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sábado, 29 de março de 2025

Saikyō no Shienshoku “Wajutsushi” — quando uma obra quase desconhecida apareceu na hora certa, abriu as portas do bar e mostrou que alguns animes são muito mais que diversão

 
Bellacosa Mainframe e o velho barman

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O Velho Barman e o Último Copo Antes do ABEND

Saikyō no Shienshoku “Wajutsushi” — quando uma obra quase desconhecida apareceu na hora certa, abriu as portas do bar e mostrou que alguns animes são muito mais que diversão

Ou: Noel Stollen queria construir o clã mais poderoso do mundo, Alma carregava um cemitério dentro do sorriso, Koga havia transformado a própria honra em algemas — e o homem mais sábio daquele universo não possuía classe, ranking ou habilidade especial: apenas um balcão, algumas garrafas e a capacidade de reconhecer um coração despedaçado

Aviso: este artigo contém spoilers da primeira temporada.



Prólogo — O bar continua aberto

O último cliente já havia partido quando o velho barman começou a recolher os copos.

Lá fora, a capital imperial continuava funcionando como sempre: Seekers procuravam contratos, mafiosos negociavam seres humanos, comerciantes calculavam lucros, jornalistas vendiam escândalos e aventureiros sonhavam em tornar-se heróis antes que alguma criatura abissal os transformasse em estatística.

Dentro do bar, porém, o tempo obedecia a outra administração.

O velho secou cuidadosamente um copo, colocou-o diante da cadeira vazia e serviu uma dose.

— Para quem é essa bebida? — perguntou alguém.

— Para quem chegou até aqui fingindo que estava apenas procurando diversão.

A resposta poderia ter sido dirigida a Noel Stollen, Alma, Koga, Leon ou qualquer outro sobrevivente daquele mundo. Mas também poderia ser dirigida a mim.

Comecei Saikyō no Shienshoku “Wajutsushi” de Aru Ore wa Sekai Saikyō Clan wo Shitagaeru esperando mais um anime de fantasia. Talvez uma classe considerada fraca, algumas habilidades escondidas, monstros, combates e o tradicional protagonista que o sistema classificou incorretamente.

Dois episódios depois, a suspeita já estava instalada:

O desgraçado era bom.

Quando a temporada terminou, não restava mais dúvida. Aquilo não havia aparecido apenas para preencher algumas horas. Surgira no momento exato, na hora H, trazendo uma história sobre objetivo, perda, disciplina, liderança, ressentimento, injustiça e pessoas que continuam funcionando mesmo depois que alguma coisa fundamental foi arrancada delas.

Algumas obras nos entretêm.

Outras encontram uma porta que deixamos aberta sem perceber.

Wajutsushi entrou por essa porta, pediu uma bebida e permaneceu sentado.



1. Ficha técnica recuperada atrás do balcão

O título original é 最凶の支援職【話術士】である俺は世界最強クランを従える, normalmente romanizado como Saikyō no Shienshoku “Wajutsushi” de Aru Ore wa Sekai Saikyō Clan wo Shitagaeru. No mercado internacional recebeu o nome The Most Notorious “Talker” Runs the World’s Greatest Clan.

A obra nasceu como web novel escrita por Jaki — じゃき, publicada entre setembro de 2019 e julho de 2020. Essa versão foi encerrada com 45 capítulos e classificação japonesa R15, incluindo avisos de violência e crueldade. Posteriormente, a história tornou-se light novel da Overlap Bunko, com ilustrações de fame, e ganhou uma adaptação em mangá desenhada por Yamorichan. A versão original permanece registrada como concluída no Shōsetsuka ni Narō.

O anime foi produzido por Felix Film e Ga-Crew, dirigido por Yuta Takamura, com 12 episódios exibidos entre outubro e dezembro de 2024. A abertura, “Tactics”, interpretada por SAIKI com produção de KOHTA YAMAMOTO, anuncia corretamente que não estamos diante de uma aventura heroica tradicional. Estamos entrando numa operação.

A light novel comercial continua expandindo a história e chegou ao volume 5 em março de 2026. O mangá também prossegue e alcançou o volume 12 em maio de 2026.

A primeira temporada, portanto, não mostra o império de Noel concluído.

Mostra apenas a abertura da empresa.



2. “A classe mais fraca” foi o primeiro erro do departamento de recrutamento

Noel Stollen é neto de Brandon Stollen, o lendário Overdeath, considerado um dos Seekers mais poderosos de sua época.

O garoto cresce desejando superar o avô, mas, no momento em que recebe sua classe, o sistema entrega o diagnóstico mais inconveniente possível: Noel é um Talker, uma função de suporte considerada fraca.

Ele não recebeu força suficiente para destruir sozinho os monstros mais poderosos. Não ganhou a resistência de um guerreiro nem a velocidade de um assassino. Seu principal instrumento é a palavra.

Num anime genérico, provavelmente descobriríamos que o Talker possui secretamente uma habilidade capaz de explodir montanhas. Noel passaria onze episódios dizendo que não é tão forte enquanto derrotaria sozinho todos os adversários.

Wajutsushi escolhe um caminho melhor.

Noel realmente possui limitações.

Ele pode aprimorar aliados, coordenar movimentos, afetar estados mentais e transformar combatentes competentes numa unidade extraordinária. Mas continua precisando de gente forte ao seu redor.

Sua solução não é negar a fraqueza.

É reorganizar o mundo para que a fraqueza deixe de ser relevante.

Se Noel não consegue derrotar sozinho a criatura mais poderosa da masmorra, ele contratará quem consegue. Se um talento estiver preso a uma organização concorrente, organizará uma aquisição hostil. Se um integrante prejudicar o caixa, executará o processo disciplinar sem reunião de feedback. Se o regulamento impedir a criação do clã, encontrará uma exceção, uma crise, uma carta esquecida ou um executivo suficientemente ambicioso para reinterpretar a norma.

Noel não deseja ser o homem mais forte da sala.

Ele quer ser o homem que decide quem entra na sala, quem luta, quem recebe os recursos e quem sai carregado.

Isso não é apenas fantasia medieval.

É governança corporativa com espadas.


3. O rosto angelical do predador

A aparência andrógina de Noel é calculada com enorme inteligência.

Cabelos longos, corpo esguio, feições delicadas e uma beleza capaz de confundir a leitura imediata de quem o observa. A própria web novel brinca com isso quando Ophelia inicialmente o toma por uma mulher.

Não encontrei uma declaração de Jaki explicando oficialmente toda a intenção por trás dessa escolha; portanto, a interpretação seguinte é minha. Ainda assim, a obra utiliza esse contraste conscientemente.

O rosto de Noel funciona como camuflagem social.

Os adversários esperam fragilidade e recebem cálculo. Esperam gentileza e encontram autoridade. Esperam que aquela figura delicada recue diante da violência, mas descobrem que o rapaz já havia previsto a conversa, comprado a informação, identificado a fraqueza e preparado o contrato de transferência de propriedade.

Seu corpo não comunica força bruta porque sua força nunca esteve ali.

Ela está na leitura do ambiente.

Noel é a representação visual do soft power: influência, reputação, estratégia, informação e linguagem. O choque produzido por suas decisões aumenta justamente porque as ordens mais cruéis saem de um rosto quase angelical.

A androginia também impede que ele seja reduzido ao arquétipo do macho musculoso que domina tudo pela presença física. Noel ocupa um espaço mais ambíguo e desconfortável. Ele seduz, intimida e conduz sem depender da masculinidade convencional.

É bonito demais para parecer perigoso.

E perigoso demais para que sua beleza seja inocente.


4. Noel não é frio: ele administra a temperatura

Muita gente olha para Noel e conclui imediatamente:

— Psicopata.

Não concordo.

Noel sente raiva, admiração, culpa, desejo, lealdade, orgulho e afeto. Ele respeita a memória do avô, reconhece talento verdadeiro, protege quem considera parte de sua estrutura e não é completamente indiferente ao sofrimento.

A diferença é administrativa.

Noel não permite que o sentimento assuma a presidência da organização.

Ele não deixa de sentir; compila o sentimento antes de executá-lo.

Quando Lloyd e Tania roubam o dinheiro do grupo para alimentar o vício em jogos, Noel não enxerga apenas uma traição emocional. Ele vê a destruição do capital que todos arriscaram a vida para acumular.

Se o dinheiro tivesse sido consumido numa emergência médica ou para salvar um familiar, talvez existisse espaço para compaixão. Mas foi perdido por irresponsabilidade, mentira e vício. Para Noel, isso transforma o problema numa quebra consciente de confiança.

Sua punição é terrível: entrega os traidores ao comércio de escravos.

Dentro da lógica brutal daquele universo, há uma simetria narrativa: eles trataram o esforço dos companheiros como propriedade disponível; Noel transforma os próprios traidores em propriedade.

Isso pode produzir uma satisfação catártica no espectador, mas a obra também deixa um incômodo. Justiça e vingança não são sinônimos. A escravidão não se torna moralmente aceitável porque a vítima da punição cometeu um crime.

Noel não é apresentado como modelo ético perfeito.

Ele é apresentado como um homem que decidiu alcançar o objetivo mesmo que precise atravessar áreas nas quais heroísmo, crime, pragmatismo e crueldade ocupam a mesma mesa.


5. Os Sete Pecados Capitais receberam crachás

Os monstros de Wajutsushi são impressionantes, mas raramente constituem o verdadeiro motor da tragédia.

A história é movimentada por sentimentos humanos.

É praticamente Os Sete Pecados Capitais — versão adulta, corporativa e gore.

A ganância faz companheiros roubarem o fundo comum.

A inveja impede aventureiros de aceitar que uma classe “inferior” possa liderá-los.

O orgulho transforma divergências solucionáveis em guerras.

A ira começa como ressentimento pessoal e termina destruindo organizações inteiras.

A luxúria aparece ligada à posse, carência, exploração e domínio, não apenas ao fanservice.

A preguiça surge naqueles que desejam prestígio sem suportar treinamento, disciplina e responsabilidade.

A gula torna-se fome de poder, reconhecimento, dinheiro, prazer e controle.

Por trás de todos eles existe ainda um oitavo pecado, talvez o mais importante da obra: o ressentimento.

Quase ninguém nasce simplesmente mau. Os personagens carregam humilhações, rejeições, perdas e feridas antigas. Em algum momento, essas feridas recebem privilégios de administrador e passam a controlar o sistema inteiro.

A estrutura trágica repete-se:

ferida → pecado → decisão → racionalização → violência → consequência inesperada.

O culpado inicia o JOB.

Frequentemente, porém, é um inocente que recebe o ABEND.


6. Alma sorri porque já chorou tudo antes de entrar em cena

Alma Judikhali parece inicialmente ocupar uma posição conhecida: a assassina sedutora, imprevisível e perigosamente interessada no protagonista.

Então a história começa a abrir os compartimentos escondidos.

Por trás da eficiência existe uma formação monstruosa. Sua família transformou crianças em ferramentas, afeto em fraqueza e sobrevivência em prova de desempenho. Alma não se tornou excêntrica porque a narrativa precisava de uma “garota maluca”.

Ela construiu aquela personalidade para sobreviver ao próprio passado.

Sua proximidade com Noel funciona porque ambos reconhecem no outro algo familiar. Os dois foram educados pela dor, receberam objetivos quase impossíveis e aprenderam cedo que talento sem disciplina não vale nada.

Mas existe uma diferença essencial.

Noel transforma trauma em organização.

Alma transforma trauma em movimento.

Ela ri, provoca, luta e deseja porque permanecer parada talvez significasse escutar os mortos que carrega consigo.

Sua história também demonstra por que a violência do anime não é mero enfeite. Cada combate possui uma biografia. Cada golpe traz uma infância, uma promessa, uma perda ou uma humilhação antiga.

A coreografia funciona porque não movimenta somente corpos.

Movimenta fantasmas.


7. Koga e a escravidão da honra

Koga apresenta outra forma de aprisionamento.

Ele possui enorme força, técnica refinada e uma noção rígida de honra. Paradoxalmente, aquilo que lhe dá identidade também permite que outros o controlem.

As correntes mais eficientes nem sempre são feitas de metal.

Algumas são feitas de juramentos.

Noel percebe isso imediatamente. Não deseja simplesmente contratar os músculos de Koga; quer conquistar o sistema moral que dirige aqueles músculos.

A relação entre ambos parece uma negociação, um duelo e uma sessão de recrutamento executivo realizados simultaneamente. Noel precisa mostrar que sua ambição não é pequena, que sua crueldade possui direção e que servir a ele pode ser mais digno que permanecer nas mãos de quem usa a honra como coleira.

Koga não entra no grupo porque Noel é bondoso.

Entra porque reconhece nele uma vontade capaz de oferecer sentido à sua força.

Outra mensagem adulta aparece aqui: pessoas extraordinariamente competentes podem continuar aprisionadas quando alguém controla a narrativa que elas contam sobre si mesmas.


8. Leon Frederic e o departamento de ética que chegou atrasado

Leon parece ser o herói tradicional deslocado para o anime errado.

É poderoso, carismático, respeitado e deseja agir corretamente. Num isekai convencional, provavelmente seria o protagonista. Em Wajutsushi, torna-se o contraponto ideal para Noel.

Leon acredita que uma grande organização deve ser construída pela excelência moral de seus integrantes.

Noel acredita que organizações são construídas por incentivos, poder, estrutura e liderança.

Leon vê pessoas como elas poderiam ser.

Noel trabalha com o que elas são.

Isso não significa que Noel esteja sempre certo e Leon sempre errado. O colapso dos Cavaleiros Alados mostra justamente o perigo de confundir virtude individual com governança.

Boa intenção não substitui controle interno.

Reputação não substitui auditoria.

Um discurso sobre honra não impede ciúme, inveja, competição interna e sabotagem.

Leon possuía valores, força e legitimidade. Faltava-lhe a disposição de olhar para os lugares desagradáveis da própria organização.

Noel olhou.

E encontrou exatamente o que esperava encontrar.


9. “Era uma vez na América” com capa, espada e monstros abissais

O worldbuilding é uma das maiores surpresas do anime.

A capital não parece um cenário de RPG construído apenas para distribuir missões. Ela possui estratos sociais, imprensa, burocracia, guildas, prisões, mercado de escravos, crime organizado, relações comerciais, corrupção e disputa institucional.

É fantasia de capa e espada atravessada por Era uma Vez na América.

As famílias mafiosas recebem nomes como Gambino, Barzini e Luciano, referências impossíveis de ignorar para quem conhece a mitologia do crime organizado ítalo-americano. O nome Stollen também produz uma ironia deliciosa: pode soar próximo do inglês stolen, “roubado”.

Combina perfeitamente com Noel.

Ele não rouba uma carteira.

Rouba mercados.

Rouba talentos dos concorrentes.

Rouba oportunidades que pareciam pertencer a outros.

É um furto socialmente aceito, registrado pelo departamento jurídico como aquisição hostil.

Até Harold Jenkins soa como uma piada deixada para algum velho informático encontrar de madrugada. No mesmo universo em que o protagonista administra Seekers como recursos de produção, aparece um sujeito cujo nome lembra simultaneamente gerente de repartição e servidor de automação corporativa.

Talvez seja coincidência.

Mas o Jenkins recebeu o JOB e executou sem erro.


10. A carta foi meninice — e por isso funcionou

Um dos prazeres de acompanhar Noel está em perceber que ele não é infalível.

O episódio da carta possui algo de juvenil, teatral e quase infantil. Noel ainda é um rapaz tentando ocupar uma posição maior que sua idade. Em determinados momentos, sua inteligência vem acompanhada daquela satisfação adolescente de quem deseja demonstrar que pensou cinco movimentos à frente.

E, ainda assim, a carta funciona.

Ela revela outra qualidade importante: Noel documenta.

Não confia apenas no que pretende dizer futuramente. Cria evidência, prepara contingência e deixa um processo para ser executado quando as condições forem atendidas.

É meninice com valor jurídico.

Um bilhete escrito por alguém jovem pode converter-se numa ferramenta de poder quando todos os adultos ao redor dependem apenas de memória, reputação e palavra.

Noel descobriu cedo uma verdade conhecida por qualquer sobrevivente corporativo:

o que não está documentado pertence a quem contar a versão mais convincente.

E ele é literalmente um Talker.


11. Duas mulheres, duas tragédias e o limite do radar de Noel

A obra não protege personagens porque são jovens, bonitas, apaixonadas ou potencialmente importantes para o protagonista.

Mulheres que demonstram sentimentos por Noel podem ser eliminadas de maneira brutal. Não existe contrato narrativo garantindo que o afeto será recompensado com romance, harém ou resgate no último instante.

Essa escolha aumenta a sensação de mundo real.

Noel controla pessoas, informações e operações, mas não controla todas as consequências. Existem dependências invisíveis. Alguém toma uma decisão e, quilômetros depois, uma criança, amante, subordinado ou inocente paga a conta.

A menina da aldeia representa isso de maneira especialmente cruel. Ela paga pelo pecado do próprio pai, um homem sórdido que a transforma em vítima de seus atos. Noel não a escolhe diretamente como alvo, mas participa de uma cadeia causal que termina sobre ela.

É a culpa implícita que escapou de seu radar.

Chelsea amplia ainda mais essa ferida. O destino que a alcança demonstra que o conflito entre organizações não respeita fronteiras morais. Quando Noel movimenta uma peça, inimigos movimentam outras. Algumas pessoas são destruídas não pelo que fizeram, mas por onde estavam posicionadas.

Noel pode calcular resultados.

Mas o mundo não entrega sempre o relatório completo de impacto.


12. O velho barman não possui classe porque já compreendeu todas elas

E então aparece ele.

O homem sem ranking, sem golpe especial e sem ambição de criar o maior clã do mundo.

O velho barman.

Enquanto Noel identifica fragilidades para negociar, mafiosos as procuram para explorar e rivais as utilizam para humilhar, o barman reconhece a mesma vulnerabilidade e faz algo revolucionário naquele universo:

não tenta lucrar com ela.

Ele oferece um banco, uma bebida, silêncio e algumas palavras.

Seu bar é uma zona neutra entre o campo de batalha e a próxima tragédia. Quem atravessa aquela porta pode deixar de ser Seeker, assassino, escravo, líder ou sobrevivente por alguns minutos.

Pode apenas estar cansado.

O velho não promete reparar aquilo que foi quebrado. Não apresenta uma palestra motivacional. Não diz que tudo acontece por alguma razão. Não transforma sofrimento em conteúdo para LinkedIn.

Ele sabe que algumas dores não precisam imediatamente de solução.

Precisam de testemunha.

Esse personagem aparentemente secundário compreende algo que Noel ainda está aprendendo: uma pessoa não é apenas o conjunto de suas competências, utilidades, erros e ameaças.

Às vezes, uma pessoa é apenas alguém tentando impedir que seus próprios cacos cortem os demais.

No organograma secreto de Wajutsushi, Noel é o CEO, Alma dirige operações especiais, Koga responde pela capacidade ofensiva e Leon administra o departamento de valores institucionais.

O velho barman é o Departamento de Continuidade da Alma.

Ele mantém seres humanos em produção depois que a vida executa um DELETE sem backup.


13. A animação, a música e a violência que sabe dançar

A qualidade técnica também contribui para que a obra ultrapasse a diversão passageira.

Os combates não são apenas trocas de golpes luminosos. Existe direção de movimento, peso, antecipação e leitura espacial. Noel frequentemente participa sem ocupar o centro físico da batalha. Sua presença está nas ordens, nos buffs, na distribuição dos combatentes e no ritmo da operação.

A câmera compreende isso.

Alma luta como alguém que transformou trauma em elegância mortal. Koga luta como quem carrega séculos de tradição sobre os ombros. Leon luta como a imagem idealizada do herói. Noel luta como um maestro que sabe exatamente quando cada instrumento deve entrar.

A trilha sonora acompanha essas identidades. Ela não serve apenas para anunciar que “agora começou a cena importante”. Cria tensão, impulsiona a coreografia e amplia a dimensão trágica dos confrontos.

Quando música, animação e passado dos personagens se encontram, o combate deixa de ser espetáculo isolado.

Torna-se confissão.

Cada personagem diz quem é pela maneira como luta.


14. A empresa começou suja — como quase todas as empresas antigas demais para lembrar

Noel deseja construir o maior clã do mundo.

Não começa com investidores sorridentes, valores impressos na parede e uma fotografia da equipe segurando canecas personalizadas.

Começa com chantagem, crime organizado, manipulação, escravidão, dossiês, violência e contratação de pessoas que qualquer departamento convencional de recursos humanos classificaria como “risco inaceitável”.

Mas quantas organizações do mundo real possuem passados realmente limpos?

Quanto mais antiga, poderosa e respeitável a instituição, maior a probabilidade de que alguém encontre, ao escavar suas fundações, exploração, traição, monopólio, corrupção, favorecimento político, trabalho desumano ou uma aquisição que foi chamada de estratégica apenas porque os vencedores escreveram o relatório anual.

Décadas depois, a sujeira recebe mármore.

A violência vira tradição.

A pilhagem torna-se patrimônio.

O peixe dourado engorda dentro do aquário e ninguém pergunta de onde veio a primeira ração.

Consigo imaginar Noel idoso, apoiado numa bengala, discursando durante o aniversário da Wild Tempest:

— Nossos Seekers são os pilares desta organização. Pessoas são nosso bem mais precioso.

Na primeira fileira, Alma provavelmente estaria sorrindo.

No porão, algum arquivo permaneceria classificado por mais cinquenta anos.


15. O anime que apareceu na hora H

Existem obras tecnicamente melhores, mais famosas e premiadas.

Mas a relação com uma história não depende apenas de qualidade absoluta.

Depende do momento do encontro.

Um livro lido aos vinte anos não é o mesmo livro relido aos cinquenta. Um filme visto antes de uma perda não é o mesmo filme assistido depois dela. Uma frase pode parecer banal durante décadas e, numa noite específica, atravessar todas as defesas.

Wajutsushi apareceu como mais um anime desconhecido.

Entregou um protagonista que não confunde racionalidade com ausência de sentimentos; alguém que escolhe um objetivo, aproxima quem ajuda e exclui sem cerimônia quem ameaça destruir aquilo que está construindo.

Isso não significa concordar com todas as suas decisões.

Significa reconhecer o mecanismo.

Também entregou personagens cujas tragédias não existem apenas para justificar poderes. Alma, Koga, Leon, Chelsea e tantos outros mostram diferentes maneiras de continuar vivendo depois que o mundo cobra uma dívida que eles não criaram.

E, quando toda aquela violência corria o risco de tornar-se insuportável, colocou atrás de um balcão um velho capaz de escutar.

Talvez fosse disso que a história precisasse.

Talvez fosse disso que eu precisasse.

Não de mais um herói dizendo que tudo ficará bem.

Mas de um barman suficientemente honesto para admitir que algumas coisas não ficam bem — e, mesmo assim, colocar outro copo sobre a mesa.


Epílogo — Esta é por conta da casa

O velho terminou de secar o último copo.

Do lado de fora, Noel continuava construindo seu clã. Novos integrantes seriam recrutados, rivais cairiam, alianças seriam compradas e mais inocentes provavelmente sofreriam por decisões tomadas em salas onde seus nomes jamais foram pronunciados.

— Então ele é um herói ou um vilão? — perguntou o cliente.

O barman serviu outra dose.

— Depende de quem ficou com a empresa depois da aquisição.

— E qual é a mensagem da história?

O velho olhou para as garrafas, para as cadeiras vazias e para todas as pessoas invisíveis que já haviam chorado naquele balcão.

— Que os monstros mais perigosos não vivem nas masmorras. Vivem dentro das pessoas. Mas algumas pessoas aprendem a governá-los. Outras entregam-lhes a senha de administrador.

— E Noel?

— Noel acredita que está governando os seus.

— Está?

O barman sorriu.

— A história ainda não terminou.

Então empurrou o copo em minha direção.

— Esta é por conta da casa. Você chegou na hora certa.

E foi assim que uma obra quase desconhecida, escondida entre centenas de animes de fantasia, deixou de ser apenas diversão.

Ela abriu o bar depois do expediente.

Sentou-se ao meu lado.

E permaneceu ali enquanto o tempo, as perdas, os objetivos e os antigos fantasmas processavam silenciosamente seus trabalhos em background.

Alguns animes terminam quando aparecem os créditos.

Outros continuam executando dentro de nós.

Saikyō no Shienshoku “Wajutsushi” ainda está em produção.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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