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sábado, 13 de março de 2021

DotCom : Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xv

Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

O que realmente aconteceu com as previsões feitas em 2000 e por que a História absolveu a Internet, mas condenou a especulação

"O tempo é o melhor arquiteto de software e o juiz mais imparcial da economia. Ele remove o código desnecessário, elimina as ilusões e preserva apenas aquilo que realmente cria valor."

Chegamos ao último capítulo desta jornada.

Foram mais de quatrocentos anos de história.

Da Tulipomania às criptomoedas.

Das ferrovias à Inteligência Artificial.

Dos cartões perfurados aos agentes autônomos.

Da bolha das Dot-Com ao renascimento da economia digital.

Mas ainda falta responder uma pergunta.

Afinal... quem estava certo?

Os otimistas?

Ou os pessimistas?

A Internet foi realmente uma bolha?

Ou foi a maior revolução tecnológica da história?

A resposta, como quase tudo na engenharia, não é um simples "sim" ou "não".

Ela é muito mais interessante.


A Internet Nunca Foi a Bolha

Este talvez seja o maior equívoco histórico.

Quando alguém diz:

"A bolha da Internet estourou."

A frase está incompleta.

O que estourou nunca foi a Internet.

O que explodiu foi a expectativa financeira construída ao redor dela.

A Internet continuou funcionando.

Os protocolos TCP/IP continuaram evoluindo.

Os servidores continuaram processando requisições.

Os cabos continuaram transmitindo dados.

Os engenheiros continuaram desenvolvendo software.

As universidades continuaram pesquisando.

A tecnologia permaneceu.

Quem desapareceu foi a especulação.

Essa diferença muda completamente a interpretação da história.


Os Pessimistas Erraram

Após o colapso de 2000 surgiram inúmeras manchetes.

"O fim da Nova Economia."

"A Internet fracassou."

"As empresas digitais foram uma moda."

Hoje sabemos que essas previsões estavam profundamente equivocadas.

A Internet tornou-se a infraestrutura mais importante da economia mundial.

Ela conecta bilhões de pessoas.

Movimenta trilhões de dólares.

Transformou praticamente todos os setores da sociedade.

O problema nunca foi a tecnologia.

Foi o exagero.


Os Otimistas Também Erraram

Curiosamente...

Os maiores entusiastas também cometeram erros.

Eles acreditavam que qualquer empresa ligada à Internet se tornaria automaticamente bem-sucedida.

Isso jamais aconteceu.

A maioria desapareceu.

Não porque a Internet fosse ruim.

Mas porque administrar uma empresa continua sendo extremamente difícil.

Tecnologia reduz barreiras.

Não elimina os desafios fundamentais dos negócios.


A História Escolheu os Construtores

Quando observamos os sobreviventes percebemos um padrão muito claro.

Google.

Amazon.

PayPal.

Salesforce.

Netflix.

Eles não venceram porque eram os mais barulhentos.

Nem porque possuíam os maiores escritórios.

Nem porque faziam mais propaganda.

Venceram porque construíram.

Infraestrutura.

Engenharia.

Processos.

Pessoas.

Conhecimento.

Enquanto outros vendiam sonhos...

Eles construíam fundações.


O Tempo Elimina o Ruído

Existe algo fascinante quando analisamos tecnologia sob uma perspectiva de vinte anos.

O marketing desaparece.

As manchetes desaparecem.

As apresentações desaparecem.

As promessas desaparecem.

O que permanece?

Produtos úteis.

Clientes satisfeitos.

Infraestrutura funcionando.

Empresas sustentáveis.

É como observar um grande sistema legado.

Após décadas, apenas o código realmente importante continua sendo executado.

Todo o restante foi removido.


A Engenharia Sempre Vence

Ao longo deste livro encontramos uma conclusão repetidas vezes.

Marketing chama atenção.

Engenharia sustenta negócios.

A história da Internet comprova isso.

Empresas que investiram apenas em publicidade desapareceram rapidamente.

Empresas que investiram em arquitetura sobreviveram.

Essa continua sendo uma das maiores lições para qualquer profissional de tecnologia.


O Mainframe Nunca Precisou Provar Nada

Existe uma ironia interessante.

Enquanto jornais anunciavam diariamente "o fim do mainframe", milhões de pessoas utilizavam serviços processados justamente por ele.

Compravam.

Vendiam.

Recebiam salários.

Pagavam impostos.

Realizavam transferências.

Utilizavam cartões.

Tudo isso acontecia silenciosamente.

O IBM Z nunca precisou vencer debates na Internet.

Precisava apenas continuar funcionando.

E continuou.

Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de maturidade tecnológica.


A Revolução Não Acontece na Superfície

Quando pensamos em inovação normalmente imaginamos aquilo que aparece.

Aplicativos.

Interfaces.

Sites.

Inteligência Artificial.

Mas as maiores revoluções frequentemente acontecem onde poucos observam.

Data centers.

Protocolos.

Bancos de dados.

Infraestrutura.

Redes.

Segurança.

Mainframes.

Cloud.

APIs.

São esses elementos invisíveis que sustentam toda a economia digital.

Sem eles...

Nenhuma inovação permaneceria em pé.


O Futuro Também Será Invisível

Provavelmente ocorrerá exatamente o mesmo com a Inteligência Artificial.

Hoje falamos muito sobre chatbots.

Geradores de imagens.

Agentes inteligentes.

Mas daqui a vinte anos talvez a IA esteja tão integrada ao cotidiano que quase ninguém falará sobre ela.

Assim como ninguém diz atualmente:

"Estou utilizando TCP/IP."

Ou:

"Estou usando DNS."

Ou:

"Acabei de fazer uma requisição HTTPS."

Essas tecnologias desapareceram da conversa.

Não porque falharam.

Mas porque tiveram sucesso.

A verdadeira inovação deixa de ser novidade.

Torna-se infraestrutura.


O Ciclo Nunca Termina

Talvez daqui a quinze ou vinte anos outra tecnologia ocupe todas as manchetes.

Talvez alguém afirme novamente:

"Agora tudo será diferente."

Novos investidores aparecerão.

Novas startups surgirão.

Novas promessas serão feitas.

E, muito provavelmente...

Alguns repetir-se-ão os mesmos erros.

Porque computadores evoluem rapidamente.

Mas o comportamento humano evolui muito mais devagar.


O Que Nunca Mudará

Independentemente da próxima revolução tecnológica, algumas perguntas continuarão fundamentais.

Existe valor para o cliente?

A solução resolve um problema real?

O sistema é confiável?

Pode crescer?

É seguro?

É sustentável financeiramente?

Existe boa engenharia?

Se essas perguntas forem respondidas positivamente...

As chances de sucesso aumentam enormemente.


O Programador COBOL do Século XXI

Chegamos então ao personagem central desta obra.

O Programador COBOL Padawan.

Durante muito tempo disseram que ele representava o passado.

Hoje percebemos que ele carrega conhecimentos extremamente valiosos para o futuro.

Pensamento estruturado.

Integridade de dados.

Transações.

Disponibilidade.

Confiabilidade.

Governança.

Esses princípios tornaram-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.

Talvez o maior diferencial do profissional moderno não seja abandonar o passado.

Mas utilizá-lo como alicerce para construir o futuro.


O Verdadeiro Significado da Bolha

Depois de toda esta análise podemos finalmente responder à pergunta inicial.

O que foi, afinal, a bolha da Internet?

Não foi um fracasso.

Não foi um sucesso.

Foi um processo de seleção.

Uma gigantesca prova de resistência.

Ela eliminou empresas frágeis.

Fortaleceu as sólidas.

Acelerou a maturidade da engenharia.

Transformou investidores.

Mudou universidades.

Preparou profissionais.

Construiu infraestrutura.

Criou gigantes.

E abriu caminho para praticamente todas as revoluções digitais das décadas seguintes.

Poucos acontecimentos produziram consequências tão profundas.


Uma Última Reflexão no Centro de Processamento de Dados

Voltemos uma última vez ao velho CPD.

Os enormes gabinetes continuam funcionando.

As luzes piscam discretamente.

O relógio marca três horas da manhã.

Milhões de transações atravessam silenciosamente os canais de comunicação.

Do lado de fora, pessoas utilizam smartphones.

Conversam com Inteligência Artificial.

Compram pela Internet.

Assistem filmes em streaming.

Realizam Pix.

Chamam carros por aplicativos.

Tudo parece extremamente moderno.

Poucos imaginam que, em algum lugar daquele enorme ecossistema, um programa COBOL escrito anos atrás continua executando exatamente aquilo para que foi criado.

Recebendo novos módulos.

Novas APIs.

Novas integrações.

Novas camadas de Inteligência Artificial.

Mas preservando aquilo que sempre foi sua maior qualidade.

Confiabilidade.

Talvez essa seja a metáfora perfeita para toda a computação.

A inovação não substitui completamente o passado.

Ela constrói novos andares sobre fundações que já provaram seu valor.


Epílogo — O Conselho do Velho Engenheiro

Se este livro pudesse terminar com apenas uma única mensagem para um Programador COBOL Padawan, talvez fosse esta.

Não tenha medo das novas tecnologias.

Aprenda Inteligência Artificial.

Aprenda Python.

Aprenda Cloud.

Aprenda Kubernetes.

Aprenda Agentes.

Aprenda Computação Quântica quando ela chegar.

Mas nunca abandone aquilo que transforma um simples programador em um verdadeiro engenheiro.

Pensar antes de programar.

Projetar antes de implementar.

Testar antes de entregar.

Documentar antes de esquecer.

Medir antes de otimizar.

Questionar antes de acreditar.

No universo da Frota Estelar, existe uma antiga tradição.

Quando um engenheiro conclui sua formação, recebe um pequeno distintivo com uma frase gravada na parte interna, invisível para todos.

Ela diz:

"Tecnologias passam. Princípios permanecem."

Talvez essa seja também a maior lição da bolha da Internet.

E talvez seja exatamente essa lição que continuará guiando os engenheiros que construirão os próximos cinquenta anos da computação.

Porque, no final de toda grande revolução tecnológica, aquilo que realmente permanece não são as manchetes, nem as avaliações bilionárias ou as modas passageiras.

Permanecem as pessoas que aprenderam a construir sistemas capazes de atravessar o tempo.


sábado, 9 de janeiro de 2021

DotCom : Capítulo XIII — A Nova Corrida do Ouro: A Inteligência Artificial Está Repetindo a Bolha da Internet?

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xiii

Capítulo XIII — A Nova Corrida do Ouro: A Inteligência Artificial Está Repetindo a Bolha da Internet?

Como separar o verdadeiro nascimento de uma revolução tecnológica da inevitável onda de exageros, promessas e especulação que sempre acompanha grandes transformações

"A história nunca se repete exatamente. Mas costuma rimar de maneira impressionante." — Frase frequentemente atribuída a Mark Twain

Chegamos ao ponto em que passado e presente finalmente se encontram.

Durante toda esta jornada analisamos como a bolha das Dot-Com nasceu.

Como cresceu.

Como explodiu.

Como destruiu empresas.

Como transformou carreiras.

Como mudou definitivamente a engenharia de software.

Agora surge a pergunta inevitável.

Estamos vivendo outra bolha?

A resposta não é simples.

Nem deveria ser.

Porque quando falamos em Inteligência Artificial estamos diante de um fenômeno muito mais complexo do que simplesmente comparar gráficos de bolsas de valores.

Existe tecnologia real.

Existe inovação verdadeira.

Existe transformação econômica.

Mas também existe entusiasmo exagerado.

Existe marketing.

Existe FOMO.

Existe especulação.

E, principalmente...

Existe um comportamento humano que já vimos diversas vezes ao longo da história.

Para entender o presente, precisamos primeiro aprender a separar tecnologia de narrativa.


A IA Não É Apenas Mais uma Moda

Existe um erro que alguns analistas cometem.

Comparar a Inteligência Artificial com modismos passageiros.

Não é.

Assim como a Internet não foi apenas uma moda.

A IA representa uma mudança estrutural.

Ela altera a maneira como produzimos conhecimento.

Como escrevemos software.

Como pesquisamos.

Como atendemos clientes.

Como fazemos diagnósticos.

Como descobrimos medicamentos.

Como automatizamos processos.

Como ensinamos.

Como aprendemos.

Seu impacto provavelmente será comparável ao surgimento da eletricidade, da Internet ou do computador pessoal.

O problema não está na tecnologia.

O problema está nas expectativas.


A Primeira Semelhança: Todo Mundo Quer Estar Dentro

Voltemos para 1999.

Empresas adicionavam ".com" ao nome.

Suas ações valorizavam imediatamente.

Pouco importava se possuíam um modelo de negócios consistente.

Bastava parecer parte da revolução.

Agora observe o cenário atual.

Empresas anunciam:

"Utilizamos Inteligência Artificial."

"Nossos produtos possuem IA."

"Somos AI First."

Muitas vezes isso representa inovação genuína.

Em outras...

É apenas marketing.

Existe até um termo para isso.

AI Washing.

Assim como existiu o "Dot-Com Washing" vinte e cinco anos atrás.


O Capital Está Fluindo Novamente

Outro paralelo impressionante.

Nunca se investiu tanto dinheiro em IA.

Grandes empresas anunciam investimentos bilionários.

Startups captam recursos recordes.

Novos fundos surgem constantemente.

Infraestruturas gigantescas estão sendo construídas.

Data centers.

GPUs.

TPUs.

NPUs.

Redes ópticas.

Usinas de energia dedicadas.

Cabos submarinos.

Tudo isso lembra bastante a corrida pela infraestrutura da Internet durante os anos 1990.

Existe uma diferença importante, porém.

Hoje sabemos que infraestrutura demora anos para mostrar todo seu valor.

Essa lição veio justamente das Dot-Com.


A Escassez Mudou de Lugar

Na bolha da Internet, o recurso mais disputado era largura de banda.

Servidores.

Programadores Web.

Hoje...

O recurso escasso é diferente.

GPUs.

Energia elétrica.

Dados de qualidade.

Especialistas em IA.

Pesquisadores.

Engenheiros de Machine Learning.

Especialistas em MLOps.

Especialistas em Governança.

Arquitetos de infraestrutura.

Toda revolução tecnológica cria novos gargalos.

A IA não é diferente.


A Corrida Pelos Talentos

Durante os anos da bolha, empresas disputavam programadores Java, administradores Unix e especialistas em redes.

Hoje ocorre algo semelhante.

Pesquisadores recebem ofertas milionárias.

Engenheiros especializados tornam-se extremamente disputados.

Universidades ampliam cursos.

Empresas criam academias internas.

Governos começam a investir em formação.

O mercado percebeu que tecnologia não se constrói apenas com dinheiro.

Ela depende principalmente de pessoas.


O Marketing Está Novamente Acelerado

Outro elemento familiar.

Promessas grandiosas.

Mudanças revolucionárias.

Apresentações impressionantes.

Demonstrações cuidadosamente preparadas.

Não há nada de errado nisso.

Toda inovação precisa ser apresentada.

O problema surge quando demonstrações começam a ser confundidas com produtos prontos.

Essa diferença tornou-se famosa recentemente.

Uma demonstração impressionante não significa que existe um sistema escalável por trás dela.

Foi exatamente esse erro que destruiu inúmeras Dot-Com.


O Dinheiro Está Mais Inteligente

Existe, entretanto, uma diferença importante entre 1999 e hoje.

Os investidores atuais carregam a memória da bolha.

Eles ainda financiam inovação.

Mas fazem perguntas muito mais difíceis.

Quanto custa cada inferência?

Qual é o consumo energético?

Existe vantagem competitiva sustentável?

Como será monetizado?

Qual o custo operacional?

Como proteger propriedade intelectual?

Como evitar vazamento de dados?

Essas perguntas dificilmente apareciam durante a primeira corrida da Internet.


O Cliente Também Mudou

Os consumidores atuais são muito mais exigentes.

Não basta impressionar.

É preciso funcionar.

Se um chatbot responde incorretamente.

O usuário abandona.

Se um agente de IA demora demais.

O cliente procura outro.

Se um sistema alucina frequentemente.

A confiança desaparece.

Na era da IA, qualidade tornou-se tão importante quanto inovação.


O Maior Desafio Não É Tecnológico

Curiosamente...

Os principais obstáculos da Inteligência Artificial talvez nem sejam técnicos.

São organizacionais.

Governança.

Segurança.

Privacidade.

Aspectos legais.

Direitos autorais.

Viés algorítmico.

Explicabilidade.

Auditoria.

Conformidade regulatória.

Integração com sistemas existentes.

Exatamente como aconteceu após a bolha da Internet.

Quando a tecnologia amadurece...

Os desafios passam a ser empresariais.


O Mainframe Volta ao Centro do Palco

Existe uma ironia fascinante.

Quanto mais avançamos na IA...

Mais importantes tornam-se os sistemas corporativos.

Por quê?

Porque eles armazenam os dados.

Os modelos aprendem com informações.

E onde estão as informações mais valiosas?

Nos bancos.

Nas seguradoras.

Nos governos.

Nas indústrias.

Nos sistemas ERP.

Nos programas COBOL.

Nos bancos de dados Db2.

Nos arquivos VSAM.

Nos sistemas IMS.

A IA não substitui esses ambientes.

Ela amplia seu valor.


Os Custos Começam a Aparecer

Outro paralelo extremamente interessante.

Durante a bolha da Internet, muitas empresas ignoravam custos.

Hoje acontece algo semelhante em alguns projetos de IA.

Treinar modelos gigantescos custa milhões.

Executar inferências continuamente também.

Consumir energia.

Armazenar dados.

Manter infraestrutura.

Tudo possui custo.

Mais cedo ou mais tarde, toda empresa precisa responder à mesma pergunta.

Quem paga essa conta?

Foi exatamente essa pergunta que separou sobreviventes e desaparecidos das Dot-Com.

Provavelmente acontecerá novamente.


Os Vencedores Talvez Ainda Nem Tenham Nascido

Essa talvez seja a reflexão mais fascinante.

Em 1997 ninguém imaginava que Google dominaria buscas.

Em 1998 poucos acreditavam na Amazon.

Em 2003 quase ninguém conhecia Facebook.

Em 2005 o YouTube era apenas uma startup.

Em 2006 a AWS ainda parecia um experimento.

Talvez os maiores vencedores da revolução da Inteligência Artificial ainda nem existam.

Ou talvez estejam neste momento funcionando em uma pequena sala de pesquisa.

Exatamente como aconteceu há vinte e cinco anos.


O Que Realmente Aprendemos

A maior lição da bolha da Internet nunca foi:

"Não invista em tecnologia."

Foi exatamente o contrário.

Invista.

Mas compreenda profundamente aquilo em que está investindo.

Separe inovação de propaganda.

Separe engenharia de marketing.

Separe crescimento de sustentabilidade.

Essa diferença vale para empresas.

Vale para investidores.

Vale para profissionais.

Vale para governos.


O Padawan COBOL Possui Uma Vantagem Inesperada

Muitos acreditam que profissionais experientes em sistemas legados possuem dificuldade para compreender novas tecnologias.

A realidade frequentemente mostra o oposto.

Quem passou anos desenvolvendo sistemas críticos aprende algo extremamente valioso.

Pensar em confiabilidade.

Pensar em disponibilidade.

Pensar em integridade.

Pensar em continuidade.

Esses princípios tornam-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.

Talvez o maior diferencial do Programador COBOL Padawan não seja conhecer uma linguagem antiga.

Seja compreender fundamentos que continuam absolutamente modernos.


A Última Grande Comparação

A corrida pela Inteligência Artificial lembra muito a corrida da Internet.

Mas existe uma diferença decisiva.

Na década de 1990 estávamos aprendendo pela primeira vez.

Hoje carregamos décadas de experiência.

Conhecemos bolhas anteriores.

Conhecemos erros anteriores.

Conhecemos armadilhas anteriores.

Isso não impede novas crises.

Mas aumenta significativamente nossa capacidade de enfrentá-las.

É como um capitão da Frota Estelar que já atravessou diversas tempestades espaciais.

Ele continua respeitando cada nova missão.

Mas já sabe interpretar sinais que um cadete ainda não percebe.


Lições para o Padawan COBOL

Imagine que você acaba de ser designado para servir na USS Enterprise durante o lançamento de uma tecnologia revolucionária de propulsão quântica.

Todos estão entusiasmados.

Os jornais afirmam que as antigas naves se tornarão obsoletas.

Empresas investem fortunas.

Novos fabricantes aparecem diariamente.

Alguns prometem viagens instantâneas entre galáxias.

Outros garantem velocidade infinita.

Um engenheiro veterano, porém, observa tudo com serenidade.

Ele não rejeita a nova tecnologia.

Pelo contrário.

Estuda cuidadosamente seus benefícios.

Mas também pergunta:

Ela é confiável?

É segura?

Pode ser mantida durante décadas?

Quanto consome de energia?

Como reage em caso de falha?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Elas tornam a inovação sustentável.

É exatamente esse o papel do Programador COBOL Padawan no século XXI.

Abraçar a Inteligência Artificial.

Aprender continuamente.

Experimentar.

Construir.

Mas nunca abandonar os fundamentos que mantêm sistemas críticos funcionando há mais de meio século.

No próximo e último capítulo desta jornada, faremos uma reflexão sobre o futuro dos próximos vinte anos, explorando quais tecnologias provavelmente sobreviverão, quais desaparecerão e quais competências transformarão os profissionais de tecnologia na próxima geração. Afinal, a história da bolha da Internet não termina em 2000 — ela continua sendo escrita todos os dias, inclusive por nós.


sábado, 12 de setembro de 2020

DotCom : Capítulo IX — A Internet Cresceu. A Inocência Morreu: As Lições que Mudaram a Forma de Construir Empresas de Tecnologia

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo ix

Capítulo IX — A Internet Cresceu. A Inocência Morreu: As Lições que Mudaram a Forma de Construir Empresas de Tecnologia

Como a bolha das Dot-Com transformou definitivamente a maneira como investidores, engenheiros, empreendedores e executivos passaram a enxergar inovação

"A experiência é o nome que damos aos erros que sobrevivemos para contar." — Oscar Wilde

Toda grande crise deixa cicatrizes.

Algumas desaparecem com o tempo.

Outras mudam completamente a forma como uma geração inteira pensa.

A bolha da Internet fez exatamente isso.

Depois de 2002, ninguém mais enxergava startups da mesma maneira.

Nem investidores.

Nem bancos.

Nem universidades.

Nem empresas de tecnologia.

Muito menos os engenheiros de software.

O mercado havia aprendido, da maneira mais cara possível, que uma boa ideia não basta.

Tecnologia não elimina administração.

Inovação não substitui planejamento.

E crescimento nunca poderá ocupar o lugar da sustentabilidade.

A bolha havia acabado.

Mas as verdadeiras lições estavam apenas começando.


O Fim da Ingenuidade

Antes do estouro da bolha existia uma espécie de inocência coletiva.

Muitos acreditavam que bastava criar um site interessante.

Os usuários apareceriam.

Os investidores chegariam.

O dinheiro entraria.

O lucro surgiria naturalmente.

Depois da crise...

Essa narrativa desapareceu.

Empreendedores passaram a ouvir perguntas muito diferentes.

Qual é seu modelo de negócios?

Quem paga sua conta?

Quanto custa conquistar um cliente?

Qual é sua margem?

Quando pretende atingir o ponto de equilíbrio?

Essas perguntas continuam sendo feitas até hoje.

E isso não aconteceu por acaso.

Foi a bolha que ensinou investidores a fazê-las.


O Lucro Voltou a Ser Elegante

Durante a euforia, falar em lucro parecia quase antiquado.

Empresas comemoravam prejuízos crescentes como sinal de expansão.

Após o colapso...

Lucro voltou a ser uma palavra respeitada.

Não significava abandonar crescimento.

Significava demonstrar que crescimento poderia ser sustentável.

Nascia uma nova mentalidade.

Crescer rapidamente era importante.

Mas sobreviver era indispensável.


O Fluxo de Caixa Tornou-se Rei

Existe uma frase muito conhecida no mundo empresarial.

"Revenue is vanity. Profit is sanity. Cash is reality."

"Receita é vaidade.

Lucro é bom senso.

Caixa é realidade."

Poucas frases resumem tão bem as consequências da bolha.

Empresas descobriram que o dinheiro disponível hoje vale muito mais do que projeções otimistas para daqui a cinco anos.

Fluxo de caixa passou a ocupar lugar central nas reuniões de conselho.

Sem caixa...

Não existe inovação.

Não existe pesquisa.

Não existe expansão.

Não existe empresa.


O Cliente Tornou-se Mais Importante que o Investidor

Durante a primeira onda das Dot-Com, muitas startups pareciam desenvolver produtos principalmente para convencer investidores.

Após a crise...

O foco mudou completamente.

Empresas passaram a perguntar:

O cliente realmente precisa disso?

Quanto ele pagaria?

Ele voltaria a comprar?

Indicaria o serviço para outras pessoas?

Esse retorno ao cliente talvez tenha sido uma das maiores transformações da indústria.

A tecnologia voltou a servir pessoas.

E não apenas apresentações em PowerPoint.


Engenharia Voltou ao Centro das Decisões

Outro efeito extremamente importante foi a valorização da engenharia.

Durante a bolha, muitos projetos eram lançados rapidamente.

A prioridade era chegar primeiro.

Depois da crise...

Chegar primeiro deixou de ser suficiente.

Era necessário chegar preparado.

Arquitetura.

Escalabilidade.

Segurança.

Disponibilidade.

Performance.

Monitoramento.

Esses temas passaram a ocupar espaço nas reuniões estratégicas.

As empresas perceberam que software não é apenas código.

É infraestrutura.

É operação.

É continuidade do negócio.


O Nascimento da Cultura DevOps

Curiosamente, muitas práticas que hoje consideramos modernas começaram a ganhar força justamente após esse período.

Integração contínua.

Automação de deploy.

Testes automatizados.

Infraestrutura como código.

Monitoramento.

Observabilidade.

Resposta rápida a incidentes.

Anos depois tudo isso seria conhecido como DevOps.

A raiz, porém, estava em um aprendizado simples.

Corrigir problemas cedo custa muito menos do que reconstruir empresas depois.


A Segurança Deixou de Ser Opcional

No final dos anos 1990, segurança frequentemente era tratada como detalhe técnico.

Após a crise, e com o crescimento do comércio eletrônico, isso mudou radicalmente.

Clientes precisavam confiar na Internet.

Empresas precisavam proteger dados.

Bancos precisavam garantir transações.

Começaram a ganhar importância:

criptografia;

autenticação;

certificados digitais;

firewalls;

gestão de identidade;

auditoria.

Hoje esses elementos parecem naturais.

Naquela época representavam uma enorme evolução.


Governança Também Evoluiu

Outro conceito que amadureceu foi a governança corporativa.

Conselhos de administração tornaram-se mais ativos.

Investidores exigiram maior transparência.

Relatórios financeiros passaram a ser analisados com muito mais rigor.

Empresas de tecnologia deixaram de ser vistas como "casos especiais".

Passaram a seguir princípios semelhantes aos de qualquer organização sólida.

Essa mudança fortaleceu todo o ecossistema.


Enquanto Isso... O Mainframe Apenas Continuava Fazendo Seu Trabalho

Existe algo quase filosófico nessa comparação.

Enquanto startups aprendiam conceitos como:

alta disponibilidade;

controle de mudanças;

gestão de configuração;

auditoria;

planejamento de capacidade;

recuperação de desastres...

Os profissionais de mainframe olhavam tudo isso com certa familiaridade.

Esses princípios sempre fizeram parte do ambiente corporativo.

Muito antes da Web.

Muito antes da nuvem.

Muito antes da IA.

Para um administrador de z/OS, manter disponibilidade, controlar mudanças e garantir continuidade nunca foi diferencial.

Era simplesmente parte do trabalho.

Talvez por isso o universo mainframe tenha atravessado tantas revoluções tecnológicas sem perder relevância.


O Investidor Tornou-se Mais Maduro

Os fundos de Venture Capital também evoluíram.

Continuaram financiando inovação.

Mas passaram a exigir muito mais disciplina.

Modelos financeiros.

Planejamento.

Execução.

Capacidade da equipe.

Governança.

Não significa que novas bolhas deixaram de existir.

Mas os critérios ficaram muito mais sofisticados.

Hoje uma startup dificilmente consegue investimentos relevantes apresentando apenas uma boa ideia.

Ela precisa demonstrar capacidade real de transformar visão em negócio.


O Mercado Descobriu o Valor da Resiliência

Antes da bolha, velocidade parecia ser a principal vantagem competitiva.

Depois dela...

Resiliência ganhou importância.

Empresas começaram a investir em:

continuidade operacional;

redundância;

backup;

recuperação de desastres;

gestão de riscos;

planejamento estratégico.

A pergunta deixou de ser:

"Como crescer rapidamente?"

Passou a incluir:

"Como continuar funcionando quando tudo der errado?"

Essa mudança continua extremamente atual.


A Universidade Também Mudou

A crise influenciou até mesmo o ensino de computação.

Cursos passaram a enfatizar:

engenharia de software;

arquitetura;

gestão de projetos;

qualidade;

bancos de dados;

segurança;

redes;

empreendedorismo.

O profissional de tecnologia deixou de ser visto apenas como programador.

Passou a ser um engenheiro de sistemas completos.

Essa visão continua moldando a formação de novos profissionais.


O Paralelo com a Era da Inteligência Artificial

Estamos novamente diante de uma tecnologia transformadora.

A Inteligência Artificial desperta entusiasmo semelhante ao observado na Internet dos anos 1990.

Mas existe uma diferença importante.

Hoje carregamos a memória da bolha.

Empresas perguntam:

Como governar modelos?

Como proteger dados?

Como controlar custos de inferência?

Como auditar decisões?

Como evitar alucinações?

Como integrar IA aos sistemas existentes?

Essas perguntas demonstram maturidade.

A indústria aprendeu que inovação precisa caminhar junto com engenharia.


O Que Nunca Mudou

Apesar de todas as transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas, alguns princípios permaneceram praticamente inalterados.

Resolver problemas reais.

Respeitar limitações técnicas.

Controlar recursos.

Planejar crescimento.

Construir sistemas confiáveis.

Investir em pessoas.

Esses princípios eram verdadeiros antes da Internet.

Continuam verdadeiros na era da Inteligência Artificial.

Provavelmente permanecerão válidos por muitas décadas.


Lições para o Padawan COBOL

Todo programa COBOL bem escrito possui uma característica interessante.

Ele pode ser antigo.

Mas continua compreensível.

Continua confiável.

Continua executando sua função.

Isso acontece porque foi desenvolvido seguindo princípios sólidos.

Empresas também.

A bolha das Dot-Com mostrou que tecnologias mudam rapidamente.

Princípios de engenharia mudam muito pouco.

No universo da Frota Estelar, um jovem cadete costuma ficar fascinado por novos motores de dobra, armamentos experimentais e tecnologias recém-descobertas. Já um engenheiro veterano sabe que nenhuma inovação substitui a integridade do casco, a confiabilidade dos sistemas de suporte à vida e a disciplina da tripulação.

A mesma lógica vale para a computação.

Frameworks surgem.

Linguagens aparecem.

Modelos de IA evoluem.

Mas os fundamentos continuam.

E é justamente por dominar esses fundamentos que um Programador COBOL Padawan pode compreender não apenas o passado da tecnologia, mas também antecipar muitos dos desafios do seu futuro.

No próximo capítulo ampliaremos ainda mais essa visão, comparando a bolha da Internet com outras grandes bolhas econômicas da história — das tulipas holandesas do século XVII às criptomoedas, NFTs, metaverso e Inteligência Artificial — mostrando que, embora as tecnologias mudem, o comportamento humano continua surpreendentemente parecido.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

DotCom : Capítulo VIII — Das Cinzas ao Renascimento: Como o Colapso das Dot-Com Preparou o Mundo para a Era Digital

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo viii

Capítulo VIII — Das Cinzas ao Renascimento: Como o Colapso das Dot-Com Preparou o Mundo para a Era Digital

Por que a maior crise da Internet foi, paradoxalmente, o evento que tornou possível o nascimento de Google, Facebook, YouTube, smartphones, computação em nuvem e Inteligência Artificial

"Uma floresta devastada por um incêndio parece morta. Mas, sob a terra, as sementes finalmente encontram espaço para crescer."

À primeira vista, o estouro da bolha da Internet parece uma história de fracasso.

Empresas quebraram.

Investidores perderam fortunas.

Milhares de profissionais ficaram desempregados.

Projetos desapareceram.

Wall Street entrou em pânico.

Entretanto...

Se observarmos a história com um pouco mais de distância, perceberemos algo surpreendente.

A bolha não destruiu a revolução digital.

Ela a tornou possível.

Pode parecer contraditório.

Mas muitas das empresas que hoje dominam nossa vida cotidiana só conseguiram crescer porque a crise eliminou os excessos da primeira geração da Internet.

Foi como uma gigantesca atualização de software.

Dolorosa.

Cara.

Mas necessária.


A Internet Sobreviveu

Existe um erro muito comum quando se fala sobre o ano 2000.

As pessoas imaginam que a Internet quase desapareceu.

Nada poderia estar mais distante da realidade.

Na verdade...

Enquanto investidores fugiam das ações de tecnologia, engenheiros continuavam trabalhando.

Cabos continuavam sendo instalados.

Servidores continuavam sendo fabricados.

Protocolos continuavam evoluindo.

Universidades continuavam pesquisando.

Empresas continuavam conectando filiais.

A infraestrutura da Internet nunca parou de crescer.

Quem entrou em crise foi o mercado financeiro.

Não a tecnologia.

Essa distinção é extremamente importante.


A Infraestrutura Ficou Pronta

Durante a euforia das Dot-Com foram investidos bilhões de dólares em infraestrutura.

Data centers.

Cabos submarinos.

Centrais telefônicas.

Equipamentos ópticos.

Backbones internacionais.

Links de alta velocidade.

Na época, muitos analistas afirmavam que havia capacidade demais.

Parecia desperdício.

Mas alguns anos depois...

Essa mesma infraestrutura permitiu uma explosão de crescimento.

É uma ironia fascinante.

Boa parte da Internet moderna utiliza uma base construída justamente durante a bolha.

O investimento parecia exagerado.

O tempo mostrou que ele apenas havia chegado cedo demais.


A Banda Larga Mudou Tudo

No início dos anos 2000 começou outra transformação silenciosa.

A Internet discada começou a ser substituída por conexões de banda larga.

Pela primeira vez, os computadores permaneciam conectados o tempo todo.

Adeus ao barulho do modem.

Adeus à linha telefônica ocupada.

Adeus à espera para estabelecer conexão.

Essa mudança alterou completamente a maneira como as pessoas utilizavam a Internet.

Ela deixou de ser uma atividade ocasional.

Passou a fazer parte da rotina diária.

Foi uma mudança de comportamento.

E mudanças de comportamento costumam gerar novas oportunidades de negócios.


A Web Aprendeu a Conversar

Durante a primeira geração da Internet, a maioria dos sites era estática.

Empresas publicavam informações.

Usuários apenas liam.

Pouco depois da crise começou a surgir um conceito completamente diferente.

A Web participativa.

As pessoas deixaram de ser apenas consumidoras.

Passaram a produzir conteúdo.

Escrever.

Fotografar.

Comentar.

Compartilhar.

Avaliar.

Nascia aquilo que mais tarde seria conhecido como Web 2.0.

A Internet deixava de ser uma biblioteca.

Transformava-se numa gigantesca praça pública.


Google Encontrou Seu Momento

Quando a poeira da crise começou a baixar, o Google estava preparado.

Sua infraestrutura crescia.

Seu algoritmo melhorava.

Seu modelo de publicidade tornava-se extremamente eficiente.

Enquanto centenas de concorrentes desapareciam, o Google concentrava cada vez mais usuários.

O curioso é que sua maior vantagem não era apenas tecnológica.

Era econômica.

Cada pesquisa gerava informações valiosas.

Cada anúncio era mais relevante.

Cada clique aperfeiçoava o sistema.

Criava-se um ciclo virtuoso.

Quanto mais pessoas utilizavam o Google...

Melhor ele ficava.


Amazon Deixou de Ser Apenas uma Livraria

Outro sobrevivente aproveitou o período para se reinventar.

A Amazon começou vendendo livros.

Mas Jeff Bezos nunca desejou construir apenas uma livraria online.

Seu objetivo era criar "a loja de tudo".

Após sobreviver à bolha, a empresa acelerou sua expansão.

Vieram:

eletrônicos.

roupas.

brinquedos.

computadores.

móveis.

alimentos.

E, posteriormente...

Serviços em nuvem.

Poucos imaginavam que uma empresa criada para vender livros se tornaria uma das maiores fornecedoras mundiais de infraestrutura para Inteligência Artificial.

Mas foi exatamente isso que aconteceu.


O Nascimento da Computação em Nuvem

Existe uma conexão direta entre a bolha da Internet e a computação em nuvem.

Durante a crise, muitas empresas perceberam que manter enormes infraestruturas próprias era caro.

Ao mesmo tempo, gigantes como Amazon possuíam data centers subutilizados.

A solução parecia natural.

Alugar capacidade computacional.

Em vez de comprar servidores...

Empresas passariam a contratar processamento sob demanda.

Hoje chamamos isso de Cloud Computing.

Na época era uma ideia revolucionária.

Mais uma vez...

A crise incentivou eficiência.


O Mundo Tornou-se Mobile

Enquanto a Internet amadurecia, outra revolução aproximava-se silenciosamente.

Os telefones celulares.

No início serviam apenas para chamadas.

Depois enviavam mensagens.

Pouco depois começaram a acessar páginas simples.

Então surgiu um dispositivo que mudaria tudo.

O smartphone.

Quando o iPhone foi lançado em 2007, encontrou uma Internet completamente diferente daquela de 1999.

Mais rápida.

Mais estável.

Mais madura.

A infraestrutura construída durante a bolha finalmente encontrou um ambiente capaz de utilizá-la plenamente.


Redes Sociais: A Segunda Onda

Pouco depois vieram:

Facebook.

YouTube.

LinkedIn.

Twitter.

Wikipedia.

Flickr.

Essas empresas nasceram em um mundo muito diferente daquele enfrentado pelas primeiras Dot-Com.

Agora existia:

banda larga.

computadores mais rápidos.

servidores mais baratos.

infraestrutura consolidada.

consumidores acostumados à Internet.

meios de pagamento mais seguros.

A primeira geração havia preparado o terreno.

A segunda pôde finalmente construir sobre ele.


Enquanto Isso... Os Mainframes Evoluíam Silenciosamente

Existe um aspecto pouco comentado dessa história.

Enquanto todos observavam o crescimento da Web, o universo corporativo também evoluía.

Mainframes passaram a oferecer:

Linux.

Java.

Serviços Web.

XML.

SOA.

Virtualização avançada.

Mais tarde vieram:

OpenShift.

Containers.

APIs REST.

Kubernetes.

Watsonx.

Aceleradores para Inteligência Artificial.

Ou seja...

O mainframe não ficou parado esperando o futuro.

Ele evoluiu junto com ele.

Talvez de maneira menos chamativa.

Mas extremamente consistente.


A Internet Aprendeu a Ganhar Dinheiro

Outra consequência importante da crise foi o amadurecimento dos modelos de negócios.

As empresas passaram a compreender melhor como gerar receita.

Publicidade segmentada.

Assinaturas.

Software como Serviço.

Marketplace.

Serviços financeiros.

Computação em nuvem.

Economia de plataforma.

Esses modelos praticamente definem a economia digital atual.

Curiosamente...

Quase todos foram refinados após o colapso das Dot-Com.


O Investidor Também Mudou

Os investidores aprenderam muito.

Antes financiavam praticamente qualquer startup.

Depois passaram a analisar:

modelo de negócios.

custos.

retenção de clientes.

receita recorrente.

fluxo de caixa.

capacidade de execução.

Não significa que novas bolhas nunca mais ocorreram.

Mas a qualidade das análises tornou-se muito maior.

Pelo menos durante algum tempo.


A Computação Entrou na Vida de Todos

Talvez a consequência mais profunda da crise tenha sido cultural.

Nos anos 1980, computadores eram ferramentas de especialistas.

Nos anos 1990, tornaram-se objetos domésticos.

Nos anos 2000, passaram a conectar pessoas.

Na década seguinte tornaram-se companheiros permanentes através dos smartphones.

Hoje...

A Inteligência Artificial amplia novamente essa transformação.

Tudo isso faz parte da mesma jornada iniciada muito antes da bolha.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo parecido.

Existe enorme entusiasmo.

Investimentos bilionários.

Milhares de startups.

Novos modelos surgindo praticamente todos os meses.

Provavelmente veremos empresas desaparecerem.

Outras serão adquiridas.

Algumas mudarão completamente de estratégia.

Entretanto...

Mesmo que isso aconteça, a Inteligência Artificial continuará evoluindo.

Assim como aconteceu com a Internet.

A tecnologia não depende do destino individual de cada empresa.

Ela continua seu caminho.


A Grande Ironia da História

Se a bolha da Internet nunca tivesse existido...

Talvez a revolução digital fosse muito mais lenta.

Parece estranho afirmar isso.

Mas pense.

A euforia atraiu investimentos gigantescos.

Esses investimentos construíram infraestrutura.

Essa infraestrutura permaneceu.

Anos depois, novas empresas utilizaram exatamente essa base para criar produtos muito mais maduros.

Em outras palavras.

O dinheiro especulativo desapareceu.

Os cabos ficaram.

Os data centers ficaram.

Os engenheiros ficaram.

O conhecimento ficou.

As lições ficaram.

E foi exatamente isso que possibilitou o nascimento da Internet moderna.


Lições para o Padawan COBOL

Um programa COBOL raramente nasce perfeito.

Ao longo dos anos ele recebe correções.

Melhorias.

Novos módulos.

Integrações.

Refatorações.

Depois de décadas, muitas vezes continua executando sua função original, mas tornou-se muito mais robusto.

A Internet passou pelo mesmo processo.

A bolha das Dot-Com foi um enorme "debug" coletivo.

Ela eliminou erros de arquitetura empresarial, expôs modelos insustentáveis e obrigou toda a indústria a amadurecer.

No universo da Frota Estelar existe uma máxima entre os engenheiros da USS Enterprise:

"Nenhuma nave chega à classe Galaxy sem antes aprender com os erros das classes anteriores."

A Internet também.

A primeira geração abriu o caminho.

A segunda consolidou a economia digital.

A terceira trouxe computação em nuvem e smartphones.

A quarta nos conduz agora à era da Inteligência Artificial.

Cada geração parece completamente nova.

Na realidade...

Todas são capítulos da mesma história.

E é justamente essa continuidade que um bom engenheiro — seja de software, seja de sistemas mainframe — aprende a enxergar.

No próximo capítulo veremos como a bolha das Dot-Com mudou definitivamente a forma como investidores, empresas e governos passaram a avaliar tecnologia, inaugurando uma nova era de governança, gestão de riscos e inovação sustentável.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

DotCom : Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo vii

Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

Como algumas empresas transformaram a maior crise da Internet em uma oportunidade para construir impérios tecnológicos que mudariam o século XXI

"Uma tempestade não cria um grande navegador. Ela apenas revela quem realmente sabe navegar."

Quando estudamos a bolha da Internet, existe uma tendência natural de focarmos apenas nas empresas que desapareceram.

Pets.com.

Webvan.

Boo.com.

eToys.

Excite.

GeoCities.

Broadcast.com.

Centenas de outras.

É uma lista enorme.

Mas existe uma pergunta muito mais interessante.

Por que algumas empresas sobreviveram?

Afinal...

Todas faziam parte da mesma Internet.

Todas enfrentaram o mesmo colapso.

Todas perderam investidores.

Todas sofreram com a queda do NASDAQ.

O que havia de diferente?

Será que tiveram sorte?

Ou existia algo mais profundo?

A resposta é uma das maiores lições de gestão, tecnologia e engenharia da história moderna.


A Natureza Também Funciona Assim

Charles Darwin jamais estudou empresas de tecnologia.

Mesmo assim, sua teoria da evolução explica muito do que aconteceu entre 2000 e 2003.

Na natureza, sobreviver não significa ser o maior.

Nem o mais forte.

Nem o mais bonito.

Sobrevive quem melhor consegue adaptar-se às mudanças do ambiente.

No mundo corporativo acontece exatamente o mesmo.

Quando o dinheiro era abundante...

Quase todas as empresas pareciam saudáveis.

Quando o dinheiro desapareceu...

Descobriu-se quais realmente possuíam capacidade de adaptação.


Amazon: A Empresa que Quase Morreu

Hoje parece impossível imaginar.

Mas houve um momento em que analistas afirmavam seriamente que a Amazon jamais sobreviveria.

Suas ações perderam aproximadamente 95% do valor após o estouro da bolha.

Jeff Bezos tornou-se alvo de críticas.

Jornais publicavam manchetes questionando:

"A Amazon ainda existirá daqui a alguns anos?"

A empresa acumulava prejuízos.

Investia pesadamente em infraestrutura.

Construía centros de distribuição enormes.

Comprava servidores.

Desenvolvia software.

Naquele momento, muitos acreditavam que tudo aquilo era desperdício.

Hoje sabemos que era exatamente o contrário.

Bezos estava construindo a fundação de um império.


Jeff Bezos Não Pensava em Trimestres

Existe uma característica interessante nos fundadores que sobreviveram.

Eles olhavam para décadas.

Não para o próximo trimestre.

Enquanto investidores exigiam resultados imediatos, Bezos repetia constantemente uma filosofia simples.

"Estamos construindo uma empresa para o longo prazo."

Essa visão permitiu decisões extremamente difíceis.

Redução de despesas.

Demissões.

Cancelamento de projetos.

Renegociação de contratos.

O objetivo não era impressionar Wall Street.

Era sobreviver.

Sem sobrevivência...

Não existiria futuro.


Google Chegou na Hora Certa

Outro caso fascinante é o Google.

Ao contrário da maioria das startups da época, o Google nasceu praticamente no momento em que a bolha começava a mostrar sinais de desgaste.

Larry Page e Sergey Brin tinham um problema muito específico para resolver.

Como encontrar informação relevante na Web.

Naquela época já existiam buscadores.

AltaVista.

Lycos.

Excite.

Infoseek.

Yahoo!.

Entretanto...

Os resultados eram frequentemente ruins.

Google resolveu um problema concreto.

Seu algoritmo PageRank organizava resultados de forma muito superior aos concorrentes.

Perceba a diferença.

Eles não criaram uma empresa porque a Internet estava na moda.

Criaram porque existia um problema real.


Resolver Problemas Vale Mais do que Seguir Tendências

Esse talvez seja o maior ensinamento de Google.

Tecnologia é consequência.

Problemas vêm primeiro.

Quando um produto resolve algo importante...

Os clientes permanecem.

Quando ele existe apenas porque está acompanhando uma tendência...

A sobrevivência torna-se muito mais difícil.

Esse princípio continua válido vinte anos depois.

Na era da Inteligência Artificial, a pergunta permanece exatamente a mesma.

Que problema estamos resolvendo?


eBay Descobriu o Poder da Comunidade

Enquanto muitas startups gastavam fortunas em publicidade, o eBay crescia principalmente através dos próprios usuários.

Compradores atraíam vendedores.

Vendedores atraíam compradores.

Esse fenômeno recebe hoje o nome de efeito de rede.

Quanto maior a comunidade...

Maior o valor da plataforma.

Esse crescimento orgânico reduziu drasticamente a necessidade de investimentos gigantescos em marketing.

Era um modelo muito mais sustentável.


PayPal Sobreviveu Porque Existia um Problema Real

Comprar pela Internet no final dos anos 1990 não era simples.

Cartões de crédito ainda geravam desconfiança.

Fraudes eram frequentes.

Pagamentos internacionais eram complicados.

PayPal apareceu justamente para resolver esse problema.

A empresa enfrentou enormes dificuldades.

Mudou diversas vezes de estratégia.

Lutou contra fraudes diariamente.

Mesmo assim...

Persistiu.

Porque seu serviço atendia uma necessidade concreta do mercado.

Não era uma solução procurando um problema.

Era exatamente o contrário.


Salesforce Mudou o Modelo de Negócio

Outro sobrevivente importante foi a Salesforce.

Marc Benioff defendia uma ideia considerada quase absurda na época.

Software não precisava mais ser instalado.

Poderia funcionar diretamente pela Internet.

Hoje chamamos isso de SaaS.

Software as a Service.

Naquele período parecia uma heresia.

Empresas estavam acostumadas a comprar CDs, instalar programas e manter servidores próprios.

Salesforce mostrou que era possível fazer diferente.

Não venceu porque possuía o software mais bonito.

Venceu porque criou um modelo econômico melhor.


O Que Todas Tinham em Comum?

Quando analisamos essas empresas percebemos padrões bastante claros.

Elas possuíam objetivos diferentes.

Mercados diferentes.

Produtos diferentes.

Mas compartilhavam características fundamentais.

Primeiro.

Resolvendo problemas reais.

Segundo.

Pensando no longo prazo.

Terceiro.

Investindo fortemente em engenharia.

Quarto.

Aceitando adaptar modelos de negócio sempre que necessário.

Quinto.

Controlando cuidadosamente recursos durante a crise.

Nenhuma delas ignorou a realidade financeira.


Enquanto Isso... Milhares Desapareciam

No mesmo período, centenas de startups continuavam apostando que novos investidores resolveriam seus problemas.

Não reduziram custos.

Não mudaram estratégias.

Não adaptaram produtos.

Esperaram que o mercado voltasse ao normal.

Ele nunca voltou.

A crise mostrou uma diferença importante entre esperança e planejamento.

Esperança é importante.

Mas não substitui estratégia.


A Engenharia Tornou-se Diferencial Competitivo

Existe outra característica curiosa.

As empresas sobreviventes investiram pesadamente em infraestrutura.

Google construiu data centers gigantescos.

Amazon desenvolveu plataformas logísticas extremamente sofisticadas.

PayPal criou mecanismos antifraude avançados.

eBay investiu em escalabilidade.

Nenhuma delas acreditava que apenas marketing seria suficiente.

Todas compreenderam que crescimento exige engenharia.

Essa continua sendo uma das maiores diferenças entre demonstrações impressionantes e produtos duradouros.


O Mainframe Sempre Conheceu Esse Princípio

Para um profissional COBOL, essa conclusão parece quase óbvia.

Durante décadas, sistemas bancários sempre foram projetados pensando em:

  • crescimento;

  • disponibilidade;

  • redundância;

  • recuperação;

  • desempenho;

  • segurança.

Ninguém constrói um sistema de pagamentos imaginando apenas a demonstração para um cliente.

Ele precisa continuar funcionando durante anos.

É exatamente essa mentalidade que começou a reaparecer na indústria de software após a bolha.

As empresas voltaram a valorizar arquitetura.

Não apenas velocidade.


A Crise Eliminou Concorrentes

Existe uma consequência pouco comentada sobre grandes crises.

Elas reduzem drasticamente a concorrência.

Quando centenas de startups desapareceram, empresas sobreviventes passaram a disputar um mercado muito menos congestionado.

Amazon encontrou menos competidores.

Google tornou-se rapidamente referência em buscas.

eBay consolidou sua liderança.

Salesforce expandiu-se praticamente sozinha no mercado de CRM em nuvem.

Paradoxalmente...

A crise abriu espaço para gigantes crescerem ainda mais.


A Internet Ficou Mais Forte

Pode parecer contraditório.

Mas a bolha fortaleceu a própria Internet.

Como?

Eliminando modelos insustentáveis.

Concentrando investimentos em empresas mais eficientes.

Incentivando engenharia de melhor qualidade.

Criando consumidores mais confiantes.

Melhorando infraestrutura.

Fortalecendo meios de pagamento.

Quando a década seguinte começou...

A Internet estava muito mais preparada para crescer.

A crise havia funcionado como uma gigantesca poda.

As raízes permaneceram.

Os galhos fracos desapareceram.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo semelhante atualmente.

Existem milhares de startups de IA.

Nem todas sobreviverão.

Isso não significa que a Inteligência Artificial fracassará.

Muito provavelmente ocorrerá o oposto.

Assim como aconteceu após as Dot-Com, algumas poucas empresas construirão infraestrutura sólida, resolverão problemas relevantes e permanecerão durante décadas.

Outras desaparecerão.

A tecnologia continuará evoluindo.

A história mostra que inovação costuma sobreviver às bolhas.

O que normalmente não sobrevive são os modelos econômicos mal planejados.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma razão pela qual programas COBOL escritos há quarenta anos continuam executando milhões de transações diariamente.

Eles foram desenvolvidos para resolver problemas concretos.

Não para impressionar investidores.

Essa talvez seja a maior diferença entre sistemas críticos e muitos produtos criados durante períodos de euforia.

Um sistema duradouro nasce da combinação entre boa engenharia, visão de longo prazo e disciplina operacional.

Empresas também.

No universo da Frota Estelar, durante uma batalha, as naves mais vistosas nem sempre sobrevivem. Muitas possuem armamentos impressionantes, mas pouca resistência estrutural. Já as naves projetadas por engenheiros cuidadosos suportam impactos, adaptam-se aos danos, redistribuem energia e continuam cumprindo sua missão.

Foi exatamente isso que aconteceu após a bolha da Internet.

As empresas que sobreviveram não eram necessariamente as mais rápidas.

Eram as mais resilientes.

No próximo capítulo conheceremos uma das maiores ironias dessa história: como justamente o colapso das Dot-Com abriu caminho para a Web 2.0, as redes sociais, os smartphones e praticamente toda a economia digital que conhecemos hoje. Às vezes, destruir o excesso é exatamente o que permite o verdadeiro crescimento.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

DotCom : Capítulo VI — Os Sobreviventes da Tempestade: Como o Colapso das Dot-Com Transformou o Mercado de Trabalho e a Engenharia de Software

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo vi

Capítulo VI — Os Sobreviventes da Tempestade: Como o Colapso das Dot-Com Transformou o Mercado de Trabalho e a Engenharia de Software

Quando milhares de profissionais perderam seus empregos, mas a computação ganhou uma nova geração de engenheiros muito mais preparados

"Toda crise destrói ilusões. Mas também constrói profissionais que jamais seriam formados em tempos de abundância."

Quando estudamos a bolha da Internet, quase sempre vemos gráficos.

Linhas descendentes.

Índices financeiros.

Bilhões de dólares evaporando.

Empresas desaparecendo.

Mas existe uma história muito menos comentada.

A história das pessoas.

Por trás de cada startup que fechava existiam desenvolvedores.

Analistas.

Arquitetos.

DBAs.

Gerentes de projeto.

Administradores de rede.

Profissionais de suporte.

Designers.

Testadores.

Especialistas em banco de dados.

Milhares deles acreditavam estar construindo o futuro.

E, de certa forma...

Estavam.

O problema é que nem todos trabalhariam para vê-lo chegar.


A Grande Onda de Demissões

Conforme o dinheiro dos investidores desaparecia, as empresas precisavam tomar decisões rápidas.

A folha de pagamento era, normalmente, a maior despesa.

A consequência foi inevitável.

Demissões em massa.

Algumas startups reduziram metade do quadro de funcionários.

Outras dispensaram praticamente todos.

Diversas simplesmente fecharam as portas de um dia para o outro.

Imagine chegar ao escritório numa segunda-feira e descobrir que a empresa havia encerrado suas atividades durante o fim de semana.

Infelizmente, isso aconteceu inúmeras vezes.

Muitos profissionais sequer tiveram tempo de procurar outro emprego antes do fechamento definitivo.


A Ilusão das Stock Options

Um dos grandes atrativos das startups era o famoso pacote de stock options.

Em vez de oferecer apenas salário, muitas empresas prometiam participação acionária.

A ideia parecia excelente.

Aceitar um salário um pouco menor hoje para ficar milionário quando a empresa abrisse capital.

Em alguns casos isso realmente aconteceu.

Funcionários da Microsoft, Google, Amazon e outras gigantes construíram fortunas dessa maneira.

Entretanto, para milhares de trabalhadores das Dot-Com, aquelas opções de ações simplesmente perderam todo o valor.

Papel que um dia parecia representar riqueza transformou-se em lembrança.

Foi uma lição dura sobre o risco de concentrar expectativas em um único cenário.


O Mercado Mudou da Noite para o Dia

Poucos meses antes, empresas disputavam profissionais.

Agora...

Profissionais disputavam vagas.

O mercado ficou completamente diferente.

As startups deixaram de contratar.

Fundos interromperam investimentos.

Projetos foram cancelados.

Empresas tradicionais voltaram a receber currículos de especialistas que antes jamais cogitariam trabalhar nelas.

Foi uma mudança brusca de equilíbrio.

Em vez de escassez de mão de obra, surgiu um enorme excesso de profissionais altamente qualificados procurando oportunidades.


O Perfil do Profissional Também Mudou

Antes da crise, bastava dizer que alguém trabalhava com Internet.

Depois da crise...

As perguntas ficaram mais específicas.

Você sabe projetar sistemas escaláveis?

Conhece banco de dados?

Entende arquitetura distribuída?

Consegue otimizar desempenho?

Tem experiência com segurança?

Sabe administrar servidores?

O mercado deixou de procurar apenas entusiasmo.

Passou a valorizar competência técnica.

Foi o nascimento de uma nova geração de engenheiros de software.


O Desenvolvedor "Faz-Tudo"

Nas startups da época era comum encontrar profissionais acumulando diversas funções.

O mesmo desenvolvedor escrevia código.

Configurava servidores.

Administrava banco de dados.

Respondia clientes.

Instalava equipamentos.

Configurava roteadores.

Hoje chamamos isso de perfil full stack.

Naquele período era simplesmente necessidade.

As equipes eram pequenas.

Os recursos limitados.

Todos precisavam aprender rapidamente.

Essa cultura acabou influenciando profundamente a engenharia de software das décadas seguintes.


As Certificações Ganharam Valor

Depois do colapso, muitas empresas passaram a buscar profissionais com formação técnica mais sólida.

Certificações começaram a ganhar importância.

Experiência comprovada tornou-se diferencial.

Conhecimento profundo passou a valer mais do que apresentações bonitas.

Foi também um período em que cursos de administração de sistemas, redes, bancos de dados e engenharia de software cresceram bastante.

O mercado buscava estabilidade.

E estabilidade exige conhecimento.


Enquanto Isso... Os Mainframes Continuavam Contratando

Existe uma curiosidade pouco lembrada.

Enquanto diversas startups demitiam funcionários, muitos bancos, seguradoras e órgãos governamentais continuavam contratando profissionais de tecnologia.

Por quê?

Porque suas operações não dependiam do humor dos investidores.

O banco continuava precisando processar pagamentos.

A seguradora continuava emitindo apólices.

O governo continuava arrecadando impostos.

As empresas de infraestrutura crítica não podiam simplesmente "esperar a crise passar".

Elas precisavam funcionar todos os dias.

Foi nesse período que muitos profissionais migraram das startups para ambientes corporativos tradicionais.

Alguns descobriram pela primeira vez o universo dos grandes sistemas.


O Preconceito Contra o COBOL Começou a Ser Questionado

Durante os anos de euforia, era comum ouvir frases como:

"O COBOL morreu."

"Mainframe é coisa do passado."

"O futuro pertence apenas à Internet."

Entretanto, quando a crise chegou, ocorreu algo curioso.

As empresas perceberam que seus sistemas mais importantes continuavam funcionando justamente nas plataformas consideradas antigas.

Enquanto startups fechavam as portas, milhões de transações financeiras continuavam sendo processadas diariamente em programas COBOL escritos anos antes.

Isso levou muitos executivos a reconsiderarem um conceito fundamental.

Tecnologia moderna não substitui necessariamente tecnologia confiável.

Frequentemente elas coexistem.

E se complementam.


A Engenharia Voltou a Ser Importante

Durante a bolha, existia uma obsessão por lançar produtos rapidamente.

O famoso:

"Depois corrigimos."

Após a crise, essa mentalidade começou a mudar.

Arquitetura voltou a ser discutida.

Documentação passou a receber atenção.

Modelagem de dados tornou-se prioridade.

Processos de desenvolvimento amadureceram.

Testes automatizados começaram a ganhar espaço.

Planejamento deixou de ser visto como desperdício de tempo.

A indústria percebeu que improvisação funciona apenas enquanto tudo está dando certo.

Quando surgem problemas...

Quem salva o projeto é a engenharia.


O Cliente Voltou ao Centro

Outro aprendizado importante foi a mudança de foco.

Durante a bolha, muitas empresas desenvolviam produtos pensando principalmente em investidores.

Depois da crise...

O foco voltou para o cliente.

Uma pergunta simples começou a orientar projetos:

Este produto realmente resolve um problema?

Pode parecer óbvio.

Mas essa pergunta havia sido parcialmente esquecida durante os anos de euforia.

Empresas passaram a investir menos em promessas.

E mais em utilidade.

Foi um enorme amadurecimento do setor.


O Surgimento da Cultura da Eficiência

Até então, crescimento era praticamente a única métrica importante.

Depois da crise surgiram outras preocupações.

Eficiência operacional.

Controle de custos.

Produtividade.

Qualidade.

Retenção de clientes.

Suporte.

Escalabilidade sustentável.

Esses conceitos hoje fazem parte de qualquer empresa de tecnologia.

Na época foram aprendidos através de uma das crises mais dolorosas da história do setor.


As Gigantes Também Aprenderam

Curiosamente, até empresas que sobreviveram precisaram mudar profundamente.

Amazon reduziu custos.

Google focou ainda mais em engenharia.

eBay investiu em infraestrutura.

PayPal aprimorou seus sistemas antifraude.

Salesforce refinou seu modelo SaaS.

Nenhuma delas saiu da crise igual.

Sobreviver exigiu disciplina.

Não apenas inovação.


O Mainframe Nunca Foi o Vilão

Existe uma ironia interessante.

Enquanto jornais discutiam diariamente o futuro da Internet, poucos percebiam que praticamente todas as transações importantes da nova economia terminavam passando por sistemas tradicionais.

Quando alguém comprava um produto online...

O pagamento era autorizado por sistemas bancários.

Quando um cartão era utilizado...

Mainframes validavam limites.

Quando uma transferência era realizada...

Programas COBOL processavam registros.

A nova economia não substituiu a antiga.

Ela passou a depender dela.

Essa talvez seja uma das maiores lições para quem trabalha com tecnologia atualmente.

A inovação raramente elimina completamente o passado.

Na maioria das vezes...

Ela se apoia nele.


O Renascimento da Engenharia de Software

Muitos historiadores da computação afirmam que a bolha da Internet foi responsável por acelerar a maturidade da engenharia de software.

Antes dela, bastava lançar rapidamente.

Depois dela, tornou-se necessário construir corretamente.

Foi nesse ambiente que ganharam força conceitos como:

  • arquitetura em camadas;

  • padrões de projeto;

  • integração contínua;

  • automação de testes;

  • monitoramento;

  • observabilidade;

  • recuperação de desastres;

  • alta disponibilidade.

Não porque eram novidades.

Mas porque as empresas finalmente entenderam quanto custava ignorá-los.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Hoje, em plena era dos agentes inteligentes e da IA generativa, vemos um movimento semelhante.

Existe enorme demanda por profissionais.

Salários elevados.

Novas startups surgindo diariamente.

Mas também cresce a procura por competências mais profundas.

Engenharia de prompts já não basta.

É preciso entender:

  • arquitetura de sistemas;

  • integração com APIs;

  • segurança;

  • governança;

  • bancos vetoriais;

  • infraestrutura;

  • observabilidade;

  • custos de inferência.

Assim como aconteceu após as Dot-Com, o mercado começa novamente a valorizar quem compreende sistemas completos, e não apenas ferramentas da moda.


Lições para o Padawan COBOL

Todo Padawan COBOL aprende, cedo ou tarde, que um programa pode funcionar perfeitamente durante anos e, ainda assim, precisar ser continuamente aprimorado.

Empresas seguem exatamente a mesma lógica.

A crise das Dot-Com mostrou que entusiasmo abre portas.

Mas é competência que mantém essas portas abertas.

Profissionais que sobreviveram àquele período desenvolveram características que continuam extremamente valorizadas:

  • pensamento crítico;

  • disciplina técnica;

  • visão de longo prazo;

  • preocupação com qualidade;

  • respeito pela arquitetura;

  • foco em resolver problemas reais.

No universo da Frota Estelar, qualquer cadete consegue pilotar uma nave durante um treinamento em céu aberto. O verdadeiro oficial é aquele que mantém os motores funcionando quando a nave perde energia, os sensores falham e uma tempestade cósmica ameaça toda a tripulação.

Foi exatamente isso que aconteceu após o colapso das Dot-Com.

A tempestade revelou quem apenas navegava... e quem realmente sabia construir naves.

No próximo capítulo conheceremos um dos aspectos mais fascinantes dessa história: por que algumas empresas não apenas sobreviveram ao colapso, como saíram dele muito mais fortes, transformando-se nas gigantes que dominariam a Internet nas décadas seguintes. A crise eliminou milhares de companhias, mas também criou os futuros impérios digitais.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

DotCom : Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo v

Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

Como trilhões de dólares desapareceram, milhares de empresas faliram e a maior euforia tecnológica da história transformou-se em uma das maiores crises do mercado financeiro

"Toda bolha financeira parece indestrutível... até o dia em que alguém faz uma pergunta simples: 'Quanto isso realmente vale?'"

Durante quase cinco anos, o mercado viveu como se a gravidade econômica tivesse deixado de existir.

A Internet crescia.

Os computadores tornavam-se mais rápidos.

As conexões melhoravam.

Milhões de novos usuários entravam na rede.

Empresas anunciavam projetos revolucionários praticamente todos os dias.

Jornais estampavam manchetes otimistas.

Analistas elevavam projeções.

Investidores comemoravam.

Empreendedores eram tratados como visionários.

Parecia que o século XXI havia finalmente chegado.

Mas existia um detalhe que quase ninguém queria discutir.

A maior parte dessas empresas continuava sem apresentar lucro.

Pior.

Muitas nem sequer possuíam um plano claro para obtê-lo.

Durante algum tempo isso foi ignorado.

Até que chegou março de 2000.

E a realidade resolveu cobrar a conta.


O Pico da Euforia

No dia 10 de março de 2000, o índice NASDAQ atingiu aproximadamente 5.048 pontos, seu maior valor até então.

Naquele instante, parecia que nada poderia interromper o crescimento da economia digital.

Empresas recém-criadas valiam bilhões de dólares.

Muitas delas possuíam poucos anos de existência.

Algumas tinham menos funcionários do que uma agência bancária.

Mesmo assim, eram avaliadas acima de corporações industriais construídas ao longo de décadas.

Para muitos investidores, aquele era apenas o começo.

Hoje sabemos que, na realidade, era o topo da montanha.


O Mercado Começou a Fazer Perguntas

É curioso observar que grandes crises raramente começam com um único evento.

Elas normalmente surgem quando várias pequenas dúvidas começam a aparecer ao mesmo tempo.

Investidores passaram a perguntar:

  • Quando essas empresas darão lucro?

  • Quantas realmente sobreviverão?

  • Os usuários continuarão crescendo indefinidamente?

  • O mercado consumidor é grande o suficiente?

  • Essas avaliações fazem sentido?

Essas perguntas existiam desde o início.

Mas agora começaram a receber atenção.

E, quando investidores começam a duvidar...

Os preços começam a cair.


A Confiança é o Ativo Mais Valioso

Existe algo extremamente interessante sobre mercados financeiros.

O dinheiro é importante.

Mas existe algo ainda mais valioso.

Confiança.

Uma ação representa uma expectativa sobre o futuro.

Enquanto investidores acreditam nesse futuro...

O preço sobe.

Quando essa confiança desaparece...

O valor pode evaporar rapidamente.

Foi exatamente isso que ocorreu.

Não houve um grande desastre natural.

Não ocorreu uma guerra mundial.

Não surgiu uma tecnologia concorrente.

O que mudou foi a percepção coletiva.

E isso foi suficiente para iniciar uma reação em cadeia.


A Primeira Queda Parecia Apenas uma Correção

No início, muitos especialistas minimizaram o problema.

"É apenas uma realização de lucros."

"Uma pequena correção."

"O mercado subiu demais."

Essa interpretação parecia razoável.

Mercados realmente passam por correções periódicas.

Mas aquela não era uma correção comum.

Ela escondia algo muito maior.

Empresas começaram a divulgar resultados decepcionantes.

Projetos foram cancelados.

Captações de investimento ficaram mais difíceis.

Fundos passaram a selecionar melhor onde aplicar seus recursos.

O fluxo de dinheiro começou a diminuir.

E isso era extremamente perigoso para empresas que dependiam exclusivamente de novos investimentos para continuar existindo.


Quando o Capital Secou

Lembre-se do conceito de Burn Rate apresentado no capítulo anterior.

Enquanto investidores continuavam financiando prejuízos...

Tudo funcionava.

Mas agora o cenário havia mudado.

Os fundos começaram a fechar a torneira.

Empresas planejavam captar mais cinquenta milhões de dólares.

Recebiam cinco.

Outras esperavam cem milhões.

Não conseguiam nenhum.

Sem novos aportes...

O caixa começou a desaparecer rapidamente.

E empresas que pareciam gigantes descobriram que possuíam apenas alguns meses de sobrevivência.


O Efeito Dominó

Uma startup fechava.

Centenas de funcionários eram demitidos.

Fornecedores deixavam de receber.

Agências de publicidade perdiam contratos.

Empresas de hospedagem ficavam sem clientes.

Consultorias deixavam de faturar.

Outra empresa também quebrava.

Depois outra.

Depois outra.

O problema deixou de ser individual.

Transformou-se em um fenômeno sistêmico.

Era como uma sequência de dominós.

Cada peça derrubava a seguinte.


O NASDAQ Entrou em Queda Livre

Nos meses seguintes, o índice NASDAQ iniciou uma das maiores quedas da história.

O que antes parecia uma pequena correção transformou-se em um verdadeiro colapso.

Entre março de 2000 e outubro de 2002, o índice perdeu cerca de 78% do seu valor.

Milhões de investidores assistiram, impotentes, ao desaparecimento de boa parte de seu patrimônio.

Para muitos, tratava-se da primeira grande crise tecnológica de suas vidas.

A sensação era de incredulidade.

Como empresas avaliadas em bilhões podiam valer tão pouco em tão pouco tempo?

A resposta era simples.

Grande parte daquele valor existia apenas enquanto existia confiança.


Empresas Sumiram da Noite para o Dia

Algumas startups fecharam em poucas semanas.

Outras tentaram reduzir despesas desesperadamente.

Demitiram funcionários.

Cancelaram projetos.

Venderam equipamentos.

Mudaram de sede.

Renegociaram contratos.

Mesmo assim...

Muitas não conseguiram sobreviver.

É importante entender que nem todas eram empresas ruins.

Diversas possuíam produtos interessantes.

Algumas tinham excelentes engenheiros.

Outras contavam com tecnologias inovadoras.

O problema era que seus modelos financeiros dependiam de investimentos constantes.

Quando o dinheiro acabou...

A operação tornou-se inviável.


Pets.com Tornou-se um Símbolo

Nenhuma empresa simboliza melhor esse período do que a Pets.com.

Seu famoso mascote aparecia em comerciais de televisão.

Era uma marca conhecida nacionalmente.

Parecia estar em todos os lugares.

Entretanto...

A empresa fechou poucos meses após abrir capital.

Seu nome tornou-se praticamente sinônimo da bolha da Internet.

O curioso é que a ideia nunca foi ruim.

Hoje milhões de pessoas compram produtos para animais online.

O problema era outro.

A logística.

Os custos.

O momento histórico.

A empresa estava certa.

O mercado ainda não.


A Tragédia Humana

Quando estudamos crises econômicas costumamos analisar gráficos.

Índices.

Percentuais.

Bilhões de dólares.

Mas existe um lado humano que frequentemente é esquecido.

Milhares de profissionais perderam seus empregos.

Programadores.

Analistas.

Designers.

Administradores.

Executivos.

Famílias inteiras precisaram reorganizar suas vidas.

Muitos haviam trocado empregos estáveis por startups promissoras.

Outros haviam investido todas as suas economias em ações de tecnologia.

A bolha não destruiu apenas empresas.

Ela destruiu sonhos.


O Mainframe Continuou Trabalhando

Enquanto Wall Street enfrentava o caos, uma cena curiosa acontecia silenciosamente nos centros de processamento de dados.

O batch da madrugada continuava sendo executado.

Os sistemas bancários permaneciam autorizando cartões.

Folhas de pagamento continuavam sendo processadas.

Caixas eletrônicos permaneciam funcionando.

As bolsas de valores continuavam liquidando operações.

Nada disso aparecia nas manchetes.

Mas mostrava uma verdade importante.

Infraestrutura crítica não pode depender do humor do mercado.

Ela precisa continuar funcionando mesmo durante crises.

Talvez essa seja uma das maiores virtudes do universo mainframe.

Ele foi projetado justamente para operar quando tudo ao redor parece instável.


A Internet Não Morreu

Esse talvez seja o maior equívoco histórico sobre a bolha.

Muitos acreditam que a Internet fracassou.

Não.

Quem fracassou foram determinados modelos de negócios.

A tecnologia continuou evoluindo.

As conexões ficaram mais rápidas.

Os computadores tornaram-se mais baratos.

Novos navegadores apareceram.

O comércio eletrônico amadureceu.

Serviços online continuaram crescendo.

A bolha não destruiu a Internet.

Ela eliminou os excessos.

Foi um processo de seleção natural empresarial.


O Mercado Aprendeu da Forma Mais Difícil

Depois da crise, investidores passaram a fazer perguntas muito diferentes.

Quanto essa empresa realmente fatura?

Existe fluxo de caixa positivo?

Qual é sua margem?

Ela consegue sobreviver sem novos aportes?

Existe um caminho claro para a lucratividade?

Essas perguntas parecem óbvias hoje.

Mas foram aprendidas a um custo extremamente elevado.


O Paralelo com Outras Crises

Se observarmos a história econômica, veremos que praticamente todas as grandes bolhas seguem um roteiro semelhante.

Primeiro surge uma inovação legítima.

Depois aparece entusiasmo.

Em seguida, excesso de investimento.

Logo depois, especulação.

Então vem a euforia.

Por fim...

A realidade.

Esse padrão aconteceu com:

  • as tulipas na Holanda;

  • as ferrovias inglesas;

  • o mercado imobiliário japonês;

  • as hipotecas americanas;

  • as criptomoedas mais especulativas;

  • diversos projetos de NFTs.

O comportamento humano permanece surpreendentemente constante.

Mudam apenas os personagens.


O Que um Padawan COBOL Deve Aprender

Quando um programa COBOL executa um cálculo incorreto, cedo ou tarde o erro aparece.

Pode levar minutos.

Horas.

Dias.

Mas a inconsistência será encontrada.

Na economia acontece exatamente a mesma coisa.

Uma empresa pode operar durante algum tempo sustentada por expectativas.

Pode sobreviver graças a investimentos.

Pode esconder prejuízos atrás de crescimento acelerado.

Mas, em algum momento, os resultados reais aparecem.

É por isso que profissionais de sistemas críticos valorizam tanto conceitos como:

  • consistência;

  • previsibilidade;

  • auditoria;

  • confiabilidade;

  • planejamento.

Esses princípios parecem conservadores.

Na verdade, são justamente eles que permitem atravessar tempestades.


Lições para o Padawan COBOL

Na Academia da Frota Estelar existe uma máxima que poderia perfeitamente resumir a bolha da Internet:

"Nunca confunda velocidade com estabilidade."

Durante alguns anos, as empresas Dot-Com pareciam as naves mais rápidas da galáxia.

Aceleravam continuamente.

Recebiam investimentos gigantescos.

Cresciam em ritmo impressionante.

Mas muitas nunca haviam testado seus motores em uma tempestade.

Quando a turbulência chegou, descobriram que velocidade sem estrutura não garante sobrevivência.

Enquanto isso, velhas naves aparentemente menos glamorosas continuaram suas missões silenciosamente.

Foi exatamente isso que aconteceu com os sistemas corporativos.

Os grandes bancos, seguradoras, governos e companhias aéreas continuaram operando graças a décadas de engenharia sólida, disciplina operacional e arquiteturas resilientes.

A bolha havia estourado.

Mas a história da Internet estava apenas começando.

No próximo capítulo veremos um dos aspectos menos lembrados desse período: como o colapso das Dot-Com transformou profundamente o mercado de trabalho, mudou a carreira de milhares de profissionais de tecnologia e redefiniu o perfil do engenheiro de software para as décadas seguintes.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

DotCom: Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

  

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo II

Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

Quando Wall Street descobriu a Internet e acreditou que o lucro havia se tornado opcional

"Na história da humanidade, toda grande corrida do ouro começa com uma descoberta legítima. O problema começa quando as pessoas passam a vender pás em vez de procurar ouro."

Se no capítulo anterior vimos como a Internet saiu dos laboratórios e começou a conquistar o mundo, agora chegamos ao momento em que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ser encarada como a promessa de uma nova civilização econômica.

Foi nesse instante que nasceu a famosa Era das Dot-Com.

Para um Padawan COBOL, esse é um dos capítulos mais importantes da história da computação, porque mostra como uma tecnologia revolucionária pode ser confundida com uma oportunidade de enriquecimento fácil. A Internet realmente mudaria o planeta. O erro foi acreditar que qualquer empresa ligada a ela se transformaria automaticamente em um império.

A tecnologia estava certa.

A lógica financeira, não.


O Significado de ".com"

Hoje digitamos endereços como algo absolutamente natural.

bellacosamainframe.com

ibm.com

openai.com

amazon.com

Mas poucos lembram que, na década de 1990, possuir um domínio ".com" era quase um símbolo de status.

O ".com" era originalmente apenas um domínio de primeiro nível destinado a empresas comerciais.

Nada mais.

Entretanto, o imaginário popular transformou essas quatro letras em sinônimo de modernidade, inovação e riqueza.

Era como se existissem dois mundos.

O mundo antigo.

E o mundo ".com".

Se uma empresa acrescentasse ".com" ao seu nome, muitos investidores imediatamente acreditavam que ela fazia parte da nova economia.

Hoje parece absurdo.

Na época, parecia inevitável.


A Internet Virou um Sonho Coletivo

O final dos anos 1990 foi marcado por um sentimento raro na história.

O mundo inteiro parecia acreditar que estava vivendo o nascimento de uma nova Revolução Industrial.

Todos os dias surgiam manchetes anunciando:

  • "A Internet vai acabar com as lojas físicas."

  • "Os bancos tradicionais desaparecerão."

  • "Os jornais impressos morrerão."

  • "Nunca mais será necessário sair de casa para fazer compras."

  • "O comércio eletrônico dominará o planeta."

Curiosamente...

Quase todas essas previsões acabaram se tornando verdadeiras.

O problema foi o prazo.

Os investidores imaginavam que isso aconteceria em dois ou três anos.

Na realidade, muitas dessas transformações levaram vinte ou trinta anos para amadurecer.

A tecnologia estava apenas adiantada em relação ao comportamento da sociedade.


O Surgimento da "Nova Economia"

Naquele período começou a surgir uma expressão extremamente popular:

The New Economy.

Segundo muitos economistas da época, as regras tradicionais deixariam de existir.

Lucro?

Não importava.

Fluxo de caixa?

Ultrapassado.

Patrimônio?

Irrelevante.

O importante era conquistar usuários.

Essa ideia parecia revolucionária.

E, em parte, realmente era.

Empresas digitais podiam crescer muito mais rapidamente do que empresas tradicionais.

Uma loja física precisava construir filiais.

Uma empresa na Internet precisava apenas de mais servidores.

Era uma mudança gigantesca na forma de escalar um negócio.

Mas alguém começou a confundir crescimento com sustentabilidade.

E foi aí que a história começou a tomar um rumo perigoso.


Wall Street Descobre a Internet

Até então, o mercado financeiro sempre havia analisado empresas utilizando critérios relativamente objetivos.

Receita.

Lucro.

Margem.

Patrimônio.

Endividamento.

Capacidade de geração de caixa.

Com as empresas de Internet surgiu um novo raciocínio.

"Elas ainda não dão lucro porque estão crescendo."

Inicialmente fazia sentido.

Afinal, muitas empresas realmente sacrificam lucro nos primeiros anos para ganhar mercado.

O problema foi quando isso deixou de ser uma fase e passou a ser um modelo de negócios.

Algumas companhias queimavam milhões de dólares por mês sem qualquer perspectiva concreta de rentabilidade.

Mesmo assim...

Recebiam novos investimentos.

Era como abastecer um carro sem motor.


O Primeiro IPO Virou um Espetáculo

Outro fator alimentou a euforia.

Os IPOs.

Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial.

Empresas extremamente jovens chegavam à bolsa de valores e suas ações dobravam ou triplicavam de preço no primeiro dia de negociação.

Imagine abrir uma empresa hoje e, poucos anos depois, vê-la valer bilhões apenas porque investidores acreditam no seu potencial.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Cada IPO bem-sucedido atraía novos investidores.

Cada novo investidor aumentava ainda mais os preços.

E o ciclo se retroalimentava.

Nascia um dos ingredientes clássicos de toda bolha especulativa.


Venture Capital: O Combustível da Explosão

Ao mesmo tempo, os fundos de Venture Capital passaram a desempenhar um papel decisivo.

Sua missão era investir em empresas extremamente inovadoras, assumindo riscos elevados em troca da possibilidade de retornos extraordinários.

Esse modelo continua existindo até hoje e é extremamente importante para a inovação.

O problema não era o Venture Capital em si.

O problema era o excesso de dinheiro procurando oportunidades.

Quando existe muito capital disponível, a disciplina tende a diminuir.

Projetos que normalmente seriam rejeitados começaram a receber milhões de dólares.

Muitas vezes bastava apresentar uma ideia interessante acompanhada por uma bela apresentação em PowerPoint.

O produto ainda nem existia.


O Fascínio das Startups

Foi nessa época que começou a nascer a cultura das startups como conhecemos atualmente.

Escritórios modernos.

Mesas de sinuca.

Videogames.

Pufes coloridos.

Ambientes descontraídos.

Horários flexíveis.

Jovens empreendedores usando camiseta e tênis apresentavam projetos para investidores acostumados a ternos e gravatas.

Era uma ruptura cultural.

Empresas centenárias pareciam lentas.

As startups representavam velocidade.

Coragem.

Criatividade.

Disrupção.

A palavra "disruptivo" virou praticamente um mantra.

Poucos paravam para perguntar:

"Como exatamente essa empresa pretende ganhar dinheiro?"


A Mídia Também Entrou na Festa

Revistas especializadas publicavam diariamente histórias de jovens milionários.

Empreendedores de vinte e poucos anos tornavam-se celebridades.

A imprensa tratava fundadores de startups quase como astros do rock.

As capas anunciavam:

"A empresa do futuro."

"O próximo bilionário."

"A nova Microsoft."

Criava-se um ambiente psicológico muito perigoso.

Quem não investisse em Internet parecia estar ficando para trás.

Esse fenômeno possui um nome bastante conhecido atualmente:

FOMO — Fear of Missing Out, o medo de perder uma oportunidade única.

É exatamente esse sentimento que costuma alimentar as grandes bolhas financeiras.


Quando o Marketing Passou a Valer Mais que o Produto

Durante a febre das Dot-Com ocorreu algo curioso.

Algumas empresas gastavam mais dinheiro anunciando seus serviços do que desenvolvendo seus próprios produtos.

Campanhas publicitárias milionárias apareciam na televisão.

Outdoor.

Revistas.

Eventos.

Patrocínios.

Enquanto isso...

Os sistemas internos ainda apresentavam falhas.

Os processos logísticos não funcionavam.

O atendimento era precário.

Era como pintar uma nave espacial antes mesmo de instalar os motores.

Bonita por fora.

Incapaz de completar a missão.


Pets.com: O Símbolo do Exagero

Nenhuma empresa representa melhor aquele período do que a Pets.com.

Sua proposta parecia excelente.

Vender produtos para animais de estimação pela Internet.

Hoje isso parece absolutamente comum.

Na época também parecia uma ótima ideia.

O problema não era a ideia.

Era a matemática.

Transportar sacos de ração pesados para clientes espalhados pelo país custava muito mais do que a empresa conseguia cobrar.

Mesmo assim, a Pets.com gastou milhões em publicidade, criou um mascote famoso e abriu capital na bolsa.

Menos de um ano depois do IPO, encerrou suas atividades.

Seu fantoche de cachorro tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da bolha da Internet.

A ideia sobreviveu.

A empresa, não.


Nem Todas Eram Fraudes

É importante desfazer um mito.

A maioria das empresas Dot-Com não nasceu para enganar investidores.

Pelo contrário.

Muitas possuíam profissionais brilhantes.

Ideias genuinamente inovadoras.

Tecnologia avançada.

O problema era outro.

Elas chegaram cedo demais.

O mercado ainda não estava preparado.

A infraestrutura de Internet era limitada.

Os meios de pagamento online eram pouco confiáveis.

A logística ainda era cara.

O consumidor ainda desconfiava das compras virtuais.

Ou seja...

A visão estava correta.

O momento histórico, não.


Enquanto Isso... Nos Bastidores dos Mainframes

Enquanto jornais anunciavam diariamente a "Nova Economia", os computadores centrais continuavam executando silenciosamente suas rotinas.

Os bancos processavam bilhões em transferências.

As bolsas de valores liquidavam operações.

As seguradoras calculavam riscos.

Os governos arrecadavam impostos.

Curiosamente, muitas startups utilizavam justamente esses sistemas tradicionais para realizar pagamentos, processar cartões de crédito e registrar transações financeiras.

A fachada era moderna.

A infraestrutura continuava clássica.

Essa é uma das grandes ironias da história da computação.

A revolução digital avançava apoiada em tecnologias que muitos diziam estar ultrapassadas.


O Erro que Ninguém Percebeu

A Internet realmente mudaria o mundo.

Esse diagnóstico estava absolutamente correto.

O erro foi imaginar que crescimento infinito poderia substituir fundamentos econômicos.

Receita ainda importava.

Lucro continuava importante.

Fluxo de caixa permanecia essencial.

Clientes precisavam pagar contas.

Funcionários precisavam receber salários.

Empresas precisavam sobreviver até que o futuro chegasse.

E foi justamente aí que muitas fracassaram.

Elas apostaram que o amanhã chegaria antes que o dinheiro acabasse.


Lições para o Padawan COBOL

Para um desenvolvedor de sistemas, existe uma lição valiosa escondida na febre das Dot-Com.

Uma boa ideia é apenas o início da jornada.

Entre uma apresentação inspiradora e um sistema funcionando em produção existe um oceano de desafios:

  • arquitetura;

  • infraestrutura;

  • segurança;

  • escalabilidade;

  • manutenção;

  • suporte;

  • integração;

  • continuidade do negócio.

É exatamente por isso que profissionais de mainframe costumam enxergar a tecnologia de maneira diferente.

Eles sabem que um sistema não é medido apenas pelo entusiasmo que desperta no lançamento, mas pela capacidade de continuar operando com segurança cinco, dez ou vinte anos depois.

No universo da Frota Estelar, qualquer engenheiro consegue desenhar uma nave impressionante no holodeck. O verdadeiro desafio é construir uma nave capaz de atravessar uma tempestade de plasma, cumprir a missão e retornar com toda a tripulação em segurança.

No próximo capítulo veremos como essa corrida desenfreada por crescimento criou uma cultura conhecida como "queimar caixa" (Burn Rate), onde gastar milhões de dólares deixou de ser um problema e passou a ser considerado uma estratégia de negócios. Foi nesse momento que a bolha começou, silenciosamente, a preparar sua própria explosão.