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sábado, 13 de julho de 2013

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

 

Bellacosa Mainframe e as memorias cerejianas

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

Existem frutas que gostamos.

Existem frutas que apreciamos.

E existem aquelas raras frutas que conquistam um lugar permanente no coração.

Para mim, essa fruta é a cereja.

Curiosamente, durante boa parte da infância eu acreditava conhecer cerejas.

Afinal, elas apareciam em bolos.

Enfeitavam tortas.

Descansavam sobre taças de sorvete.

E reinavam absolutas nas confeitarias dos anos 1980.

Mas havia um detalhe.

Aquilo não eram cerejas de verdade.

Ou melhor, eram cerejas que haviam sido transformadas em outra coisa.

Mergulhadas em caldas açucaradas.

Processadas.

Conservadas.

Doces demais.

Tão doces que pareciam uma caricatura da fruta original.

Foi apenas no final dos anos 1990 que experimentei uma cereja fresca pela primeira vez.

E foi amor à primeira mordida.

Lembro da surpresa.

Da textura firme.

Da polpa carnuda.

Daquele equilíbrio quase perfeito entre acidez e doçura.

Do caroço escondido no interior.

Dos cabinhos verdes que pareciam ter saído diretamente de uma ilustração de livro infantil.

Aquilo não se parecia com nada que eu havia provado antes.

Era uma experiência completamente diferente.

Uma fruta elegante.

Sofisticada.

Mas ao mesmo tempo simples.

Natural.

Perfeita.

Meu coração foi conquistado imediatamente.

Anos depois, quando a vida me levou para Portugal, descobri algo ainda mais maravilhoso.

A cereja não era apenas uma fruta apreciada.

Era praticamente uma instituição nacional do verão.

Foi lá que minha relação com ela atingiu outro nível.

Os mercados.

As feiras.

As quitandas.

As estradas do interior.

Tudo parecia repleto de cerejas.

Cerejas pequenas.

Grandes.

Mais doces.

Mais ácidas.

Mais escuras.

Mais claras.

Cada região possuía suas variedades.

Cada produtor defendia as suas como as melhores do mundo.

E eu, feliz da vida, fazia questão de experimentar todas.

Portugal me ensinou que a cereja não era uma única fruta.

Era um universo inteiro.

Vieram então os verões portugueses.

Os passeios.

As viagens.

Os almoços demorados.

As tardes quentes.

E aquele hábito delicioso de comprar um saco de cerejas e passar horas beliscando uma após a outra.

Uma felicidade simples.

Mas profundamente marcante.

A Espanha ampliou essa paixão.

A Itália reforçou a devoção.

E cada nova viagem parecia acrescentar mais um capítulo à minha história com essa pequena joia vermelha.

Mas seria impossível falar de cerejas sem lembrar da sua versão líquida.

A lendária ginjinha.

Aguardente.

Licor.

Patrimônio cultural.

Experiência obrigatória para qualquer visitante de Lisboa.

Quem já caminhou pelas ruas da Baixa sabe do que estou falando.

A pequena taça.

O aroma característico.

O sabor intenso.

A tradição centenária.

E, claro, as ginjinhas servidas com o fruto dentro do copinho.

Uma pequena obra-prima da gastronomia portuguesa.

E se existe um lugar onde a ginjinha parece ganhar uma dimensão quase mágica, esse lugar é Óbidos.

A antiga cidade medieval cercada por muralhas.

Ruas de pedra.

Casas brancas.

Flores nas janelas.

E visitantes do mundo inteiro caminhando por um cenário que parece congelado no tempo.

Ali, beber uma ginjinha é quase um ritual.

Uma celebração da história.

Da cultura.

E dos sabores que atravessam gerações.

Hoje percebo que minha paixão pela cereja vai muito além da fruta.

Ela se tornou uma cápsula de memória.

Uma ponte entre continentes.

Entre épocas.

Entre pessoas.

Cada cereja que provo me lembra uma viagem.

Uma conversa.

Um verão.

Uma descoberta.

Talvez seja por isso que ela continua sendo minha fruta favorita.

Porque alguns sabores alimentam o corpo.

Mas outros alimentam a alma.

E poucas frutas conseguiram fazer isso comigo tão bem quanto a humilde e extraordinária cereja.