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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

🐴💩 Dois Cavalos e uma Filosofia Brasileira O cocô do cavalo do bandido e o cavalo do desfile de 7 de Setembro

 

Bellacosa Mainframe frase escatologicas sobre cavalos e cocos

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🐴💩 Dois Cavalos e uma Filosofia Brasileira

O cocô do cavalo do bandido e o cavalo do desfile de 7 de Setembro

Uma pequena cápsula do tempo linguística para algum arqueólogo digital de 2126

Caro leitor do futuro,

Se por algum acidente arqueológico você encontrou este texto daqui a cinquenta, cem ou duzentos anos, talvez esteja tentando compreender por que brasileiros do século XXI falavam tanto de cavalos que aparentemente possuíam funções filosóficas.

Não tente traduzir literalmente.

Vai piorar.

Existem expressões que pertencem tão profundamente à cultura de um povo que traduzi-las palavra por palavra produz uma frase perfeitamente compreensível e absolutamente incompreensível.

O Brasil possui pelo menos duas preciosidades desse gênero:

“Estou me sentindo o cocô do cavalo do bandido.”

e

“Vou fazer igual ao cavalo do desfile de 7 de Setembro.”

Curiosamente, ambas utilizam cavalos.

Mais curiosamente ainda, ambas envolvem merda.

E, apesar disso, representam posições filosóficas praticamente opostas diante da existência.



🐴 1. Primeiro conheça o bandido

Imagine um velho filme de faroeste.

Existe o mocinho.

Existe a mocinha.

Existe o xerife.

Existe o bandido.

Existem os capangas.

E existem os cavalos.

O cavalo do mocinho ainda possui alguma dignidade cinematográfica. Pode receber close, salvar o protagonista, galopar heroicamente contra o pôr do sol e, nos filmes mais generosos, até possuir nome.

Mas existe também o cavalo do bandido.

Esse pobre animal já está bastante abaixo na cadeia alimentar do roteiro.

Ninguém comprou ingresso para vê-lo.

Ninguém pergunta o que aconteceu com ele depois que o bandido levou um tiro.

Provavelmente nem aparece nos créditos.

Agora imagine algo ainda menos importante.

💩 O cocô do cavalo do bandido.

Pronto.

Chegamos ao brasileiro.



💩 2. “Estou me sentindo o cocô do cavalo do bandido”

Essa extraordinária construção significa aproximadamente:

“Minha importância nesta situação atingiu níveis subterrâneos.”

Mas isso ainda é uma tradução ruim.

Porque alguém poderia simplesmente dizer:

“Estou sendo desprezado.”

Não tem graça.

Ou:

“Sinto que ninguém valoriza minha participação.”

Parece reunião de Recursos Humanos.

Ou ainda:

“Estou me sentindo insignificante.”

Parece sessão de terapia.

O brasileiro resolveu o problema adicionando um bandido, um cavalo e suas necessidades fisiológicas.

“Estou me sentindo o cocô do cavalo do bandido.”

Instantaneamente o interlocutor entende.

Você não está apenas mal.

Você não está apenas esquecido.

Você não está simplesmente no fim da fila.

Existe toda uma hierarquia acima de você.

Mocinho.

Bandido.

Cavalo.

E finalmente...

você.



🪰 3. Naturalmente, o brasileiro achou que isso ainda não era suficiente

Uma expressão popular brasileira raramente permanece intacta quando existe possibilidade de piorá-la.

Em algum momento apareceu:

“A mosca do cocô do cavalo do bandido.”

Fantástico.

Criamos mais um nível hierárquico.

Posteriormente poderiam surgir versões envolvendo a pata da mosca, a sujeira da pata da mosca, a bactéria presente na sujeira da pata da mosca...

Não existe limite teórico.

É uma espécie de recursividade escatológica brasileira.

BANDIDO
   ↓
CAVALO
   ↓
COCÔ
   ↓
MOSCA
   ↓
PATA DA MOSCA
   ↓
SUJEIRA DA PATA
   ↓
VOCÊ

COBOL não faria isso.

LISP provavelmente faria.



🇧🇷🐴 4. Então aparece o segundo cavalo

Agora mudamos completamente de estado de espírito.

Imagine o desfile brasileiro de 7 de Setembro, comemoração da Independência.

Autoridades.

Uniformes impecáveis.

Bandeiras.

Banda militar.

Marcha.

Cerimônia.

Público.

Câmeras.

Tudo organizado segundo um protocolo cuidadosamente preparado por seres humanos.

Então passa um cavalo.

O cavalo não conhece o protocolo.

O cavalo não estudou História do Brasil.

O cavalo desconhece solenidades republicanas.

O cavalo simplesmente...

caga.

No meio da parada.

E continua andando.

Majestosamente.



😎 5. “Vou fazer igual ao cavalo do desfile de 7 de Setembro”

Aqui encontramos uma filosofia completamente diferente.

O sujeito não está derrotado.

Também não está revoltado.

Muito menos desesperado.

Ele atingiu um estágio superior de indiferença.

A tradução aproximada seria:

“Vou permanecer absolutamente tranquilo, cumprir meu caminho, fazer aquilo que considero necessário e deixar que os demais lidem com as consequências.”

Novamente, tradução horrível.

A original é infinitamente melhor:

“Vou fazer igual ao cavalo do desfile de 7 de Setembro.”

O interlocutor brasileiro imediatamente completa mentalmente:

andar calmamente...

olhar para o público...

cagar na parada...

e continuar andando.

😂



🧘 6. O segredo está na serenidade

Existe uma diferença importantíssima entre:

“mandar tudo à merda”

e

ser o cavalo do desfile.

Quem manda tudo à merda ainda está emocionalmente envolvido.

Está bravo.

Grita.

Bate a porta.

Talvez escreva um e-mail de 1.700 palavras copiando quinze gerentes.

O cavalo não.

O cavalo não discute com o comandante da parada.

Não abre chamado.

Não pede escalation.

Não cria PowerPoint.

Não coloca ninguém em cópia.

Ele simplesmente realiza sua contribuição pessoal ao evento...

e segue caminhando.

Essa serenidade é essencial.



🐴 7. Os dois cavalos representam extremos da existência

E aqui chegamos à beleza dessas duas expressões.

No primeiro caso:

Você é o cocô do cavalo.

No segundo:

Você é o cavalo.

Parece uma diferença pequena.

É gigantesca.

O cocô do cavalo do bandido representa alguém submetido às circunstâncias.

O cavalo do desfile de 7 de Setembro representa alguém que decidiu que as circunstâncias não merecem mais sua preocupação.

Um diz:

“Ninguém liga para mim.”

O outro responde:

“Eu não ligo para ninguém.”

E assim aproximadamente dois séculos de filosofia ocidental podem ser resumidos utilizando apenas dois cavalos.



🌎 8. Agora tente traduzir isso para inglês

Boa sorte.

“I feel like the poop of the bandit's horse.”

Um americano provavelmente perguntará se você precisa de assistência médica.

“I'm going to behave like the horse at the September 7th Independence Day parade.”

Agora você precisará explicar:

— September 7th is Brazilian Independence Day...

— Okay...

— There are military parades...

— Right...

— Sometimes there are horses...

— Sure...

— And the horse shits...

— What?

Acabou.

A piada morreu durante a imigração.


🧠 9. Porque a verdadeira expressão não está nas palavras

Esse talvez seja o ponto linguisticamente mais interessante.

Essas frases funcionam porque o ouvinte participa da construção da piada.

Quando alguém diz:

“Estou igual ao cocô do cavalo do bandido.”

não precisa acrescentar:

“Isso significa que estou me sentindo desprestigiado.”

Todo mundo entendeu.

Quando alguém anuncia:

“Agora vou fazer igual ao cavalo do 7 de Setembro.”

não precisa explicar o restante.

O interlocutor já está sorrindo.

Porque sua cabeça produziu o filme inteiro.

E frequentemente a gargalhada acontece justamente antes da explicação que nunca será necessária.


📦 10. São arquivos ZIP culturais

Talvez essa seja uma boa definição.

Essas expressões são arquivos ZIP da cultura popular.

Poucas palavras armazenam:

memória coletiva, imagens, ironia, hierarquia social, resignação, cinismo, autodepreciação e humor.

O falante envia:

“Cavalo do bandido.”

O cérebro do receptor executa:

DESCOMPACTAR.EXE

E recebe todo o restante.

É por isso que traduções literais fracassam.

Você consegue traduzir as palavras.

Não consegue transportar automaticamente o arquivo cultural que permite descompactá-las.


🍺 11. Manual prático para o brasileiro contemporâneo

Segunda-feira.

O chefe esqueceu seu nome.

Seu projeto perdeu orçamento.

Seu computador atualizou sozinho.

O café acabou.

Você declara:

“Hoje estou o cocô do cavalo do bandido.”

Quarta-feira.

Depois de oito reuniões, quatro apresentações e alguém perguntar pela terceira vez aquilo que estava escrito no primeiro slide, alguma coisa muda dentro de você.

Finalmente chega sexta-feira.

17h43.

Alguém manda:

“Rapidinho, você consegue olhar uma coisinha antes de sair?”

Nesse momento ocorre a metamorfose.

Você deixa de ser o cocô.

Você se torna o cavalo.

Endireita a coluna.

Olha serenamente para o horizonte.

E pensa:

“Agora vou de cavalo do desfile de 7 de Setembro.”


🏺 12. Nota para o arqueólogo digital do futuro

Se você encontrou este texto no ano de 2126 tentando descobrir o significado dessas expressões, registre isto cuidadosamente:

sim, brasileiros realmente falavam essas coisas.

Não sabemos exatamente quem pronunciou cada uma delas pela primeira vez.

Provavelmente circularam durante muito tempo pela oralidade, ganhando versões, exageros e novos detalhes conforme passavam de uma pessoa para outra.

E justamente por isso vale deixar mais uma ocorrência escrita.

Porque expressões populares possuem uma característica curiosa:

todo mundo conhece,

ninguém sabe quem inventou,

ninguém lembra onde ouviu pela primeira vez,

mas todo mundo sabe exatamente quando usar.


☕ Conclusão — A sabedoria dos dois cavalos

Talvez algum filósofo do futuro encontre uma teoria sofisticada para explicar tudo isso.

Nós podemos economizar o trabalho.

Existem momentos na vida em que você inevitavelmente será:

💩 o cocô do cavalo do bandido.

Aceite.

Sobreviva.

Dê risada.

Mas existem outros momentos em que a melhor estratégia possível será transformar-se no:

🐴 cavalo do desfile de 7 de Setembro.

Mantenha a postura.

Caminhe calmamente.

Sorria para o público.

Faça aquilo que precisa fazer.

E siga adiante sem olhar para trás.

Porque talvez uma pequena parte da filosofia brasileira possa ser resumida assim:

Quando o mundo fizer você se sentir o cocô do cavalo do bandido, sobreviva tempo suficiente para um dia poder ser o cavalo do desfile.

O resto...

bem...

fica para quem vem marchando atrás. 🐴💩🇧🇷



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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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