construída por meio de aprendizado contínuo, troca de experiências e desenvolvimento profissional dentro de uma das maiores comunidades de tecnologia do Brasil.

Ao longo desse período, milhares de profissionais utilizaram a plataforma para expandir conhecimentos em áreas como programação, computação em nuvem, inteligência artificial, ciência de dados, segurança da informação, DevOps, arquitetura de sistemas e diversas outras especialidades do mercado tecnológico. A DIO tornou-se uma ponte entre conhecimento e oportunidades, aproximando estudantes, profissionais e empresas.

Receber um reconhecimento pelos cinco anos de jornada simboliza dedicação, persistência e compromisso com a evolução constante. Em um setor que se transforma diariamente, manter-se atualizado é um diferencial fundamental para enfrentar novos desafios e acompanhar as mudanças do mercado.

Além dos cursos e certificações, a experiência envolve participação em comunidades, eventos, bootcamps e iniciativas colaborativas que fortalecem o networking e o compartilhamento de conhecimento.

Esse marco também representa uma oportunidade para olhar para trás e perceber o quanto foi conquistado ao longo dos anos. Mais do que um certificado ou homenagem, os cinco anos na DIO refletem uma trajetória de crescimento, aprendizado contínuo e paixão pela tecnologia, valores essenciais para quem constrói uma carreira sólida na área de TI.

domingo, 7 de maio de 2023

O Aventureiro que Venceu a Dungeon,Pagou os Boletos e Continuou no Nível 1

 

Bellacosa Mainframe e a soma zero 

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Aventureiro que Venceu a Dungeon,

Pagou os Boletos e Continuou no Nível 1

Ou: por que salário alto não é necessariamente riqueza, certificação nem sempre aumenta remuneração e o verdadeiro Big Boss pode ser o custo de continuar empregável

Uma aventura para programadores COBOL iniciantes
sob a tutela de um veterano de guilda pressionado por boletos, reuniões, dress code e provas que expiram

UM CAFÉ NO BELLACOSA MAINFRAME | ECONOMIA DA DUNGEON


Prólogo — A missão pagava cem moedas

Sir Cedric do Batch Noturno entrou na taverna carregando o elmo amassado, uma espada com três pontos de durabilidade e o olhar de quem acabara de participar de uma reunião que poderia ter sido um pergaminho. Sobre a mesa, despejou cem moedas de ouro: recompensa por eliminar o Dragão S0C7, criatura que aparecia sempre que alguém colocava letras num campo numérico e dizia que ‘em homologação funcionou’. A taverna inteira aplaudiu. Cedric, porém, abriu seu caderno de despesas.

Vinte moedas para o ferreiro. Quinze para novas poções. Dez para a hospedagem. Oito para a taxa da guilda. Doze para o transporte até a próxima dungeon. Cinco para substituir as botas queimadas. Vinte para o curso obrigatório ‘Espadas Encantadas 6.5 — Novidades do Reino’. As dez moedas restantes seriam reservadas para o imposto do rei, cuja tabela ninguém compreendia completamente. O aventureiro havia vencido o monstro, recebido o loot e terminado exatamente onde começou.

O personagem subiu de nível, mas não conquistou liberdade: apenas desbloqueou despesas mais caras.

1. O famoso ganho zero — mas com uma ressalva

Chamamos essa sensação de ‘jogo de soma zero’: aquilo que entra sai novamente, e o saldo final parece não mudar. Em economia e teoria dos jogos, entretanto, soma zero possui significado rigoroso: o ganho de um participante corresponde exatamente à perda de outro. Uma partida de pôquer se aproxima disso; o dinheiro ganho por alguns saiu do bolso dos demais, desconsiderando a taxa da casa.

O trabalho não é necessariamente um jogo de soma zero. Ele pode criar valor, conhecimento, produtos, serviços e patrimônio. O problema é que muitas carreiras funcionam, do ponto de vista do indivíduo, como uma esteira de ganho quase zero. A remuneração cresce, mas o custo de obter e preservar aquela remuneração cresce junto. Não é uma identidade matemática; é uma experiência econômica.

Curiosidade da guilda: o nome útil para parte desse fenômeno é custo de permanecer empregável. Outra parte é consumo posicional: gastos feitos para demonstrar que você pertence a determinada posição, ainda que não aumentem sua produtividade.



2. O loot bruto não é o loot líquido

Um programador iniciante pode olhar uma vaga e pensar: ‘Esse salário é excelente’. O aventureiro experiente pergunta outra coisa: ‘Quanto custa ocupar essa vaga e quanto sobra depois?’. Salário bruto é a recompensa anunciada no mural da guilda. Salário líquido é aquilo que chega à mochila. Renda disponível é o que resta após despesas necessárias. Capacidade de acumulação é a parcela que pode virar reserva, investimento ou liberdade futura.

É possível expressar a ideia sem transformar a taverna numa aula de contabilidade:

Sobra real = renda líquida − custo de viver − custo de trabalhar − custo de proteção − dívidas

O custo de trabalhar inclui transporte, alimentação fora, internet, energia, equipamentos, roupas, mudança de cidade, cuidados pessoais, cursos e tempo não remunerado. Em home office, algumas despesas diminuem; outras são transferidas para dentro de casa. O escritório desaparece da paisagem, não necessariamente da fatura.

Duas pessoas podem receber valores muito diferentes e acumular na ordem inversa. Um profissional remoto que recebe oito mil reais, usa equipamentos duráveis e mora perto de sua rede de apoio pode formar mais patrimônio do que outro que recebe quinze mil, mas precisa sustentar carro, condomínio caro, roupas, almoços, deslocamento e presença constante em eventos. O contracheque mede fluxo. Não mede liberdade.

3. Dress code: a armadura social

Em alguns mundos corporativos, a roupa não é apenas roupa. Ela comunica hierarquia, confiança, pertencimento e adequação. O profissional compra ternos, sapatos, relógios, bolsas ou um automóvel compatível com a expectativa do ambiente. Parte disso pode ser legítima: higiene, apresentação e adequação importam. O problema começa quando o trabalhador precisa financiar uma personagem cara para continuar sendo aceito como ele mesmo.

Esse é o consumo posicional. O objeto não entrega apenas utilidade; ele sinaliza posição. Se todos compram a nova armadura para não parecer despreparados, ninguém ganha verdadeira vantagem, mas todos ficam mais pobres. É uma corrida armamentista estética. A espada +10 não derrota melhor o bug, mas talvez abra a porta da sala onde o bug será discutido.

Dica do veterano: separe aparência funcional de teatro de status. Compre qualidade, durabilidade e versatilidade. Evite transformar cada promoção em autorização para elevar permanentemente seu custo de vida.


4. A inflação das certificações

Certificação pode ser excelente. Ela organiza estudo, prova domínio mínimo, abre portas, ajuda numa transição e fornece linguagem comum. Mas não possui magia automática. Quando uma credencial rara se torna requisito generalizado, ela pode deixar de elevar salários e passar apenas a impedir exclusão. O profissional estuda, paga a prova, renova o badge e continua na mesma faixa salarial.

Na dungeon corporativa, isso é level scaling: você melhora os atributos, mas os monstros sobem de nível junto. Ontem, conhecer COBOL bastava. Hoje pedem COBOL, Db2, CICS, JCL, Git, APIs, cloud, Agile, inglês e uma fotografia sorridente segurando sete certificados. Amanhã, a lista recebe mais três itens, embora a manutenção continue sendo naquela copybook de 1987.

O erro não está em estudar. Para um profissional de tecnologia, parar completamente é perigoso. O erro é confundir atividade educacional com retorno econômico. Uma formação pode gerar quatro resultados distintos:

competência: você realmente executa melhor o trabalho;

sinalização: o mercado percebe mais facilmente aquilo que você sabe;

acesso: a credencial libera uma vaga, projeto ou comunidade;

coleção: você acumula badges sem mudança de responsabilidade, renda ou autonomia.

Antes de comprar um curso, pergunte qual desses quatro resultados ele provavelmente produzirá. Se a resposta for apenas ‘manter meu perfil parecido com os demais’, trate-o como custo de manutenção profissional, não como investimento garantido.


5. Reuniões: as dungeons sem loot

Cedric temia dragões, mas temia ainda mais a Convocação Recorrente das Nove. Essa criatura ocupava uma hora de cinco aventureiros para decidir que outra reunião seria necessária. Reuniões possuem custo de oportunidade: enquanto o time debate, não programa, testa, documenta, ensina ou descansa. Mesmo quando o salário mensal não muda, o recurso tempo foi consumido.

Para o trabalhador, há uma segunda camada. Cursos, preparação, networking e leitura técnica frequentemente invadem noites e fins de semana. O mercado contabiliza a credencial concluída, mas raramente registra as quarenta horas pessoais sacrificadas. O custo total de uma certificação não é somente a taxa da prova; é taxa, material, deslocamento, energia, ansiedade e horas que poderiam ter sido usadas de outra maneira.

Easter egg COBOL: uma reunião sem pauta é como executar um programa sem SYSIN e esperar um relatório correto. A diferença é que o job ao menos termina com código de retorno.

6. Os Big Bosses obrigatórios

Depois dos gastos profissionais surgem impostos e contribuições. Eles não são, por definição, dinheiro simplesmente perdido: financiam estruturas, serviços públicos, proteção social e redistribuição. Contudo, para o indivíduo que planeja décadas de vida, existe uma inquietação legítima. Ele contribui segundo as regras de hoje e receberá, se cumprir os requisitos futuros, segundo regras que podem mudar antes da fase final.

É como iniciar uma campanha informado de que a aposentadoria exige nível 60. Ao alcançar o nível 59, chega uma atualização: agora são necessários nível 65, mais tempo de contribuição e uma fórmula diferente para o benefício. Reformas podem ser necessárias para equilibrar o sistema, mas a necessidade coletiva não elimina a insegurança individual.

Por isso, previdência pública e patrimônio próprio cumprem papéis diferentes. A primeira é proteção social baseada em regras coletivas; o segundo amplia controle pessoal, embora esteja sujeito a mercado, inflação, tributação e escolhas ruins. Um não deveria ser tratado como desculpa para ignorar completamente o outro.




7. Quando o cidadão compra o serviço duas vezes

No Brasil, muitas famílias vivem a sensação de pagar por uma estrutura pública e comprar uma alternativa privada para obter previsibilidade ou qualidade percebida: contribuição para a saúde e plano particular; segurança pública e condomínio com vigilância; Previdência e investimento privado; escola pública e mensalidade; transporte público e automóvel.

Esse segundo pagamento funciona como custo privado da insuficiência percebida. Há ainda um prêmio de risco: seguro, rastreador, alarme, câmeras, estacionamento protegido e, em situações extremas, blindagem. Nada disso cria riqueza diretamente. São muralhas construídas para impedir que um evento destrua o que já foi acumulado.

O seguro é um bom exemplo. Quem passa anos sem sinistro pode imaginar que ‘perdeu dinheiro’. Mas o produto comprado não era lucro; era transferência parcial de um risco capaz de causar ruína. Quando ocorre um assalto, incêndio ou acidente, entram franquias, limites e exclusões. O seguro reduz impacto, não devolve tempo, tranquilidade ou vida.




8. Estatística não devolve um amigo

A teoria econômica fica pequena diante da violência. Uma pessoa pode fazer tudo certo, pagar impostos, condomínio, seguro, carro protegido e escolher rotas cuidadosas. Ainda assim, pode ser atingida por uma bala perdida, um acidente de trânsito, uma perseguição ou uma disputa da qual jamais participou. Existe risco residual: aquele que permanece depois de todas as precauções razoáveis.

Para quem já perdeu amigos dessa maneira, a probabilidade deixa de ser abstração. Uma taxa descreve milhares de pessoas; não recompõe nenhuma história individual. Dizer que determinado evento é raro não consola quem conhece o nome, a voz e os projetos de alguém localizado dentro daquela pequena porcentagem.

Para a estatística, foi uma ocorrência. Para os amigos e a família, foi o fim de um mundo inteiro.

Isso também mostra o limite da responsabilidade individual. Câmeras protegem um perímetro. Blindagem protege em condições específicas. Seguro protege parte do patrimônio. Nenhum cidadão consegue consertar sozinho o mapa inteiro. Segurança pública, urbanismo, educação, investigação, Justiça e prevenção exigem capacidade coletiva.


9. Trabalho é renda; patrimônio é tempo armazenado

A grande virada da campanha acontece quando Cedric entende que receber mais ouro não basta. Ele precisa impedir que todo o ouro seja consumido na preparação da missão seguinte. Trabalho produz renda enquanto o aventureiro consegue entrar na dungeon. Patrimônio é parte do trabalho passado preservada para comprar tempo futuro.

Isso não significa romantizar investimentos nem prometer independência financeira em doze pergaminhos. Quem possui renda baixa ou enfrenta emergências tem pouco espaço de manobra. Também não significa que casa, ações ou aposentadoria privada sejam invulneráveis. Significa apenas buscar ativos que não exijam presença diária e integral para conservar algum valor.

Para um profissional experiente, ativos podem ser financeiros, mas também intelectuais e reputacionais: documentação própria, material didático, artigos, vídeos, livros, ferramentas, comunidade e uma marca confiável. A certificação expira. O conteúdo que ensinou centenas de pessoas pode continuar abrindo portas. Conhecimento guardado somente na cabeça ajuda na próxima missão; conhecimento organizado pode ajudar enquanto você dorme.


10. O inventário do programador COBOL

O programador COBOL iniciante precisa evitar dois extremos. O primeiro é acreditar que a linguagem antiga garantirá emprego eterno sem atualização. O segundo é gastar todo o tempo e dinheiro perseguindo cada ferramenta anunciada como indispensável. A melhor estratégia é construir uma base durável e adicionar competências conectadas a oportunidades reais.

Base técnica: COBOL, JCL, datasets, VSAM, Db2, CICS, depuração e leitura de dumps.

Contexto operacional: como o programa compila, executa, acessa dados, falha e chega à produção.

Integração moderna: APIs, Git, automação, mensageria e noções de cloud onde houver aplicação concreta.

Comunicação: documentar, explicar impacto, perguntar antes de alterar e conversar com operação e negócio.

Ativos próprios: anotações reutilizáveis, laboratórios, portfólio, artigos e exemplos que provem capacidade.

Um badge deve entrar no inventário porque aumenta capacidade ou acesso, não porque existe um espaço vazio na parede. O objetivo não é possuir a maior coleção de ícones; é resolver problemas com segurança e ser reconhecido por isso.



11. Passo a passo para sair da esteira

Calcule o loot líquido. Registre renda líquida e despesas pessoais. Não use o salário bruto como medida de prosperidade.

Separe custo de vida e custo de trabalho. Transporte, roupa, alimentação externa, equipamento e certificações devem aparecer como custo da profissão.

Meça o custo total dos cursos. Some dinheiro, horas, renovação e oportunidade perdida. Depois identifique qual porta concreta poderá abrir.

Crie uma reserva contra wipe. Comece pelo possível. Reserva não existe para vencer a inflação em todas as semanas; existe para evitar decisões desesperadas quando surge um problema.

Proteja riscos catastróficos. Priorize aquilo cuja perda destruiria anos de progresso. Compare coberturas, exclusões e franquias, sem imaginar que qualquer apólice oferece invulnerabilidade.

Converta estudo em ativo. Produza laboratório, documentação, palestra, artigo ou ferramenta. Transforme consumo educacional em evidência reutilizável.

Evite inflação automática do estilo de vida. Promoção não exige imediatamente carro, bairro, restaurante e guarda-roupa mais caros.

Reavalie o mapa. A cada seis meses, pergunte se a carreira aumentou renda, autonomia, saúde e patrimônio — ou somente elevou a dificuldade das próximas fases.



12. Perguntas antes de aceitar a próxima quest

Quanto sobrará depois dos custos exigidos pela vaga?

A certificação é requisito real, diferencial ou apenas decoração?

A competência continuará útil fora desta empresa?

O aumento salarial compensa deslocamento, risco, tempo e desgaste?

Estou comprando produtividade ou tentando parecer compatível com o salário?

Se eu parar de trabalhar por três meses, o que permanece de pé?

Esta escolha aumenta liberdade futura ou somente mantém acesso à próxima missão?



Epílogo — A espada que trabalha quando o herói descansa

Na manhã seguinte, Sir Cedric voltou ao mural da guilda. Havia outra missão, outro dragão e outra promessa de recompensa espetacular. Ele aceitou, porque boletos não são criaturas mitológicas. Mas separou cinco moedas antes de visitar o ferreiro. Com uma, comprou papel. Com outra, tinta. Nas noites seguintes escreveu um manual chamado ‘Como derrotar o S0C7 sem incendiar o reino’. Depois ensinou aprendizes e vendeu cópias para outras guildas.

A espada continuou importante. As poções continuaram caras. O rei não aboliu os impostos e a guilda marcou uma reunião para discutir a reunião anterior. A diferença foi que uma parte do trabalho de Cedric deixou de morrer no fim de cada missão. Virou conhecimento organizado, reputação e uma pequena fonte de renda que não dependia de enfrentar pessoalmente cada monstro.

Esse é o ponto central. A vida profissional não precisa ser um jogo de soma zero, mas facilmente se transforma numa esteira em que todo aumento financia uma nova camada de despesas. Ganhar bem não é o mesmo que acumular. Estudar não é automaticamente investir. Seguro não é riqueza. Aparência não é competência. E contribuição obrigatória não elimina a necessidade de planejamento pessoal.

A verdadeira vitória não é encontrar uma espada +10. É construir algo que continue produzindo valor quando chegar o dia de guardar a espada.

Checklist final do aventureiro

Conheço minha sobra real mensal, não apenas meu salário.

Sei quanto minha profissão custa por mês e por ano.

Cada curso possui objetivo, prazo e aplicação definidos.

Tenho proteção proporcional aos riscos que poderiam me arruinar.

Parte do meu trabalho vira patrimônio, conteúdo ou capacidade reutilizável.



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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