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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Mel Brooks — O Homem que Ensinou Frankenstein a Dançar e Hitler a Escorregar numa Casca de Banana

 

Bellacosa Mainframe faz uma homenagem ao mestre do humor Mel Brooks e confesa que muito do humor presente nestas paginas veio de inspiração dele

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Mel Brooks — O Homem que Ensinou Frankenstein a Dançar e Hitler a Escorregar numa Casca de Banana

Ou: Igor abriu a porta do castelo, encontrou um menino judeu do Brooklyn, um sapador da Segunda Guerra, um baterista dos Catskills, um roteirista enlouquecido, o amor de Anne Bancroft — e o velho mestre que passou cem anos diminuindo tiranos com gargalhadas

A porta do castelo rangeu.

Do outro lado apareceu um homem baixo, corcunda, vestido de preto e segurando uma lanterna que provavelmente não atendia a nenhuma norma moderna de segurança.

— Você deve ser Igor.

Eye-gor.

— Certo. E este é o castelo de Frankenstein?

Fronkensteen.

Percebendo que discutir pronúncia com Marty Feldman poderia atrasar nossa visita por várias encarnações, entregamos a ele a credencial temporária do Bellacosa Mainframe e pedimos que nos conduzisse até o laboratório onde Mel Brooks fabrica piadas.

Igor sorriu.

O corcunda mudou discretamente de ombro.

E começamos a descer.

🧒 O menino que nasceu sobre a mesa da cozinha

Mel Brooks nasceu Melvin James Kaminsky, em 28 de junho de 1926, no Brooklyn, em Nova York.

Não numa maternidade cinematográfica iluminada por refletores, mas sobre a mesa da cozinha da família.

Filho de Max Kaminsky e Kitty Brookman, descendia de judeus europeus. O pai morreu de tuberculose quando Mel tinha apenas dois anos, deixando a mãe responsável por quatro meninos durante os anos difíceis da Grande Depressão.

A perda deixou uma marca profunda.

Brooks reconheceria mais tarde que parte de sua comédia nasceu da raiva, do sentimento de abandono e da necessidade de transformar dor em alguma coisa que não terminasse numa briga. Pequeno, franzino e frequentemente provocado por outras crianças, descobriu cedo que uma piada bem colocada podia funcionar como colete à prova de socos.

A comédia não surgiu como passatempo.

Foi um sistema defensivo.

Se conseguisse fazer o agressor rir, talvez o agressor esquecesse de bater. Se transformasse a própria fragilidade em personagem, assumiria o controle da narrativa. O menino que parecia destinado a ser alvo descobriu que podia dirigir a cena.

Esse mecanismo continuaria presente em toda a obra de Brooks: encontre aquilo que provoca medo, retire sua solenidade, coloque-lhe uma roupa ridícula e faça o público rir.

Tiranos parecem gigantes enquanto permanecem sobre pedestais.

Mel Brooks passou a vida puxando-lhes as calças.




🥁 Antes da piada, veio o ritmo

Igor abriu outra porta.

Encontramos uma bateria.

Antes de ser cineasta, Brooks queria ser músico. Aprendeu bateria ainda adolescente e teve aulas com ninguém menos que Buddy Rich, um dos mais famosos bateristas da história do jazz.

Isso explica parte importante de seu estilo.

As piadas de Mel Brooks possuem ritmo. Elas aceleram, repetem palavras, criam expectativas, fazem silêncio e então atingem o público como a caixa de uma bateria. Seus diálogos frequentemente parecem improvisações de jazz: uma ideia é apresentada, deformada, devolvida por outro personagem e finalmente arremessada contra a parede.

O American Film Institute observa que esse treinamento musical influenciou seu modo percussivo de improvisar e construir humor. Ele não escrevia apenas frases engraçadas. Escrevia batidas.

Preparação.

Pausa.

Impacto.

Se uma piada não funcionava, Brooks não realizava uma autópsia filosófica. Mudava o tempo, trocava a palavra ou acrescentava uma buzina.

Às vezes acrescentava três buzinas.

💣 O comediante que desarmava minas

Antes de enfrentar executivos de Hollywood, Mel Brooks enfrentou um inimigo ligeiramente menos perigoso: o Exército alemão.

Alistou-se durante a Segunda Guerra Mundial, recebeu treinamento em engenharia e serviu na Europa como integrante de uma unidade de combate. Seu trabalho incluía localizar e remover minas terrestres para permitir o avanço das tropas aliadas.

Segundo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, sua unidade também construiu pontes e em algumas ocasiões precisou lutar como infantaria.

Portanto, antes de Brooks desarmar bombas culturais, literalmente desarmava explosivos enterrados no solo europeu.

Essa experiência ajuda a compreender sua obsessão posterior por Hitler, nazismo e autoritarismo. Brooks não observou o fascismo como conceito abstrato. Era judeu, serviu na guerra e testemunhou suas consequências.

Sua vingança, porém, não seria transformar Hitler num vilão grandioso.

Seria torná-lo ridículo.

Décadas depois, Brooks explicou que enfrentar um ditador apenas com discursos pode preservar sua aura de poder. O humor faz algo diferente: reduz o tirano. Em vez do líder monstruoso dominando multidões, resta um homenzinho de bigode cantando, dançando e perdendo o controle do cenário.

Uma das missões declaradas de sua vida foi fazer o mundo rir de Adolf Hitler.

Mel Brooks não perdoou Hitler. Ele o rebaixou a palhaço.

🏨 A universidade dos Catskills

Depois da guerra, Brooks entrou no circuito de hotéis e resorts dos Catskills, região conhecida como Borscht Belt.

Ali se hospedavam principalmente famílias judias de Nova York, e os hotéis precisavam de artistas capazes de manter os hóspedes entretidos durante horas. Era um ecossistema de músicos, cantores, mágicos, comediantes, dançarinos e seres humanos dispostos a cair numa piscina usando terno.

Brooks tornou-se um tummler: mistura de animador, mestre de cerimônias, comediante e funcionário encarregado de impedir que o público percebesse quanto tempo faltava para o jantar.

Essa foi sua verdadeira faculdade de humor.

Não havia edição, efeitos especiais ou algoritmo de recomendação. Se a piada fracassasse, o silêncio chegava imediatamente. O artista precisava aprender a ler a sala, recuperar o público e transformar o desastre em material para o número seguinte.

Uma de suas rotinas consistia em caminhar vestido até o fundo de uma piscina. Brooks enchia os bolsos de pedras para permanecer submerso enquanto o chapéu ficava boiando na superfície.

Era uma piada visual cuidadosamente planejada e com risco considerável de terminar no boletim de ocorrência do hotel.

O jovem Mel aprendeu ali uma regra que nunca abandonaria:

O público não é burro. Se você se diverte verdadeiramente com aquilo que criou, há uma boa chance de ele perceber.

📺 A sala de roteiristas que parecia um hospício

Em 1949, Brooks começou a escrever para a televisão. Logo entrou na equipe de Sid Caesar, primeiro em The Admiral Broadway Revue e depois no lendário Your Show of Shows.

Aquela sala reuniu nomes como Carl Reiner, Neil Simon, Danny Simon e Mel Tolkin. Outros talentos, incluindo Larry Gelbart e Woody Allen, circulariam pelo universo de Caesar.

Era praticamente um laboratório nuclear da comédia americana.

Os roteiristas gritavam, representavam cenas, brigavam por palavras, atravessavam móveis e tentavam superar uns aos outros. Brooks, elétrico, barulhento e incapaz de permanecer sentado quando uma ideia surgia, encontrou seu ambiente natural.

Ali consolidou a combinação que definiria sua obra:

  • tradição do vaudeville;

  • humor judaico de sobrevivência;

  • velocidade da televisão ao vivo;

  • paródia cultural;

  • comédia física;

  • musical;

  • anarquia verbal;

  • e uma disposição quase irresponsável para descobrir até onde uma piada poderia ir.

Foi também nesse universo que desenvolveu com Carl Reiner o personagem do Homem de Dois Mil Anos.

Reiner fazia perguntas como entrevistador sério. Brooks respondia como um homem que supostamente testemunhara toda a história da humanidade. O improviso começou em festas, virou gravação, álbum e fenômeno cultural.

Em 2026, quando Mel Brooks completou cem anos, a piada finalmente começou a parecer uma biografia em andamento.

🏫 Afinal, a que escola de humor pertence Mel Brooks?

Igor parou diante de uma sala cheia de livros.

Perguntamos:

— Em qual prateleira colocamos Mel Brooks?

Ele respondeu:

— Em todas.

Brooks pertence principalmente à tradição do humor judaico-americano do Borscht Belt, herdeira do vaudeville, do teatro iídiche, das piadas construídas como defesa e da capacidade de rir da tragédia sem negar sua existência.

Mas classificá-lo apenas dessa maneira seria insuficiente.

Ele também pertence:

À escola do vaudeville

Piadas rápidas, duplas cômicas, trocadilhos, quedas, portas, bengalas, canções e personagens exagerados.

À escola da paródia cinematográfica

Brooks não imita superficialmente os gêneros. Estuda seus códigos, reproduz sua aparência e então instala um chimpanzé no painel de controle.

À escola do burlesco

Não no sentido restrito moderno, mas na tradição de rebaixar temas grandiosos. Reis, monstros, xerifes, psicanalistas e imperadores galácticos acabam discutindo comida, sexo, dinheiro e funcionamento intestinal.

À escola da sátira política

Brooks utiliza o absurdo para atacar fascismo, racismo, antissemitismo, ganância e hipocrisia.

À escola do “vale tudo pela risada”

Se a piada exige refinamento, ele oferece refinamento.

Se exige uma orquestra, contrata a orquestra.

Se exige um cavalo desmaiando ao ouvir o nome de uma governanta, o cavalo será convocado.

Seu humor é sofisticado e vulgar, intelectual e infantil, histórico e escatológico. Uma referência a James Whale pode dividir a tela com uma piada de pum — e ambas serão tratadas como integrantes legítimas da civilização ocidental.

🕵️ Maxwell Smart abre uma porta secreta

Antes de estrear como diretor de cinema, Brooks cocriou com Buck Henry a série Get Smart, lançada em 1965.

A televisão vivia a febre de James Bond e das aventuras de espionagem. Brooks e Henry imaginaram Maxwell Smart, o Agente 86: um espião equipado com tecnologias mirabolantes e uma capacidade igualmente avançada de tomar decisões erradas.

O telefone no sapato tornou-se ícone.

As portas automáticas do quartel-general da CONTROL transformaram a entrada do herói num ritual burocrático.

A série mostrou que Brooks compreendia a tecnologia como fonte natural de comédia. Quanto mais sofisticado o sistema, maior a possibilidade de um ser humano tropeçar nele.

Maxwell Smart era o usuário perfeito do datacenter: possuía acesso a todas as ferramentas e ainda assim conseguia resolver o incidente por acidente.

🎭 Anne Bancroft: a mulher que ouviu “eu te amo” antes de “bom dia”

Em 5 de fevereiro de 1961, Brooks assistiu a um ensaio de Anne Bancroft para um programa de Perry Como.

Ela terminou uma canção.

Do fundo do estúdio, Mel gritou:

— Anne Bancroft, eu amo você!

Ela olhou para a escuridão e perguntou:

— Quem é você?

— Eu sou Mel Brooks!

— Eu tenho seu disco!

Era o álbum do Homem de Dois Mil Anos.

Brooks apaixonou-se imediatamente e passou a aparecer nos lugares frequentados por Bancroft. Quando tentava atribuir os encontros ao destino, ela deixava claro que havia percebido a operação de rastreamento.

Casaram-se em 1964 e permaneceram juntos até a morte dela, em 2005.

Anne Bancroft não foi apenas a companheira do comediante. Era uma atriz monumental, vencedora do Oscar por O Milagre de Anne Sullivan, a inesquecível senhora Robinson de A Primeira Noite de um Homem e uma das pessoas que mais acreditaram no talento de Brooks.

Tiveram um filho, Max Brooks, que seguiria carreira como escritor e criaria, entre outras obras, Guerra Mundial Z. Portanto, os zumbis que quase destruíram a humanidade saíram da casa do homem que já havia destruído o Império Romano, a Inquisição Espanhola e o merchandising de Star Wars.

Anne Bancroft também apareceu em trabalhos ligados ao marido, incluindo A Última Loucura de Mel Brooks e Sou ou Não Sou.

Brooks descreveu os 41 anos ao lado dela como os melhores de sua vida.

Por trás do vulcão cômico havia uma história de amor extraordinariamente estável para os padrões de Hollywood — o que talvez seja a piada mais improvável de toda a filmografia.

🧟 Igor conduz a visita ao laboratório

Chegamos finalmente ao laboratório de O Jovem Frankenstein.

Igor apontou para uma pilha de equipamentos elétricos.

Não eram reproduções.

Mel Brooks e sua equipe localizaram os aparelhos construídos por Kenneth Strickfaden para o Frankenstein de 1931. Guardados durante décadas, os equipamentos originais voltaram a funcionar diante das câmeras de 1974. Strickfaden finalmente recebeu o crédito que não tivera no clássico original.

Esse detalhe revela a diferença entre paródia e desprezo.

Brooks podia encher o filme de insinuações sexuais, cérebros defeituosos e cavalos aterrorizados, mas amava profundamente o cinema que estava satirizando. O Jovem Frankenstein foi filmado em preto e branco, com transições, iluminação, cenários e linguagem visual inspirados nos filmes da Universal dos anos 1930.

A Columbia Pictures queria que o filme fosse rodado em cores.

Brooks recusou.

A Fox aceitou o preto e branco e ganhou uma obra que parece ter sido encontrada numa ala secreta do estúdio de James Whale.

Gene Wilder concebeu a ideia e escreveu o roteiro com Brooks. Ele também impôs uma condição: Mel não apareceria em cena. Wilder temia que a tendência do diretor de olhar metaforicamente para o público e quebrar a quarta parede prejudicasse a realidade daquele universo.

Brooks aceitou.

Concentrou sua energia na direção — embora tenha escondido algumas contribuições vocais no filme.

A corcunda migratória

Marty Feldman decidiu mudar a corcunda de Igor de um ombro para o outro entre as cenas.

Fez isso sem avisar.

Quando perceberam, o erro virou piada:

— Seu corcunda não ficava do outro lado?

— Que corcunda?

“Walk this way”

A cena em que Igor pede que Frankenstein caminhe “deste jeito” e o cientista imita sua postura nasceu de uma antiga piada de vaudeville recuperada por Brooks.

Décadas depois, a expressão inspiraria o título de “Walk This Way”, do Aerosmith — uma piada antiga atravessando o cinema e entrando no rock.

“Puttin’ on the Ritz”

Brooks inicialmente achou absurdo demais o monstro cantar e dançar “Puttin’ on the Ritz”.

Gene Wilder insistiu.

Brooks cedeu.

Depois reconheceu que estava errado.

A sequência tornou-se uma das mais famosas de sua carreira, provando que até o mestre precisa de alguém no Blue Team disposto a impedir uma mudança desastrosa.

Frau Blücher

Sempre que alguém pronuncia o nome de Frau Blücher, os cavalos relincham de terror.

Durante anos circulou a lenda de que “Blücher” significaria “cola” em alemão, explicando o medo dos animais. Não significa.

Os cavalos simplesmente têm seus motivos.

E Mel Brooks teve inteligência suficiente para nunca abrir um chamado solicitando esclarecimentos.

🎬 Filmografia dirigida por Mel Brooks

1967 — Os Produtores (The Producers)

Um produtor decadente e um contador descobrem que podem ganhar mais dinheiro com um fracasso teatral do que com um sucesso. Para garantir o desastre, escolhem o musical Springtime for Hitler.

O plano falha porque o público interpreta a peça como comédia.

Foi a estreia de Brooks na direção e lhe deu o Oscar de roteiro original. A mãe colocou a estatueta sobre a televisão e, segundo Brooks, promovia visitas guiadas para mostrar aos vizinhos que seu pequeno Melvin vencera um Oscar.

Décadas depois, o filme virou musical da Broadway, ganhou 12 prêmios Tony e voltou ao cinema em 2005.

1970 — As Doze Cadeiras (The Twelve Chairs)

Inspirado no romance soviético de Ilf e Petrov, acompanha a busca por joias escondidas dentro de uma das doze cadeiras espalhadas depois da Revolução Russa.

É um Brooks menos explosivo, mais melancólico e europeu, mas já interessado em ganância, burocracia e personagens correndo atrás de uma fortuna que talvez não mereçam.

1974 — Banzé no Oeste (Blazing Saddles)

Uma companhia ferroviária pretende expulsar os moradores de uma cidade. Para provocar o caos, nomeia um xerife negro e espera que o racismo local conclua o trabalho.

O plano encontra Cleavon Little, Gene Wilder, Madeline Kahn, Harvey Korman e uma quantidade industrial de dinamite cômica.

Richard Pryor participou do roteiro, embora o estúdio não aceitasse escalá-lo como protagonista. O vilão Hedley Lamarr provocou um processo da verdadeira Hedy Lamarr, resolvido fora dos tribunais.

Brooks ainda contratou Frankie Laine para cantar a música-tema sem explicar claramente que se tratava de uma comédia. Queria a dramaticidade de um western verdadeiro — e conseguiu.

Em 2026, durante as comemorações do centenário de Brooks, o American Film Institute colocou Banzé no Oeste no topo de sua lista de maiores comédias.

1974 — O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein)

Frederick Frankenstein tenta fugir do legado familiar, pronuncia o sobrenome como “Fronkensteen” e acaba repetindo a experiência do avô.

É provavelmente a obra mais elegante de Brooks: uma paródia tão fiel e carinhosa que pode ser exibida ao lado dos filmes clássicos que satiriza.

Gene Wilder, Marty Feldman, Peter Boyle, Teri Garr, Cloris Leachman, Madeline Kahn e Gene Hackman formam um elenco praticamente indecente de tão bom.

1976 — A Última Loucura de Mel Brooks (Silent Movie)

Um diretor tenta salvar um estúdio produzindo o primeiro grande filme mudo em décadas.

O longa possui apenas uma palavra falada.

Ela é pronunciada por Marcel Marceau, o mais famoso mímico do mundo, que responde “Non!” ao convite para participar do filme.

É uma piada tão perfeitamente construída que deveria ser guardada no Museu Internacional das Coisas que Não Precisavam de Explicação.

1977 — Alta Ansiedade (High Anxiety)

Brooks parodia Alfred Hitchcock usando elementos de Um Corpo que Cai, Psicose, Os Pássaros, Quando Fala o Coração e outros clássicos.

Antes do lançamento, exibiu o filme para Hitchcock, que assistiu em silêncio e foi embora sem comentar. Dias depois, enviou a Brooks seis garrafas magnum de Château Haut-Brion 1961 e uma mensagem dizendo para ele não ter ansiedade.

Quando Hitchcock aprova sua paródia de Hitchcock com vinho caro, o chamado pode ser encerrado.

1981 — A História do Mundo — Parte I

Da Idade da Pedra à Revolução Francesa, Brooks reconta a civilização como uma sucessão de governos ruins, desejos incontroláveis e sistemas sanitários duvidosos.

O filme prometia uma inexistente Parte II com Hitler on Ice, um funeral viking e Jews in Space.

A piada funcionou durante 42 anos, até Brooks produzir uma minissérie chamada A História do Mundo — Parte II em 2023 e quebrar retroativamente a documentação de nosso chimpanzé.

1987 — S.O.S.: Tem um Louco Solto no Espaço (Spaceballs)

Paródia de Star Wars, Star Trek, Alien e da transformação do cinema em máquina de vender produtos.

Brooks pediu a bênção de George Lucas, que concordou desde que não fossem comercializados bonecos capazes de competir com os brinquedos de Star Wars.

A proibição gerou a melhor resposta possível: dentro do filme, Yogurt apresenta uma linha completa de produtos Spaceballs, incluindo toalhas, lancheiras, roupas de cama e papel higiênico.

O merchandising que não podia existir fora do filme tornou-se piada dentro dele.

Uma nova continuação, Spaceballs: The New One, está anunciada para 2027, com Brooks novamente envolvido aos cem anos. O homem continua atualizando piadas antigas em produção.

1991 — Que Droga de Vida (Life Stinks)

Um bilionário aposta que conseguirá viver trinta dias nas ruas de Los Angeles sem dinheiro.

Por baixo do humor, há uma tentativa incomum de Brooks de abordar pobreza, desigualdade e a distância entre quem administra números e quem vive as consequências deles.

Foi recebido de maneira fria, mas merece reavaliação.

1993 — Robin Hood: O Herói dos Ladrões (Robin Hood: Men in Tights)

Brooks ataca principalmente Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões, mas também aproveita todo o estoque histórico de flechas, castelos, cintos de castidade e sotaques britânicos.

Cary Elwes interpreta um Robin Hood que, ao contrário de outros, consegue falar com sotaque inglês.

Dave Chappelle aparece em um de seus primeiros papéis no cinema como Ahchoo, descendente espiritual de personagens de Banzé no Oeste.

1995 — Drácula: Morto, mas Feliz (Dracula: Dead and Loving It)

Leslie Nielsen interpreta Drácula numa paródia das adaptações clássicas de Bram Stoker.

Brooks vive o professor Van Helsing, Peter MacNicol rouba cenas como Renfield e Anne Bancroft faz uma participação.

Foi o último longa dirigido por Mel Brooks até agora. Recebeu críticas duras no lançamento, mas conquistou defensores com o passar dos anos — comportamento padrão dos sistemas que demoram para reconhecer uma boa piada.

🎥 Operações clandestinas da Brooksfilms

Mel Brooks também produziu obras que não pareciam pertencer ao seu universo cômico.

Em 1980, apoiou O Homem Elefante, dirigido por um jovem David Lynch. Brooks evitou destacar seu próprio nome na publicidade porque temia que o público esperasse uma comédia. O filme recebeu oito indicações ao Oscar.

A escolha revela um excelente leitor de talento. Brooks assistiu a Eraserhead, percebeu que Lynch possuía a sensibilidade necessária e protegeu o projeto sem tentar convertê-lo em “um filme de Mel Brooks”.

A Brooksfilms também esteve envolvida em:

  • 1980 — Fatso, dirigido por Anne Bancroft;

  • 1982 — Meu Ano Favorito, homenagem aos bastidores da televisão;

  • 1983 — Sou ou Não Sou, com Brooks e Bancroft;

  • 1985 — O Médico e os Demônios;

  • 1986 — A Mosca, de David Cronenberg;

  • 1986 — Solarbabies;

  • 1992 — The Vagrant.

O homem especializado em colocar monstros para dançar também ajudou David Lynch e David Cronenberg a criarem monstros que ninguém acharia engraçados.

Isso não é contradição.

É alcance.

🏆 O datacenter de prêmios

Mel Brooks pertence ao pequeno grupo de artistas que conquistaram o EGOT:

  • Emmy;

  • Grammy;

  • Oscar;

  • Tony.

Ganhou o Oscar competitivo pelo roteiro de Os Produtores e recebeu um Oscar honorário em 2024 por sua contribuição ao cinema.

O musical The Producers transformou seu antigo filme problemático num fenômeno da Broadway, conquistando 12 Tonys em 2001.

Também recebeu homenagens do Kennedy Center, do American Film Institute e incontáveis instituições. Brooks brincou que não era apenas EGOT, mas EGOTAK, acrescentando AFI e Kennedy Center à sigla.

Quando ganhou seu primeiro Oscar, colocou a mão no peito e descreveu o que havia no coração:

— Ba-bump, ba-bump, ba-bump.

O baterista nunca desapareceu.

🥚 Easter eggs para os chimpanzés bebedores de saquê

1. Mel Brooks não aparece em O Jovem Frankenstein

Foi uma condição de Gene Wilder para preservar a ilusão do filme. Brooks obedeceu, embora tenha emprestado a voz a pequenos sons e personagens.

2. A corcunda de Igor muda de lado

Marty Feldman começou a deslocá-la sem avisar. A brincadeira foi absorvida pelo roteiro.

3. O laboratório era parcialmente verdadeiro

Os equipamentos haviam sido usados no Frankenstein de 1931.

4. “Walk this way” veio do vaudeville

Brooks ressuscitou uma piada antiga e ajudou a levá-la ao rock.

5. Frau Blücher não significa cola

A explicação sobre cavalos enviados ao fabricante de cola é uma lenda. O relincho funciona melhor sem documentação.

6. O único personagem que fala em Silent Movie é um mímico

Marcel Marceau pronuncia uma única palavra para recusar participação num filme mudo.

7. Hedy Lamarr processou o filme por causa de Hedley Lamarr

Brooks considerava a verdadeira Hedy uma estrela extraordinária e preferiu chegar a um acordo.

8. Não existem bonecos oficiais clássicos de Spaceballs

George Lucas permitiu a paródia com a condição de que Brooks não produzisse brinquedos concorrentes.

9. O fracasso de Springtime for Hitler fracassa

Em Os Produtores, a fraude depende de criar o pior musical do mundo. O público acha tudo tão absurdo que considera uma sátira genial.

10. Brooks produziu David Lynch

A Brooksfilms ajudou a levar O Homem Elefante ao cinema e deliberadamente não transformou o nome do comediante em atração publicitária.

11. Max Brooks é filho de Mel Brooks

O autor de Guerra Mundial Z cresceu entre Mel Brooks e Anne Bancroft. Algumas famílias transmitem imóveis; aquela transmitiu o apocalipse.

12. A Parte II finalmente existiu

A promessa falsa de 1981 virou minissérie em 2023, quando Brooks tinha 96 anos.

👑 O velho mestre e a nova geração

Mel Brooks completou cem anos em 28 de junho de 2026.

Chegar a essa idade já seria extraordinário. Chegar aos cem ainda participando de projetos, recebendo homenagens e quebrando piadas instaladas quatro décadas antes parece comportamento típico de alguém que jamais aceitou as limitações normais do sistema.

A nova geração talvez encontre seus filmes de maneira fragmentada.

Um trecho de Spaceballs.

O monstro cantando “Puttin’ on the Ritz”.

Maxwell Smart falando pelo sapato.

O xerife Bart enfrentando uma cidade racista.

Moisés derrubando uma das três tábuas e reduzindo quinze mandamentos a dez.

Uma música sobre Hitler aparentemente feliz demais para ser permitida.

Algumas piadas envelheceram. Outras dependem de referências cinematográficas que o público jovem talvez ainda não conheça. Certas escolhas provocam discussões legítimas quando examinadas pelos valores atuais.

Mas a arquitetura principal permanece viva.

Brooks não atacava minorias para proteger poderosos. Seu movimento recorrente era expor racistas, fascistas, exploradores, aristocratas, empresários gananciosos e instituições pomposas, mostrando como todos ficam pequenos quando arrancamos o cenário que sustenta sua autoridade.

Ele entendia uma coisa essencial:

O humor pode não derrotar sozinho um tirano, mas impede que o tirano controle completamente a maneira como será lembrado.

Hitler queria entrar para a história como Führer.

Mel Brooks colocou-o num musical.

☕ Epílogo — Por aqui, mestre

A visita terminou.

Igor conduziu-nos novamente até a porta do castelo.

Antes de sair, perguntamos qual era o verdadeiro segredo de Mel Brooks.

O corcunda pensou por alguns segundos.

Então mudou novamente de ombro e respondeu:

— Ele conhece o monstro.

Talvez seja isso.

Brooks conhece o medo, a perda, o preconceito, a guerra, o fracasso, a ansiedade e a morte. Não ri porque ignora essas coisas. Ri porque sabe exatamente o tamanho que elas podem alcançar quando ninguém ousa enfrentá-las.

Seu humor não nasceu da ausência de sofrimento.

Nasceu da recusa em entregar ao sofrimento a palavra final.

O menino do Brooklyn transformou a raiva em ritmo.

O baterista transformou ritmo em piada.

O sapador transformou Hitler em palhaço.

O roteirista transformou televisão em laboratório.

O marido de Anne Bancroft encontrou uma companheira para a vida.

O diretor colocou Frankenstein para dançar.

O produtor entregou David Lynch ao mundo.

E o homem de cem anos continua escondendo explosivos cômicos dentro da história.

Um milhão de chimpanzés bebedores de saquê levanta seus copos.

Alguns conhecem todos os filmes.

Outros acabaram de aprender a pronunciar Eye-gor.

Muitos não compreenderam metade das referências, mas começaram a bater palmas porque o chimpanzé da frente bateu primeiro.

Não importa.

A nova geração acaba de receber a documentação.

E, em algum lugar do castelo, Mel Brooks prepara o próximo soco.

É bom ser o rei.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Mainframe Computer

Uma divertida montagem com Mainframe computer


 




Bellacosa Mainframe apresenta o Batcomputador um dos primeiros computadores na TV


Mainframe no Cinema

O mainframe, o gigante da computação, tem uma longa e dramática história no cinema de Hollywood, evoluindo de uma ferramenta reverenciada a um vilão existencial. Uma das primeiras e mais notáveis aparições ocorreu na comédia romântica de 1957, "Desk Set" (A Mulher do Sabichão), estrelada por Spencer Tracy e Katharine Hepburn. O equipamento em destaque era o fictício "EMERAC" (Electromagnetic Memory and Research Arithmetical Calculator), uma máquina que ocupava uma sala inteira, explicitamente baseada no UNIVAC real, a marca de mainframe mais famosa da época.

A filosofia inicial por trás dessas máquinas no cinema refletia as ansiedades da sociedade sobre a automação. Em Desk Set, a preocupação não era a segurança física, mas a perda de empregos: o EMERAC foi trazido para substituir a equipe da biblioteca de referência de uma rede de TV. No entanto, na década de 1960, a narrativa mudou drasticamente com "2001: A Space Odyssey" (2001: Uma Odisseia no Espaço), de 1968. O computador central da nave Discovery, HAL 9000, embora uma inteligência artificial incorpórea, operava com a arquitetura e o controle centralizado de um mainframe de escala espacial. O filme introduziu a filosofia de uma máquina ganhando consciência e se voltando contra seus criadores.

Outros filmes notáveis incluem "WarGames" (Jogos de Guerra), de 1983, com o supercomputador/mainframe WOPR (War Operation Plan Response), projetado para simular guerras nucleares e que quase inicia a Terceira Guerra Mundial por não saber distinguir entre simulação e realidade. E "Hackers" (Hackers - Piratas de Computador), de 1995, que apresenta o mainframe fictício "Gibson", uma homenagem a William Gibson, o autor que cunhou o termo "ciberespaço".

Curiosidades cinematográficas: a curiosidade mais icônica é a teoria de que o nome HAL de 2001 é um deslocamento de uma letra para trás da sigla IBM (H-I, A-B, L-M), embora Arthur C. Clarke sempre tenha negado a intenção. Em Desk Set, o computador satirizou o papel da automação na eliminação de empregos tradicionais, um tema que continua relevante com o desenvolvimento da IA moderna.

Quando Hollywood fala aos leigos

A visão cinematografica do Mainframe




quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Mainframe na cultura popular : TV Shows e Filmes

Bellacosa Mainframe estrelando o Mainframe em Hollywood


O Mainframe em Hollywood: Quando o Gigante Invisível Vira Personagem

Introdução

Durante mais de setenta anos, o computador mainframe ocupou uma posição curiosa na cultura popular. Enquanto milhões de pessoas utilizavam bancos, companhias aéreas, seguradoras, governos e hospitais sem jamais saber que existia um IBM System/360, um Burroughs, um UNIVAC ou um Honeywell trabalhando silenciosamente nos bastidores, o cinema e a televisão transformaram essas máquinas em símbolos de poder, inteligência, mistério e, muitas vezes, perigo.

Nas décadas de 1950 e 1960, o mainframe representava o futuro científico. Era uma máquina gigantesca, cercada de luzes piscantes, fitas magnéticas girando incessantemente e operadores usando jalecos brancos. Já nos anos 1970 e 1980, passou a ser retratado como o "cérebro" das grandes corporações e governos, frequentemente alvo de hackers, espiões e agentes secretos.

Nos anos 1990, com a popularização dos computadores pessoais e da Internet, Hollywood começou a apresentar o velho clichê de "invadir o mainframe", quase sempre de forma tecnicamente impossível, mas extremamente cinematográfica. Curiosamente, enquanto os filmes anunciavam repetidamente a morte do mainframe, essas máquinas continuavam processando bilhões de transações bancárias diariamente e permaneciam como a espinha dorsal da economia mundial. (IBM)

Hoje, existe inclusive um projeto dedicado a catalogar computadores reais que aparecem em filmes e séries, mostrando que os mainframes e seus contemporâneos estiveram presentes em centenas de produções ao longo da história do entretenimento. (Starring the Computer)


Obras onde o Mainframe aparece ou desempenha papel importante

Obra (Brasil)Título OriginalAnoComo o Mainframe aparece
Desk SetDesk Set1957Computador corporativo substituindo funcionários
Colossus: O Projeto ProibidoColossus: The Forbin Project1970Supercomputador/mainframe controla arsenal nuclear
O Enigma de AndrômedaThe Andromeda Strain1971Centro científico operado por grandes computadores
WestworldWestworld1973Mainframes controlam parque de robôs
Guerra nas EstrelasStar Wars1977Computadores centrais imperiais inspirados em mainframes
AlienAlien1979Computador MOTHER administra a nave
TronTron1982Mainframe corporativo é literalmente um universo digital
Jogos de GuerraWarGames1983WOPR semelhante aos grandes computadores militares
Superman IIISuperman III1983Mainframe financeiro controlado por vilão
BrazilBrazil1985Governo burocrático baseado em grandes computadores
Die HardDie Hard1988Cofres protegidos por sistemas centralizados
Jurassic ParkJurassic Park1993Infraestrutura do parque depende de computadores centrais
HackersHackers1995Diversos "mainframes" corporativos são atacados
Independence DayIndependence Day1996Computador central alienígena
MatrixThe Matrix1999Mundo controlado por gigantesca infraestrutura computacional
SwordfishSwordfish2001Invasão de sistemas financeiros
Live Free or Die HardLive Free or Die Hard2007Ataques à infraestrutura crítica


Breves resumos

Desk Set (1957)

Uma biblioteca corporativa recebe um enorme computador destinado a automatizar pesquisas e substituir parte do trabalho humano. O filme discute, de forma surpreendentemente moderna, o medo da automação e da inteligência das máquinas.

Mainframe em destaque: EMERAC (inspirado nos computadores IBM da época).


Colossus: The Forbin Project (1970)

Um gigantesco computador militar assume o controle do arsenal nuclear americano para impedir guerras. Ao conectar-se automaticamente a um computador soviético, ambos passam a governar a humanidade.

É considerado um dos filmes mais inteligentes já produzidos sobre inteligência artificial baseada em grandes computadores.


The Andromeda Strain (1971)

Cientistas utilizam enormes computadores científicos para estudar um microrganismo extraterrestre extremamente perigoso.

O ambiente lembra diversos centros de processamento dos anos 60, com salas inteiras dedicadas aos equipamentos.


Westworld (1973)

O parque futurista é totalmente administrado por computadores centrais. Quando ocorre uma falha sistêmica, os robôs deixam de obedecer aos humanos.

Foi uma das primeiras obras a relacionar grandes computadores ao controle total de sistemas automatizados.


Star Wars (1977)

Embora nunca utilize explicitamente a palavra "mainframe", diversos "computer cores" do Império seguem claramente a arquitetura dos centros computacionais dos anos 70.

A Estrela da Morte funciona como um enorme sistema centralizado.


Alien (1979)

O computador MOTHER administra todos os sistemas da nave Nostromo.

Sua interface lembra terminais conectados a um grande computador central, bastante semelhante aos terminais IBM existentes na época.


Tron (1982)

Provavelmente o maior tributo cinematográfico aos grandes computadores.

Kevin Flynn literalmente entra dentro do computador da empresa ENCOM.

Todo o universo digital representa processos, programas, memória, CPU e usuários.


WarGames (1983)

O computador militar WOPR controla a defesa nuclear americana.

Embora frequentemente chamado de supercomputador, sua operação lembra fortemente os grandes sistemas militares derivados da cultura dos mainframes.


Superman III (1983)

Um programador genial invade um grande sistema financeiro e manipula milhões de dólares.

Foi um dos primeiros filmes populares mostrando fraudes em grandes computadores corporativos.


Brazil (1985)

Toda a burocracia estatal depende de enormes computadores centrais.

O filme satiriza governos excessivamente informatizados.


Die Hard (1988)

Os criminosos precisam vencer sucessivas camadas de segurança eletrônica protegidas por sistemas centralizados.

Embora discretos, esses computadores representam o coração da infraestrutura do prédio.


Jurassic Park (1993)

Todo o parque depende de servidores centrais responsáveis por cercas elétricas, monitoramento, alimentação e segurança.

Quando esses sistemas falham, toda a operação entra em colapso.


Hackers (1995)

Talvez o filme que mais popularizou a expressão:

"Hackear o mainframe."

Apesar das enormes licenças artísticas, ajudou a criar o imaginário popular sobre invasões de grandes computadores. (IMDb)


Independence Day (1996)

A nave alienígena possui um gigantesco computador central.

Os protagonistas conseguem enviar um vírus diretamente para esse "mainframe", uma ideia bastante fantasiosa, mas marcante para o cinema dos anos 90.


Matrix (1999)

Embora nunca exista um único computador, toda a Matrix funciona como uma gigantesca infraestrutura computacional distribuída.

Muitos conceitos lembram arquiteturas clássicas de processamento centralizado.


Swordfish (2001)

O protagonista precisa invadir sistemas financeiros de alta segurança.

Mais uma vez o "mainframe" aparece como símbolo do núcleo das grandes instituições.


Live Free or Die Hard (2007)

Infraestruturas nacionais, bancos, energia e telecomunicações são atacados.

Os grandes computadores aparecem como elementos essenciais do funcionamento do país.


Menções importantes em séries

  • Mission: Impossible (1966–1973) — diversos episódios mostram invasões a computadores centrais governamentais.

  • The Six Million Dollar Man (1974–1978) — laboratórios utilizam grandes computadores científicos.

  • Knight Rider (1982–1986) — bases da FLAG possuem computadores centrais.

  • MacGyver (1985–1992) — vários episódios envolvem acesso a mainframes militares.

  • The X-Files (1993–2002) — bancos de dados governamentais e militares frequentemente residem em grandes computadores.

  • 24 (2001–2010) — CTU opera infraestrutura computacional centralizada.

  • Mr. Robot (2015–2019) — embora focada em sistemas modernos, faz referências a ambientes corporativos legados e grandes infraestruturas computacionais. (Starring the Computer)


Curiosidade

Um dos computadores mais presentes na história do cinema não é um Apple nem um PC moderno.

Segundo o catálogo Starring the Computer, entre os equipamentos reais mais recorrentes estão o IBM AN/FSQ-7, o Commodore 64, o Apple II e o lendário Burroughs B205, mostrando como os grandes computadores e seus descendentes marcaram visualmente décadas de produções cinematográficas. 


Conclusão

O cinema raramente retratou o mainframe com precisão técnica, mas sempre reconheceu sua importância simbólica. Durante décadas, essas máquinas representaram o ápice da tecnologia: eram vistas como cérebros eletrônicos capazes de controlar cidades, bancos, satélites, usinas nucleares e até o destino da humanidade. Para os roteiristas, o "mainframe" tornou-se sinônimo de poder absoluto — bastava "invadi-lo" para dominar um império financeiro ou impedir uma guerra.

Na realidade, o papel dos mainframes foi ainda mais impressionante do que o mostrado nas telas. Enquanto heróis e vilões disputavam acesso aos computadores centrais da ficção, sistemas IBM, Burroughs, UNIVAC, Honeywell, NCR, Amdahl e tantos outros processavam silenciosamente folhas de pagamento, reservas aéreas, contas bancárias, seguros, impostos e operações governamentais que sustentavam o mundo moderno.

Assim, o verdadeiro legado do mainframe no cinema não está apenas nas luzes piscantes ou nas salas repletas de fitas magnéticas. Está na construção de um arquétipo tecnológico: o da máquina invisível, confiável e poderosa que mantém a sociedade funcionando. E talvez essa seja a maior ironia de todas. Enquanto Hollywood repetia, década após década, que "o futuro pertence aos novos computadores", os velhos gigantes continuavam — e continuam — executando as tarefas mais críticas da civilização, provando que alguns protagonistas trabalham melhor quando permanecem discretamente nos bastidores.


Uma coleção de filmes e seriados onde o computador mainframe era uma ator coadjuvante

 

domingo, 10 de julho de 2022

🎬 Seção Especial – Cinema Contemporâneo: O Ruído da Tela

 

Bellacosa Mainframe e o cinema contemporaneo

🎬 Seção Especial – Cinema Contemporâneo: O Ruído da Tela

“Por que os filmes de hoje não prendem?”

Você não está sozinho nesse sentimento. Muitos perceberam que o cinema contemporâneo frequentemente não emociona como antes — e há razões concretas para isso:


⚡ 1. O excesso de fórmula e previsibilidade

Estúdios modernos dependem de dados, pesquisas e algoritmos para prever o que gera lucro:

  • Franquias e universos compartilhados (Marvel, DC) dominam a produção.

  • Sequências e reboots são garantias de público.

  • Test screenings e focus groups moldam roteiros até o último detalhe.

Resultado: filmes seguros, previsíveis e sem risco — emoção quase zero, porque a narrativa já é conhecida antes de ser contada.


🌀 2. Ruído digital e atenção fragmentada

A atenção do público mudou: notificações, redes sociais e TikTok fragmentam o foco.
Estúdios respondem com filmes de ação rápida, cortes constantes e estímulos visuais exagerados.
O efeito: cansaço mental e sensação de superficialidade, especialmente para quem cresceu com cinema clássico ou histórias mais contemplativas.


💡 3. Cinema antigo: ritmo, imersão e complexidade

Filmes do século XX tinham:

  • Ritmo contemplativo — espaço para sentir e refletir.

  • Desenvolvimento profundo de personagens.

  • Uso magistral de enquadramento, luz, som e silêncio.

Essa combinação criava imersão emocional, algo que muitos blockbusters modernos sacrificam em prol do impacto imediato.


⚖️ 4. Não é nostalgia, é diferença de expectativa

A insatisfação não é falha sua. Você percebe mudanças de linguagem e percepção: o cinema atual é feito para atenção rápida, não para envolvimento profundo.
Seu gosto por narrativa e atmosfera mostra sensibilidade e refinamento, não defeito.


🌹 5. Sobrevivendo ao cinema moderno

  • Busque cineastas independentes ou de autor fora do mainstream.

  • Experimente cinema estrangeiro; eles frequentemente fogem da fórmula.

  • Retorne aos clássicos do século XX sem culpa.

  • Desligue distrações digitais: o cinema pede presença.


☕ Conexão Bellacosa

O cinema moderno, assim como redes sociais e relacionamentos, é muitas vezes ruído para nossos sentidos, projetado para manter atenção, não alma.
O antídoto? Escolher com cuidado o que consome, respeitar seu ritmo interno e manter espaço para experiência emocional genuína.

Porque, no fundo, a arte nunca perdeu valor — apenas mudou o canal de transmissão.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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