Translate

domingo, 1 de setembro de 2024

Num futuro bem distante... o Cobol continuará na ativa


Bellacosa Mainframe e uma perspectiva sobre o futuro do COBOL

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

COBOL no Futuro

Quando um Programador Descobre que o Último Ser Humano a Escrever COBOL Talvez Ainda Nem Tenha Nascido

Existe uma lenda que circula pela informática desde os anos 1980.

Ela aparece de tempos em tempos, sempre com uma roupa diferente.

Em 1985 diziam:

"COBOL morreu."

Em 1995:

"Agora é definitivo."

Em 2005:

"A web acabou com ele."

Em 2015:

"Cloud enterrou o mainframe."

Em 2025:

"A IA vai substituir todos os programadores COBOL."

Enquanto isso...

...o compilador recebeu novas versões.

O z/OS ganhou novos recursos.

O Db2 evoluiu.

O CICS aprendeu REST.

O MQ continuou transportando bilhões de mensagens.

E o COBOL...

...continuou trabalhando sem fazer propaganda. 



Imagine um arqueólogo daqui a 200 anos.

Ele encontra uma cápsula do tempo contendo um notebook.

Liga o equipamento.

Dentro existe um projeto Git.

Abre o README.


Primeira linha:

Enterprise COBOL 6.7

Ele pergunta:

— "Isso ainda funciona?"

A Inteligência Artificial responde:

— "Claro."

— "Mas esse software tem quase três séculos."

— "Sim."

— "Quem mantém isso?"

A IA faz silêncio durante alguns nanossegundos.

Depois responde:

— "Os bancos."


Existe algo curioso sobre tecnologia.

Nós adoramos imaginar o futuro.

Carros voadores.

Computadores quânticos.

Robôs domésticos.

Colonização de Marte.

Mas quase ninguém imagina quem vai calcular a folha de pagamento da primeira colônia marciana.

Spoiler.

Provavelmente algum programa COBOL.


Imagine uma agência bancária em Marte.

Cliente entra.

— Gostaria de financiar um módulo habitacional na Cratera Gale.

O atendente responde:

— Um instante...

A tela mostra:

CICS Transaction Started

EXEC SQL
SELECT LIMIT
FROM CLIENTE_MARTE
END-EXEC

O planeta mudou.

A gravidade mudou.

A distância até a Terra mudou.

Mas o COMMIT continua funcionando.


A verdade é que COBOL possui uma qualidade extremamente rara na informática.

Ele não tenta impressionar ninguém.

Nunca tentou.

Java queria revolucionar.

JavaScript queria dominar.

Python queria simplificar.

Rust queria proteger memória.

Go queria ser minimalista.

COBOL apenas perguntou:

— O salário caiu na conta?


Enquanto linguagens brigam por benchmarks...

COBOL mede sucesso em décadas.


Talvez seja justamente esse o segredo.

Toda tecnologia nova promete velocidade.

Toda tecnologia antiga entrega estabilidade.

O mundo precisa das duas.

Mas só uma delas costuma pagar aposentadorias.


Hoje falamos sobre Inteligência Artificial.

Modelos generativos.

Agentes autônomos.

LLMs.

Copilots.

A pergunta moderna não é mais:

"Como escrever COBOL?"

Agora é:

"Como fazer uma IA entender cinquenta milhões de linhas escritas desde 1972?"

De repente...

O conhecimento do programador COBOL deixou de ser apenas programação.

Virou arqueologia digital.

Virou engenharia reversa.

Virou tradução entre gerações.

Virou patrimônio tecnológico.


Imagine uma IA especializada em manutenção.

Ela abre um programa de 18.000 linhas.

Depois de alguns segundos declara:

— Detectei um IF desnecessário.

O programador sorri.

— Não mexa.

— Por quê?

— Porque aquele IF resolve um bug descoberto em 1989 durante o Plano Verão.

— Mas ele nunca será executado.

— Eu sei.

— Então por que existe?

— Porque um cliente jurou que aconteceu.

A IA fica em silêncio.

Anota:

Conhecimento ancestral detectado.


Aliás...

Existe uma teoria divertida.

Quanto mais antiga a aplicação...

...menos pessoas querem modificá-la.

E quanto menos modificada...

...mais tempo ela continua funcionando.

Talvez o maior segredo da alta disponibilidade seja simplesmente deixar o programa em paz.


Outro paradoxo interessante.

Em 2035 provavelmente teremos computadores capazes de executar trilhões de instruções por segundo.

Mesmo assim...

alguém continuará escrevendo:

MOVE ZEROES TO SALDO.

Porque algumas coisas não precisam mudar.

Precisam apenas continuar corretas.


Há quem imagine que o futuro pertence apenas à Inteligência Artificial.

Discordo.

O futuro pertence à parceria.

A IA encontrará o programa.

Explicará o fluxo.

Gerará testes.

Criará documentação.

Sugerirá melhorias.

Mas alguém continuará fazendo a pergunta que realmente importa:

"Se eu alterar esta linha...

...quanto dinheiro deixa de chegar ao cliente?"

Essa pergunta continua sendo humana.


E talvez seja essa a maior transformação da carreira COBOL.

O programador deixará de ser apenas um codificador.

Será um historiador dos sistemas.

Um engenheiro de confiabilidade.

Um tradutor entre regras de negócio de cinquenta anos atrás e APIs que ainda nem existem.

Será menos digitador.

Mais estrategista.


Existe uma ironia maravilhosa nisso tudo.

Durante décadas disseram que COBOL era velho demais.

Agora descobrimos que justamente a experiência acumulada virou seu maior diferencial.

A IA aprende com dados.

O programador COBOL aprende com consequências.

São competências diferentes.

E extremamente complementares.


Talvez daqui a cinquenta anos alguém pergunte:

— Ainda existe COBOL?

A resposta provavelmente será a mesma de hoje.

Existe.

Só que agora ele conversa naturalmente com APIs, microsserviços, eventos, nuvem híbrida, IA generativa, agentes autônomos, computação quântica, criptografia pós-quântica e tudo o que ainda será inventado.

Porque linguagens não sobrevivem por serem modernas.

Sobrevivem porque resolvem problemas importantes.


No fim das contas, talvez COBOL nunca tenha sido uma linguagem de programação.

Talvez sempre tenha sido uma máquina do tempo.

Cada programa guarda decisões tomadas por pessoas que talvez nem estejam mais entre nós.

Cada COPYBOOK conta um pedaço da história de uma empresa.

Cada arquivo VSAM é um museu vivo.

Cada JCL é uma carta enviada do passado para o futuro.

E cada novo programador que abre um código legado descobre que não está apenas lendo instruções para um computador.

Está conversando com gerações inteiras de engenheiros que construíram, linha por linha, a infraestrutura invisível que movimenta o mundo.

E talvez esse seja o maior plot twist da computação moderna.

Enquanto todos olham para a próxima tecnologia revolucionária...

o COBOL continua, silenciosamente, preparando o futuro — exatamente da mesma forma que fez nos últimos sessenta e cinco anos.

Sem fazer barulho.

Sem precisar provar nada.

Apenas executando o próximo JOB.


Bellacosa Mainframe é uma visão do COBOL

COBOL FOREVER



  

Sem comentários:

Enviar um comentário

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...