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sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Uma aula com a lendaria Grace Hopper

Bellacosa Mainframe e a lendaria Grace Hopper

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Grace Hopper: a mulher que ensinou o computador a falar com humanos

⚓ Este vídeo é uma pequena olhadela na didática de uma mulher lendária que ajudou a criar o mundo da informática em que vivemos hoje

Existe uma coisa curiosa quando assistimos a vídeos antigos de grandes nomes da computação.

Esperamos encontrar dinossauros tecnológicos.

Pessoas falando sobre máquinas que ocupavam salas inteiras, fitas magnéticas, cartões perfurados, memórias medidas em kilobytes e computadores cuja capacidade hoje seria humilhada por uma cafeteira conectada ao Wi-Fi.

Então aparece Grace Hopper.

E alguns minutos depois acontece algo desconcertante:

ela não parece antiga.

A máquina atrás dela pode ser antiga.

O uniforme pode denunciar outra época.

O vocabulário técnico pode carregar o cheiro de válvula, relé e papel contínuo.

Mas a maneira como Grace Hopper explica uma ideia complicada através de alguma coisa que qualquer pessoa consegue visualizar continua absolutamente moderna.

E talvez essa seja uma das partes menos lembradas de seu legado.

Grace Hopper não ajudou apenas a ensinar computadores a compreender linguagens mais próximas das pessoas.

Ela também passou décadas fazendo exatamente o movimento inverso:

ensinando pessoas a compreender computadores.


👩‍✈️ Antes de tudo: quem diabos foi Grace Hopper?

Grace Brewster Murray Hopper nasceu em 9 de dezembro de 1906, em Nova York.

Matemática.

Cientista da computação.

Professora.

Oficial da Marinha dos Estados Unidos.

Programadora.

Pioneira dos compiladores.

Uma das figuras fundamentais na evolução das linguagens de programação.

E, para nós que vivemos naquele maravilhoso pântano corporativo chamado mainframe, existe ainda outra ligação particularmente importante:

COBOL.

Grace Hopper foi uma das grandes defensoras da ideia de que computadores não deveriam ser programados exclusivamente através de códigos quase incompreensíveis para seres humanos.

Isso parece óbvio em 2026.

Em sua época?

Nem um pouco.


🦖 Imagine programar quando programação ainda estava sendo inventada

Hoje alguém abre Python e escreve:

print("Hello World")

Outro sujeito abre seu editor e escreve COBOL:

DISPLAY 'HELLO WORLD'.

E um terceiro abre Java, instala 14 dependências, baixa 800 megabytes e inicia uma discussão no Stack Overflow.

Brincadeiras à parte, existe uma ideia gigantesca escondida nisso:

nós escrevemos instruções usando abstrações compreensíveis para humanos.

O computador não entende realmente aquilo.

Existe uma enorme infraestrutura traduzindo nossas intenções para alguma coisa que a máquina consiga executar.

Essa ponte parece natural porque nascemos depois dela.

Grace Hopper viveu antes da ponte existir.

E ajudou a construí-la.


⚙️ Harvard Mark I: quando computador parecia locomotiva

Durante a Segunda Guerra Mundial, Hopper entrou para a Reserva Naval dos Estados Unidos e acabou trabalhando com o Harvard Mark I, sob a liderança de Howard Aiken.

O Mark I era uma criatura extraordinária.

Imagine uma mistura de:

  • computador;

  • central telefônica;

  • relógio gigantesco;

  • painel industrial;

  • máquina contábil;

  • e cenário perfeito para um cientista maluco de filme dos anos 1940.

Programar aquilo estava muito distante da experiência moderna.

Não havia VS Code.

Não havia GitHub.

Não havia Stack Overflow.

Não havia:

“Chat, por que meu programa está dando S0C7?”

Você estava praticamente conversando diretamente com a máquina.

E Hopper percebeu uma coisa fundamental.

Aquilo não poderia continuar assim para sempre.


🧠 “Mas computadores só entendem números!”

Essa talvez seja uma das características mais interessantes dos pioneiros.

Eles precisam lutar contra ideias que posteriormente parecem absurdas.

Quando Hopper começou a defender linguagens mais próximas da linguagem humana, existia resistência.

Computadores eram máquinas matemáticas.

Portanto, segundo aquela visão, programadores deveriam falar a língua das máquinas.

Grace Hopper virou a pergunta de cabeça para baixo:

Por que obrigar milhares ou milhões de pessoas a aprender a linguagem da máquina quando podemos ensinar a máquina a compreender melhor nossa linguagem?

Essa inversão filosófica mudou tudo.


🔧 O compilador

No começo dos anos 1950, Hopper trabalhou no que se tornaria um dos primeiros compiladores, associado ao sistema A-0.

Hoje a palavra parece banal.

Compilador.

Para quem trabalha com COBOL:

SOURCE
   ↓
COMPILER
   ↓
OBJECT
   ↓
LINK
   ↓
LOAD MODULE

Segunda-feira.

Mas pense conceitualmente.

Você escreve algo conveniente para um humano.

Outra camada transforma aquilo em algo conveniente para uma máquina.

Isso representa uma transferência gigantesca de complexidade.

Em vez de:

HUMANO → adapta-se completamente à máquina

passamos progressivamente para:

HUMANO → abstração → tradução → máquina

Boa parte da história da computação posterior é uma gigantesca expansão dessa ideia.


🗣️ FLOW-MATIC: fazendo computadores entenderem negócios

Outro passo importantíssimo foi o FLOW-MATIC, desenvolvido na década de 1950.

Hopper percebeu que pessoas trabalhando com negócios pensavam em conceitos como:

CLIENTE
SALDO
FATURA
PAGAMENTO
ESTOQUE
TOTAL
VENCIMENTO

Não em registradores, opcodes e endereços de memória.

Isso parece quase ridiculamente evidente agora.

Mas essa mudança de perspectiva foi revolucionária.

FLOW-MATIC utilizava comandos próximos do inglês e influenciaria profundamente aquilo que viria depois.

E então chegamos ao nosso velho conhecido.


🦕 COBOL entra na sala

Em 1959 surgiu o esforço que levaria ao COBOL — Common Business-Oriented Language.

Grace Hopper não “inventou sozinha o COBOL”, simplificação histórica que frequentemente aparece na internet.

COBOL foi resultado de um esforço coletivo envolvendo o CODASYL e diversos especialistas e organizações.

Mas Hopper e o trabalho desenvolvido anteriormente por sua equipe foram influências fundamentais para a filosofia que tornou COBOL possível.

Especialmente uma ideia:

programas empresariais deveriam ser legíveis por pessoas que compreendessem o negócio.

Por isso encontramos coisas como:

IF CUSTOMER-BALANCE > CREDIT-LIMIT
    DISPLAY 'CREDIT LIMIT EXCEEDED'
END-IF

Você pode odiar COBOL.

Pode chamá-lo de velho.

Pode fazer piadas sobre dinossauros.

Mas leia aquilo novamente.

Um programa escrito décadas atrás pode continuar sendo razoavelmente compreensível por alguém que conhece inglês e lógica.

Isso não aconteceu por acidente.


☕ Bellacosa entra no CPD

Agora imagine Grace Hopper entrando num CPD moderno.

Ela encontra:

z/OS.

LinuxONE.

Containers.

APIs.

Java.

Python.

COBOL 6.x.

Db2.

CICS.

MQ.

z/OS Connect.

Git.

CI/CD.

Inteligência artificial generativa.

Um jovem programador provavelmente tentaria explicar tudo:

“Admiral, agora usamos inteligência artificial generativa integrada a pipelines DevOps orientados a APIs dentro de arquiteturas híbridas cloud-native…”

Hopper provavelmente interromperia:

“Muito bem. O que isso resolve?”

Silêncio na sala.

Porque uma das características mais fascinantes de sua didática era justamente transformar abstrações em coisas concretas.


📏 O famoso nanossegundo

E aqui chegamos ao vídeo e à parte que considero deliciosa.

Grace Hopper tornou-se famosa por utilizar pedaços de fio para demonstrar fisicamente conceitos relacionados ao tempo computacional.

Ela mostrava aproximadamente a distância que a luz percorre em um nanossegundo:

cerca de 30 centímetros.

De repente:

1 nanossegundo

deixava de ser apenas:

0,000000001 segundo

Era uma coisa que você podia segurar na mão.

Isso é didática.

Não é simplificar estupidamente o assunto.

É encontrar uma representação capaz de conectar um conceito abstrato ao modelo mental do aluno.


🧵 “Aqui está seu nanossegundo”

Imagine uma palestra moderna.

Slide 1:

Digital Transformation Journey

Slide 2:

AI-Driven Hybrid Multicloud Cognitive Enterprise

Slide 3:

um diagrama com 87 caixas.

Slide 4:

ninguém sabe mais onde estamos.

Grace Hopper aparece.

Tira um pedaço de fio.

“Isto é aproximadamente um nanossegundo.”

Pronto.

A sala inteira compreendeu.

É quase ofensivamente eficiente.


🧠 Informação não é conhecimento

Existe uma lição enorme nisso para quem ensina tecnologia.

Podemos colocar num PowerPoint:

1 ns = 10⁻⁹ s

Tecnicamente perfeito.

Didaticamente esquecível.

Ou podemos entregar aproximadamente 30 centímetros de fio para alguém e dizer:

“Durante esse intervalo minúsculo, nem mesmo a luz consegue viajar muito mais do que isto.”

Agora existe uma imagem mental.

Daqui a vinte anos aquela pessoa talvez tenha esquecido a apresentação inteira.

Mas provavelmente lembrará:

do maldito pedaço de fio.


🐛 E naturalmente precisamos falar do bug

Nenhum artigo sobre Grace Hopper consegue escapar dessa história.

Em 1947, trabalhando com o Harvard Mark II, a equipe encontrou uma mariposa presa em um relé.

O inseto foi colocado no registro de operações acompanhado da famosa anotação:

“First actual case of bug being found.”

A história frequentemente vira:

“Grace Hopper inventou o termo bug.”

Não.

O termo bug já era utilizado anteriormente para problemas e defeitos técnicos.

A graça do episódio está justamente no trocadilho:

pela primeira vez havia literalmente um inseto dentro do computador.

E poucas histórias representam tão perfeitamente a cultura hacker original quanto abrir uma máquina, encontrar uma mariposa e colá-la no log.


😂 O primeiro ticket de suporte zoológico

Podemos imaginar:

INCIDENT: SYSTEM FAILURE

SEVERITY: HIGH

ROOT CAUSE:
MOTH

CORRECTIVE ACTION:
REMOVE MOTH

STATUS:
RESOLVED

MAXCC=0.

Problema encerrado.


⚓ Amazing Grace

Hopper permaneceu ligada à Marinha durante décadas e alcançou o posto de Rear Admiral.

Quando finalmente se aposentou definitivamente em 1986, tinha 79 anos.

Pense nisso.

Uma mulher nascida em 1906 participou da computação desde máquinas eletromecânicas gigantescas até uma época em que computadores pessoais já estavam entrando nas casas.

Ela atravessou praticamente uma era geológica da informática.

Mark I.

Compiladores.

FLOW-MATIC.

COBOL.

Mainframes.

Minicomputadores.

Computadores pessoais.

Redes.

E continuava ensinando.


👩‍🏫 Talvez este seja o legado escondido de Grace Hopper

Normalmente lembramos dela através de palavras enormes:

pioneira.

compiladores.

COBOL.

Marinha.

Mark I.

FLOW-MATIC.

Tudo correto.

Mas quando vejo aqueles vídeos antigos, outra coisa me chama atenção.

Grace Hopper sabia contar histórias.

Ela compreendia algo que muitos especialistas esquecem:

saber uma coisa não significa saber ensiná-la.

Conhecimento técnico e capacidade didática são habilidades diferentes.

Você pode conhecer profundamente arquitetura de computadores e ser incapaz de explicar memória virtual para um iniciante.

Pode conhecer CICS profundamente e transformar uma apresentação de 40 minutos em um instrumento de tortura reconhecido pela Convenção de Genebra.

Ou pode pegar algo abstrato e dizer:

“Veja este pedaço de fio.”

E mudar para sempre a maneira como alguém compreende computadores.


🤖 De Grace Hopper à inteligência artificial

Existe ainda uma ironia maravilhosa.

Grande parte da evolução da computação pode ser interpretada como uma tentativa contínua de reduzir a distância entre:

INTENÇÃO HUMANA
       ↓
    MÁQUINA

Primeiro:

MACHINE CODE

Depois:

ASSEMBLY

Depois:

LINGUAGENS DE ALTO NÍVEL

Depois:

COBOL
FORTRAN
C
JAVA
PYTHON

E agora chegamos a:

"Crie um programa que leia este arquivo,
valide os clientes e gere um relatório."

E uma IA tenta transformar intenção humana em software.

Não é a mesma tecnologia.

Não é uma linha evolutiva simples.

Mas filosoficamente existe uma conexão fascinante.

Continuamos tentando fazer a máquina caminhar em nossa direção.

Grace Hopper certamente reconheceria essa velha batalha.


🦖 E o COBOL continua respirando

Existe também algo deliciosamente irônico para quem trabalha com mainframe.

Durante décadas anunciaram:

“COBOL vai morrer.”

COBOL:

IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. NAO-MORRI.

Ano seguinte:

“Agora definitivamente vai morrer.”

COBOL:

DISPLAY 'CONTINUO AQUI'.

Chegam cloud, APIs, microsserviços, DevOps e IA.

COBOL olha para seus bilhões de linhas processando bancos, seguradoras, governos e grandes corporações e pergunta:

“Terminou?”

Talvez a longevidade tenha alguma relação justamente com aquela obsessão inicial de Hopper e seus contemporâneos:

software deveria representar problemas humanos de maneira compreensível.


☕ O pedaço de fio deveria estar em toda sala de treinamento

Para mim, esta pequena olhadela na didática de Grace Hopper vale mais do que dezenas de apresentações corporativas.

Porque existe ali uma lição para qualquer pessoa que ensine tecnologia.

Quando alguém não entende algo, nossa primeira reação costuma ser adicionar informação.

Mais slides.

Mais palavras.

Mais diagramas.

Mais documentação.

Grace Hopper frequentemente fazia o contrário.

Ela procurava a imagem certa.

O objeto certo.

A analogia certa.

A história certa.

O famoso nanossegundo transformado em fio representa perfeitamente essa filosofia.


🎓 A verdadeira transformação digital

Talvez Grace Hopper tenha participado de uma transformação muito maior do que simplesmente criar ferramentas melhores.

Ela ajudou a mudar nossa concepção sobre quem deveria adaptar-se a quem.

No começo:

HUMANO
  ↓
precisa compreender
  ↓
MÁQUINA

Progressivamente:

HUMANO
   ↕
LINGUAGEM
   ↕
COMPILADOR
   ↕
MÁQUINA

Hoje acrescentamos outra camada:

HUMANO
   ↕
LINGUAGEM NATURAL
   ↕
IA
   ↕
SOFTWARE
   ↕
MÁQUINA

A distância continua diminuindo.

E isso torna aquela mulher segurando um pedaço de fio décadas atrás estranhamente contemporânea.


🌌 Um nanossegundo depois...

Grace Hopper morreu em 1º de janeiro de 1992, aos 85 anos.

Não viu smartphones.

Não viu cloud computing.

Não viu Kubernetes.

Não viu ChatGPT.

Não viu um programador conversando em português com uma inteligência artificial às duas da manhã sobre COBOL.

Talvez seja melhor não explicar Kubernetes logo de cara.

Mas ela viveu tempo suficiente para assistir a uma ideia considerada quase absurda tornar-se normal:

pessoas comuns poderiam dizer aos computadores o que desejavam utilizando linguagens progressivamente mais humanas.

Hoje fazemos isso diariamente.

E raramente pensamos nas pessoas que abriram essa estrada.

Por isso vale assistir ao vídeo.

Não apenas como curiosidade histórica.

Observe como Grace Hopper fala.

Observe as analogias.

Observe os objetos.

Observe o humor.

Observe como ela pega algo invisível — tempo computacional — e coloca aquilo praticamente na mão da plateia.

Porque naquele momento não estamos vendo apenas uma pioneira da computação.

Estamos vendo uma professora.

Uma lendária mulher que ajudou a construir o mundo digital no qual vivemos e que, décadas antes de PowerPoint, YouTube, MOOCs e inteligência artificial, já havia compreendido uma das regras mais importantes da educação tecnológica:

se o aluno não consegue enxergar a ideia, encontre uma maneira de torná-la visível.

E se para isso você precisar entrar numa sala carregando um pedaço de fio...

leve o fio.


☕ Epílogo do Bellacosa Mainframe

Em algum lugar do multiverso mainframe, imagino Grace Hopper entrando numa reunião moderna.

Na tela:

AI-ENABLED
CLOUD-NATIVE
ZERO-TRUST
API-FIRST
DEVSECOPS
HYBRID-CLOUD
AGENTIC-AI

Ela observa durante alguns segundos.

Pega seu pedaço de fio.

Olha para os executivos.

E pergunta:

“Muito interessante. Agora alguém consegue me explicar o problema que estamos tentando resolver?”

Silêncio.

Ao fundo, um mainframe continua processando tranquilamente.

IEF142I JOBHOPPR STEP01 - STEP WAS EXECUTED
IEF285I   MAXCC=0000

Amazing Grace.

Job completed successfully.

☕🦖⚓

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/05/cobol-imortal-ele-esta-rodando-o-mundo.html

Este video é uma pequena olhadela na sua didatica. Uma lendaria mulher que ajudou a criar o mundo da informatica que vivemos hoje.

 
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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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