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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


sábado, 9 de julho de 2022

John Malkovich, Rua Garrett e o Autógrafo que Eu Não Pedi

 

Bellacosa Mainframe e o dia que vi John Malkovich

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

John Malkovich, Rua Garrett e o Autógrafo que Eu Não Pedi

Ou: como encontrei um dos meus atores favoritos descendo o Chiado, tive alguns segundos para fazer exatamente aquilo que qualquer fã faria — e resolvi simplesmente sorrir

Há histórias que sobrevivem porque alguém tirou uma fotografia.

Outras porque existe uma carta.

Um ingresso amarelado.

Uma assinatura num guardanapo.

Uma fotografia tremida com metade de um dedo na frente da lente.

Um recibo esquecido dentro de um livro.

Algumas sobrevivem porque alguém teve a extraordinária previdência de escrever uma data atrás da foto:

Lisboa, 2003.

E existem aquelas que não possuem absolutamente nada.

Nenhuma fotografia.

Nenhum autógrafo.

Nenhuma testemunha.

Nenhum vídeo.

Nenhum registro.

Nenhum metadata.

Nenhum backup.

Nada.

Apenas alguns segundos gravados dentro da cabeça de alguém.

Esta é uma dessas histórias.

E talvez justamente por isso eu ainda me lembre dela.

Pegue um café.

Porque certa tarde eu estava subindo a Rua Garrett, em Lisboa, quando encontrei John Malkovich.

E decidi não conhecê-lo.


🇵🇹 Primeiro precisamos subir o Chiado

Quem conhece Lisboa sabe que certas ruas não servem apenas para levar alguém de um ponto A até um ponto B.

Elas atrapalham deliberadamente o percurso.

A Rua Garrett é uma delas.

Você pode ter compromisso.

Pode estar atrasado.

Pode ter alguém esperando.

Pode inclusive jurar que desta vez vai simplesmente atravessar o Chiado sem olhar para os lados.

Boa sorte.

Lisboa tem outros planos.

Há turistas.

Lisboetas.

Cafés.

Livrarias.

Sebos.

Montras.

Prédios que obrigam você a levantar a cabeça.

Gente entrando e saindo dos Armazéns do Chiado.

E, naturalmente, Fernando Pessoa tranquilamente instalado diante d'A Brasileira, observando há décadas aquela humanidade passar como se soubesse de alguma coisa que nós ainda não descobrimos.

Eu conhecia aquele caminho.

Naquele dia estava subindo a Rua Garrett para encontrar Carmen, que trabalhava no Largo do Calhariz.

Era uma caminhada cotidiana.

Nada de particularmente extraordinário deveria acontecer.

Eu caminhava do meu jeito habitual: suficientemente depressa para parecer que tinha destino, mas suficientemente devagar para continuar olhando tudo.

Tenho esse defeito.

Ou qualidade.

Nunca consegui decidir.

Olho prédios.

Olho placas.

Olho vitrines.

Olho carros.

Olho detalhes arquitetônicos.

E olho pessoas.

Principalmente pessoas.

Uma cidade sem pessoas é apenas infraestrutura.

E foi olhando as pessoas que meu sistema encontrou uma anomalia.



⚠️ CELEBRITY DETECTED

Ele vinha no sentido contrário.

Talvez meia dúzia de passos.

Não houve apresentação.

Não houve segurança abrindo caminho.

Não houve flashes.

Não houve tapete vermelho.

Não houve ninguém gritando:

— Senhoras e senhores, diretamente de Hollywood...

Nada.

Era simplesmente um homem descendo uma rua de Lisboa.

E então nossos olhares se cruzaram.

Meu cérebro precisou de uma fração ridiculamente pequena de segundo.

É ELE.

John Malkovich.

Não alguém parecido com John Malkovich.

Não um português careca que depois de três copos de vinho lembraria vagamente John Malkovich.

John Malkovich.

O ator.

Aquele ator cujo nome, para mim, sempre funcionou praticamente como certificado de interesse.

Se aparecesse nos créditos:

John Malkovich

eu assistiria.

Filme bom?

Assistiria.

Filme ruim?

Assistiria também.

Filme esquisito?

Melhor ainda.

Porque existem atores que interpretam personagens e existem atores cuja simples presença faz você prestar atenção.

Malkovich sempre pertenceu à segunda categoria.

E agora o sujeito estava ali.

Na minha frente.

Descendo a Rua Garrett.


🖥️ O mainframe entrou imediatamente em estado de exceção

Internamente, a operação foi mais ou menos assim:

IDENTIFY MALKO

Resultado:

RC=0000

Confiança:

99.999999%

Imediatamente várias subtarefas foram disparadas.

PEDIR_AUTOGRAFO

FALAR_QUE_SOU_FÃ

PERGUNTAR_SOBRE_FILMES

ARRANJAR_FOTO

NÃO_DEIXAR_ELE_ESCAPAR

Todas requisitando prioridade máxima.

O fã dentro de mim estava completamente alucinado.

Eu queria correr.

Queria falar.

Queria dizer que admirava seu trabalho.

Queria pedir um autógrafo.

Talvez dois.

Talvez dezessete.

E havia ainda a fotografia.

Hoje qualquer pessoa colocaria a mão no bolso, puxaria o telefone e:

— Mister Malkovich, selfie?

Mas precisamos lembrar que estamos falando de outra época.

O telefone celular ainda não havia transformado cada ser humano num correspondente fotográfico permanente de sua própria existência.

Para conseguir uma fotografia seria necessário possuir uma câmera naquele momento, encontrar alguém para fotografar ou improvisar alguma solução.

E eu sempre fui louco por fotografias.

Portanto, alguma coisa eu inventaria.

O problema não era técnico.

O problema apareceu quando faltavam talvez três ou quatro passos.


👀 Ele percebeu

Esse é o pedaço da história que nenhuma fotografia poderia registrar.

John Malkovich percebeu que eu o reconhecera.

Tenho certeza disso.

Porque existe uma expressão específica no rosto de alguém quando ocorre esse reconhecimento.

Meu olhar provavelmente entregou tudo.

Por alguns milissegundos deixei de ser um transeunte qualquer da Rua Garrett.

Virei:

FÃ DETECTADO.

E acredito que ele conhecesse muito bem aquele protocolo.

Afinal, devia acontecer constantemente.

O olhar.

A hesitação.

O sorriso.

A pessoa decidindo se aproxima.

Ele me viu processando aquilo.

E aconteceu algo curioso.

Não senti nele aquela reação de quem pensa:

"Lá vem mais um."

Pelo contrário.

Houve uma pequena abertura.

Uma simpatia.

Aquela disponibilidade educada de quem provavelmente teria parado caso eu falasse alguma coisa.

Eu poderia abordar.

Ele permitiria.

Talvez conversássemos durante alguns minutos.

Eu teria meu autógrafo.

Talvez minha fotografia.

Talvez hoje tivesse uma bela prova material desta história.

Foi exatamente aí que alguma outra coisa assumiu o controle.


🧠 O WLM humano mudou a prioridade

Olhei para ele.

Olhei para a rua.

E percebi uma coisa muito simples.

O homem estava passeando.

Só isso.

Não era John Malkovich numa estreia.

Não era John Malkovich num festival.

Não era John Malkovich numa sessão de autógrafos.

Não era John Malkovich diante de jornalistas.

Era um sujeito caminhando por Lisboa.

Exatamente como eu.

Eu estava apreciando a cidade.

Ele aparentemente também.

E naquele instante aconteceu uma pequena disputa interna entre o fã e o ser humano.

O fã dizia:

VAI!

O outro respondia:

Deixa o homem em paz.

O fã:

MAS É JOHN MALKOVICH!

O outro:

Eu sei.

É justamente por isso.


🙂 Então eu simplesmente sorri

Não disse nada.

Não pedi nada.

Não bloqueei seu caminho.

Não puxei papel.

Não procurei caneta.

Não tentei encontrar uma câmera.

Apenas olhei para ele e dei provavelmente o sorriso mais sincero que poderia dar.

Depois fiz um pequeno aceno com a cabeça.

E aquele gesto dizia tudo.

Não sei se existe um protocolo internacional para encontros ocasionais entre fãs e atores de Hollywood nas ruas de Lisboa.

Mas, se existe, naquele momento utilizamos a versão mais econômica possível.

Meu gesto dizia:

"Eu sei quem você é."

"Sou seu fã."

"Admiro seu trabalho."

"Fiquei absurdamente feliz de encontrar você aqui."

"Mas não vou atrapalhar seu passeio."

E então aconteceu a melhor parte.

Ele entendeu.

John Malkovich sorriu.

Não o sorriso profissional da fotografia.

Não aquele sorriso automático que pessoas famosas provavelmente aprendem depois da milionésima abordagem.

Foi um pequeno sorriso de cumplicidade.

Quase agradecido.

E respondeu com o olhar.

Durante talvez dois segundos aconteceu uma conversa inteira sem uma única palavra.

— É você.

— Sou eu.

— Sou muito seu fã.

— Percebi.

— Não vou te incomodar.

— Obrigado.

— Aproveite Lisboa.

— Você também.

E continuamos andando.


🚶 Dois turistas

Ele desceu.

Eu subi.

E foi isso.

Nenhuma multidão percebeu.

Nenhum jornalista registrou.

Fernando Pessoa permaneceu sentado.

Os cafés continuaram servindo bicas.

As pessoas continuaram entrando nas livrarias.

Os elétricos continuaram fazendo aquele barulho de Lisboa.

Provavelmente alguém reclamava de alguma coisa num balcão próximo, porque afinal estávamos em Portugal e certas instituições nacionais precisam ser preservadas.

E dois homens que jamais haviam se encontrado continuaram andando em direções opostas.

Um deles era John Malkovich.

O outro estava indo encontrar Carmen no Largo do Calhariz.

Durante alguns segundos, porém, éramos simplesmente duas pessoas passeando pela mesma cidade.


📸 A fotografia que não existe

Naturalmente, depois veio o arrependimento.

Porque o fã continua sendo fã.

PORRA, VAGNER!

ERA JOHN MALKOVICH!

Você poderia ter pedido um autógrafo!

Poderia ter conseguido uma fotografia!

Poderia ter falado com ele!

Poderia hoje mostrar para todo mundo:

— Olha aqui eu com John Malkovich em Lisboa.

Não tenho.

Não existe.

Não tenho sequer um guardanapo dizendo:

To Vagner, best wishes, John Malkovich.

Nada.

Do ponto de vista documental, esta história possui uma infraestrutura lamentável.

Auditoria reprovaria imediatamente.

Evidência material:

ZERO.

Testemunhas conhecidas:

ZERO.

Fotografia:

FILE NOT FOUND

Autógrafo:

DATASET NOT CATALOGED

Vídeo:

NO RECORDS FOUND

Logs:

expirados há décadas.

Se isso fosse um incidente de produção, ninguém aceitaria meu RCA.


☕ Mas talvez eu tenha trazido algo melhor

Com o passar dos anos comecei a perceber que talvez eu não tenha perdido coisa alguma.

Um autógrafo seria um objeto.

Uma fotografia seria uma fotografia.

Talvez estivesse numa caixa.

Talvez num álbum.

Talvez digitalizada.

Talvez eu já nem soubesse onde estava.

Mas aquele momento continua perfeitamente armazenado.

A rua.

O movimento.

A direção em que eu caminhava.

A surpresa.

A distância diminuindo.

O reconhecimento.

O olhar.

A decisão.

Meu sorriso.

O sorriso dele.

E cada um seguindo seu caminho.

Curiosamente, não pedir o autógrafo transformou aqueles segundos em algo muito mais interessante.

Porque não tenho uma história sobre:

"o dia em que tirei uma fotografia com John Malkovich."

Tenho uma história sobre:

"o dia em que encontrei John Malkovich e decidi não interromper John Malkovich."

É diferente.


🎭 Existe uma pessoa atrás dos créditos

Talvez essa tenha sido a pequena lição daquela tarde.

Nós transformamos artistas em personagens.

Eles vivem dentro das telas.

Nos créditos.

Nas entrevistas.

Nas fotografias.

Nos cartazes.

E esquecemos facilmente que, quando termina o filme, aquela pessoa continua existindo.

Come.

Anda.

Viaja.

Entra numa livraria.

Toma café.

Olha uma vitrine.

Passeia por uma rua.

Talvez queira passar alguns minutos sendo absolutamente ninguém.

E existe algo estranhamente bonito em reconhecer alguém justamente oferecendo-lhe o direito de continuar anônimo.

Eu poderia ter recebido um autógrafo de John Malkovich.

Em vez disso recebi durante dois segundos o sorriso de um homem que percebeu:

"Ele me reconheceu e vai me deixar continuar andando."

Foi pouco.

E foi muito.


🗄️ O arquivo que nunca foi apagado

Décadas depois aquela memória continua aqui.

Sem fotografia.

Sem papel.

Sem assinatura.

Sem cloud.

Sem backup externo.

Apenas naquele storage absurdamente pouco confiável chamado cérebro humano.

E, ironicamente, alguns arquivos desaparecem enquanto outros parecem possuir DISP=KEEP eterno.

Esse ficou.

Talvez porque nunca tenha sido concluído da maneira convencional.

Não houve clímax.

Não houve diálogo.

Não houve fotografia.

Ficou uma pequena operação pendurada no tempo.

John Malkovich descendo.

Eu subindo.

Dois olhares se encontrando.

Dois sorrisos.

E Lisboa continuando ao redor.


🧙 O velho barbudo finalmente documenta o incidente

Agora, tantos anos depois, finalmente existe um registro.

Não o autógrafo.

Não a fotografia.

Mas esta história.

Talvez daqui a muitas décadas algum arqueólogo digital encontre este texto perdido num canto da Internet e pense:

"Naturalmente não existe nenhuma prova disso."

Correto.

Não existe.

E está tudo bem.

Porque algumas das melhores coisas que aconteceram conosco ocorreram antes de termos uma câmera permanentemente apontada para nossa própria vida.

Elas simplesmente aconteceram.

Nós vimos.

Sentimos.

Guardamos.

E seguimos andando.


☕ Epílogo — RETURN CODE 0000

Às vezes penso novamente naquela tarde.

Imagino o que teria acontecido se tivesse parado.

Provavelmente Malkovich teria sido gentil.

Eu teria dito alguma bobagem de fã.

Ele assinaria alguma coisa.

Talvez conseguíssemos improvisar uma fotografia.

Eu agradeceria.

Ele continuaria descendo.

Eu continuaria subindo.

Seria uma ótima lembrança.

Mas não seria esta lembrança.

Prefiro a que ficou.

Porque durante alguns segundos não houve estrela de Hollywood e fã brasileiro.

Havia dois sujeitos numa rua de Lisboa.

Um reconheceu o outro.

O outro percebeu.

O primeiro decidiu não incomodar.

O segundo agradeceu sorrindo.

Nenhuma palavra foi necessária.

Então John Malkovich continuou descendo a Rua Garrett.

Eu continuei subindo para encontrar Carmen no Largo do Calhariz.

E Lisboa, absolutamente indiferente à importância cinematográfica do acontecimento, continuou fazendo aquilo que Lisboa faz maravilhosamente bem:

acontecendo.

O fã perdeu o autógrafo.

O fotógrafo perdeu a fotografia.

Mas o homem ganhou um sorriso.

Décadas depois, ainda acho que fiz um excelente negócio.

IEF142I VAGNER MALKO - STEP WAS EXECUTED

COND CODE 0000

Arquivo mantido.

DISP=KEEP.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Por que os Anime & Mangas são tão amados no Brasil?

 

Bellacosa Mainframe e o mundo do Animes na sociedade Brasileira

O que dizem os estudos

  1. “Tribo de Consumo de Animes: O Anime como um Totem”
    Esse estudo etnográfico analisa como os fãs de anime formam uma “tribo de consumo” no Brasil. Os autores mostram que o anime funciona quase como um símbolo central (um totem) para a identidade dos jovens: ele molda hábitos, estilo visual, preferências culturais, organização social e até valores. Ou seja, o anime não é só entretenimento, mas algo que ajuda as pessoas a se definirem socialmente. Revista Feevale+1

  2. Comportamento de consumo entre plataformas legais e ilegais
    Outro estudo (Universidade de Fortaleza) investigou como os consumidores lidam com streaming (legal) vs plataformas ilegais para assistir animes. O que aparece bastante: existe uma “complexidade” no comportamento. Muitas pessoas usam serviços legais, mas continuam consumindo conteúdo pirata. Um dos motivos é simplesmente acesso / custo / disponibilidade. Se algo não está disponível legalmente de forma acessível, a pirataria acaba ocupando esse espaço. Periódicos UFPE

  3. Eventos e a dimensão social (o “turismo otaku”)
    Há estudos que olham para os eventos de cultura pop/anime — por exemplo, o Anime Friends. Esses eventos não são só para consumo (comprar produtos, assistir painéis etc.), mas também para socialização, compartilhamento de identidade cultural, pertencimento a uma comunidade. Isso reforça os laços entre fãs, gera redes de convívio, amizades etc. Sou UCS+1

  4. Geração, memória afetiva e infância
    Muitos fãs cresceram vendo animes na TV aberta (nos anos 80/90/2000) — Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon, etc. Isso cria uma memória afetiva forte. Animes foram parte da infância de muitas pessoas, e isso facilita a identificação, nostalgia e o costume de consumir esse tipo de mídia. Há uma aceitação cultural grande porque várias gerações viram isso “como normal”. Estudos sobre streetwear, moda etc. também apontam que essa exposição antiga conta muito. Repositorio PUCSP+2Correio Braziliense+2

  5. Estética, narrativa e diversidade de temas
    Os animes/mangás trazem estilos de narrativa, estética visual e temas que podem ser distintos do que é comum em outras mídias ocidentais: sejam temas mais fantásticos, roteiros que mesclam drama, comédia, ação, romance, dilemas morais ou existenciais, etc. A variedade permite que diferentes públicos encontrem algo que fale mais diretamente com suas emoções, sua imaginação ou seus valores. Isso também aparece como um fator nos estudos de preferência. Por exemplo, em pesquisas de geração Z, os motivos mais citados para consumir anime são qualidade da animação, personagens/relacionamentos envolventes, criatividade da narrativa. Fatos do Mundo Geek

  6. Acesso tecnológico / digitalização
    Com a chegada de plataformas de streaming e internet de banda larga, ficou mais fácil assistir animes legendados, dublados ou com bom acesso. O acesso digital diminuiu barreiras de distribuição, legendas e importações, e isso permite que conteúdos que antes eram “difíceis” de achar agora estejam ao alcance. Isso amplia muito o público. Também o compartilhamento em redes sociais, fanarts, memes, tudo isso cria visibilidade e contagia mais pessoas. (Embora nem todos os conteúdos sejam oficiais, claro.) JBox+1



Possíveis razões mais gerais (teóricas)

Com base nesses estudos, algumas hipóteses que explicam por que muitos brasileiros gostam tanto de anime/mangá:

  • Pertencimento e identidade: fazer parte de algo (tribo otaku) gera sentido, relacionamentos sociais, reconhecimento mútuo entre fãs.

  • Escapismo e fantasia: animes oferecem mundos diferentes, que permitem escapar da realidade, explorar imaginação, temas mais universais, às vezes menos centrados ou limitados pelas convenções culturais ocidentais.

  • Nostalgia: para quem cresceu assistindo, há um vínculo emocional; para nov@s, a nostalgia é passada culturalmente (familiares, amigos que já gostavam).

  • Variedade de gênero: não é só ação ou comédia; há romance, drama psicológico, slice of life, horror, ficção científica, esportes. Essa diversidade atrai públicos muito distintos.

  • Ícone cultural vigente / influência global: animes/mangás são parte de um fenômeno global; o Japão se tornou uma marca de cultura pop com forte apelo em música, moda, games etc. Brasil “importa” isso culturalmente, e muitos jovens veem como algo “cool” ou de status cultural dentro de grupos.

  • Custo-benefício, acessibilidade: embora existam custos (assinaturas, produtos oficiais), há também muitas formas de acesso gratuito ou de baixo custo (TV aberta, internet, pirataria). Isso facilita a difusão em camadas mais amplas da população.

Os animes na TV Manchete


domingo, 13 de março de 2016

A sucuri no parque Taquaral

Bellacosa Mainframe e uma tarde no Parque e achamos uma sucuri

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A sucuri no parque Taquaral

O pequeno Formiga se divertia.

Mas boa parte daquela diversão não estava propriamente nos brinquedos do parque. Estava nas histórias malucas que eu inventava na hora.

Bastava encontrar alguma coisa diferente pelo caminho.

Uma estátua.

Um animal.

Um trilho.

Uma construção estranha.

Uma velha caravela parada junto à lagoa.

Ou uma enorme sucuri que, evidentemente, não precisava ser apenas uma escultura.

Na nossa imaginação, qualquer coisa podia ganhar uma história.

E assim explorávamos o Parque Portugal — muito mais conhecido pelos campineiros simplesmente como Parque Taquaral.

Não havia roteiro.

Não havia horário.

Muito menos obrigação de chegar a algum lugar.

Nós simplesmente vasculhávamos.

Procurávamos.

Explorávamos.

Aquelas coisas aparentemente comuns, que depois de centenas de visitas acabam desaparecendo na paisagem para os adultos, ainda eram extraordinárias para uma criança. E eu aproveitava justamente isso.

Se alguma coisa merecesse atenção, nós parávamos.

Olhávamos.

Inventávamos alguma história.

Tirávamos uma fotografia.

Brincávamos um pouco.

E depois continuávamos andando.

🐍 Cuidado com a sucuri!

Foi assim com a famosa sucuri do parque.

Para um adulto, uma escultura.

Para uma criança acompanhada por um adulto disposto a falar algumas bobagens, aquilo poderia ser praticamente qualquer coisa.

Talvez uma gigantesca serpente amazônica que tivesse atravessado secretamente metade do Brasil.

Talvez estivesse dormindo.

Talvez estivesse esperando alguém chegar perto.

Talvez nós fôssemos exploradores enviados numa missão ultrassecreta para descobrir como aquela criatura havia aparecido em Campinas.

Não precisava fazer sentido.

Aliás, era muito melhor quando não fazia sentido algum.

Durante aqueles minutos, não existia necessidade de ser real.

Era fantasia criada exclusivamente para aquele momento, naquele lugar, naquela hora.

E depois seguíamos adiante.



🌳 Um parque que é muitos parques

Talvez o Taquaral seja especialmente adequado para esse tipo de aventura porque ele nunca foi apenas uma lagoa cercada por uma pista de caminhada.

Há os pedalinhos navegando pela água.

Há o velho bonde e seus trilhos.

Há a Concha Acústica.

Há a pista de skate.

Há brinquedos.

Há esculturas.

Há animais.

Há a caravela.

Há ainda aquelas coisas curiosas e quase surreais, sobreviventes de outros tempos, que uma pessoa apressada pode atravessar sem sequer perceber.

Mas, quando estamos procurando aventuras, tudo isso serve de gancho para uma história.

E o parque continua para além de seus próprios limites.

Do lado de fora, quando a rua é fechada aos automóveis, o asfalto muda de função. Onde normalmente passariam carros, aparecem pessoas caminhando, correndo, pedalando, conversando e simplesmente aproveitando o espaço.

O Taquaral se transforma em um enorme organismo vivo.

E talvez essa seja uma de suas características mais bonitas.



Ele acolhe muitas tribos ao mesmo tempo.

Há quem esteja ali para correr.

Quem queira caminhar.

Quem leve a bicicleta.

Quem prefira o skate.

Quem queira andar de pedalinho.

Quem vá pela música.

Quem esteja passeando com a família.

Quem queira fotografar.

Quem simplesmente queira sentar debaixo de uma árvore e não fazer absolutamente nada.

E havia nós.

Nossa atividade era outra:

procurar coisas que pudessem virar histórias.

🔎 O extraordinário escondido no comum

Talvez tenha sido essa a verdadeira brincadeira.

Não era simplesmente levar o Formiga para passear no parque.

Era ensinar, mesmo sem perceber que estava ensinando, que vale a pena prestar atenção.

Uma estátua que milhares de pessoas atravessam sem olhar pode esconder uma aventura.

Um velho trilho pode provocar perguntas.

Para onde ia esse bonde?

Quem andou nele?

Por que ainda existem trilhos aqui?

Uma caravela estacionada no interior de São Paulo é praticamente um convite para uma criança perguntar:

— O que esse negócio está fazendo aqui?

E pronto.

Acabamos de encontrar material para outra história.

Não era necessário preparar nada antecipadamente. A própria paisagem fornecia os elementos e nossa imaginação fazia o restante.

Essa talvez seja uma das lembranças mais gostosas daqueles passeios.

Não tínhamos pressa.

Não precisávamos cumprir uma lista de atrações.

Não existia a obrigação moderna de transformar o passeio numa sucessão de lugares que precisam ser visitados rapidamente antes de seguir para o próximo.

Se alguma coisa despertasse nossa curiosidade, ficávamos ali.

Cinco minutos.

Dez minutos.

O tempo que fosse.

Porque naquele momento aquilo era importante.



📸 E então vinha a fotografia

Cada pequena descoberta que merecia atenção ganhava também uma fotografia.

Naquele instante era apenas mais uma foto.

Anos depois, ela se transforma em outra coisa.

A fotografia da sucuri já não registra apenas uma escultura do Parque Taquaral.

Ela guarda o pequeno Formiga.

Guarda aquela idade.

Guarda uma tarde.

Guarda uma brincadeira.

E, principalmente, guarda uma maneira de enxergar o mundo.

Talvez seja por isso que, tantos anos depois, algumas dessas imagens aparentemente banais adquiram um valor que jamais poderíamos calcular no momento em que apertamos o botão da câmera.

A sucuri continua lá na fotografia.

Mas o menino cresceu.

O dia terminou.

A história inventada naquela hora provavelmente foi esquecida.

E justamente por isso a fotografia ficou tão importante.

Ela é uma pequena âncora lançada naquele instante.

Olho para ela e consigo novamente encontrar aquele parque onde uma escultura não precisava ser simplesmente uma escultura.

Podia ser uma criatura monstruosa.

O bonde podia levar para algum lugar impossível.

A caravela podia estar preparando uma expedição.

E cada curva do caminho podia esconder alguma coisa que ainda não havíamos descoberto.

Talvez essa seja uma das melhores coisas que podemos oferecer a uma criança:

não apenas mostrar o mundo, mas ensinar que o mundo merece ser observado.

Porque uma tarde no parque pode ser apenas uma tarde no parque.

Ou pode ser uma expedição extraordinária.

Depende de quem está olhando.

E naquele dia, no Taquaral, nós estávamos procurando aventuras.

Até uma sucuri apareceu pelo caminho.

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O formiguinha enfrenta a sucuri


O parque Portugal vulgarmente conhecido como parque do Taquaral é um lugar cheio de surpresas...

Existem estátuas de ursos pandas, elefantes e ate uma sucuri.... além da famosa caravela na lagoa do Taquaral, o bonde, a concha acústica.

Para as crianças sempre é motivo de uma boa brincadeira se divertir fazendo a farra nas estátuas.


Todos querem fotografar, brincar, participar e curtir bem o dia neste parque fabuloso.


domingo, 1 de novembro de 2015

☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e as loucas historias do seu Luis


☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

Se existe uma coisa que as gerações atuais perderam sem perceber, foi a figura do contador de histórias do bairro.

Hoje temos streaming.

Temos YouTube.

Temos TikTok.

Temos inteligência artificial.

Mas nos anos 1980, no Jardim Garcez, em Taubaté, tínhamos algo muito mais poderoso:

Seu Luís.

Funcionário da prefeitura durante o dia.

Guardião da cultura popular durante a noite.

Morava na Rua 9, próximo de casa.

Um senhor simples.

Já de idade.

Mas dono de um dos maiores bancos de dados narrativos que já conheci.

Quando o sol desaparecia atrás da Serra da Mantiqueira e a noite tomava conta do bairro, começava um ritual quase sagrado.

A gurizada se reunia em frente ao portão de sua casa.

Sentávamos na calçada.

Alguns no meio-fio.

Outros encostados no muro.

Esperando.

E então o velho mestre iniciava mais uma sessão.

Sem televisão.

Sem projetor.

Sem computador.

Apenas voz, imaginação e talento.

Era melhor que qualquer streaming.

Seu Luís possuía centenas de histórias.

Talvez milhares.

Algumas certamente inventadas por ele.

Outras herdadas de seus pais.

Outras dos avós.

Outras dos bisavós.

Narrativas que atravessaram gerações até desembarcar naquela rua de terra do Parque Sabará.

Pedro Malasarte era presença constante.

E que figura extraordinária ele se tornava nas mãos do velho contador.

Ora enganava reis.

Ora enganava demônios.

Ora fugia de monstros.

Ora encontrava tesouros escondidos.

Mas não era só Pedro Malasarte.

Havia princesas aprisionadas em castelos.

Cavalos alados cruzando os céus.

Rainhas encantadas.

Monstros escondidos em matas escuras.

Bruxas vivendo em casebres de pau a pique no meio do sertão.

E fantasmas.

Muitos fantasmas.

A quantidade de assombrações que habitava aquelas histórias era suficiente para transformar qualquer ida ao banheiro durante a madrugada numa missão de alto risco.

Lembro de fragmentos.

Pequenos pedaços preservados no backup da memória.

O velho cão negro.

Que, segundo a lenda, não era um cachorro comum.

Era o próprio demo vagando pelas estradas.

Havia também a história do cavalo alado.

Uma jornada impossível.

Uma viagem onde o herói precisava alimentar a criatura com pedaços de carne durante o percurso.

Caso contrário, o animal o abandonaria entre monstros e assombrações.

Tinha a famosa sopa da pedra.

As serpentes falantes.

Os passarinhos encantados.

As bruxas.

As maldições.

As profecias.

E a magnífica Rainha Águia.

Uma criatura fantástica que protegia viajantes perdidos e os guiava para casa.

Tudo contado de forma tão vívida que era impossível não acreditar.

Pelo menos por algumas horas.

O problema surgia depois.

Na hora de dormir.

Qualquer estalo na janela.

Qualquer sombra no corredor.

Qualquer rangido da madeira.

Pronto.

Lá estava o pequeno Vagner de olhos arregalados imaginando que alguma das criaturas das histórias havia decidido fazer uma visita.

E isso era maravilhoso.

Porque as histórias cumpriam exatamente sua função.

Faziam sonhar.

Faziam imaginar.

Faziam sentir medo.

Faziam rir.

Faziam viver aventuras sem sair da calçada.

Enquanto isso, Seu Luís seguia sua performance.

Molhando o bico com uma aguardente artesanal.

Tomando um gole aqui.

Outro ali.

E aumentando gradativamente o nível de insanidade das narrativas.

Quanto mais avançava a noite, mais fantásticas ficavam as aventuras.

Era como assistir a um sistema entrando em modo turbo.

Os monstros cresciam.

Os castelos ficavam maiores.

As bruxas mais poderosas.

Os fantasmas mais assustadores.

E nós, os pequenos onis do Jardim Garcez, permanecíamos hipnotizados.

Hoje percebo que Seu Luís era muito mais do que um contador de histórias.

Ele era um arquivo vivo.

Um servidor humano de memórias.

Um preservador da tradição oral.

Um homem simples que carregava séculos de cultura popular dentro da cabeça.

Muitas dessas histórias morreram com ele.

Outras sobreviveram apenas em fragmentos.

Mas algumas ainda vivem.

Espalhadas pelas lembranças dos garotos que um dia sentaram naquela calçada.

Esperando ansiosamente pela próxima aventura.

E talvez seja justamente por isso que ainda me lembro dele.

Porque existem pessoas que passam pela nossa vida.

E existem pessoas que ajudam a construir nossa imaginação.

Seu Luís pertence à segunda categoria.

E suspeito que boa parte do escritor, sonhador, contador de causos e aventureiro que existe em mim tenha nascido ali.

Sentado numa calçada de Taubaté.

Ouvindo um velho contador de histórias transformar uma rua comum em um reino encantado.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e o lendario mendigo Tonico da Viola

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

Todo bairro tem sua lenda.

Todo bairro possui aquele personagem que parece existir fora das regras normais da realidade.

Uma figura tão marcante que, décadas depois, continua viva na memória coletiva.

No Jardim Garcez, em Taubaté, esse personagem atendia pelo nome de:

Tonico da Viola.

Ou pelo menos era assim que todos o chamavam.

Porque, na verdade, ninguém sabia muito sobre ele.

Ninguém sabia sua idade.

Ninguém sabia de onde tinha vindo.

Ninguém sabia para onde ia.

E talvez ninguém soubesse sequer seu verdadeiro nome.

Para nós, os garotos do bairro, ele parecia existir desde o início dos tempos.

Como uma criatura saída de uma lenda sertaneja.

Como um personagem esquecido entre as páginas de algum livro de Monteiro Lobato.

Tonico era um andarilho.

Daqueles que carregavam a própria vida nas costas.

Vivia cercado por sacolas, trouxas, sacos amarrados por barbantes e cordas.

Parecia que todo seu patrimônio cabia naquele emaranhado de objetos pendurados pelo corpo.

Nas costas carregava uma velha viola.

Ou melhor.

Os restos de uma viola.

O instrumento já estava tão gasto pelo tempo, pelo sol e pela chuva que parecia ter sobrevivido a uma guerra.

Um enorme chapéu de palha completava a figura.

Magro.

Barbudo.

Sujo.

Queimado de sol.

Com olhos fundos.

E aquele ar permanente de quem conversava com coisas invisíveis aos demais mortais.

Para uma criança, aquilo era fascinante.

E assustador.

Ao mesmo tempo.

As histórias sobre Tonico eram infinitas.

Cada morador tinha uma versão diferente.

Alguns juravam que havia sido fazendeiro.

Outros diziam que perdera a família inteira.

Uns afirmavam que tinha ficado louco por amor.

Outros garantiam que era um antigo músico famoso.

Havia até quem jurasse que ele possuía poderes sobrenaturais.

Nenhuma história batia com a outra.

Mas todas eram contadas com absoluta convicção.

O mais curioso era que, apesar da aparência assustadora, Tonico nunca fez mal a ninguém.

Nunca.

Era um homem pacífico.

Às vezes aparecia na porta da escola.

Outras vezes era visto dormindo debaixo de uma árvore.

Ou em algum pasto.

Ou próximo aos riachos.

Ou simplesmente caminhando sem rumo pelas ruas de terra.

Como uma alma livre.

Sem destino.

Sem relógio.

Sem endereço.

Sem patrão.

Sem compromisso com nada além da próxima curva da estrada.

Quando tinha fome, pedia um prato de comida.

E quase sempre alguém ajudava.

Quando não conseguia ajuda, improvisava.

Fazia uma pequena fogueira.

Pegava uma velha panela amassada.

Misturava o que encontrasse.

E preparava sua refeição.

Aquilo despertava a curiosidade da molecada.

Ficávamos observando de longe.

Tentando entender aquele universo paralelo.

Tentando decifrar aquele homem.

Às vezes ele estava feliz.

Muito feliz.

Pegava a viola.

Ou o que restava dela.

E começava a cantar.

Canções sem dono.

Modas antigas.

Trechos de histórias.

Versos improvisados.

Ninguém entendia tudo.

Mas todos paravam para ouvir.

Em outros dias aparecia embriagado.

E então começava outro espetáculo.

Palavrões.

Improvisos.

Discussões imaginárias.

Conversas com pessoas invisíveis.

A molecada ria até perder o fôlego.

Mas sempre mantendo uma distância respeitosa.

Porque havia algo nele que inspirava cautela.

Especialmente o olhar.

Ah, aquele olhar...

Os cães do bairro pareciam compreender algo que nós não entendíamos.

Quando Tonico surgia na rua, muitos cachorros fugiam imediatamente.

Os mais valentes avançavam.

Latiam.

Rosnavam.

Cercavam.

Mas bastava Tonico parar.

Virar lentamente a cabeça.

E encarar o animal.

Pronto.

O cão recuava.

Muitas vezes ganindo.

Como se tivesse visto algo que não deveria ver.

Aquilo alimentava ainda mais as lendas.

E nós, é claro, adorávamos cada detalhe.

Anos depois, indo para a Biblioteca Municipal de Taubaté, ainda o encontrava.

Caminhando pelo centro.

Sem destino.

Sem pressa.

Sem rumo aparente.

Enquanto todos corriam atrás de alguma coisa, Tonico parecia não perseguir nada.

Era uma figura quase impossível de enquadrar.

Mendigo?

Filósofo?

Louco?

Poeta?

Andarilho?

Músico?

Talvez um pouco de tudo.

Talvez nada disso.

Hoje penso que ele representava algo raro.

A liberdade absoluta.

Aquela liberdade que assusta.

Que não possui amarras.

Que não possui endereço.

Que não possui garantias.

Tonico da Viola era um homem sem posses.

Mas também sem correntes.

E talvez por isso tenha permanecido tão vivo na memória.

Porque enquanto todos nós pertencíamos ao bairro...

Parecia que o bairro inteiro pertencia a ele.

E quando o sol desaparecia atrás dos morros de Taubaté e uma figura magra de chapéu de palha surgia caminhando pela estrada de terra, a molecada já sabia:

A lenda estava passando novamente.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Livro que Passou pelo Firewall: de Andersen a William Minerva, como histórias infantis carregam ideias perigosas escondidas à vista de todos

 

Bellacosa Mainframe e o livro que passou pelo firewall

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Livro que Passou pelo Firewall: de Andersen a William Minerva, como histórias infantis carregam ideias perigosas escondidas à vista de todos

📚 Reis nus, corujas em código Morse, crianças inconvenientes, tricksters, censores e o estranho bug dos sistemas autoritários: eles conseguem controlar a biblioteca, mas nunca sabem exatamente o que uma criança vai entender quando abrir o livro.

📚 São Paulo, biblioteca escolar localizada na EMPG Marechal Juares Tavora, Vila Rio Brano no ano de 1982

O incidente começou com uma falha aparentemente insignificante no sistema de segurança.

Permitiram que uma criança escolhesse um livro.

Eu tinha oito anos.

Era aluno da segunda série.

A tarefa parecia perfeitamente inocente:

escolher um livro disponível na estante;

ler;

fazer um pequeno resumo;

e depois contar a história diante da classe.

Nada particularmente perigoso.

Nenhum manifesto revolucionário.

Nenhum tratado político.

Nenhum documento secreto.

Nenhuma publicação clandestina.

Era apenas literatura infantil.

O firewall analisou o pacote:

OBJECT TYPE:
BOOK

TARGET AUDIENCE:
CHILDREN

CONTENT:
FAIRY TALE

THREAT LEVEL:
LOW

ACCESS:
GRANTED

Foi o primeiro erro.

Porque o livro escolhido pelo pequeno Vagner contava uma história muito perigosa.

Um rei.

Dois trapaceiros.

Uma roupa inexistente.

Uma corte inteira incapaz de admitir o óbvio.

E uma criança que finalmente diz aquilo que todo mundo consegue enxergar.

Era A Roupa Nova do Imperador, de Hans Christian Andersen.

E eu achei aquilo absolutamente maravilhoso.


😂 O menino encontrou o exploit

Preciso confessar uma coisa.

Minha primeira reação não foi uma profunda reflexão sobre estruturas de poder.

Eu não pensei:

“Extraordinária representação dos mecanismos de conformidade social existentes em organizações hierarquizadas.”

Eu tinha oito anos.

Minha reação foi aproximadamente:

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Dois pilantras tinham conseguido enganar o homem mais importante do reino.

Não apenas isso.

Convenceram o sujeito de que ele possuía uma roupa maravilhosa que somente determinadas pessoas seriam capazes de enxergar.

O rei não via nada.

Mas admitir isso significaria reconhecer alguma deficiência.

Então fingiu.

Os ministros também não enxergavam.

Fingiram.

Os cortesãos fingiram.

As pessoas fingiram.

E finalmente o homem mais poderoso daquele universo saiu desfilando pelas ruas praticamente nu.

Aquilo era genial.

Eu ria até saírem lágrimas.

KING.EXE

AUTHORITY = MAXIMUM
VANITY    = MAXIMUM
CLOTHING  = NULL

STATUS:
PARADING

🤣

Eu havia encontrado uma coisa extraordinária.

Livros podiam ser engraçados.


🏫 Então chegou a apresentação

Algum tempo depois chegou minha vez de falar diante da classe.

Lá estava o pequeno Vagner.

Orgulhoso da descoberta.

Provavelmente ainda achando graça.

Comecei a contar minha versão resumida da história.

Os vigaristas.

O rei.

A roupa que não existia.

A enganação.

O desfile.

O absurdo.

E então...

a professora interrompeu.

Não era daquela maneira.

A história possuía um ensinamento.

Existia uma interpretação.

Havia algo que eu deveria ter percebido.

Vieram explicações.

Vieram correções.

Vieram palavras que quarenta e quatro anos depois já não consigo reproduzir literalmente.

Mas consigo lembrar da sensação.

Eu estava diante da classe.

Fiquei vermelho.

Os outros alunos permaneceram olhando.

E a professora continuou explicando por que minha leitura não era aquela que deveria ser apresentada.

Para uma criança de oito anos, não existe seminário acadêmico sobre multiplicidade interpretativa.

Existe apenas:

EU LI.

EU GOSTEI.

EU RI.

EU CONTEI.

E...

EU ESTAVA ERRADO?

🤔 Mas eu estava errado?

Quarenta e quatro anos depois, essa pergunta fica muito mais interessante.

Porque naturalmente A Roupa Nova do Imperador permite discutir vaidade, mentira, conformidade, medo do julgamento, autoridade e coragem para dizer aquilo que todos estão evitando admitir.

Mas existe um detalhe fundamental:

a história também é engraçada.

O ridículo faz parte de sua força.

O poderoso é transformado em objeto de riso.

Os impostores exploram a vaidade.

Os cortesãos comportam-se absurdamente.

E o mecanismo inteiro só funciona porque ninguém deseja ser a pessoa que contradiz aquilo que todos aparentemente acreditam.

O pequeno Vagner não tinha vocabulário para explicar isso.

Não conhecia:

GROUPTHINK

AUTHORITY BIAS

INFORMATION CASCADE

CONFORMITY

PLURALISTIC IGNORANCE

Ele conhecia:

“HAHAHAHA! ENGANARAM O REI!”

E talvez fosse suficiente.


👑 O verdadeiro perigo do rei nu

Existe uma ideia profundamente perturbadora escondida naquele conto infantil:

autoridade não produz verdade.

O rei pode estar errado.

O ministro pode estar errado.

O especialista pode estar errado.

A multidão pode estar errada.

Pior:

todos podem saber que alguma coisa está errada e ainda assim continuar representando coletivamente que está certa.

Isso é muito mais perigoso que simplesmente ensinar:

“Não seja vaidoso.”

Porque introduz uma pergunta:

E se todo mundo estiver fingindo?

Agora imagine entregar essa pergunta para uma criança.

🤣

INPUT:
"Todos dizem que é verdade."

CHILD:
"Mas é?"

SYSTEM:
⚠️ UNEXPECTED QUERY

🇧🇷 E estávamos em 1982

Existe ainda um contexto histórico impossível de ignorar.

O Brasil de 1982 ainda vivia sob a ditadura militar.

O governo de João Figueiredo estava no período de abertura política. A Anistia havia ocorrido em 1979. Naquele próprio ano de 1982 aconteceriam importantes eleições diretas para governos estaduais.

O regime terminaria somente em 1985.

Portanto aquela sala não estava olhando retrospectivamente para a ditadura.

Ela existia dentro daquele período.

Isso não significa que a reação da minha professora tenha ocorrido por apoio ao regime ou por qualquer motivação política consciente.

Não tenho como saber.

Seria transformar memória em acusação.

Além disso, o autoritarismo escolar brasileiro é muito anterior a 1964.

Mas o ambiente social importa.

Professor era autoridade.

Diretor era autoridade.

Pai era autoridade.

Policial era autoridade.

Governo era autoridade.

Existia uma forte cultura de respeito hierárquico.

E no meio daquele ambiente aparece um pirralho gargalhando porque...

a autoridade máxima do reino tinha sido feita de trouxa.

🤣


👹 A guardiã do portal

Na minha memória infantil, a professora Maria ficou associada justamente a esse episódio.

É tentador transformá-la, quarenta anos depois, numa personagem.

A Oni da Biblioteca.

👹

A criatura que guarda a entrada do portal.

Mas seria injusto transformar uma pessoa real numa caricatura absoluta baseada apenas numa lembrança infantil.

Talvez ela acreditasse sinceramente que estava ensinando interpretação de texto.

Talvez estivesse seguindo a pedagogia disponível.

Talvez simplesmente tivesse conduzido mal aquele momento.

O que posso afirmar é aquilo que aconteceu comigo:

senti vergonha.

E uma atividade que deveria aproximar uma criança dos livros produziu momentaneamente o efeito contrário.


💥 Porque havia acontecido algo precioso antes

Esse é o ponto que mais me incomoda quando lembro daquela história.

Antes da repreensão, o exercício havia sido um sucesso extraordinário.

A criança:

escolheu espontaneamente;

leu;

compreendeu a trama;

riu;

emocionou-se;

lembrou;

conseguiu recontar;

quis compartilhar com outras crianças.

Meu Deus.

Se existisse Google Analytics pedagógico:

ENGAGEMENT:       100%
READ COMPLETION:  100%
EMOTIONAL IMPACT: 100%
RETENTION:        44 YEARS+

🤣

O professor tinha ouro nas mãos.

Bastava perguntar:

“Por que você achou tão engraçado?”

Talvez a conversa continuasse:

— Porque enganaram o rei.

— Por que conseguiram enganá-lo?

— Porque ele não queria dizer que não enxergava.

— E os ministros?

— Também ficaram com medo.

— E quem contou a verdade?

— Uma criança.

Pronto.

A moral teria surgido.

Não como resposta fornecida pela autoridade.

Como descoberta.


🧒 Crianças são perigosas

E aí entramos num problema muito antigo.

Crianças fazem uma pergunta devastadora:

“Por quê?”

Adultos aprendem lentamente que existem momentos nos quais essa pergunta possui custo social.

Na reunião:

“Por que estamos fazendo assim?”

Porque o diretor decidiu.

“Mas funciona?”

Silêncio.

Na política:

“Por que essa pessoa está certa?”

Porque é autoridade.

“Mas onde está a evidência?”

Silêncio.

Na religião, na família, na escola, no trabalho, nas organizações...

crianças ainda não instalaram completamente determinados filtros sociais.

ADULT.EXE

IF AUTHORITY > MY_POSITION
   THEN CONSIDER_SILENCE
END-IF


CHILD.EXE

IF THING = OBVIOUSLY_STUPID
   THEN SAY "ISSO É BESTA"
END-IF

🤣

É por isso que crianças funcionam tão bem em histórias sobre autoridade.


🦊 Antes delas vieram os tricksters

Mas existe outra linhagem ainda mais antiga.

O trickster.

O trapaceiro.

O malandro.

A criatura que não derrota o poderoso pela força.

Derrota explorando uma fraqueza.

Loki.

Anansi.

Coyote.

Hermes em determinadas tradições.

Nasreddin.

Pedro Malasartes.

João Grilo.

Saci.

Esses personagens possuem implementações culturais diferentes, mas compartilham uma característica fascinante:

encontram bugs nas regras.

SYSTEM:
KINGDOM

ADMIN:
KING

EXPLOIT:
VANITY

ATTACK VECTOR:
INVISIBLE CLOTH

RESULT:
PRIVILEGED USER COMPROMISED

Os vigaristas de Andersen realizam um verdadeiro teste de penetração social.

E o rei falha espetacularmente.


😂 O riso também é uma arma

É por isso que regimes, instituições e pessoas poderosas frequentemente possuem uma relação complicada com sátira.

Uma crítica pode ser respondida.

Um argumento pode ser contestado.

Uma tese pode receber outra tese.

Mas existe algo devastador em alguém simplesmente apontar e...

rir.

O riso remove solenidade.

O uniforme continua existindo.

O palácio continua existindo.

O cargo continua existindo.

Mas durante alguns segundos o poderoso deixa de parecer inevitável.

Torna-se humano.

E às vezes ridículo.

Andersen não precisa escrever:

“Questionem estruturas hierárquicas.”

Ele coloca o imperador nu na rua.

Muito mais eficiente.


📚 O contrabando perfeito

E aqui chegamos ao nosso firewall.

Imagine um censor procurando literatura perigosa.

Ele procura:

manifestos;

panfletos;

jornais;

discursos;

tratados políticos.

Encontra:

livro infantil.

Reis.

Princesas.

Animais.

Florestas.

Fadas.

Crianças.

Aparentemente inofensivo.

ALLOW.

Só que histórias são containers maravilhosos.

Dentro delas cabem ideias.

OUTER PACKAGE:

"CONTO INFANTIL"


INNER PAYLOAD:

autoridade pode errar
maioria pode mentir
poder pode ser ridículo
regras podem ser injustas
adultos podem ser enganados
crianças podem perceber primeiro

Firewall bypass successful.


🐷 Orwell sabia disso

Séculos depois das fábulas antigas e mais de cem anos depois de Andersen, George Orwell faria algo estruturalmente semelhante em Animal Farm.

Animais.

Uma fazenda.

Uma história aparentemente simples.

Só que por baixo existe uma alegoria política poderosíssima.

O mecanismo é antigo.

Você desloca o conflito.

Em vez de escrever diretamente sobre determinado sistema político, escreve sobre:

porcos.

A metáfora cria distância.

E essa distância permite enxergar coisas que às vezes ficam invisíveis quando estamos emocionalmente presos ao objeto real.


🐺 Esopo já executava esse código

Muito antes disso, fábulas atribuídas à tradição de Esopo já colocavam comportamentos humanos em animais.

Raposa.

Corvo.

Leão.

Tartaruga.

Lebre.

O animal pode representar:

vaidade;

ganância;

poder;

esperteza;

arrogância.

E ninguém precisa apontar diretamente para o rei sentado na primeira fila.

🤣

AUTHOR:
"É sobre um leão."

KING:
"Hmmm."

AUDIENCE:
😏

A alegoria possui plausible deniability.


🦉 E então chegamos a William Minerva

Décadas depois daquele episódio em Taubaté, encontro uma ideia extraordinariamente parecida dentro de um anime japonês:

Yakusoku no Neverland — The Promised Neverland.

No universo de Grace Field, crianças vivem dentro de uma realidade cuidadosamente controlada.

Existe uma versão oficial do mundo.

Existem adultos responsáveis pela manutenção dessa realidade.

Existem informações que as crianças não deveriam possuir.

Mas existe também...

uma biblioteca.

E alguns livros associados ao misterioso William Minerva carregam pistas através do símbolo da coruja e de mensagens codificadas usando Morse.

Os livros possuem duas funções.

A primeira é óbvia:

READ BOOK

A segunda:

DECODE BOOK

Isso é maravilhoso.


📖 O livro possui duas camadas

Para quem controla o sistema:

é um livro.

Para quem sabe observar:

é um canal de comunicação.

LAYER 1:
STORY

LAYER 2:
MESSAGE

LAYER 3:
DOUBT

LAYER 4:
ESCAPE

O objeto autorizado pelo sistema transporta informação capaz de ajudar alguém a questionar o próprio sistema.

Meu Deus.

Isso é praticamente esteganografia narrativa.


🦉 A coruja passou pelo firewall

Imagine a análise de segurança de Grace Field:

OBJECT:
BOOK

AUTHOR:
APPROVED

CONTENT:
APPROVED

OWL STAMP:
DECORATIVE

THREAT:
NONE

ALLOW.

Emma e seus companheiros:

“Espera aí...”

🤣

Todo sistema de controle possui um problema fundamental.

Ele precisa interpretar aquilo que controla.

E interpretação nunca é perfeita.


👑 Andersen e Minerva encontram-se

Agora podemos colocar as duas obras lado a lado.

ANDERSEN                     WILLIAM MINERVA

Reino                        Grace Field
  ↓                              ↓
realidade social             realidade controlada
  ↓                              ↓
adultos sustentam            adultos administram
uma ficção                   uma ficção
  ↓                              ↓
criança percebe              crianças investigam
  ↓                              ↓
"ELE ESTÁ NU"                "HÁ ALGO ERRADO"
  ↓                              ↓
      QUESTIONAR A REALIDADE

As histórias são completamente diferentes.

Contextos diferentes.

Épocas diferentes.

Objetivos diferentes.

Mas existe uma conexão temática deliciosa:

não aceite uma realidade apenas porque o sistema inteiro foi organizado para fazê-la parecer verdadeira.


🔏 Livros também podem transportar mensagens reais

E aqui saímos da ficção.

Ao longo da história, pessoas utilizaram livros, cartas, jornais e outros objetos aparentemente comuns para transportar mensagens escondidas.

Cifras.

Códigos.

Tintas invisíveis.

Acrosticos.

Microfilmes em períodos posteriores.

Marcas.

Esteganografia.

Mensagens incorporadas a textos aparentemente inocentes.

A ideia fundamental é sempre semelhante:

MESSAGE EXISTS

BUT

MESSAGE DOES NOT LOOK
LIKE MESSAGE

Esse é o sonho de qualquer informação tentando atravessar um controle.


🚫 O problema eterno do censor

O censor gostaria de implementar:

IF IDEA = DANGEROUS
   DELETE IDEA
END-IF

Mas ideias não possuem extensão .DANGEROUS.

Podem estar num romance.

Numa piada.

Numa música.

Num desenho.

Num conto infantil.

Num personagem.

Numa metáfora.

Num código Morse escondido numa coruja.

Ou simplesmente...

na interpretação do leitor.

E aí o problema torna-se insolúvel.


🧠 Porque o payload final é executado no cérebro

Essa talvez seja a vulnerabilidade definitiva.

O autor escreve uma coisa.

O leitor recebe.

Mas o leitor não é armazenamento passivo.

Ele interpreta.

Relaciona.

Compara.

Lembra.

Discorda.

Ri.

Fica com raiva.

Conecta com outra experiência.

BOOK
  ↓
READER
  ↓
INTERPRETATION
  ↓
UNPREDICTABLE OUTPUT

O firewall pode controlar o livro.

Não controla completamente o OUTPUT.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo em 1982.


😂 O firewall esperava moral

Entrada:

A Roupa Nova do Imperador.

Resultado esperado:

“Devemos ser honestos e não ser vaidosos.”

Resultado produzido pelo Vagner 8.0:

“HAHAHAHAHAHA! ENGANARAM O REI E ELE SAIU PELADO!”

🤣

UNEXPECTED OUTPUT.

E essa saída não estava escrita literalmente numa ficha pedagógica.

Foi produzida pela interação entre:

livro + criança.


🕵️ E agora entra minha liberdade poética

Às vezes gosto de imaginar o que aconteceu depois.

Repito:

imaginar.

Não tenho qualquer evidência de que isso tenha ocorrido.

Mas a versão Bellacosa Mainframe da história é muito melhor.

Na manhã seguinte, alguém entra na biblioteca.

Olha para A Roupa Nova do Imperador.

Pensa:

“Esse negócio está causando problemas.”

Retira o volume.

BOOK STATUS:

TITLE:
A ROUPA NOVA DO IMPERADOR

PREVIOUS STATUS:
AVAILABLE

NEW STATUS:
WITHDRAWN

REASON:
UNAUTHORIZED INTERPRETATION

INCIDENT:
VAGUINHO-1982

🤣🤣🤣

O livro desaparece misteriosamente da estante.

Não porque contém palavrões.

Não porque contém violência.

Não porque contém propaganda política.

Mas porque foi descoberto um exploit crítico:

crianças conseguem rir da autoridade.


🚨 CVE-1837-ANDERSEN

Vamos registrar corretamente a vulnerabilidade.

CVE-1837-ANDERSEN

Severity:
CRITICAL

Affected Systems:
- monarchies
- bureaucracies
- corporations
- schools
- political organizations
- consulting projects
- management meetings

Attack Vector:
storytelling

Exploit Complexity:
LOW

Privileges Required:
NONE

User Interaction:
READ BOOK

Impact:
UNAUTHORIZED DOUBT

Patch disponível?

Não.

🤣


🏢 Porque o rei mudou de emprego

Quarenta e quatro anos depois, continuo encontrando aquele sujeito.

Ele apenas parou de usar coroa.

Agora usa crachá.

CEO:
"O projeto está ótimo."

DIRETOR:
"Excelente."

GERENTE:
"Tudo verde."

CONSULTORIA:
"Best practice."

PMO:
"100% concluído."

POWERPOINT:
██████████ 100%

PRODUÇÃO:
🔥🔥🔥🔥🔥

COBOLZEIRO:
"Senhores..."

SILÊNCIO.

COBOLZEIRO:
"O rei está nu."

🤣

E é por isso que uso aquela história em aulas de COBOL.


💻 O mainframe não respeita autoridade

Computadores possuem uma característica profundamente inconveniente:

não ficam constrangidos diante do diretor.

O diretor pode afirmar:

“Isso está correto.”

O processador responde:

S0C7.

O gerente pode dizer:

“Sempre funcionou.”

O sistema responde:

DATA EXCEPTION.

A consultoria pode apresentar cinquenta slides verdes.

O job responde:

RC=12.

Produção possui uma brutalidade epistemológica maravilhosa.

TITLE != TRUTH
AUTHORITY != EVIDENCE
POWERPOINT != PRODUCTION

O dump não sabe quem é vice-presidente.

Ele simplesmente registra aquilo que aconteceu.


🧒 Precisamos da criança na War Room

Toda organização precisa de alguém capaz de fazer aquilo que a criança de Andersen fez.

Não necessariamente de maneira rude.

Não para desafiar autoridade por esporte.

Mas para dizer:

“Os dados não mostram isso.”

“O teste não passou.”

“Essa premissa está errada.”

“Não sabemos.”

“Precisamos verificar.”

Essas frases parecem banais.

Em determinadas organizações, são atos de coragem.


🧙 O sysprog como criança inconveniente

Um veterano de produção frequentemente desenvolve esse comportamento.

Alguém apresenta uma arquitetura maravilhosa.

Ele pergunta:

“E se o link cair?”

Explicam uma automação perfeita.

“E se executar duas vezes?”

Apresentam migração sem downtime.

“Como vocês testaram rollback?”

Mostram dashboard verde.

“Cadê o SMF?”

🤣

Esse profissional parece pessimista.

Às vezes é apenas a criança apontando para o imperador.


📊 Dados são crianças inconvenientes

Observabilidade desempenha função semelhante.

Logs.

Traces.

Métricas.

SMF.

RMF.

Dumps.

Mensagens.

Eles possuem uma qualidade maravilhosa:

podem contradizer a narrativa.

NARRATIVE:
"SISTEMA ESTÁ NORMAL."

RMF:
CPU 99%

NARRATIVE:
"NÃO HOUVE IMPACTO."

SMF:
TRANSACTIONS FAILED = 18342

NARRATIVE:
"MIGRAÇÃO CONCLUÍDA."

RECONCILIATION:
MISSING RECORDS = 274991

O rei pode continuar marchando.

Mas agora temos fotografia.


🧠 A verdadeira alfabetização talvez seja aprender a duvidar

Não estou falando de transformar toda criança num cínico que acredita que tudo é mentira.

Isso seria outro problema.

Pensamento crítico não significa:

“Nada é verdade.”

Significa:

“Como sabemos que isso é verdade?”

Essa diferença é gigantesca.

CINISMO:
"NÃO ACREDITO EM NADA."

PENSAMENTO CRÍTICO:
"QUAL É A EVIDÊNCIA?"

A primeira postura fecha portas.

A segunda abre.


📚 E então voltamos à biblioteca

Muito antes da biblioteca da CESP, houve para mim outro portal.

A biblioteca de Taubaté.

Ali livros começaram a abrir mundos.

Depois vieram outras bibliotecas.

Malba Tahan.

Mil Histórias sem Fim.

Satíricon.

História.

Maçonaria brasileira.

Administração.

E milhares de outras páginas.

Mas aquele pequeno livro de Andersen permaneceu.

Talvez justamente porque houve duas explosões emocionais associadas a ele.

A primeira:

gargalhada.

A segunda:

vergonha.

Duas âncoras poderosas.


🧬 Quarenta e quatro anos de retenção

Em 1982 eu não sabia o que era COBOL profissionalmente.

Não conhecia mainframe.

Não sabia o que era groupthink.

Não conhecia viés de autoridade.

Não conhecia segurança da informação.

Não conhecia código Morse além do que eventualmente pudesse aparecer no universo infantil.

Não conhecia The Promised Neverland.

Mas o registro ficou.

WRITE MEMORY
FROM ANDERSEN
TO VAGNER-LONG-TERM-STORAGE

RETENTION:
44 YEARS+

STATUS:
ACTIVE

E décadas depois outros nós começaram a conectar-se.


🕸️ O grafo finalmente aparece

TAUBATÉ
   ↓
BIBLIOTECA
   ↓
ANDERSEN
   ↓
REI NU
   ↓
AUTORIDADE
   ↓
CONFORMIDADE
   ↓
PROFESSORA
   ↓
VERGONHA
   ↓
LEITURA
   ↓
CURIOSIDADE
   ↓
MALBA TAHAN
   ↓
MIL HISTÓRIAS SEM FIM
   ↓
TECNOLOGIA
   ↓
COBOL
   ↓
INCIDENTES
   ↓
GROUPTHINK
   ↓
ANIME
   ↓
YAKUSOKU NO NEVERLAND
   ↓
WILLIAM MINERVA
   ↓
CORUJA
   ↓
MORSE
   ↓
MENSAGEM ESCONDIDA
   ↓
CENSURA
   ↓
FIREWALL
   ↓
ANDERSEN

O grafo fechou.

Quarenta e quatro anos depois.


☕ O último café

Talvez seja impossível construir um firewall perfeito contra ideias.

Você pode controlar editoras.

Pode controlar bibliotecas.

Pode proibir livros.

Pode censurar jornais.

Pode bloquear páginas.

Pode vigiar redes.

Pode estabelecer currículos.

Pode determinar interpretações oficiais.

Mas existe um componente extremamente difícil de controlar:

o leitor.

Porque alguém pode entregar a uma criança uma história perfeitamente inocente sobre um rei e esperar que ela aprenda uma pequena lição moral.

E a criança pode descobrir outra coisa.

Pode perceber que o rei é ridículo.

Pode perceber que todos estão mentindo.

Pode perceber que autoridade não produz realidade.

Pode rir.

Pode lembrar.

Pode carregar aquilo durante quarenta e quatro anos.

Pode virar programador.

Pode trabalhar com mainframes.

Pode tornar-se professor.

E um dia, diante de uma turma de COBOL, pode recuperar aquele mesmo pacote armazenado desde 1982 e dizer:

“Senhores, vou explicar por que ninguém percebeu que esse projeto estava condenado.”

Abre Andersen.

O firewall olha para o pacote.

CHILDREN'S BOOK.

SAFE.

ALLOW.

O livro atravessa.

Dentro dele continua a mesma vulnerabilidade publicada em 1837.

Uma criança olha.

Uma multidão permanece silenciosa.

O poderoso continua marchando.

E alguém finalmente diz:

“Mas ele está nu.”

FIREWALL BYPASSED.

MESSAGE DELIVERED.

RETURN CODE = 0000.

☕📚🦉👑

quarta-feira, 6 de julho de 2011

📜 Memórias Sem Índice, Sem Catálogo, Sem Timeline — Volume “O Limbo 70–80”

 

Bellacosa Mainframe e o nostalgico caldo de cana no sitio a luz do luar e dos lampioes a querosene

📜 Memórias Sem Índice, Sem Catálogo, Sem Timeline — Volume “O Limbo 70–80”

Ao estilo Bellacosa Mainframe, com fragmentos soltos como cartões perfurados lançados ao vento.


Há um período nas minhas memórias que não respeita calendário, lógica, cronologia ou bom senso.
É o limbo 1970–1980 — um buffer de lembranças onde tudo se mistura:

  • São Paulo,

  • interior,

  • avós,

  • primos,

  • mudanças,

  • calor,

  • poeira,

  • brincadeiras,

  • e o eterno improviso da família Bellacosa.

Esse capítulo é sobre Ibitinga — a terra dos bordados, da brasilite fervendo e das tanajuras crocantes.


Bellacosa Mainframe um sitio sem luz longe de tudo

🌞 Ibitinga — O Caldeirão de Asfalto e Telha Brasilit

Meu pai, na eterna missão de “agora vai”, resolveu negociar os famosos bordados de Ibitinga.
E isso, claro, gerou mais uma migração.

Da casa lembro de três coisas:

  • um calor monstruoso, daqueles que fazem miragem na sala;

  • o barulho metálico da telha brasilite dilatando no sol;

  • e a liberdade absoluta: brincar na rua até tarde, correr, subir em coisas, cair de outras.

Foi lá também que provei um prato típico, obra da fauna local e da curiosidade infantil:
tanajuras assadas.

Crocantes. Amanteigadas.
Uma explosão de proteínas.
O primeiro snack gourmet de sobrevivência.


Bellacosa Mainframe e as miticas viagens do fuscquinha vermelho

🪔 A Noite do Lampião e o Fusca de Farol Aceso

Mas a grande lembrança, a história digna de um Bellacosa Midnight Files, foi a visita a um sítio nos confins do município.

Sem energia elétrica.
Lampião de querosene.
Galinheiros.
Cavalo arisco.
E o som eterno do mato — cri cri cri.

Meu pai fez amizade com os sitiantes, e fomos passar o dia lá.
À noite, moeram cana para fazer guarapa: o caldo de cana raiz, aquele que pinga direto do engenhoca de madeira.

Tudo ia bem… até meu pai cometer um clássico:

deixar o farol do Fusca aceso.

Sim.

Fusca 1960 e alguma coisa, bravíssimo, mas com uma bateria do tempo de D. Pedro I.
Depois de horas iluminando o nada do mato:

puff — bateria morta.
Carro não pega.
Nem com reza forte.


Bellacosa Mainframe na estrada na carroça em busca de uma bateria

🐎 A Jornada Noturna de Charrete

E aí começou o episódio épico.

— “Vamos pegar uma bateria emprestada no outro sítio.”

Montaram a charrete.
Lá fomos nós, com um cavalo que claramente não assinou contrato para aquele turno extra.

No caminho, tudo escuro.
Mato fechando.
Cheiro de bicho.
E nós, balançando na charrete como se fôssemos figurantes de filme de cangaço.

Resultado?

Ninguém tinha bateria.
Voltamos frustrados.
Dormimos no sítio.

Dormir improvisado no interior é assim:
um colchão antigo, cheiro de madeira, barulho de grilos e a lanterna tremulando no lampião.


Bellacosa Mainframe e a cobra na laranjeira e o olhar do matuto

🍊 O Exterminador do Pomar

No dia seguinte, eu perambulava pelo sítio quando o amigo do meu pai fez um gesto de silêncio:

— “Vem cá… sem barulho…”

Ele aponta para um pé de laranja.
Vai chegando devagar, devagarinho…

De repente, num movimento digno do Circo Garcia:

Pega uma cobra pelo rabo.
Rodopia.
PA-BUM!

O reptil não teve chance alguma.
Foi o shutdown definitivo.

Eu, criança, assisti tudo com:

  • 40% choque

  • 30% fascínio

  • 20% medo

  • 10% pensando: “ainda vou escrever isso no futuro.”


Bellacosa Mainframe e o incrivel banquete das berinjelas

🍆 As Berinjelas…

Mas essas ficam para o próximo bloco de memória, porque história boa tem que vir em clusters, não em full load.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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