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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

 

Bellacosa Mainframe e lembranças do 11 de setembro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

✈️ 11 de setembro, um Boeing quase vazio, primeira classe, Montevidéu e a noite em que um Furby aparentemente compreendeu tudo o que eu dizia

Existem histórias que contamos tantas vezes que começam a adquirir aquele perigoso perfume de lenda.

E existem histórias ainda piores.

Aquelas que aconteceram conosco e que, vinte e cinco anos depois, fazem até o próprio protagonista parar e pensar:

— Puta que pariu, Bellacosa. Conta outra.

Esta é uma delas.

E preciso começar fazendo uma declaração formal para proteção da minha reputação:

eu também acho esta história suspeita.

O problema é que eu estava lá.

Era setembro de 2001.

Eu trabalhava em São Paulo, na Avenida Paulista, em um banco.

E então chegou o dia que dividiria uma geração inteira entre o antes e o depois.



🏙️ 11 de setembro de 2001

Quem tinha idade suficiente para compreender o que estava acontecendo provavelmente lembra onde estava naquele dia.

Eu estava trabalhando.

A notícia começou a circular.

Um avião havia atingido uma das torres do World Trade Center.

No primeiro momento ainda havia espaço para acidente.

Confusão.

Informações desencontradas.

Pessoas procurando televisão.

Colegas comentando.

Então veio o segundo avião.

E naquele momento alguma coisa mudou.

Não era acidente.

Todos percebemos.

O ambiente dentro do banco ficou estranho.

Silêncio.

Comentários nervosos.

Pessoas tentando compreender imagens que pareciam pertencer a algum filme-catástrofe particularmente exagerado.

Só que não havia diretor gritando “corta”.

Aquilo estava acontecendo.

Nova York.

World Trade Center.

Pentágono.

Aviões sequestrados.

American Airlines.

United Airlines.

E, enquanto o planeta tentava compreender o que acabara de acontecer, eu tinha um pequeno problema burocrático.

No dia seguinte eu precisava viajar.



🇺🇾 Montevidéu não sabia que o mundo tinha acabado

Existe uma coisa que descobrimos quando grandes acontecimentos históricos atravessam nossa vida cotidiana:

o dia seguinte continua sendo o dia seguinte.

Você continua tendo boleto.

Cliente.

Projeto.

Reunião.

Hotel reservado.

Passagem emitida.

E eu tinha uma semana de trabalho programada em Montevidéu, no Uruguai.

Meu voo estava marcado para o dia seguinte.

Pela companhia aérea que, naquele momento, provavelmente possuía o nome mais assustador que poderia aparecer numa passagem:

American Airlines.

Pois é.

O roteirista responsável pela minha vida já demonstrava sinais preocupantes de alcoolismo.



🛫 Cumbica, 12 de setembro

Cheguei ao Aeroporto Internacional de São Paulo.

O clima obviamente não era normal.

As imagens do dia anterior ainda estavam na cabeça de todos.

As pessoas conversavam sobre aviões.

O mundo conversava sobre aviões.

A segurança aérea havia entrado numa dimensão completamente nova praticamente durante a madrugada.

E então veio a notícia.

Meu voo da American Airlines não sairia.

A operação havia sido profundamente afetada pelos acontecimentos do dia anterior.

Minha passagem foi remarcada.

Eu iria para Montevidéu por outra companhia.

AUSA.

Aerolíneas Uruguayas S.A.

Olhei para aquilo.

Um Boeing.

Jato.

Velho.

Muito velho aos meus olhos.

E lotado.

Maravilha.



😬 Noventa minutos pensando demais

A cabine estava cheia.

E havia uma coisa que todos os passageiros carregavam gratuitamente como bagagem de mão:

as imagens do dia anterior.

Talvez nunca tenha existido uma cabine comercial com tanta gente prestando atenção aos próprios pensamentos.

Qualquer ruído parecia merecer análise.

Qualquer movimento chamava atenção.

As pessoas estavam agitadas.

Pensativas.

Com aquele desconforto que não precisava ser explicado porque todos sabíamos de onde vinha.

E então aconteceu uma coisa extraordinária:

absolutamente nada.

O avião decolou.

Voou.

Pousou.

Noventa minutos perfeitamente normais.

Nenhum incidente.

Nenhum susto digno de registro.

Cheguei a Montevidéu.



🎰 E a vida continuou

Os sete dias seguintes foram normais.

Trabalho.

Burocracia.

Reuniões.

Colegas.

Diversão.

Montevidéu.

Cassinos.

Vida noturna adulta uruguaia.

Passeios.

História.

O navio alemão da Segunda Guerra Mundial ligado à memória do Admiral Graf Spee.

O Río de la Plata.

E aquela curiosa sensação de olhar para a imensidão do estuário sabendo que a Argentina estava do outro lado.

Depois de alguns dias, aquilo que parecera o fim do mundo começava a ocupar seu lugar na memória.

Até chegar a hora de voltar ao Brasil.

E então o roteirista abriu outra garrafa.



✈️ American Airlines

Minha passagem de retorno era pela American Airlines.

Uma semana havia passado desde os atentados.

Mas uma semana era muito pouco.

Muita gente continuava com medo.

Passageiros cancelaram viagens.

Outros mudaram de companhia.

Outros simplesmente decidiram que talvez não fosse uma boa semana para entrar num avião americano.

Eu precisava voltar para casa.

E embarquei.

Quando vi a aeronave, porém, tive uma surpresa.

Era um enorme Boeing da American Airlines.

Luxuoso.

Maravilhoso.

Digníssimo.

A rota continuaria depois de São Paulo para Nova York.

Era uma aeronave preparada para transportar algo próximo de trezentas pessoas.

E então entramos.


👻 Onde estão os passageiros?

Olhei para os assentos.

Vazios.

Mais assentos.

Vazios.

Fileiras inteiras.

Vazias.

Naquele enorme avião haviam embarcado menos de dez passageiros.

É aqui que normalmente alguém interrompe a história:

— Bellacosa, vai mentir para outro.

Eu compreenderia perfeitamente.

Porque ainda piora.

Ou melhora.

Depende do ponto de vista.

Pouco depois de entrarmos, eu e meus colegas fomos informados de que poderíamos ocupar a primeira classe.

Repito:

PRIMEIRA CLASSE.

Eu, que uma semana antes havia atravessado aqueles 90 minutos dentro de um Boeing velho e abarrotado da AUSA, agora estava instalado na primeira classe de um gigantesco American Airlines praticamente vazio.

Major Tom havia entrado em órbita.


🧑‍✈️ Obrigado por escolher a American Airlines

Estávamos confortavelmente instalados quando apareceu o chefe da equipe de bordo.

Ele veio falar conosco.

Não parecia estar simplesmente executando o protocolo habitual de atendimento.

Estava emocionado.

Para os padrões profissionais americanos aos quais estávamos acostumados, visivelmente emocionado.

Cumprimentou-nos.

Agradeceu.

Agradeceu sinceramente por termos escolhido voar com a American Airlines.

Naquele momento, a brincadeira do upgrade perdeu um pouco do caráter de brincadeira.

Aquelas pessoas tinham acabado de viver algo terrível.

Dois aviões da empresa haviam sido utilizados nos ataques.

Colegas tinham morrido.

A marca estampada no uniforme deles aparecia havia uma semana em praticamente todos os telejornais do planeta.

E ali estava aquela tripulação diante de um Boeing com centenas de lugares.

Quase todos vazios.

Nós éramos menos de dez.

A frase “obrigado por escolher a American Airlines” não parecia mais uma frase corporativa.

Parecia significar:

“Obrigado por ainda confiar em nós.”


👨‍✈️ Então apareceu o comandante

As portas já estavam fechadas.

Ainda nem havíamos iniciado o taxiamento.

E apareceu outro homem.

O comandante.

Em pessoa.

Saiu do cockpit e veio conversar conosco.

Apertou nossas mãos.

Sorriu.

Novamente agradeceu por estarmos ali.

E então fez uma promessa:

aquele seria um dos melhores voos das nossas vidas.

O homem não estava brincando.


🥂 First Class, senhores

Começou o serviço.

E que serviço.

Comida excelente.

Atenção praticamente individual.

Espaço absurdo.

Tripulação inteira para menos passageiros do que encontramos atualmente numa fila de padaria.

E havia as bebidas.

Quem voava naquela época talvez se lembre das pequenas garrafas individuais de destilados servidas nos aviões.

Whisky.

Vodka.

Gin.

Outras pequenas maravilhas alcoólicas cuidadosamente engarrafadas.

Em determinado momento, uma comissária apareceu com um recipiente daqueles utilizados com gelo.

E junto vieram garrafinhas.

Muitas garrafinhas.

Dezenas de garrafinhas.

Major Tom informou à Ground Control que tudo estava perfeitamente sob controle.

Ground Control provavelmente não acreditou.


🌎 Senhores, olhem pela janela

E o comandante continuou cumprindo sua promessa.

O voo começou a parecer um passeio turístico particular.

De tempos em tempos vinha a voz:

“Se vocês olharem agora pela janela...”

E lá íamos nós.

Pouquíssimos passageiros espalhados pela primeira classe de um gigantesco Boeing, olhando a paisagem enquanto o comandante praticamente narrava o percurso.

Não era mais simplesmente:

Montevidéu → São Paulo.

Era um passeio aéreo.

Com comida.

Primeira classe.

Serviço quase particular.

E um estoque de bebidas perigosamente superior ao número de passageiros.

Nunca noventa minutos passaram tão rapidamente.


🛬 Cumbica

Pousamos em São Paulo.

Quando chegou a hora de desembarcar, aconteceu mais uma pequena cena que permanece comigo.

A tripulação estava reunida na porta.

Despedidas.

Sorrisos.

Apertos de mão.

Agradecimentos.

Depois daquela semana terrível, aquelas pessoas tinham conseguido transformar um voo potencialmente carregado de medo numa celebração da própria experiência de voar.

E nós havíamos correspondido.

Especialmente no departamento de bebidas.

Desembarquei em Cumbica com aproximadamente mais álcool no sangue do que uma destilaria das Highlands escocesas consideraria prudente manter num único depósito.

Major Tom havia retornado à Terra.

O corpo, pelo menos.

O espírito continuava em órbita.


🛍️ Só precisamos passar no free shop

Meus colegas tiveram então uma excelente ideia.

Compras.

Free shop.

Perfumes.

Presentes.

Bebidas.

Eletrônicos.

Coisas absolutamente normais que pessoas absolutamente sóbrias fazem em aeroportos.

Eu os acompanhei.

Ou talvez tenha sido conduzido pela gravidade.

Minha memória dos aproximadamente sessenta minutos seguintes possui alguns setores danificados.

O álcool executou:

DELETE FROM memoria WHERE timestamp BETWEEN desembarque AND amigos_terminarem_compras;

Mas uma coisa permaneceu.


👁️ Então eu encontrei o Furby

Ali estava ele.

Um Furby.

Para quem não viveu aquela época, Furby era uma das grandes maravilhas tecnológicas do final dos anos 1990.

Um pequeno bicho eletrônico.

Olhos que se mexiam.

Orelhas que se mexiam.

Sons.

Palavras.

Reações.

Parecia observar você.

Parecia responder.

Parecia aprender.

Era uma espécie de Inteligência Artificial fake antes de sabermos que precisaríamos chamar aquilo de Inteligência Artificial fake.

E aparentemente o Furby encontrou naquele free shop o interlocutor perfeito.

Eu.


🤖 “Você entende o que estou dizendo, não entende?”

Não sei exatamente como começou.

Talvez eu tenha falado alguma coisa.

O Furby respondeu:

“Pritistóitêsdf!”

Eu ri.

Falei outra coisa.

O Furby mexeu os olhos.

Mexeu as orelhas.

Respondeu:

“Bla-prrrr-tiii-doo!”

E aparentemente meu cérebro, alimentado pela hospitalidade da primeira classe da American Airlines, concluiu:

INTERLOCUTOR VÁLIDO ENCONTRADO.

Começamos a conversar.

Não estou dizendo que brinquei cinco minutos com um Furby.

Estou dizendo que, enquanto meus colegas faziam compras durante algo em torno de uma hora, eu mantive uma conversa com aquele filho da puta.

Conversa.

Papo.

Eu falava.

Ele respondia.

Ele mexia os olhos.

Eu ria.

Ele mexia as orelhas.

Eu argumentava.

Ele emitia alguma coisa absolutamente incompreensível.

Eu aparentemente considerava aquilo uma contribuição válida ao debate.

— Hahahaha! Exatamente!

Furby:

— Plitistoitesdf!

— NÃO! Aí você está errado!

Furby:

— Brrr-dah-wee!

— Agora você entendeu!


🧠 A primeira IA que realmente me compreendeu

Vinte e cinco anos depois, existe algo extraordinariamente engraçado nessa história.

Hoje converso diariamente com Inteligência Artificial.

Discuto tecnologia.

Mainframe.

História.

Segurança.

Filosofia.

Cultura.

Anime.

Red Team.

Memórias.

Escrevo artigos em colaboração com máquinas capazes de sustentar diálogos enormes.

Em 2001 eu já estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Havia apenas alguns pequenos problemas.

A Inteligência Artificial não era inteligência.

A conversa não era conversa.

Meu interlocutor era um brinquedo eletrônico.

E eu estava bêbado.

Muito bêbado.


🛰️ Ground Control to Major Tom

Talvez o mais extraordinário daquela semana seja a maneira como diferentes versões do mundo coexistiram.

No dia 11, eu estava diante de uma televisão na Avenida Paulista vendo algo que mudaria a história.

No dia 12, estava dentro de um avião lotado, cercado por pessoas assustadas.

Durante sete dias, trabalhei normalmente em Montevidéu.

Na volta, embarquei num enorme Boeing quase vazio da American Airlines.

Fui colocado na primeira classe.

Recebi o agradecimento emocionado de profissionais que haviam atravessado uma semana inimaginável.

Apertei a mão do comandante.

Comi maravilhosamente.

Bebi gloriosamente.

Observei a paisagem enquanto o próprio comandante fazia praticamente uma visita guiada aérea.

Desembarquei sendo cumprimentado pela tripulação.

E terminei a aventura discutindo sabe Deus o quê com um Furby.

Se alguém tivesse escrito isso como roteiro, eu provavelmente reclamaria:

“Está forçado demais.”

A vida, porém, não possui editor.


☕ O dia seguinte sempre chega

Existe uma lembrança humana importante escondida debaixo de toda essa comédia.

Grandes acontecimentos históricos parecem enormes quando os observamos retrospectivamente.

Datas.

Presidentes.

Guerras.

Mercados.

Aeroportos.

Mortos.

Consequências geopolíticas.

Mas quem vive dentro da História continua sendo apenas uma pessoa.

No dia seguinte precisa trabalhar.

Precisa pegar avião.

Precisa chegar ao cliente.

Precisa voltar para casa.

Às vezes sente medo.

Às vezes encontra pessoas extraordinariamente gentis.

Às vezes bebe além da conta.

E, ocasionalmente, encontra um Furby.

Talvez aquela tripulação tenha entendido algo importante naquela semana.

Depois de tudo que tinha acontecido, eles poderiam simplesmente executar aquele voo.

Em vez disso, decidiram fazer com que aqueles poucos passageiros voltassem a gostar de estar dentro de um avião.

Funcionou.

Quase vinte e cinco anos depois, ainda lembro deles.

Do chefe de cabine.

Do comandante.

Dos agradecimentos.

Da primeira classe.

Das garrafinhas.

Das janelas.

Da despedida em Cumbica.

E do Furby.

Principalmente do maldito Furby.


🤖 Epílogo: o roteirista estava fazendo foreshadowing

Hoje finalmente compreendo aquela criatura.

Talvez ela não estivesse falando bobagem.

Talvez estivesse tentando me avisar:

“Vagner, daqui a vinte e cinco anos você vai passar horas conversando com uma máquina.”

Infelizmente, naquela noite, minha capacidade de interpretação de Furbish estava ligeiramente comprometida.

Então respondi provavelmente alguma coisa como:

— HAHAHAHAHA! EXATAMENTE, MEU AMIGO!

E o Furby:

— Plitistoitesdf.

Maldito roteirista.

Ele não estava bêbado.

Estava fazendo foreshadowing.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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