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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


sábado, 15 de outubro de 2016

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Bellacosa Mainframe e o primeiro bailinho escolar

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Existem lembranças que sobrevivem ao tempo não pela grandiosidade dos acontecimentos, mas pela delicadeza dos detalhes, sei que já falei antes, mas mesmo assim é uma memoria tão doce, que resolvi reviver, relembrar, colorir um pouco mais.

Uma delas aconteceu em 1986, na saudosa Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, em Taubaté.

Era costume nos anos 1980 que, durante a Semana do Professor e também próximo ao encerramento do ano letivo, as salas organizassem pequenas festas. Os rapazes ajudavam comprando refrigerantes, salgadinhos e doces. As garotas traziam quitutes preparados em casa. A sala era decorada com cartolinas, desenhos e enfeites improvisados. Os professores visitavam cada turma, experimentavam as guloseimas e participavam da confraternização.

Era simples.

Mas para nós parecia um grande evento social.

O ponto alto da festa acontecia quando alguém trazia um rádio ou um toca-fitas. Bastava fechar as cortinas, apagar as luzes e colocar uma música lenta para a mágica começar.

E então surgia a lendária tradição do Baile da Vassoura.

As regras eram implacáveis.

Um rapaz começava dançando com uma vassoura. Quando desejasse, podia oferecer a vassoura para qualquer garoto que estivesse dançando.

E aí vinha a lei máxima da brincadeira:

Não podia recusar.

O escolhido era obrigado a assumir a vassoura.

A segunda regra era igualmente cruel.

Não era permitido voltar para a mesma garota.

Era preciso convidar outra parceira.

Resultado?

Uma confusão divertida de trocas, risadas, provocações e, vez ou outra, algum beijo roubado que se tornava assunto durante semanas.

Mas entre tantas festas, uma ficou gravada para sempre na memória.

Havia uma colega chamada Gisele.

Uma amiga querida.

Daquelas pessoas que iluminavam os ambientes sem perceber.

Em determinado momento da festa, ela veio me chamar para dançar.

Eu, tímido até dizer chega, aproximei-me e confessei quase em segredo:

— Eu não sei dançar.

Qualquer outra pessoa talvez desistisse.

Mas não a Gisele.

Com aquele brilho maroto nos olhos que só algumas garotas possuem, ela simplesmente sorriu e respondeu:

— Não tem problema. Eu ensino.

E me levou mesmo assim para o meio da pista improvisada da sala do Sexto Ano A.

A música tocava baixinho.

As luzes permaneciam apagadas.

E ali ficamos.

Coladinhos.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Nada extraordinário aconteceu.

Não houve beijo cinematográfico.

Não houve declaração de amor.

Não houve final de novela.

Mas houve algo muito mais raro.

A descoberta da ternura.

Aquela sensação boa de alguém pegar sua mão quando você não sabe exatamente o que fazer.

Décadas se passaram.

Muitas pessoas cruzaram meu caminho.

Muitas cidades ficaram para trás.

Muitas histórias foram vividas.

Mas vez ou outra fecho os olhos e volto para aquela sala.

Ouço novamente a música.

Vejo as cortinas fechadas.

Escuto as risadas dos colegas.

E enxergo a doce Gisele me conduzindo pela pista improvisada.

Talvez seja por isso que Taubaté ainda ocupe um espaço tão especial dentro de mim.

Porque a cidade não foi feita apenas de ruas, bicicletas, açudes e aventuras.

Ela também foi feita de momentos pequenos.

Momentos aparentemente insignificantes.

Mas que continuam vivos quarenta anos depois.

E entre todas as lembranças daquele tempo mágico, ainda existe um garoto tímido aprendendo a dançar.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Guiado por uma amiga que jamais imaginaria que aquele gesto simples se transformaria numa das memórias mais doces de toda uma vida.

Ps: Não foi a primeira festa escolar, me recordo das turmas de 1983, 1984 e 1985, mas a Gisele foi unica e a festa de 1986 foi memoravel

Bailinhos escolares

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/10/taubate-e-o-final-boss-bailinhos-amigo.html

domingo, 1 de novembro de 2015

☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e as loucas historias do seu Luis


☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

Se existe uma coisa que as gerações atuais perderam sem perceber, foi a figura do contador de histórias do bairro.

Hoje temos streaming.

Temos YouTube.

Temos TikTok.

Temos inteligência artificial.

Mas nos anos 1980, no Jardim Garcez, em Taubaté, tínhamos algo muito mais poderoso:

Seu Luís.

Funcionário da prefeitura durante o dia.

Guardião da cultura popular durante a noite.

Morava na Rua 9, próximo de casa.

Um senhor simples.

Já de idade.

Mas dono de um dos maiores bancos de dados narrativos que já conheci.

Quando o sol desaparecia atrás da Serra da Mantiqueira e a noite tomava conta do bairro, começava um ritual quase sagrado.

A gurizada se reunia em frente ao portão de sua casa.

Sentávamos na calçada.

Alguns no meio-fio.

Outros encostados no muro.

Esperando.

E então o velho mestre iniciava mais uma sessão.

Sem televisão.

Sem projetor.

Sem computador.

Apenas voz, imaginação e talento.

Era melhor que qualquer streaming.

Seu Luís possuía centenas de histórias.

Talvez milhares.

Algumas certamente inventadas por ele.

Outras herdadas de seus pais.

Outras dos avós.

Outras dos bisavós.

Narrativas que atravessaram gerações até desembarcar naquela rua de terra do Parque Sabará.

Pedro Malasarte era presença constante.

E que figura extraordinária ele se tornava nas mãos do velho contador.

Ora enganava reis.

Ora enganava demônios.

Ora fugia de monstros.

Ora encontrava tesouros escondidos.

Mas não era só Pedro Malasarte.

Havia princesas aprisionadas em castelos.

Cavalos alados cruzando os céus.

Rainhas encantadas.

Monstros escondidos em matas escuras.

Bruxas vivendo em casebres de pau a pique no meio do sertão.

E fantasmas.

Muitos fantasmas.

A quantidade de assombrações que habitava aquelas histórias era suficiente para transformar qualquer ida ao banheiro durante a madrugada numa missão de alto risco.

Lembro de fragmentos.

Pequenos pedaços preservados no backup da memória.

O velho cão negro.

Que, segundo a lenda, não era um cachorro comum.

Era o próprio demo vagando pelas estradas.

Havia também a história do cavalo alado.

Uma jornada impossível.

Uma viagem onde o herói precisava alimentar a criatura com pedaços de carne durante o percurso.

Caso contrário, o animal o abandonaria entre monstros e assombrações.

Tinha a famosa sopa da pedra.

As serpentes falantes.

Os passarinhos encantados.

As bruxas.

As maldições.

As profecias.

E a magnífica Rainha Águia.

Uma criatura fantástica que protegia viajantes perdidos e os guiava para casa.

Tudo contado de forma tão vívida que era impossível não acreditar.

Pelo menos por algumas horas.

O problema surgia depois.

Na hora de dormir.

Qualquer estalo na janela.

Qualquer sombra no corredor.

Qualquer rangido da madeira.

Pronto.

Lá estava o pequeno Vagner de olhos arregalados imaginando que alguma das criaturas das histórias havia decidido fazer uma visita.

E isso era maravilhoso.

Porque as histórias cumpriam exatamente sua função.

Faziam sonhar.

Faziam imaginar.

Faziam sentir medo.

Faziam rir.

Faziam viver aventuras sem sair da calçada.

Enquanto isso, Seu Luís seguia sua performance.

Molhando o bico com uma aguardente artesanal.

Tomando um gole aqui.

Outro ali.

E aumentando gradativamente o nível de insanidade das narrativas.

Quanto mais avançava a noite, mais fantásticas ficavam as aventuras.

Era como assistir a um sistema entrando em modo turbo.

Os monstros cresciam.

Os castelos ficavam maiores.

As bruxas mais poderosas.

Os fantasmas mais assustadores.

E nós, os pequenos onis do Jardim Garcez, permanecíamos hipnotizados.

Hoje percebo que Seu Luís era muito mais do que um contador de histórias.

Ele era um arquivo vivo.

Um servidor humano de memórias.

Um preservador da tradição oral.

Um homem simples que carregava séculos de cultura popular dentro da cabeça.

Muitas dessas histórias morreram com ele.

Outras sobreviveram apenas em fragmentos.

Mas algumas ainda vivem.

Espalhadas pelas lembranças dos garotos que um dia sentaram naquela calçada.

Esperando ansiosamente pela próxima aventura.

E talvez seja justamente por isso que ainda me lembro dele.

Porque existem pessoas que passam pela nossa vida.

E existem pessoas que ajudam a construir nossa imaginação.

Seu Luís pertence à segunda categoria.

E suspeito que boa parte do escritor, sonhador, contador de causos e aventureiro que existe em mim tenha nascido ali.

Sentado numa calçada de Taubaté.

Ouvindo um velho contador de histórias transformar uma rua comum em um reino encantado.


domingo, 5 de abril de 2015

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

 

Bellacosa Mainframe e a liberdade de andar de bicicleta por Taubate

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

Existem cidades onde moramos.

E existem cidades que moram dentro de nós.

Taubaté é uma delas.

Em 1985, após mais uma mudança daquelas que pareciam rotina na família Bellacosa, desembarquei no Jardim Garcez, no Parque Sabará. Eu tinha pouco mais de dez anos e não fazia ideia de que estava entrando em um dos períodos mais felizes de toda a minha vida.

A casa ficava na Rua 9, número 51.

Hoje é apenas um endereço.

Mas para mim foi um portal.

Ali começava um mundo novo.

O bairro ainda era jovem. Muitas ruas eram de terra. Havia terrenos vazios, campos de futebol improvisados, mato, riachos, pastos e uma sensação constante de que tudo ainda estava sendo descoberto.

O fim da cidade parecia também o começo da aventura.

Próximo de casa existia um pasto. Cortando caminho por ele, chegávamos a um estábulo onde comprávamos leite fresco. Coisa simples, comum para quem viveu aquela época, mas que hoje parece cena de filme.

Lembro do cheiro da terra molhada.

Das minas d'água.

Das bicas onde bebíamos água gelada sem medo.

Dos riachos onde eu procurava peixinhos para aquário.

Dos enormes açudes onde mergulhávamos sem pensar muito nas consequências e saíamos cobertos de lodo até as orelhas.

Era uma infância em contato direto com a natureza.

Claro que existiam perigos.

Cobras.

Aranhas.

Buracos.

Espinhos.

Mas o sentimento predominante era outro:

Liberdade.

Uma palavra que talvez as gerações atuais tenham dificuldade de compreender em toda sua dimensão.

Nós saíamos de manhã.

Voltávamos quando o sol começava a desaparecer.

Sem celular.

Sem GPS.

Sem aplicativo de localização.

Sem ninguém monitorando cada passo.

O mundo era nosso.

E nós pertencíamos ao mundo.

Foi também em Taubaté que a bicicleta deixou de ser brinquedo para virar extensão do meu corpo.

Minha velha Monareta me levava para todos os lugares.

E quando digo todos, não estou exagerando.

Pedalava por bairros inteiros.

Explorava ruas desconhecidas.

Atravessava regiões que para mim pareciam outros países.

Taubaté era gigantesca aos olhos de um garoto.

Cada bairro escondia um mistério.

Cada rua levava a uma nova descoberta.

Cada esquina tinha potencial para virar uma aventura.

E havia também os livros.

Ah, a Biblioteca Municipal de Taubaté...

Ali encontrei centenas de mundos.

Enquanto alguns exploravam florestas, eu explorava estantes.

Enquanto alguns caçavam tesouros, eu encontrava civilizações inteiras dentro das páginas.

Aquele lugar ajudou a formar quem sou.

Muitas das viagens que fiz no futuro começaram primeiro dentro daqueles livros.

Mas Taubaté não era feita apenas de lugares.

Era feita de pessoas.

Amigos.

Colegas.

Paqueras.

Primeiros amores.

Primeiros beijos.

Primeiras decepções.

Primeiras descobertas sobre o coração humano.

Hoje conto algumas dessas histórias e já imagino alguém pensando:

— Ah, lá vem o tiozão inventando moda...

Mas não.

Foram tempos mágicos.

Tempos em que tudo parecia possível.

Tempos em que o mundo ainda possuía aquele brilho especial que só existe entre a infância e a adolescência.

Houve também a escola.

A lendária Amador Bueno da Veiga.

As fugas estratégicas da educação física.

As brincadeiras.

As bagunças.

Os bailinhos escolares.

As amizades.

As lendas.

A famosa Loira do Banheiro.

E a outra loira lendária...

A diretora.

Que causava muito mais medo que qualquer fantasma.

Hoje rio ao lembrar.

Mas na época era assunto seríssimo.

Olho para trás e percebo que nem tudo foi perfeito.

Houve tristezas.

Houve dores.

Houve problemas.

Houve acontecimentos que marcaram.

Mas a memória é curiosa.

Ela não mente.

Mas escolhe aquilo que merece permanecer iluminado.

E quando penso em Taubaté, o que ficou foi o sol.

Foi a liberdade.

Foi a bicicleta.

Foi a biblioteca.

Foi o cheiro do mato.

Foi o sabor das pitangas.

Foi a água gelada da bica.

Foi o açude.

Foi a aventura.

Foi a felicidade simples.

Talvez por isso, décadas depois, ainda exista um pedaço do meu coração morando naquela Rua 9.

Talvez por isso, quando penso em lar, uma parte da minha alma ainda esteja pedalando pelas ruas de terra do Parque Sabará.

E suspeito que ela nunca mais voltou de lá.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e o lendario mendigo Tonico da Viola

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

Todo bairro tem sua lenda.

Todo bairro possui aquele personagem que parece existir fora das regras normais da realidade.

Uma figura tão marcante que, décadas depois, continua viva na memória coletiva.

No Jardim Garcez, em Taubaté, esse personagem atendia pelo nome de:

Tonico da Viola.

Ou pelo menos era assim que todos o chamavam.

Porque, na verdade, ninguém sabia muito sobre ele.

Ninguém sabia sua idade.

Ninguém sabia de onde tinha vindo.

Ninguém sabia para onde ia.

E talvez ninguém soubesse sequer seu verdadeiro nome.

Para nós, os garotos do bairro, ele parecia existir desde o início dos tempos.

Como uma criatura saída de uma lenda sertaneja.

Como um personagem esquecido entre as páginas de algum livro de Monteiro Lobato.

Tonico era um andarilho.

Daqueles que carregavam a própria vida nas costas.

Vivia cercado por sacolas, trouxas, sacos amarrados por barbantes e cordas.

Parecia que todo seu patrimônio cabia naquele emaranhado de objetos pendurados pelo corpo.

Nas costas carregava uma velha viola.

Ou melhor.

Os restos de uma viola.

O instrumento já estava tão gasto pelo tempo, pelo sol e pela chuva que parecia ter sobrevivido a uma guerra.

Um enorme chapéu de palha completava a figura.

Magro.

Barbudo.

Sujo.

Queimado de sol.

Com olhos fundos.

E aquele ar permanente de quem conversava com coisas invisíveis aos demais mortais.

Para uma criança, aquilo era fascinante.

E assustador.

Ao mesmo tempo.

As histórias sobre Tonico eram infinitas.

Cada morador tinha uma versão diferente.

Alguns juravam que havia sido fazendeiro.

Outros diziam que perdera a família inteira.

Uns afirmavam que tinha ficado louco por amor.

Outros garantiam que era um antigo músico famoso.

Havia até quem jurasse que ele possuía poderes sobrenaturais.

Nenhuma história batia com a outra.

Mas todas eram contadas com absoluta convicção.

O mais curioso era que, apesar da aparência assustadora, Tonico nunca fez mal a ninguém.

Nunca.

Era um homem pacífico.

Às vezes aparecia na porta da escola.

Outras vezes era visto dormindo debaixo de uma árvore.

Ou em algum pasto.

Ou próximo aos riachos.

Ou simplesmente caminhando sem rumo pelas ruas de terra.

Como uma alma livre.

Sem destino.

Sem relógio.

Sem endereço.

Sem patrão.

Sem compromisso com nada além da próxima curva da estrada.

Quando tinha fome, pedia um prato de comida.

E quase sempre alguém ajudava.

Quando não conseguia ajuda, improvisava.

Fazia uma pequena fogueira.

Pegava uma velha panela amassada.

Misturava o que encontrasse.

E preparava sua refeição.

Aquilo despertava a curiosidade da molecada.

Ficávamos observando de longe.

Tentando entender aquele universo paralelo.

Tentando decifrar aquele homem.

Às vezes ele estava feliz.

Muito feliz.

Pegava a viola.

Ou o que restava dela.

E começava a cantar.

Canções sem dono.

Modas antigas.

Trechos de histórias.

Versos improvisados.

Ninguém entendia tudo.

Mas todos paravam para ouvir.

Em outros dias aparecia embriagado.

E então começava outro espetáculo.

Palavrões.

Improvisos.

Discussões imaginárias.

Conversas com pessoas invisíveis.

A molecada ria até perder o fôlego.

Mas sempre mantendo uma distância respeitosa.

Porque havia algo nele que inspirava cautela.

Especialmente o olhar.

Ah, aquele olhar...

Os cães do bairro pareciam compreender algo que nós não entendíamos.

Quando Tonico surgia na rua, muitos cachorros fugiam imediatamente.

Os mais valentes avançavam.

Latiam.

Rosnavam.

Cercavam.

Mas bastava Tonico parar.

Virar lentamente a cabeça.

E encarar o animal.

Pronto.

O cão recuava.

Muitas vezes ganindo.

Como se tivesse visto algo que não deveria ver.

Aquilo alimentava ainda mais as lendas.

E nós, é claro, adorávamos cada detalhe.

Anos depois, indo para a Biblioteca Municipal de Taubaté, ainda o encontrava.

Caminhando pelo centro.

Sem destino.

Sem pressa.

Sem rumo aparente.

Enquanto todos corriam atrás de alguma coisa, Tonico parecia não perseguir nada.

Era uma figura quase impossível de enquadrar.

Mendigo?

Filósofo?

Louco?

Poeta?

Andarilho?

Músico?

Talvez um pouco de tudo.

Talvez nada disso.

Hoje penso que ele representava algo raro.

A liberdade absoluta.

Aquela liberdade que assusta.

Que não possui amarras.

Que não possui endereço.

Que não possui garantias.

Tonico da Viola era um homem sem posses.

Mas também sem correntes.

E talvez por isso tenha permanecido tão vivo na memória.

Porque enquanto todos nós pertencíamos ao bairro...

Parecia que o bairro inteiro pertencia a ele.

E quando o sol desaparecia atrás dos morros de Taubaté e uma figura magra de chapéu de palha surgia caminhando pela estrada de terra, a molecada já sabia:

A lenda estava passando novamente.

sexta-feira, 14 de março de 2014

🐎🌳 Xuxa, o Amigo Que o Tempo Não Conseguiu Levar

 

Bellacosa Mainframe e as andaças por Taubate com o amigo Xuxa

🐎🌳 Xuxa, o Amigo Que o Tempo Não Conseguiu Levar

Existem colegas.

Existem companheiros de aventura.

E existem aqueles raros amigos que se tornam parte da nossa própria história.

Quando olho para trás e revisito meus anos em Taubaté, um nome sempre aparece com força nas memórias:

Alexandre Lima.

Mas quase ninguém o chamava assim.

Para nós, ele era simplesmente o Xuxa.

Conheci o Xuxa no quinto ano da Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, no Parque Sabará.

Eu era o garoto novo.

Ele era um dos garotos mais isolados da turma.

Enquanto os outros grupos já estavam formados, nós dois acabamos orbitando um ao outro por falta de opção.

E foi justamente daí que nasceu uma amizade que atravessaria décadas.

Daquelas amizades verdadeiras.

Daquelas que não precisam de manutenção constante para continuar funcionando.

Daquelas que o tempo apenas fortalece.

O Xuxa morava numa chácara na antiga Estrada de Tremembé.

Era praticamente outro mundo.

Seu pai, o senhor Moacir, criava porcos.

E uma das atividades da família consistia em percorrer escolas recolhendo os restos da merenda que seriam descartados.

Era uma época diferente.

Tudo era reaproveitado.

Tudo tinha utilidade.

Quantas vezes ajudei naquela tarefa.

Lá ia a carroça.

Puxada por um velho cavalo.

Passando pelas escolas.

Recolhendo os latões.

Voltando para a chácara.

Para um garoto criado na periferia de São Paulo, aquilo era uma aventura fantástica.

Parecia que eu havia sido transportado para outro universo.

E quando as tarefas terminavam, começava a verdadeira diversão.

Os irmãos do Xuxa:

Marcia.

Natalino.

André.

Todos participavam das brincadeiras.

A casa estava sempre cheia de movimento.

Sempre cheia de vida.

Seu Moacir e Dona Neusa me recebiam como se eu fosse mais um membro da família.

Participei de almoços.

Jantares.

Conversas.

Comemorações.

Momentos simples que se transformaram em tesouros.

Passávamos horas andando de bicicleta.

Jogando bola.

Brincando de bolinha de gude.

Explorando o bairro.

Nadando em riachos.

Sentados debaixo de mangueiras.

Falando sobre tudo e sobre nada.

Trocando segredos que naquela época pareciam informações classificadas pelo governo federal.

Era amizade na sua forma mais pura.

Sem interesse.

Sem segundas intenções.

Sem redes sociais.

Sem selfies.

Sem curtidas.

Apenas convivência.

Apenas companheirismo.

Apenas vida.

Mas talvez o aspecto mais curioso daquela amizade fosse um personagem quase lendário da família.

O avô do Xuxa.

Um homem misterioso.

Rosacruz.

Leitor compulsivo.

Pesquisador das antigas tradições.

Guardião de uma biblioteca que para mim parecia saída de um filme.

Livros sobre história.

Religiões antigas.

Filosofia.

Ocultismo.

Civilizações desaparecidas.

Mistérios do mundo.

Enquanto outras crianças sonhavam com tesouros enterrados, eu tinha acesso a algo muito mais valioso:

Conhecimento.

Lembro de passar horas ouvindo suas histórias.

Falando sobre culturas antigas.

Civilizações perdidas.

Segredos religiosos.

Mitos e lendas.

Era como ter um mago particular morando no bairro.

Talvez ali tenha começado parte da minha curiosidade quase infinita sobre história, culturas, povos e crenças.

Talvez alguns dos caminhos que percorri na vida adulta tenham começado naquela biblioteca.

Entre livros empoeirados e conversas fascinantes.

Hoje, quando eu e o Xuxa nos falamos, inevitavelmente acabamos voltando para aqueles dias.

Relembramos aventuras.

Risadas.

Travessuras.

Confusões.

E algumas histórias tão absurdas que parecem inventadas.

Como a famosa e lendária história da piscina do bordel.

Mas essa...

Essa merece uma crônica própria.

Porque certas aventuras não cabem em apenas alguns parágrafos.

Taubaté foi muitas coisas para mim.

Foi liberdade.

Foi descoberta.

Foi crescimento.

Mas também foi amizade.

E quando penso em amizade verdadeira, daquelas que resistem ao tempo, à distância e às mudanças da vida, sempre lembro do Xuxa.

O garoto da chácara.

Da carroça.

Do cavalo.

Dos riachos.

Das bicicletas.

Das tardes sem pressa.

Um amigo que o tempo passou décadas tentando levar.

E falhou miseravelmente.


sábado, 13 de julho de 2013

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

 

Bellacosa Mainframe e as memorias cerejianas

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

Existem frutas que gostamos.

Existem frutas que apreciamos.

E existem aquelas raras frutas que conquistam um lugar permanente no coração.

Para mim, essa fruta é a cereja.

Curiosamente, durante boa parte da infância eu acreditava conhecer cerejas.

Afinal, elas apareciam em bolos.

Enfeitavam tortas.

Descansavam sobre taças de sorvete.

E reinavam absolutas nas confeitarias dos anos 1980.

Mas havia um detalhe.

Aquilo não eram cerejas de verdade.

Ou melhor, eram cerejas que haviam sido transformadas em outra coisa.

Mergulhadas em caldas açucaradas.

Processadas.

Conservadas.

Doces demais.

Tão doces que pareciam uma caricatura da fruta original.

Foi apenas no final dos anos 1990 que experimentei uma cereja fresca pela primeira vez.

E foi amor à primeira mordida.

Lembro da surpresa.

Da textura firme.

Da polpa carnuda.

Daquele equilíbrio quase perfeito entre acidez e doçura.

Do caroço escondido no interior.

Dos cabinhos verdes que pareciam ter saído diretamente de uma ilustração de livro infantil.

Aquilo não se parecia com nada que eu havia provado antes.

Era uma experiência completamente diferente.

Uma fruta elegante.

Sofisticada.

Mas ao mesmo tempo simples.

Natural.

Perfeita.

Meu coração foi conquistado imediatamente.

Anos depois, quando a vida me levou para Portugal, descobri algo ainda mais maravilhoso.

A cereja não era apenas uma fruta apreciada.

Era praticamente uma instituição nacional do verão.

Foi lá que minha relação com ela atingiu outro nível.

Os mercados.

As feiras.

As quitandas.

As estradas do interior.

Tudo parecia repleto de cerejas.

Cerejas pequenas.

Grandes.

Mais doces.

Mais ácidas.

Mais escuras.

Mais claras.

Cada região possuía suas variedades.

Cada produtor defendia as suas como as melhores do mundo.

E eu, feliz da vida, fazia questão de experimentar todas.

Portugal me ensinou que a cereja não era uma única fruta.

Era um universo inteiro.

Vieram então os verões portugueses.

Os passeios.

As viagens.

Os almoços demorados.

As tardes quentes.

E aquele hábito delicioso de comprar um saco de cerejas e passar horas beliscando uma após a outra.

Uma felicidade simples.

Mas profundamente marcante.

A Espanha ampliou essa paixão.

A Itália reforçou a devoção.

E cada nova viagem parecia acrescentar mais um capítulo à minha história com essa pequena joia vermelha.

Mas seria impossível falar de cerejas sem lembrar da sua versão líquida.

A lendária ginjinha.

Aguardente.

Licor.

Patrimônio cultural.

Experiência obrigatória para qualquer visitante de Lisboa.

Quem já caminhou pelas ruas da Baixa sabe do que estou falando.

A pequena taça.

O aroma característico.

O sabor intenso.

A tradição centenária.

E, claro, as ginjinhas servidas com o fruto dentro do copinho.

Uma pequena obra-prima da gastronomia portuguesa.

E se existe um lugar onde a ginjinha parece ganhar uma dimensão quase mágica, esse lugar é Óbidos.

A antiga cidade medieval cercada por muralhas.

Ruas de pedra.

Casas brancas.

Flores nas janelas.

E visitantes do mundo inteiro caminhando por um cenário que parece congelado no tempo.

Ali, beber uma ginjinha é quase um ritual.

Uma celebração da história.

Da cultura.

E dos sabores que atravessam gerações.

Hoje percebo que minha paixão pela cereja vai muito além da fruta.

Ela se tornou uma cápsula de memória.

Uma ponte entre continentes.

Entre épocas.

Entre pessoas.

Cada cereja que provo me lembra uma viagem.

Uma conversa.

Um verão.

Uma descoberta.

Talvez seja por isso que ela continua sendo minha fruta favorita.

Porque alguns sabores alimentam o corpo.

Mas outros alimentam a alma.

E poucas frutas conseguiram fazer isso comigo tão bem quanto a humilde e extraordinária cereja.


domingo, 7 de março de 2010

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

 

Bellacosa Mainframe e as memorias de infância em Urupês

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

Se Ibitinga foi meu laboratório de aventuras, Urupês foi meu estaleiro de horizontes — aquela fase da vida em que o menino paulistano, criado entre filmes, fotos, câmeras e luzes, descobria que existia um mundo inteiro além da cinzenta e opressora capital paulista.

O caminho até Urupês já era um acontecimento. Estradas vazias, quase hipnotizantes, com apenas o ronco do fusquinha vermelho (aquele guerreiro 1960 que enfrentava cascalho, poeira, barro e buracos como se fosse um tanque de guerra miniaturizado). As cidades dormiam ao redor da estrada. Só o vento, o sol e algum caminhoneiro perdido sabiam que vocês passavam por ali.

E ali, naquele pequeno ponto no mapa do Noroeste paulista, ficavam os parentes espanhóis espalhados, meio raiz, meio lenda, sempre com a oficina de tratores como um farol, uma fazenda ou uma história para contar.
Tinha o primo Eduardo da oficina de tratores, tinha o velho Wilson, meu pai, naquela época moço na casa dos trinta anos, uma figura única, boa praça, carismático, sarrista, centro das atenções onde estivesse, um contador de causos, de piadas e de vergonhas alheias — inclusive aquela famosa e indecente do vereador e o galinheiro, que você jura que um dia vai contar.

Mas o que pega na memória mesmo não é o povo — é o ambiente.


Urupês tinha cheiro.

Cheiro de lenha queimada no fogão, cheiro de terra molhada depois da chuva, cheiro de curral, de capim amassado pelo cascos dos bois.

Urupês tinha sons.

O bater da chuva no telhado sem forro.
O rangido dos móveis antigos.
O canto enlouquecido das maritacas.
O mugir manso do gado.
E o coro dos grilos ao entardecer, aquele som que parecia dizer:
Fica mais, menino. Você não precisa ir embora tão cedo.



Urupês tinha perigos.

Perigos verdadeiros, naturais, selvagens, como a galinha choca possuída pelo demônio que me perseguiu quintal adentro, defendendo o pintainho que achei que podia pegar como quem pega um brinquedo.
Ali você aprendi rápido o conceito de “instinto maternal”, “risco de vida” e “corre senão ela te acerta”.

Urupês tinha magia.

Calhambeques semi-abandonados que se tornavam naves espaciais.
Café colhido na hora, seco no rancho, torrado e moido.
Riachos que viravam mundos.
Ninhos de joão-de-barro que pareciam pequenas cidades.
Tucanos, maritacas e papagaios que faziam mais barulho que o trânsito de São Paulo.
Cavalos que pareciam saídos de livros de aventura.

E o mais importante:


Urupês te deu dimensão.

Me fez perceber que meu mundo era muito maior que o quarteirão cinzento da cidade grande.
Que existia um mundo imenso além da Vila Rio Branco na Ponte Rasa.

Que fronteiras não eram paredes.
Que horizontes eram convites.

Talvez tenha sido ali — entre poeira, galinha furiosa, cheiro de lenha e viagens intermináveis — que nasceu a minha vocação de não aceitar limites.
De ser alguém sempre em movimento, buscando, aprendendo, explorando, criando.

Um menino que viu o mundo se abrir em quilômetros antes de se abrir em mãos.

E Urupês, assim como Ibitinga, ficou marcado no meu peito como essas memórias que aquecem em dia frio e lembram:
Sim, eu vim daqui. Eu me fiz aqui. E tudo isso ainda vive em mim.

sexta-feira, 30 de novembro de 1990

Janaina uma paixão sem reciprocidade.

 Janaina uma paixão sem reciprocidade.


Bellacosa Mainframe e a doce Janaina de Taubaté

☕🌳 SLICE OF LIFE — JANAÍNA, A GAROTA DA MANGUEIRA E O “SISTEMA LEGADO” DAS MEMÓRIAS QUE NUNCA DERAM ABEND 🌳☕

Existe um tipo de história que não precisa:

  • explosões,

  • poderes,

  • vilões,

  • nem final épico.

Ela vive apenas na memória.

Quase como um dataset antigo preservado cuidadosamente no fundo emocional do datacenter da alma.

Nos anos 1990, as viagens para Taubaté tinham um significado diferente.

Não era apenas visitar o grande amigo Alexandre…
o lendário “Xuxa”.

Existia um processo silencioso rodando em background.

O verdadeiro evento importante era chegar naquela casa…
e encontrar Janaína.

Ela tinha aquele tipo raro de presença que muda completamente o ambiente operacional do coração humano.

Não precisava fazer esforço.

O simples fato dela aparecer já alterava:

  • o humor,

  • o timing,

  • a percepção do dia,

  • e até o clima embaixo da velha mangueira.

E ali acontecia algo que hoje quase desapareceu da humanidade moderna:
conversas simples.

Sem notificações.
Sem redes sociais.
Sem algoritmo.
Sem pressa.

Só:

  • risadas,

  • sonhos,

  • olhares discretos,

  • expectativas silenciosas,

  • e aquela esperança juvenil que parecia infinita.

As tardes passavam devagar.
Quase como batch noturno em mainframe antigo.

E talvez justamente por isso fossem tão especiais.

A distância nunca permitiu que o romance realmente evoluísse.

Não existiu:

  • declaração cinematográfica,

  • beijo sob chuva,

  • nem episódio final de anime romântico.

Mas curiosamente…
isso nunca destruiu a beleza da história.

Porque algumas pessoas não entram na vida para permanecer fisicamente.

Elas entram para virar:

memória permanente em storage emocional de alta prioridade.

Janaína era isso.

Uma presença leve.
Especial.
Quase impossível de explicar tecnicamente.

Ela virou parte daquele universo dos anos 90:

  • da mangueira,

  • das conversas,

  • das viagens,

  • da inocência,

  • e daquele tempo em que sentir algo verdadeiro parecia muito mais simples.

No fim…
slice of life é exatamente isso.

Pequenos momentos aparentemente comuns…
que décadas depois continuam rodando perfeitamente na memória, sem nunca precisar de restart. ☕💾🌳