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sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

☕💣 TESTOU 100% DOS CASOS... E MESMO ASSIM QUEBROU EM PRODUÇÃO? O MAIOR MITO DOS TESTES EM MAINFRAME QUE AINDA ENGANA MUITA GENTE

 

Bellacosa Mainframe e a cobertura de testes em mainframe

☕💣 TESTOU 100% DOS CASOS... E MESMO ASSIM QUEBROU EM PRODUÇÃO? O MAIOR MITO DOS TESTES EM MAINFRAME QUE AINDA ENGANA MUITA GENTE

Se existe uma frase que todo profissional de Mainframe já ouviu alguma vez, ela é:

"O programa foi totalmente testado."

Curiosamente, essa mesma frase costuma aparecer poucas horas antes de um incidente em produção.

E aqui está uma verdade que muitos profissionais descobrem apenas depois de alguns anos de guerra:

Não existe programa totalmente testado.

O que existe é um programa com um nível de cobertura suficientemente alto para reduzir o risco a um patamar aceitável.

A pergunta correta nunca deveria ser:

"O programa foi testado?"

Mas sim:

"Qual foi a cobertura real do teste?"

E mais importante ainda:

"O que ficou sem ser testado?"

Hoje vamos conversar sobre um dos assuntos mais importantes para analistas, desenvolvedores COBOL, testadores, líderes técnicos e gestores de aplicações Mainframe:

Como medir cobertura de testes, construir um plano realmente abrangente e aumentar drasticamente a qualidade das entregas.

Pegue seu café.

Porque cobertura de teste não é quantidade de cenários.

É ciência.


O grande erro: confundir quantidade com cobertura

Muitos profissionais acreditam que executar muitos casos de teste significa possuir alta cobertura.

Não significa.

Imagine um programa COBOL com:

  • 20 IFs

  • 5 EVALUATEs

  • 3 loops

  • 15 regras de negócio

Você executa 500 casos.

Mas todos seguem o mesmo caminho lógico.

Resultado:

  • 500 execuções

  • cobertura baixíssima

Você apenas percorreu a mesma estrada centenas de vezes.

É como testar um elevador indo somente para o segundo andar.

Você pode apertar o botão mil vezes.

Ainda não sabe o que acontece no décimo quinto andar.


O que é cobertura de teste?

Cobertura é uma métrica que mede quanto do comportamento do software foi exercitado durante os testes.

Ela responde perguntas como:

  • Quantas instruções foram executadas?

  • Quantos IFs foram percorridos?

  • Quantas decisões foram avaliadas?

  • Quantos caminhos lógicos foram explorados?

  • Quantas regras de negócio foram validadas?

Quanto maior a cobertura, maior a confiança.

Mas atenção:

100% de cobertura não significa ausência de defeitos.

Significa apenas que tudo foi visitado.

Não necessariamente validado corretamente.


As camadas de cobertura

Um plano robusto costuma analisar múltiplas camadas.


1. Cobertura de instruções (Statement Coverage)

A mais básica.

Pergunta:

Cada linha executável foi executada ao menos uma vez?

Exemplo:

IF SALDO > 0
   MOVE 'A' TO STATUS
ELSE
   MOVE 'B' TO STATUS
END-IF

Se apenas SALDO > 0 foi testado:

MOVE 'A'

executou.

Mas:

MOVE 'B'

não.

Cobertura parcial.

Para atingir 100%, ambos os caminhos precisam ser executados.


2. Cobertura de decisões (Branch Coverage)

Mais importante.

Pergunta:

Cada decisão assumiu todos os resultados possíveis?

Exemplo:

IF CLIENTE-ATIVO

Devemos testar:

  • TRUE

  • FALSE

Muitos projetos param na cobertura de instruções.

Os melhores projetos vão além e medem cobertura de decisões.


3. Cobertura de condições

Exemplo:

IF IDADE > 18
AND RENDA > 5000

Precisamos validar:

IDADERENDA
TT
TF
FT
FF

Caso contrário, parte da lógica pode nunca ter sido exercitada.


4. Cobertura de caminhos (Path Coverage)

Aqui a brincadeira fica séria.

Imagine:

IF A
   IF B
      ...
   END-IF
END-IF

Agora existem vários caminhos:

  • A=T B=T

  • A=T B=F

  • A=F

Quanto mais IFs surgem, mais caminhos aparecem.

O crescimento é explosivo.

Por isso ninguém tenta cobrir absolutamente todos os caminhos em sistemas grandes.

O objetivo é cobrir os caminhos críticos.


O conceito mais importante do Mainframe

Cobertura de negócio

Esta é a cobertura que realmente paga as contas.

Perguntas:

  • Emissão de apólice funcionou?

  • Pagamento foi processado?

  • Cálculo de juros foi validado?

  • Baixa financeira foi testada?

  • Cancelamento foi exercitado?

O usuário não se importa se:

PERFORM 1000-PROCESSA

executou.

Ele se importa se o dinheiro caiu na conta correta.

Por isso:

Cobertura técnica sem cobertura funcional é uma ilusão perigosa.


Como construir um plano de teste abrangente

A técnica que uso para ensinar equipes é simples.

Divida os cenários em grupos.


Grupo 1 – Casos normais

Fluxo feliz.

O famoso Happy Path.

Exemplo:

Cliente válido.

Conta válida.

Saldo suficiente.

Arquivo disponível.

Tudo funcionando.

Esses testes validam o comportamento esperado.


Grupo 2 – Casos de fronteira

Aqui vivem os defeitos.

Exemplo:

Campo aceita:

0 a 999999

Testar:

0
1
999998
999999

Mas também:

-1
1000000

A maioria dos bugs aparece nos limites.


Grupo 3 – Casos inválidos

Todo sistema recebe lixo.

Você precisa descobrir como ele reage.

Exemplos:

CPF inválido.

Data inválida.

Arquivo vazio.

Campo nulo.

Código inexistente.

Registro duplicado.

Produção faz isso diariamente.

Seu teste também deve fazer.


Grupo 4 – Casos excepcionais

Os mais esquecidos.

Exemplo:

VSAM indisponível.

DB2 retornando erro.

Dataset cheio.

Timeout de CICS.

Lock de registro.

Fila MQ parada.

É justamente aqui que nascem os incidentes mais caros.


O método Bellacosa para testar COBOL

Quando olho um programa, sigo sempre esta sequência.


Entrada

O que entra?

Analise:

LINKAGE
COMMAREA
ARQUIVOS
DB2
MQ
VSAM

Liste tudo.


Processamento

O que acontece?

Mapeie:

  • IF

  • EVALUATE

  • PERFORM

  • GO TO

  • loops

Tudo que altera comportamento.


Saída

O que sai?

Arquivos.

Relatórios.

Tabelas.

Mensagens.

Retornos.

Abends.

Tudo deve ser validado.


A matriz de cobertura

Uma técnica extremamente poderosa.

Monte uma tabela.

RegraTestada
Regra 1Sim
Regra 2Sim
Regra 3Não
Regra 4Sim

Agora faça o mesmo para:

  • programas

  • módulos

  • telas

  • transações

  • jobs

A matriz revela instantaneamente os buracos.


Cobertura para Batch

Em batch devemos validar:

Arquivo vazio

0 registros

Arquivo pequeno

10 registros

Arquivo médio

100.000 registros

Arquivo grande

10 milhões de registros

Registro inválido

Registro duplicado

Chave fora de sequência

Dataset inexistente

Espaço insuficiente

Return codes

Tudo isso precisa aparecer no plano.


Cobertura para CICS

Valide:

  • Entrada válida

  • Entrada inválida

  • PF Keys

  • Timeout

  • Commarea vazia

  • Commarea truncada

  • Falha de comunicação

  • Reentrada da transação

Muitos defeitos aparecem apenas em ambiente online.


Cobertura para DB2

Nunca teste apenas o SQLCODE 0.

Teste:

0
+100
-803
-811
-904
-911
-913

Grande parte dos problemas de produção surge justamente nos códigos de erro.


Cobertura para VSAM

Valide:

READ OK
NOT FOUND
DUPLICATE KEY
END OF FILE
OPEN ERROR

Muitos testes ignoram completamente os File Status.

Erro clássico.


Testes de performance também fazem parte da cobertura

Um programa pode estar funcionalmente correto.

Mas:

  • consumir CPU demais

  • gerar EXCP excessivo

  • aumentar elapsed time

E então falhar operacionalmente.

Portanto inclua:

  • volume realista

  • pico de carga

  • concorrência

  • consumo de recursos


Como medir cobertura no Mainframe

Hoje existem ferramentas especializadas.

Entre elas:

  • IBM Debug Tool

  • IBM Application Delivery Foundation

  • IBM Fault Analyzer

  • IBM Application Performance Analyzer

  • Compuware Topaz

  • Compuware Xpediter

  • Micro Focus Enterprise Analyzer

  • SonarQube para COBOL

Essas soluções conseguem mostrar:

  • linhas executadas

  • branches percorridos

  • percentuais de cobertura

  • áreas não testadas

Transformando percepção em números.

E números vencem opiniões.


A armadilha do 100%

Imagine:

IF VALOR > 1000

Você executa:

1001

e

999

Cobertura:

100%.

Mas você não testou:

1000

Exatamente o limite.

Portanto:

100% de cobertura não significa qualidade máxima.

Significa apenas que todos os pontos foram visitados.


O indicador que realmente importa

Depois de décadas observando projetos, cheguei a uma conclusão.

A melhor pergunta não é:

"Qual a cobertura?"

Mas:

"Qual o risco residual?"

Se uma rotina financeira movimenta bilhões:

  • 95% pode ser insuficiente.

Se uma rotina gera relatório interno:

  • 80% pode ser aceitável.

Cobertura deve ser analisada junto com criticidade.


A filosofia dos grandes times

Equipes maduras fazem quatro perguntas:

O que testamos?

O que não testamos?

Por que não testamos?

Qual o risco disso?

Quando essas respostas existem, o plano de teste deixa de ser um documento burocrático.

Ele vira uma ferramenta de gestão de risco.


Conclusão

O profissional júnior acredita que testar é executar casos.

O profissional experiente entende que testar é procurar defeitos.

E o veterano de Mainframe sabe algo ainda mais importante:

Cobertura não é uma porcentagem. É a medida da sua confiança antes de colocar um programa em produção.

Porque no mundo real ninguém é acordado às 3 da manhã por causa dos cenários que foram testados.

Somos acordados pelos cenários que esquecemos de testar.

E quase sempre eles estavam escondidos exatamente naquele IF, naquele SQLCODE, naquele File Status ou naquele registro de fronteira que alguém julgou improvável.

No Mainframe, assim como na aviação, o problema raramente está no voo que você simulou.

O problema está naquele que você acreditou que jamais aconteceria. ☕💣🚀