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quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Kojak Entra no CPD — O Dia em que um SQLCODE -911 Virou Suspeito e o Db2 Foi Chamado para Depor

 

Bellacosa Mainframe apresenta cobol e db2

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Kojak Entra no CPD — O Dia em que um SQLCODE -911 Virou Suspeito e o Db2 Foi Chamado para Depor

Ou: como COBOL, SQL, DBRM, BIND, PACKAGE, access path, COMMIT, ROLLBACK, locking, CICS e um programador iniciante descobriram que, no mainframe, até um SELECT tem antecedentes

Nova York, 1973.

Um policial careca, impecavelmente vestido, andando pelas ruas com um pirulito na boca começa a resolver crimes enquanto solta ironias e uma pergunta que se tornaria inseparável do personagem:

“Who loves ya, baby?”

Era o tenente Theo Kojak.

A série Kojak, criada por Abby Mann e protagonizada por Telly Savalas, estreou na CBS em 24 de outubro de 1973 e permaneceu originalmente no ar até 1978. (Paramount Press Express)

Curiosamente, Kojak surgiu antes da série: Telly Savalas interpretou o personagem no telefilme The Marcus-Nelson Murders, de 1973, que funcionou como origem do programa. (Los Angeles Times)

E existe algo profundamente mainframe em Kojak.

Ele não olha apenas para o cadáver.

Olha para quem entrou, quem saiu, quem tinha autorização, quem estava segurando o recurso, quem alterou o registro e por que aquela história aparentemente perfeita não combina com as evidências.

Troque a delegacia por um CPD.

Troque o assassinato por uma transação travada.

Troque as testemunhas por logs.

E dê ao tenente um terminal 3270.

Temos nosso novo investigador Db2.



Prólogo — 03:17, alguma coisa morreu em produção

O telefone toca.

O programador COBOL iniciante atende.

— Produção está parada.

Cinco palavras capazes de transformar café em combustível nuclear.

Ele abre o fonte.

EXEC SQL
    SELECT SALDO
      INTO :WS-SALDO
      FROM CONTA
     WHERE NUMERO = :WS-CONTA
END-EXEC.

Olha novamente.

Nada parece errado.

Compilou.

Ontem funcionava.

O programador conclui:

— Deve ser o banco.

A porta do CPD abre.

Um homem careca entra lentamente, coloca um pirulito na boca e observa o terminal.

— O banco, baby?

Silêncio.

— Vamos começar novamente. Quem executou o SQL?

E aí descobrimos nosso primeiro problema.



1. COBOL não executa SQL sozinho

Quando vemos:

EXEC SQL
    SELECT ...
END-EXEC

é fácil imaginar que SELECT seja uma instrução COBOL.

Não é.

COBOL e SQL são linguagens diferentes trabalhando juntas.

Podemos imaginar três responsabilidades:

COBOL
   │
   ├── lógica da aplicação
   ├── cálculos
   ├── decisões
   └── fluxo
          │
          ▼
         SQL
          │
          └── declara quais dados queremos
                    │
                    ▼
                   Db2
                    │
                    └── determina como obtê-los

O COBOL pode dizer:

“Preciso consultar o saldo desta conta.”

O SQL expressa:

SELECT SALDO
FROM CONTA
WHERE NUMERO = :WS-CONTA

E o Db2 precisa resolver como encontrar aquele registro eficientemente.

Kojak tira o pirulito da boca.

— Então temos três testemunhas. COBOL diz uma coisa, SQL pede outra e Db2 faz o trabalho pesado.

Exatamente.



2. O primeiro interrogatório: as Host Variables

Observe:

WHERE NUMERO = :WS-CONTA

Por que existe aquele :?

Porque WS-CONTA pertence ao programa hospedeiro.

É uma host variable.

Temos uma fronteira:

       COBOL                     SQL

    WS-CONTA ───────────────► :WS-CONTA

    WS-SALDO ◄─────────────── :WS-SALDO

No comando:

EXEC SQL
    SELECT SALDO
      INTO :WS-SALDO
      FROM CONTA
     WHERE NUMERO = :WS-CONTA
END-EXEC

WS-CONTA fornece informação.

WS-SALDO recebe informação.

Parece simples.

Até aparecerem:

  • tipos incompatíveis;

  • valores NULL;

  • indicator variables;

  • truncamentos;

  • conversões;

  • nenhuma linha;

  • múltiplas linhas.

Kojak aponta para WS-CONTA.

— Interrogue esse sujeito primeiro. Todo mundo culpa o Db2 antes de perguntar o que mandou para ele.

Primeira regra da investigação:

entrada errada produz investigação errada.


3. O crime aconteceu antes da execução

Nosso iniciante acredita que o fonte vai diretamente para o compilador COBOL.

Kojak balança a cabeça.

— Baby... tem alguém faltando nessa história.

Quando existe SQL embutido, o SQL precisa ser processado.

No fluxo tradicional, podemos representar:

COBOL + SQL
     │
     ▼
PRECOMPILE
     │
     ├────────────► DBRM
     │
     ▼
COBOL modificado
     │
     ▼
COBOL COMPILER
     │
     ▼
OBJECT
     │
     ▼
LINK-EDIT
     │
     ▼
LOAD MODULE

O processamento SQL e o processamento COBOL são coisas distintas.

E acabamos de encontrar nosso primeiro suspeito misterioso.

DBRM.


4. DBRM — o dossiê policial do SQL

DBRM significa Database Request Module.

Não é o executável COBOL.

Não é a tabela.

Não é o banco.

Não é o programa completo.

Uma maneira didática de imaginá-lo é como o dossiê contendo informações sobre as requisições SQL extraídas do programa para uso posterior pelo Db2.

A documentação IBM descreve o DBRM dentro justamente desse processo de preparação das instruções SQL para o bind. (Wikipedia)

Imagine:

PROGRAMA ABC123

SQL 001
SELECT SALDO...

SQL 002
UPDATE CONTA...

SQL 003
INSERT MOVIMENTO...

O Db2 precisará conhecer essas requisições.

O DBRM entra nessa história.

Kojak pega a pasta.

— Agora temos antecedentes.


5. BIND — agora leve o suspeito para a delegacia

Aqui aparece uma palavra que todo programador COBOL/Db2 precisa conhecer:

BIND.

Simplificando bastante, durante o bind o Db2 trabalha com as informações SQL preparadas anteriormente e produz aquilo que será necessário para executar o SQL estático.

Temos:

DBRM
  │
  ▼
BIND PACKAGE
  │
  ▼
PACKAGE

Agora nossa investigação começa a ficar interessante.

Porque significa que existem dois universos relacionados:

             APLICAÇÃO

        ┌───────────────┐
        │               │
        ▼               ▼
      COBOL            SQL
        │               │
        ▼               ▼
 LOAD MODULE          DBRM
                        │
                        ▼
                      BIND
                        │
                        ▼
                     PACKAGE

É perfeitamente possível que alguém diga:

“Mas o COBOL compilou!”

Ótimo.

Isso prova apenas uma parte da história.

Kojak sorri.

— Compilou? Muito bonito. Agora me mostre o package.


6. PACKAGE — o personagem que o iniciante quase nunca conhece

O package contém informações necessárias para a execução das instruções SQL estáticas associadas à aplicação.

E aqui ocorre uma mudança mental importante.

O programa executável e o SQL preparado possuem processos relacionados, mas distintos.

Portanto:

SOURCE
  │
  ├──────── COBOL ────────► LOAD MODULE
  │
  └──────── SQL ─► DBRM ─► BIND ─► PACKAGE

Na execução, esses mundos precisam conversar corretamente.

É por isso que um problema de Db2 pode existir mesmo quando o compilador COBOL não reclamou.

O compilador não é Sherlock Holmes.

Muito menos Kojak.


7. “Mas quem decidiu usar aquele índice?”

Chegamos ao grande interrogatório.

Considere:

SELECT NOME,
       LIMITE,
       SALDO
FROM CLIENTE
WHERE CPF = :WS-CPF

O programador declarou o que deseja.

Não escreveu:

vá para cilindro X
abra página Y
ande 37 posições
leia registro Z

Essa é uma das grandes diferenças entre programação procedural e acesso relacional.

O Db2 possui um optimizer.

Conceitualmente:

             SQL
              │
              ▼
          OPTIMIZER
              │
       ┌──────┼──────┐
       │      │      │
       ▼      ▼      ▼
   índices estatísticas cardinalidade
       │      │      │
       └──────┼──────┘
              ▼
         ACCESS PATH
              │
              ▼
          EXECUÇÃO

O optimizer avalia alternativas e custos.

Pode considerar índices.

Pode considerar outras estratégias.

O resultado dessa decisão é fundamental para performance.

Kojak olha para o programador:

— Você escreveu o SELECT. Mas não decidiu necessariamente como ele encontraria o sujeito.

Perfeito.


8. RUNSTATS — quando a testemunha está dizendo a verdade de 2019

Agora temos uma situação deliciosa.

O programa não mudou.

O SQL não mudou.

A tabela não mudou estruturalmente.

Mas o desempenho ficou horrível.

Como?

Imagine que o Db2 esteja tomando decisões baseado em informações estatísticas inadequadas ou desatualizadas.

É como Kojak perguntar:

— Quantas pessoas vivem neste prédio?

E alguém responder:

— Doze.

— Quando você contou?

— Em 1997.

Temos um problema.

As estatísticas ajudam o optimizer a compreender características dos dados.

Daí a importância de operações como RUNSTATS.

Isso nos ensina uma lição extraordinária:

Performance SQL não está inteiramente dentro do fonte SQL.

Ela depende do ecossistema.


9. Índice não é pó mágico

O iniciante aprende:

Índice deixa SELECT rápido.

Depois cria índice para tudo.

Parabéns.

Acabamos de transformar uma boa ideia em um novo incidente.

Índices possuem custo.

Precisam ser mantidos.

INSERT, UPDATE e DELETE podem ter trabalho adicional quando índices associados precisam ser atualizados.

Portanto:

MAIS ÍNDICES

      não significa automaticamente

MAIS PERFORMANCE

A pergunta é:

qual índice atende quais padrões reais de acesso?

Kojak provavelmente perguntaria:

— Esse índice estava onde na noite do crime?


10. O SQLCODE chega para depor

Executamos:

EXEC SQL
    SELECT SALDO
      INTO :WS-SALDO
      FROM CONTA
     WHERE NUMERO = :WS-CONTA
END-EXEC

E agora?

Precisamos saber o resultado.

Entra o SQLCODE.

Didaticamente:

SQLCODE = 0
     │
     └── sucesso

SQLCODE positivo
     │
     └── condição/warning

SQLCODE negativo
     │
     └── erro

Um programador iniciante pode fazer:

IF SQLCODE NOT = ZERO
    DISPLAY 'ERRO DB2'
END-IF.

Kojak quase engole o pirulito.

Porque os códigos precisam ser interpretados, não simplesmente classificados como “deu certo/deu errado”.

O famoso +100, por exemplo, normalmente indica ausência de linha correspondente ou fim do conjunto de resultados conforme a operação.

Isso pode ser perfeitamente normal.

Pesquisar cliente inexistente não significa necessariamente que o banco “quebrou”.


11. Até que aparece o cadáver: SQLCODE -911

Agora temos drama.

O programa retorna:

SQLCODE = -911

E alguém grita:

— Db2 caiu!

Não necessariamente.

Temos uma pista ligada a situações envolvendo rollback provocado por deadlock ou timeout, conforme o contexto e reason code.

Kojak sorri.

Finalmente um crime digno dele.

Imagine:

TRANSAÇÃO A

LOCK RECURSO 1
      │
      ▼
PRECISA RECURSO 2


TRANSAÇÃO B

LOCK RECURSO 2
      │
      ▼
PRECISA RECURSO 1

Temos:

A espera B

B espera A

Os dois poderiam esperar até a aposentadoria do programador.

O sistema precisa resolver a situação.

Bem-vindo ao mundo de locking, timeout e deadlock.


12. ACID — a divisão de crimes financeiros

Imagine uma transferência:

CONTA A = 1000
CONTA B =  500

TRANSFERÊNCIA = 100

Queremos terminar:

A = 900
B = 600

Não queremos:

A = 900
B = 500

porque o sistema caiu no meio.

É aqui que as propriedades ACID entram em cena:

Atomicity — a unidade lógica precisa ser tratada de maneira indivisível quanto ao resultado transacional.

Consistency — regras de consistência devem permanecer válidas.

Isolation — transações concorrentes precisam coexistir sob regras controladas.

Durability — depois da confirmação, os resultados precisam possuir as garantias de persistência esperadas.

Esse não é detalhe acadêmico.

É o motivo pelo qual você consegue dormir depois de transferir dinheiro pelo banco.


13. COMMIT — pode liberar os suspeitos

Considere:

UPDATE CONTA A
       │
       ▼
UPDATE CONTA B
       │
       ▼
INSERT MOVIMENTO
       │
       ▼
     COMMIT

O COMMIT delimita a confirmação apropriada daquela unidade de trabalho.

Mas imagine:

UPDATE A       OK
UPDATE B       OK
INSERT         ERRO

Dependendo da lógica e do contexto transacional, podemos precisar desfazer alterações.

Entra:

ROLLBACK

Portanto:

        UNIT OF WORK

UPDATE
   │
UPDATE
   │
INSERT
   │
   ├──── tudo correto ───► COMMIT
   │
   └──── problema ───────► ROLLBACK

Essa dupla é parte central da engenharia transacional.


14. COMMIT também é performance

Agora vem uma sutileza importante.

Alguns iniciantes imaginam COMMIT apenas como:

salvar alterações.

Mas unidades de trabalho também estão relacionadas à utilização e liberação de determinados recursos e locks.

Imagine um batch processando:

10 registros
100 registros
10.000 registros
10.000.000 registros

sem pensar adequadamente na estratégia de commit.

Ele pode manter recursos por períodos indesejáveis, afetar concorrência e complicar recuperação.

Logo, frequência de commit não deveria ser escolhida com:

COMMIT a cada 1000

simplesmente porque alguém encontrou esse número num programa de 1987.

A estratégia depende da aplicação.


15. Então chega o CICS à delegacia

Até agora poderíamos estar pensando em batch.

Mas coloque a aplicação em ambiente transacional:

CLIENTE
   │
   ▼
CICS
   │
   ▼
PROGRAMA COBOL
   │
   ▼
SQL
   │
   ▼
DB2

Agora milhares de usuários podem executar transações.

Temos simultaneamente:

CICS transaction 001 ──┐
CICS transaction 002 ──┤
CICS transaction 003 ──┼──► Db2
CICS transaction 004 ──┤
CICS transaction 005 ──┘

Nesse momento, locking deixa de ser um capítulo de apostila.

Vira sobrevivência.


16. COBOL + Db2 Connect? Cuidado com essa simplificação

O infográfico original apresenta conceitualmente uma camada intermediária chamada Db2 Connect.

Aqui Kojak levantaria uma sobrancelha.

Db2 Connect não deve ser ensinado como passagem obrigatória de todo programa COBOL local no z/OS para Db2.

Dependendo do ambiente, temos diferentes mecanismos de attachment e execução.

Batch, CICS, IMS, TSO e aplicações distribuídas podem envolver arquiteturas diferentes.

Portanto:

COBOL → DB2 Connect → Db2

não é uma representação universal.

Esse é exatamente o tipo de simplificação que funciona num infográfico 101, mas precisa ser desmontada quando o aluno chega ao nível 201.


17. “COBOL cuida da regra; Db2 cuida dos dados”

Boa explicação.

Mas incompleta.

No mundo real, Db2 também possui recursos relacionados a:

  • constraints;

  • integridade referencial;

  • views;

  • triggers;

  • stored procedures;

  • functions.

Então podemos pensar:

COBOL
 │
 ├── fluxo
 ├── cálculo
 ├── regras da aplicação
 └── orquestração

DB2
 │
 ├── persistência
 ├── integridade
 ├── concorrência
 ├── recuperação
 ├── otimização
 └── acesso relacional

As responsabilidades precisam ser projetadas.

Não simplesmente presumidas.


18. Static SQL e Dynamic SQL entram na sala

Nosso exemplo:

EXEC SQL
    SELECT SALDO
    ...
END-EXEC

é um exemplo clássico de SQL embutido estático.

Conceitualmente:

STATIC SQL

conhecido durante
preparação/deployment
       │
       ▼
processamento
       │
       ▼
DBRM
       │
       ▼
BIND
       │
       ▼
PACKAGE

Mas existe SQL dinâmico.

Podemos ter situações nas quais a instrução é preparada durante a execução usando mecanismos como PREPARE e EXECUTE.

Isso oferece flexibilidade, mas muda aspectos da preparação e execução.

Novamente:

não existe “um é sempre melhor”.

Existe:

qual mecanismo atende melhor ao problema?


19. O crime perfeito: SELECT *

Kojak encontra:

SELECT *
FROM CLIENTE

Olha para o programador.

Olha novamente para a tela.

— Você precisa de todas essas colunas?

— Não.

— Então por que pediu?

Silêncio.

Essa pergunta vale ouro.

Evite transportar dados desnecessários.

Se precisa de:

NOME
SALDO

não peça quarenta colunas simplesmente porque:

SELECT *

é mais rápido de digitar.

Cinco segundos economizados na programação podem gerar trabalho desnecessário repetido milhões de vezes em produção.


20. Outro suspeito: SELECT dentro de LOOP

Agora Kojak encontra:

PERFORM 100000 TIMES

       SELECT ...

END-PERFORM

Acende a luz da sala de interrogatório.

Dependendo do problema, isso pode representar enorme quantidade de chamadas e processamento que talvez pudesse ser resolvida por uma estratégia SQL muito melhor.

O erro conceitual é tratar banco relacional como arquivo sequencial:

LEIA
LEIA
LEIA
LEIA
LEIA

SQL trabalha naturalmente com conjuntos.

Essa mudança de pensamento é enorme para quem vem de COBOL procedural.


21. Não coloque toda a investigação num único SQL monstruoso

Mas existe o extremo oposto.

Alguém aprende que SQL trabalha com conjuntos e produz:

SELECT
 JOIN
  JOIN
   JOIN
    CASE
     CASE
      SUBQUERY
       UNION
        CTE
         FUNCTION
          JOIN
           ...

O SQL parece o mapa genealógico de Game of Thrones.

SQL complexo não é automaticamente ruim.

Às vezes uma operação sofisticada no banco é exatamente a solução correta.

Mas complexidade precisa possuir justificativa.

Legibilidade importa.

Manutenção importa.

Performance importa.

Testabilidade importa.


22. EXPLAIN — reconstruindo a cena do crime

Se queremos investigar desempenho, precisamos saber mais sobre o access path.

É aí que conceitos relacionados ao EXPLAIN tornam-se fundamentais.

O objetivo é investigar como o Db2 pretende ou decidiu acessar os dados, conforme o cenário analisado.

Você começa a procurar pistas:

INDEX?
TABLESPACE SCAN?
JOIN METHOD?
JOIN ORDER?
ESTIMATIVAS?
SORT?

Kojak coloca fotografias na parede.

Agora temos uma investigação de verdade.

O programador deixa de dizer:

“Esse SELECT está lento.”

E começa a perguntar:

“Qual access path está sendo utilizado e por quê?”

Essa diferença separa palpite de diagnóstico.


23. O verdadeiro CPD aparece

Finalmente afastamos a câmera.

O programador pensava que estava trabalhando com:

COBOL + DB2

Mas agora enxerga:

                    z/OS
                      │
       ┌──────────────┼──────────────┐
       │              │              │
      JES2           CICS           Db2
       │              │              │
      JCL            COBOL          SQL
       │              │              │
    datasets           ├──────────────┤
                       │              │
                       MQ          PACKAGE
                       │              │
                      API         OPTIMIZER
                                      │
                                  ACCESS PATH
                                      │
                              ┌───────┴───────┐
                              │               │
                           INDEXES          TABLES

E ainda não terminamos.

Ao redor estão:

RACF
SMF
WLM
TCP/IP
LOGS
RECOVERY
BACKUP
MONITORAMENTO
PARALLEL SYSPLEX

Agora entendemos por que profissionais podem trabalhar décadas com mainframe e continuar aprendendo.


24. Kojak finalmente resolve o caso

Voltamos às 03:17.

O programa estava correto.

O SQL também.

O Db2 estava disponível.

O problema estava relacionado à concorrência.

Outra unidade de trabalho estava mantendo recursos necessários.

A transação esperou.

O limite foi atingido.

O SQL recebeu erro.

O programa não possuía tratamento suficientemente inteligente.

A mensagem apresentada ao operador foi:

ERRO NO BANCO

Ou seja:

o único inocente da investigação talvez fosse justamente “o banco”.

Kojak olha para o programador.

— Então você acusou Db2 sem verificar SQLCODE, reason code, locks, unidade de trabalho e logs?

— Sim.

Kojak coloca o pirulito na boca.

— Who loves ya, baby?


🍭 Easter egg — por que Kojak usa pirulito?

Esse detalhe é perfeito para nossa história.

O pirulito não nasceu simplesmente como um adereço aleatório inventado pelo departamento de marketing. Telly Savalas contou posteriormente que a ideia surgiu numa situação em que uma personagem queria que Kojak parasse de fumar e lhe entregava um pirulito; o detalhe pegou e tornou-se uma das marcas visuais do personagem. (Los Angeles Times)

Na própria série, o pirulito apareceu durante a primeira temporada e acabou associado à tentativa de reduzir o cigarro. (Wikipedia)

Ou seja:

pequena decisão
      │
      ▼
efeito inesperado
      │
      ▼
torna-se característica permanente

Qualquer semelhança com sistemas legados é absolutamente maravilhosa.

Um programador em 1984 cria:

05 WS-FLAG PIC X.

para resolver temporariamente um problema.

Quarenta anos depois:

“Não mexa no WS-FLAG. Ninguém sabe exatamente por quê, mas o fechamento mensal depende dele.”

😂


25. A lição que Kojak deixaria ao programador COBOL

O grande erro de quem começa no mainframe é imaginar que aprender COBOL significa aprender sintaxe:

MOVE
COMPUTE
IF
EVALUATE
PERFORM

Isso é apenas a porta de entrada.

Depois vem:

COBOL
  +
JCL
  +
Db2
  +
CICS
  +
VSAM
  +
MQ
  +
RACF
  +
JES2
  +
WLM
  +
SMF
  +
z/OS

E finalmente você percebe:

o sistema corporativo não é um programa. É um ecossistema de componentes cooperando.

O SELECT SALDO que parece possuir cinco linhas pode envolver host variables, processamento SQL, DBRM, package, optimizer, estatísticas, índices, buffer management, locking, logging, segurança, recuperação e infraestrutura antes de devolver alguns bytes para WS-SALDO.

Essa é uma das coisas mais bonitas do mainframe.

Na superfície:

EXEC SQL
   SELECT SALDO
   INTO :WS-SALDO
...
END-EXEC.

Debaixo:

               50 ANOS
                  DE
             ENGENHARIA
                  │
                  ▼
             WS-SALDO

O programador olha para a variável.

Depois olha para Kojak.

Finalmente compreendeu.

Não basta perguntar:

“O programa compilou?”

É preciso investigar:

Qual SQL executou? Qual SQLCODE retornou? Qual package? Qual access path? As estatísticas estão adequadas? Existe índice apropriado? Houve locking? Timeout? Deadlock? Onde começa e termina a unidade de trabalho? Houve COMMIT? O que os logs mostram?

Porque produção não aceita álibi.

Produção aceita evidência.

Kojak se levanta, pega o sobretudo e caminha para a porta do CPD.

O programador pergunta:

— Tenente, e se amanhã aparecer outro -911?

Kojak sorri.

— Agora você sabe interrogar os suspeitos, baby.

E sai.

Na mesa fica apenas um pirulito, um dump, três relatórios de performance e um post-it:

****************************************
* NÃO CULPE O DB2 ANTES DO EXPLAIN.    *
****************************************

Fim do JOB.

IEF404I KOJAK - ENDED
IEF142I KOJAK STEP01 - COND CODE 0000

E, pela primeira vez naquela madrugada, ninguém precisou dar ROLLBACK no café. ☕🍭

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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