| Bellacosa Mainframe e as historias que nossas babas nao contavam Tavera Todinho la dentro |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O Meu Processo de Alusitanamento — Tomás Taveira, o CD 17 e a primeira aula de folclore digital português
Ou: como cheguei a Portugal em 2002 para trabalhar num banco e descobri que, antes do eMule, os portugueses já tinham inventado a distribuição peer-to-peer em VHS
Groucho Marx pega o charuto, examina uma cassete VHS e sentencia:
“Não sei o que está aqui dentro. Mas, se metade de Lisboa já viu, provavelmente é confidencial.”
🇵🇹 2002 — Vagner precisa ser lusitanizado
Quando cheguei a Portugal, em 2002, trazia comigo um problema gravíssimo.
Eu falava português.
Parecia uma vantagem.
Não era.
Eu falava português brasileiro.
Portugal rapidamente tratou de explicar que isso era apenas uma versão beta do idioma.
Começou então aquilo que hoje chamo carinhosamente de meu processo de alusitanamento.
Era necessário aprender que uma bicha nem sempre era aquilo que um brasileiro imaginava.
Que uma rapariga podia ser apresentada à família sem provocar um escândalo.
Que um puto não era necessariamente uma ofensa.
Que pequeno-almoço não era um café servido numa xícara menor.
E que "pois" poderia significar aproximadamente 37 coisas dependendo da inclinação da cabeça do interlocutor.
Mas havia outra camada.
A mais importante.
A cultura subterrânea.
Porque ninguém realmente conhece um país lendo apenas Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e os manuais oficiais.
Para conhecer um país é necessário descobrir as piadas que todo mundo entende sem precisar explicar.
E foi assim que, trabalhando no universo bancário português, acabei recebendo de um colega do BPN uma espécie de documento antropológico.
Um CD.
Não me lembro de haver cerimônia oficial.
Não houve assinatura.
Não houve protocolo.
Não houve RACF.
O cidadão simplesmente entregou o artefato.
E naquele objeto havia uma inscrição suficientemente misteriosa para despertar imediatamente meu instinto de arqueólogo digital:
CD 17
Dezessete.
Isso significava uma coisa extraordinária.
Existiram pelo menos dezesseis antes dele.
🏛️ Para compreender o CD 17 precisamos voltar a Lisboa dos anos 80
Antes do personagem folclórico existe o personagem histórico.
E esta distinção é fundamental.
Tomás Taveira não surgiu como personagem de piada.
Era — e continuou sendo — um arquiteto português de enorme projeção, professor universitário e um dos principais nomes associados ao pós-modernismo arquitetônico português. Sua obra utilizava cores fortes, geometrias exuberantes e uma linguagem arquitetônica imediatamente reconhecível. As Amoreiras transformaram-se provavelmente no exemplo mais popular dessa arquitetura pós-moderna em Lisboa.
Vieram Olaias.
Amoreiras.
Edifícios públicos.
Projetos internacionais.
Posteriormente até estádios construídos para o Euro 2004.
Décadas depois do episódio que estamos prestes a abordar, a RTP ainda poderia dedicar um programa à sua arquitetura, mostrando projetos, desenhos e maquetes.
Essa é a primeira biografia.
Chamemos:
TOMAS.TAVEIRA.PROD
Arquiteto.
Professor.
Pós-modernista.
MIT.
Urbanismo.
Amoreiras.
Olaias.
Estádios.
Currículo perfeitamente carregável pelo sistema institucional.
Só que, em algum momento dos anos 80, começou a ser construída uma segunda biografia.
Uma que jamais apareceria num currículo acadêmico.
📼 1987 — alguém apertou REC
Aqui precisamos abandonar Groucho Marx durante alguns minutos.
Porque por trás daquilo que posteriormente virou piada nacional existia uma questão séria.
Vídeos íntimos foram gravados no escritório de Taveira. As fontes posteriores descrevem problemas graves envolvendo o conhecimento ou consentimento das mulheres filmadas. As gravações teriam sido realizadas por volta de 1987 e começaram a circular publicamente em 1989.
Não precisamos entrar nos detalhes.
Aliás, para compreender o fenômeno cultural, os detalhes são praticamente irrelevantes.
O que importa para nossa arqueologia é outra coisa:
a cassete escapou.
E, quando uma informação escapa, surge uma das leis fundamentais da informática:
Informação interessante possui uma tendência impressionante de desenvolver pernas.
Em 1989 não existia WhatsApp.
Não existia Telegram.
Não existia YouTube.
Não existia BitTorrent.
Não existia eMule.
Não existia Napster.
Não existia sequer a Web como conheceríamos poucos anos depois.
Mas existia uma tecnologia revolucionária.
VHS + DOIS VIDEOCASSETES
Pronto.
Nasceu o peer-to-peer lusitano.
📼📼 A internet portuguesa antes da internet
Imagine o processo.
Alguém possuía uma cassete.
Outro alguém queria uma cópia.
Dois aparelhos eram conectados.
PLAY.
REC.
Esperava-se.
Nascia uma segunda cassete.
A segunda encontrava uma terceira pessoa.
A terceira conhecia um primo.
O primo conhecia um colega.
O colega trabalhava num escritório.
O escritório tinha alguém com dois videocassetes.
PLAY.
REC.
PLAY.
REC.
PLAY.
REC.
Em pouco tempo a coisa começou a circular por Lisboa com uma velocidade que relatos posteriores descrevem como extraordinária. A imprensa já discutia rumores sobre as gravações em setembro de 1989; jornais e cronistas começaram a abordar o assunto e, em outubro, o caso já fazia parte do debate público nacional.
A própria retrospectiva anual da RTP colocaria Tomás Taveira entre os acontecimentos marcantes de Portugal em 1989.
Isso é extraordinário.
Porque significa que estamos diante de um fenômeno que hoje chamaríamos simplesmente:
VIRAL
Só que viral sem internet.
📰 E então Portugal descobriu a bomba
O assunto saiu das salas privadas.
Chegou aos jornais.
Chegou às conversas.
Chegou aos cafés.
Chegou às universidades.
Chegou aos escritórios.
Chegou inevitavelmente à televisão.
E então aconteceu aquilo que sempre acontece quando um escândalo entra no imaginário popular:
o fato perdeu o controle sobre a própria narrativa.
Cada pessoa acrescentava alguma coisa.
Alguém conhecia alguém que conhecia alguém.
A cassete que uma pessoa tinha visto não parecia exatamente igual à cassete que outra jurava ter visto.
Apareceram versões.
Rumores.
Personagens supostos.
Locais supostos.
Frases supostas.
Detalhes supostos.
Alguns verdadeiros.
Outros provavelmente inventados.
E outros pertencentes àquela categoria maravilhosa da cultura popular:
“Não aconteceu exatamente assim, mas todo mundo lembra que aconteceu.”
Groucho Marx retorna ao recinto:
“Finalmente encontramos uma fonte histórica confiável: um sujeito no café que ouviu de um cunhado.”
😂 Portugal fez aquilo que qualquer sociedade faz diante do absurdo
Transformou em humor.
Vieram piadas.
Referências.
Imitações.
Bordões.
Insinuações televisivas.
Conversas de café.
Humoristas perceberam imediatamente que não era necessário explicar nada.
Bastava uma frase.
Uma entonação.
Uma referência.
O público completava mentalmente o resto.
E aí surge uma das expressões mais interessantes associadas à mitologia:
“Estudasses.”
Décadas depois, portugueses ainda discutem se a célebre expressão realmente aparece da maneira como a memória coletiva afirma.
Isso é maravilhoso do ponto de vista antropológico.
Porque significa que o meme ficou maior que a fonte.
A frase passou a existir independentemente da gravação.
Ela tornou-se patrimônio oral.
O cidadão poderia nunca ter visto VHS nenhum.
Mesmo assim conhecia a piada.
🎵 E a coisa entrou na música
Era inevitável.
A cultura popular portuguesa absorveu o episódio.
Uma das referências conhecidas aparece em “Na Cabana do Pai Tomás”, dos Sitiados, exemplo de como o caso deixou de pertencer apenas às páginas dos jornais e passou para o repertório humorístico e musical.
Depois vieram referências.
Samples.
Montagens.
MP3.
Paródias.
Arquivos com nomes absolutamente suspeitos.
E começou um fenômeno ainda mais interessante:
pessoas passaram a conhecer a referência sem conhecer sua origem.
Isso é o estágio final de um meme.
Quando alguém ri de uma frase sem saber exatamente por que aquela frase é engraçada, o acontecimento original já entrou no folclore.
💿 CORTA PARA 2002
Portugal.
BPN.
Um brasileiro recém-chegado tentando compreender aquele maravilhoso sistema operacional chamado:
PORTUGAL 2002 ENTERPRISE EDITION
Meu colega provavelmente percebeu rapidamente uma falha grave na minha formação.
Eu conhecia Pessoa.
Conhecia Saramago.
Conhecia alguma história portuguesa.
Mas desconhecia parte essencial do folclore contemporâneo nacional.
Era inadmissível.
Então veio o CD.
CD 17
Aquilo era praticamente um curso de integração cultural.
Esqueça treinamento corporativo.
Esqueça PowerPoint.
Esqueça Recursos Humanos.
O verdadeiro onboarding português estava num CD-R.
Eu coloquei aquilo no computador.
E comecei uma das mais curiosas aulas de antropologia da minha vida.
De repente várias frases que eu já havia ouvido começaram a fazer sentido.
Piadas que anteriormente passavam pelo meu ouvido sem autenticação receberam credenciais.
Referências televisivas começaram a encaixar.
Era como descobrir que você passou meses ouvindo chamadas para uma subrotina sem possuir o copybook.
Finalmente eu tinha o copybook.
🫏 O detalhe importante: em 2002 aquilo já era arqueologia
Treze anos haviam passado desde 1989.
Mas a história continuava viva.
Isso me impressionou.
Porque eu não estava simplesmente assistindo a um escândalo antigo.
Estava observando a transmissão de memória coletiva entre tecnologias.
Primeiro:
VHS
Depois:
cópia de VHS
Depois:
cópia da cópia da cópia
Depois:
digitalização
Depois:
CD-R
Depois:
MPG
Depois:
AVI
E então chegou a cavalaria.
🫏 eMule
Para quem não viveu aquela maravilhosa época, o eMule era uma espécie de biblioteca de Alexandria administrada por adolescentes, piratas digitais e computadores ligados durante 72 horas.
Você procurava Beethoven.
Recebia Beethoven.
Às vezes.
Nas outras ocasiões recebia alguma coisa chamada:
BEETHOVEN_COMPLETE_SYMPHONIES_FINAL_REAL_100_PERCENT.avi
E descobria que a humanidade tinha outros planos para sua noite.
Tomás Taveira encontrou ali sua segunda juventude digital.
O que havia circulado fisicamente em Lisboa agora poderia atravessar Portugal.
Brasil.
França.
Luxemburgo.
Suíça.
Qualquer lugar onde existisse um português emigrado, uma conexão ADSL e paciência suficiente.
🌍 A diáspora digital do VHS
Esse é provavelmente o aspecto mais fascinante.
A primeira geração conheceu o caso como acontecimento.
A segunda conheceu como cassete.
A terceira conheceu como arquivo.
A quarta conheceu como meme.
E a quinta talvez conheça apenas:
“Estudasses.”
Sem contexto.
Sem VHS.
Sem 1989.
Sem saber sequer quem era Tomás Taveira.
Isso é folclore.
Exatamente como uma expressão medieval pode sobreviver séculos depois de desaparecer o acontecimento que lhe deu origem.
Só que aqui conseguimos observar praticamente todas as etapas.
👨🏫 As duas biografias de Tomás Taveira
E aqui chegamos ao ponto que mais me fascina nessa história.
Tomás Taveira passou a possuir duas biografias simultâneas.
Biografia A — institucional
Arquiteto.
Professor.
Pós-modernismo.
MIT.
Olaias.
Amoreiras.
BNU.
Metro das Olaias.
Alvalade XXI.
Aveiro.
Leiria.
Projetos internacionais.
É uma carreira arquitetônica extensa e documentada.
Mas existe:
Biografia B — popular
A cassete.
As frases.
As imitações.
As músicas.
Os CDs.
Os AVI.
O eMule.
As piadas de café.
Os memes.
As referências que atravessaram gerações.
As duas biografias pertencem à mesma pessoa.
Mas vivem em bancos de dados culturais completamente diferentes.
🏟️ E a ironia tornou-se arquitetônica
Isso produz situações absolutamente surreais.
Você pode entrar numa obra projetada por Tomás Taveira sem conhecer Tomás Taveira.
Pode assistir futebol num estádio relacionado à sua obra.
Pode passar pelas Olaias.
Pode olhar as Amoreiras dominando parte da paisagem lisboeta.
E alguém ao seu lado pode conhecer apenas:
a piada.
Enquanto outro conhece apenas:
o arquiteto.
Dois portugueses podem falar do mesmo homem e aparentemente estar falando de pessoas completamente diferentes.
Esse é o verdadeiro fork.
TOMAS_TAVEIRA_ARCHITECT.EXE
e
TOMAS_TAVEIRA_FOLKLORE.EXE
Ambos continuam rodando.
📺 E o século XXI não executou DELETE
Esse talvez seja o detalhe mais extraordinário.
Era perfeitamente possível que tudo desaparecesse.
VHS deteriora.
CD-R deteriora.
Discos rígidos morrem.
Sites fecham.
Links quebram.
Servidores desaparecem.
Mas cultura popular possui redundância.
Uma pessoa guarda.
Outra copia.
Outra comenta.
Outra transforma em música.
Outra escreve num fórum.
Outra faz meme.
Outra pergunta:
“De onde vem essa história?”
E alguém responde.
A transmissão recomeça.
Décadas depois, o assunto ainda reaparece na imprensa e em produções culturais, enquanto discussões online continuam debatendo inclusive quais frases pertenciam realmente às gravações e quais foram acrescentadas posteriormente pela memória coletiva.
É quase um sistema distribuído.
Não existe servidor central.
Não existe administrador.
Não existe documentação.
Mas os dados sobrevivem.
🧠 O verdadeiro CD 17
Hoje percebo que aquele CD que recebi em 2002 não continha simplesmente arquivos.
Continha contexto cultural.
Meu colega do BPN estava realizando uma operação muito antiga.
A mesma operação pela qual pessoas transmitem lendas há milhares de anos.
Só havia mudado o suporte.
Antes:
“Meu avô contou ao meu pai.”
Depois:
“Tenho uma cassete.”
Em 2002:
“Leva este CD.”
Depois:
“Procura no eMule.”
Mais tarde:
“Procura no YouTube.”
Depois:
“Vi num meme.”
E provavelmente algum arqueólogo digital em 2126 encontrará uma referência perdida e perguntará:
“Mas afinal quem diabos era esse arquiteto?”
🎩 Groucho Marx fecha o arquivo
Groucho apaga o charuto.
Olha para as Amoreiras.
Olha para uma velha cassete VHS.
Olha para o CD 17.
Olha para um diretório perdido do eMule.
E finalmente declara:
“Passei a vida acreditando que a imortalidade exigia uma grande obra. Aparentemente também ajuda alguém esquecer uma cassete no lugar errado.”
E talvez essa seja a conclusão perfeita.
Tomás Taveira construiu edifícios destinados a durar décadas.
Mas paralelamente ajudou, involuntariamente, a construir algo muito mais difícil de demolir:
uma lenda popular.
Quando cheguei a Portugal em 2002, eu conhecia apenas a primeira camada daquele país.
O território.
A língua.
Os bancos.
Os cafés.
Os elétricos.
Fernando Pessoa.
Camões.
Depois veio o CD 17.
E compreendi uma verdade essencial sobre meu processo de alusitanamento:
um país não é feito apenas da história que coloca nos museus.
É feito também das histórias que conta baixinho.
Das piadas que atravessam gerações.
Dos bordões cuja origem ninguém mais sabe explicar.
Das músicas que escondem referências.
Das cassetes copiadas clandestinamente.
Dos CDs emprestados no escritório.
Dos arquivos que sobreviveram ao eMule.
E daquela pergunta inevitável que todo estrangeiro faz quando percebe que todos à mesa estão rindo menos ele:
“Espera… qual é a história?”
Foi assim que, em 2002, um colega do BPN colocou um CD-R na minha mão.
Eu pensava que estava recebendo um disco.
Na verdade estava recebendo Portugal — Disco 17 de instalação.
E aparentemente ainda faltavam os outros dezesseis.
ESTUDASSES. E agora quando ouvires uma musica xula com refrão mixado, todinho la dentro, saberá quem foi Tavera das Tascas.
https://andarilhovisitaportugal.blogspot.com/
Sem comentários:
Enviar um comentário