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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

Por que os Anime & Mangas são tão amados no Brasil?

 

Bellacosa Mainframe e o mundo do Animes na sociedade Brasileira

O que dizem os estudos

  1. “Tribo de Consumo de Animes: O Anime como um Totem”
    Esse estudo etnográfico analisa como os fãs de anime formam uma “tribo de consumo” no Brasil. Os autores mostram que o anime funciona quase como um símbolo central (um totem) para a identidade dos jovens: ele molda hábitos, estilo visual, preferências culturais, organização social e até valores. Ou seja, o anime não é só entretenimento, mas algo que ajuda as pessoas a se definirem socialmente. Revista Feevale+1

  2. Comportamento de consumo entre plataformas legais e ilegais
    Outro estudo (Universidade de Fortaleza) investigou como os consumidores lidam com streaming (legal) vs plataformas ilegais para assistir animes. O que aparece bastante: existe uma “complexidade” no comportamento. Muitas pessoas usam serviços legais, mas continuam consumindo conteúdo pirata. Um dos motivos é simplesmente acesso / custo / disponibilidade. Se algo não está disponível legalmente de forma acessível, a pirataria acaba ocupando esse espaço. Periódicos UFPE

  3. Eventos e a dimensão social (o “turismo otaku”)
    Há estudos que olham para os eventos de cultura pop/anime — por exemplo, o Anime Friends. Esses eventos não são só para consumo (comprar produtos, assistir painéis etc.), mas também para socialização, compartilhamento de identidade cultural, pertencimento a uma comunidade. Isso reforça os laços entre fãs, gera redes de convívio, amizades etc. Sou UCS+1

  4. Geração, memória afetiva e infância
    Muitos fãs cresceram vendo animes na TV aberta (nos anos 80/90/2000) — Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon, etc. Isso cria uma memória afetiva forte. Animes foram parte da infância de muitas pessoas, e isso facilita a identificação, nostalgia e o costume de consumir esse tipo de mídia. Há uma aceitação cultural grande porque várias gerações viram isso “como normal”. Estudos sobre streetwear, moda etc. também apontam que essa exposição antiga conta muito. Repositorio PUCSP+2Correio Braziliense+2

  5. Estética, narrativa e diversidade de temas
    Os animes/mangás trazem estilos de narrativa, estética visual e temas que podem ser distintos do que é comum em outras mídias ocidentais: sejam temas mais fantásticos, roteiros que mesclam drama, comédia, ação, romance, dilemas morais ou existenciais, etc. A variedade permite que diferentes públicos encontrem algo que fale mais diretamente com suas emoções, sua imaginação ou seus valores. Isso também aparece como um fator nos estudos de preferência. Por exemplo, em pesquisas de geração Z, os motivos mais citados para consumir anime são qualidade da animação, personagens/relacionamentos envolventes, criatividade da narrativa. Fatos do Mundo Geek

  6. Acesso tecnológico / digitalização
    Com a chegada de plataformas de streaming e internet de banda larga, ficou mais fácil assistir animes legendados, dublados ou com bom acesso. O acesso digital diminuiu barreiras de distribuição, legendas e importações, e isso permite que conteúdos que antes eram “difíceis” de achar agora estejam ao alcance. Isso amplia muito o público. Também o compartilhamento em redes sociais, fanarts, memes, tudo isso cria visibilidade e contagia mais pessoas. (Embora nem todos os conteúdos sejam oficiais, claro.) JBox+1



Possíveis razões mais gerais (teóricas)

Com base nesses estudos, algumas hipóteses que explicam por que muitos brasileiros gostam tanto de anime/mangá:

  • Pertencimento e identidade: fazer parte de algo (tribo otaku) gera sentido, relacionamentos sociais, reconhecimento mútuo entre fãs.

  • Escapismo e fantasia: animes oferecem mundos diferentes, que permitem escapar da realidade, explorar imaginação, temas mais universais, às vezes menos centrados ou limitados pelas convenções culturais ocidentais.

  • Nostalgia: para quem cresceu assistindo, há um vínculo emocional; para nov@s, a nostalgia é passada culturalmente (familiares, amigos que já gostavam).

  • Variedade de gênero: não é só ação ou comédia; há romance, drama psicológico, slice of life, horror, ficção científica, esportes. Essa diversidade atrai públicos muito distintos.

  • Ícone cultural vigente / influência global: animes/mangás são parte de um fenômeno global; o Japão se tornou uma marca de cultura pop com forte apelo em música, moda, games etc. Brasil “importa” isso culturalmente, e muitos jovens veem como algo “cool” ou de status cultural dentro de grupos.

  • Custo-benefício, acessibilidade: embora existam custos (assinaturas, produtos oficiais), há também muitas formas de acesso gratuito ou de baixo custo (TV aberta, internet, pirataria). Isso facilita a difusão em camadas mais amplas da população.

Os animes na TV Manchete


domingo, 1 de novembro de 2015

☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e as loucas historias do seu Luis


☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

Se existe uma coisa que as gerações atuais perderam sem perceber, foi a figura do contador de histórias do bairro.

Hoje temos streaming.

Temos YouTube.

Temos TikTok.

Temos inteligência artificial.

Mas nos anos 1980, no Jardim Garcez, em Taubaté, tínhamos algo muito mais poderoso:

Seu Luís.

Funcionário da prefeitura durante o dia.

Guardião da cultura popular durante a noite.

Morava na Rua 9, próximo de casa.

Um senhor simples.

Já de idade.

Mas dono de um dos maiores bancos de dados narrativos que já conheci.

Quando o sol desaparecia atrás da Serra da Mantiqueira e a noite tomava conta do bairro, começava um ritual quase sagrado.

A gurizada se reunia em frente ao portão de sua casa.

Sentávamos na calçada.

Alguns no meio-fio.

Outros encostados no muro.

Esperando.

E então o velho mestre iniciava mais uma sessão.

Sem televisão.

Sem projetor.

Sem computador.

Apenas voz, imaginação e talento.

Era melhor que qualquer streaming.

Seu Luís possuía centenas de histórias.

Talvez milhares.

Algumas certamente inventadas por ele.

Outras herdadas de seus pais.

Outras dos avós.

Outras dos bisavós.

Narrativas que atravessaram gerações até desembarcar naquela rua de terra do Parque Sabará.

Pedro Malasarte era presença constante.

E que figura extraordinária ele se tornava nas mãos do velho contador.

Ora enganava reis.

Ora enganava demônios.

Ora fugia de monstros.

Ora encontrava tesouros escondidos.

Mas não era só Pedro Malasarte.

Havia princesas aprisionadas em castelos.

Cavalos alados cruzando os céus.

Rainhas encantadas.

Monstros escondidos em matas escuras.

Bruxas vivendo em casebres de pau a pique no meio do sertão.

E fantasmas.

Muitos fantasmas.

A quantidade de assombrações que habitava aquelas histórias era suficiente para transformar qualquer ida ao banheiro durante a madrugada numa missão de alto risco.

Lembro de fragmentos.

Pequenos pedaços preservados no backup da memória.

O velho cão negro.

Que, segundo a lenda, não era um cachorro comum.

Era o próprio demo vagando pelas estradas.

Havia também a história do cavalo alado.

Uma jornada impossível.

Uma viagem onde o herói precisava alimentar a criatura com pedaços de carne durante o percurso.

Caso contrário, o animal o abandonaria entre monstros e assombrações.

Tinha a famosa sopa da pedra.

As serpentes falantes.

Os passarinhos encantados.

As bruxas.

As maldições.

As profecias.

E a magnífica Rainha Águia.

Uma criatura fantástica que protegia viajantes perdidos e os guiava para casa.

Tudo contado de forma tão vívida que era impossível não acreditar.

Pelo menos por algumas horas.

O problema surgia depois.

Na hora de dormir.

Qualquer estalo na janela.

Qualquer sombra no corredor.

Qualquer rangido da madeira.

Pronto.

Lá estava o pequeno Vagner de olhos arregalados imaginando que alguma das criaturas das histórias havia decidido fazer uma visita.

E isso era maravilhoso.

Porque as histórias cumpriam exatamente sua função.

Faziam sonhar.

Faziam imaginar.

Faziam sentir medo.

Faziam rir.

Faziam viver aventuras sem sair da calçada.

Enquanto isso, Seu Luís seguia sua performance.

Molhando o bico com uma aguardente artesanal.

Tomando um gole aqui.

Outro ali.

E aumentando gradativamente o nível de insanidade das narrativas.

Quanto mais avançava a noite, mais fantásticas ficavam as aventuras.

Era como assistir a um sistema entrando em modo turbo.

Os monstros cresciam.

Os castelos ficavam maiores.

As bruxas mais poderosas.

Os fantasmas mais assustadores.

E nós, os pequenos onis do Jardim Garcez, permanecíamos hipnotizados.

Hoje percebo que Seu Luís era muito mais do que um contador de histórias.

Ele era um arquivo vivo.

Um servidor humano de memórias.

Um preservador da tradição oral.

Um homem simples que carregava séculos de cultura popular dentro da cabeça.

Muitas dessas histórias morreram com ele.

Outras sobreviveram apenas em fragmentos.

Mas algumas ainda vivem.

Espalhadas pelas lembranças dos garotos que um dia sentaram naquela calçada.

Esperando ansiosamente pela próxima aventura.

E talvez seja justamente por isso que ainda me lembro dele.

Porque existem pessoas que passam pela nossa vida.

E existem pessoas que ajudam a construir nossa imaginação.

Seu Luís pertence à segunda categoria.

E suspeito que boa parte do escritor, sonhador, contador de causos e aventureiro que existe em mim tenha nascido ali.

Sentado numa calçada de Taubaté.

Ouvindo um velho contador de histórias transformar uma rua comum em um reino encantado.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e o lendario mendigo Tonico da Viola

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

Todo bairro tem sua lenda.

Todo bairro possui aquele personagem que parece existir fora das regras normais da realidade.

Uma figura tão marcante que, décadas depois, continua viva na memória coletiva.

No Jardim Garcez, em Taubaté, esse personagem atendia pelo nome de:

Tonico da Viola.

Ou pelo menos era assim que todos o chamavam.

Porque, na verdade, ninguém sabia muito sobre ele.

Ninguém sabia sua idade.

Ninguém sabia de onde tinha vindo.

Ninguém sabia para onde ia.

E talvez ninguém soubesse sequer seu verdadeiro nome.

Para nós, os garotos do bairro, ele parecia existir desde o início dos tempos.

Como uma criatura saída de uma lenda sertaneja.

Como um personagem esquecido entre as páginas de algum livro de Monteiro Lobato.

Tonico era um andarilho.

Daqueles que carregavam a própria vida nas costas.

Vivia cercado por sacolas, trouxas, sacos amarrados por barbantes e cordas.

Parecia que todo seu patrimônio cabia naquele emaranhado de objetos pendurados pelo corpo.

Nas costas carregava uma velha viola.

Ou melhor.

Os restos de uma viola.

O instrumento já estava tão gasto pelo tempo, pelo sol e pela chuva que parecia ter sobrevivido a uma guerra.

Um enorme chapéu de palha completava a figura.

Magro.

Barbudo.

Sujo.

Queimado de sol.

Com olhos fundos.

E aquele ar permanente de quem conversava com coisas invisíveis aos demais mortais.

Para uma criança, aquilo era fascinante.

E assustador.

Ao mesmo tempo.

As histórias sobre Tonico eram infinitas.

Cada morador tinha uma versão diferente.

Alguns juravam que havia sido fazendeiro.

Outros diziam que perdera a família inteira.

Uns afirmavam que tinha ficado louco por amor.

Outros garantiam que era um antigo músico famoso.

Havia até quem jurasse que ele possuía poderes sobrenaturais.

Nenhuma história batia com a outra.

Mas todas eram contadas com absoluta convicção.

O mais curioso era que, apesar da aparência assustadora, Tonico nunca fez mal a ninguém.

Nunca.

Era um homem pacífico.

Às vezes aparecia na porta da escola.

Outras vezes era visto dormindo debaixo de uma árvore.

Ou em algum pasto.

Ou próximo aos riachos.

Ou simplesmente caminhando sem rumo pelas ruas de terra.

Como uma alma livre.

Sem destino.

Sem relógio.

Sem endereço.

Sem patrão.

Sem compromisso com nada além da próxima curva da estrada.

Quando tinha fome, pedia um prato de comida.

E quase sempre alguém ajudava.

Quando não conseguia ajuda, improvisava.

Fazia uma pequena fogueira.

Pegava uma velha panela amassada.

Misturava o que encontrasse.

E preparava sua refeição.

Aquilo despertava a curiosidade da molecada.

Ficávamos observando de longe.

Tentando entender aquele universo paralelo.

Tentando decifrar aquele homem.

Às vezes ele estava feliz.

Muito feliz.

Pegava a viola.

Ou o que restava dela.

E começava a cantar.

Canções sem dono.

Modas antigas.

Trechos de histórias.

Versos improvisados.

Ninguém entendia tudo.

Mas todos paravam para ouvir.

Em outros dias aparecia embriagado.

E então começava outro espetáculo.

Palavrões.

Improvisos.

Discussões imaginárias.

Conversas com pessoas invisíveis.

A molecada ria até perder o fôlego.

Mas sempre mantendo uma distância respeitosa.

Porque havia algo nele que inspirava cautela.

Especialmente o olhar.

Ah, aquele olhar...

Os cães do bairro pareciam compreender algo que nós não entendíamos.

Quando Tonico surgia na rua, muitos cachorros fugiam imediatamente.

Os mais valentes avançavam.

Latiam.

Rosnavam.

Cercavam.

Mas bastava Tonico parar.

Virar lentamente a cabeça.

E encarar o animal.

Pronto.

O cão recuava.

Muitas vezes ganindo.

Como se tivesse visto algo que não deveria ver.

Aquilo alimentava ainda mais as lendas.

E nós, é claro, adorávamos cada detalhe.

Anos depois, indo para a Biblioteca Municipal de Taubaté, ainda o encontrava.

Caminhando pelo centro.

Sem destino.

Sem pressa.

Sem rumo aparente.

Enquanto todos corriam atrás de alguma coisa, Tonico parecia não perseguir nada.

Era uma figura quase impossível de enquadrar.

Mendigo?

Filósofo?

Louco?

Poeta?

Andarilho?

Músico?

Talvez um pouco de tudo.

Talvez nada disso.

Hoje penso que ele representava algo raro.

A liberdade absoluta.

Aquela liberdade que assusta.

Que não possui amarras.

Que não possui endereço.

Que não possui garantias.

Tonico da Viola era um homem sem posses.

Mas também sem correntes.

E talvez por isso tenha permanecido tão vivo na memória.

Porque enquanto todos nós pertencíamos ao bairro...

Parecia que o bairro inteiro pertencia a ele.

E quando o sol desaparecia atrás dos morros de Taubaté e uma figura magra de chapéu de palha surgia caminhando pela estrada de terra, a molecada já sabia:

A lenda estava passando novamente.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

📜 Memórias Sem Índice, Sem Catálogo, Sem Timeline — Volume “O Limbo 70–80”

 

Bellacosa Mainframe e o nostalgico caldo de cana no sitio a luz do luar e dos lampioes a querosene

📜 Memórias Sem Índice, Sem Catálogo, Sem Timeline — Volume “O Limbo 70–80”

Ao estilo Bellacosa Mainframe, com fragmentos soltos como cartões perfurados lançados ao vento.


Há um período nas minhas memórias que não respeita calendário, lógica, cronologia ou bom senso.
É o limbo 1970–1980 — um buffer de lembranças onde tudo se mistura:

  • São Paulo,

  • interior,

  • avós,

  • primos,

  • mudanças,

  • calor,

  • poeira,

  • brincadeiras,

  • e o eterno improviso da família Bellacosa.

Esse capítulo é sobre Ibitinga — a terra dos bordados, da brasilite fervendo e das tanajuras crocantes.


Bellacosa Mainframe um sitio sem luz longe de tudo

🌞 Ibitinga — O Caldeirão de Asfalto e Telha Brasilit

Meu pai, na eterna missão de “agora vai”, resolveu negociar os famosos bordados de Ibitinga.
E isso, claro, gerou mais uma migração.

Da casa lembro de três coisas:

  • um calor monstruoso, daqueles que fazem miragem na sala;

  • o barulho metálico da telha brasilite dilatando no sol;

  • e a liberdade absoluta: brincar na rua até tarde, correr, subir em coisas, cair de outras.

Foi lá também que provei um prato típico, obra da fauna local e da curiosidade infantil:
tanajuras assadas.

Crocantes. Amanteigadas.
Uma explosão de proteínas.
O primeiro snack gourmet de sobrevivência.


Bellacosa Mainframe e as miticas viagens do fuscquinha vermelho

🪔 A Noite do Lampião e o Fusca de Farol Aceso

Mas a grande lembrança, a história digna de um Bellacosa Midnight Files, foi a visita a um sítio nos confins do município.

Sem energia elétrica.
Lampião de querosene.
Galinheiros.
Cavalo arisco.
E o som eterno do mato — cri cri cri.

Meu pai fez amizade com os sitiantes, e fomos passar o dia lá.
À noite, moeram cana para fazer guarapa: o caldo de cana raiz, aquele que pinga direto do engenhoca de madeira.

Tudo ia bem… até meu pai cometer um clássico:

deixar o farol do Fusca aceso.

Sim.

Fusca 1960 e alguma coisa, bravíssimo, mas com uma bateria do tempo de D. Pedro I.
Depois de horas iluminando o nada do mato:

puff — bateria morta.
Carro não pega.
Nem com reza forte.


Bellacosa Mainframe na estrada na carroça em busca de uma bateria

🐎 A Jornada Noturna de Charrete

E aí começou o episódio épico.

— “Vamos pegar uma bateria emprestada no outro sítio.”

Montaram a charrete.
Lá fomos nós, com um cavalo que claramente não assinou contrato para aquele turno extra.

No caminho, tudo escuro.
Mato fechando.
Cheiro de bicho.
E nós, balançando na charrete como se fôssemos figurantes de filme de cangaço.

Resultado?

Ninguém tinha bateria.
Voltamos frustrados.
Dormimos no sítio.

Dormir improvisado no interior é assim:
um colchão antigo, cheiro de madeira, barulho de grilos e a lanterna tremulando no lampião.


Bellacosa Mainframe e a cobra na laranjeira e o olhar do matuto

🍊 O Exterminador do Pomar

No dia seguinte, eu perambulava pelo sítio quando o amigo do meu pai fez um gesto de silêncio:

— “Vem cá… sem barulho…”

Ele aponta para um pé de laranja.
Vai chegando devagar, devagarinho…

De repente, num movimento digno do Circo Garcia:

Pega uma cobra pelo rabo.
Rodopia.
PA-BUM!

O reptil não teve chance alguma.
Foi o shutdown definitivo.

Eu, criança, assisti tudo com:

  • 40% choque

  • 30% fascínio

  • 20% medo

  • 10% pensando: “ainda vou escrever isso no futuro.”


Bellacosa Mainframe e o incrivel banquete das berinjelas

🍆 As Berinjelas…

Mas essas ficam para o próximo bloco de memória, porque história boa tem que vir em clusters, não em full load.

sábado, 1 de julho de 2006

☕🚌 A Primeira Vagneida : Quando um ônibus para Valinhos abriu um caminho para o mundo

 

Bellacosa Mainframe e a primeira vagneida

☕🚌 A Primeira Vagneida

Quando um ônibus para Valinhos abriu um caminho para o mundo

Existem viagens que medimos em quilômetros.

E existem viagens que medimos pelo tamanho da transformação que provocam dentro da gente.

Minha primeira Vagneida pertence à segunda categoria.

Voltemos aos anos de 1985 e 1986.

A separação dos meus pais caminhava lentamente para um desfecho inevitável, culminando oficialmente em fevereiro de 1986. Para uma criança, compreender tudo aquilo era impossível. O que eu percebia era apenas o silêncio.

Silêncio dos parentes.

Silêncio das visitas.

Silêncio dos telefonemas.

A família paterna, por razões que cada um carregava consigo, praticamente desapareceu do nosso convívio. De uma hora para outra parecíamos estar sozinhos, tentando reorganizar uma vida que havia sido desmontada peça por peça.

Mas a vida tem dessas surpresas.

Quando menos esperamos, alguém abre uma porta.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Minha tia-avó Guiomar, irmã da minha avó Alzira, ficou sabendo da situação através de cartas. Naquela época as notícias viajavam lentamente, escritas à mão, atravessando cidades dentro de envelopes. Não havia WhatsApp. Não havia redes sociais. Havia papel, tinta e carinho.

E, sem avisar ninguém, ela apareceu.

Foi uma visita inesperada.

Mas talvez tenha sido uma das visitas mais importantes da nossa história.

Ela trouxe conversa.

Trouxe abraço.

Trouxe esperança.

Trouxe aquela sensação de que ainda existiam pessoas olhando por nós.

Vi minha mãe respirar um pouco mais aliviada.

Era como se alguém tivesse aberto a janela depois de um longo inverno.

Mal sabia eu que aquela visita mudaria também a minha vida.

Durante as férias escolares surgiu um convite inesperado.

Meus irmãos passariam alguns dias na casa do meu pai.

Eu, por outro lado, fui convidado para conhecer Valinhos.

Hoje parece algo simples.

Mas para um garoto daquela época era uma missão digna de Indiana Jones.

O detalhe era que eu viajaria...

Sozinho.

Minha mãe precisou ir ao Juizado de Menores.

Naqueles tempos era necessária uma autorização especial para que um menor embarcasse desacompanhado em uma viagem interestadual ou mesmo entre determinadas cidades, que era meu caso.

Lembro do juiz.

Das perguntas.

Da ansiedade.

E finalmente daquele documento.

Na minha imaginação infantil aquilo não era apenas uma autorização.

Bellacosa Mainframe e o primeiro green card

Era meu Green Card da aventura.

Meu passaporte.

Minha licença oficial para explorar o desconhecido.

Chegou o grande dia.

Entrei sozinho no ônibus.

Sentei próximo à janela.

Observei Taubaté ficando para trás.

Bellacosa Mainframe lembranças da Rodovia Dom Pedro

Entre quase 300 quilometros e longas horas cheguei na Rodovia Dom Pedro ainda nem existia como conhecemos hoje. As estradas pareciam enormes, intermináveis. E o ônibus sem o conforto moderno dos ares condicionados, ia com janelas abertas e o mormaço da estrada entrando. Parando em inumeras cidades, um pinga pinga doidão.

Cada cidade que passava aumentava minha sensação de independência.

Pela primeira vez eu estava completamente responsável por mim mesmo.

Sem meus pais.

Sem irmãos.

Sem ninguém conhecido ao lado.

Era apenas eu...

...e o mundo.

Ao chegar na Rodoviária de Campinas, lá estavam minha prima Noemi e meu tio-avô Francisco, esperando por mim.

Que sensação maravilhosa foi vê-los.

Missão cumprida.

A primeira grande expedição da minha vida terminava com sucesso.

Passei alguns dias inesquecíveis em Valinhos.

Histórias que ainda merecem capítulos próprios.

Porque ali vivi novas aventuras.

Conheci novos lugares.

Novos sabores.

Novas pessoas.

Mas isso fica para outra crônica.

Hoje quero apenas celebrar aquele momento em que tudo começou.

Olhando para trás, percebo que aquela pequena viagem foi muito maior do que parecia.

Talvez ali tenha nascido o viajante que anos depois pisaria em Portugal.

Que atravessaria a Espanha.

Que dormiria em trens pela Europa.

Que caminharia até Santiago de Compostela.

Que visitaria museus ferroviários.

Que pisaria em aeroportos, estações e rodoviárias sem medo.

Tudo começou naquele ônibus.

Naquele banco próximo à janela.

Naquele garoto carregando uma pequena mala e um coração gigantesco.

Hoje brinco dizendo que foi a primeira Vagneida oficialmente documentada.

A primeira aventura em que o destino confiou em mim.

E talvez tenha sido exatamente naquele dia que descobri uma verdade que continua me acompanhando:

Toda grande jornada começa com um passo.

Às vezes...

Esse passo é simplesmente subir em um ônibus.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988