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sábado, 5 de novembro de 2022

O Meu Processo de Alusitanamento — Tomás Taveira, o CD 17 e a primeira aula de folclore digital português

 

Bellacosa Mainframe e as historias que nossas babas nao contavam Tavera Todinho la dentro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Meu Processo de Alusitanamento — Tomás Taveira, o CD 17 e a primeira aula de folclore digital português

Ou: como cheguei a Portugal em 2002 para trabalhar num banco e descobri que, antes do eMule, os portugueses já tinham inventado a distribuição peer-to-peer em VHS

Groucho Marx pega o charuto, examina uma cassete VHS e sentencia:
“Não sei o que está aqui dentro. Mas, se metade de Lisboa já viu, provavelmente é confidencial.”



🇵🇹 2002 — Vagner precisa ser lusitanizado

Quando cheguei a Portugal, em 2002, trazia comigo um problema gravíssimo.

Eu falava português.

Parecia uma vantagem.

Não era.

Eu falava português brasileiro.

Portugal rapidamente tratou de explicar que isso era apenas uma versão beta do idioma.

Começou então aquilo que hoje chamo carinhosamente de meu processo de alusitanamento.

Era necessário aprender que uma bicha nem sempre era aquilo que um brasileiro imaginava.

Que uma rapariga podia ser apresentada à família sem provocar um escândalo.

Que um puto não era necessariamente uma ofensa.

Que pequeno-almoço não era um café servido numa xícara menor.

E que "pois" poderia significar aproximadamente 37 coisas dependendo da inclinação da cabeça do interlocutor.

Mas havia outra camada.

A mais importante.

A cultura subterrânea.

Porque ninguém realmente conhece um país lendo apenas Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e os manuais oficiais.

Para conhecer um país é necessário descobrir as piadas que todo mundo entende sem precisar explicar.

E foi assim que, trabalhando no universo bancário português, acabei recebendo de um colega do BPN uma espécie de documento antropológico.

Um CD.

Não me lembro de haver cerimônia oficial.

Não houve assinatura.

Não houve protocolo.

Não houve RACF.

O cidadão simplesmente entregou o artefato.

E naquele objeto havia uma inscrição suficientemente misteriosa para despertar imediatamente meu instinto de arqueólogo digital:

CD 17

Dezessete.

Isso significava uma coisa extraordinária.

Existiram pelo menos dezesseis antes dele.



🏛️ Para compreender o CD 17 precisamos voltar a Lisboa dos anos 80

Antes do personagem folclórico existe o personagem histórico.

E esta distinção é fundamental.

Tomás Taveira não surgiu como personagem de piada.

Era — e continuou sendo — um arquiteto português de enorme projeção, professor universitário e um dos principais nomes associados ao pós-modernismo arquitetônico português. Sua obra utilizava cores fortes, geometrias exuberantes e uma linguagem arquitetônica imediatamente reconhecível. As Amoreiras transformaram-se provavelmente no exemplo mais popular dessa arquitetura pós-moderna em Lisboa.

Vieram Olaias.

Amoreiras.

Edifícios públicos.

Projetos internacionais.

Posteriormente até estádios construídos para o Euro 2004.

Décadas depois do episódio que estamos prestes a abordar, a RTP ainda poderia dedicar um programa à sua arquitetura, mostrando projetos, desenhos e maquetes.

Essa é a primeira biografia.

Chamemos:

TOMAS.TAVEIRA.PROD

Arquiteto.

Professor.

Pós-modernista.

MIT.

Urbanismo.

Amoreiras.

Olaias.

Estádios.

Currículo perfeitamente carregável pelo sistema institucional.

Só que, em algum momento dos anos 80, começou a ser construída uma segunda biografia.

Uma que jamais apareceria num currículo acadêmico.


📼 1987 — alguém apertou REC

Aqui precisamos abandonar Groucho Marx durante alguns minutos.

Porque por trás daquilo que posteriormente virou piada nacional existia uma questão séria.

Vídeos íntimos foram gravados no escritório de Taveira. As fontes posteriores descrevem problemas graves envolvendo o conhecimento ou consentimento das mulheres filmadas. As gravações teriam sido realizadas por volta de 1987 e começaram a circular publicamente em 1989.

Não precisamos entrar nos detalhes.

Aliás, para compreender o fenômeno cultural, os detalhes são praticamente irrelevantes.

O que importa para nossa arqueologia é outra coisa:

a cassete escapou.

E, quando uma informação escapa, surge uma das leis fundamentais da informática:

Informação interessante possui uma tendência impressionante de desenvolver pernas.

Em 1989 não existia WhatsApp.

Não existia Telegram.

Não existia YouTube.

Não existia BitTorrent.

Não existia eMule.

Não existia Napster.

Não existia sequer a Web como conheceríamos poucos anos depois.

Mas existia uma tecnologia revolucionária.

VHS + DOIS VIDEOCASSETES

Pronto.

Nasceu o peer-to-peer lusitano.


📼📼 A internet portuguesa antes da internet

Imagine o processo.

Alguém possuía uma cassete.

Outro alguém queria uma cópia.

Dois aparelhos eram conectados.

PLAY.

REC.

Esperava-se.

Nascia uma segunda cassete.

A segunda encontrava uma terceira pessoa.

A terceira conhecia um primo.

O primo conhecia um colega.

O colega trabalhava num escritório.

O escritório tinha alguém com dois videocassetes.

PLAY.

REC.

PLAY.

REC.

PLAY.

REC.

Em pouco tempo a coisa começou a circular por Lisboa com uma velocidade que relatos posteriores descrevem como extraordinária. A imprensa já discutia rumores sobre as gravações em setembro de 1989; jornais e cronistas começaram a abordar o assunto e, em outubro, o caso já fazia parte do debate público nacional.

A própria retrospectiva anual da RTP colocaria Tomás Taveira entre os acontecimentos marcantes de Portugal em 1989.

Isso é extraordinário.

Porque significa que estamos diante de um fenômeno que hoje chamaríamos simplesmente:

VIRAL

Só que viral sem internet.


📰 E então Portugal descobriu a bomba

O assunto saiu das salas privadas.

Chegou aos jornais.

Chegou às conversas.

Chegou aos cafés.

Chegou às universidades.

Chegou aos escritórios.

Chegou inevitavelmente à televisão.

E então aconteceu aquilo que sempre acontece quando um escândalo entra no imaginário popular:

o fato perdeu o controle sobre a própria narrativa.

Cada pessoa acrescentava alguma coisa.

Alguém conhecia alguém que conhecia alguém.

A cassete que uma pessoa tinha visto não parecia exatamente igual à cassete que outra jurava ter visto.

Apareceram versões.

Rumores.

Personagens supostos.

Locais supostos.

Frases supostas.

Detalhes supostos.

Alguns verdadeiros.

Outros provavelmente inventados.

E outros pertencentes àquela categoria maravilhosa da cultura popular:

“Não aconteceu exatamente assim, mas todo mundo lembra que aconteceu.”

Groucho Marx retorna ao recinto:

“Finalmente encontramos uma fonte histórica confiável: um sujeito no café que ouviu de um cunhado.”


😂 Portugal fez aquilo que qualquer sociedade faz diante do absurdo

Transformou em humor.

Vieram piadas.

Referências.

Imitações.

Bordões.

Insinuações televisivas.

Conversas de café.

Humoristas perceberam imediatamente que não era necessário explicar nada.

Bastava uma frase.

Uma entonação.

Uma referência.

O público completava mentalmente o resto.

E aí surge uma das expressões mais interessantes associadas à mitologia:

“Estudasses.”

Décadas depois, portugueses ainda discutem se a célebre expressão realmente aparece da maneira como a memória coletiva afirma.

Isso é maravilhoso do ponto de vista antropológico.

Porque significa que o meme ficou maior que a fonte.

A frase passou a existir independentemente da gravação.

Ela tornou-se patrimônio oral.

O cidadão poderia nunca ter visto VHS nenhum.

Mesmo assim conhecia a piada.


🎵 E a coisa entrou na música

Era inevitável.

A cultura popular portuguesa absorveu o episódio.

Uma das referências conhecidas aparece em “Na Cabana do Pai Tomás”, dos Sitiados, exemplo de como o caso deixou de pertencer apenas às páginas dos jornais e passou para o repertório humorístico e musical.

Depois vieram referências.

Samples.

Montagens.

MP3.

Paródias.

Arquivos com nomes absolutamente suspeitos.

E começou um fenômeno ainda mais interessante:

pessoas passaram a conhecer a referência sem conhecer sua origem.

Isso é o estágio final de um meme.

Quando alguém ri de uma frase sem saber exatamente por que aquela frase é engraçada, o acontecimento original já entrou no folclore.


💿 CORTA PARA 2002

Portugal.

BPN.

Um brasileiro recém-chegado tentando compreender aquele maravilhoso sistema operacional chamado:

PORTUGAL 2002 ENTERPRISE EDITION

Meu colega provavelmente percebeu rapidamente uma falha grave na minha formação.

Eu conhecia Pessoa.

Conhecia Saramago.

Conhecia alguma história portuguesa.

Mas desconhecia parte essencial do folclore contemporâneo nacional.

Era inadmissível.

Então veio o CD.

CD 17

Aquilo era praticamente um curso de integração cultural.

Esqueça treinamento corporativo.

Esqueça PowerPoint.

Esqueça Recursos Humanos.

O verdadeiro onboarding português estava num CD-R.

Eu coloquei aquilo no computador.

E comecei uma das mais curiosas aulas de antropologia da minha vida.

De repente várias frases que eu já havia ouvido começaram a fazer sentido.

Piadas que anteriormente passavam pelo meu ouvido sem autenticação receberam credenciais.

Referências televisivas começaram a encaixar.

Era como descobrir que você passou meses ouvindo chamadas para uma subrotina sem possuir o copybook.

Finalmente eu tinha o copybook.


🫏 O detalhe importante: em 2002 aquilo já era arqueologia

Treze anos haviam passado desde 1989.

Mas a história continuava viva.

Isso me impressionou.

Porque eu não estava simplesmente assistindo a um escândalo antigo.

Estava observando a transmissão de memória coletiva entre tecnologias.

Primeiro:

VHS

Depois:

cópia de VHS

Depois:

cópia da cópia da cópia

Depois:

digitalização

Depois:

CD-R

Depois:

MPG

Depois:

AVI

E então chegou a cavalaria.

🫏 eMule

Para quem não viveu aquela maravilhosa época, o eMule era uma espécie de biblioteca de Alexandria administrada por adolescentes, piratas digitais e computadores ligados durante 72 horas.

Você procurava Beethoven.

Recebia Beethoven.

Às vezes.

Nas outras ocasiões recebia alguma coisa chamada:

BEETHOVEN_COMPLETE_SYMPHONIES_FINAL_REAL_100_PERCENT.avi

E descobria que a humanidade tinha outros planos para sua noite.

Tomás Taveira encontrou ali sua segunda juventude digital.

O que havia circulado fisicamente em Lisboa agora poderia atravessar Portugal.

Brasil.

França.

Luxemburgo.

Suíça.

Qualquer lugar onde existisse um português emigrado, uma conexão ADSL e paciência suficiente.


🌍 A diáspora digital do VHS

Esse é provavelmente o aspecto mais fascinante.

A primeira geração conheceu o caso como acontecimento.

A segunda conheceu como cassete.

A terceira conheceu como arquivo.

A quarta conheceu como meme.

E a quinta talvez conheça apenas:

“Estudasses.”

Sem contexto.

Sem VHS.

Sem 1989.

Sem saber sequer quem era Tomás Taveira.

Isso é folclore.

Exatamente como uma expressão medieval pode sobreviver séculos depois de desaparecer o acontecimento que lhe deu origem.

Só que aqui conseguimos observar praticamente todas as etapas.


👨‍🏫 As duas biografias de Tomás Taveira

E aqui chegamos ao ponto que mais me fascina nessa história.

Tomás Taveira passou a possuir duas biografias simultâneas.

Biografia A — institucional

Arquiteto.

Professor.

Pós-modernismo.

MIT.

Olaias.

Amoreiras.

BNU.

Metro das Olaias.

Alvalade XXI.

Aveiro.

Leiria.

Projetos internacionais.

É uma carreira arquitetônica extensa e documentada.

Mas existe:

Biografia B — popular

A cassete.

As frases.

As imitações.

As músicas.

Os CDs.

Os AVI.

O eMule.

As piadas de café.

Os memes.

As referências que atravessaram gerações.

As duas biografias pertencem à mesma pessoa.

Mas vivem em bancos de dados culturais completamente diferentes.


🏟️ E a ironia tornou-se arquitetônica

Isso produz situações absolutamente surreais.

Você pode entrar numa obra projetada por Tomás Taveira sem conhecer Tomás Taveira.

Pode assistir futebol num estádio relacionado à sua obra.

Pode passar pelas Olaias.

Pode olhar as Amoreiras dominando parte da paisagem lisboeta.

E alguém ao seu lado pode conhecer apenas:

a piada.

Enquanto outro conhece apenas:

o arquiteto.

Dois portugueses podem falar do mesmo homem e aparentemente estar falando de pessoas completamente diferentes.

Esse é o verdadeiro fork.

TOMAS_TAVEIRA_ARCHITECT.EXE

e

TOMAS_TAVEIRA_FOLKLORE.EXE

Ambos continuam rodando.


📺 E o século XXI não executou DELETE

Esse talvez seja o detalhe mais extraordinário.

Era perfeitamente possível que tudo desaparecesse.

VHS deteriora.

CD-R deteriora.

Discos rígidos morrem.

Sites fecham.

Links quebram.

Servidores desaparecem.

Mas cultura popular possui redundância.

Uma pessoa guarda.

Outra copia.

Outra comenta.

Outra transforma em música.

Outra escreve num fórum.

Outra faz meme.

Outra pergunta:

“De onde vem essa história?”

E alguém responde.

A transmissão recomeça.

Décadas depois, o assunto ainda reaparece na imprensa e em produções culturais, enquanto discussões online continuam debatendo inclusive quais frases pertenciam realmente às gravações e quais foram acrescentadas posteriormente pela memória coletiva.

É quase um sistema distribuído.

Não existe servidor central.

Não existe administrador.

Não existe documentação.

Mas os dados sobrevivem.


🧠 O verdadeiro CD 17

Hoje percebo que aquele CD que recebi em 2002 não continha simplesmente arquivos.

Continha contexto cultural.

Meu colega do BPN estava realizando uma operação muito antiga.

A mesma operação pela qual pessoas transmitem lendas há milhares de anos.

Só havia mudado o suporte.

Antes:

“Meu avô contou ao meu pai.”

Depois:

“Tenho uma cassete.”

Em 2002:

“Leva este CD.”

Depois:

“Procura no eMule.”

Mais tarde:

“Procura no YouTube.”

Depois:

“Vi num meme.”

E provavelmente algum arqueólogo digital em 2126 encontrará uma referência perdida e perguntará:

“Mas afinal quem diabos era esse arquiteto?”


🎩 Groucho Marx fecha o arquivo

Groucho apaga o charuto.

Olha para as Amoreiras.

Olha para uma velha cassete VHS.

Olha para o CD 17.

Olha para um diretório perdido do eMule.

E finalmente declara:

“Passei a vida acreditando que a imortalidade exigia uma grande obra. Aparentemente também ajuda alguém esquecer uma cassete no lugar errado.”

E talvez essa seja a conclusão perfeita.

Tomás Taveira construiu edifícios destinados a durar décadas.

Mas paralelamente ajudou, involuntariamente, a construir algo muito mais difícil de demolir:

uma lenda popular.

Quando cheguei a Portugal em 2002, eu conhecia apenas a primeira camada daquele país.

O território.

A língua.

Os bancos.

Os cafés.

Os elétricos.

Fernando Pessoa.

Camões.

Depois veio o CD 17.

E compreendi uma verdade essencial sobre meu processo de alusitanamento:

um país não é feito apenas da história que coloca nos museus.

É feito também das histórias que conta baixinho.

Das piadas que atravessam gerações.

Dos bordões cuja origem ninguém mais sabe explicar.

Das músicas que escondem referências.

Das cassetes copiadas clandestinamente.

Dos CDs emprestados no escritório.

Dos arquivos que sobreviveram ao eMule.

E daquela pergunta inevitável que todo estrangeiro faz quando percebe que todos à mesa estão rindo menos ele:

“Espera… qual é a história?”

Foi assim que, em 2002, um colega do BPN colocou um CD-R na minha mão.

Eu pensava que estava recebendo um disco.

Na verdade estava recebendo Portugal — Disco 17 de instalação.

E aparentemente ainda faltavam os outros dezesseis.

ESTUDASSES. E agora quando ouvires uma musica xula com refrão mixado, todinho la dentro, saberá quem foi Tavera das Tascas.


https://andarilhovisitaportugal.blogspot.com/

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Herói, o Mainframe e a Misteriosa Pasta CD 17

 


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O Herói, o Mainframe e a Misteriosa Pasta CD 17

Uma aventura isekai para programadores COBOL iniciantes, administradores de sistemas e aventureiros que jamais deixariam a mãe abrir a pasta Downloads

Imagine a seguinte situação.

Você passou a noite inteira estudando COBOL, corrigindo um programa que insistia em encerrar com código de retorno 12 e tentando entender por que uma simples leitura de arquivo sequencial conseguia produzir mais suspense que uma temporada inteira de anime.

O relógio marcava 3h17 da manhã.

Ao lado do teclado, havia uma xícara de café já fria, um manual de JCL aberto na página errada e uma janela do navegador exibindo uma pesquisa extremamente profissional:

“Por que meu programa COBOL entra em loop infinito mesmo quando eu tenho certeza de que coloquei o fim do arquivo?”

Foi então que você decidiu sair de casa para comprar mais café.

Cinco minutos depois, apareceu o inevitável.

Não era um dragão.

Não era um demônio.

Não era um gerente de projetos perguntando se seria possível colocar mais uma pequena alteração em produção antes do almoço.

Era ele.

Caminhão-kun.

Depois de um encontro inesperado com a engenharia automotiva japonesa, você acordou diante de uma deusa de cabelos azuis, cercada por nuvens, colunas douradas e uma interface estranhamente parecida com um painel do ISPF.

Ela sorriu.

— Parabéns! Você terá a oportunidade de recomeçar sua vida em outro mundo!

Você olhou para a deusa.

Olhou para o portal mágico.

Olhou para a lista de habilidades especiais disponíveis.

E fez a única pergunta realmente importante:

— Alguém pode apagar meu HD?

A deusa piscou.

— Você não quer saber em qual mundo renascerá?

— Depois.

— Não quer escolher uma habilidade lendária?

— Mais tarde.

— Não quer se despedir de sua família?

— Claro que quero. Mas antes alguém precisa localizar a pasta CD 17.

A deusa consultou uma espécie de terminal celestial.

— O que existe nessa pasta?

Você se levantou assustado.

— Não execute um LISTCAT nisso!

E assim começa nossa jornada.





1. O último desejo da era digital

Nas histórias antigas, os heróis preocupavam-se com honra, legado, família e destino.

O guerreiro medieval pedia que sua espada fosse entregue ao filho.

O capitão solicitava que sua última carta chegasse à esposa.

O mago queria que seus grimórios fossem protegidos.

O protagonista moderno de isekai, entretanto, possui uma preocupação mais urgente:

“Destruam meu computador antes que alguém descubra quem eu realmente era.”

Essa piada aparece em inúmeras variações na cultura de anime, mangá, light novels, fóruns e memes:

  • apagar o histórico do navegador;

  • formatar o disco;

  • jogar o computador na banheira;

  • incinerar o equipamento;

  • destruir fisicamente o HD;

  • impedir que a mãe abra determinada pasta;

  • telefonar para um amigo de confiança;

  • pedir que ninguém examine a coleção de arquivos.

A força da piada está no fato de que o conteúdo jamais precisa ser revelado.

Cada espectador preenche o espaço em branco com suas próprias suspeitas.

Pode ser uma coleção de imagens constrangedoras.

Pode ser um arquivo com fanfictions.


Pode ser um conjunto de animes baixados em resolução duvidosa.

Pode ser uma pasta contendo centenas de fotografias, programas antigos, jogos, emuladores, documentos, projetos abandonados e arquivos chamados:

VERSAO_FINAL
VERSAO_FINAL_2
VERSAO_FINAL_AGORA_VAI
VERSAO_FINAL_DEFINITIVA
VERSAO_FINAL_DEFINITIVA_CORRIGIDA
VERSAO_FINAL_DEFINITIVA_CORRIGIDA_NOVA

Ou pode ser simplesmente a lendária:

CD 17

O nome perfeito.

Discreto.

Inocente.

Burocrático.

Tão genérico que não desperta suspeitas.

Ou, justamente por isso, desperta todas.


2. A arqueologia da pasta CD 17

Para quem nasceu na época do armazenamento em nuvem, um nome como CD 17 talvez pareça irrelevante.

Para quem viveu a era dos CD-R, CD-RW, gravadores de 2x, discos riscados e estojos empilhados, o nome carrega toda uma história tecnológica.

Antes de termos terabytes disponíveis em pequenos dispositivos, o armazenamento era escasso.

Um CD-ROM comum armazenava aproximadamente 650 ou 700 megabytes. Na época, isso parecia bastante espaço. Era possível gravar programas, fotografias, documentos, músicas, backups e coleções inteiras de arquivos.

Quando o conteúdo ultrapassava a capacidade de um disco, surgia uma sequência:

CD 01
CD 02
CD 03
CD 04
...
CD 17

O problema começava quando ninguém lembrava mais o que havia em cada mídia.

A pessoa então criava pastas temporárias no HD para preparar as gravações:

C:\GRAVAR\CD_15
C:\GRAVAR\CD_16
C:\GRAVAR\CD_17

O CD era gravado.

A pasta, entretanto, permanecia.

Depois recebia novos arquivos.

Cópias eram feitas.

Anos se passavam.

A origem do nome era esquecida.

A pasta transformava-se em um sítio arqueológico digital.

Dentro dela poderiam existir arquivos de 1998, 2001, 2007 e 2014 convivendo em perfeita desordem cronológica.

É como abrir uma biblioteca em que os livros foram guardados por um duende bêbado.

No mundo mainframe, porém, essa desorganização produziria imediatamente uma reunião de governança.

Alguém perguntaria:

— Quem é o proprietário do dataset?

Outro responderia:

— Não sabemos.

— Qual é a política de retenção?

— Também não sabemos.

— Há backup?

— Provavelmente.

— Onde?

— Talvez no CD 18.



3. O que a pasta CD 17 ensina sobre organização de dados

Por trás da piada existe uma lição séria para o programador COBOL iniciante.

Computadores não compreendem contexto emocional.

Eles não sabem que:

CD17

significa “arquivos importantes que eu não queria perder em 2002”.

Também não sabem que:

FINAL2

é mais recente que:

FINAL_NOVO

Os sistemas precisam de organização explícita.

No mainframe, essa preocupação aparece nos nomes de datasets, nas convenções da empresa, no catálogo, nas gerações de arquivos, nos layouts, nas descrições e nas políticas de retenção.

Um dataset pode possuir um nome como:

BELLACOS.CURSO.COBOL.ALUNOS

Esse nome já comunica uma hierarquia:

  • BELLACOS pode identificar o usuário, projeto ou aplicação;

  • CURSO representa uma área;

  • COBOL indica o contexto;

  • ALUNOS descreve o conteúdo.

Compare com:

BELLACOS.CD17

Tecnicamente válido em muitas convenções internas, talvez.

Explicativo, não.

Seguro para auditoria, definitivamente não.

Uma boa nomenclatura reduz dúvidas.

Exemplo:

BELLACOS.CURSO.COBOL.FONTE
BELLACOS.CURSO.COBOL.JCL
BELLACOS.CURSO.COBOL.COPY
BELLACOS.CURSO.COBOL.DADOS
BELLACOS.CURSO.COBOL.RELATORIO

O nome deve ajudar o próximo profissional.

Inclusive quando o próximo profissional for você mesmo, seis meses depois, olhando para o sistema como se tivesse sido desenvolvido por um feiticeiro irresponsável.


 

4. A deusa pergunta: “O que é COBOL?”

De volta ao mundo celestial, a deusa continuava tentando entender por que você estava tão preocupado.

— Afinal, o que você fazia naquele computador?

— Programava em COBOL.

Ela arregalou os olhos.

— Uma magia ancestral?

— Quase isso.

COBOL é uma linguagem criada com o objetivo de facilitar o desenvolvimento de aplicações voltadas ao processamento de dados comerciais.

Seu nome vem de:

COmmon Business-Oriented Language

Ou seja:

Linguagem Comum Orientada a Negócios

COBOL foi projetado para trabalhar com informações como:

  • clientes;

  • contas;

  • pagamentos;

  • folhas salariais;

  • seguros;

  • estoques;

  • transações;

  • registros financeiros;

  • arquivos corporativos;

  • relatórios;

  • processamento em lote.

Apesar de sua idade, COBOL continua relevante porque muitos sistemas críticos foram construídos ao longo de décadas e permanecem executando milhões ou bilhões de operações.

Uma aplicação COBOL não é necessariamente um programa isolado.

Ela pode participar de um ecossistema com:

  • JCL;

  • Db2;

  • CICS;

  • VSAM;

  • IMS;

  • MQ;

  • arquivos sequenciais;

  • utilitários;

  • schedulers;

  • sistemas de segurança;

  • rotinas de recuperação;

  • ferramentas de monitoramento.

Em outras palavras, aprender COBOL não significa apenas memorizar comandos.

Significa compreender como os dados entram, são processados, validados, transformados, armazenados e entregues.

É quase uma guilda de aventureiros.

Só que cada integrante da equipe possui uma função.

O COBOL realiza a lógica de negócio.

O JCL prepara o ambiente para a execução.

O Db2 armazena dados relacionais.

O VSAM organiza arquivos de acesso eficiente.

O CICS coordena transações online.

O RACF verifica quem tem permissão para invocar a magia.

E o operador observa tudo, silenciosamente, até alguém produzir um abend às três da manhã.



5. Primeiro programa: protegendo a CD 17

Vamos transformar nossa piada em um pequeno programa COBOL.

O objetivo será pedir ao usuário o nome de uma pasta e verificar se ela corresponde à área proibida.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. CD17CHK.

       ENVIRONMENT DIVISION.

       DATA DIVISION.
       WORKING-STORAGE SECTION.

       01  WS-NOME-PASTA        PIC X(30).
       01  WS-CD-SECRETO        PIC X(30)
                                VALUE 'CD 17'.

       PROCEDURE DIVISION.

       INICIO.
           DISPLAY 'INFORME O NOME DA PASTA:'
           ACCEPT WS-NOME-PASTA

           IF WS-NOME-PASTA = WS-CD-SECRETO
               DISPLAY 'ACESSO NEGADO.'
               DISPLAY 'NAO EXECUTE LISTCAT.'
               DISPLAY 'CHAME O AMIGO DE CONFIANCA.'
           ELSE
               DISPLAY 'PASTA LIBERADA PARA CONSULTA.'
           END-IF

           STOP RUN.

Para quem está começando, vamos analisar o programa.

IDENTIFICATION DIVISION

Aqui identificamos o programa:

PROGRAM-ID. CD17CHK.

É como registrar o nome do aventureiro na guilda.

DATA DIVISION

Nesta divisão descrevemos os dados usados pelo programa.

01 WS-NOME-PASTA PIC X(30).

Essa variável pode armazenar até 30 caracteres.

O prefixo WS costuma indicar que o item está na WORKING-STORAGE SECTION.

Não é uma obrigação da linguagem, mas uma convenção útil.

Depois definimos:

01 WS-CD-SECRETO PIC X(30)
                 VALUE 'CD 17'.

Essa variável já começa com o valor CD 17.

PROCEDURE DIVISION

Aqui está a lógica executável.

DISPLAY

mostra uma mensagem.

ACCEPT

recebe uma informação.

IF

testa uma condição.

STOP RUN

encerra o programa.

Simples, direto e muito mais seguro que confiar a tarefa a um personagem secundário de moral duvidosa.


6. O perigo de comparar textos em COBOL

Agora entra uma curiosidade importante.

Campos alfanuméricos possuem tamanho fixo.

Quando declaramos:

01 WS-NOME-PASTA PIC X(30).

o campo ocupa 30 posições.

Se o usuário digitar:

CD 17

o valor interno poderá ser entendido como:

CD 17

seguido por espaços até completar 30 posições.

Por isso, comparações entre campos de tamanhos diferentes exigem atenção.

Uma alternativa mais clara seria usar uma condição de nível 88:

       01  WS-NOME-PASTA        PIC X(30).

           88  PASTA-SECRETA
               VALUE 'CD 17'.

Então poderíamos escrever:

           IF PASTA-SECRETA
               DISPLAY 'PROTOCOLO DE DESTRUICAO INICIADO.'
           END-IF

O nível 88 não cria um novo espaço de armazenamento.

Ele cria um nome de condição associado a determinados valores.

Isso torna o código mais legível.

Compare:

IF WS-NOME-PASTA = 'CD 17'

com:

IF PASTA-SECRETA

A segunda forma parece quase uma frase.

Essa legibilidade é uma das características marcantes do COBOL.


7. O amigo caridoso e o processamento em lote

Na piada do isekai, o protagonista depende de uma alma caridosa para destruir o HD.

No mainframe, jamais deveríamos depender apenas de boa vontade.

Precisamos de processos.

Imagine um arquivo contendo uma lista de pastas a serem avaliadas:

DOCUMENTOS
FOTOS
PROJETOS
CD 17
BACKUP
ANIMES

Um programa batch poderia ler cada registro e produzir um relatório.

O fluxo seria:

INÍCIO
  |
ABRIR ARQUIVO
  |
LER REGISTRO
  |
FIM DO ARQUIVO?
  |            \
 NÃO            SIM
  |              |
VERIFICAR NOME   FECHAR ARQUIVO
  |              |
GERAR ALERTA     ENCERRAR
  |
LER PRÓXIMO

Em COBOL, a leitura clássica poderia ser estruturada assim:

       PERFORM ABRIR-ARQUIVOS

       PERFORM LER-PASTA

       PERFORM UNTIL FIM-DO-ARQUIVO
           PERFORM PROCESSAR-PASTA
           PERFORM LER-PASTA
       END-PERFORM

       PERFORM FECHAR-ARQUIVOS

Esse padrão é fundamental para quem começa em processamento batch.

Primeiro lemos um registro.

Depois repetimos o processamento até que o fim do arquivo seja encontrado.

Uma condição nível 88 pode representar o fim:

       01  WS-FIM-ARQUIVO       PIC X VALUE 'N'.

           88  FIM-DO-ARQUIVO
               VALUE 'S'.

           88  NAO-FIM-ARQUIVO
               VALUE 'N'.

Durante a leitura:

       READ ARQ-PASTAS
           AT END
               SET FIM-DO-ARQUIVO TO TRUE
       END-READ

Esse pequeno trecho contém uma das ideias mais importantes do COBOL: o programa trabalha continuamente com estados claros.

Fim ou não fim.

Registro válido ou inválido.

Transação aceita ou rejeitada.

Pasta comum ou CD 17.


8. JCL: convocando o programa para a aventura

Um programa COBOL compilado em ambiente mainframe normalmente precisa ser executado por meio de um job.

Exemplo simplificado:

//CD17JOB  JOB (ACCT),'BELLACOSA',
//             CLASS=A,
//             MSGCLASS=X,
//             NOTIFY=&SYSUID
//*
//STEP01   EXEC PGM=CD17CHK
//STEPLIB  DD DSN=BELLACOS.CURSO.LOAD,DISP=SHR
//SYSOUT   DD SYSOUT=*
//PASTAS   DD DSN=BELLACOS.CURSO.CD17.DADOS,DISP=SHR

Vamos traduzir.

//CD17JOB JOB

define o job.

//STEP01 EXEC PGM=CD17CHK

solicita a execução do programa.

//STEPLIB DD

indica onde o sistema pode localizar o módulo executável.

//SYSOUT DD SYSOUT=*

direciona mensagens para a saída do job.

//PASTAS DD

associa um nome lógico usado pelo programa a um dataset real.

Esse mecanismo é poderoso.

O programa COBOL não precisa necessariamente conhecer o nome físico completo do arquivo.

Ele pode trabalhar com um nome lógico definido no SELECT.

O JCL informa qual dataset será usado naquela execução.

É como entregar ao aventureiro um mapa diferente para cada missão, sem alterar a espada.


9. Segurança: por que “apagar o histórico” não é suficiente

Agora precisamos interromper a comédia por alguns minutos.

Destruir arquivos, formatar discos ou apagar históricos não garante necessariamente que os dados tenham desaparecido de forma irrecuperável.

Em ambientes profissionais, a eliminação de informações deve seguir políticas específicas.

Podem existir:

  • cópias de backup;

  • replicações;

  • snapshots;

  • logs;

  • versões anteriores;

  • arquivos temporários;

  • retenção obrigatória;

  • trilhas de auditoria;

  • cópias em outros equipamentos.

No mainframe, segurança e governança são assuntos centrais.

O acesso pode ser controlado por produtos como RACF, ACF2 ou Top Secret.

A pergunta correta não é apenas:

“Onde está o arquivo?”

Também precisamos perguntar:

“Quem pode acessá-lo?”

“Quem acessou?”

“Por quanto tempo ele deve existir?”

“Existe obrigação legal de preservá-lo?”

“Quem autorizou sua exclusão?”

Portanto, no mundo corporativo, o amigo caridoso que recebe o pedido “apague tudo” deveria responder:

— Existe uma requisição de mudança aprovada?

O protagonista, já diante da deusa, perceberia então que nem a morte consegue vencer o processo de governança.


10. Backup: a bênção e a maldição

A ironia máxima da pasta CD 17 é que ela provavelmente existe porque alguém tentou fazer backup.

Backup é essencial.

Mas um backup sem organização pode transformar-se em um labirinto.

Uma estratégia útil costuma considerar múltiplas cópias, mídias diferentes e pelo menos uma cópia armazenada fora do equipamento principal.

Também é importante testar a restauração.

Um backup que nunca foi restaurado é apenas uma promessa otimista.

No mainframe, cópias podem ser realizadas por diversos mecanismos, dependendo do tipo de dado e da infraestrutura.

Para datasets, bancos e arquivos, podem existir processos específicos de:

  • cópia;

  • dump;

  • restore;

  • image copy;

  • archive;

  • migração;

  • recuperação.

O ponto principal é simples:

O objetivo do backup não é criar cópias.
O objetivo do backup é permitir recuperação.

Se o conteúdo da CD 17 for importante, deve existir uma estratégia de restauração.

Se for constrangedor, talvez seja melhor perguntar por que ele foi replicado em nove mídias, dois HDs externos e um pendrive chamado DRAGON_BACKUP_FINAL.


11. Easter eggs para os iniciados

Como toda aventura digna do Bellacosa Mainframe, precisamos esconder algumas referências.

Easter egg 1: retorno 17

Em sistemas reais, códigos de retorno devem ser definidos e documentados.

Mas, em nossa aventura, o programa secreto poderia terminar assim:

MOVE 17 TO RETURN-CODE

Quem visse o resultado no job perguntaria:

— O que significa RC=17?

A resposta oficial seria:

— Condição não documentada.

A resposta verdadeira:

— Alguém encontrou a pasta.

Easter egg 2: dataset geracional

A CD 17 poderia evoluir para um GDG:

BELLACOS.SECRET.CD17.G0001V00
BELLACOS.SECRET.CD17.G0002V00
BELLACOS.SECRET.CD17.G0003V00

Assim, cada atualização criaria uma nova geração.

Porque nada demonstra arrependimento verdadeiro como manter várias versões históricas do material que você jurou apagar.

Easter egg 3: comentário suspeito

Todo código antigo possui um comentário semelhante a:

      * ALTERADO EM 1999 - NAO REMOVER

Ninguém sabe quem alterou.

Ninguém sabe por quê.

Ninguém remove.

A rotina permanece em produção até o ano de 2026.

Easter egg 4: o abend definitivo

Caso alguém tente abrir a pasta sem autorização:

S0C7

O famoso erro de dados inválidos.

Na narrativa, porém, ele significaria:

SECRET OCCULT CONTENT 7

Não procure essa definição em nenhum manual IBM.


12. Passo a passo para o COBOL iniciante não criar sua própria CD 17

Vamos encerrar com um pequeno guia prático.

Passo 1: use nomes compreensíveis

Evite:

01 A PIC X.
01 B PIC 9(05).
01 C PIC X(100).

Prefira:

01 WS-FIM-ARQUIVO       PIC X.
01 WS-TOTAL-REGISTROS   PIC 9(05).
01 WS-MENSAGEM-ERRO     PIC X(100).

Passo 2: documente a finalidade

Um comentário útil explica a intenção.

      * CONTROLA O ENCERRAMENTO DA LEITURA DO ARQUIVO.

Um comentário inútil apenas repete o comando.

      * MOVE ZERO PARA O TOTAL
       MOVE ZERO TO WS-TOTAL.

Passo 3: divida o processamento

Use parágrafos com responsabilidades claras:

1000-INICIALIZAR.
2000-LER-ARQUIVO.
3000-PROCESSAR-REGISTRO.
4000-GERAR-SAIDA.
9000-FINALIZAR.

Passo 4: trate erros

Não presuma que tudo funcionará.

Verifique:

  • status de arquivo;

  • códigos SQL;

  • condições de fim;

  • dados inválidos;

  • parâmetros ausentes;

  • resultados inesperados.

Passo 5: não esconda regras

Uma regra importante não deve estar enterrada em centenas de linhas.

Se CD 17 é proibida, declare isso claramente.

88 PASTA-PROIBIDA VALUE 'CD 17'.

Passo 6: pense no próximo mantenedor

O código será lido muitas vezes.

Às vezes, será lido por alguém que não conhece o sistema.

Às vezes, será lido por você mesmo após esquecer completamente o motivo de cada decisão.

Escreva como se o próximo programador fosse um aventureiro iniciante enviado para uma dungeon sem mapa.

Porque provavelmente será.


13. A verdadeira moral do isekai

No final, o herói foi enviado ao novo mundo.

Recebeu como habilidade especial a capacidade de compreender qualquer linguagem de programação antiga.

Infelizmente, a habilidade não incluía compreender requisitos mal escritos.

Ao chegar à primeira cidade, formou uma equipe composta por:

  • uma maga explosiva que compilava apenas uma vez por dia;

  • uma sacerdotisa com altíssima disponibilidade, mas nenhuma capacidade de recuperação;

  • uma cavaleira que aceitava todos os ataques e chamava isso de teste de carga;

  • uma deusa responsável pelo suporte técnico, mas que fechava os chamados como “erro do usuário”.

A primeira missão do grupo foi modernizar o sistema financeiro do reino.

O herói abriu o programa principal.

Encontrou 48 mil linhas de COBOL.

Nenhuma documentação.

Centenas de GO TO.

Arquivos com nomes incompreensíveis.

E um comentário no topo:

      * SISTEMA PROVISORIO - SUBSTITUIR NO PROXIMO ANO
      * CRIADO EM 1987

Ele respirou fundo.

Tomou um gole de café.

E disse:

— Talvez eu tenha sido atropelado por sorte.

Naquela noite, antes de dormir, perguntou à deusa se alguém havia cumprido seu último pedido no mundo anterior.

Ela abriu o painel celestial.

— Tenho boas e más notícias.

— Comece pelas boas.

— Seu amigo encontrou seu computador.

— E as más?

— Ele não apagou a pasta CD 17.

O herói empalideceu.

— Por quê?

— Porque encontrou dentro dela seus fontes COBOL, apostilas, fotografias de mainframes, wallpapers de anime, manuais antigos, scripts REXX, imagens do Johnny Castaway e um projeto chamado VERSAO_FINAL_AGORA_VAI.

O herói ficou em silêncio.

A deusa sorriu.

— Ele disse que aquilo não era uma pasta vergonhosa.

— Não?

— Era um museu.

E talvez essa seja a maior piada de todas.

Passamos décadas acumulando arquivos que parecem aleatórios, antigos ou embaraçosos. Porém, quando observados com distância, eles contam nossa história.

A pasta CD 17 não guarda apenas dados.

Ela guarda fases da vida.

Tecnologias que aprendemos.

Projetos que abandonamos.

Amizades.

Curiosidades.

Erros.

Descobertas.

Madrugadas diante do computador.

Versões antigas de quem fomos.

No mundo do mainframe, chamamos isso de legado.

Alguns usam a palavra como crítica.

Outros entendem que legado é aquilo que continuou funcionando tempo suficiente para se tornar importante.

Um sistema legado não é apenas velho.

Ele sobreviveu.

Foi alterado.

Corrigido.

Migrado.

Protegido.

Executado milhares de vezes.

Talvez a CD 17 seja exatamente isso:

Um pequeno sistema legado pessoal, sem documentação, com nomenclatura duvidosa, retenção indefinida e importância emocional impossível de calcular.

Portanto, antes de pedir que alguém incinere seu HD ao ser convocado para outro mundo, faça pelo menos três coisas:

Organize seus arquivos.

Documente o que importa.

E escolha muito bem a alma caridosa responsável pelo procedimento.

Porque, caso ela seja programadora COBOL, provavelmente não apagará nada.

Ela criará um backup.

Depois um GDG.

Depois uma cópia externa.

E finalmente um job diário chamado:

CD17BKP

Com DISP=SHR, NOTIFY=&SYSUID e retorno zero.

Afinal, neste mundo ou no próximo, todo verdadeiro profissional de mainframe sabe:

Dados importantes não desaparecem.
Eles apenas mudam de volume.

E o conteúdo da pasta CD 17?

Bem...

Essa informação está protegida por RACF.

ICH408I — ACESSO NEGADO.

Fim do job.

Ou talvez apenas o começo de uma nova aventura.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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