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sexta-feira, 17 de julho de 2026

20 Anos Depois da Bolha da Internet : O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Aprender com o Maior Crash Tecnológico da Era Digital

 

Bellacosa Mainframe e o impacto da bolha da internet 25 anos apos os eventos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

25 Anos Depois da Bolha da Internet

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Aprender com o Maior Crash Tecnológico da Era Digital

"Nem toda inovação sobrevive. Mas toda inovação deixa código, cicatrizes e conhecimento."


Introdução — A História se Repete... Apenas Troca de Interface

Imagine um jovem programador COBOL entrando pela primeira vez no CPD em 1999.

Enquanto ele aprendia JCL, CICS e Db2, do outro lado do mundo acontecia algo considerado "o futuro absoluto".

Internet.

Sites.

Portais.

E-commerce.

Empresas que nunca haviam vendido absolutamente nada estavam sendo avaliadas em bilhões de dólares.

Bastava colocar ".com" no nome da empresa.

O dinheiro aparecia.

Investidores compravam ações sem perguntar uma única coisa:

"Como essa empresa ganha dinheiro?"

Foi provavelmente o maior delírio coletivo já visto na história da tecnologia moderna.

E, como quase toda bolha financeira...

Ela estourou.

Milhões perderam dinheiro.

Empresas desapareceram.

Profissionais ficaram desempregados.

Projetos gigantescos foram abandonados.

Mas...

Curiosamente...

Foi justamente daquele caos que nasceram praticamente todas as gigantes digitais que usamos hoje.

Google.

Amazon.

Netflix.

PayPal.

Salesforce.

Wikipedia.

LinkedIn.

A bolha destruiu milhares de empresas.

Mas fortaleceu as poucas que realmente tinham fundamentos.

Hoje, mais de vinte anos depois, vale perguntar:

Estamos vivendo algo parecido novamente?

Prepare seu café.

Vamos voltar para 1995.


Capítulo 1 — O Mundo Antes da Internet Comercial

Para quem nasceu depois dos anos 2000 é difícil imaginar.

Não existia:

  • Google

  • YouTube

  • WhatsApp

  • Streaming

  • Redes sociais

  • Smartphones

A internet era praticamente um ambiente acadêmico.

Empresas utilizavam:

  • Mainframes

  • AS/400

  • UNIX

  • Novell

  • Lotus Notes

Os sistemas corporativos eram fechados.

A Web ainda parecia um experimento.

Até surgir algo revolucionário.

O navegador gráfico.

Primeiro Mosaic.

Depois Netscape.

Pela primeira vez qualquer pessoa podia navegar clicando em imagens.

Parecia magia.


Capítulo 2 — A Febre das Dot-Com

Entre 1995 e 2000 aconteceu uma explosão.

Todo empreendedor dizia possuir uma startup.

Na época nem existia esse nome.

Chamavam simplesmente de empresas ".com".

Qualquer ideia parecia revolucionária.

Vendia-se:

  • comida

  • livros

  • flores

  • brinquedos

  • viagens

  • carros

Tudo online.

Investidores passaram a acreditar que a internet substituiria completamente o comércio tradicional em poucos anos.

Começou uma corrida maluca.


A lógica da época era assustadoramente simples

Não importava:

  • lucro

Nem:

  • faturamento

Nem:

  • clientes

Nem:

  • produtos

Importava apenas:

"Crescimento."

Era comum ouvir frases como:

"Primeiro conquistamos usuários.
Depois descobrimos como ganhar dinheiro."

Soa familiar?


Capítulo 3 — A Economia do "Queime Caixa"

Hoje chamamos isso de:

Burn Rate.

Na época:

Era praticamente um esporte.

Empresas queimavam milhões de dólares por mês.

Publicidade.

Marketing.

Escritórios luxuosos.

Contratações gigantescas.

Sem receita.

Sem lucro.

Sem modelo sustentável.

O dinheiro vinha dos investidores.

Enquanto houvesse investidores...

Tudo parecia funcionar.


Capítulo 4 — O Mercado Entrou em Histeria

O índice NASDAQ praticamente explodiu.

As ações subiam diariamente.

Jornais diziam:

"A Nova Economia chegou."

Especialistas afirmavam:

"O lucro não importa mais."

Foi um dos maiores erros intelectuais da história econômica.

Durante alguns anos...

Parecia verdade.


Capítulo 5 — O Estouro da Bolha (2000)

Então veio a pergunta que ninguém queria responder.

"Essas empresas realmente valem isso?"

A resposta apareceu rapidamente.

Não.

O capital desapareceu.

Os investidores correram.

As ações despencaram.

Empresas quebraram em semanas.

O NASDAQ perdeu aproximadamente 78% de seu valor entre março de 2000 e outubro de 2002, marcando um dos maiores colapsos da história dos mercados financeiros.

Bilhões evaporaram.


Capítulo 6 — O Efeito Dominó

Quando uma startup quebrava...

Ela deixava de pagar:

  • fornecedores

  • publicidade

  • hospedagem

  • infraestrutura

  • salários

Outra empresa também quebrava.

Depois outra.

Depois outra.

O caos espalhou-se rapidamente.

Era um problema sistêmico.


Capítulo 7 — Milhares de Programadores Ficaram Sem Emprego

Esse ponto costuma ser esquecido.

A bolha não afetou apenas investidores.

Ela afetou profissionais.

Desenvolvedores.

Analistas.

Administradores.

DBAs.

Engenheiros.

Muitos mudaram completamente de carreira.

Outros voltaram para empresas tradicionais.

Inclusive para...

Mainframes.

Enquanto muitas startups desapareciam...

Bancos continuavam funcionando.

Seguradoras continuavam processando milhões de transações.

Governos continuavam pagando aposentadorias.

Os grandes sistemas corporativos permaneceram de pé.


Capítulo 8 — Amazon Quase Morreu

Pouca gente sabe.

A Amazon perdeu cerca de 95% de seu valor de mercado durante o colapso.

Muitos analistas afirmavam:

"A empresa nunca dará lucro."

Jeff Bezos tomou uma decisão histórica.

Reduzir custos.

Melhorar eficiência.

Pensar no longo prazo.

Não abandonar a visão.

Essa disciplina permitiu que a empresa sobrevivesse quando milhares desapareceram.


Capítulo 9 — Google Nasceu no Meio da Crise

Outro fato curioso.

Google surgiu praticamente durante o caos.

Enquanto empresas quebravam...

Google construía tecnologia.

Não publicidade exagerada.

Não marketing.

Infraestrutura.

Algoritmos.

Qualidade.

Foi exatamente isso que fez diferença.


Capítulo 10 — A Grande Lição

Tecnologia não substitui fundamentos.

Ela apenas acelera.

Uma empresa ruim...

fica ruim mais rápido.

Uma empresa boa...

escala mais rapidamente.


Capítulo 11 — O Que Isso Tem a Ver com COBOL?

Muito mais do que parece.

Durante toda a bolha, muitos diziam:

"O mainframe morreu."

"O COBOL acabou."

"O futuro pertence apenas às startups."

Vinte anos depois...

Quem continua processando:

  • cartões

  • folha salarial

  • bolsas de valores

  • pagamentos

  • impostos

  • previdência

São justamente sistemas construídos com décadas de engenharia sólida.

O hype passou.

Os sistemas críticos permaneceram.


Capítulo 12 — As Lições para o Padawan COBOL

Imagine um sistema bancário.

Você pode criar uma interface moderna.

Pode colocar IA.

Pode usar Kubernetes.

Pode rodar APIs REST.

Mas...

Se a transação financeira falhar...

Nada disso importa.

A base continua sendo:

  • confiabilidade;

  • consistência;

  • disponibilidade;

  • recuperação;

  • auditoria.

São princípios que existiam antes da Web e continuam indispensáveis.


Capítulo 13 — Comparando com Outras Bolhas

A história econômica mostra um padrão recorrente. A tecnologia muda, mas o comportamento humano permanece semelhante.

A bolha ferroviária (século XIX)

As ferrovias revolucionaram o transporte, e investidores aplicaram recursos em qualquer empresa ligada aos trilhos. Muitas fracassaram, mas a infraestrutura construída transformou a economia mundial.

A bolha das empresas de energia e telecomunicações

No fim dos anos 1990, além das empresas de internet, houve excesso de investimentos em redes de fibra óptica e telecomunicações. Muitas companhias faliram, mas os cabos permaneceram e sustentaram a internet de alta velocidade dos anos seguintes.

A crise financeira de 2008

O problema não era uma nova tecnologia, mas a crença de que o mercado imobiliário subiria para sempre. Quando essa premissa caiu, todo o sistema financeiro sofreu.

As criptomoedas

Entre 2017 e 2022 surgiram milhares de projetos sem utilidade real. Muitos desapareceram, mas a tecnologia de blockchain continuou evoluindo para aplicações específicas.

O Metaverso

Após 2021, diversas empresas anunciaram que o metaverso substituiria a internet tradicional. O entusiasmo foi muito maior do que a adoção real. Ainda assim, tecnologias como realidade virtual, aumentada e computação espacial continuam evoluindo.

A Inteligência Artificial Generativa

Vivemos hoje um momento que lembra, em alguns aspectos, a era das dot-com. Há investimentos bilionários, criação acelerada de startups e expectativas elevadas. A diferença é que a IA já demonstra aplicações concretas em produtividade, programação, pesquisa, atendimento e automação. Ainda assim, permanece a mesma pergunta fundamental:

Qual problema real está sendo resolvido?


Capítulo 14 — Os Efeitos na Sociedade

A bolha deixou marcas profundas.

Mudou a forma como investidores analisam empresas.

Fortaleceu a cultura das startups.

Popularizou o capital de risco (venture capital).

Acelerou a transformação digital.

Criou milhões de empregos na economia digital nos anos seguintes.

Também ensinou que inovação precisa caminhar ao lado de governança, gestão financeira e planejamento.


Capítulo 15 — Os Efeitos no Trabalho

Depois do colapso, o mercado passou a valorizar muito mais profissionais capazes de construir sistemas robustos do que apenas criar demonstrações impressionantes.

Ganharam espaço competências como:

  • arquitetura de sistemas;

  • segurança da informação;

  • banco de dados;

  • integração entre plataformas;

  • engenharia de software;

  • testes automatizados;

  • observabilidade;

  • continuidade de negócios.

É exatamente esse perfil que encontramos em muitos profissionais de mainframe.


Capítulo 16 — Os Riscos dos Novos Hypes

Hoje ouvimos frases parecidas com as do ano 2000:

  • "A IA substituirá todos os programadores."

  • "Não será mais necessário aprender arquitetura."

  • "Modelos resolvem tudo."

  • "Quem não usar IA ficará para trás."

Essas afirmações podem conter parte da verdade, mas também escondem exageros.

Um modelo de IA depende de:

  • dados de qualidade;

  • infraestrutura;

  • governança;

  • segurança;

  • integração;

  • pessoas.

Assim como uma página HTML não fazia uma empresa lucrativa em 1999, um chatbot não transforma automaticamente um negócio em sucesso.


Capítulo 17 — O Mainframe e a Sabedoria dos Sistemas Duradouros

Uma das maiores lições da bolha da internet é que tecnologia de verdade não é aquela que aparece nas manchetes, mas a que continua funcionando décadas depois.

Mainframes atravessaram:

  • a popularização do PC;

  • a internet;

  • o comércio eletrônico;

  • os smartphones;

  • a computação em nuvem;

  • os microsserviços;

  • a IA generativa.

Não porque resistiram à mudança, mas porque evoluíram continuamente.

Hoje, plataformas IBM Z executam Linux, Kubernetes, APIs REST, OpenShift, criptografia avançada e aceleradores para IA, sem abrir mão da confiabilidade que sempre os caracterizou.


Easter Egg Bellacosa Mainframe 🍵

Na Frota Estelar existe uma regra não escrita:

Nunca escolha um capitão apenas porque a nave é bonita. Escolha porque ela consegue voltar para casa.

Foi exatamente isso que aconteceu com as dot-com.

Muitas tinham interfaces espetaculares.

Poucas tinham motores confiáveis.

As que sobreviveram aprenderam que design atrai, marketing encanta, inovação impressiona — mas são arquitetura, disciplina, execução e sustentabilidade que mantêm uma empresa viva por décadas.


Conclusão — A História Não se Repete, Mas Costuma Rimar

Vinte anos após o estouro da bolha da internet, percebemos que ela não foi o fim da revolução digital. Pelo contrário, foi seu processo de amadurecimento.

O entusiasmo excessivo financiou infraestrutura, talentos e ideias que pareciam exageradas para a época. Muitas fracassaram, mas deixaram sementes que floresceram em empresas capazes de transformar a economia global.

Para um Padawan COBOL, essa história traz uma mensagem poderosa. Não se deixe levar apenas pelo brilho das novidades nem rejeite toda inovação por apego ao passado. O profissional valioso é aquele que consegue distinguir modismo de transformação estrutural.

Hoje, enquanto Inteligência Artificial, agentes autônomos, computação quântica e novas arquiteturas ocupam as manchetes, a pergunta continua a mesma de 1999:

Existe um problema real sendo resolvido?

Se a resposta for "sim", estamos diante de uma tecnologia com potencial para mudar o mundo.

Se a resposta depender apenas de apresentações bonitas, promessas vagas e crescimento sem fundamentos, talvez estejamos apenas assistindo ao próximo capítulo de uma história que já vimos antes.

Como todo bom oficial da Frota Estelar sabe, a missão não é perseguir cada estrela que aparece no radar, mas construir naves capazes de atravessar gerações. O mesmo vale para empresas, carreiras e sistemas: as tecnologias mudam, os princípios permanecem. E é justamente essa combinação entre inovação e fundamentos que separa um fenômeno passageiro de um verdadeiro legado tecnológico.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

DotCom : Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo vii

Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

Como algumas empresas transformaram a maior crise da Internet em uma oportunidade para construir impérios tecnológicos que mudariam o século XXI

"Uma tempestade não cria um grande navegador. Ela apenas revela quem realmente sabe navegar."

Quando estudamos a bolha da Internet, existe uma tendência natural de focarmos apenas nas empresas que desapareceram.

Pets.com.

Webvan.

Boo.com.

eToys.

Excite.

GeoCities.

Broadcast.com.

Centenas de outras.

É uma lista enorme.

Mas existe uma pergunta muito mais interessante.

Por que algumas empresas sobreviveram?

Afinal...

Todas faziam parte da mesma Internet.

Todas enfrentaram o mesmo colapso.

Todas perderam investidores.

Todas sofreram com a queda do NASDAQ.

O que havia de diferente?

Será que tiveram sorte?

Ou existia algo mais profundo?

A resposta é uma das maiores lições de gestão, tecnologia e engenharia da história moderna.


A Natureza Também Funciona Assim

Charles Darwin jamais estudou empresas de tecnologia.

Mesmo assim, sua teoria da evolução explica muito do que aconteceu entre 2000 e 2003.

Na natureza, sobreviver não significa ser o maior.

Nem o mais forte.

Nem o mais bonito.

Sobrevive quem melhor consegue adaptar-se às mudanças do ambiente.

No mundo corporativo acontece exatamente o mesmo.

Quando o dinheiro era abundante...

Quase todas as empresas pareciam saudáveis.

Quando o dinheiro desapareceu...

Descobriu-se quais realmente possuíam capacidade de adaptação.


Amazon: A Empresa que Quase Morreu

Hoje parece impossível imaginar.

Mas houve um momento em que analistas afirmavam seriamente que a Amazon jamais sobreviveria.

Suas ações perderam aproximadamente 95% do valor após o estouro da bolha.

Jeff Bezos tornou-se alvo de críticas.

Jornais publicavam manchetes questionando:

"A Amazon ainda existirá daqui a alguns anos?"

A empresa acumulava prejuízos.

Investia pesadamente em infraestrutura.

Construía centros de distribuição enormes.

Comprava servidores.

Desenvolvia software.

Naquele momento, muitos acreditavam que tudo aquilo era desperdício.

Hoje sabemos que era exatamente o contrário.

Bezos estava construindo a fundação de um império.


Jeff Bezos Não Pensava em Trimestres

Existe uma característica interessante nos fundadores que sobreviveram.

Eles olhavam para décadas.

Não para o próximo trimestre.

Enquanto investidores exigiam resultados imediatos, Bezos repetia constantemente uma filosofia simples.

"Estamos construindo uma empresa para o longo prazo."

Essa visão permitiu decisões extremamente difíceis.

Redução de despesas.

Demissões.

Cancelamento de projetos.

Renegociação de contratos.

O objetivo não era impressionar Wall Street.

Era sobreviver.

Sem sobrevivência...

Não existiria futuro.


Google Chegou na Hora Certa

Outro caso fascinante é o Google.

Ao contrário da maioria das startups da época, o Google nasceu praticamente no momento em que a bolha começava a mostrar sinais de desgaste.

Larry Page e Sergey Brin tinham um problema muito específico para resolver.

Como encontrar informação relevante na Web.

Naquela época já existiam buscadores.

AltaVista.

Lycos.

Excite.

Infoseek.

Yahoo!.

Entretanto...

Os resultados eram frequentemente ruins.

Google resolveu um problema concreto.

Seu algoritmo PageRank organizava resultados de forma muito superior aos concorrentes.

Perceba a diferença.

Eles não criaram uma empresa porque a Internet estava na moda.

Criaram porque existia um problema real.


Resolver Problemas Vale Mais do que Seguir Tendências

Esse talvez seja o maior ensinamento de Google.

Tecnologia é consequência.

Problemas vêm primeiro.

Quando um produto resolve algo importante...

Os clientes permanecem.

Quando ele existe apenas porque está acompanhando uma tendência...

A sobrevivência torna-se muito mais difícil.

Esse princípio continua válido vinte anos depois.

Na era da Inteligência Artificial, a pergunta permanece exatamente a mesma.

Que problema estamos resolvendo?


eBay Descobriu o Poder da Comunidade

Enquanto muitas startups gastavam fortunas em publicidade, o eBay crescia principalmente através dos próprios usuários.

Compradores atraíam vendedores.

Vendedores atraíam compradores.

Esse fenômeno recebe hoje o nome de efeito de rede.

Quanto maior a comunidade...

Maior o valor da plataforma.

Esse crescimento orgânico reduziu drasticamente a necessidade de investimentos gigantescos em marketing.

Era um modelo muito mais sustentável.


PayPal Sobreviveu Porque Existia um Problema Real

Comprar pela Internet no final dos anos 1990 não era simples.

Cartões de crédito ainda geravam desconfiança.

Fraudes eram frequentes.

Pagamentos internacionais eram complicados.

PayPal apareceu justamente para resolver esse problema.

A empresa enfrentou enormes dificuldades.

Mudou diversas vezes de estratégia.

Lutou contra fraudes diariamente.

Mesmo assim...

Persistiu.

Porque seu serviço atendia uma necessidade concreta do mercado.

Não era uma solução procurando um problema.

Era exatamente o contrário.


Salesforce Mudou o Modelo de Negócio

Outro sobrevivente importante foi a Salesforce.

Marc Benioff defendia uma ideia considerada quase absurda na época.

Software não precisava mais ser instalado.

Poderia funcionar diretamente pela Internet.

Hoje chamamos isso de SaaS.

Software as a Service.

Naquele período parecia uma heresia.

Empresas estavam acostumadas a comprar CDs, instalar programas e manter servidores próprios.

Salesforce mostrou que era possível fazer diferente.

Não venceu porque possuía o software mais bonito.

Venceu porque criou um modelo econômico melhor.


O Que Todas Tinham em Comum?

Quando analisamos essas empresas percebemos padrões bastante claros.

Elas possuíam objetivos diferentes.

Mercados diferentes.

Produtos diferentes.

Mas compartilhavam características fundamentais.

Primeiro.

Resolvendo problemas reais.

Segundo.

Pensando no longo prazo.

Terceiro.

Investindo fortemente em engenharia.

Quarto.

Aceitando adaptar modelos de negócio sempre que necessário.

Quinto.

Controlando cuidadosamente recursos durante a crise.

Nenhuma delas ignorou a realidade financeira.


Enquanto Isso... Milhares Desapareciam

No mesmo período, centenas de startups continuavam apostando que novos investidores resolveriam seus problemas.

Não reduziram custos.

Não mudaram estratégias.

Não adaptaram produtos.

Esperaram que o mercado voltasse ao normal.

Ele nunca voltou.

A crise mostrou uma diferença importante entre esperança e planejamento.

Esperança é importante.

Mas não substitui estratégia.


A Engenharia Tornou-se Diferencial Competitivo

Existe outra característica curiosa.

As empresas sobreviventes investiram pesadamente em infraestrutura.

Google construiu data centers gigantescos.

Amazon desenvolveu plataformas logísticas extremamente sofisticadas.

PayPal criou mecanismos antifraude avançados.

eBay investiu em escalabilidade.

Nenhuma delas acreditava que apenas marketing seria suficiente.

Todas compreenderam que crescimento exige engenharia.

Essa continua sendo uma das maiores diferenças entre demonstrações impressionantes e produtos duradouros.


O Mainframe Sempre Conheceu Esse Princípio

Para um profissional COBOL, essa conclusão parece quase óbvia.

Durante décadas, sistemas bancários sempre foram projetados pensando em:

  • crescimento;

  • disponibilidade;

  • redundância;

  • recuperação;

  • desempenho;

  • segurança.

Ninguém constrói um sistema de pagamentos imaginando apenas a demonstração para um cliente.

Ele precisa continuar funcionando durante anos.

É exatamente essa mentalidade que começou a reaparecer na indústria de software após a bolha.

As empresas voltaram a valorizar arquitetura.

Não apenas velocidade.


A Crise Eliminou Concorrentes

Existe uma consequência pouco comentada sobre grandes crises.

Elas reduzem drasticamente a concorrência.

Quando centenas de startups desapareceram, empresas sobreviventes passaram a disputar um mercado muito menos congestionado.

Amazon encontrou menos competidores.

Google tornou-se rapidamente referência em buscas.

eBay consolidou sua liderança.

Salesforce expandiu-se praticamente sozinha no mercado de CRM em nuvem.

Paradoxalmente...

A crise abriu espaço para gigantes crescerem ainda mais.


A Internet Ficou Mais Forte

Pode parecer contraditório.

Mas a bolha fortaleceu a própria Internet.

Como?

Eliminando modelos insustentáveis.

Concentrando investimentos em empresas mais eficientes.

Incentivando engenharia de melhor qualidade.

Criando consumidores mais confiantes.

Melhorando infraestrutura.

Fortalecendo meios de pagamento.

Quando a década seguinte começou...

A Internet estava muito mais preparada para crescer.

A crise havia funcionado como uma gigantesca poda.

As raízes permaneceram.

Os galhos fracos desapareceram.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo semelhante atualmente.

Existem milhares de startups de IA.

Nem todas sobreviverão.

Isso não significa que a Inteligência Artificial fracassará.

Muito provavelmente ocorrerá o oposto.

Assim como aconteceu após as Dot-Com, algumas poucas empresas construirão infraestrutura sólida, resolverão problemas relevantes e permanecerão durante décadas.

Outras desaparecerão.

A tecnologia continuará evoluindo.

A história mostra que inovação costuma sobreviver às bolhas.

O que normalmente não sobrevive são os modelos econômicos mal planejados.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma razão pela qual programas COBOL escritos há quarenta anos continuam executando milhões de transações diariamente.

Eles foram desenvolvidos para resolver problemas concretos.

Não para impressionar investidores.

Essa talvez seja a maior diferença entre sistemas críticos e muitos produtos criados durante períodos de euforia.

Um sistema duradouro nasce da combinação entre boa engenharia, visão de longo prazo e disciplina operacional.

Empresas também.

No universo da Frota Estelar, durante uma batalha, as naves mais vistosas nem sempre sobrevivem. Muitas possuem armamentos impressionantes, mas pouca resistência estrutural. Já as naves projetadas por engenheiros cuidadosos suportam impactos, adaptam-se aos danos, redistribuem energia e continuam cumprindo sua missão.

Foi exatamente isso que aconteceu após a bolha da Internet.

As empresas que sobreviveram não eram necessariamente as mais rápidas.

Eram as mais resilientes.

No próximo capítulo conheceremos uma das maiores ironias dessa história: como justamente o colapso das Dot-Com abriu caminho para a Web 2.0, as redes sociais, os smartphones e praticamente toda a economia digital que conhecemos hoje. Às vezes, destruir o excesso é exatamente o que permite o verdadeiro crescimento.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

DotCom : Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo v

Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

Como trilhões de dólares desapareceram, milhares de empresas faliram e a maior euforia tecnológica da história transformou-se em uma das maiores crises do mercado financeiro

"Toda bolha financeira parece indestrutível... até o dia em que alguém faz uma pergunta simples: 'Quanto isso realmente vale?'"

Durante quase cinco anos, o mercado viveu como se a gravidade econômica tivesse deixado de existir.

A Internet crescia.

Os computadores tornavam-se mais rápidos.

As conexões melhoravam.

Milhões de novos usuários entravam na rede.

Empresas anunciavam projetos revolucionários praticamente todos os dias.

Jornais estampavam manchetes otimistas.

Analistas elevavam projeções.

Investidores comemoravam.

Empreendedores eram tratados como visionários.

Parecia que o século XXI havia finalmente chegado.

Mas existia um detalhe que quase ninguém queria discutir.

A maior parte dessas empresas continuava sem apresentar lucro.

Pior.

Muitas nem sequer possuíam um plano claro para obtê-lo.

Durante algum tempo isso foi ignorado.

Até que chegou março de 2000.

E a realidade resolveu cobrar a conta.


O Pico da Euforia

No dia 10 de março de 2000, o índice NASDAQ atingiu aproximadamente 5.048 pontos, seu maior valor até então.

Naquele instante, parecia que nada poderia interromper o crescimento da economia digital.

Empresas recém-criadas valiam bilhões de dólares.

Muitas delas possuíam poucos anos de existência.

Algumas tinham menos funcionários do que uma agência bancária.

Mesmo assim, eram avaliadas acima de corporações industriais construídas ao longo de décadas.

Para muitos investidores, aquele era apenas o começo.

Hoje sabemos que, na realidade, era o topo da montanha.


O Mercado Começou a Fazer Perguntas

É curioso observar que grandes crises raramente começam com um único evento.

Elas normalmente surgem quando várias pequenas dúvidas começam a aparecer ao mesmo tempo.

Investidores passaram a perguntar:

  • Quando essas empresas darão lucro?

  • Quantas realmente sobreviverão?

  • Os usuários continuarão crescendo indefinidamente?

  • O mercado consumidor é grande o suficiente?

  • Essas avaliações fazem sentido?

Essas perguntas existiam desde o início.

Mas agora começaram a receber atenção.

E, quando investidores começam a duvidar...

Os preços começam a cair.


A Confiança é o Ativo Mais Valioso

Existe algo extremamente interessante sobre mercados financeiros.

O dinheiro é importante.

Mas existe algo ainda mais valioso.

Confiança.

Uma ação representa uma expectativa sobre o futuro.

Enquanto investidores acreditam nesse futuro...

O preço sobe.

Quando essa confiança desaparece...

O valor pode evaporar rapidamente.

Foi exatamente isso que ocorreu.

Não houve um grande desastre natural.

Não ocorreu uma guerra mundial.

Não surgiu uma tecnologia concorrente.

O que mudou foi a percepção coletiva.

E isso foi suficiente para iniciar uma reação em cadeia.


A Primeira Queda Parecia Apenas uma Correção

No início, muitos especialistas minimizaram o problema.

"É apenas uma realização de lucros."

"Uma pequena correção."

"O mercado subiu demais."

Essa interpretação parecia razoável.

Mercados realmente passam por correções periódicas.

Mas aquela não era uma correção comum.

Ela escondia algo muito maior.

Empresas começaram a divulgar resultados decepcionantes.

Projetos foram cancelados.

Captações de investimento ficaram mais difíceis.

Fundos passaram a selecionar melhor onde aplicar seus recursos.

O fluxo de dinheiro começou a diminuir.

E isso era extremamente perigoso para empresas que dependiam exclusivamente de novos investimentos para continuar existindo.


Quando o Capital Secou

Lembre-se do conceito de Burn Rate apresentado no capítulo anterior.

Enquanto investidores continuavam financiando prejuízos...

Tudo funcionava.

Mas agora o cenário havia mudado.

Os fundos começaram a fechar a torneira.

Empresas planejavam captar mais cinquenta milhões de dólares.

Recebiam cinco.

Outras esperavam cem milhões.

Não conseguiam nenhum.

Sem novos aportes...

O caixa começou a desaparecer rapidamente.

E empresas que pareciam gigantes descobriram que possuíam apenas alguns meses de sobrevivência.


O Efeito Dominó

Uma startup fechava.

Centenas de funcionários eram demitidos.

Fornecedores deixavam de receber.

Agências de publicidade perdiam contratos.

Empresas de hospedagem ficavam sem clientes.

Consultorias deixavam de faturar.

Outra empresa também quebrava.

Depois outra.

Depois outra.

O problema deixou de ser individual.

Transformou-se em um fenômeno sistêmico.

Era como uma sequência de dominós.

Cada peça derrubava a seguinte.


O NASDAQ Entrou em Queda Livre

Nos meses seguintes, o índice NASDAQ iniciou uma das maiores quedas da história.

O que antes parecia uma pequena correção transformou-se em um verdadeiro colapso.

Entre março de 2000 e outubro de 2002, o índice perdeu cerca de 78% do seu valor.

Milhões de investidores assistiram, impotentes, ao desaparecimento de boa parte de seu patrimônio.

Para muitos, tratava-se da primeira grande crise tecnológica de suas vidas.

A sensação era de incredulidade.

Como empresas avaliadas em bilhões podiam valer tão pouco em tão pouco tempo?

A resposta era simples.

Grande parte daquele valor existia apenas enquanto existia confiança.


Empresas Sumiram da Noite para o Dia

Algumas startups fecharam em poucas semanas.

Outras tentaram reduzir despesas desesperadamente.

Demitiram funcionários.

Cancelaram projetos.

Venderam equipamentos.

Mudaram de sede.

Renegociaram contratos.

Mesmo assim...

Muitas não conseguiram sobreviver.

É importante entender que nem todas eram empresas ruins.

Diversas possuíam produtos interessantes.

Algumas tinham excelentes engenheiros.

Outras contavam com tecnologias inovadoras.

O problema era que seus modelos financeiros dependiam de investimentos constantes.

Quando o dinheiro acabou...

A operação tornou-se inviável.


Pets.com Tornou-se um Símbolo

Nenhuma empresa simboliza melhor esse período do que a Pets.com.

Seu famoso mascote aparecia em comerciais de televisão.

Era uma marca conhecida nacionalmente.

Parecia estar em todos os lugares.

Entretanto...

A empresa fechou poucos meses após abrir capital.

Seu nome tornou-se praticamente sinônimo da bolha da Internet.

O curioso é que a ideia nunca foi ruim.

Hoje milhões de pessoas compram produtos para animais online.

O problema era outro.

A logística.

Os custos.

O momento histórico.

A empresa estava certa.

O mercado ainda não.


A Tragédia Humana

Quando estudamos crises econômicas costumamos analisar gráficos.

Índices.

Percentuais.

Bilhões de dólares.

Mas existe um lado humano que frequentemente é esquecido.

Milhares de profissionais perderam seus empregos.

Programadores.

Analistas.

Designers.

Administradores.

Executivos.

Famílias inteiras precisaram reorganizar suas vidas.

Muitos haviam trocado empregos estáveis por startups promissoras.

Outros haviam investido todas as suas economias em ações de tecnologia.

A bolha não destruiu apenas empresas.

Ela destruiu sonhos.


O Mainframe Continuou Trabalhando

Enquanto Wall Street enfrentava o caos, uma cena curiosa acontecia silenciosamente nos centros de processamento de dados.

O batch da madrugada continuava sendo executado.

Os sistemas bancários permaneciam autorizando cartões.

Folhas de pagamento continuavam sendo processadas.

Caixas eletrônicos permaneciam funcionando.

As bolsas de valores continuavam liquidando operações.

Nada disso aparecia nas manchetes.

Mas mostrava uma verdade importante.

Infraestrutura crítica não pode depender do humor do mercado.

Ela precisa continuar funcionando mesmo durante crises.

Talvez essa seja uma das maiores virtudes do universo mainframe.

Ele foi projetado justamente para operar quando tudo ao redor parece instável.


A Internet Não Morreu

Esse talvez seja o maior equívoco histórico sobre a bolha.

Muitos acreditam que a Internet fracassou.

Não.

Quem fracassou foram determinados modelos de negócios.

A tecnologia continuou evoluindo.

As conexões ficaram mais rápidas.

Os computadores tornaram-se mais baratos.

Novos navegadores apareceram.

O comércio eletrônico amadureceu.

Serviços online continuaram crescendo.

A bolha não destruiu a Internet.

Ela eliminou os excessos.

Foi um processo de seleção natural empresarial.


O Mercado Aprendeu da Forma Mais Difícil

Depois da crise, investidores passaram a fazer perguntas muito diferentes.

Quanto essa empresa realmente fatura?

Existe fluxo de caixa positivo?

Qual é sua margem?

Ela consegue sobreviver sem novos aportes?

Existe um caminho claro para a lucratividade?

Essas perguntas parecem óbvias hoje.

Mas foram aprendidas a um custo extremamente elevado.


O Paralelo com Outras Crises

Se observarmos a história econômica, veremos que praticamente todas as grandes bolhas seguem um roteiro semelhante.

Primeiro surge uma inovação legítima.

Depois aparece entusiasmo.

Em seguida, excesso de investimento.

Logo depois, especulação.

Então vem a euforia.

Por fim...

A realidade.

Esse padrão aconteceu com:

  • as tulipas na Holanda;

  • as ferrovias inglesas;

  • o mercado imobiliário japonês;

  • as hipotecas americanas;

  • as criptomoedas mais especulativas;

  • diversos projetos de NFTs.

O comportamento humano permanece surpreendentemente constante.

Mudam apenas os personagens.


O Que um Padawan COBOL Deve Aprender

Quando um programa COBOL executa um cálculo incorreto, cedo ou tarde o erro aparece.

Pode levar minutos.

Horas.

Dias.

Mas a inconsistência será encontrada.

Na economia acontece exatamente a mesma coisa.

Uma empresa pode operar durante algum tempo sustentada por expectativas.

Pode sobreviver graças a investimentos.

Pode esconder prejuízos atrás de crescimento acelerado.

Mas, em algum momento, os resultados reais aparecem.

É por isso que profissionais de sistemas críticos valorizam tanto conceitos como:

  • consistência;

  • previsibilidade;

  • auditoria;

  • confiabilidade;

  • planejamento.

Esses princípios parecem conservadores.

Na verdade, são justamente eles que permitem atravessar tempestades.


Lições para o Padawan COBOL

Na Academia da Frota Estelar existe uma máxima que poderia perfeitamente resumir a bolha da Internet:

"Nunca confunda velocidade com estabilidade."

Durante alguns anos, as empresas Dot-Com pareciam as naves mais rápidas da galáxia.

Aceleravam continuamente.

Recebiam investimentos gigantescos.

Cresciam em ritmo impressionante.

Mas muitas nunca haviam testado seus motores em uma tempestade.

Quando a turbulência chegou, descobriram que velocidade sem estrutura não garante sobrevivência.

Enquanto isso, velhas naves aparentemente menos glamorosas continuaram suas missões silenciosamente.

Foi exatamente isso que aconteceu com os sistemas corporativos.

Os grandes bancos, seguradoras, governos e companhias aéreas continuaram operando graças a décadas de engenharia sólida, disciplina operacional e arquiteturas resilientes.

A bolha havia estourado.

Mas a história da Internet estava apenas começando.

No próximo capítulo veremos um dos aspectos menos lembrados desse período: como o colapso das Dot-Com transformou profundamente o mercado de trabalho, mudou a carreira de milhares de profissionais de tecnologia e redefiniu o perfil do engenheiro de software para as décadas seguintes.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

DotCom: Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo iv

Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

Como investidores, analistas, imprensa e empresários construíram uma ilusão que parecia impossível de dar errado

"O maior perigo de uma bolha financeira não é o excesso de dinheiro. É quando pessoas inteligentes começam a acreditar que as leis da realidade deixaram de existir."

Até este ponto da nossa jornada vimos como a Internet deixou os laboratórios, conquistou empresas, encantou a sociedade e atraiu bilhões de dólares em investimentos.

Mas ainda falta responder uma pergunta fundamental.

Como milhares de investidores extremamente experientes conseguiram acreditar em negócios que claramente não paravam de pé?

Será que ninguém percebeu os problemas?

Será que todos foram enganados?

A resposta é muito mais interessante.

Na maioria dos casos...

As pessoas não estavam sendo irracionais.

Elas estavam olhando para uma tecnologia verdadeiramente revolucionária.

O erro foi concluir que uma revolução tecnológica também significava uma revolução nas leis da economia.

E isso nunca aconteceu.


Quando a Internet Parecia Magia

Volte mentalmente para 1998.

Imagine que você nunca viu um site.

Nunca enviou um e-mail.

Nunca comprou nada pela Internet.

De repente alguém mostra um computador conectado ao mundo inteiro.

Você consegue conversar com pessoas de outro país.

Ler jornais internacionais.

Pesquisar universidades.

Comprar um livro sem sair de casa.

Tudo isso parecia tão extraordinário que muitas pessoas passaram a acreditar que estavam diante da maior transformação econômica desde a Revolução Industrial.

Na verdade...

Talvez estivessem.

Mas uma revolução tecnológica não elimina conceitos básicos como receita, despesa e fluxo de caixa.

Ela apenas muda a forma como esses conceitos são aplicados.


A "Nova Economia"

Poucas expressões foram tão repetidas entre 1998 e 2000 quanto:

New Economy.

A Nova Economia.

Livros foram publicados.

Congressos discutiam o tema.

Revistas estampavam capas afirmando que o capitalismo havia entrado em uma nova fase.

Segundo muitos especialistas da época, empresas digitais deveriam ser avaliadas de maneira completamente diferente das empresas tradicionais.

Por quê?

Porque elas cresceriam infinitamente.

Como seus custos marginais seriam pequenos, bastaria conquistar usuários.

O lucro viria naturalmente.

Essa teoria possuía uma parte verdadeira.

Empresas digitais realmente conseguem escalar muito mais rapidamente.

Entretanto...

Ela ignorava algo essencial.

Nenhum crescimento é infinito.


O Mercado Começou a Precificar Sonhos

Uma empresa tradicional era avaliada principalmente pelo que já havia construído.

Uma empresa da Internet passou a ser avaliada pelo que talvez construísse algum dia.

É uma diferença gigantesca.

Imagine dois restaurantes.

O primeiro possui clientes, lucro e vinte anos de funcionamento.

O segundo acabou de abrir.

Não possui faturamento.

Mas promete que, daqui a dez anos, será a maior rede do planeta.

Qual deles deveria valer mais?

Durante a bolha da Internet, muitas vezes era o segundo.

Porque o mercado deixou de comprar resultados.

Passou a comprar expectativas.


O Papel dos Analistas Financeiros

Outro personagem importante dessa história foi o analista de mercado.

Seu trabalho consiste em estudar empresas e recomendar compra, venda ou manutenção de ações.

Em períodos normais, essas análises costumam ser bastante conservadoras.

Durante a bolha...

Muitos relatórios passaram a utilizar hipóteses extremamente otimistas.

Algumas previsões assumiam que determinadas empresas cresceriam acima de 50% ao ano durante uma década inteira.

Hoje sabemos como isso era improvável.

Naquele momento parecia plausível.

Afinal...

A Internet realmente crescia em ritmo impressionante.


A Mídia Descobriu os Novos Heróis

Os jornais também tiveram papel importante.

Até então, empresários famosos normalmente eram industriais.

Banqueiros.

Executivos.

Presidentes de grandes corporações.

De repente surgia uma nova geração.

Empreendedores de vinte e poucos anos.

Usando camiseta.

Tênis.

Sem gravata.

Criando empresas em garagens.

Eles se tornaram ícones culturais.

As capas das revistas estampavam frases como:

"O próximo Bill Gates."

"O jovem que mudará o mundo."

"A empresa que revolucionará tudo."

Criava-se um ambiente onde sucesso parecia inevitável.

Fracassar deixava de ser considerado uma possibilidade.


O IPO Virou um Evento Nacional

As ofertas públicas de ações transformaram-se em verdadeiros espetáculos.

No dia em que uma startup estreava na bolsa de valores, milhares de investidores corriam para comprar ações.

Pouco importava quanto a empresa faturava.

O importante era entrar antes que o preço subisse.

Em muitos casos...

Subia mesmo.

Ações dobravam.

Triplicavam.

Quadruplicavam em poucos dias.

Isso criava uma sensação extremamente perigosa.

Parecia impossível perder dinheiro.


O Ciclo da Euforia

Toda bolha financeira costuma seguir um padrão bastante semelhante.

Primeiro surgem empresas inovadoras.

Depois aparecem investidores pioneiros.

Esses investidores obtêm grandes retornos.

Os jornais começam a divulgar essas histórias.

Novos investidores chegam.

Os preços aumentam ainda mais.

Mais reportagens são publicadas.

Mais pessoas entram.

Forma-se um ciclo de retroalimentação.

O próprio aumento dos preços passa a ser utilizado como prova de que os preços continuarão aumentando.

É um fenômeno psicológico conhecido como feedback positivo.

Quanto mais sobe...

Mais pessoas acreditam que continuará subindo.


O Medo de Ficar de Fora

Existe um sentimento extremamente poderoso nos mercados financeiros.

O medo de perder uma oportunidade.

Hoje chamamos isso de FOMO (Fear of Missing Out).

Imagine dois colegas de trabalho.

Um deles comprou ações de uma startup.

Em poucos meses dobrou seu patrimônio.

O outro não investiu.

Quem provavelmente começará a sentir ansiedade?

Exatamente.

O segundo.

Esse mecanismo psicológico faz com que investidores deixem de analisar racionalmente os riscos.

Eles passam a comprar apenas porque todos estão comprando.

A lógica desaparece.

A emoção assume o controle.


O Efeito Manada

Na psicologia existe um conceito chamado comportamento de manada.

É a tendência natural de seguir o grupo.

Durante milhares de anos essa característica ajudou nossa espécie a sobreviver.

Se todos corriam...

Provavelmente havia um predador.

Na bolsa de valores esse mesmo mecanismo pode se tornar perigoso.

Se todos estão comprando...

Talvez ninguém esteja pensando.

A bolha das Dot-Com foi um dos maiores exemplos desse comportamento.

Investidores compravam ações porque outros investidores estavam comprando.

Não porque compreendiam profundamente o negócio.


O Viés da Confirmação

Outro fenômeno psicológico apareceu com força.

As pessoas passaram a procurar apenas informações que confirmassem aquilo em que já acreditavam.

Quando uma empresa anunciava crescimento de usuários...

Todos comemoravam.

Quando anunciava prejuízo...

Diziam que isso era normal.

Quando outra startup quebrava...

Afirmavam que era um caso isolado.

Poucos percebiam que dezenas de empresas apresentavam exatamente os mesmos problemas.

Esse fenômeno é chamado de viés de confirmação.

Selecionamos apenas as evidências que reforçam nossas convicções.

Ignoramos o restante.


"Desta Vez é Diferente"

Talvez nenhuma frase seja tão perigosa na história da economia quanto esta:

"Desta vez é diferente."

Ela apareceu na Tulipomania.

Na Railway Mania.

Na bolha imobiliária japonesa.

Na crise das hipotecas de 2008.

E também na bolha da Internet.

Sempre existe alguém afirmando que as regras antigas deixaram de valer.

Que a tecnologia mudou tudo.

Que agora o crescimento será infinito.

Infelizmente...

As leis da matemática continuam exatamente as mesmas.


Enquanto Isso... Dentro de um CPD

Agora imagine um gerente de operações de um grande banco em 1999.

Enquanto Wall Street discutia bilhões em startups, ele precisava responder perguntas muito diferentes.

O backup terminou?

O batch fechou?

A janela noturna foi cumprida?

Os arquivos VSAM ficaram íntegros?

O CICS permaneceu disponível?

O Db2 completou o REORG?

A folha de pagamento será processada amanhã?

Perceba a diferença.

Lá fora...

O mercado discutia expectativas.

Aqui dentro...

O assunto era execução.

Não havia espaço para euforia.

Nem para modismos.

Apenas para resultados concretos.


O NASDAQ Parecia uma Nave em Velocidade de Dobra

Entre 1995 e o início de 2000, o índice NASDAQ tornou-se o principal símbolo do entusiasmo tecnológico.

Empresas de tecnologia valorizavam-se de maneira impressionante.

Cada novo recorde reforçava a ideia de que a Internet havia criado uma riqueza infinita.

Analistas utilizavam gráficos para provar que o crescimento continuaria.

Investidores acreditavam.

Jornalistas repercutiam.

Políticos comemoravam.

Empresários expandiam seus negócios.

Poucos percebiam que boa parte desse crescimento estava sendo sustentada pela própria expectativa de crescimento.

Era uma espécie de motor alimentado pela própria confiança.

Enquanto a confiança existisse...

Tudo funcionava.


O Dia em que a Realidade Bateu à Porta

Existe uma característica curiosa das bolhas financeiras.

Elas não estouram quando todos percebem os problemas.

Elas estouram quando um número suficiente de pessoas começa a fazer perguntas simples.

Como:

Quanto essa empresa realmente fatura?

Ela consegue sobreviver sem novos investidores?

Quando começará a gerar lucro?

Qual seu fluxo de caixa?

Essas perguntas demoraram anos para aparecer.

Mas, quando surgiram...

Mudaram completamente o humor do mercado.

A euforia começou a desaparecer.

E a confiança, que sustentava boa parte da valorização, começou lentamente a evaporar.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Hoje, em 2026, vemos novamente uma enorme onda de entusiasmo em torno da IA.

Modelos generativos impressionam.

Agentes inteligentes prometem transformar empresas.

Investimentos bilionários são anunciados.

Tudo isso é real.

Mas o Padawan COBOL precisa fazer as mesmas perguntas que faltaram durante a bolha da Internet.

Qual problema está sendo resolvido?

Existe um modelo de negócios sustentável?

Quem paga por essa solução?

Ela continuará existindo daqui a dez anos?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Pelo contrário.

Elas ajudam a separar tecnologias duradouras de simples modismos.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma frase muito conhecida entre engenheiros de software:

"O computador executa exatamente aquilo que você programou, não aquilo que você imaginou."

Os mercados financeiros funcionam de maneira semelhante.

Eles podem ignorar a realidade durante algum tempo.

Mas não para sempre.

No final, resultados concretos acabam prevalecendo sobre expectativas.

É exatamente por isso que sistemas corporativos continuam valorizando conceitos como:

  • confiabilidade;

  • auditoria;

  • rastreabilidade;

  • disponibilidade;

  • consistência;

  • governança.

Esses princípios nunca saem de moda.

No universo da Frota Estelar, um capitão experiente não toma decisões olhando apenas para a beleza do mapa estelar. Ele consulta sensores, verifica o combustível, analisa a integridade estrutural da nave e calcula cuidadosamente os riscos antes de entrar em velocidade de dobra. Durante a bolha das Dot-Com, porém, muitos investidores olharam apenas para as estrelas e esqueceram de verificar se a nave realmente possuía motores capazes de chegar ao destino.

E foi exatamente aí que começou o princípio do fim.

No próximo capítulo veremos o momento em que a realidade finalmente venceu a euforia. Bastou uma simples mudança de humor entre investidores para que bilhões de dólares desaparecessem em questão de meses, dando início ao maior colapso tecnológico que o mercado já havia testemunhado até então.


quarta-feira, 18 de março de 2020

DotCom : Capítulo III — A Economia do "Queime Caixa": Quando Gastar Milhões Virou Sinônimo de Sucesso

 

Bellacosa Mainframe o estouro da bolha do dotcom capitulo III


Capítulo III — A Economia do "Queime Caixa": Quando Gastar Milhões Virou Sinônimo de Sucesso

Como a obsessão pelo crescimento criou uma das maiores ilusões financeiras da história da tecnologia

"Uma nave pode acelerar até a velocidade de dobra. Mas, se o reator de antimatéria acabar antes do destino, toda a velocidade do universo será inútil."

Chegamos agora ao coração da bolha da Internet.

Se existe um conceito que todo Padawan COBOL precisa compreender para entender por que milhares de empresas desapareceram no início dos anos 2000, esse conceito é conhecido como Burn Rate, ou, em tradução livre, taxa de consumo de caixa.

Parece um termo moderno.

Mas sua lógica é antiga.

Muito antiga.

Imagine que você recebe um salário de R$ 10.000 por mês.

No primeiro mês, você resolve gastar R$ 30.000.

No segundo, mais R$ 30.000.

No terceiro, novamente R$ 30.000.

Enquanto houver alguém disposto a emprestar dinheiro, você continua vivendo como um milionário.

Mas chega um momento em que alguém faz a pergunta inevitável:

"Quando você pretende começar a ganhar mais do que gasta?"

Foi exatamente essa pergunta que destruiu milhares de empresas da era das Dot-Com.


O Que é Burn Rate?

De maneira simples, Burn Rate representa a velocidade com que uma empresa consome seu dinheiro disponível.

Imagine uma fogueira.

Quanto maior a chama...

Mais rapidamente a lenha desaparece.

Nas startups ocorre algo semelhante.

O dinheiro dos investidores é a lenha.

As despesas são o fogo.

Enquanto houver madeira...

O fogo continua bonito.

Quando acaba...

Não importa o tamanho da chama.

Tudo termina.

Esse conceito parece óbvio hoje.

Mas, durante alguns anos, parecia quase irrelevante.


Crescer Primeiro. Lucrar Depois.

A filosofia dominante entre 1997 e 2000 era extremamente sedutora.

Primeiro conquistaríamos milhões de usuários.

Depois descobriríamos como ganhar dinheiro.

A lógica parecia razoável.

Quanto maior a base de clientes, maior seria o potencial de receita futura.

O problema estava na palavra futuro.

Esse futuro nunca tinha data para chegar.

Enquanto isso, as contas continuavam vencendo.

Salários.

Aluguel.

Servidores.

Publicidade.

Marketing.

Infraestrutura.

Consultorias.

Viagens.

Eventos.

O dinheiro saía diariamente.

Mas quase não entrava.


A Corrida pela Escala

Outro conceito que ganhou enorme importância foi a escalabilidade.

Uma empresa tradicional precisava abrir novas lojas para crescer.

Cada nova unidade significava:

  • aluguel;

  • funcionários;

  • estoque;

  • energia;

  • manutenção.

Na Internet parecia diferente.

Criava-se um site.

Depois mais servidores.

Depois mais usuários.

O crescimento parecia infinito.

Esse raciocínio estava correto.

Mas escondia um detalhe gigantesco.

Servidores também custam dinheiro.

Desenvolvedores custam dinheiro.

Data centers custam dinheiro.

Links de Internet custam dinheiro.

Suporte custa dinheiro.

Escalar não era gratuito.

Apenas era diferente.


O Dinheiro Parecia Infinito

Durante a bolha, fundos de investimento competiam entre si para financiar startups.

Era comum uma empresa levantar dezenas ou centenas de milhões de dólares antes mesmo de apresentar lucro.

Algumas sequer possuíam um produto finalizado.

Bastava convencer investidores de que estavam construindo "o futuro".

Em poucos anos, uma cultura extremamente perigosa começou a surgir.

Gastar muito passou a ser interpretado como sinal de crescimento.

Quanto maior o prejuízo...

Maior parecia ser o potencial da empresa.

Hoje isso soa absurdo.

Na época parecia perfeitamente lógico.


O Marketing Virou um Buraco Negro

Talvez nenhum setor tenha consumido tanto dinheiro quanto o marketing.

Empresas compravam espaços durante o Super Bowl.

Patrocinavam eventos.

Espalhavam outdoors por grandes cidades.

Contratavam celebridades.

Produziam comerciais milionários.

O objetivo era simples.

Ficar conhecido antes dos concorrentes.

Muitas acreditavam que bastava dominar a mente do consumidor para garantir o sucesso futuro.

Mas havia um problema.

Publicidade gera visibilidade.

Não gera automaticamente receita.


O CAC Começou a Explodir

Hoje existe um indicador bastante conhecido chamado CAC.

Customer Acquisition Cost.

Ou custo para adquirir um cliente.

Imagine vender um produto de R$ 50.

Se você gastar R$ 500 em publicidade para conquistar esse cliente...

Seu negócio está perdendo dinheiro.

Durante a bolha da Internet isso acontecia frequentemente.

Empresas gastavam centenas de dólares para conquistar consumidores que compravam apenas uma única vez.

Enquanto investidores financiavam essa diferença...

Parecia funcionar.

Quando os investimentos diminuíram...

O modelo inteiro desmoronou.


O LTV Era Apenas uma Esperança

Outro conceito bastante utilizado atualmente é o Lifetime Value (LTV).

Representa quanto um cliente gera de receita ao longo de todo o relacionamento com a empresa.

Muitas startups justificavam enormes prejuízos dizendo:

"Hoje estamos perdendo dinheiro com este cliente.

Mas durante os próximos dez anos teremos lucro."

A teoria era excelente.

Na prática...

Grande parte desses clientes simplesmente nunca voltou.

As projeções eram otimistas demais.


O Escritório Também Virou Produto

Curiosamente, muitas startups passaram a competir também pela aparência.

Escritórios enormes.

Salas coloridas.

Escorregadores.

Mesas de pingue-pongue.

Videogames.

Cafés gourmet.

Frutas à vontade.

Massagem.

Academias.

Na época parecia representar uma nova cultura corporativa.

Em muitos casos representava apenas uma enorme despesa adicional.

Ambientes agradáveis são importantes.

Mas eles não substituem um modelo de negócios sustentável.


Contratar Também Virou Competição

Outro fenômeno curioso ocorreu com o mercado de trabalho.

Empresas contratavam centenas de profissionais muito antes de realmente precisarem deles.

A lógica era impedir que concorrentes encontrassem talentos disponíveis.

Desenvolvedores recebiam salários impressionantes.

Mudavam de empresa diversas vezes por ano.

Stock options tornaram-se extremamente populares.

Todos acreditavam que ficariam milionários quando a empresa abrisse capital.

Em alguns casos isso aconteceu.

Na maioria...

As ações tornaram-se praticamente sem valor.


Quando Crescimento Virou Vaidade

Durante aquele período surgiu uma obsessão por métricas que pouco diziam sobre a saúde financeira das empresas.

Número de visitantes.

Número de acessos.

Quantidade de páginas vistas.

Downloads.

Cadastros.

Cliques.

Esses números apareciam em todas as apresentações para investidores.

Quase ninguém perguntava algo muito mais importante.

Quantos clientes realmente pagam?

Essa diferença continua extremamente atual.

Uma aplicação pode possuir milhões de usuários.

Se ninguém pagar por ela...

O problema permanece.


O Dia em que Lucro Virou Palavra Proibida

Existe uma frase atribuída a diversos investidores daquela época.

"Lucro é para empresas velhas."

Essa mentalidade tornou-se tão forte que algumas companhias praticamente evitavam discutir resultados financeiros.

O foco era apenas crescimento.

A crença era simples.

Quando dominarmos o mercado...

O lucro aparecerá naturalmente.

Algumas empresas conseguiram isso.

Amazon é um exemplo.

A maioria não.

Porque dominar mercado também exige sobreviver tempo suficiente para alcançá-lo.


Enquanto Isso... Nos Mainframes

Agora imagine um gerente de processamento de dados em um grande banco brasileiro em 1999.

Toda manhã ele recebia indicadores como:

  • disponibilidade do sistema;

  • tempo médio de resposta;

  • volume de transações;

  • utilização de CPU;

  • consumo de disco;

  • filas de processamento;

  • integridade dos dados.

Nenhum diretor perguntava:

"Quantos milhões de acessos tivemos hoje?"

A pergunta era muito mais simples.

"O sistema funcionou?"

Esse contraste é fascinante.

Enquanto startups celebravam visitantes.

Mainframes celebravam transações concluídas com sucesso.

Enquanto empresas de Internet comemoravam páginas visualizadas.

Centros de processamento comemoravam disponibilidade de 99,999%.

Era uma diferença de mentalidade.

Uma focava expectativa.

Outra focava execução.


A Matemática Sempre Cobra

Existe uma característica curiosa da matemática.

Ela não possui opinião.

Não participa de reuniões.

Não lê reportagens.

Não acompanha tendências.

Ela simplesmente funciona.

Se uma empresa gasta continuamente mais do que arrecada...

Em algum momento o dinheiro termina.

Pode demorar meses.

Pode demorar anos.

Mas acontecerá.

Foi exatamente isso que ocorreu com centenas de startups.

Elas não quebraram porque a Internet era ruim.

Quebraram porque suas despesas cresceram mais rapidamente do que suas receitas.


A Armadilha do "Depois a Gente Resolve"

Talvez o maior erro estratégico daquele período tenha sido transformar problemas fundamentais em preocupações futuras.

Logística?

Depois resolvemos.

Rentabilidade?

Depois resolvemos.

Segurança?

Depois resolvemos.

Infraestrutura?

Depois resolvemos.

Atendimento?

Depois resolvemos.

Governança?

Depois resolvemos.

O problema é que empresas crescem.

Problemas também.

E quanto maior a empresa...

Mais caro se torna corrigir decisões equivocadas tomadas no início.

Essa continua sendo uma das maiores lições para startups atuais.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Olhando para 2026, encontramos algumas semelhanças interessantes.

Diversas empresas de IA recebem investimentos bilionários.

Muitas ainda operam com prejuízo.

Algumas apostam que receitas futuras compensarão os custos atuais.

A diferença é que boa parte dessas empresas já entrega valor concreto.

Modelos de IA realmente aumentam produtividade.

Automatizam tarefas.

Auxiliam desenvolvedores.

Transformam atendimento ao cliente.

Ou seja...

A tecnologia é real.

O desafio continua sendo construir modelos econômicos sustentáveis.

A história das Dot-Com não ensina que devemos desconfiar da inovação.

Ela ensina que inovação e sustentabilidade precisam caminhar juntas.


Lições para o Padawan COBOL

Todo programador COBOL aprende cedo que um sistema não pode depender apenas de condições ideais.

É preciso prever exceções.

Tratar erros.

Garantir recuperação.

Controlar recursos.

Planejar capacidade.

Empresas funcionam exatamente da mesma maneira.

Caixa é como memória disponível.

Se acabar...

O programa termina.

Receita é semelhante ao processamento de entrada.

Sem novos dados...

Não existe trabalho.

Lucro pode ser comparado ao espaço livre em disco.

Ele garante que o sistema continue crescendo sem entrar em colapso.

No universo da Frota Estelar, seria impensável iniciar uma missão interestelar sem calcular cuidadosamente o combustível, as reservas de energia e os recursos necessários para retornar à Terra. No entanto, foi exatamente isso que inúmeras empresas fizeram durante a bolha da Internet: aceleraram ao máximo, fascinadas pela velocidade, sem verificar se havia energia suficiente para completar a viagem.

No próximo capítulo veremos como essa cultura de crescimento a qualquer custo contaminou investidores, analistas e a mídia, criando um ambiente de euforia coletiva em que qualquer empresa ligada à Internet parecia destinada ao sucesso. Era o início do auge da bolha — justamente o momento em que ela começava, silenciosamente, a preparar seu inevitável colapso.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

DotCom: Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

  

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo II

Capítulo II — A Corrida do Ouro Digital: Como Nasceu a Febre das Empresas ".com"

Quando Wall Street descobriu a Internet e acreditou que o lucro havia se tornado opcional

"Na história da humanidade, toda grande corrida do ouro começa com uma descoberta legítima. O problema começa quando as pessoas passam a vender pás em vez de procurar ouro."

Se no capítulo anterior vimos como a Internet saiu dos laboratórios e começou a conquistar o mundo, agora chegamos ao momento em que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ser encarada como a promessa de uma nova civilização econômica.

Foi nesse instante que nasceu a famosa Era das Dot-Com.

Para um Padawan COBOL, esse é um dos capítulos mais importantes da história da computação, porque mostra como uma tecnologia revolucionária pode ser confundida com uma oportunidade de enriquecimento fácil. A Internet realmente mudaria o planeta. O erro foi acreditar que qualquer empresa ligada a ela se transformaria automaticamente em um império.

A tecnologia estava certa.

A lógica financeira, não.


O Significado de ".com"

Hoje digitamos endereços como algo absolutamente natural.

bellacosamainframe.com

ibm.com

openai.com

amazon.com

Mas poucos lembram que, na década de 1990, possuir um domínio ".com" era quase um símbolo de status.

O ".com" era originalmente apenas um domínio de primeiro nível destinado a empresas comerciais.

Nada mais.

Entretanto, o imaginário popular transformou essas quatro letras em sinônimo de modernidade, inovação e riqueza.

Era como se existissem dois mundos.

O mundo antigo.

E o mundo ".com".

Se uma empresa acrescentasse ".com" ao seu nome, muitos investidores imediatamente acreditavam que ela fazia parte da nova economia.

Hoje parece absurdo.

Na época, parecia inevitável.


A Internet Virou um Sonho Coletivo

O final dos anos 1990 foi marcado por um sentimento raro na história.

O mundo inteiro parecia acreditar que estava vivendo o nascimento de uma nova Revolução Industrial.

Todos os dias surgiam manchetes anunciando:

  • "A Internet vai acabar com as lojas físicas."

  • "Os bancos tradicionais desaparecerão."

  • "Os jornais impressos morrerão."

  • "Nunca mais será necessário sair de casa para fazer compras."

  • "O comércio eletrônico dominará o planeta."

Curiosamente...

Quase todas essas previsões acabaram se tornando verdadeiras.

O problema foi o prazo.

Os investidores imaginavam que isso aconteceria em dois ou três anos.

Na realidade, muitas dessas transformações levaram vinte ou trinta anos para amadurecer.

A tecnologia estava apenas adiantada em relação ao comportamento da sociedade.


O Surgimento da "Nova Economia"

Naquele período começou a surgir uma expressão extremamente popular:

The New Economy.

Segundo muitos economistas da época, as regras tradicionais deixariam de existir.

Lucro?

Não importava.

Fluxo de caixa?

Ultrapassado.

Patrimônio?

Irrelevante.

O importante era conquistar usuários.

Essa ideia parecia revolucionária.

E, em parte, realmente era.

Empresas digitais podiam crescer muito mais rapidamente do que empresas tradicionais.

Uma loja física precisava construir filiais.

Uma empresa na Internet precisava apenas de mais servidores.

Era uma mudança gigantesca na forma de escalar um negócio.

Mas alguém começou a confundir crescimento com sustentabilidade.

E foi aí que a história começou a tomar um rumo perigoso.


Wall Street Descobre a Internet

Até então, o mercado financeiro sempre havia analisado empresas utilizando critérios relativamente objetivos.

Receita.

Lucro.

Margem.

Patrimônio.

Endividamento.

Capacidade de geração de caixa.

Com as empresas de Internet surgiu um novo raciocínio.

"Elas ainda não dão lucro porque estão crescendo."

Inicialmente fazia sentido.

Afinal, muitas empresas realmente sacrificam lucro nos primeiros anos para ganhar mercado.

O problema foi quando isso deixou de ser uma fase e passou a ser um modelo de negócios.

Algumas companhias queimavam milhões de dólares por mês sem qualquer perspectiva concreta de rentabilidade.

Mesmo assim...

Recebiam novos investimentos.

Era como abastecer um carro sem motor.


O Primeiro IPO Virou um Espetáculo

Outro fator alimentou a euforia.

Os IPOs.

Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial.

Empresas extremamente jovens chegavam à bolsa de valores e suas ações dobravam ou triplicavam de preço no primeiro dia de negociação.

Imagine abrir uma empresa hoje e, poucos anos depois, vê-la valer bilhões apenas porque investidores acreditam no seu potencial.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Cada IPO bem-sucedido atraía novos investidores.

Cada novo investidor aumentava ainda mais os preços.

E o ciclo se retroalimentava.

Nascia um dos ingredientes clássicos de toda bolha especulativa.


Venture Capital: O Combustível da Explosão

Ao mesmo tempo, os fundos de Venture Capital passaram a desempenhar um papel decisivo.

Sua missão era investir em empresas extremamente inovadoras, assumindo riscos elevados em troca da possibilidade de retornos extraordinários.

Esse modelo continua existindo até hoje e é extremamente importante para a inovação.

O problema não era o Venture Capital em si.

O problema era o excesso de dinheiro procurando oportunidades.

Quando existe muito capital disponível, a disciplina tende a diminuir.

Projetos que normalmente seriam rejeitados começaram a receber milhões de dólares.

Muitas vezes bastava apresentar uma ideia interessante acompanhada por uma bela apresentação em PowerPoint.

O produto ainda nem existia.


O Fascínio das Startups

Foi nessa época que começou a nascer a cultura das startups como conhecemos atualmente.

Escritórios modernos.

Mesas de sinuca.

Videogames.

Pufes coloridos.

Ambientes descontraídos.

Horários flexíveis.

Jovens empreendedores usando camiseta e tênis apresentavam projetos para investidores acostumados a ternos e gravatas.

Era uma ruptura cultural.

Empresas centenárias pareciam lentas.

As startups representavam velocidade.

Coragem.

Criatividade.

Disrupção.

A palavra "disruptivo" virou praticamente um mantra.

Poucos paravam para perguntar:

"Como exatamente essa empresa pretende ganhar dinheiro?"


A Mídia Também Entrou na Festa

Revistas especializadas publicavam diariamente histórias de jovens milionários.

Empreendedores de vinte e poucos anos tornavam-se celebridades.

A imprensa tratava fundadores de startups quase como astros do rock.

As capas anunciavam:

"A empresa do futuro."

"O próximo bilionário."

"A nova Microsoft."

Criava-se um ambiente psicológico muito perigoso.

Quem não investisse em Internet parecia estar ficando para trás.

Esse fenômeno possui um nome bastante conhecido atualmente:

FOMO — Fear of Missing Out, o medo de perder uma oportunidade única.

É exatamente esse sentimento que costuma alimentar as grandes bolhas financeiras.


Quando o Marketing Passou a Valer Mais que o Produto

Durante a febre das Dot-Com ocorreu algo curioso.

Algumas empresas gastavam mais dinheiro anunciando seus serviços do que desenvolvendo seus próprios produtos.

Campanhas publicitárias milionárias apareciam na televisão.

Outdoor.

Revistas.

Eventos.

Patrocínios.

Enquanto isso...

Os sistemas internos ainda apresentavam falhas.

Os processos logísticos não funcionavam.

O atendimento era precário.

Era como pintar uma nave espacial antes mesmo de instalar os motores.

Bonita por fora.

Incapaz de completar a missão.


Pets.com: O Símbolo do Exagero

Nenhuma empresa representa melhor aquele período do que a Pets.com.

Sua proposta parecia excelente.

Vender produtos para animais de estimação pela Internet.

Hoje isso parece absolutamente comum.

Na época também parecia uma ótima ideia.

O problema não era a ideia.

Era a matemática.

Transportar sacos de ração pesados para clientes espalhados pelo país custava muito mais do que a empresa conseguia cobrar.

Mesmo assim, a Pets.com gastou milhões em publicidade, criou um mascote famoso e abriu capital na bolsa.

Menos de um ano depois do IPO, encerrou suas atividades.

Seu fantoche de cachorro tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da bolha da Internet.

A ideia sobreviveu.

A empresa, não.


Nem Todas Eram Fraudes

É importante desfazer um mito.

A maioria das empresas Dot-Com não nasceu para enganar investidores.

Pelo contrário.

Muitas possuíam profissionais brilhantes.

Ideias genuinamente inovadoras.

Tecnologia avançada.

O problema era outro.

Elas chegaram cedo demais.

O mercado ainda não estava preparado.

A infraestrutura de Internet era limitada.

Os meios de pagamento online eram pouco confiáveis.

A logística ainda era cara.

O consumidor ainda desconfiava das compras virtuais.

Ou seja...

A visão estava correta.

O momento histórico, não.


Enquanto Isso... Nos Bastidores dos Mainframes

Enquanto jornais anunciavam diariamente a "Nova Economia", os computadores centrais continuavam executando silenciosamente suas rotinas.

Os bancos processavam bilhões em transferências.

As bolsas de valores liquidavam operações.

As seguradoras calculavam riscos.

Os governos arrecadavam impostos.

Curiosamente, muitas startups utilizavam justamente esses sistemas tradicionais para realizar pagamentos, processar cartões de crédito e registrar transações financeiras.

A fachada era moderna.

A infraestrutura continuava clássica.

Essa é uma das grandes ironias da história da computação.

A revolução digital avançava apoiada em tecnologias que muitos diziam estar ultrapassadas.


O Erro que Ninguém Percebeu

A Internet realmente mudaria o mundo.

Esse diagnóstico estava absolutamente correto.

O erro foi imaginar que crescimento infinito poderia substituir fundamentos econômicos.

Receita ainda importava.

Lucro continuava importante.

Fluxo de caixa permanecia essencial.

Clientes precisavam pagar contas.

Funcionários precisavam receber salários.

Empresas precisavam sobreviver até que o futuro chegasse.

E foi justamente aí que muitas fracassaram.

Elas apostaram que o amanhã chegaria antes que o dinheiro acabasse.


Lições para o Padawan COBOL

Para um desenvolvedor de sistemas, existe uma lição valiosa escondida na febre das Dot-Com.

Uma boa ideia é apenas o início da jornada.

Entre uma apresentação inspiradora e um sistema funcionando em produção existe um oceano de desafios:

  • arquitetura;

  • infraestrutura;

  • segurança;

  • escalabilidade;

  • manutenção;

  • suporte;

  • integração;

  • continuidade do negócio.

É exatamente por isso que profissionais de mainframe costumam enxergar a tecnologia de maneira diferente.

Eles sabem que um sistema não é medido apenas pelo entusiasmo que desperta no lançamento, mas pela capacidade de continuar operando com segurança cinco, dez ou vinte anos depois.

No universo da Frota Estelar, qualquer engenheiro consegue desenhar uma nave impressionante no holodeck. O verdadeiro desafio é construir uma nave capaz de atravessar uma tempestade de plasma, cumprir a missão e retornar com toda a tripulação em segurança.

No próximo capítulo veremos como essa corrida desenfreada por crescimento criou uma cultura conhecida como "queimar caixa" (Burn Rate), onde gastar milhões de dólares deixou de ser um problema e passou a ser considerado uma estratégia de negócios. Foi nesse momento que a bolha começou, silenciosamente, a preparar sua própria explosão.