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sábado, 13 de março de 2010

Hindsight Bias: Doctor Who, COBOL e o Dia em que Todo Mundo Sabia Depois que Aconteceu

Bellacosa Mainframe e o hindisight bias

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Hindsight Bias: Doctor Who, COBOL e o Dia em que Todo Mundo Sabia Depois que Aconteceu

Uma viagem pela TARDIS dos incidentes para entender por que o passado parece tão óbvio quando já conhecemos o final

14:32.

Produção parada.

Chamados chegando.

Gerente perguntando por previsão.

Operador olhando o console.

Programador olhando o operador.

DBA olhando o programador.

Todo mundo olhando o relógio.

E, como ocorre em qualquer incidente de respeitável pedigree corporativo, surge alguém que não participou das decisões anteriores e pronuncia a frase:

— Mas isso era óbvio.

Silêncio.

Uma frase simples.

Elegante.

Perigosa.

O programador COBOL iniciante olha para o colega.

— Era mesmo?

O colega dá de ombros.

— Agora parece.

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS surge discretamente no corredor.

A porta abre.

O Doctor sai, observa os gráficos, vê a linha vermelha atravessando a tela e pergunta:

— Quando vocês perceberam que isso iria acontecer?

Um gerente responde:

— Estava claro desde o começo.

O Doctor ergue uma sobrancelha.

— Interessante.

Olha para o relatório da manhã.

— Porque às oito horas ninguém parecia achar tão claro assim.

Eis nosso monstro da semana.


Hindsight Bias

Ou:

Viés Retrospectivo

O estranho fenômeno pelo qual o passado parece inevitável depois que já sabemos como ele terminou.


🌀 Antes de viajar, precisamos rever os dois episódios anteriores

Nossa TARDIS dos incidentes já passou por dois lugares importantes.

No primeiro episódio conhecemos o Swiss Cheese Model.

Aprendemos que sistemas complexos possuem várias barreiras.

Cada barreira possui falhas.

O desastre aparece quando os buracos se alinham.

Depois estudamos a Normalization of Deviance.

Descobrimos que organizações podem se acostumar a pequenos desvios.

Uma anomalia aparece.

Nada acontece.

Repete.

Nada acontece novamente.

Então o desvio deixa de parecer perigoso.

Agora chegamos a um terceiro problema.

Depois que o acidente acontece, nós olhamos para trás e pensamos:

“Como ninguém percebeu?”

Essa pergunta parece inteligente.

Às vezes é.

Mas frequentemente carrega uma armadilha cognitiva gigantesca.

Porque agora conhecemos o final.

As pessoas de antes não conheciam.


🧠 O que é Hindsight Bias?

Hindsight Bias é o viés cognitivo pelo qual, depois de conhecer um resultado, tendemos a acreditar que aquele resultado era mais previsível do que realmente era antes de acontecer.

Em português podemos encontrar expressões como:

  • viés retrospectivo;

  • viés de retrospectiva;

  • efeito “eu já sabia”;

  • fenômeno do “sabia que isso ia acontecer”.

A essência é:

ANTES:
“Existem várias possibilidades.”

DEPOIS:
“Era óbvio que terminaria assim.”

O conhecimento do resultado altera nossa memória sobre o que parecia provável anteriormente.

Isso é profundamente importante em investigação de incidentes.

Porque uma análise contaminada por hindsight bias pode transformar decisões razoáveis, tomadas com informação incompleta, em erros aparentemente absurdos.


🕰️ A TARDIS possui uma vantagem injusta

Imagine que o Doctor viaje para ontem.

Ele sabe que às 14:32 o sistema cairá.

Então, às 09:17, vê:

WARNING XYZ456

Para ele aquilo é imediatamente importante.

Por quê?

Porque ele conhece o futuro.

Mas o operador de ontem não conhece.

Para o operador, aquele warning pode estar entre outros cinquenta.

Talvez já tenha aparecido antes.

Talvez outros indicadores estejam normais.

Talvez haja um chamado prioritário em andamento.

Talvez não exista nenhuma ligação aparente entre aquele aviso e o incidente futuro.

Quem investiga depois possui uma vantagem extraordinária:

sabe quais pistas eram importantes.

Quem estava vivendo o evento não sabia.

Essa diferença muda tudo.


🔍 O famoso “era óbvio”

Vamos construir um incidente fictício.

09:10 — tempo de resposta aumenta 5%.

09:40 — uma fila cresce discretamente.

10:05 — operador recebe warning.

10:30 — job termina RC=04.

11:15 — volume volta ao normal.

12:20 — nova degradação.

13:50 — transações começam a falhar.

14:32 — indisponibilidade geral.

Depois do incidente, montamos a timeline.

Tudo fica maravilhoso.

A sequência parece quase cinematográfica.

09:10
   ↓
09:40
   ↓
10:05
   ↓
10:30
   ↓
12:20
   ↓
13:50
   ↓
14:32

E alguém diz:

— Está vendo? Os sinais estavam todos lá.

Sim.

Estavam.

Mas existe uma pergunta crucial:

Eles pareciam ligados naquele momento?

Talvez não.


🎯 O problema da seta vermelha

Existe uma ferramenta extremamente perigosa em post-mortems.

A seta.

Depois do evento fazemos:

WARNING
   ↓
FILA CRESCEU
   ↓
JOB LENTO
   ↓
ERRO
   ↓
INCIDENTE

Perfeito.

Só existe um problema.

Na vida real talvez houvesse cinquenta eventos simultâneos:

WARNING A
WARNING B
CPU NORMAL
REDE NORMAL
JOB X LENTO
JOB Y NORMAL
USUÁRIO RECLAMOU
USUÁRIO PAROU DE RECLAMAR
FILA CRESCEU
FILA DIMINUIU
RC=04
RC=00
ALERTA DE STORAGE
CHAMADO DE SENHA
DEPLOY EM OUTRO SISTEMA
...

Depois que sabemos o final, escolhemos os cinco eventos certos.

Criamos uma narrativa elegante.

Mas o operador real estava olhando para o caos completo.


☕ Bellacosa Mainframe e o poder enganoso do RC=04

Voltemos ao nosso velho amigo:

JOB04217 ENDED - RC=0004

Depois que descobrimos que o incidente estava ligado àquela condição, parece natural dizer:

— Era só investigar o RC=04.

Mas lembre-se do episódio anterior.

Talvez aquele RC=04 aparecesse havia meses.

Talvez centenas de vezes sem consequência.

Então o raciocínio do operador era:

RC=04 conhecido
+
nenhum efeito anterior
=
provavelmente baixo risco

Depois do incidente, nosso raciocínio muda:

RC=04
+
incidente conhecido
=
obviamente perigoso

Veja como o resultado altera a interpretação.


🧩 O quebra-cabeça depois de montado

Hindsight bias é parecido com olhar para um quebra-cabeça pronto e dizer:

— Era evidente onde cada peça deveria ficar.

Claro.

Você está olhando para a imagem completa.

Experimente receber 2.000 peças sem caixa.

Essa é a realidade operacional.


👨‍💻 Um exemplo COBOL

Imagine este código:

IF WS-STATUS = 'A'
    PERFORM PROCESSA-CONTA
ELSE
    PERFORM TRATA-EXCECAO
END-IF.

Meses depois ocorre um incidente porque apareceu:

WS-STATUS = SPACE

Após investigar, alguém comenta:

— Era óbvio que deveriam testar SPACE.

Agora parece.

Mas quando o programa foi desenvolvido talvez os requisitos dissessem:

STATUS:
A = ativo
I = inativo

Nenhum documento mencionava SPACE.

Nenhum arquivo de teste possuía SPACE.

Nenhuma interface deveria produzir SPACE.

Então precisamos perguntar:

com o conhecimento disponível naquele momento, era realmente óbvio?

Talvez sim.

Talvez não.

Essa distinção importa.


⚖️ Hindsight Bias não é desculpa para qualquer coisa

Aqui precisamos ser cuidadosos.

Evitar hindsight bias não significa dizer:

“Ninguém poderia saber de nada.”

Existem situações previsíveis.

Existem alertas claros.

Existem controles ignorados conscientemente.

Existem negligência e violação.

A ideia é outra:

julgar decisões usando as informações disponíveis quando foram tomadas, e não apenas o conhecimento adquirido depois do desastre.

Essa é uma das bases de uma investigação justa.


🧠 Outcome Bias: o primo perigoso

Existe um viés relacionado chamado outcome bias.

Ele acontece quando avaliamos a qualidade de uma decisão principalmente pelo resultado.

Imagine dois operadores.

Operador A toma uma decisão arriscada.

Nada acontece.

Resultado:

— Excelente.

Operador B toma exatamente a mesma decisão uma semana depois.

Sistema cai.

Resultado:

— Irresponsável.

Mas a decisão foi a mesma.

O resultado diferente não deveria alterar completamente nossa avaliação do processo decisório.

Isso conecta perfeitamente com a Normalization of Deviance.

Uma decisão arriscada que “funciona” repetidamente pode ganhar reputação de boa prática.

Até falhar.


🎲 Sorte mascarada de competência

Imagine:

deploy sem rollback testado.

Primeira vez funciona.

Segunda também.

Décima também.

Equipe conclui:

nosso processo funciona.

Talvez funcione.

Ou talvez tenhamos tido sorte dez vezes.

Na décima primeira ocorre problema.

Depois:

— Era irresponsável fazer deploy sem rollback.

Sim.

Mas então por que os dez deploys anteriores foram comemorados?

Esse contraste revela outcome bias.


🚀 Challenger novamente entra na TARDIS

Eventos como Challenger são frequentemente estudados justamente porque mostram como é fácil, depois do desastre, olhar sinais anteriores e julgá-los como obviamente precursores.

Mas quem estava tomando decisões naquele momento trabalhava dentro de uma estrutura de informação, pressões, experiências anteriores, modelos mentais e expectativas específicas.

Isso não absolve decisões ruins.

Mas melhora a qualidade da investigação.

Uma pergunta poderosa é:

O que fazia sentido para essas pessoas naquele momento?

Se compreendermos isso, conseguimos alterar o sistema.

Se apenas dissermos:

“Eles deveriam ter percebido.”

aprendemos muito pouco.


🧀 Swiss Cheese + Normalization + Hindsight

Agora nossos três episódios começam a se encaixar.

Episódio 1 — Swiss Cheese

Existem várias barreiras imperfeitas.

Episódio 2 — Normalization of Deviance

Alguns buracos passam a ser tolerados porque nunca produziram desastre.

Episódio 3 — Hindsight Bias

Depois que os buracos finalmente se alinham, parece óbvio que o acidente aconteceria.

Temos então uma ironia extraordinária:

ANTES DO INCIDENTE:
“Isso sempre acontece. Está tudo bem.”

DEPOIS DO INCIDENTE:
“Era óbvio que isso era perigoso.”

A mesma organização pode dizer as duas frases.

Com poucas horas de diferença.


👻 Easter Egg nº 1 — Spoilers

Em Doctor Who existe uma palavra perfeita para explicar hindsight bias:

Spoilers.

Imagine River Song analisando um incidente.

Ela possui o diário.

Sabe o que acontecerá.

Naturalmente tudo parecerá muito mais previsível.

Mas o operador não possuía o diário.

Essa talvez seja a melhor metáfora da nossa série.

Um investigador pós-incidente possui spoilers.

Quem estava na operação não.


🔎 Como investigar sem cair no Hindsight Bias

Agora vamos transformar tudo isso em prática.

Passo 1 — Congele o conhecimento no tempo

Durante a reconstrução, pergunte:

O que essa pessoa sabia exatamente às 09:17?

Não use informações descobertas às 15:00.

Se a causa raiz só foi conhecida depois, ela não pode ser usada para julgar uma decisão anterior como se já estivesse disponível.

Isso parece simples.

Na prática é difícil.


🕰️ Passo 2 — Construa uma timeline cognitiva

Não registre apenas eventos técnicos.

Registre conhecimento.

Exemplo:

09:10
CPU sobe 5%.

Informação conhecida:
ainda dentro do baseline.
09:40
Fila aumenta.

Informação conhecida:
picos semelhantes ocorreram anteriormente.
10:05
Warning XYZ.

Informação conhecida:
warning havia ocorrido 47 vezes sem impacto.
13:50
Primeiras falhas.

Informação conhecida:
agora existe correlação clara.

Isso é muito mais rico que uma simples linha do tempo.


🧠 Passo 3 — Pergunte pelas hipóteses concorrentes

Hoje sabemos:

storage causou o incidente.

Mas às 11:00 talvez existissem cinco hipóteses:

rede;

aplicação;

Db2;

storage;

volume inesperado.

Investigar hindsight bias significa preservar essas possibilidades.

Não finja que existia apenas uma.


📊 Passo 4 — Reconstrua o dashboard original

Excelente exercício.

Não mostre ao investigador apenas o gráfico onde a causa aparece.

Mostre exatamente o que o operador via.

Se havia 20 painéis, mostre 20.

Se existiam 300 alertas, considere isso.

Talvez a verdadeira causa seja:

sinal importante enterrado em ruído.

Isso é uma descoberta operacional valiosa.


👥 Passo 5 — Entrevistas sem acusação

Evite perguntas como:

“Por que você ignorou esse alerta?”

A palavra “ignorou” já contém julgamento.

Prefira:

“O que esse alerta significava para você naquele momento?”

Outra:

“Que outras informações você estava considerando?”

Outra:

“O que você esperava que acontecesse?”

Essas perguntas revelam modelo mental.

E modelos mentais são ouro em investigação de incidentes.


🧩 Passo 6 — Pergunte o que parecia normal

Isso conecta com nossa Normalization of Deviance.

Esse comportamento já havia acontecido?

Qual era a consequência histórica?

A equipe tinha motivos para considerá-lo benigno?

Talvez você descubra que o operador não negligenciou um warning.

Ele reagiu exatamente como a organização o treinou informalmente a reagir.

Essa diferença é gigantesca.


🚨 Passo 7 — Procure os sinais que eram realmente discriminantes

Nem todo sinal anterior era útil.

Depois do incidente conseguimos encontrar dezenas de anomalias.

Mas quais poderiam realisticamente indicar aquele problema?

Isso evita criar controles para qualquer variação imaginável.

Caso contrário, o resultado será:

mais alertas.

Mais ruído.

Mais alarm fatigue.

E, ironicamente, menos segurança.


🛠️ Passo 8 — Melhore o sistema, não apenas a memória das pessoas

Depois de um incidente ouvimos:

“Da próxima vez todos saberão.”

Talvez.

Por seis meses.

Depois as pessoas mudam.

Documentação envelhece.

Novos funcionários chegam.

Se o aprendizado depende exclusivamente de memória humana, não é robusto.

Transforme aprendizado em:

alertas melhores;

limites claros;

automação;

validação;

runbooks;

testes;

guardrails;

observabilidade;

design.


🔁 Passo 9 — Teste a correção contra o próximo incidente, não o anterior

Esse ponto é fantástico.

Depois de um desastre, organizações podem construir uma defesa extremamente específica contra exatamente o que aconteceu.

Exemplo:

incidente ocorreu porque arquivo veio com data 00000000.

Correção:

IF WS-DATA = ZERO
    ...
END-IF.

Ótimo.

Mas amanhã chega:

99999999

Ou:

20261345

A lição deveria ser:

validar datas.

Não apenas:

bloquear zeros.

Aprenda o padrão, não somente o caso.


🧪 Passo 10 — Faça pre-mortem

Existe uma técnica extraordinariamente útil chamada pre-mortem.

Antes de uma mudança importante, imagine:

“Estamos seis horas no futuro. O deploy falhou de forma espetacular. Por quê?”

Agora peça para a equipe listar possibilidades.

Isso reduz parte do efeito de excesso de confiança.

Exemplo:

Deploy falhou porque:
- volume real era maior;
- rollback não funcionou;
- dependência externa mudou;
- dataset encheu;
- certificado expirou;
- parâmetro errado foi promovido;
- tabela ficou bloqueada.

Você está usando imaginação preventiva.

Quase uma TARDIS sem TARDIS.


🕵️ O iniciante COBOL pode ser extremamente valioso

Existe uma vantagem curiosa em ser iniciante.

Você ainda faz perguntas.

Veterano:

— Sempre termina RC=04.

Iniciante:

— Por quê?

Veterano:

— Porque sempre termina.

Iniciante:

— Sim, mas por quê?

Essa segunda pergunta pode salvar produção.

Não confunda experiência com infalibilidade.

E não confunda ingenuidade com inutilidade.

Às vezes quem chegou ontem consegue enxergar uma suposição invisível para quem está há vinte anos no ambiente.


☕ A pergunta Bellacosa

Quando alguém disser:

“Era óbvio.”

Pergunte:

“Era óbvio antes ou ficou óbvio depois?”

Essa pergunta deveria entrar em todo post-mortem.

Porque obriga o grupo a separar:

previsibilidade real;

conhecimento retrospectivo.


📚 Curiosidade: nossos cérebros reescrevem narrativas

Seres humanos gostam de histórias coerentes.

Depois de saber o resultado, reorganizamos eventos anteriores em uma narrativa que faça sentido.

O problema é que sistemas complexos não acontecem como romances policiais.

A realidade possui:

ruído;

informação incompleta;

dados contraditórios;

decisões simultâneas;

prioridades conflitantes.

O post-mortem, entretanto, tende a transformar tudo em uma linha elegante.

Cuidado com narrativas elegantes demais.

A realidade costuma ser mais bagunçada.


🕸️ Sistemas complexos possuem muitos futuros possíveis

Às 09:00 talvez existissem vários futuros:

A → sistema normaliza sozinho
B → operador corrige
C → alerta desaparece
D → degradação continua
E → incidente grave

Depois que E acontece, nossa mente tende a apagar A, B, C e D.

Parece que E sempre foi destino.

Não era.

Era uma possibilidade.

Essa distinção é fundamental para entender risco.


🎯 Previsão não é retrospectiva

Existe uma diferença enorme entre dizer:

“Eu teria previsto.”

e realmente possuir uma previsão registrada antes.

Quer testar?

Antes de uma mudança, escreva riscos.

Depois compare.

Você descobrirá algo humilhante e maravilhoso:

somos muito menos profetas do que imaginamos.


📝 Diário de previsões

Uma técnica interessante para equipes maduras:

antes de grandes mudanças, registre:

  • riscos esperados;

  • sinais esperados;

  • probabilidades;

  • pontos de rollback;

  • critérios de abortar.

Depois do evento, compare.

Isso reduz a ilusão:

“Nós sabíamos.”

Se sabíamos, deveria existir algum registro.


👽 Easter Egg nº 2 — O Dalek pós-mortem

Imagine um Dalek participando do post-mortem.

Provavelmente sua análise seria:

EXTERMINATE!
EXTERMINATE!
OPERATOR ERROR!
EXTERMINATE!

Muito eficiente.

Pouquíssimo aprendizado.

Infelizmente, algumas organizações fazem algo semelhante.

Apenas com PowerPoint.


⚖️ Blameless Post-Mortem novamente

Nossa série está construindo uma filosofia.

Blameless não significa:

ninguém erra.

Significa:

queremos compreender por que a decisão parecia razoável naquele contexto.

Se encontramos dolo ou negligência grave, tratamos.

Mas se encontramos uma pessoa agindo de acordo com incentivos, ferramentas e conhecimento disponíveis, precisamos melhorar o sistema.

Caso contrário trocamos a pessoa.

E preservamos o incidente.


🧯 A diferença entre causa e gatilho

Muitos post-mortems confundem essas coisas.

Exemplo:

Comando errado
   ↓
incidente

Comando errado foi o gatilho.

Mas talvez existissem:

permissão excessiva;

interface confusa;

ausência de dupla confirmação;

pressão;

procedimento incompleto;

falta de rollback;

ambiente parecido com homologação.

A pergunta útil não é apenas:

Quem puxou o gatilho?

É:

Por que havia uma arma carregada apontada para produção?


🧠 Hindsight Bias na gestão

Imagine um projeto.

Equipe alerta:

Existe 20% de risco de atraso.

Projeto atrasa.

Diretor:

— Eu sabia que atrasaria.

Talvez.

Mas se terminasse no prazo, provavelmente ninguém diria:

— Eu sabia que havia 20% de risco.

Probabilidade desaparece depois do resultado.

Isso acontece em:

projetos;

segurança;

finanças;

medicina;

engenharia;

operações.

Nosso cérebro prefere certezas retrospectivas.


🔍 Como detectar Hindsight Bias numa reunião

Escute estas frases:

“Era óbvio.”

“Qualquer um perceberia.”

“Isso inevitavelmente aconteceria.”

“Como ninguém viu?”

“Eu sempre disse.”

“Bastava olhar.”

Pare.

Pergunte:

Qual informação estava disponível antes?

Depois:

Quem realmente identificou isso antes?

Depois:

Essa preocupação estava registrada?

Agora começamos a separar percepção real de memória reconstruída.


🧬 Regeneração organizacional

No final de cada episódio nossa organização precisa regenerar.

No caso do Hindsight Bias, regeneração significa mudar a pergunta.

Em vez de:

“Quem deveria ter sabido?”

pergunte:

“Como podemos tornar esse risco mais perceptível no futuro?”

Em vez de:

“Por que ele não viu?”

pergunte:

“Como a informação estava apresentada?”

Em vez de:

“Era óbvio.”

pergunte:

“O que tornaria isso óbvio antes?”

Essa última pergunta é maravilhosa.

Porque transforma julgamento em engenharia.


📓 Diário do Doctor

Se você lembrar apenas algumas coisas desta viagem, guarde estas:

Hindsight Bias faz o passado parecer mais previsível depois que conhecemos o resultado.

Investigadores possuem spoilers; operadores não.

Uma timeline pós-incidente pode criar uma narrativa muito mais clara do que a realidade original.

Decisões precisam ser avaliadas usando informações disponíveis naquele momento.

Resultado ruim não significa automaticamente decisão ruim.

Resultado bom não significa automaticamente decisão boa.

Pergunte quais hipóteses concorrentes existiam.

Reconstrua o que a pessoa realmente via.

Evite transformar “erro humano” em ponto final.

Transforme conhecimento retrospectivo em melhores mecanismos futuros.

E, principalmente:

Nunca confunda “agora eu entendo” com “antes era óbvio”.


🕰️ De volta às 08:17

O Doctor entra na TARDIS.

Nosso programador COBOL o acompanha.

— Podemos voltar para antes do incidente?

— Claro.

VWORP.

VWORP.

VWORP.

08:17.

Console normal.

Produção funcionando.

Na tela:

WARNING XYZ456

O programador aponta.

— Está ali!

— Sim.

— Então era óbvio!

O Doctor aponta para outra tela.

WARNING ABC122
WARNING TYU991
RC=04
QUEUE +3%
CPU +2%
STORAGE NORMAL
NETWORK NORMAL

Depois outra.

Mais dezenas de mensagens.

Chamados.

Emails.

Mudanças.

Processamentos.

O jovem fica quieto.

O Doctor pergunta:

— Ainda parece óbvio?

— Menos.

— Excelente.

— Então ninguém poderia perceber?

— Não foi isso que eu disse.

O Doctor sorri.

— Nossa tarefa é descobrir o que teria tornado aquela pista distinguível das outras.

Eles voltam para a TARDIS.

Antes de fechar a porta, o Doctor olha novamente para o console.

— Ah, e mais uma coisa.

— O quê?

— Cuidado com qualquer post-mortem em que tudo pareça fazer sentido demais.

A porta fecha.

VWORP.

VWORP.

VWORP.


🥚 Easter Egg final

Horas depois, nosso programador abre um dataset antigo chamado:

BELLACOSA.INCIDENTS.TIMELORD

Dentro existe apenas:

IF YOU ALREADY KNOW THE END
    EVERYTHING LOOKS OBVIOUS
END-IF.

Ele procura quem criou o membro.

O RACF mostra:

USERID: RSONG

Estranho.

A conta não existe há anos.

No comentário final existe apenas:

* SPOILERS.

O telefone toca.

É produção.

Outro alerta apareceu.

Nosso jovem programador olha para ele.

Dessa vez não pergunta:

“Isso vai causar incidente?”

Pergunta algo muito melhor:

“O que sabemos agora, sem usar o futuro para completar a história?”

E talvez seja assim que profissionais começam realmente a aprender com falhas.

Não tentando provar que poderiam prever o passado.

Mas construindo sistemas capazes de perceber melhor o futuro.

☕🌀

Next stop: Confirmation Bias — quando começamos a investigação procurando evidências de que nossa primeira teoria estava certa… e ignoramos educadamente todo o resto.


domingo, 7 de março de 2010

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

 

Bellacosa Mainframe e as memorias de infância em Urupês

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

Se Ibitinga foi meu laboratório de aventuras, Urupês foi meu estaleiro de horizontes — aquela fase da vida em que o menino paulistano, criado entre filmes, fotos, câmeras e luzes, descobria que existia um mundo inteiro além da cinzenta e opressora capital paulista.

O caminho até Urupês já era um acontecimento. Estradas vazias, quase hipnotizantes, com apenas o ronco do fusquinha vermelho (aquele guerreiro 1960 que enfrentava cascalho, poeira, barro e buracos como se fosse um tanque de guerra miniaturizado). As cidades dormiam ao redor da estrada. Só o vento, o sol e algum caminhoneiro perdido sabiam que vocês passavam por ali.

E ali, naquele pequeno ponto no mapa do Noroeste paulista, ficavam os parentes espanhóis espalhados, meio raiz, meio lenda, sempre com a oficina de tratores como um farol, uma fazenda ou uma história para contar.
Tinha o primo Eduardo da oficina de tratores, tinha o velho Wilson, meu pai, naquela época moço na casa dos trinta anos, uma figura única, boa praça, carismático, sarrista, centro das atenções onde estivesse, um contador de causos, de piadas e de vergonhas alheias — inclusive aquela famosa e indecente do vereador e o galinheiro, que você jura que um dia vai contar.

Mas o que pega na memória mesmo não é o povo — é o ambiente.


Urupês tinha cheiro.

Cheiro de lenha queimada no fogão, cheiro de terra molhada depois da chuva, cheiro de curral, de capim amassado pelo cascos dos bois.

Urupês tinha sons.

O bater da chuva no telhado sem forro.
O rangido dos móveis antigos.
O canto enlouquecido das maritacas.
O mugir manso do gado.
E o coro dos grilos ao entardecer, aquele som que parecia dizer:
Fica mais, menino. Você não precisa ir embora tão cedo.



Urupês tinha perigos.

Perigos verdadeiros, naturais, selvagens, como a galinha choca possuída pelo demônio que me perseguiu quintal adentro, defendendo o pintainho que achei que podia pegar como quem pega um brinquedo.
Ali você aprendi rápido o conceito de “instinto maternal”, “risco de vida” e “corre senão ela te acerta”.

Urupês tinha magia.

Calhambeques semi-abandonados que se tornavam naves espaciais.
Café colhido na hora, seco no rancho, torrado e moido.
Riachos que viravam mundos.
Ninhos de joão-de-barro que pareciam pequenas cidades.
Tucanos, maritacas e papagaios que faziam mais barulho que o trânsito de São Paulo.
Cavalos que pareciam saídos de livros de aventura.

E o mais importante:


Urupês te deu dimensão.

Me fez perceber que meu mundo era muito maior que o quarteirão cinzento da cidade grande.
Que existia um mundo imenso além da Vila Rio Branco na Ponte Rasa.

Que fronteiras não eram paredes.
Que horizontes eram convites.

Talvez tenha sido ali — entre poeira, galinha furiosa, cheiro de lenha e viagens intermináveis — que nasceu a minha vocação de não aceitar limites.
De ser alguém sempre em movimento, buscando, aprendendo, explorando, criando.

Um menino que viu o mundo se abrir em quilômetros antes de se abrir em mãos.

E Urupês, assim como Ibitinga, ficou marcado no meu peito como essas memórias que aquecem em dia frio e lembram:
Sim, eu vim daqui. Eu me fiz aqui. E tudo isso ainda vive em mim.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

 

Bellacosa Mainframe e o jornal noticias populares

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

🩸 Crime, sexo, Bebê-Diabo, ditadura, censura, bancas, manchetes impossíveis e a extraordinária história do jornal que transformou São Paulo num filme de Quentin Tarantino décadas antes de Tarantino filmar Pulp Fiction

Imagine, jovem padawan do COBOL, que você saiu do trabalho em 1987.

Não existe smartphone.

Não existe Google.

Não existe X.

Não existe Instagram.

Não existe portal de notícias.

Não existe WhatsApp.

E, evidentemente, ninguém recebeu ainda no grupo da família um vídeo de procedência duvidosa acompanhado da mensagem:

URGENTE!!! REPASSEM ANTES QUE APAGUEM!!!

Para descobrir o que aconteceu no mundo, você passa diante de uma banca de jornal.

E ali está o algoritmo de recomendação de 1987.

Só que feito de madeira, metal, barbante e pregadores.

Dezenas de jornais e revistas estão expostos. Alguns pendurados. Outros sobrepostos. As capas disputam fisicamente alguns centímetros do seu campo de visão.

Folha.

Estadão.

Jornal da Tarde.

Gazeta Esportiva.

Revistas.

Quadrinhos.

E então aparece uma coisa que parece ter sido diagramada por alguém que misturou jornalismo policial, filme B, programa de auditório, revista masculina, conversa de boteco e uma quantidade preocupante de café.

NOTÍCIAS POPULARES.

O NP.

Você não precisava comprar.

Bastava enxergar a manchete.

E a manchete praticamente agarrava você pelo colarinho.

O jornal circulou de 1963 a 2001 e ficou marcado justamente pela combinação de textos curtos, muitas fotografias e títulos de enorme impacto. Em sua fase clássica, crime, sexo, violência, escatologia, celebridades, futebol e acontecimentos sobrenaturais conviviam alegremente no mesmo produto editorial.

Se Quentin Tarantino tivesse nascido no Brás e trabalhado como repórter policial antes de dirigir cinema, talvez alguma coisa parecida tivesse acontecido.

Só faltava Samuel L. Jackson entrar na redação e perguntar:

E o fechamento, motherf...?


CAPÍTULO I — ERA UMA VEZ UMA INTERNET DE PAPEL

Para compreender o Notícias Populares é preciso cometer um erro muito comum em manutenção de legado:

não analisar o programa sem analisar o ambiente em que ele executava.

Um COBOL de 1973 parece estranho quando retirado de seu contexto.

O NP também.

O Brasil que viu o jornal nascer, em 15 de outubro de 1963, era muito diferente do Brasil digital.

A televisão estava crescendo.

O rádio tinha enorme importância.

O país atravessava urbanização acelerada.

Milhares de pessoas migravam para grandes centros industriais.

São Paulo crescia violentamente.

Havia trabalhadores com pouca escolarização formal e enormes desigualdades educacionais.

Aqui vale corrigir uma simplificação importante.

Não seria justo dizer simplesmente:

“O NP existia porque o povo brasileiro não sabia ler.”

Não.

O fenômeno é mais interessante.

Existiam índices elevados de analfabetismo e escolarização limitada, mas também existia uma enorme população leitora com diferentes graus de letramento, habituada a formas mais diretas e orais de comunicação.

O NP compreendeu isso extraordinariamente bem.

Ele reduziu a complexidade sintática.

Usou títulos enormes.

Preferiu frases curtas.

Explorou fotografias.

Empregou vocabulário cotidiano.

Transformou assuntos complexos em narrativas.

Em linguagem de sistemas:

INPUT:
acontecimento complexo

PROCESS:
simplificação
personificação
emoção
imagem
humor
sexo
violência
curiosidade

OUTPUT:
MANCHETE IMPOSSÍVEL DE IGNORAR

Isso também explica por que chamar seu público simplesmente de “ignorante” seria perder justamente a parte mais interessante da história.

O leitor do NP podia ter pouca educação formal e, ao mesmo tempo, possuir enorme conhecimento prático do trabalho, da cidade, do transporte, do sindicato, do futebol e da sobrevivência urbana.

O jornal aprendeu a falar a língua desse público.


CAPÍTULO II — O NASCIMENTO ÀS VÉSPERAS DO GOLPE

Aqui a história fica politicamente muito mais interessante.

O NP foi lançado em 1963 pelo empresário Herbert Levy, tendo Jean Mellé como figura fundamental de sua concepção e primeira direção editorial. A intenção original envolvia disputar o público popular da Última Hora, jornal associado a Samuel Wainer e ao campo político ligado ao trabalhismo. Fontes históricas descrevem o projeto inicial como uma tentativa de criar um jornal popular politicamente conservador.

E olhe a data:

1963.

Um ano antes do golpe militar de 1964.

O Brasil fervia.

João Goulart.

Reformas de Base.

Movimento sindical.

Guerra Fria.

Anticomunismo.

Conflitos empresariais.

Estados Unidos e União Soviética disputando influência mundial.

As Forças Armadas no centro da crise.

E havia a Última Hora falando diretamente com parcelas populares.

A ideia era disputar esse espaço.

Só que aconteceu uma coisa deliciosamente digna de sistema legado.

O requisito original perdeu importância.

O produto sobreviveu.

Depois do golpe de 1964, aquele propósito político inicial tornou-se menos necessário. Em 1965, o jornal passou para o controle do grupo que viria a constituir o Grupo Folha.

É o equivalente jornalístico de:

* ESTA ROTINA FOI CRIADA PARA UMA REGRA DE 1963.
* A REGRA NÃO EXISTE MAIS.
* A ROTINA CONTINUA SENDO EXECUTADA.

Todo COBOLzeiro imediatamente se sente em casa.


CAPÍTULO III — IMPRENSA AMARELA NÃO É LISTA TELEFÔNICA

Quando falamos em imprensa amarela, não estamos falando das antigas Páginas Amarelas do telefone.

Estamos falando de yellow journalism ou yellow press.

O conceito nasceu ligado à imprensa sensacionalista de grande circulação: manchetes enormes, acontecimentos dramáticos, crimes, escândalos, histórias humanas, sexo, curiosidades e exploração emocional.

No Brasil popularizou-se também a expressão:

imprensa marrom.

A tradição remonta à penny press e à yellow press do século XIX e reaparece em diferentes formatos no jornalismo popular brasileiro.

O NP levou a fórmula a um nível quase industrial.

Se fosse arquitetura de software:

NOTÍCIA
   |
   +--> medo
   |
   +--> sexo
   |
   +--> curiosidade
   |
   +--> indignação
   |
   +--> humor
   |
   +--> identificação popular
   |
   +--> MANCHETE

Era um engagement engine analógico.


CAPÍTULO IV — O ALGORITMO ERA A BANCA

Aqui está uma coisa que uma geração criada com celulares talvez tenha dificuldade de visualizar.

A banca de jornal era uma interface gráfica urbana.

E era maravilhosa.

Havia revistas penduradas.

Jornais dobrados.

Capas sobrepostas.

Publicações presas em varais e expositores.

Gente esperando ônibus.

Gente saindo do trabalho.

Gente parando alguns minutos.

Gente que não comprava absolutamente nada, mas lia todas as manchetes disponíveis.

Era o Google News da calçada.

O jornaleiro era o algoritmo.

— Chegou aquela revista?

— Chegou.

— Tem jornal do concurso?

— Ali.

— Saiu o resultado do jogo?

— Primeira página.

E havia um fenômeno importantíssimo:

uma única cópia tinha dezenas de leitores visuais.

Hoje contamos pageviews.

Na banca, ninguém sabia quantos olhos haviam processado uma capa.

O NP compreendeu perfeitamente essa economia da atenção.

Sua primeira página precisava funcionar a cinco metros de distância.

Isso significa:

tipografia enorme + fotografia + poucas palavras + emoção.

É praticamente a ciência moderna da thumbnail do YouTube aplicada em papel-jornal.


CAPÍTULO V — TARANTINO ENTRA NA REDAÇÃO

Agora imaginemos Quentin Tarantino analisando uma pilha de Notícias Populares.

Ele provavelmente reconheceria imediatamente vários elementos de sua própria gramática cinematográfica.

Violência exagerada.

Humor dentro da tragédia.

Personagens marginais.

Sexo.

Grotesco.

Cultura popular.

Diálogos aparentemente absurdos.

Criminalidade.

Situações inacreditáveis.

O extraordinário misturado ao cotidiano.

Uma pessoa pega o ônibus.

Outra mata o vizinho.

Outra encontra um lobisomem.

Uma celebridade desapareceu.

Alguém viu um disco voador.

Uma mulher está seminua na contracapa.

O Corinthians perdeu.

Tudo pertence ao mesmo universo narrativo.

É quase:

Pulp Journalism.


CAPÍTULO VI — AS MANCHETES

Algumas manchetes tornaram-se parte do folclore jornalístico brasileiro.

Uma das mais famosas foi:

“Nasceu o Diabo em São Paulo”

Apareceu em 1975 e iniciou a lendária saga do Bebê-Diabo. O sucesso foi tão grande que a história continuou durante várias edições, transformando uma narrativa inicialmente ligada ao nascimento de uma criança com deformidades em uma verdadeira novela sobrenatural.

Outra manchete documentada pela própria história do jornal:

“Violada em pleno auditório”

O contexto?

Sérgio Ricardo havia quebrado o violão durante o Festival de Música Popular Brasileira de 1967.

O “violado” era o violão.

A construção deliberadamente ambígua fazia o resto.

Também apareceu:

“Desapareceu Roberto Carlos”

O contato com o cantor não havia sido conseguido nos Estados Unidos, e a história ganhou dimensão espetacular.

Havia ainda lobisomens, discos voadores, crimes improváveis, histórias sexuais e personagens urbanos transformados em celebridades instantâneas. O acervo histórico preserva, por exemplo, uma primeira página de 1974 dedicada a um suposto lobisomem pernambucano.

O NP compreendia algo fundamental:

a manchete não precisava contar a história inteira.

Precisava obrigar você a executar:

READ NEXT RECORD

CAPÍTULO VII — O BEBÊ-DIABO ERA O CLICKBAIT ANTES DO CLICK

O Bebê-Diabo merece uma parada especial.

A capa anuncia:

NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO.

Venda espetacular.

E alguém percebe:

— Meu Deus.

— O quê?

— Vendeu tudo.

— Então o Diabo volta amanhã.

E voltou.

A criatura passou a protagonizar novas histórias.

Aparecia aqui.

Desaparecia ali.

Assustava gente.

Era visto em telhados.

Pegava táxi.

A narrativa continuou por semanas. A história acabou reconhecida como uma construção ficcional da redação e tornou-se talvez o exemplo máximo da mistura de jornalismo, folclore urbano e entretenimento que caracterizou o NP.

Hoje chamaríamos isso de:

retenção de audiência.

Ou:

story arc.

Ou:

conteúdo serializado.

Em 1975:

vende jornal pra cacete.


CAPÍTULO VIII — CRIME: ESPREME QUE SAI SANGUE

A fama do NP também vinha de sua cobertura policial.

Assassinatos.

Acidentes.

Corpos.

Criminosos.

Vítimas.

Delegacias.

Tragédias.

A violência podia aparecer de maneira gráfica que dificilmente seria aceita por muitos veículos generalistas atuais.

Essa estética produziu a célebre descrição:

“espreme que sai sangue”.

Mas há uma contradição importante.

A cobertura policial também dava visibilidade a personagens que raramente apareciam nas páginas nobres da grande imprensa.

Operário.

Empregada doméstica.

Morador da periferia.

Desempregado.

Prostituta.

Motorista.

Pequeno comerciante.

Migrante.

Criminoso de bairro.

Vítima desconhecida.

Era frequentemente uma representação brutal e exploratória.

Mas era representação.

O sujeito que jamais apareceria na coluna social podia ocupar meia primeira página do NP.


CAPÍTULO IX — SEXO VENDE. E O NP SABIA.

E chegamos ao subsistema que provavelmente teria recebido:

PROGRAM-ID. SEX-SELLS.

O NP utilizou extensamente erotismo.

Mulheres seminuas.

Nudez.

Modelos.

Atrizes.

Histórias sexuais.

Duplo sentido.

Escândalos amorosos.

Personagens sexualizados.

Em determinadas fases, mulheres nuas ou seminuas na contracapa tornaram-se parte reconhecível da fórmula editorial. Décadas depois, reproduções históricas dessas capas chegaram a enfrentar moderação automática nas redes sociais justamente por conter nudez.

Isso também revela uma mudança cultural enorme.

Aquilo que podia ficar pendurado numa banca no meio da rua, visível a qualquer transeunte, posteriormente poderia ser removido de uma plataforma digital.

A censura mudou de arquitetura.

Antes:

ESTADO
   |
CENSOR
   |
JORNAL

Hoje pode existir:

PLATAFORMA
   |
POLÍTICA DE CONTEÚDO
   |
ALGORITMO
   |
POST

Mudamos o middleware.

A discussão permaneceu.


CAPÍTULO X — DITADURA, CENSURA E A GRANDE CONTRADIÇÃO

O NP atravessou praticamente todo o regime militar brasileiro de 1964 a 1985.

E isso torna sua história fascinante.

Durante a ditadura, a imprensa brasileira conviveu com censura, pressões políticas, autocensura e perseguição a jornalistas.

Mas jornais não foram afetados exatamente da mesma maneira.

E o NP possuía uma característica peculiar.

Grande parte de sua energia editorial estava direcionada para:

crime, sexo, celebridades, futebol, bizarrices e cotidiano.

Enquanto jornais políticos podiam travar batalhas sobre governo, economia e repressão, o NP podia colocar um lobisomem na capa.

Há aqui uma ironia quase tarantinesca:

em um país onde determinados assuntos políticos eram perigosos demais para imprimir, um Bebê-Diabo podia tornar-se protagonista nacional.

Isso não significa que o jornal estivesse fora do sistema político ou imune à censura.

Significa que seu modelo editorial ocupava um espaço diferente.


CAPÍTULO XI — MAS QUEM CENSURA O MAU GOSTO?

Depois aparece outra discussão.

Não censura política.

Censura moral.

Até onde um jornal pode mostrar um cadáver?

Até onde pode explorar sexualmente uma capa?

Até onde pode publicar nudez?

Até onde pode transformar sofrimento humano em entretenimento?

Em 1994, a própria Folha registrava que o NP havia vencido disputas judiciais contra tentativas de obrigá-lo a circular lacrado, enquanto enfrentava outras controvérsias judiciais relacionadas ao conteúdo publicado.

Essa discussão continua atualíssima.

Troque:

banca

por:

timeline

e o problema reaparece.

Quem decide?

O Estado?

A plataforma?

O editor?

O algoritmo?

O leitor?


CAPÍTULO XII — HUMOR: O COMPONENTE QUE MUITA GENTE ESQUECE

Quem reduz o NP apenas a sangue e mulheres nuas perde uma característica fundamental:

ele podia ser tremendamente engraçado.

Às vezes propositalmente.

Às vezes involuntariamente.

Às vezes não havia sequer como saber.

O título possuía ritmo de piada.

Preparação.

Suspense.

Punchline.

A realidade era convertida em espetáculo linguístico.

Era quase uma tradição de boteco aplicada ao jornalismo.

O leitor podia pensar simultaneamente:

— Isso é horrível.

— Isso é absurdo.

— Isso não pode ser verdade.

— HAHAHAHAHAHAHA.

— Quanto custa?

Essa combinação é profundamente tarantinesca.

Você ri de alguma coisa da qual talvez não devesse rir.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL TAMBÉM ERA SERVIÇO

Mas existe outro NP escondido atrás do Bebê-Diabo.

O jornal do trabalhador.

Emprego.

Sindicato.

Transporte.

Problemas urbanos.

Futebol.

Serviços.

Histórias dos bairros.

Problemas que afetavam diretamente as classes populares.

Essa dimensão é importante porque impede uma caricatura fácil.

O NP não era simplesmente:

CRIME + PEITO + DEMÔNIO

Era uma mistura muito mais complicada de jornalismo popular, serviço, entretenimento, sensacionalismo e exploração comercial da curiosidade humana.

Essa ambiguidade explica parte de sua longevidade.


CAPÍTULO XIV — 113 MIL EXEMPLARES

O negócio funcionou.

E muito.

Em 1986, a circulação média chegou a aproximadamente 113 mil exemplares diários.

Depois caiu para 71 mil em 1988.

Uma reforma gráfica e editorial iniciada em 1990 recuperou público, levando novamente a circulação para cerca de 104 mil exemplares naquele ano.

Observe o detalhe.

Não estamos falando de impressão de página web.

Cada exemplar precisava:

ser impresso,

dobrado,

empacotado,

transportado,

distribuído,

entregue à banca

e finalmente comprado.

Era uma infraestrutura física monstruosa.


CAPÍTULO XV — AS BANCAS ERAM AS REDES SOCIAIS

Imagine uma manhã em São Paulo.

Ônibus chegando.

Gente atravessando rua.

Café.

Cigarro.

Buzina.

Jornaleiro abrindo pacotes.

Os jornais são colocados no varal.

Um sujeito para.

Outro olha por cima do ombro.

Outro comenta:

— Você viu isso?

Pronto.

Temos:

POST       = capa
FEED       = banca
LIKE       = comentário
SHARE      = contar para colega
TRENDING   = multidão olhando
ALGORITHM  = jornaleiro
CLICK      = comprar

E havia algo maravilhoso:

o lurker analógico.

O cidadão que lia todas as manchetes e jamais comprava jornal algum.

O terror do modelo de monetização desde 1972.


CAPÍTULO XVI — TARANTINO ENCONTRA O NP

Agora podemos voltar ao nosso diretor imaginário.

Tarantino provavelmente compreenderia o Notícias Populares porque ambos trabalham com uma pergunta semelhante:

Até onde podemos levar a cultura popular antes que ela se transforme em grotesco?

Em Tarantino, a violência pode ser horrível e engraçada.

No NP também.

O sexo pode ser desejo, exploração e piada.

No NP também.

O criminoso pode virar personagem.

No NP também.

O absurdo pode coexistir com acontecimentos reais.

No NP também.

E principalmente:

ninguém está tentando parecer elegante.

O produto assume sua vulgaridade.

Isso é fundamental.

O NP não queria parecer o New York Times.

Ele queria que você parasse diante da banca.


CAPÍTULO XVII — ENTÃO VEIO A TELEVISÃO E ROUBOU O CÓDIGO-FONTE

Nos anos 1990 apareceu um concorrente devastador.

A televisão percebeu:

— Espera aí.

Crime funciona.

Tragédia funciona.

Perseguição funciona.

Repórter gritando funciona.

Popular funciona.

Programas como Aqui Agora levaram parte dessa estética para a televisão.

Depois outros programas policiais continuaram explorando a fórmula.

O que antes precisava ser imaginado através de uma fotografia agora aparecia:

em movimento.

Com som.

Sirene.

Repórter.

Helicóptero.

Ao vivo.

O NP encontrou um problema clássico de TI:

sua interface foi copiada por uma plataforma tecnologicamente mais atraente.


CAPÍTULO XVIII — O FIM

Em 20 de janeiro de 2001, saiu a última edição.

A circulação havia despencado para cerca de 20 mil exemplares diários.

Para comparar:

1986:

113.000

2001:

20.000

O Grupo Folha decidiu concentrar seu jornalismo popular no Agora São Paulo, que naquele momento circulava aproximadamente 118 mil exemplares por dia. A direção afirmou que o modelo do NP havia se esgotado.

Também pesavam a dificuldade comercial, a resistência de anunciantes, mudanças no mercado e a concorrência de novas formas de jornalismo popular.

O processo vinha ocorrendo havia anos:

1994 — 99 mil.

1996 — 74 mil.

1998 — 48 mil.

2001 — 20 mil.

O batch estava morrendo lentamente.

Até alguém executar:

//NP      JOB
//STEP01  EXEC PGM=ENCERRA
//SYSOUT  DD SYSOUT=*
//

RC=0000

37 anos.

Fim.


CAPÍTULO XIX — OU TALVEZ NÃO

Porque aqui está o maior easter egg desta história.

O Notícias Populares morreu?

O jornal, sim.

A arquitetura?

HAHAHAHAHAHA.

Não.

Olhe sua timeline.

URGENTE!

CHOCANTE!

VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!

VEJA O QUE ACONTECEU!

IMAGENS FORTES!

POLÊMICA!

BOMBA!

ABSURDO!

Reconheceu?

O NP não desapareceu.

Ele foi portado para a Web.


CAPÍTULO XX — O NP ERA UM ALGORITMO HUMANO

A redação havia descoberto empiricamente coisas que hoje chamamos de:

  • engagement;

  • click-through rate;

  • emotional triggering;

  • visual hierarchy;

  • retention;

  • cliffhanger;

  • serialização;

  • curiosity gap;

  • personalização por público;

  • linguagem otimizada;

  • conteúdo viral.

Não havia machine learning.

Havia jornalista.

Não havia dashboard em tempo real.

Havia:

VENDEU?

Se a resposta fosse sim:

PERFORM FAZ-DE-NOVO
    UNTIL CIRCULACAO = ZERO
END-PERFORM.

O Bebê-Diabo foi praticamente um mecanismo de retenção serializado.


CAPÍTULO XXI — E O “POVO SEM LETRAMENTO”?

Voltamos ao ponto mais delicado.

É tentador olhar para aquelas capas hoje e concluir:

“Funcionavam porque o público era ignorante.”

Seria uma conclusão confortável.

E provavelmente errada.

Porque as mesmas técnicas funcionam hoje com:

executivos,

engenheiros,

médicos,

advogados,

professores,

programadores,

mestres,

doutores

e pessoas com três monitores exibindo dashboards.

O problema não é simplesmente alfabetização.

É psicologia humana.

Medo chama atenção.

Sexo chama atenção.

Perigo chama atenção.

Curiosidade chama atenção.

Violência chama atenção.

O extraordinário chama atenção.

Somos Homo sapiens antes de sermos usuários autenticados.

A diferença é que o NP precisava convencer um cidadão caminhando pela calçada.

Hoje o recomendador sabe exatamente qual Bebê-Diabo mostrar para cada pessoa.

E isso é muito mais poderoso.


CAPÍTULO XXII — O VERDADEIRO LEGADO

O Notícias Populares é uma cápsula cultural brasileira.

Nele encontramos simultaneamente:

ditadura,

urbanização,

migração,

violência,

desigualdade,

sexualidade,

machismo,

humor,

moralismo,

religiosidade,

superstição,

televisão,

futebol,

celebridades,

criminalidade,

publicidade,

censura,

liberdade de imprensa

e cultura popular.

Por isso suas capas parecem absurdas hoje.

Elas são snapshots de memória.

SYS1.BRASIL.HISTORIA.NP

Cada edição preserva não apenas aquilo que aconteceu.

Preserva aquilo que uma sociedade desejava ver.

E talvez isso seja ainda mais importante.


EPÍLOGO — PULP FICTION NA BANCA

Imagine a cena final.

São Paulo.

Final dos anos 1980.

Seis horas da manhã.

Ônibus passando.

Um bar abrindo.

Café sendo servido num copo americano.

A banca está cheia.

O jornaleiro prende jornais no varal.

Um trabalhador aproxima-se.

Olha uma capa.

Para.

Franze a testa.

Outro sujeito olha também.

Um terceiro aproxima-se.

Ninguém sabe ainda que existe uma coisa chamada Internet comercial.

Ninguém ouviu falar em SEO.

Não existe trending topic.

Não existe feed personalizado.

Não existe recomendador.

Não existe botão compartilhar.

Mas existe uma manchete enorme anunciando alguma combinação absolutamente improvável de:

crime + sexo + tragédia + celebridade + sobrenatural.

O primeiro homem comenta:

— Você viu essa porra?

O segundo responde:

— Vi.

O terceiro pergunta:

— O que aconteceu?

E a informação começa a circular.

Tarantino poderia congelar a imagem exatamente aí.

Entraria uma guitarra surf dos anos 1960.

A tela ficaria vermelha.

E surgiria:

NOTÍCIAS POPULARES

Nada mais que a verdade.

Corta.

Créditos.

Mas o COBOLzeiro permanece sentado diante do terminal.

Porque ele percebeu uma coisa inquietante.

O Notícias Populares foi encerrado em 2001.

O código-fonte comportamental que fazia o Notícias Populares funcionar continua executando.

A banca virou feed.

O varal virou timeline.

A manchete virou thumbnail.

O jornaleiro virou algoritmo.

O Bebê-Diabo virou conteúdo viral.

A disputa por centímetros de papel virou disputa por pixels.

E as centenas de pessoas que paravam diante das bancas para ler gratuitamente as manchetes viraram bilhões de dedos fazendo:

SCROLL
SCROLL
SCROLL
STOP

Talvez o maior legado do NP seja justamente esse.

Ele demonstrou, muito antes do Facebook, do YouTube, do TikTok e dos recomendadores modernos, que existe uma disputa feroz pelo recurso computacional mais caro do planeta:

a atenção humana.

E nisso, meu caro COBOLzeiro...

o velho Notícias Populares tinha um algoritmo absolutamente infernal.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Densetsu no Yuusha no Densetsu — Muito Além dos Heróis Lendários


Bellacosa Mainframe apresenta densetsu no yuusha no densetsu

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Densetsu no Yuusha no Densetsu — Muito Além dos Heróis Lendários

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Saber Sobre Sistemas Complexos, Arquitetura, Segurança, Liderança e Como um Anime de Fantasia Explica Engenharia de Software

Quando pensamos em fantasia medieval japonesa, normalmente imaginamos espadas, magia e reis em guerra. Densetsu no Yuusha no Densetsu começa exatamente assim... e então surpreende.

Por trás da aventura existe uma narrativa sobre arquitetura de sistemas, manipulação política, segurança, preconceito, inteligência, governança e o peso do conhecimento.

Para quem trabalha com tecnologia, especialmente em ambientes corporativos complexos como IBM Z, a identificação é imediata.


Ficha Técnica

Título original

伝説の勇者の伝説

Romaji

Densetsu no Yūsha no Densetsu

Título internacional

The Legend of the Legendary Heroes

Autor

Takaya Kagami

Ilustrações (Light Novel)

Saori Toyota

Mangá

Hiroko Nagakura

Estúdio

ZEXCS

Direção

Itsurō Kawasaki

Música

Yoshihisa Hirano

Light Novel

2002

Anime

1º de julho de 2010

Exibição

Julho a dezembro de 2010

Episódios

24

Gênero

  • Fantasia

  • Aventura

  • Ação

  • Drama

  • Magia

  • Política

  • Mistério

  • Dark Fantasy

Classificação sugerida

16 anos.


Sinopse

Ryner Lute é um jovem aparentemente preguiçoso, dorminhoco e sem grandes ambições.

Na realidade, ele é um dos magos mais perigosos do continente.

Seus olhos possuem o lendário Alpha Stigma, um poder capaz de analisar e copiar praticamente qualquer magia.

O problema?

Quem possui esse dom costuma ser perseguido, temido ou executado.

Depois de sobreviver à guerra, Ryner recebe uma missão do recém-coroado rei Sion Astal:

viajar pelo mundo em busca das antigas relíquias dos Heróis Lendários.

O que parecia uma simples aventura transforma-se numa gigantesca conspiração envolvendo impérios, religiões, experimentos humanos e entidades ancestrais.


Resumo da História

A jornada de Ryner e Ferris Eris passa por diversos reinos, onde encontram relíquias antigas, enfrentam guerras, descobrem conspirações e revelam verdades que ameaçam toda a estrutura política do continente.

Enquanto isso, Sion tenta construir um reino justo, mas descobre que governar exige escolhas dolorosas.

A narrativa alterna entre batalhas, diplomacia e mistérios, mostrando que o maior inimigo nem sempre está no campo de batalha.


Personagens Principais

Ryner Lute

O protagonista.

Extremamente inteligente.

Sarcasmo constante.

Poder praticamente ilimitado.

Carrega traumas profundos e tenta esconder sua dor atrás da preguiça.

Sua jornada é descobrir se alguém como ele pode viver em paz.


Ferris Eris

Uma das melhores espadachins do continente.

Fria.

Elegante.

Sarcástica.

Sua relação com Ryner evolui de forma natural e cheia de momentos cômicos.

É a responsável por manter Ryner vivo — tanto fisicamente quanto emocionalmente.


Sion Astal

Talvez o personagem mais complexo da série.

Herói da guerra.

Idealista.

Rei de Roland.

Deseja eliminar injustiças, mas percebe que o poder cobra um preço alto.


Lucile Eris

Provavelmente um dos indivíduos mais perigosos do universo da obra.

Sua presença muda completamente o rumo da história.


Miran Froaude

General brilhante e estrategista.

Representa o lado militar da política.


O Que Há de Diferente?

A maioria dos animes de fantasia segue um padrão:

  • existe um herói;

  • existe um vilão;

  • ocorre uma guerra.

Aqui, nada é tão simples.

Cada reino possui seus próprios interesses.

Cada líder acredita estar fazendo o correto.

Não existe um "lado totalmente bom".

É uma fantasia política, quase uma mistura de:

  • Game of Thrones

  • Fullmetal Alchemist

  • Legend of the Galactic Heroes

  • Record of Lodoss War


As Aventuras

Durante a jornada encontramos:

  • antigas armas mágicas;

  • cidades destruídas;

  • experimentos proibidos;

  • guerras civis;

  • organizações secretas;

  • bibliotecas ancestrais;

  • lendas esquecidas;

  • monstros;

  • magias proibidas;

  • conflitos diplomáticos.

Cada arco amplia a compreensão do mundo e mostra que os verdadeiros perigos estão nas decisões humanas.


As Mensagens Ocultas

1. O conhecimento assusta

Ryner é perseguido porque sabe demais e possui um poder incomum.

Na TI, especialistas em sistemas críticos muitas vezes também são vistos com desconfiança ou dependência excessiva.


2. Poder sem controle é risco

O Alpha Stigma lembra uma tecnologia extremamente poderosa.

Sem governança, pode causar destruição.

É como uma IA avançada, um sistema privilegiado ou um ambiente de produção sem controles.


3. Nem toda documentação conta a verdade

Ao longo da série, diversas "verdades históricas" revelam-se incompletas ou manipuladas.

Quem trabalha com sistemas legados sabe que documentação antiga nem sempre reflete a realidade do código.


4. Arquitetura invisível

Por trás dos acontecimentos existe uma estrutura muito maior.

Da mesma forma, em um ambiente corporativo vemos apenas a aplicação; por trás dela há infraestrutura, middleware, banco de dados, filas, segurança e integrações.


5. Liderança exige sacrifícios

Sion descobre que liderar não é apenas ter boas intenções.

É tomar decisões difíceis, muitas vezes impopulares, pensando no longo prazo.


O Paralelo com o Mainframe

Imagine um banco.

Milhares de aplicações.

Décadas de evolução.

Centenas de integrações.

Documentação incompleta.

Equipes diferentes.

Mudanças constantes.

Esse universo se parece muito com o continente de Densetsu no Yuusha no Densetsu.

Ryner é como o analista sênior que entende a arquitetura inteira.

Ferris representa a execução precisa.

Sion simboliza a gestão.

As relíquias antigas lembram sistemas legados que ainda sustentam operações críticas.

E o Alpha Stigma pode ser comparado ao domínio profundo da tecnologia: poderoso, raro e capaz de resolver problemas complexos, mas exigindo responsabilidade.


Engenharia de Software Disfarçada

Ao observar a história sob a ótica da TI, percebemos temas como:

  • arquitetura corporativa;

  • segurança da informação;

  • gestão de conhecimento;

  • governança;

  • interoperabilidade entre "reinos" (sistemas);

  • legado tecnológico;

  • gestão de riscos;

  • liderança técnica;

  • evolução sem quebrar compatibilidade.


Impacto Cultural

Embora nunca tenha alcançado o sucesso comercial de Sword Art Online, Re:Zero ou Overlord, a obra conquistou uma base fiel de fãs graças ao seu universo rico, personagens moralmente complexos e mistura de fantasia com política. O anime também despertou interesse pelas light novels, que expandem significativamente a história além dos 24 episódios.

Entre os admiradores do gênero, é frequentemente citado como uma joia subestimada dos anos 2010, justamente por priorizar desenvolvimento de mundo e dilemas humanos em vez de apenas batalhas.


Vale a Pena?

Sem dúvida.

Quem procura apenas ação talvez estranhe o ritmo.

Mas quem aprecia:

  • construção de mundo;

  • estratégia;

  • política;

  • personagens complexos;

  • mistérios;

  • fantasia madura;

encontrará uma obra rica e recompensadora.


Café no Bellacosa ☕

Em ambientes Mainframe, aprendemos cedo que o sistema mais importante nem sempre é o mais visível. Há camadas ocultas de arquitetura, regras de negócio e décadas de conhecimento acumulado sustentando milhões de transações.

Densetsu no Yuusha no Densetsu transmite exatamente essa ideia. O verdadeiro poder não está apenas na magia de Ryner, mas em compreender as conexões invisíveis que unem todo o mundo ao seu redor.

Para um Programador COBOL Padawan, a grande lição é clara: dominar uma linguagem é importante, mas entender a arquitetura, a governança, a segurança e o contexto do negócio é o que transforma um desenvolvedor em um verdadeiro arquiteto de soluções. Afinal, sistemas críticos — e grandes histórias — nunca são tão simples quanto parecem à primeira vista.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SMP/E – Tracking Element Levels

 

Bellacosa Mainframe apresenta SMP/E Tracking Element Levels

SMP/E for z/OS Workshop – Tracking Element Levels

FMID, RMID e UMID sem mistério – no melhor estilo Bellacosa Mainframe


🎯 Por que o SMP/E controla níveis de elementos?

No mundo z/OS, nada é instalado “por cima e pronto”. Cada módulo, macro ou arquivo precisa ter rastro, histórico e responsável.

É exatamente isso que o SMP/E faz ao controlar o nível de serviço dos elementos nos ambientes:

  • Target Libraries (TZONE) – o que está em execução

  • Distribution Libraries (DZONE) – o que é a referência oficial

E o controle acontece por meio de três identificadores clássicos:

FMID – RMID – UMID

Se você domina esses três, domina auditoria, RESTORE, APPLY e ACCEPT.


🧠 A base de tudo: SYSMOD-ID

Todos os identificadores usados pelo SMP/E são extraídos do:

++HEADER

Eles são conhecidos genericamente como SYSMOD-ID, mas cada um tem um papel específico quando associado a um elemento.


🧩 O cenário do workshop (exemplo realista)

Vamos acompanhar a vida real de um elemento chamado MOD1.

📦 Function SYSMOD: HGF1200

  • Introduz três elementos: MOD1, MOD2, MOD3

  • Esses elementos formam o load module LMOD1

📌 Funções normalmente:

  • não usam JCLIN inline

  • usam relative file, que é um unload de um PDS com JCLIN


🏗️ APPLY da função – nascimento do elemento

Quando a função HGF1200 é aplicada:

  • MOD1 passa a existir na Target Library

  • SMP/E grava no TZONE:

IdentificadorValor
FMIDHGF1200
RMIDHGF1200
UMID

📌 Interpretação Bellacosa

MOD1 está no nível funcional.

A função HGF1200 é a dona do código.

Quando FMID = RMID, estamos falando de base code


📦 ACCEPT da função – espelho na DLIB

Ao executar ACCEPT:

  • MOD1 é copiado para a Distribution Library

  • Os mesmos valores são registrados no DZONE

📌 O DZONE sempre representa:

“Como o produto deveria estar”


🩹 PTF UY00020 – primeira substituição

O PTF UY00020:

  • contém um replacement de MOD1

  • precisa identificar o dono funcional do elemento:

++VER FMID(HGF1200)

Como é o primeiro serviço sobre a base, não precisa de PRE.

🧾 Após APPLY do PTF UY00020 (TZONE)

IdentificadorValor
FMIDHGF1200
RMIDUY00020
UMID

📌 Regra de ouro:

Um elemento tem apenas um RMID.


🩹 PTF UY00040 – nova substituição

Agora entra o UY00040:

  • substitui MOD1 novamente

  • declara o UY00020 como pré-requisito

  • identifica o dono funcional: HGF1200

Após APPLY:

IdentificadorValor
FMIDHGF1200
RMIDUY00040
UMID

📌 MOD1 agora está em um nível superior de serviço.


🐞 APAR AY91862 – update, não replacement

O APAR normalmente:

  • não substitui o elemento inteiro

  • faz um update para corrigir erro

O packager deve informar:

  • FMID – quem é o dono

  • PRE – qual SYSMOD está sendo atualizado

Após APPLY:

IdentificadorValor
FMIDHGF1200
RMIDUY00040
UMIDAY91862

📌 Conceito-chave

UMID representa quem atualizou o elemento.


🧩 USERMOD ME00012 – customização local

Agora entra o famoso USERMOD:

  • altera MOD1 localmente

  • precisa identificar:

    • FMID (HGF1200)

    • RMID (UY00040)

    • todos os UMIDs existentes

Após APPLY:

IdentificadorValor
FMIDHGF1200
RMIDUY00040
UMIDAY91862, ME00012

📌 Elemento pode ter vários UMIDs, mas apenas um RMID.


🔍 O que o SMP/E realmente está rastreando?

Para cada elemento, o SMP/E sabe responder:

  • Quem introduziu? → FMID

  • Quem substituiu por último? → RMID

  • Quem atualizou? → UMID(s)

Isso vale tanto para:

  • TZONE (APPLY)

  • DZONE (ACCEPT)


🛡️ Visão de auditoria (dica de ouro)

Se você vê:

  • USERMOD em produção

  • sem ACCEPT

  • com múltiplos UMIDs

👉 alerta de risco operacional

O SMP/E está dizendo a verdade. Basta saber ler.


🧠  Conclusão Bellacosa Mainframe

FMID diz quem manda
RMID diz quem substituiu
UMID diz quem mexeu

SMP/E não perde nada.
Quem se perde é quem não entende o CSI.

No próximo passo, o caminho natural é:

➡️ Consolidated Software Inventory

Porque rastrear é bom.
Consolidar é profissional.


💾 Mainframe bom é mainframe auditável. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

RACF: Mapeamento OPERCMD x SDSF (do Console à Tela Verde

 

Bellacosa Mainframe apresenta RACF 

🔐 RACF NA VEIA

Mapeamento OPERCMD x SDSF (do Console à Tela Verde

“Quem manda no console manda no sysplex…
mas quem controla o RACF manda até no operador.”
☕🖥️

No mundo z/OS, existem dois universos de comando:

  1. Console MVS real → controlado pela classe OPERCMDS

  2. Interface SDSF → controlada por um conjunto de classes RACF

Muita gente confunde, mistura e sofre.
Vamos separar isso como JES2 separa spool 😈


🧱 1️⃣ OPERCMDS – O PODER DO CONSOLE MVS

🎯 O que controla?

A classe OPERCMDS controla quem pode emitir comandos MVS e subsistemas:

  • No console físico

  • Via TSO CONSOLE

  • Via REXX ADDRESS CONSOLE

  • Via automação (SA, NetView, OPS/MVS)


📌 Exemplos clássicos de comandos protegidos

ComandoPerfil OPERCMDS
D A,LMVS.DISPLAY.ACTIVE
D U,ALLMVS.DISPLAY.UNITS
$DA (JES2)JES2.DISPLAY.ACTIVE
$P JOB123JES2.PURGE.JOB
VARY 1234,ONLINEMVS.VARY.DEVICE.ONLINE
SET SMF=xxMVS.SET.SMF

📌 Regra de ouro:
👉 Se é comando MVS/JES, o RACF olha primeiro para OPERCMDS.


🧠 Exemplo RACF raiz

RDEFINE OPERCMDS MVS.DISPLAY.** UACC(NONE) PERMIT MVS.DISPLAY.** CLASS(OPERCMDS) ID(OPERADOR) ACCESS(READ) SETROPTS CLASSACT(OPERCMDS) SETROPTS RACLIST(OPERCMDS) REFRESH

🖥️ 2️⃣ SDSF – O CONSOLE DE MENTIRINHA (MAS PERIGOSO)

“SDSF não é console…
mas faz estrago igual.”
😈

O SDSF é uma interface, e o RACF controla cada ação separadamente.


🧩 Classes RACF usadas pelo SDSF

ClasseFunção
SDSFAcesso geral ao SDSF
JESJOBSAções sobre jobs (cancel, purge, hold)
JESComandos JES
OPERCMDSSe o SDSF emitir comando real
WRITERWriters e saída
LOGSTRMLogs do sistema
FACILITYFunções especiais

📊 3️⃣ Tabela Mestre – OPERCMDS x SDSF

🧠 A tabela que salva operadores e professores

Ação no SDSFClasse RACFPerfil
Entrar no SDSFSDSFSDSF
Ver jobs (ST/DA)JESJOBSJOB.*
Cancelar jobJESJOBSJOB.CANCEL
Purge jobJESJOBSJOB.PURGE
Hold / ReleaseJESJOBSJOB.HOLD
Ver SYSLOGSDSFLOG
Comando JES $DAJESJES2.DISPLAY.ACTIVE
Comando MVS D A,LOPERCMDSMVS.DISPLAY.ACTIVE
Alterar prioridadeJESJOBSJOB.MODIFY

📌 Fofoquice real:
👉 Você pode ver tudo no SDSF e não conseguir executar nada, mesmo sendo “OPERADOR”.


⚔️ 4️⃣ Quando OPERCMDS e SDSF se cruzam

🎯 Exemplo clássico

Usuário no SDSF digita:

/D A,L

👉 O que acontece?

  1. SDSF aceita o comando

  2. RACF valida OPERCMDS

  3. Se não tiver perfil → RC=8, NOT AUTHORIZED

📌 Moral:
SDSF não ignora OPERCMDS, ele chama o RACF como qualquer console.


🔐 5️⃣ Ambiente RACF Restritivo (vida real)

✔️ Boas práticas Bellacosa Approved™

  • Nunca dar OPERCMDS MVS.** para usuário comum

  • ✔️ Preferir:

    • MVS.DISPLAY.*

    • JES2.DISPLAY.*

  • ✔️ Cancelamento via JESJOBS, não OPERCMDS

  • ✔️ Usar ROLES no SDSF

  • ✔️ Logar tudo (SMF 80, 83, 84)


🧪 6️⃣ Checklist rápido de segurança

✔ SDSF separado por perfil
✔ OPERCMDS mínimo necessário
✔ JESJOBS granular
✔ LOG e SYSLOG somente READ
✔ Nada de UACC(READ) em produção 😱
SETROPTS AUDIT OPERCMDS ativo


☕ Frase final do Bellacosa Mainframe

“No mainframe, comando não é poder…
autorização é.”

 

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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