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sábado, 5 de novembro de 2022

O Meu Processo de Alusitanamento — Tomás Taveira, o CD 17 e a primeira aula de folclore digital português

 

Bellacosa Mainframe e as historias que nossas babas nao contavam Tavera Todinho la dentro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Meu Processo de Alusitanamento — Tomás Taveira, o CD 17 e a primeira aula de folclore digital português

Ou: como cheguei a Portugal em 2002 para trabalhar num banco e descobri que, antes do eMule, os portugueses já tinham inventado a distribuição peer-to-peer em VHS

Groucho Marx pega o charuto, examina uma cassete VHS e sentencia:
“Não sei o que está aqui dentro. Mas, se metade de Lisboa já viu, provavelmente é confidencial.”



🇵🇹 2002 — Vagner precisa ser lusitanizado

Quando cheguei a Portugal, em 2002, trazia comigo um problema gravíssimo.

Eu falava português.

Parecia uma vantagem.

Não era.

Eu falava português brasileiro.

Portugal rapidamente tratou de explicar que isso era apenas uma versão beta do idioma.

Começou então aquilo que hoje chamo carinhosamente de meu processo de alusitanamento.

Era necessário aprender que uma bicha nem sempre era aquilo que um brasileiro imaginava.

Que uma rapariga podia ser apresentada à família sem provocar um escândalo.

Que um puto não era necessariamente uma ofensa.

Que pequeno-almoço não era um café servido numa xícara menor.

E que "pois" poderia significar aproximadamente 37 coisas dependendo da inclinação da cabeça do interlocutor.

Mas havia outra camada.

A mais importante.

A cultura subterrânea.

Porque ninguém realmente conhece um país lendo apenas Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e os manuais oficiais.

Para conhecer um país é necessário descobrir as piadas que todo mundo entende sem precisar explicar.

E foi assim que, trabalhando no universo bancário português, acabei recebendo de um colega do BPN uma espécie de documento antropológico.

Um CD.

Não me lembro de haver cerimônia oficial.

Não houve assinatura.

Não houve protocolo.

Não houve RACF.

O cidadão simplesmente entregou o artefato.

E naquele objeto havia uma inscrição suficientemente misteriosa para despertar imediatamente meu instinto de arqueólogo digital:

CD 17

Dezessete.

Isso significava uma coisa extraordinária.

Existiram pelo menos dezesseis antes dele.



🏛️ Para compreender o CD 17 precisamos voltar a Lisboa dos anos 80

Antes do personagem folclórico existe o personagem histórico.

E esta distinção é fundamental.

Tomás Taveira não surgiu como personagem de piada.

Era — e continuou sendo — um arquiteto português de enorme projeção, professor universitário e um dos principais nomes associados ao pós-modernismo arquitetônico português. Sua obra utilizava cores fortes, geometrias exuberantes e uma linguagem arquitetônica imediatamente reconhecível. As Amoreiras transformaram-se provavelmente no exemplo mais popular dessa arquitetura pós-moderna em Lisboa.

Vieram Olaias.

Amoreiras.

Edifícios públicos.

Projetos internacionais.

Posteriormente até estádios construídos para o Euro 2004.

Décadas depois do episódio que estamos prestes a abordar, a RTP ainda poderia dedicar um programa à sua arquitetura, mostrando projetos, desenhos e maquetes.

Essa é a primeira biografia.

Chamemos:

TOMAS.TAVEIRA.PROD

Arquiteto.

Professor.

Pós-modernista.

MIT.

Urbanismo.

Amoreiras.

Olaias.

Estádios.

Currículo perfeitamente carregável pelo sistema institucional.

Só que, em algum momento dos anos 80, começou a ser construída uma segunda biografia.

Uma que jamais apareceria num currículo acadêmico.


📼 1987 — alguém apertou REC

Aqui precisamos abandonar Groucho Marx durante alguns minutos.

Porque por trás daquilo que posteriormente virou piada nacional existia uma questão séria.

Vídeos íntimos foram gravados no escritório de Taveira. As fontes posteriores descrevem problemas graves envolvendo o conhecimento ou consentimento das mulheres filmadas. As gravações teriam sido realizadas por volta de 1987 e começaram a circular publicamente em 1989.

Não precisamos entrar nos detalhes.

Aliás, para compreender o fenômeno cultural, os detalhes são praticamente irrelevantes.

O que importa para nossa arqueologia é outra coisa:

a cassete escapou.

E, quando uma informação escapa, surge uma das leis fundamentais da informática:

Informação interessante possui uma tendência impressionante de desenvolver pernas.

Em 1989 não existia WhatsApp.

Não existia Telegram.

Não existia YouTube.

Não existia BitTorrent.

Não existia eMule.

Não existia Napster.

Não existia sequer a Web como conheceríamos poucos anos depois.

Mas existia uma tecnologia revolucionária.

VHS + DOIS VIDEOCASSETES

Pronto.

Nasceu o peer-to-peer lusitano.


📼📼 A internet portuguesa antes da internet

Imagine o processo.

Alguém possuía uma cassete.

Outro alguém queria uma cópia.

Dois aparelhos eram conectados.

PLAY.

REC.

Esperava-se.

Nascia uma segunda cassete.

A segunda encontrava uma terceira pessoa.

A terceira conhecia um primo.

O primo conhecia um colega.

O colega trabalhava num escritório.

O escritório tinha alguém com dois videocassetes.

PLAY.

REC.

PLAY.

REC.

PLAY.

REC.

Em pouco tempo a coisa começou a circular por Lisboa com uma velocidade que relatos posteriores descrevem como extraordinária. A imprensa já discutia rumores sobre as gravações em setembro de 1989; jornais e cronistas começaram a abordar o assunto e, em outubro, o caso já fazia parte do debate público nacional.

A própria retrospectiva anual da RTP colocaria Tomás Taveira entre os acontecimentos marcantes de Portugal em 1989.

Isso é extraordinário.

Porque significa que estamos diante de um fenômeno que hoje chamaríamos simplesmente:

VIRAL

Só que viral sem internet.


📰 E então Portugal descobriu a bomba

O assunto saiu das salas privadas.

Chegou aos jornais.

Chegou às conversas.

Chegou aos cafés.

Chegou às universidades.

Chegou aos escritórios.

Chegou inevitavelmente à televisão.

E então aconteceu aquilo que sempre acontece quando um escândalo entra no imaginário popular:

o fato perdeu o controle sobre a própria narrativa.

Cada pessoa acrescentava alguma coisa.

Alguém conhecia alguém que conhecia alguém.

A cassete que uma pessoa tinha visto não parecia exatamente igual à cassete que outra jurava ter visto.

Apareceram versões.

Rumores.

Personagens supostos.

Locais supostos.

Frases supostas.

Detalhes supostos.

Alguns verdadeiros.

Outros provavelmente inventados.

E outros pertencentes àquela categoria maravilhosa da cultura popular:

“Não aconteceu exatamente assim, mas todo mundo lembra que aconteceu.”

Groucho Marx retorna ao recinto:

“Finalmente encontramos uma fonte histórica confiável: um sujeito no café que ouviu de um cunhado.”


😂 Portugal fez aquilo que qualquer sociedade faz diante do absurdo

Transformou em humor.

Vieram piadas.

Referências.

Imitações.

Bordões.

Insinuações televisivas.

Conversas de café.

Humoristas perceberam imediatamente que não era necessário explicar nada.

Bastava uma frase.

Uma entonação.

Uma referência.

O público completava mentalmente o resto.

E aí surge uma das expressões mais interessantes associadas à mitologia:

“Estudasses.”

Décadas depois, portugueses ainda discutem se a célebre expressão realmente aparece da maneira como a memória coletiva afirma.

Isso é maravilhoso do ponto de vista antropológico.

Porque significa que o meme ficou maior que a fonte.

A frase passou a existir independentemente da gravação.

Ela tornou-se patrimônio oral.

O cidadão poderia nunca ter visto VHS nenhum.

Mesmo assim conhecia a piada.


🎵 E a coisa entrou na música

Era inevitável.

A cultura popular portuguesa absorveu o episódio.

Uma das referências conhecidas aparece em “Na Cabana do Pai Tomás”, dos Sitiados, exemplo de como o caso deixou de pertencer apenas às páginas dos jornais e passou para o repertório humorístico e musical.

Depois vieram referências.

Samples.

Montagens.

MP3.

Paródias.

Arquivos com nomes absolutamente suspeitos.

E começou um fenômeno ainda mais interessante:

pessoas passaram a conhecer a referência sem conhecer sua origem.

Isso é o estágio final de um meme.

Quando alguém ri de uma frase sem saber exatamente por que aquela frase é engraçada, o acontecimento original já entrou no folclore.


💿 CORTA PARA 2002

Portugal.

BPN.

Um brasileiro recém-chegado tentando compreender aquele maravilhoso sistema operacional chamado:

PORTUGAL 2002 ENTERPRISE EDITION

Meu colega provavelmente percebeu rapidamente uma falha grave na minha formação.

Eu conhecia Pessoa.

Conhecia Saramago.

Conhecia alguma história portuguesa.

Mas desconhecia parte essencial do folclore contemporâneo nacional.

Era inadmissível.

Então veio o CD.

CD 17

Aquilo era praticamente um curso de integração cultural.

Esqueça treinamento corporativo.

Esqueça PowerPoint.

Esqueça Recursos Humanos.

O verdadeiro onboarding português estava num CD-R.

Eu coloquei aquilo no computador.

E comecei uma das mais curiosas aulas de antropologia da minha vida.

De repente várias frases que eu já havia ouvido começaram a fazer sentido.

Piadas que anteriormente passavam pelo meu ouvido sem autenticação receberam credenciais.

Referências televisivas começaram a encaixar.

Era como descobrir que você passou meses ouvindo chamadas para uma subrotina sem possuir o copybook.

Finalmente eu tinha o copybook.


🫏 O detalhe importante: em 2002 aquilo já era arqueologia

Treze anos haviam passado desde 1989.

Mas a história continuava viva.

Isso me impressionou.

Porque eu não estava simplesmente assistindo a um escândalo antigo.

Estava observando a transmissão de memória coletiva entre tecnologias.

Primeiro:

VHS

Depois:

cópia de VHS

Depois:

cópia da cópia da cópia

Depois:

digitalização

Depois:

CD-R

Depois:

MPG

Depois:

AVI

E então chegou a cavalaria.

🫏 eMule

Para quem não viveu aquela maravilhosa época, o eMule era uma espécie de biblioteca de Alexandria administrada por adolescentes, piratas digitais e computadores ligados durante 72 horas.

Você procurava Beethoven.

Recebia Beethoven.

Às vezes.

Nas outras ocasiões recebia alguma coisa chamada:

BEETHOVEN_COMPLETE_SYMPHONIES_FINAL_REAL_100_PERCENT.avi

E descobria que a humanidade tinha outros planos para sua noite.

Tomás Taveira encontrou ali sua segunda juventude digital.

O que havia circulado fisicamente em Lisboa agora poderia atravessar Portugal.

Brasil.

França.

Luxemburgo.

Suíça.

Qualquer lugar onde existisse um português emigrado, uma conexão ADSL e paciência suficiente.


🌍 A diáspora digital do VHS

Esse é provavelmente o aspecto mais fascinante.

A primeira geração conheceu o caso como acontecimento.

A segunda conheceu como cassete.

A terceira conheceu como arquivo.

A quarta conheceu como meme.

E a quinta talvez conheça apenas:

“Estudasses.”

Sem contexto.

Sem VHS.

Sem 1989.

Sem saber sequer quem era Tomás Taveira.

Isso é folclore.

Exatamente como uma expressão medieval pode sobreviver séculos depois de desaparecer o acontecimento que lhe deu origem.

Só que aqui conseguimos observar praticamente todas as etapas.


👨‍🏫 As duas biografias de Tomás Taveira

E aqui chegamos ao ponto que mais me fascina nessa história.

Tomás Taveira passou a possuir duas biografias simultâneas.

Biografia A — institucional

Arquiteto.

Professor.

Pós-modernismo.

MIT.

Olaias.

Amoreiras.

BNU.

Metro das Olaias.

Alvalade XXI.

Aveiro.

Leiria.

Projetos internacionais.

É uma carreira arquitetônica extensa e documentada.

Mas existe:

Biografia B — popular

A cassete.

As frases.

As imitações.

As músicas.

Os CDs.

Os AVI.

O eMule.

As piadas de café.

Os memes.

As referências que atravessaram gerações.

As duas biografias pertencem à mesma pessoa.

Mas vivem em bancos de dados culturais completamente diferentes.


🏟️ E a ironia tornou-se arquitetônica

Isso produz situações absolutamente surreais.

Você pode entrar numa obra projetada por Tomás Taveira sem conhecer Tomás Taveira.

Pode assistir futebol num estádio relacionado à sua obra.

Pode passar pelas Olaias.

Pode olhar as Amoreiras dominando parte da paisagem lisboeta.

E alguém ao seu lado pode conhecer apenas:

a piada.

Enquanto outro conhece apenas:

o arquiteto.

Dois portugueses podem falar do mesmo homem e aparentemente estar falando de pessoas completamente diferentes.

Esse é o verdadeiro fork.

TOMAS_TAVEIRA_ARCHITECT.EXE

e

TOMAS_TAVEIRA_FOLKLORE.EXE

Ambos continuam rodando.


📺 E o século XXI não executou DELETE

Esse talvez seja o detalhe mais extraordinário.

Era perfeitamente possível que tudo desaparecesse.

VHS deteriora.

CD-R deteriora.

Discos rígidos morrem.

Sites fecham.

Links quebram.

Servidores desaparecem.

Mas cultura popular possui redundância.

Uma pessoa guarda.

Outra copia.

Outra comenta.

Outra transforma em música.

Outra escreve num fórum.

Outra faz meme.

Outra pergunta:

“De onde vem essa história?”

E alguém responde.

A transmissão recomeça.

Décadas depois, o assunto ainda reaparece na imprensa e em produções culturais, enquanto discussões online continuam debatendo inclusive quais frases pertenciam realmente às gravações e quais foram acrescentadas posteriormente pela memória coletiva.

É quase um sistema distribuído.

Não existe servidor central.

Não existe administrador.

Não existe documentação.

Mas os dados sobrevivem.


🧠 O verdadeiro CD 17

Hoje percebo que aquele CD que recebi em 2002 não continha simplesmente arquivos.

Continha contexto cultural.

Meu colega do BPN estava realizando uma operação muito antiga.

A mesma operação pela qual pessoas transmitem lendas há milhares de anos.

Só havia mudado o suporte.

Antes:

“Meu avô contou ao meu pai.”

Depois:

“Tenho uma cassete.”

Em 2002:

“Leva este CD.”

Depois:

“Procura no eMule.”

Mais tarde:

“Procura no YouTube.”

Depois:

“Vi num meme.”

E provavelmente algum arqueólogo digital em 2126 encontrará uma referência perdida e perguntará:

“Mas afinal quem diabos era esse arquiteto?”


🎩 Groucho Marx fecha o arquivo

Groucho apaga o charuto.

Olha para as Amoreiras.

Olha para uma velha cassete VHS.

Olha para o CD 17.

Olha para um diretório perdido do eMule.

E finalmente declara:

“Passei a vida acreditando que a imortalidade exigia uma grande obra. Aparentemente também ajuda alguém esquecer uma cassete no lugar errado.”

E talvez essa seja a conclusão perfeita.

Tomás Taveira construiu edifícios destinados a durar décadas.

Mas paralelamente ajudou, involuntariamente, a construir algo muito mais difícil de demolir:

uma lenda popular.

Quando cheguei a Portugal em 2002, eu conhecia apenas a primeira camada daquele país.

O território.

A língua.

Os bancos.

Os cafés.

Os elétricos.

Fernando Pessoa.

Camões.

Depois veio o CD 17.

E compreendi uma verdade essencial sobre meu processo de alusitanamento:

um país não é feito apenas da história que coloca nos museus.

É feito também das histórias que conta baixinho.

Das piadas que atravessam gerações.

Dos bordões cuja origem ninguém mais sabe explicar.

Das músicas que escondem referências.

Das cassetes copiadas clandestinamente.

Dos CDs emprestados no escritório.

Dos arquivos que sobreviveram ao eMule.

E daquela pergunta inevitável que todo estrangeiro faz quando percebe que todos à mesa estão rindo menos ele:

“Espera… qual é a história?”

Foi assim que, em 2002, um colega do BPN colocou um CD-R na minha mão.

Eu pensava que estava recebendo um disco.

Na verdade estava recebendo Portugal — Disco 17 de instalação.

E aparentemente ainda faltavam os outros dezesseis.

ESTUDASSES. E agora quando ouvires uma musica xula com refrão mixado, todinho la dentro, saberá quem foi Tavera das Tascas.


https://andarilhovisitaportugal.blogspot.com/

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Um novo começo: Vagneida em Portugal

 


“Portugal: o novo começo”

Cheguei em Portugal sob o sol impiedoso do verão europeu.
Trazia comigo muitos sonhos e poucos projetos de pé — coragem em excesso, medo quase nenhum, e reservas que prometiam durar um ano.
Nos dois primeiros meses, virei mochileiro de mim mesmo: explorava cidades, buscava um teto, um rumo, um pedaço de chão para chamar de lar.

O idioma era o mesmo — mas soava diferente, com sotaques que dançavam entre o estranho e o familiar.
Era um aprendizado novo: o de reaprender o que eu achava que já sabia.
Viviam dentro de mim a alegria pela novidade e a tristeza pela saudade.
Ainda pensava em Giovana — os olhos azuis me perseguiam nas vitrines, nos cafés, nas janelas de Lisboa — mas lá no fundo, o desejo de um recomeço batia mais forte.

Vieram as dúvidas, o medo de ficar sem dinheiro, a busca por um trabalho que pagasse mais do que apenas as contas.
Descobri o que é ser estrangeiro: de respeitado e invejado no Brasil, passei a ser apenas mais um imigrante tentando provar seu valor.
Mas era um recomeço — e eu sabia que todo recomeço começa do chão.



Portugal me encantava.
As ruas limpas, o cheiro de mar misturado ao de pastel de nata, o euro brilhando como promessa de um futuro dourado.
Mas também vinham os choques de realidade, os “nãos” que pareciam testar a minha paciência e fé.
Até que um dia, o primeiro emprego apareceu — simples, mas suficiente para reacender o fogo da esperança.

Foi ali, entre e-mails trocados com o Brasil e longas chamadas no Skype, que percebi:
a vida tinha virado outra.
O sonho era o mesmo — mas agora tinha sotaque português, calor europeu e a coragem de quem recomeça do zero.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Senhor Professor-Doutor, Posso Fazer uma Pergunta?

Bellacosa Mainframe e o choque cultural de estudar fora

 ☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Senhor Professor-Doutor, Posso Fazer uma Pergunta?

🎓 O dia em que um universitário brasileiro atravessou o Atlântico e descobriu que, em Portugal, até a hierarquia acadêmica vinha com metadata

São Paulo, anos 1990: professor era professor.
Lisboa, 2002: aparentemente eu precisava consultar o catálogo antes de dizer bom dia.

Existe uma diferença enorme entre visitar um país e permitir que um país execute código dentro de você.

Turista fotografa monumentos.

Quem mora começa a descobrir os protocolos.

E foi assim que, em 2002, atravessei o Atlântico para viver uma experiência acadêmica em Lisboa carregando na bagagem uma formação universitária brasileira, algumas certezas, muitos hábitos e uma absoluta ignorância sobre uma coisa importantíssima:

eu não conhecia a API social da universidade portuguesa.

Não era apenas outro país.

Não era apenas outro sotaque.

Não era apenas uma universidade diferente.

Era outro sistema operacional.

E eu estava tentando executar:

PATROPI.EXE

num ambiente que esperava:

SR_BELLACOSA.PT

O resultado, naturalmente, foi maravilhoso.


🇧🇷 No Brasil, professor era professor

Minha referência vinha da universidade brasileira dos anos 1990.

Eu conhecia professores excelentes, professores medianos, professores engraçados, professores carrancudos e provavelmente professores que sobreviviam academicamente movidos a café e força do ódio.

Mas havia uma característica curiosa:

eu não fazia ideia do pedigree acadêmico de boa parte deles.

Mestre?

Doutor?

Doutorando?

Professor-assistente?

Pós-doutor?

Eu provavelmente sabia menos sobre os títulos acadêmicos de alguns professores do que sobre a configuração do computador do laboratório.

E isso não fazia muita diferença na interação cotidiana.

Professor era:

professor.

— Professor, posso perguntar uma coisa?

Pronto.

Handshake realizado.

SESSION ESTABLISHED

Não precisava executar:

DISPLAY ACADEMIC.CREDENTIALS

antes de iniciar a conversa.

Talvez isso variasse entre universidades, cursos e pessoas — certamente variava —, mas aquela era a minha experiência cultural.

E nela havia ainda outro problema.

Eu nunca fui particularmente talentoso para permanecer dentro de compartimentos sociais.


🧪 Antes do Senhor Bellacosa existia Patropi

Na universidade brasileira eu tinha uma alcunha:

Patropi, o Químico.

Não porque estivesse desenvolvendo novos polímeros.

Nem porque estivesse destinado ao Nobel.

A química envolvida era ocasionalmente mais...

etílica.

Conhaques.

Gins.

Batidinhas.

Experimentos líquidos cuja fórmula talvez fosse melhor não submeter a revisão por pares.

Em algumas festas, eu era convidado já com uma expectativa implícita:

Se Patropi aparecer, provavelmente aparecerá também alguma garrafa contendo um líquido estranho e surpreendentemente bom.

Isso é reputação acadêmica.

Talvez não a que conste no Lattes.

Mas reputação.

E Patropi circulava.

Sala.

Corredor.

Laboratório.

Cantina.

Biblioteca.

Ou melhor...

Biblioteca.

Com B maiúsculo.

Porque havia a biblioteca oficial, aquela com livros, silêncio e fichários.

E havia a Biblioteca, o boteco do Manoel, onde estudantes, funcionários, professores, veteranos eternos e toda aquela maravilhosa fauna universitária encontravam um protocolo comum.

🍺

Ali ninguém precisava consultar o organograma.

A cerveja implementava interoperabilidade.


✈️ Então Patropi atravessou o Atlântico

Lisboa, 2002.

UTL a famosa Universidade Técnica de Lisboa, ISEG e IDEFE.

Outro continente.

Outro país.

Mesma língua.

Teoricamente.

Essa última afirmação começaria a apresentar exceções logo nas primeiras semanas.

Eu imaginava encontrar diferenças acadêmicas.

Currículos diferentes.

Bibliografia diferente.

Métodos diferentes.

O que não esperava era encontrar diferenças impressas na própria gramática das relações humanas.

Uma das primeiras foi o título.

Não era simplesmente:

— Professor...

Havia:

Senhor Professor-Doutor.

Senhor Professor-Assistente.

E outras combinações que faziam o brasileiro recém-chegado imaginar que tinha entrado acidentalmente numa árvore genealógica acadêmica.

O detalhe fundamental é que não se tratava apenas de conhecer o título.

Em certos contextos e com certas pessoas, esperava-se que ele fosse utilizado.

Aquilo me causou um pequeno ABEND.


🎓 Senhor. Professor. Doutor.

Três palavras.

Três níveis de encapsulamento.

Eu pensava:

Mas eu já sei que ele é professor.
Ele está dando aula.

O sistema respondia:

Informação insuficiente.

Professor.

Doutor.

E senhor.

Não esqueça o senhor.

Era quase:

TITLE=SR
ROLE=PROFESSOR
ACADEMIC_LEVEL=PHD

Só então:

CALL PROFESSOR

😂

Para alguém vindo de um ambiente em que eu muitas vezes sequer sabia quais professores possuíam doutorado, aquilo era fascinante.

Não necessariamente melhor.

Não necessariamente pior.

Diferente.

E diferenças culturais ficam particularmente interessantes quando ninguém precisa explicá-las.

Porque é justamente aí que você descobre as regras invisíveis.



📏 Descobri também o protocolo de um metro

Essa talvez tenha sido uma das descobertas mais sutis.

Distância física.

Patropi tinha um defeito de fabricação.

Ele se aproximava das pessoas.

Queria perguntar alguma coisa?

Chegava perto.

Conversava.

Gesticulava.

O corpo fazia parte da comunicação.

Em Lisboa comecei a perceber algo curioso.

Eu me aproximava de determinados professores...

e eles discretamente reconstruíam a distância.

Um passo.

Eu avançava naturalmente.

Outro pequeno recuo.

Durante alguns segundos aquilo podia transformar-se numa dança acadêmica extremamente sofisticada.

💃

Bellacosa:

MOVE +30CM

Professor:

MOVE -30CM

Bellacosa:

MOVE +20CM

Professor:

RESTORE SAFE_DISTANCE

Até meu cérebro finalmente identificar o protocolo:

Talvez eu deva ficar aqui.

Não havia fita amarela no chão.

Não havia placa:

MANTENHA 1 METRO DO SENHOR PROFESSOR-DOUTOR.

Não estava no regulamento.

Não aparecia no programa da disciplina.

Era metadata cultural.

E metadata cultural é cruel justamente porque todos que nasceram dentro do sistema sabem interpretá-la.

Menos você.



🧠 Cultura é documentação que ninguém escreveu

Essa experiência me ensinaria algo que depois reencontrei inúmeras vezes em tecnologia.

Existem dois sistemas funcionando simultaneamente.

O sistema documentado:

  • regulamentos;

  • títulos;

  • cargos;

  • disciplinas;

  • avaliações;

  • horários.

E o sistema real:

quem pode interromper quem;

quem chama quem pelo primeiro nome;

quem permanece em pé;

quem senta;

quanto você se aproxima;

quando pode brincar;

quando deve ficar sério;

quem bebe com quem depois da aula.

Esse segundo sistema não vem no manual.

Você aprende observando.

Em mainframe chamaríamos de conhecimento tribal.

Em antropologia poderíamos falar de códigos culturais.

Patropi provavelmente chamaria de:

“Tem alguma coisa acontecendo aqui e ninguém me passou o JCL.”


🎶 E então apareceram as tunas

Mas seria profundamente injusto transformar Portugal numa caricatura de formalidade acadêmica.

Porque bastava caminhar um pouco além daquela primeira camada para começar a encontrar outra coisa.

Música.

Convívio.

Tradição estudantil.

Humor.

Noite.

E, naturalmente:

as tunas acadêmicas.



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Para um brasileiro, as tunas são uma daquelas instituições que inicialmente parecem ter escapado de outro século e recusado educadamente a atualização.

Trajes.

Instrumentos.

Canções.

Serenatas.

Rituais.

Hierarquias internas.

Tradições.

Gente jovem executando costumes antigos com absoluta naturalidade.

E aquilo começou a desmontar uma interpretação simplista que eu poderia ter construído.

A universidade portuguesa podia parecer mais formal em determinadas relações.

Mas isso não significava ausência de vida universitária.

Muito pelo contrário.

Ela simplesmente organizava essa vida através de outros códigos.


⛏️ E Bellacosa começou a escavar

Porque há uma coisa que o tempo faz com o estrangeiro curioso.

Ele escava.

Primeiro você vê a superfície.

Depois encontra uma rachadura.

Depois outra.

E finalmente percebe que aquela sociedade aparentemente alienígena possui exatamente aquilo que todas as sociedades humanas possuem:

fauna.

😂

O professor formal tinha amigos.

O aluno cerimonioso contava piadas.

O funcionário conhecia atalhos.

O sujeito aparentemente sisudo sabia onde beber.

Alguém conhecia alguém.

Alguém tinha uma história.

Alguém conhecia um lugar.

E pouco a pouco o ambiente deixou de parecer uma interface estrangeira.

Eu começava a encontrar as APIs internas.


🎩 Patropi morreu. Nasceu o Sr. Bellacosa

Ou pelo menos oficialmente.

Patropi pertencia à universidade brasileira.

Àquele tempo.

Àquela fauna.

Às festas.

Às garrafas experimentais.

Ao Manoel.

Em Portugal surgiu outro personagem:

Sr. Bellacosa.

O nome já parecia vir acompanhado de casaco.

😂

Mas aconteceu algo ainda mais interessante.

Quando a formalidade diminuía e a intimidade aumentava, surgia outro identificador:

o Brasileiro.

Isso é fantástico.

Porque existe um momento na vida de um estrangeiro em que sua nacionalidade deixa de funcionar apenas como informação geográfica.

Ela vira apelido.

— Chama o Brasileiro.

E todos sabem qual brasileiro.

Nesse momento:

BRASILEIRO

já não é atributo.

É hostname.


🍷 E então Portugal começou a ficar perigoso

Não politicamente.

Gastronomicamente.

Porque depois que você atravessa a camada protocolar de uma cultura, começa a chegar aos lugares realmente interessantes.

E aparecem:

bagaceiras;

vinhos;

Portos;

ginjinhas;

e pastéis de bacalhau cuja análise laboratorial provavelmente encontraria moléculas contemporâneas ao Marquês de Pombal.

O óleo não era utilizado para fritar.

Era patrimônio histórico.

Você olhava para aquilo e pensava:

Isso pode me matar.

Depois comia.

Excelente.


🍷 O choque do vinho do Porto

Uma das pequenas descobertas culturais de que mais gostei foi justamente esta:

em Portugal, vinho do Porto é vinho do Porto.

Parece uma frase idiota.

Mas não é.

No Brasil, o vinho do Porto havia adquirido para mim um peso cerimonial.

Tacinha.

Ocasião.

Produto importado.

Digestivo.

Quase um pequeno ritual.

— Aceita um Porto?

A própria entonação acrescentava solenidade.

Em Portugal:

— Queres um Porto?

— Quero.

Fim.

😂

Nenhum quarteto de cordas entra na sala.

Ninguém reduz a iluminação.

Nenhum embaixador aparece para explicar o Tratado de Methuen.

É Porto.

Beba.

E essa diferença me ensinou outra coisa maravilhosa sobre viver fora:

aquilo que é símbolo para o estrangeiro frequentemente é cotidiano para quem mora ali.

O turista encontra Portugal.

O português encontra uma garrafa.



🍒 Até Patropi ressuscitar diante da ginjinha

E então veio a ginjinha.

Nesse momento alguma rotina esquecida começou a carregar:

LOAD PATROPI

Porque o Químico olhou para aquilo e reconheceu imediatamente uma arquitetura familiar.

Fruta.

Álcool.

Açúcar.

Tempo.

Espere.

Eu conheço esse sistema.

😂

A ginjinha lisboeta, como tradição comercial conhecida, possui sua história própria. Mas a família tecnológica à qual pertence — macerações, bebidas aromatizadas, destilados, frutas, ervas — atravessa civilizações.

Romanos.

Séculos de presença islâmica na Península.

Tradições medievais.

Mosteiros.

Camponeses.

Rotas comerciais.

Açúcar.

Destilação.

Expansão marítima.

E Patropi, olhando aquele copinho vermelho, podia chegar à conclusão cientificamente irresponsável, porém culturalmente deliciosa:

“Porra, isso é uma batidinha com dois mil anos de versionamento.”

🤣

Ali finalmente havia interoperabilidade completa.


🥃 A bagaceira derruba o firewall

E ainda havia a bagaceira.

A expressão:

“tome lá um copito”

deveria constar nos manuais internacionais de segurança como exemplo de engenharia social.

Copinho, ´para os tugas, COPITO número um:

— Interessante.

Copinho número dois:

— Muito agradável.

Copinho número três:

— Portugal possui realmente uma extraordinária complexidade histórica.

Copinho número quatro:

SENHOR PROFESSOR-DOUTOR, VENHA CÁ DAR-ME UM ABRAÇO!

Pronto.

O perímetro de segurança de um metro finalmente havia sido derrotado.

Não por uma revolução pedagógica.

Por aguardente.

😂


🧬 A verdadeira integração não aparece no passaporte

Esse talvez seja o ponto que mais gosto ao restaurar essas memórias tantos anos depois.

Minha lembrança inicial de Portugal acadêmico é marcada pela diferença.

Títulos.

Formalidade.

Hierarquia.

Distância.

Protocolos.

Mas quando continuo escavando, as memórias começam a mudar.

Aparecem música.

Tunas.

Conversas.

Pessoas.

Comida.

Vinho.

Ginjinha.

Bagaceira.

Piadas.

Lugares.

Aparece aquela extraordinária transformação pela qual o estrangeiro deixa de comparar cada detalhe com seu país de origem.

Ele começa simplesmente a viver.

O vinho do Porto deixa de representar Portugal.

É vinho.

A ginjinha deixa de ser atração.

É ginjinha.

O professor deixa de ser espécime cultural.

É aquele professor que as vezes parecia estar com prisão de ventre ao dar aula.

E Bellacosa deixa de ser simplesmente estrangeiro.

Vira:

o Brasileiro.


💾 Talvez cultura seja um gigantesco sistema legado

Quanto mais velho fico, mais gosto dessa metáfora.

Uma cultura parece um sistema legado gigantesco.

Possui documentação oficial.

Possui regras.

Possui versões.

Possui interfaces.

Mas grande parte do comportamento verdadeiro está escondida em milhões de linhas que ninguém mais sabe exatamente por que existem.

Por que esse tratamento?

Porque sempre foi assim.

Por que essa distância?

É o costume.

Por que essa tradição?

Porque veio de antes.

Quem implementou?

Ninguém sabe.

Pode remover?

NÃO TOCA QUE ESTÁ FUNCIONANDO.

Mainframeiro entende imediatamente.

😂

E o estrangeiro chega como desenvolvedor novo:

— Por que fazemos isso?

A equipe inteira responde:

— Fazemos o quê?

Essa talvez seja a definição perfeita de norma cultural.


🏛️ Dois mundos acadêmicos, nenhuma caricatura

Trinta anos depois da universidade brasileira e mais de duas décadas depois daquela experiência portuguesa, seria fácil cair numa comparação preguiçosa.

Brasil informal.

Portugal formal.

Fim.

Mas não foi isso que vivi.

Encontrei formalidade no Brasil.

Encontrei enorme informalidade em Portugal.

Encontrei hierarquia.

Encontrei transgressão.

Encontrei professores acessíveis.

Encontrei professores protocolares.

Encontrei estudantes sérios.

Encontrei fauna.

Muita fauna.

Porque instituições podem possuir culturas nacionais diferentes, mas continuam sendo ocupadas pela mesma espécie problemática:

Homo sapiens universitarius.

E onde há humanos durante tempo suficiente, inevitavelmente surgem:

hierarquia,

amizade,

ritual,

atalho,

fofoca,

conhecimento,

cerveja e é claro copitos

e alguém que sabe exatamente onde conseguir alguma coisa que oficialmente ninguém sabe onde fica.


🍺 Toda universidade acaba encontrando sua Biblioteca

Talvez essa seja minha conclusão favorita.

Em São Paulo havia a Biblioteca.

O boteco do Manoel.

Não aquela biblioteca.

A outra.

Aquela onde departamentos que oficialmente não conversavam conseguiam interoperabilidade depois da segunda cerveja.

Onde aluno encontrava veterano.

Veterano conhecia funcionário.

Funcionário conhecia professor.

Professor sabia uma história.

E Manoel provavelmente sabia todas.

Portugal possuía outras interfaces.

Outros rituais.

Outros lugares.

Outra arquitetura social.

Mas, escavando suficientemente fundo, encontrei novamente aquilo que procurava sem saber:

gente.

E é engraçado perceber que tudo isso voltou porque, décadas depois, uma notícia sobre inteligência artificial e ensino fez meu cérebro executar um comando que eu não havia solicitado:

RESTORE UNIVERSITY.MEMORIES

Primeiro vieram os ghostwriters.

Depois os senpais eternos.

Depois o antiplágio.

Depois a Biblioteca.

Depois Manoel.

Depois Patropi.

E quando percebi...

eu estava novamente em Lisboa.


☕ Senhor Professor-Doutor, posso fazer uma pergunta?

Hoje eu responderia ao Bellacosa de 2002:

Pode.

Mas primeiro observe.

Toda sociedade possui um protocolo.

Toda instituição possui metadata.

Toda universidade possui um organograma oficial e outro completamente invisível.

Aprenda os dois.

Respeite aquilo que ainda não entende.

Não confunda diferença com defeito.

E depois...

escave.

Porque atrás do Senhor Professor-Doutor existe uma pessoa.

Atrás da formalidade existe uma história.

Atrás da tuna existe uma tradição.

Atrás daquela garrafa existe uma civilização inteira trocando receitas, técnicas e hábitos durante séculos.

E atrás do Sr. Bellacosa ainda estava aquele velho processo adormecido esperando alguma ginjinha executar:

READY
> LOAD PATROPI

PATROPI THE CHEMIST 1.0
COPYRIGHT 1990s
STATUS: LEGACY
COMPATIBILITY: SURPRISINGLY GOOD

> RUN

🍒 SYSTEM READY.

Talvez essa tenha sido a verdadeira aula que Lisboa me deu.

Não estava no currículo.

Não valia créditos.

Não apareceu no diploma.

Mas continua instalada mais de vinte anos depois:

Você não conhece realmente uma cultura quando aprende suas regras.

Começa a conhecê-la quando descobre onde — e com quem — essas regras podem relaxar.

E, se durante essa descoberta alguém colocar diante de você um pastel de bacalhau frito num óleo cuja origem parece anterior ao Iluminismo...

não faça perguntas demais.

Você já perguntou demais ao Senhor Professor-Doutor.

Coma o pastel.

Beba o Porto.

Escute a tuna.

E continue escavando.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque algumas das melhores aulas da universidade jamais tiveram sala, chamada ou professor — mas quase sempre havia uma mesa por perto.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-milhao-de-chimpanzes-gutenberg-e.html

sábado, 9 de julho de 2022

John Malkovich, Rua Garrett e o Autógrafo que Eu Não Pedi

 

Bellacosa Mainframe e o dia que vi John Malkovich

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

John Malkovich, Rua Garrett e o Autógrafo que Eu Não Pedi

Ou: como encontrei um dos meus atores favoritos descendo o Chiado, tive alguns segundos para fazer exatamente aquilo que qualquer fã faria — e resolvi simplesmente sorrir

Há histórias que sobrevivem porque alguém tirou uma fotografia.

Outras porque existe uma carta.

Um ingresso amarelado.

Uma assinatura num guardanapo.

Uma fotografia tremida com metade de um dedo na frente da lente.

Um recibo esquecido dentro de um livro.

Algumas sobrevivem porque alguém teve a extraordinária previdência de escrever uma data atrás da foto:

Lisboa, 2003.

E existem aquelas que não possuem absolutamente nada.

Nenhuma fotografia.

Nenhum autógrafo.

Nenhuma testemunha.

Nenhum vídeo.

Nenhum registro.

Nenhum metadata.

Nenhum backup.

Nada.

Apenas alguns segundos gravados dentro da cabeça de alguém.

Esta é uma dessas histórias.

E talvez justamente por isso eu ainda me lembre dela.

Pegue um café.

Porque certa tarde eu estava subindo a Rua Garrett, em Lisboa, quando encontrei John Malkovich.

E decidi não conhecê-lo.


🇵🇹 Primeiro precisamos subir o Chiado

Quem conhece Lisboa sabe que certas ruas não servem apenas para levar alguém de um ponto A até um ponto B.

Elas atrapalham deliberadamente o percurso.

A Rua Garrett é uma delas.

Você pode ter compromisso.

Pode estar atrasado.

Pode ter alguém esperando.

Pode inclusive jurar que desta vez vai simplesmente atravessar o Chiado sem olhar para os lados.

Boa sorte.

Lisboa tem outros planos.

Há turistas.

Lisboetas.

Cafés.

Livrarias.

Sebos.

Montras.

Prédios que obrigam você a levantar a cabeça.

Gente entrando e saindo dos Armazéns do Chiado.

E, naturalmente, Fernando Pessoa tranquilamente instalado diante d'A Brasileira, observando há décadas aquela humanidade passar como se soubesse de alguma coisa que nós ainda não descobrimos.

Eu conhecia aquele caminho.

Naquele dia estava subindo a Rua Garrett para encontrar Carmen, que trabalhava no Largo do Calhariz.

Era uma caminhada cotidiana.

Nada de particularmente extraordinário deveria acontecer.

Eu caminhava do meu jeito habitual: suficientemente depressa para parecer que tinha destino, mas suficientemente devagar para continuar olhando tudo.

Tenho esse defeito.

Ou qualidade.

Nunca consegui decidir.

Olho prédios.

Olho placas.

Olho vitrines.

Olho carros.

Olho detalhes arquitetônicos.

E olho pessoas.

Principalmente pessoas.

Uma cidade sem pessoas é apenas infraestrutura.

E foi olhando as pessoas que meu sistema encontrou uma anomalia.



⚠️ CELEBRITY DETECTED

Ele vinha no sentido contrário.

Talvez meia dúzia de passos.

Não houve apresentação.

Não houve segurança abrindo caminho.

Não houve flashes.

Não houve tapete vermelho.

Não houve ninguém gritando:

— Senhoras e senhores, diretamente de Hollywood...

Nada.

Era simplesmente um homem descendo uma rua de Lisboa.

E então nossos olhares se cruzaram.

Meu cérebro precisou de uma fração ridiculamente pequena de segundo.

É ELE.

John Malkovich.

Não alguém parecido com John Malkovich.

Não um português careca que depois de três copos de vinho lembraria vagamente John Malkovich.

John Malkovich.

O ator.

Aquele ator cujo nome, para mim, sempre funcionou praticamente como certificado de interesse.

Se aparecesse nos créditos:

John Malkovich

eu assistiria.

Filme bom?

Assistiria.

Filme ruim?

Assistiria também.

Filme esquisito?

Melhor ainda.

Porque existem atores que interpretam personagens e existem atores cuja simples presença faz você prestar atenção.

Malkovich sempre pertenceu à segunda categoria.

E agora o sujeito estava ali.

Na minha frente.

Descendo a Rua Garrett.


🖥️ O mainframe entrou imediatamente em estado de exceção

Internamente, a operação foi mais ou menos assim:

IDENTIFY MALKO

Resultado:

RC=0000

Confiança:

99.999999%

Imediatamente várias subtarefas foram disparadas.

PEDIR_AUTOGRAFO

FALAR_QUE_SOU_FÃ

PERGUNTAR_SOBRE_FILMES

ARRANJAR_FOTO

NÃO_DEIXAR_ELE_ESCAPAR

Todas requisitando prioridade máxima.

O fã dentro de mim estava completamente alucinado.

Eu queria correr.

Queria falar.

Queria dizer que admirava seu trabalho.

Queria pedir um autógrafo.

Talvez dois.

Talvez dezessete.

E havia ainda a fotografia.

Hoje qualquer pessoa colocaria a mão no bolso, puxaria o telefone e:

— Mister Malkovich, selfie?

Mas precisamos lembrar que estamos falando de outra época.

O telefone celular ainda não havia transformado cada ser humano num correspondente fotográfico permanente de sua própria existência.

Para conseguir uma fotografia seria necessário possuir uma câmera naquele momento, encontrar alguém para fotografar ou improvisar alguma solução.

E eu sempre fui louco por fotografias.

Portanto, alguma coisa eu inventaria.

O problema não era técnico.

O problema apareceu quando faltavam talvez três ou quatro passos.


👀 Ele percebeu

Esse é o pedaço da história que nenhuma fotografia poderia registrar.

John Malkovich percebeu que eu o reconhecera.

Tenho certeza disso.

Porque existe uma expressão específica no rosto de alguém quando ocorre esse reconhecimento.

Meu olhar provavelmente entregou tudo.

Por alguns milissegundos deixei de ser um transeunte qualquer da Rua Garrett.

Virei:

FÃ DETECTADO.

E acredito que ele conhecesse muito bem aquele protocolo.

Afinal, devia acontecer constantemente.

O olhar.

A hesitação.

O sorriso.

A pessoa decidindo se aproxima.

Ele me viu processando aquilo.

E aconteceu algo curioso.

Não senti nele aquela reação de quem pensa:

"Lá vem mais um."

Pelo contrário.

Houve uma pequena abertura.

Uma simpatia.

Aquela disponibilidade educada de quem provavelmente teria parado caso eu falasse alguma coisa.

Eu poderia abordar.

Ele permitiria.

Talvez conversássemos durante alguns minutos.

Eu teria meu autógrafo.

Talvez minha fotografia.

Talvez hoje tivesse uma bela prova material desta história.

Foi exatamente aí que alguma outra coisa assumiu o controle.


🧠 O WLM humano mudou a prioridade

Olhei para ele.

Olhei para a rua.

E percebi uma coisa muito simples.

O homem estava passeando.

Só isso.

Não era John Malkovich numa estreia.

Não era John Malkovich num festival.

Não era John Malkovich numa sessão de autógrafos.

Não era John Malkovich diante de jornalistas.

Era um sujeito caminhando por Lisboa.

Exatamente como eu.

Eu estava apreciando a cidade.

Ele aparentemente também.

E naquele instante aconteceu uma pequena disputa interna entre o fã e o ser humano.

O fã dizia:

VAI!

O outro respondia:

Deixa o homem em paz.

O fã:

MAS É JOHN MALKOVICH!

O outro:

Eu sei.

É justamente por isso.


🙂 Então eu simplesmente sorri

Não disse nada.

Não pedi nada.

Não bloqueei seu caminho.

Não puxei papel.

Não procurei caneta.

Não tentei encontrar uma câmera.

Apenas olhei para ele e dei provavelmente o sorriso mais sincero que poderia dar.

Depois fiz um pequeno aceno com a cabeça.

E aquele gesto dizia tudo.

Não sei se existe um protocolo internacional para encontros ocasionais entre fãs e atores de Hollywood nas ruas de Lisboa.

Mas, se existe, naquele momento utilizamos a versão mais econômica possível.

Meu gesto dizia:

"Eu sei quem você é."

"Sou seu fã."

"Admiro seu trabalho."

"Fiquei absurdamente feliz de encontrar você aqui."

"Mas não vou atrapalhar seu passeio."

E então aconteceu a melhor parte.

Ele entendeu.

John Malkovich sorriu.

Não o sorriso profissional da fotografia.

Não aquele sorriso automático que pessoas famosas provavelmente aprendem depois da milionésima abordagem.

Foi um pequeno sorriso de cumplicidade.

Quase agradecido.

E respondeu com o olhar.

Durante talvez dois segundos aconteceu uma conversa inteira sem uma única palavra.

— É você.

— Sou eu.

— Sou muito seu fã.

— Percebi.

— Não vou te incomodar.

— Obrigado.

— Aproveite Lisboa.

— Você também.

E continuamos andando.


🚶 Dois turistas

Ele desceu.

Eu subi.

E foi isso.

Nenhuma multidão percebeu.

Nenhum jornalista registrou.

Fernando Pessoa permaneceu sentado.

Os cafés continuaram servindo bicas.

As pessoas continuaram entrando nas livrarias.

Os elétricos continuaram fazendo aquele barulho de Lisboa.

Provavelmente alguém reclamava de alguma coisa num balcão próximo, porque afinal estávamos em Portugal e certas instituições nacionais precisam ser preservadas.

E dois homens que jamais haviam se encontrado continuaram andando em direções opostas.

Um deles era John Malkovich.

O outro estava indo encontrar Carmen no Largo do Calhariz.

Durante alguns segundos, porém, éramos simplesmente duas pessoas passeando pela mesma cidade.


📸 A fotografia que não existe

Naturalmente, depois veio o arrependimento.

Porque o fã continua sendo fã.

PORRA, VAGNER!

ERA JOHN MALKOVICH!

Você poderia ter pedido um autógrafo!

Poderia ter conseguido uma fotografia!

Poderia ter falado com ele!

Poderia hoje mostrar para todo mundo:

— Olha aqui eu com John Malkovich em Lisboa.

Não tenho.

Não existe.

Não tenho sequer um guardanapo dizendo:

To Vagner, best wishes, John Malkovich.

Nada.

Do ponto de vista documental, esta história possui uma infraestrutura lamentável.

Auditoria reprovaria imediatamente.

Evidência material:

ZERO.

Testemunhas conhecidas:

ZERO.

Fotografia:

FILE NOT FOUND

Autógrafo:

DATASET NOT CATALOGED

Vídeo:

NO RECORDS FOUND

Logs:

expirados há décadas.

Se isso fosse um incidente de produção, ninguém aceitaria meu RCA.


☕ Mas talvez eu tenha trazido algo melhor

Com o passar dos anos comecei a perceber que talvez eu não tenha perdido coisa alguma.

Um autógrafo seria um objeto.

Uma fotografia seria uma fotografia.

Talvez estivesse numa caixa.

Talvez num álbum.

Talvez digitalizada.

Talvez eu já nem soubesse onde estava.

Mas aquele momento continua perfeitamente armazenado.

A rua.

O movimento.

A direção em que eu caminhava.

A surpresa.

A distância diminuindo.

O reconhecimento.

O olhar.

A decisão.

Meu sorriso.

O sorriso dele.

E cada um seguindo seu caminho.

Curiosamente, não pedir o autógrafo transformou aqueles segundos em algo muito mais interessante.

Porque não tenho uma história sobre:

"o dia em que tirei uma fotografia com John Malkovich."

Tenho uma história sobre:

"o dia em que encontrei John Malkovich e decidi não interromper John Malkovich."

É diferente.


🎭 Existe uma pessoa atrás dos créditos

Talvez essa tenha sido a pequena lição daquela tarde.

Nós transformamos artistas em personagens.

Eles vivem dentro das telas.

Nos créditos.

Nas entrevistas.

Nas fotografias.

Nos cartazes.

E esquecemos facilmente que, quando termina o filme, aquela pessoa continua existindo.

Come.

Anda.

Viaja.

Entra numa livraria.

Toma café.

Olha uma vitrine.

Passeia por uma rua.

Talvez queira passar alguns minutos sendo absolutamente ninguém.

E existe algo estranhamente bonito em reconhecer alguém justamente oferecendo-lhe o direito de continuar anônimo.

Eu poderia ter recebido um autógrafo de John Malkovich.

Em vez disso recebi durante dois segundos o sorriso de um homem que percebeu:

"Ele me reconheceu e vai me deixar continuar andando."

Foi pouco.

E foi muito.


🗄️ O arquivo que nunca foi apagado

Décadas depois aquela memória continua aqui.

Sem fotografia.

Sem papel.

Sem assinatura.

Sem cloud.

Sem backup externo.

Apenas naquele storage absurdamente pouco confiável chamado cérebro humano.

E, ironicamente, alguns arquivos desaparecem enquanto outros parecem possuir DISP=KEEP eterno.

Esse ficou.

Talvez porque nunca tenha sido concluído da maneira convencional.

Não houve clímax.

Não houve diálogo.

Não houve fotografia.

Ficou uma pequena operação pendurada no tempo.

John Malkovich descendo.

Eu subindo.

Dois olhares se encontrando.

Dois sorrisos.

E Lisboa continuando ao redor.


🧙 O velho barbudo finalmente documenta o incidente

Agora, tantos anos depois, finalmente existe um registro.

Não o autógrafo.

Não a fotografia.

Mas esta história.

Talvez daqui a muitas décadas algum arqueólogo digital encontre este texto perdido num canto da Internet e pense:

"Naturalmente não existe nenhuma prova disso."

Correto.

Não existe.

E está tudo bem.

Porque algumas das melhores coisas que aconteceram conosco ocorreram antes de termos uma câmera permanentemente apontada para nossa própria vida.

Elas simplesmente aconteceram.

Nós vimos.

Sentimos.

Guardamos.

E seguimos andando.


☕ Epílogo — RETURN CODE 0000

Às vezes penso novamente naquela tarde.

Imagino o que teria acontecido se tivesse parado.

Provavelmente Malkovich teria sido gentil.

Eu teria dito alguma bobagem de fã.

Ele assinaria alguma coisa.

Talvez conseguíssemos improvisar uma fotografia.

Eu agradeceria.

Ele continuaria descendo.

Eu continuaria subindo.

Seria uma ótima lembrança.

Mas não seria esta lembrança.

Prefiro a que ficou.

Porque durante alguns segundos não houve estrela de Hollywood e fã brasileiro.

Havia dois sujeitos numa rua de Lisboa.

Um reconheceu o outro.

O outro percebeu.

O primeiro decidiu não incomodar.

O segundo agradeceu sorrindo.

Nenhuma palavra foi necessária.

Então John Malkovich continuou descendo a Rua Garrett.

Eu continuei subindo para encontrar Carmen no Largo do Calhariz.

E Lisboa, absolutamente indiferente à importância cinematográfica do acontecimento, continuou fazendo aquilo que Lisboa faz maravilhosamente bem:

acontecendo.

O fã perdeu o autógrafo.

O fotógrafo perdeu a fotografia.

Mas o homem ganhou um sorriso.

Décadas depois, ainda acho que fiz um excelente negócio.

IEF142I VAGNER MALKO - STEP WAS EXECUTED

COND CODE 0000

Arquivo mantido.

DISP=KEEP.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Viagem a Portugal. Conheça algumas das cidades que visitei há 15 anos


Conheça um pouco mais de Portugal através de videos em nosso blog/canal.


Mergulhe no mundo lusitano, veja as maravilhas da terra de Camões, ouça historias de piratas, princesas mouras, castelos conquistados, turras entre Romanos e Cartagineses, gregos bizantinos e celtibéricos. Visite um país onde a lenda se mistura com a historia, homens intrépidos a bordos de casquinhas de madeira que dominaram o mundo, aviadores pioneiros que ajudaram a escrever a historia da aviação, monumentos da idade da pedra até hoje. Tudo isso em Portugal, videos de cidades de Norte a Sul. Aqui em nosso canal.




#Portugal #Turismo #viagem #lisboa #setubal #porto #algarve #alentejo #beja #guimaraes #barcelos #braga

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma tarde de musica medieval no Castelo de São Jorge

Um musico no Castelo de São Jorge em Lisboa 


Do alto de uma das 7 colinas de Lisboa, suas muralhas protegem Lisboa há mais de 2000 anos. Diversos povos passaram por aqui, derramaram seu sangue, destruíram seus portões, repararam, ampliaram, colocaram novas torres.

Para se ter uma pequena noção, acredita-se que os fenícios construíram a primeira fortificação, celtibéricos conquistaram aos primeiros, mas perderam para os romanos, godos, visigodos, vândalos e tantos outros povos passaram aqui também. Por fim os mouros os conquistaram e iniciaram os anos dourados do Al-Andaluz, por fim os portugueses ajudados por cruzados ingleses conquistaram a cidade é iniciaram a construção de um império onde o sol nunca se punha, com cidades em todos os continentes.

Hoje o castelo de São Jorge perdeu suas funções defensivas, mas agora aberto a todos os povos de boa vontade, tornou-se um imponente monumento, onde podemos passar bons momentos, apreciando toda a paisagem, o panorama é perfeito podemos ver a cidade, o rio Tejo, a margem sul com Almada e Seixal logo a vista.

Para completar restaurado tem fontes, torres e almeias, canhões em bronze, estatuas, jardins e diversas arvores para entreter o visitante. Num dia agradável de visita havia um musico tocando melodias de tempos idos, musica medieval no castelo, remetendo-nos há uma viagem no tempo para a Lisboa medieval, conhecendo a terra dos alfacinhas do seculo XIV.
.
Próximo ao castelo ainda podemos visitar as ruínas do teatro Romano, a velha Sé Catedral e seus tesouros, a casa de Santo Antônio, andar nos ícones bondes amarelos de Lisboa e se perder nas sinuosas ruas da mouraria.




segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Viagem ao Porto de Alfa-Pendular modelo antigo

Turismo em alta velocidade: Alfa-pendular de Portugal


Para viajar de Lisboa ao Porto existem diversas possibilidades de transporte público, desde os mais rápido que são aviões, aos de baixa velocidade que são os trens intercidades, velocidade média que são os trens alfapendulares e os autocarros com sua velocidade variavel, cada um servindo os clientes de acordo com seu bolso e tempo disponível.

Este vídeo esta falando sobre a viagem em alfapendular, trens luxuosos modernos e rápido, parando poucas vezes pelo caminho, possibilitando viagens rápidas com destino a cidade do Porto, famosa por seu vinho. Nossa viagem inicia-se em Lisboa na estação de Santa Apolônia, temos uma parada na Estação Oriente, após seguimos com outras paradas pelo caminho, dependendo do tipo de viagem escolhida.

Numa desta paradas vale a pena comentar, existe a famosa Estação de Entroncamento uma cidade que cresceu junto a ferrovia e conhecida com a cidade do mistério, lugar onde tudo pode acontecer.

No Entroncamento temos diversas atrações para aqueles que gostam de trens, existe um Museu Ferroviário, Galpões, rotunda, garagem ferroviária, locomotiva a vapor como monumento em praça pública, reservatórios de água históricos.

Seguindo nossa viagem rumo ao Porto podemos assistir tv, ouvir musica a bordo. O revisor passa de tempos em tempos para conferir os passageiros, um vendedor e seu carrinho transportam guloseimas, temos o barzinho para bebidas frescas e lanches rápidos.

Uma coisa única é a paisagem, pela janela vemos a Portugal rural com suas cenas bucólicas, as cidades que começam a surgir e a desaparecer no horizonte, castelos em cimo de colinas, montes e montanhas, bosques e florestas e conforme vamos subindo muitas e muitas videiras.

Um pouco de história

O Alfapendular após anos de serviço evoluiu, foi modernizado e  mudou de cor, este vídeo resgate os modelos antigos em cores vermelhas. Este trem rápido que liga diversas cidade de norte a sul de Portugal, utiliza um sistema de pêndulos ativo para realizar curvas em alta velocidade.

Em Portugal são permitidos a trafegar na velocidade máxima de 220 km/h, possuem serviço de bar e na altura em que viajei, tinha serviço de bordo cordial, uma limpeza impecável, uma serie de confortos,  filme na tv e musica na radio a bordo.



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Alfa-Pendular viajando rumo ao Entroncamento

As Viagens velozes a bordo do Alfa-pendular

Este trem já foi tema de outros vídeos de nosso canal, mas não me canso de criar materiais para ele, se esta vendo pela primeira vez, leia abaixo o resumo desta máquina veloz.

Estamos viajando no Alfa-pendular rumo a estação do Entroncamento, uma viagem rápida num trem rápido, este vídeo apresenta alguns detalhes da viagem, da carruagem de passageiro, da estação e do museu do Entrocamento.

Eu e meu filho partilhamos do mesmo amor por trens e ferrovias, sempre que podemos estamos fazendo algum tipo de aventura que envolva trens. O apito do revisor, o sinal de bandeira e mesmo o grito todos a bordo, fazem parte do imaginário popular, algo que dificilmente os ônibus iram tirar.

O corre corre na plataforma, os carrinhos de mala, pessoas nas janelas se despedindo dos parentes e amigos. Trem é nostalgia, viajar de trem é romântico, único e precioso. Nossa viagem começou em Corroios onde pegamos o Fertagus até Sete Rios em Lisboa, depois pegamos o metro até Santa Apolônia e nesta estação histórica pegamos o Alfapendular até Entrocamento.

A elefantinha Elly estava conosco nesse passeio, um aperte em nossa viagem, a Elly sempre nos acompanhava nos passeios, era divertido ver o Luis correndo para pegar a sua mascote e guarda-la na bolsa.

Um pouco de historia

Este comboio veloz é composto por 6 carruagens, sendo 2 de primeira classe, 3 de segunda classe e 1 vagão restaurante, com serviço de bordo, tv e radio em cada poltrona, esse trem é um luxo só, sem contar na velocidade, capaz de atingir mais de 200 quilômetros por hora.




quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Um harpista maluco no museu Pavilhão do Conhecimento

Um museu interativo e muito educativo


Visitar o Museu de Ciências e Tecnologia de Lisboa é uma verdadeira aventura lúdica, conhecido como o Pavilhão do Conhecimento tem em seu interior diversas experiencias que encantam miúdos e graúdos.

São diversas salas para se explorar, desde uma casa em construção em que os pequeninos se transformam em Lego, até um carro com rodas quadradas e dentadas, sem contar as diversas ilusões de ótica,  princípios de magnetismo, simulação de falta de gravidade, tirolesas e tantas outras coisas que fica difícil elencar.

Neste pequeno vídeo estou brincando com meu filho numa Harpa a laser, os sensores identificam seus movimentos e toca sons de harpa. Neste instrumento unico, o pai e o barbinha estão tentando fazer a harpa tocar... nossa que dificuldade acertar as cordas invisíveis... quem visitou o museu de tecnologia no parque da Expo deve ter experimentado este divertido experimento. E ficado maluco com estas atrações, traga seu pequeno cientista e divirta-se no museu.

Caminhe pelo parque da Expo, sinta a deliciosa brisa refrescante do Rio Tejo, ande de teleférico, veja a Torre Vasco da Gama, visite os jardins e encontre os bichos escondidos, veja a replica da Catedral de Macau em tamanho natural, tome um sorvete na esplanada das bandeiras, aproveite bem o dia em família.





sábado, 13 de julho de 2013

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

 

Bellacosa Mainframe e as memorias cerejianas

🍒 A Cereja e os Sabores da Memória

Existem frutas que gostamos.

Existem frutas que apreciamos.

E existem aquelas raras frutas que conquistam um lugar permanente no coração.

Para mim, essa fruta é a cereja.

Curiosamente, durante boa parte da infância eu acreditava conhecer cerejas.

Afinal, elas apareciam em bolos.

Enfeitavam tortas.

Descansavam sobre taças de sorvete.

E reinavam absolutas nas confeitarias dos anos 1980.

Mas havia um detalhe.

Aquilo não eram cerejas de verdade.

Ou melhor, eram cerejas que haviam sido transformadas em outra coisa.

Mergulhadas em caldas açucaradas.

Processadas.

Conservadas.

Doces demais.

Tão doces que pareciam uma caricatura da fruta original.

Foi apenas no final dos anos 1990 que experimentei uma cereja fresca pela primeira vez.

E foi amor à primeira mordida.

Lembro da surpresa.

Da textura firme.

Da polpa carnuda.

Daquele equilíbrio quase perfeito entre acidez e doçura.

Do caroço escondido no interior.

Dos cabinhos verdes que pareciam ter saído diretamente de uma ilustração de livro infantil.

Aquilo não se parecia com nada que eu havia provado antes.

Era uma experiência completamente diferente.

Uma fruta elegante.

Sofisticada.

Mas ao mesmo tempo simples.

Natural.

Perfeita.

Meu coração foi conquistado imediatamente.

Anos depois, quando a vida me levou para Portugal, descobri algo ainda mais maravilhoso.

A cereja não era apenas uma fruta apreciada.

Era praticamente uma instituição nacional do verão.

Foi lá que minha relação com ela atingiu outro nível.

Os mercados.

As feiras.

As quitandas.

As estradas do interior.

Tudo parecia repleto de cerejas.

Cerejas pequenas.

Grandes.

Mais doces.

Mais ácidas.

Mais escuras.

Mais claras.

Cada região possuía suas variedades.

Cada produtor defendia as suas como as melhores do mundo.

E eu, feliz da vida, fazia questão de experimentar todas.

Portugal me ensinou que a cereja não era uma única fruta.

Era um universo inteiro.

Vieram então os verões portugueses.

Os passeios.

As viagens.

Os almoços demorados.

As tardes quentes.

E aquele hábito delicioso de comprar um saco de cerejas e passar horas beliscando uma após a outra.

Uma felicidade simples.

Mas profundamente marcante.

A Espanha ampliou essa paixão.

A Itália reforçou a devoção.

E cada nova viagem parecia acrescentar mais um capítulo à minha história com essa pequena joia vermelha.

Mas seria impossível falar de cerejas sem lembrar da sua versão líquida.

A lendária ginjinha.

Aguardente.

Licor.

Patrimônio cultural.

Experiência obrigatória para qualquer visitante de Lisboa.

Quem já caminhou pelas ruas da Baixa sabe do que estou falando.

A pequena taça.

O aroma característico.

O sabor intenso.

A tradição centenária.

E, claro, as ginjinhas servidas com o fruto dentro do copinho.

Uma pequena obra-prima da gastronomia portuguesa.

E se existe um lugar onde a ginjinha parece ganhar uma dimensão quase mágica, esse lugar é Óbidos.

A antiga cidade medieval cercada por muralhas.

Ruas de pedra.

Casas brancas.

Flores nas janelas.

E visitantes do mundo inteiro caminhando por um cenário que parece congelado no tempo.

Ali, beber uma ginjinha é quase um ritual.

Uma celebração da história.

Da cultura.

E dos sabores que atravessam gerações.

Hoje percebo que minha paixão pela cereja vai muito além da fruta.

Ela se tornou uma cápsula de memória.

Uma ponte entre continentes.

Entre épocas.

Entre pessoas.

Cada cereja que provo me lembra uma viagem.

Uma conversa.

Um verão.

Uma descoberta.

Talvez seja por isso que ela continua sendo minha fruta favorita.

Porque alguns sabores alimentam o corpo.

Mas outros alimentam a alma.

E poucas frutas conseguiram fazer isso comigo tão bem quanto a humilde e extraordinária cereja.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Uma tarde no zoo de Lisboa

Aventuras com o Barbinha no Zoologico


Nao sou o melhor pai do mundo, a bem da verdade queria ter aprendido a ser melhor pai, mas de todos os meus conhecimentos essa parte sou medíocre.

Depois do meu divorcio é ida para Italia, de tempos em tempos voltava a Portugal para visitar meu filho. E nosso programa principal é a ida ao jardim Zoológico de Lisboa.

Pena que as restrições de audio tiraram toda a graça do show com os leões marinhos.



Para aqueles que não conhecem o Zoológico de Lisboa é pequenino, porém muito rico em atraçoes, possui uma área de shows com golfinhos e leoes marinhos (acredito que as primeiras memorias divertidas do meu filho, foram feitas aqui ganhando beijos do leão marinho).

Outras atraçoes existentes são o teleférico que circula todo o perímetro, o show de aves exóticas, demonstração de animais e diversos cativeiros construídos da forma mais humana possível, tentando reproduzir o habitat natural.

A principal vantagem deste zoológico é sua posição estratégica ao lado de uma estação conjugada de Trem/Metro/Ónibus e estar próximo ao centro da cidade. Evitando com isso grandes deslocações e perda de tempo em transportes.

Na área externa existe uma grande praça de alimentação com diversos restaurantes, fliperamas e brinquedos para os miúdos, com muita sombra para repousar



segunda-feira, 17 de maio de 2010

Aventura do Barbinha no Aquário da Expo

Bellacosa Mainframe em uma tarde no Oceanario de Lisboa

Um Café no Bellacosa Mainframe

🐠 Aventura do Barbinha no Oceanário de Lisboa — Quando o Mundo Cabia Atrás de um Vidro

Ele tinha apenas dois anos. Para mim, aqueles enormes aquários já eram fascinantes. Para o pequeno Barbinha, porém, cada vidro parecia uma janela para outro mundo. Peixes, cores, movimentos e criaturas estranhas transformavam uma simples visita de fim de semana em uma verdadeira expedição entre pai e filho.

O Barbinha era — e continua sendo — um dos apelidos carinhosos que dei ao meu filho, Luís Renato. Às vezes também o chamava de Luigi.

Nesta gravação ele tinha apenas dois anos.

Morávamos em Portugal e uma das coisas que eu procurava fazer nos finais de semana era justamente sair com ele para conhecer alguma coisa diferente. Não precisava ser uma grande viagem ou uma aventura extraordinária.

A aventura podia estar ali mesmo, em Lisboa.

E poucas coisas eram tão fascinantes para nós dois quanto uma visita ao Oceanário de Lisboa.

Eu sempre gostei de peixes, aquários e vida marinha. Portanto, confesso que havia uma excelente desculpa paternal envolvida:

— Vamos levar o Barbinha ao Oceanário!

Claro.

Pelo desenvolvimento cultural da criança.

Absolutamente.

O fato de o pai também adorar aquilo era apenas uma feliz coincidência. 😄


🌊 Um pedaço da Expo 98 que continuava vivo

O Oceanário era um daqueles lugares especiais que Lisboa havia herdado da Expo 98.

A exposição terminou, os visitantes foram embora, o calendário avançou, mas aquele fabuloso edifício permaneceu como uma espécie de portal para os oceanos.

E nós aproveitávamos.

Sempre que podíamos, voltávamos.

Para um adulto, retornar ao mesmo lugar poderia parecer repetitivo.

Para uma criança de dois anos, não.

Naquela idade, praticamente tudo ainda estava sendo descoberto pela primeira vez.

E mesmo aquilo que já havia sido visto anteriormente podia ser novamente extraordinário.

Um peixe que na visita anterior passou despercebido agora chamava atenção.

Uma criatura escondida atrás de uma pedra aparecia.

Uma cor diferente surgia.

Um movimento inesperado acontecia.

E lá estava o Barbinha, pequenino diante daqueles enormes vidros, tentando compreender aquele universo líquido.

🐟 "Olha aquele!"

Uma das coisas mais divertidas era simplesmente acompanhar suas reações.

Os peixinhos.

Os peixões.

As criaturas estranhas.

Os movimentos dentro da água.

Cada tanque podia nos prender durante vários minutos.

Eu mostrava alguma coisa.

Ele encontrava outra.

Eu tentava explicar.

Ele observava.

Nós brincávamos.

Explorávamos.

Aprendíamos juntos.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das minhas lembranças mais importantes desses passeios.

Eu não queria simplesmente entretê-lo.

Queria alimentar aquela pequena curiosidade que estava começando a aparecer.

Uma criança de dois anos não precisa saber o nome científico de um peixe.

Não precisa decorar espécies.

Não precisa compreender ecossistemas.

Mas pode descobrir algo muito mais importante:

que o mundo é interessante.


🧠 Expandindo uma pequena mente

Eu procurava aproveitar aqueles momentos para expandir sua pequena mente.

Não no sentido de transformar cada passeio em uma aula formal.

Muito pelo contrário.

A aprendizagem acontecia justamente porque estávamos nos divertindo.

Era:

olhar, perguntar, apontar, descobrir, rir e procurar novamente.

A curiosidade vinha antes da explicação.

E acredito que isso faça uma diferença enorme.

Quando uma criança descobre que aprender pode ser divertido, qualquer lugar pode se transformar em uma sala de aula.

Um aquário.

Uma estação ferroviária.

Um museu.

Uma praça.

Uma floresta.

Uma rua.

Até uma poça d'água.

Na postagem original escrevi justamente sobre isso: o Barbinha parecia querer explorar cada pequena "pocinha de água".

E havia algo muito bonito naquele comportamento.

Para mim talvez fosse apenas mais um tanque.

Para ele, havia alguma coisa lá dentro.

E isso bastava para investigar.


👨‍👦 Pai e filho diante do oceano

Hoje, olhando novamente essas gravações, percebo que existe outra história acontecendo silenciosamente nas imagens.

Na época eu estava simplesmente vivendo aquilo.

Pegava a câmera e filmava meu filho.

Só isso.

Não imaginava necessariamente o valor que aqueles minutos teriam muitos anos depois.

Mas o vídeo acabou capturando algo que não aparece em nenhum guia turístico.

Capturou uma fase da nossa vida.

Um menino de dois anos.

Seu pai.

Um final de semana em Lisboa.

E algumas horas disponíveis para descobrir o mundo juntos.

Talvez por isso esses vídeos espalhados pelo blog tenham se tornado tão interessantes para mim.

Individualmente parecem pequenos registros.

Quando colocados juntos, porém, começam a formar uma espécie de arqueologia afetiva.

Aqui está o Barbinha no Oceanário.

Em outro vídeo estamos em outro passeio.

Depois existe outra aventura.

E mais outra.

Pequenos fragmentos de uma infância que continuou avançando enquanto a câmera registrava alguns segundos aqui e alguns minutos ali.

🐠 O aquário nunca era exatamente o mesmo

Visitamos o Oceanário outras vezes.

E isso também fazia parte da graça.

Eu gostava daquele lugar.

Luís gostava daquele lugar.

Então voltávamos.

Mas nunca fazíamos exatamente a mesma visita.

Essa talvez seja uma das coisas curiosas sobre aquários.

Você pode ficar olhando para o mesmo tanque durante dez minutos e ele nunca será exatamente igual.

Os animais estão se movimentando.

Um peixe desaparece.

Outro surge.

Alguma criatura que estava escondida resolve aparecer.

A luz muda.

Seu próprio olhar muda.

E quando você está acompanhado de uma criança, existe ainda outra variável:

ela enxerga coisas que você deixou de procurar.

O adulto entra em um ambiente e rapidamente classifica:

— Aquário.

A criança entra e pergunta silenciosamente:

— O que será que existe ali?

Existe uma diferença gigantesca entre as duas coisas.

👀 Talvez os adultos desaprendam a olhar

Foi algo que já me chamou atenção naquela época.

Nós, adultos, nos acostumamos com o extraordinário.

Um enorme tanque cheio de criaturas marinhas está diante de nós e, depois de alguns minutos, nosso cérebro começa a tratá-lo como cenário.

Uma criança ainda não desenvolveu completamente essa terrível habilidade.

Ela continua olhando.

Aproxima o rosto do vidro.

Segue um peixe.

Perde o peixe.

Procura novamente.

Encontra outro.

Aponta.

Chama o pai.

E recomeça tudo.

Talvez eu estivesse tentando ensinar coisas ao Barbinha.

Mas, pensando agora, provavelmente ele também estava me ensinando a olhar novamente.

🔎 Sempre havia um detalhe novo

Essa era uma das razões pelas quais gostávamos de voltar.

Sempre havia alguma coisa que não tínhamos percebido anteriormente.

Isso transformava cada visita numa pequena expedição.

Não existia aquela obrigação adulta de:

"Já fomos, portanto já conhecemos."

Conhecer não funciona assim.

Você pode visitar um lugar dez vezes e encontrar alguma coisa diferente na décima primeira.

Aliás, talvez isso também explique meu fascínio por exploração até hoje.

Existe sempre mais uma porta.

Mais um corredor.

Mais uma história.

Mais um detalhe.

Mais um peixe escondido atrás daquela pedra que ninguém tinha percebido.

🐡 A verdadeira aventura do Barbinha

Olhando hoje para o título que coloquei naquela postagem em 2010 — "Aventura do Barbinha no Aquário da Expo" — percebo que a palavra mais importante talvez seja justamente aventura.

Porque para uma criança de dois anos aquilo realmente era uma aventura.

Não havia monstros.

Não havia mapas secretos.

Não havia tesouros enterrados.

Mas havia um oceano inteiro atrás de enormes paredes de vidro.

E, quando se tem dois anos, isso é mais do que suficiente.

Talvez nós adultos compliquemos demais o significado da palavra aventura.

Às vezes aventura é simplesmente sair de casa segurando a mão do pai sem saber exatamente o que vai aparecer depois da próxima porta.

❤️ O que ficou daquela visita

A Expo 98 terminou.

Os anos passaram.

O Barbinha cresceu.

Luigi deixou de ser aquele pequenino de dois anos diante do aquário.

E eu também mudei.

Mas aquele menino continua existindo por alguns minutos dentro daquela gravação.

Continua olhando os peixes.

Continua explorando.

Continua descobrindo.

E eu continuo ali com ele.

É justamente por isso que gosto de recuperar essas antigas postagens do blog.

Não estou apenas recuperando vídeos.

Estou encontrando pequenos pedaços da nossa vida que ficaram estacionados no tempo.

Naquele final de semana em Lisboa, provavelmente achei que estava apenas levando meu filho para passear no Oceanário.

Hoje percebo que estava fazendo outra coisa.

Estávamos construindo memória.

Eu procurava cultivar nele a curiosidade, a apreciação pelas coisas, a vontade de descobrir, observar e aprender.

Queria mostrar ao meu pequeno Barbinha que havia um mundo gigantesco esperando para ser explorado.

E talvez essa seja uma das melhores coisas que um pai possa oferecer a um filho:

não todas as respostas,

mas a vontade de continuar fazendo perguntas.

Porque, quando você tem dois anos, um aquário pode conter um oceano.

E quando você aprende a conservar um pouco dessa curiosidade depois de adulto...

o mundo inteiro continua sendo um lugar enorme para explorar.


🥚 Easter egg Bellacosa

Anos depois eu passaria horas olhando telas cheias de jobs, programas COBOL, dumps, datasets e sistemas tentando encontrar aquele pequeno detalhe que ninguém tinha percebido.

Talvez a origem do método fosse muito mais antiga.

Talvez estivesse ali.

No Oceanário de Lisboa.

Ao lado de um menino de dois anos que olhava atentamente para uma "pocinha de água" porque tinha certeza de que ainda havia alguma coisa escondida lá dentro.

E quase sempre havia.

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Um dia diferente no aquário


Estamos no Oceanário de Lisboa na primeira visita do Barbinha, ele ficou encantado, explorando cada pocinha de agua, ficando maluquinho vendo os peixinhos e peixoes.



E curioso que nos adultos não olhamos com a mesma surpresa e satisfação que uma criança, é incrível pois tamanha maravilha deveria ser vista com olhos de crianças.

Milhares de litros d'agua imitando as características dos 7 mares, desde aguas frias do antárctico as aguas tropicais. Peixes, crustáceos e moluscos das mais diversas variedades.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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