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sábado, 9 de julho de 2022

John Malkovich, Rua Garrett e o Autógrafo que Eu Não Pedi

 

Bellacosa Mainframe e o dia que vi John Malkovich

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John Malkovich, Rua Garrett e o Autógrafo que Eu Não Pedi

Ou: como encontrei um dos meus atores favoritos descendo o Chiado, tive alguns segundos para fazer exatamente aquilo que qualquer fã faria — e resolvi simplesmente sorrir

Há histórias que sobrevivem porque alguém tirou uma fotografia.

Outras porque existe uma carta.

Um ingresso amarelado.

Uma assinatura num guardanapo.

Uma fotografia tremida com metade de um dedo na frente da lente.

Um recibo esquecido dentro de um livro.

Algumas sobrevivem porque alguém teve a extraordinária previdência de escrever uma data atrás da foto:

Lisboa, 2003.

E existem aquelas que não possuem absolutamente nada.

Nenhuma fotografia.

Nenhum autógrafo.

Nenhuma testemunha.

Nenhum vídeo.

Nenhum registro.

Nenhum metadata.

Nenhum backup.

Nada.

Apenas alguns segundos gravados dentro da cabeça de alguém.

Esta é uma dessas histórias.

E talvez justamente por isso eu ainda me lembre dela.

Pegue um café.

Porque certa tarde eu estava subindo a Rua Garrett, em Lisboa, quando encontrei John Malkovich.

E decidi não conhecê-lo.


🇵🇹 Primeiro precisamos subir o Chiado

Quem conhece Lisboa sabe que certas ruas não servem apenas para levar alguém de um ponto A até um ponto B.

Elas atrapalham deliberadamente o percurso.

A Rua Garrett é uma delas.

Você pode ter compromisso.

Pode estar atrasado.

Pode ter alguém esperando.

Pode inclusive jurar que desta vez vai simplesmente atravessar o Chiado sem olhar para os lados.

Boa sorte.

Lisboa tem outros planos.

Há turistas.

Lisboetas.

Cafés.

Livrarias.

Sebos.

Montras.

Prédios que obrigam você a levantar a cabeça.

Gente entrando e saindo dos Armazéns do Chiado.

E, naturalmente, Fernando Pessoa tranquilamente instalado diante d'A Brasileira, observando há décadas aquela humanidade passar como se soubesse de alguma coisa que nós ainda não descobrimos.

Eu conhecia aquele caminho.

Naquele dia estava subindo a Rua Garrett para encontrar Carmen, que trabalhava no Largo do Calhariz.

Era uma caminhada cotidiana.

Nada de particularmente extraordinário deveria acontecer.

Eu caminhava do meu jeito habitual: suficientemente depressa para parecer que tinha destino, mas suficientemente devagar para continuar olhando tudo.

Tenho esse defeito.

Ou qualidade.

Nunca consegui decidir.

Olho prédios.

Olho placas.

Olho vitrines.

Olho carros.

Olho detalhes arquitetônicos.

E olho pessoas.

Principalmente pessoas.

Uma cidade sem pessoas é apenas infraestrutura.

E foi olhando as pessoas que meu sistema encontrou uma anomalia.



⚠️ CELEBRITY DETECTED

Ele vinha no sentido contrário.

Talvez meia dúzia de passos.

Não houve apresentação.

Não houve segurança abrindo caminho.

Não houve flashes.

Não houve tapete vermelho.

Não houve ninguém gritando:

— Senhoras e senhores, diretamente de Hollywood...

Nada.

Era simplesmente um homem descendo uma rua de Lisboa.

E então nossos olhares se cruzaram.

Meu cérebro precisou de uma fração ridiculamente pequena de segundo.

É ELE.

John Malkovich.

Não alguém parecido com John Malkovich.

Não um português careca que depois de três copos de vinho lembraria vagamente John Malkovich.

John Malkovich.

O ator.

Aquele ator cujo nome, para mim, sempre funcionou praticamente como certificado de interesse.

Se aparecesse nos créditos:

John Malkovich

eu assistiria.

Filme bom?

Assistiria.

Filme ruim?

Assistiria também.

Filme esquisito?

Melhor ainda.

Porque existem atores que interpretam personagens e existem atores cuja simples presença faz você prestar atenção.

Malkovich sempre pertenceu à segunda categoria.

E agora o sujeito estava ali.

Na minha frente.

Descendo a Rua Garrett.


🖥️ O mainframe entrou imediatamente em estado de exceção

Internamente, a operação foi mais ou menos assim:

IDENTIFY MALKO

Resultado:

RC=0000

Confiança:

99.999999%

Imediatamente várias subtarefas foram disparadas.

PEDIR_AUTOGRAFO

FALAR_QUE_SOU_FÃ

PERGUNTAR_SOBRE_FILMES

ARRANJAR_FOTO

NÃO_DEIXAR_ELE_ESCAPAR

Todas requisitando prioridade máxima.

O fã dentro de mim estava completamente alucinado.

Eu queria correr.

Queria falar.

Queria dizer que admirava seu trabalho.

Queria pedir um autógrafo.

Talvez dois.

Talvez dezessete.

E havia ainda a fotografia.

Hoje qualquer pessoa colocaria a mão no bolso, puxaria o telefone e:

— Mister Malkovich, selfie?

Mas precisamos lembrar que estamos falando de outra época.

O telefone celular ainda não havia transformado cada ser humano num correspondente fotográfico permanente de sua própria existência.

Para conseguir uma fotografia seria necessário possuir uma câmera naquele momento, encontrar alguém para fotografar ou improvisar alguma solução.

E eu sempre fui louco por fotografias.

Portanto, alguma coisa eu inventaria.

O problema não era técnico.

O problema apareceu quando faltavam talvez três ou quatro passos.


👀 Ele percebeu

Esse é o pedaço da história que nenhuma fotografia poderia registrar.

John Malkovich percebeu que eu o reconhecera.

Tenho certeza disso.

Porque existe uma expressão específica no rosto de alguém quando ocorre esse reconhecimento.

Meu olhar provavelmente entregou tudo.

Por alguns milissegundos deixei de ser um transeunte qualquer da Rua Garrett.

Virei:

FÃ DETECTADO.

E acredito que ele conhecesse muito bem aquele protocolo.

Afinal, devia acontecer constantemente.

O olhar.

A hesitação.

O sorriso.

A pessoa decidindo se aproxima.

Ele me viu processando aquilo.

E aconteceu algo curioso.

Não senti nele aquela reação de quem pensa:

"Lá vem mais um."

Pelo contrário.

Houve uma pequena abertura.

Uma simpatia.

Aquela disponibilidade educada de quem provavelmente teria parado caso eu falasse alguma coisa.

Eu poderia abordar.

Ele permitiria.

Talvez conversássemos durante alguns minutos.

Eu teria meu autógrafo.

Talvez minha fotografia.

Talvez hoje tivesse uma bela prova material desta história.

Foi exatamente aí que alguma outra coisa assumiu o controle.


🧠 O WLM humano mudou a prioridade

Olhei para ele.

Olhei para a rua.

E percebi uma coisa muito simples.

O homem estava passeando.

Só isso.

Não era John Malkovich numa estreia.

Não era John Malkovich num festival.

Não era John Malkovich numa sessão de autógrafos.

Não era John Malkovich diante de jornalistas.

Era um sujeito caminhando por Lisboa.

Exatamente como eu.

Eu estava apreciando a cidade.

Ele aparentemente também.

E naquele instante aconteceu uma pequena disputa interna entre o fã e o ser humano.

O fã dizia:

VAI!

O outro respondia:

Deixa o homem em paz.

O fã:

MAS É JOHN MALKOVICH!

O outro:

Eu sei.

É justamente por isso.


🙂 Então eu simplesmente sorri

Não disse nada.

Não pedi nada.

Não bloqueei seu caminho.

Não puxei papel.

Não procurei caneta.

Não tentei encontrar uma câmera.

Apenas olhei para ele e dei provavelmente o sorriso mais sincero que poderia dar.

Depois fiz um pequeno aceno com a cabeça.

E aquele gesto dizia tudo.

Não sei se existe um protocolo internacional para encontros ocasionais entre fãs e atores de Hollywood nas ruas de Lisboa.

Mas, se existe, naquele momento utilizamos a versão mais econômica possível.

Meu gesto dizia:

"Eu sei quem você é."

"Sou seu fã."

"Admiro seu trabalho."

"Fiquei absurdamente feliz de encontrar você aqui."

"Mas não vou atrapalhar seu passeio."

E então aconteceu a melhor parte.

Ele entendeu.

John Malkovich sorriu.

Não o sorriso profissional da fotografia.

Não aquele sorriso automático que pessoas famosas provavelmente aprendem depois da milionésima abordagem.

Foi um pequeno sorriso de cumplicidade.

Quase agradecido.

E respondeu com o olhar.

Durante talvez dois segundos aconteceu uma conversa inteira sem uma única palavra.

— É você.

— Sou eu.

— Sou muito seu fã.

— Percebi.

— Não vou te incomodar.

— Obrigado.

— Aproveite Lisboa.

— Você também.

E continuamos andando.


🚶 Dois turistas

Ele desceu.

Eu subi.

E foi isso.

Nenhuma multidão percebeu.

Nenhum jornalista registrou.

Fernando Pessoa permaneceu sentado.

Os cafés continuaram servindo bicas.

As pessoas continuaram entrando nas livrarias.

Os elétricos continuaram fazendo aquele barulho de Lisboa.

Provavelmente alguém reclamava de alguma coisa num balcão próximo, porque afinal estávamos em Portugal e certas instituições nacionais precisam ser preservadas.

E dois homens que jamais haviam se encontrado continuaram andando em direções opostas.

Um deles era John Malkovich.

O outro estava indo encontrar Carmen no Largo do Calhariz.

Durante alguns segundos, porém, éramos simplesmente duas pessoas passeando pela mesma cidade.


📸 A fotografia que não existe

Naturalmente, depois veio o arrependimento.

Porque o fã continua sendo fã.

PORRA, VAGNER!

ERA JOHN MALKOVICH!

Você poderia ter pedido um autógrafo!

Poderia ter conseguido uma fotografia!

Poderia ter falado com ele!

Poderia hoje mostrar para todo mundo:

— Olha aqui eu com John Malkovich em Lisboa.

Não tenho.

Não existe.

Não tenho sequer um guardanapo dizendo:

To Vagner, best wishes, John Malkovich.

Nada.

Do ponto de vista documental, esta história possui uma infraestrutura lamentável.

Auditoria reprovaria imediatamente.

Evidência material:

ZERO.

Testemunhas conhecidas:

ZERO.

Fotografia:

FILE NOT FOUND

Autógrafo:

DATASET NOT CATALOGED

Vídeo:

NO RECORDS FOUND

Logs:

expirados há décadas.

Se isso fosse um incidente de produção, ninguém aceitaria meu RCA.


☕ Mas talvez eu tenha trazido algo melhor

Com o passar dos anos comecei a perceber que talvez eu não tenha perdido coisa alguma.

Um autógrafo seria um objeto.

Uma fotografia seria uma fotografia.

Talvez estivesse numa caixa.

Talvez num álbum.

Talvez digitalizada.

Talvez eu já nem soubesse onde estava.

Mas aquele momento continua perfeitamente armazenado.

A rua.

O movimento.

A direção em que eu caminhava.

A surpresa.

A distância diminuindo.

O reconhecimento.

O olhar.

A decisão.

Meu sorriso.

O sorriso dele.

E cada um seguindo seu caminho.

Curiosamente, não pedir o autógrafo transformou aqueles segundos em algo muito mais interessante.

Porque não tenho uma história sobre:

"o dia em que tirei uma fotografia com John Malkovich."

Tenho uma história sobre:

"o dia em que encontrei John Malkovich e decidi não interromper John Malkovich."

É diferente.


🎭 Existe uma pessoa atrás dos créditos

Talvez essa tenha sido a pequena lição daquela tarde.

Nós transformamos artistas em personagens.

Eles vivem dentro das telas.

Nos créditos.

Nas entrevistas.

Nas fotografias.

Nos cartazes.

E esquecemos facilmente que, quando termina o filme, aquela pessoa continua existindo.

Come.

Anda.

Viaja.

Entra numa livraria.

Toma café.

Olha uma vitrine.

Passeia por uma rua.

Talvez queira passar alguns minutos sendo absolutamente ninguém.

E existe algo estranhamente bonito em reconhecer alguém justamente oferecendo-lhe o direito de continuar anônimo.

Eu poderia ter recebido um autógrafo de John Malkovich.

Em vez disso recebi durante dois segundos o sorriso de um homem que percebeu:

"Ele me reconheceu e vai me deixar continuar andando."

Foi pouco.

E foi muito.


🗄️ O arquivo que nunca foi apagado

Décadas depois aquela memória continua aqui.

Sem fotografia.

Sem papel.

Sem assinatura.

Sem cloud.

Sem backup externo.

Apenas naquele storage absurdamente pouco confiável chamado cérebro humano.

E, ironicamente, alguns arquivos desaparecem enquanto outros parecem possuir DISP=KEEP eterno.

Esse ficou.

Talvez porque nunca tenha sido concluído da maneira convencional.

Não houve clímax.

Não houve diálogo.

Não houve fotografia.

Ficou uma pequena operação pendurada no tempo.

John Malkovich descendo.

Eu subindo.

Dois olhares se encontrando.

Dois sorrisos.

E Lisboa continuando ao redor.


🧙 O velho barbudo finalmente documenta o incidente

Agora, tantos anos depois, finalmente existe um registro.

Não o autógrafo.

Não a fotografia.

Mas esta história.

Talvez daqui a muitas décadas algum arqueólogo digital encontre este texto perdido num canto da Internet e pense:

"Naturalmente não existe nenhuma prova disso."

Correto.

Não existe.

E está tudo bem.

Porque algumas das melhores coisas que aconteceram conosco ocorreram antes de termos uma câmera permanentemente apontada para nossa própria vida.

Elas simplesmente aconteceram.

Nós vimos.

Sentimos.

Guardamos.

E seguimos andando.


☕ Epílogo — RETURN CODE 0000

Às vezes penso novamente naquela tarde.

Imagino o que teria acontecido se tivesse parado.

Provavelmente Malkovich teria sido gentil.

Eu teria dito alguma bobagem de fã.

Ele assinaria alguma coisa.

Talvez conseguíssemos improvisar uma fotografia.

Eu agradeceria.

Ele continuaria descendo.

Eu continuaria subindo.

Seria uma ótima lembrança.

Mas não seria esta lembrança.

Prefiro a que ficou.

Porque durante alguns segundos não houve estrela de Hollywood e fã brasileiro.

Havia dois sujeitos numa rua de Lisboa.

Um reconheceu o outro.

O outro percebeu.

O primeiro decidiu não incomodar.

O segundo agradeceu sorrindo.

Nenhuma palavra foi necessária.

Então John Malkovich continuou descendo a Rua Garrett.

Eu continuei subindo para encontrar Carmen no Largo do Calhariz.

E Lisboa, absolutamente indiferente à importância cinematográfica do acontecimento, continuou fazendo aquilo que Lisboa faz maravilhosamente bem:

acontecendo.

O fã perdeu o autógrafo.

O fotógrafo perdeu a fotografia.

Mas o homem ganhou um sorriso.

Décadas depois, ainda acho que fiz um excelente negócio.

IEF142I VAGNER MALKO - STEP WAS EXECUTED

COND CODE 0000

Arquivo mantido.

DISP=KEEP.

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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