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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

 

Bellacosa Mainframe e lembranças do 11 de setembro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

✈️ 11 de setembro, um Boeing quase vazio, primeira classe, Montevidéu e a noite em que um Furby aparentemente compreendeu tudo o que eu dizia

Existem histórias que contamos tantas vezes que começam a adquirir aquele perigoso perfume de lenda.

E existem histórias ainda piores.

Aquelas que aconteceram conosco e que, vinte e cinco anos depois, fazem até o próprio protagonista parar e pensar:

— Puta que pariu, Bellacosa. Conta outra.

Esta é uma delas.

E preciso começar fazendo uma declaração formal para proteção da minha reputação:

eu também acho esta história suspeita.

O problema é que eu estava lá.

Era setembro de 2001.

Eu trabalhava em São Paulo, na Avenida Paulista, em um banco.

E então chegou o dia que dividiria uma geração inteira entre o antes e o depois.



🏙️ 11 de setembro de 2001

Quem tinha idade suficiente para compreender o que estava acontecendo provavelmente lembra onde estava naquele dia.

Eu estava trabalhando.

A notícia começou a circular.

Um avião havia atingido uma das torres do World Trade Center.

No primeiro momento ainda havia espaço para acidente.

Confusão.

Informações desencontradas.

Pessoas procurando televisão.

Colegas comentando.

Então veio o segundo avião.

E naquele momento alguma coisa mudou.

Não era acidente.

Todos percebemos.

O ambiente dentro do banco ficou estranho.

Silêncio.

Comentários nervosos.

Pessoas tentando compreender imagens que pareciam pertencer a algum filme-catástrofe particularmente exagerado.

Só que não havia diretor gritando “corta”.

Aquilo estava acontecendo.

Nova York.

World Trade Center.

Pentágono.

Aviões sequestrados.

American Airlines.

United Airlines.

E, enquanto o planeta tentava compreender o que acabara de acontecer, eu tinha um pequeno problema burocrático.

No dia seguinte eu precisava viajar.



🇺🇾 Montevidéu não sabia que o mundo tinha acabado

Existe uma coisa que descobrimos quando grandes acontecimentos históricos atravessam nossa vida cotidiana:

o dia seguinte continua sendo o dia seguinte.

Você continua tendo boleto.

Cliente.

Projeto.

Reunião.

Hotel reservado.

Passagem emitida.

E eu tinha uma semana de trabalho programada em Montevidéu, no Uruguai.

Meu voo estava marcado para o dia seguinte.

Pela companhia aérea que, naquele momento, provavelmente possuía o nome mais assustador que poderia aparecer numa passagem:

American Airlines.

Pois é.

O roteirista responsável pela minha vida já demonstrava sinais preocupantes de alcoolismo.



🛫 Cumbica, 12 de setembro

Cheguei ao Aeroporto Internacional de São Paulo.

O clima obviamente não era normal.

As imagens do dia anterior ainda estavam na cabeça de todos.

As pessoas conversavam sobre aviões.

O mundo conversava sobre aviões.

A segurança aérea havia entrado numa dimensão completamente nova praticamente durante a madrugada.

E então veio a notícia.

Meu voo da American Airlines não sairia.

A operação havia sido profundamente afetada pelos acontecimentos do dia anterior.

Minha passagem foi remarcada.

Eu iria para Montevidéu por outra companhia.

AUSA.

Aerolíneas Uruguayas S.A.

Olhei para aquilo.

Um Boeing.

Jato.

Velho.

Muito velho aos meus olhos.

E lotado.

Maravilha.



😬 Noventa minutos pensando demais

A cabine estava cheia.

E havia uma coisa que todos os passageiros carregavam gratuitamente como bagagem de mão:

as imagens do dia anterior.

Talvez nunca tenha existido uma cabine comercial com tanta gente prestando atenção aos próprios pensamentos.

Qualquer ruído parecia merecer análise.

Qualquer movimento chamava atenção.

As pessoas estavam agitadas.

Pensativas.

Com aquele desconforto que não precisava ser explicado porque todos sabíamos de onde vinha.

E então aconteceu uma coisa extraordinária:

absolutamente nada.

O avião decolou.

Voou.

Pousou.

Noventa minutos perfeitamente normais.

Nenhum incidente.

Nenhum susto digno de registro.

Cheguei a Montevidéu.



🎰 E a vida continuou

Os sete dias seguintes foram normais.

Trabalho.

Burocracia.

Reuniões.

Colegas.

Diversão.

Montevidéu.

Cassinos.

Vida noturna adulta uruguaia.

Passeios.

História.

O navio alemão da Segunda Guerra Mundial ligado à memória do Admiral Graf Spee.

O Río de la Plata.

E aquela curiosa sensação de olhar para a imensidão do estuário sabendo que a Argentina estava do outro lado.

Depois de alguns dias, aquilo que parecera o fim do mundo começava a ocupar seu lugar na memória.

Até chegar a hora de voltar ao Brasil.

E então o roteirista abriu outra garrafa.



✈️ American Airlines

Minha passagem de retorno era pela American Airlines.

Uma semana havia passado desde os atentados.

Mas uma semana era muito pouco.

Muita gente continuava com medo.

Passageiros cancelaram viagens.

Outros mudaram de companhia.

Outros simplesmente decidiram que talvez não fosse uma boa semana para entrar num avião americano.

Eu precisava voltar para casa.

E embarquei.

Quando vi a aeronave, porém, tive uma surpresa.

Era um enorme Boeing da American Airlines.

Luxuoso.

Maravilhoso.

Digníssimo.

A rota continuaria depois de São Paulo para Nova York.

Era uma aeronave preparada para transportar algo próximo de trezentas pessoas.

E então entramos.


👻 Onde estão os passageiros?

Olhei para os assentos.

Vazios.

Mais assentos.

Vazios.

Fileiras inteiras.

Vazias.

Naquele enorme avião haviam embarcado menos de dez passageiros.

É aqui que normalmente alguém interrompe a história:

— Bellacosa, vai mentir para outro.

Eu compreenderia perfeitamente.

Porque ainda piora.

Ou melhora.

Depende do ponto de vista.

Pouco depois de entrarmos, eu e meus colegas fomos informados de que poderíamos ocupar a primeira classe.

Repito:

PRIMEIRA CLASSE.

Eu, que uma semana antes havia atravessado aqueles 90 minutos dentro de um Boeing velho e abarrotado da AUSA, agora estava instalado na primeira classe de um gigantesco American Airlines praticamente vazio.

Major Tom havia entrado em órbita.


🧑‍✈️ Obrigado por escolher a American Airlines

Estávamos confortavelmente instalados quando apareceu o chefe da equipe de bordo.

Ele veio falar conosco.

Não parecia estar simplesmente executando o protocolo habitual de atendimento.

Estava emocionado.

Para os padrões profissionais americanos aos quais estávamos acostumados, visivelmente emocionado.

Cumprimentou-nos.

Agradeceu.

Agradeceu sinceramente por termos escolhido voar com a American Airlines.

Naquele momento, a brincadeira do upgrade perdeu um pouco do caráter de brincadeira.

Aquelas pessoas tinham acabado de viver algo terrível.

Dois aviões da empresa haviam sido utilizados nos ataques.

Colegas tinham morrido.

A marca estampada no uniforme deles aparecia havia uma semana em praticamente todos os telejornais do planeta.

E ali estava aquela tripulação diante de um Boeing com centenas de lugares.

Quase todos vazios.

Nós éramos menos de dez.

A frase “obrigado por escolher a American Airlines” não parecia mais uma frase corporativa.

Parecia significar:

“Obrigado por ainda confiar em nós.”


👨‍✈️ Então apareceu o comandante

As portas já estavam fechadas.

Ainda nem havíamos iniciado o taxiamento.

E apareceu outro homem.

O comandante.

Em pessoa.

Saiu do cockpit e veio conversar conosco.

Apertou nossas mãos.

Sorriu.

Novamente agradeceu por estarmos ali.

E então fez uma promessa:

aquele seria um dos melhores voos das nossas vidas.

O homem não estava brincando.


🥂 First Class, senhores

Começou o serviço.

E que serviço.

Comida excelente.

Atenção praticamente individual.

Espaço absurdo.

Tripulação inteira para menos passageiros do que encontramos atualmente numa fila de padaria.

E havia as bebidas.

Quem voava naquela época talvez se lembre das pequenas garrafas individuais de destilados servidas nos aviões.

Whisky.

Vodka.

Gin.

Outras pequenas maravilhas alcoólicas cuidadosamente engarrafadas.

Em determinado momento, uma comissária apareceu com um recipiente daqueles utilizados com gelo.

E junto vieram garrafinhas.

Muitas garrafinhas.

Dezenas de garrafinhas.

Major Tom informou à Ground Control que tudo estava perfeitamente sob controle.

Ground Control provavelmente não acreditou.


🌎 Senhores, olhem pela janela

E o comandante continuou cumprindo sua promessa.

O voo começou a parecer um passeio turístico particular.

De tempos em tempos vinha a voz:

“Se vocês olharem agora pela janela...”

E lá íamos nós.

Pouquíssimos passageiros espalhados pela primeira classe de um gigantesco Boeing, olhando a paisagem enquanto o comandante praticamente narrava o percurso.

Não era mais simplesmente:

Montevidéu → São Paulo.

Era um passeio aéreo.

Com comida.

Primeira classe.

Serviço quase particular.

E um estoque de bebidas perigosamente superior ao número de passageiros.

Nunca noventa minutos passaram tão rapidamente.


🛬 Cumbica

Pousamos em São Paulo.

Quando chegou a hora de desembarcar, aconteceu mais uma pequena cena que permanece comigo.

A tripulação estava reunida na porta.

Despedidas.

Sorrisos.

Apertos de mão.

Agradecimentos.

Depois daquela semana terrível, aquelas pessoas tinham conseguido transformar um voo potencialmente carregado de medo numa celebração da própria experiência de voar.

E nós havíamos correspondido.

Especialmente no departamento de bebidas.

Desembarquei em Cumbica com aproximadamente mais álcool no sangue do que uma destilaria das Highlands escocesas consideraria prudente manter num único depósito.

Major Tom havia retornado à Terra.

O corpo, pelo menos.

O espírito continuava em órbita.


🛍️ Só precisamos passar no free shop

Meus colegas tiveram então uma excelente ideia.

Compras.

Free shop.

Perfumes.

Presentes.

Bebidas.

Eletrônicos.

Coisas absolutamente normais que pessoas absolutamente sóbrias fazem em aeroportos.

Eu os acompanhei.

Ou talvez tenha sido conduzido pela gravidade.

Minha memória dos aproximadamente sessenta minutos seguintes possui alguns setores danificados.

O álcool executou:

DELETE FROM memoria WHERE timestamp BETWEEN desembarque AND amigos_terminarem_compras;

Mas uma coisa permaneceu.


👁️ Então eu encontrei o Furby

Ali estava ele.

Um Furby.

Para quem não viveu aquela época, Furby era uma das grandes maravilhas tecnológicas do final dos anos 1990.

Um pequeno bicho eletrônico.

Olhos que se mexiam.

Orelhas que se mexiam.

Sons.

Palavras.

Reações.

Parecia observar você.

Parecia responder.

Parecia aprender.

Era uma espécie de Inteligência Artificial fake antes de sabermos que precisaríamos chamar aquilo de Inteligência Artificial fake.

E aparentemente o Furby encontrou naquele free shop o interlocutor perfeito.

Eu.


🤖 “Você entende o que estou dizendo, não entende?”

Não sei exatamente como começou.

Talvez eu tenha falado alguma coisa.

O Furby respondeu:

“Pritistóitêsdf!”

Eu ri.

Falei outra coisa.

O Furby mexeu os olhos.

Mexeu as orelhas.

Respondeu:

“Bla-prrrr-tiii-doo!”

E aparentemente meu cérebro, alimentado pela hospitalidade da primeira classe da American Airlines, concluiu:

INTERLOCUTOR VÁLIDO ENCONTRADO.

Começamos a conversar.

Não estou dizendo que brinquei cinco minutos com um Furby.

Estou dizendo que, enquanto meus colegas faziam compras durante algo em torno de uma hora, eu mantive uma conversa com aquele filho da puta.

Conversa.

Papo.

Eu falava.

Ele respondia.

Ele mexia os olhos.

Eu ria.

Ele mexia as orelhas.

Eu argumentava.

Ele emitia alguma coisa absolutamente incompreensível.

Eu aparentemente considerava aquilo uma contribuição válida ao debate.

— Hahahaha! Exatamente!

Furby:

— Plitistoitesdf!

— NÃO! Aí você está errado!

Furby:

— Brrr-dah-wee!

— Agora você entendeu!


🧠 A primeira IA que realmente me compreendeu

Vinte e cinco anos depois, existe algo extraordinariamente engraçado nessa história.

Hoje converso diariamente com Inteligência Artificial.

Discuto tecnologia.

Mainframe.

História.

Segurança.

Filosofia.

Cultura.

Anime.

Red Team.

Memórias.

Escrevo artigos em colaboração com máquinas capazes de sustentar diálogos enormes.

Em 2001 eu já estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Havia apenas alguns pequenos problemas.

A Inteligência Artificial não era inteligência.

A conversa não era conversa.

Meu interlocutor era um brinquedo eletrônico.

E eu estava bêbado.

Muito bêbado.


🛰️ Ground Control to Major Tom

Talvez o mais extraordinário daquela semana seja a maneira como diferentes versões do mundo coexistiram.

No dia 11, eu estava diante de uma televisão na Avenida Paulista vendo algo que mudaria a história.

No dia 12, estava dentro de um avião lotado, cercado por pessoas assustadas.

Durante sete dias, trabalhei normalmente em Montevidéu.

Na volta, embarquei num enorme Boeing quase vazio da American Airlines.

Fui colocado na primeira classe.

Recebi o agradecimento emocionado de profissionais que haviam atravessado uma semana inimaginável.

Apertei a mão do comandante.

Comi maravilhosamente.

Bebi gloriosamente.

Observei a paisagem enquanto o próprio comandante fazia praticamente uma visita guiada aérea.

Desembarquei sendo cumprimentado pela tripulação.

E terminei a aventura discutindo sabe Deus o quê com um Furby.

Se alguém tivesse escrito isso como roteiro, eu provavelmente reclamaria:

“Está forçado demais.”

A vida, porém, não possui editor.


☕ O dia seguinte sempre chega

Existe uma lembrança humana importante escondida debaixo de toda essa comédia.

Grandes acontecimentos históricos parecem enormes quando os observamos retrospectivamente.

Datas.

Presidentes.

Guerras.

Mercados.

Aeroportos.

Mortos.

Consequências geopolíticas.

Mas quem vive dentro da História continua sendo apenas uma pessoa.

No dia seguinte precisa trabalhar.

Precisa pegar avião.

Precisa chegar ao cliente.

Precisa voltar para casa.

Às vezes sente medo.

Às vezes encontra pessoas extraordinariamente gentis.

Às vezes bebe além da conta.

E, ocasionalmente, encontra um Furby.

Talvez aquela tripulação tenha entendido algo importante naquela semana.

Depois de tudo que tinha acontecido, eles poderiam simplesmente executar aquele voo.

Em vez disso, decidiram fazer com que aqueles poucos passageiros voltassem a gostar de estar dentro de um avião.

Funcionou.

Quase vinte e cinco anos depois, ainda lembro deles.

Do chefe de cabine.

Do comandante.

Dos agradecimentos.

Da primeira classe.

Das garrafinhas.

Das janelas.

Da despedida em Cumbica.

E do Furby.

Principalmente do maldito Furby.


🤖 Epílogo: o roteirista estava fazendo foreshadowing

Hoje finalmente compreendo aquela criatura.

Talvez ela não estivesse falando bobagem.

Talvez estivesse tentando me avisar:

“Vagner, daqui a vinte e cinco anos você vai passar horas conversando com uma máquina.”

Infelizmente, naquela noite, minha capacidade de interpretação de Furbish estava ligeiramente comprometida.

Então respondi provavelmente alguma coisa como:

— HAHAHAHAHA! EXATAMENTE, MEU AMIGO!

E o Furby:

— Plitistoitesdf.

Maldito roteirista.

Ele não estava bêbado.

Estava fazendo foreshadowing.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

 

Bellacosa Mainframe e o fim inglorio do Barão Vermelho

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

Ou: como o maior ás da Primeira Guerra Mundial sobreviveu a 80 combates aéreos, morreu em 1918 e, um século depois, perdeu uma guerra de SEO para uma banda de rock e um caso policial brasileiro

Pegue um café.

Hoje vamos realizar uma experiência científica de altíssima complexidade.

Não será necessário laboratório.

Não precisaremos de acelerador de partículas.

Nenhum chimpanzé será ferido — embora alguns estejam de ressaca.

Precisaremos apenas de um computador, um navegador e duas pesquisas.

Digite:

Barão Vermelho.

Agora digite:

Richthofen.

Se você estiver no Brasil, provavelmente acabará diante de uma das maiores ironias da história da memória digital.

Porque houve um homem chamado Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen, piloto de caça alemão da Primeira Guerra Mundial, que se tornou uma das figuras mais conhecidas da história da aviação.

O sujeito derrubou dezenas de aeronaves inimigas.

Sobreviveu a combates em máquinas feitas essencialmente de madeira, tecido, arame, motor e uma quantidade industrial de coragem ou insanidade.

Tornou-se conhecido internacionalmente como:

O BARÃO VERMELHO.

Morreu em 1918.

E então aconteceu algo que nenhum estrategista militar poderia prever.

Cem anos depois, no Brasil, ele foi atacado simultaneamente por dois adversários formidáveis:

Cazuza pela esquerda.

Suzane von Richthofen pela direita.

Manfred olhou para o Google.

O Google olhou para Manfred.

E disse:

— Desculpe, senhor. O algoritmo encontrou resultados mais relevantes.


✈️ 1. Antes de tudo, havia um Barão Vermelho de verdade

Vamos devolver ao morto cinco minutos de dignidade histórica.

Manfred von Richthofen nasceu em 1892 e tornou-se piloto durante a Primeira Guerra Mundial.

Foi creditado com 80 vitórias aéreas, número extraordinário para aquele conflito, e transformou-se no ás mais famoso da guerra.

Sua imagem ficou associada especialmente às aeronaves vermelhas que pilotava e, no imaginário popular, ao famoso triplano Fokker Dr.I.

Daí:

Der Rote Baron.

The Red Baron.

Le Baron Rouge.

Il Barone Rosso.

O Barão Vermelho.

O homem virou arquétipo.

Décadas depois, Snoopy enfrentaria o Barão Vermelho imaginariamente em sua casinha.

Jogos usariam seu nome.

Filmes contariam sua história.

Modelistas montariam miniaturas de seus aviões.

Historiadores discutiriam suas batalhas.

Pilotos conheceriam seu nome.

Manfred havia conseguido aquilo que poucos seres humanos conseguem:

transformar o próprio sobrenome numa referência histórica internacional.

Richthofen era Richthofen.

Até chegar ao Brasil.


🎸 2. Então alguns brasileiros resolveram montar uma banda

Em 1981 nasceu uma banda brasileira de rock.

Precisava de nome.

E alguém teve uma excelente ideia:

Barão Vermelho.

Pronto.

O primeiro míssil SEO havia sido lançado décadas antes de SEO existir.

Depois apareceu um sujeito chamado Agenor de Miranda Araújo Neto.

Você talvez o conheça por um pequeno apelido:

Cazuza.

A banda cresceu.

Cazuza virou Cazuza.

Vieram músicas, discos, rádio, televisão, shows, revistas, entrevistas, fotografias, livros, documentários, biografias, homenagens.

Décadas de referências.

Para milhões de brasileiros nascidos depois da Primeira Guerra Mundial — o que, convenhamos, constitui parcela razoável da população — “Barão Vermelho” deixou de significar automaticamente:

piloto alemão, 1917.

Passou a significar:

banda brasileira de rock.

Não houve conspiração.

Cazuza jamais reuniu seus generais numa sala escura dizendo:

— Senhores, precisamos destruir a posição orgânica de Manfred von Richthofen.

Simplesmente aconteceu.

A cultura sobrescreveu a chave.

SEARCH_KEY = "Barão Vermelho"

1918:
RETURN Manfred_von_Richthofen

1985:
IF COUNTRY = BRAZIL
   RETURN Cazuza_and_friends
END-IF

O primeiro flanco estava perdido.

Mas Manfred ainda tinha seu sobrenome.

Richthofen.

Esse ninguém tomaria.

Certo?

Certo?

🐒


📰 3. Segure meu café, disse o Brasil

Em 2002 aconteceu um dos crimes mais conhecidos da história criminal brasileira recente.

Manfred Albert von Richthofen e Marísia von Richthofen foram assassinados.

A filha do casal, Suzane von Richthofen, Daniel Cravinhos e Cristian Cravinhos seriam posteriormente condenados pelo crime.

Não vamos transformar este Café numa reconstrução policial.

Existem livros, reportagens, documentários, processos, filmes e quilômetros de material sobre isso.

O que nos interessa aqui aconteceu depois.

O nome:

RICHTHOFEN

voltou com violência ao vocabulário brasileiro.

Só que não acompanhado de:

Fokker Dr.I.

Nem:

Primeira Guerra Mundial.

Nem:

80 vitórias.

Agora vinha acompanhado de:

Suzane.

Crime.

Julgamento.

Condenação.

Prisão.

Tremembé.

Progressão de regime.

Filmes.

Séries.

Documentários.

Entrevistas.

Notícias.

Mais notícias.

Mais notícias.

E mais notícias.

O segundo flanco de Manfred havia caído.


🔎 4. O Google não é professor de História

Aqui está o erro que cometemos quando pensamos em mecanismos de busca.

Imaginamos uma espécie de bibliotecário celestial.

Perguntamos:

Richthofen?

E esperamos que ele pense:

“Ah, naturalmente! Manfred von Richthofen, importante personagem histórico da Primeira Guerra Mundial.”

Mas mecanismo de busca não funciona como nosso professor de História.

Ele precisa descobrir o que provavelmente queremos encontrar.

E contexto importa.

Idioma importa.

Localização importa.

A consulta importa.

A Web disponível importa.

O interesse das pessoas muda.

Conteúdo novo aparece.

Conteúdo antigo perde ou ganha relevância.

O próprio Google reconhece oficialmente que seus resultados são dinâmicos porque a Web e o comportamento dos usuários estão constantemente mudando.

Ou seja:

Google não preserva uma tabela eterna de importância histórica.

Ele recalcula.

E aí nosso pobre Barão encontrou um adversário que nenhum Fokker poderia derrubar:

relevância contemporânea.


🧠 5. Biblioteca e buscador são criaturas diferentes

Entre numa biblioteca especializada em história militar.

Procure:

Richthofen.

Provavelmente Manfred aparecerá imediatamente.

Entre numa biblioteca de aviação.

Richthofen?

Manfred.

Primeira Guerra?

Manfred.

Ases?

Manfred.

Agora abra um mecanismo de busca brasileiro.

Digite apenas:

Richthofen.

A pergunta deixou de ser:

“Quem foi historicamente o Richthofen mais importante?”

A pergunta algorítmica se aproxima muito mais de:

“O que alguém digitando Richthofen aqui e agora provavelmente deseja encontrar?”

São perguntas completamente diferentes.

E isso produz uma conclusão fundamental:

importância histórica não é igual a relevância algorítmica.

Guarde essa frase.

Voltaremos a ela.


🕰️ 6. O morto tem um problema de marketing

Existe uma desvantagem terrível em morrer.

Além da óbvia.

Você para de produzir acontecimentos.

Manfred morreu em 21 de abril de 1918.

Desde então:

não casou.

não separou.

não mudou de emprego.

não abriu Instagram.

não participou de podcast.

não discutiu no Twitter.

não foi fotografado saindo de restaurante.

não lançou autobiografia.

não mudou de regime prisional.

não apareceu dirigindo Uber.

não respondeu seguidores.

não fez harmonização facial.

não entrou no BBB.

não deu entrevista.

não brigou com outro influenciador.

não lançou curso.

não vendeu mentoria.

Um desastre absoluto para SEO contemporâneo.

O cadáver simplesmente não colabora com o algoritmo.


📰 7. A celebridade criminal possui atualização contínua

Agora compare isso com uma pessoa ligada a um caso criminal extremamente famoso.

Depois que o nome alcança reconhecimento nacional, surge um fenômeno estranho.

Coisas absolutamente banais tornam-se notícia.

Pessoa desconhecida começa emprego novo:

silêncio.

Pessoa famosa por crime começa emprego novo:

MANCHETE.

Pessoa desconhecida casa:

parabéns da família.

Pessoa famosa casa:

MANCHETE.

Pessoa desconhecida separa:

problema dela.

Pessoa famosa separa:

MANCHETE.

Mudou o cabelo?

Notícia.

Mudou de cidade?

Notícia.

Abriu negócio?

Notícia.

Fechou negócio?

Notícia.

Aconteceu alguma coisa?

Notícia.

Não aconteceu nada?

Talvez também dê notícia.

🐒

Isso cria um loop extraordinário:

CRIME
  ↓
NOTORIEDADE
  ↓
COBERTURA
  ↓
MAIS NOTORIEDADE
  ↓
QUALQUER EVENTO TORNA-SE NOTÍCIA
  ↓
MAIS COBERTURA
  ↓
MAIS NOTORIEDADE
  ↺

O sistema passou a alimentar a si próprio.


💰 8. Quando o crime produz propriedade intelectual

E existe uma camada ainda mais desconfortável.

Crimes famosos produzem:

filmes.

livros.

podcasts.

documentários.

séries.

programas especiais.

canais de true crime.

entrevistas.

retrospectivas.

Cada nova produção ressuscita novamente o conjunto de palavras-chave.

É importante fazer uma distinção: existir filme ou livro sobre alguém não significa automaticamente que essa pessoa tenha vendido direitos ou recebido dinheiro. Direitos autorais, fatos públicos, direito de imagem e contratos são questões diferentes.

Mas, para nosso problema algorítmico, isso quase não importa.

Cada obra gera:

RICHTHOFEN

novamente.

Nova página.

Novo trailer.

Nova crítica.

Nova entrevista.

Nova busca.

Novo post.

Novo vídeo.

Novo comentário.

Novo crawler.

Manfred está morto há 108 anos.

Suzane continua produzindo eventos noticiáveis simplesmente por continuar vivendo.

Tente competir com isso.


🎸 9. Enquanto isso, Cazuza continua atacando pelo outro flanco

E Manfred ainda possui outro problema.

Mesmo que alguém tente escapar do sobrenome e pesquise pelo apelido:

BARÃO VERMELHO

surge a banda.

E Cazuza possui outra vantagem sobre Manfred.

Morreu em 1990, mas sua obra continua culturalmente ativa.

Músicas são reproduzidas.

Documentários aparecem.

Biografias são relançadas.

Artistas fazem homenagens.

Datas comemorativas produzem matérias.

Novas gerações descobrem as músicas.

Streaming mantém catálogo disponível.

A banda Barão Vermelho continuou sua própria história.

Portanto temos:

QUERY: "Barão Vermelho"

CANDIDATO A:
Manfred von Richthofen
1892–1918
piloto
Primeira Guerra Mundial

CANDIDATO B:
Barão Vermelho
banda brasileira
rock
Cazuza
Frejat
músicas
streaming
shows
cultura brasileira

O algoritmo brasileiro olha para aquilo.

Olha para você.

Olha novamente.

— Tenho quase certeza de que ele quer a banda.

MANFRED: ICH PROTESTIERE!

Tarde demais.


💥 10. O ataque perfeito

Agora conseguimos enxergar a beleza matemática da tragédia.

O pobre sujeito sofreu um ataque semântico pelos dois identificadores principais.

MANFRED VON RICHTHOFEN

IDENTIFICADOR 1:
"BARÃO VERMELHO"
       ↓
     CAZUZA
       🎸

IDENTIFICADOR 2:
"RICHTHOFEN"
       ↓
     SUZANE
       📰

É magnífico.

É terrível.

É brasileiro.

Um dos pilotos mais famosos da história militar perdeu simultaneamente:

o apelido para o rock brasileiro

e

o sobrenome para o true crime brasileiro.

Nem Clausewitz prepararia alguém para essa guerra.


🐕 11. Snoopy tentou ajudar

Existe ainda uma testemunha de defesa.

Snoopy.

Durante décadas, o cachorro de Charles Schulz subia em sua casinha, colocava capacete e óculos de aviador e imaginava enfrentar o Barão Vermelho.

Isso ajudou enormemente a manter o personagem no imaginário popular internacional.

Mas existe um pequeno problema.

Pergunte a muitos brasileiros jovens:

“Quem é o Barão Vermelho?”

A resposta provavelmente não será:

— O inimigo imaginário do Snoopy baseado em Manfred von Richthofen!

Será:

— A banda do Cazuza?

Game over.


🧹 12. Memória histórica não possui algoritmo de limpeza

Aqui nossa piada começa a ficar séria.

Nós costumávamos imaginar que digitalizar o mundo significaria:

preservar a memória.

E preservou.

Só que descobrimos outra coisa.

Preservar não significa priorizar.

A informação sobre Manfred continua disponível.

Não foi apagada.

Não houve censura.

Ninguém entrou na Wikipedia durante a madrugada e executou:

DELETE FROM HISTORY
WHERE NAME = 'MANFRED VON RICHTHOFEN';

Ele continua lá.

O problema é outro.

Há cada vez mais coisas na frente dele.

Isso é profundamente diferente de esquecimento tradicional.

No esquecimento tradicional:

a informação desaparece.

No esquecimento algorítmico:

a informação continua existindo, mas perde posição.

Essa diferença é gigantesca.


📚 13. A biblioteca guarda; o algoritmo reorganiza

Imagine uma biblioteca.

Um livro sobre a Primeira Guerra publicado em 1970 continua na estante de Primeira Guerra.

Pode ficar cinquenta anos sem ninguém tocá-lo.

Mas sua classificação permanece aproximadamente estável.

Agora imagine uma biblioteca em que, toda manhã, robôs retirassem todos os livros das prateleiras e reorganizassem tudo segundo:

o que as pessoas procuraram ontem.

Um assassinato famoso acontece?

Prateleira inteira muda.

Uma série estreia?

Muda novamente.

Uma celebridade morre?

Tudo muda.

Uma música viraliza no TikTok?

Corram com as estantes.

Isso se aproxima mais da experiência da memória algorítmica.

O passado continua presente.

Mas sua posição relativa muda constantemente.


🧟 14. O passado precisa competir com o presente

Essa talvez seja uma das grandes mudanças culturais da Internet.

Antigamente, história e notícia ocupavam ambientes relativamente separados.

O jornal dizia:

o que aconteceu ontem.

A enciclopédia dizia:

o que importa saber sobre o passado.

A biblioteca guardava:

o que foi publicado.

Agora tudo disputa a mesma caixa de pesquisa.

Manfred von Richthofen precisa competir com:

Suzane.

Cazuza.

filmes.

streaming.

podcasts.

notícias.

vídeos.

redes sociais.

memes.

E talvez este próprio artigo.

Olá, Googlebot.

🐒


🤖 15. E então chegaram as inteligências artificiais

Agora a coisa fica ainda mais interessante.

Durante vinte anos perguntávamos ao mecanismo de busca:

Richthofen

e recebíamos uma lista.

Agora perguntamos a uma IA:

“Quem é Richthofen?”

A máquina precisa decidir qual contexto provavelmente queremos.

História militar?

Crime brasileiro?

Genealogia?

Aviação?

Cinema?

True crime?

Brasil?

Alemanha?

1917?

2002?

2026?

Isso significa que a batalha pela associação semântica não acontece mais apenas na primeira página de resultados.

Ela acontece dentro da própria representação conceitual das palavras.

Quando milhões de documentos brasileiros associam:

Richthofen → Suzane

e milhões de referências culturais associam:

Barão Vermelho → banda

criamos uma vizinhança semântica.

O nome continua sendo o mesmo.

Mas o caminho mais curto até ele mudou.


🐒 16. Um milhão de chimpanzés encontram o Search Console

Neste momento os chimpanzés finalmente acordaram.

Um deles abre o Google.

Outro abre a Wikipedia.

Um terceiro pesquisa Cazuza.

Um quarto procura o Fokker Dr.I.

O quinto abre um vídeo sobre true crime.

O sexto procura Snoopy.

O sétimo pergunta:

— Quem diabos foi Manfred von Richthofen?

PAREM!

Você percebeu?

Acabamos de fazer novamente.

O leitor que não conhece Manfred agora quer pesquisar Manfred.

O leitor que não conhece o Fokker Dr.I quer pesquisar o avião.

O leitor que não conhece a relação de Snoopy com o Barão Vermelho quer procurar.

O leitor estrangeiro talvez queira descobrir por que diabos existe uma banda brasileira chamada Barão Vermelho.

E quem chegou procurando Suzane acabou lendo sobre a Primeira Guerra Mundial.

Senhoras e senhores:

EFEITO VEJA.

🐒🍌


🔎 17. O morto acaba de receber backlinks conceituais

Essa é a parte deliciosa.

Começamos este texto dizendo que Manfred perdeu a guerra de SEO.

Então escrevemos milhares de palavras contendo:

Manfred von Richthofen.

Barão Vermelho.

Primeira Guerra Mundial.

aviação.

Fokker Dr.I.

80 vitórias.

Cazuza.

Suzane von Richthofen.

E conectamos semanticamente tudo novamente.

Ou seja:

tentando explicar como a Internet esqueceu Manfred...

acabamos de produzir mais um documento lembrando Manfred.

O artigo contradiz sua própria tese ao executá-la.

Magnífico.

Um chimpanzé acaba de cair da cadeira.


⚖️ 18. E existe um lado profundamente humano nisso

Agora retire Cazuza.

Retire o Google.

Retire Manfred.

Retire SEO.

O que sobra?

Uma pergunta desconfortável:

quem controla aquilo pelo qual seremos lembrados?

Durante milhares de anos, a resposta era parcialmente:

família.

comunidade.

historiadores.

igreja.

Estado.

jornais.

livros.

Agora acrescentamos:

algoritmos.

E algoritmos não possuem necessariamente uma teoria moral da memória.

Eles não pensam:

“Este homem possui grande importância histórica e portanto merece permanecer acima desta celebridade contemporânea.”

Nem:

“Esta vítima deseja ser esquecida, então vamos reduzir sua exposição.”

Nem:

“Este criminoso já recebeu notoriedade suficiente.”

Eles processam sinais.

A sociedade produz os sinais.

E depois ficamos surpresos com o resultado.


👤 19. O irmão que gostaria de desaparecer

Essa discussão fica ainda mais incômoda quando pensamos nas pessoas que não escolheram participar de uma história.

Um crime famoso pode transformar familiares e sobreviventes em personagens públicos permanentes.

Enquanto criminosos podem tornar-se personagens de filmes, documentários e matérias, alguém associado ao caso apenas por parentesco pode desejar exatamente o contrário:

anonimato.

Essa pessoa pode querer trabalhar.

Comprar pão.

Ter relacionamentos.

Envelhecer.

Ser esquecida.

Mas existe um problema:

o sobrenome tornou-se uma query.

É uma espécie de herança algorítmica involuntária.

Você não herdou apenas genes, patrimônio ou fotografias de família.

Herdou uma palavra-chave.


♾️ 20. A Internet não esquece — mas isso não significa que ela lembre

Talvez essa seja a frase central deste Café.

Repetimos há décadas:

“A Internet não esquece.”

Não é exatamente verdade.

A Internet armazena.

Quem esquece somos nós.

E os algoritmos reorganizam aquilo que permanece armazenado.

Uma página pode continuar online durante quarenta anos e tornar-se praticamente invisível.

Outra pode possuir apenas três meses e dominar uma consulta.

Portanto:

persistência não é memória.

indexação não é relevância.

relevância não é importância.

E:

primeiro lugar no Google não é primeiro lugar na História.


🛩️ 21. Manfred ainda está voando

Então não, Cazuza não apagou Manfred.

Suzane não apagou Manfred.

Google não apagou Manfred.

O Barão Vermelho continua exatamente onde deveria estar:

nos livros de história da aviação.

nos museus.

nos arquivos da Primeira Guerra Mundial.

nos estudos sobre combate aéreo.

nas fotografias.

nas biografias.

nos modelos de Fokker.

nas histórias do Snoopy.

E agora...

neste Café.

Talvez o que tenha mudado seja simplesmente a porta pela qual chegamos até ele.

Antes:

BARÃO VERMELHO
      ↓
MANFRED

Hoje, no Brasil:

BARÃO VERMELHO
      ↓
CAZUZA
      ↓
"por que a banda chama Barão Vermelho?"
      ↓
MANFRED

E:

RICHTHOFEN
      ↓
SUZANE
      ↓
"de onde vem esse sobrenome?"
      ↓
MANFRED

Olhe só.

Talvez ele não tenha perdido completamente.

A rota ficou mais longa.


☕ Epílogo — O último combate do Barão Vermelho

Imagine Manfred acordando em 2026.

Entregamos um smartphone.

Explicamos a Internet.

Explicamos o Google.

Ele digita:

BARÃO VERMELHO.

Aparece Cazuza.

Manfred franze a testa.

— Wer ist das?

Explicamos.

Ele escuta uma música.

Talvez goste.

Então digita:

RICHTHOFEN.

Aparece Suzane.

Silêncio.

Manfred olha para nós.

Olha novamente para o telefone.

Olha para o milhão de chimpanzés.

Um chimpanzé lentamente empurra um copito de aguardente de Itatiba em sua direção.

Manfred bebe.

Respira fundo.

Pergunta:

— Então sobrevivi aos britânicos, franceses, aviões experimentais, metralhadoras sincronizadas e oitenta vitórias...

— Sim.

— ...para perder meu nome para uma banda e uma página policial brasileira?

O chimpanzé coloca a mão sobre o ombro dele.

— SEO, mein Freund.

Silêncio.

Ao longe, ouvimos um Fokker Dr.I.

Ou talvez seja Cazuza começando outra música.

Ninguém sabe mais.

O algoritmo também não.

E em algum datacenter, um crawler acaba de encontrar esta página e atualizar novamente a vizinhança semântica de:

MANFRED VON RICHTHOFEN.

Missão cumprida.

O Barão Vermelho acaba de ganhar mais uma pequena batalha.

Cento e oito anos depois.

☕🐒✈️🎸


✈️ P.S. — Mea culpa: esquecemos que o Barão Vermelho também virou anime

Antes que algum otaku especializado em história da aviação atravesse a janela do Bellacosa Mainframe empunhando uma miniatura de Fokker Dr.I:

sim, nós sabemos.

Passamos milhares de palavras reclamando que Google, Cazuza, true crime e a memória algorítmica empurraram Manfred von Richthofen para os fundos da estante...

...e conseguimos realizar a proeza de deixar de fora justamente uma das regiões da cultura pop onde o velho Barão e o arquétipo do ás da Primeira Guerra Mundial continuam voando alegremente:

anime e mangá.

Mea culpa.

Chamem os chimpanzés.

Devolvam o facão de Occam.

🐷 Primeiro pouso: Porco Rosso

Hayao Miyazaki possui uma conhecida paixão por aviação, e Porco Rosso (Kurenai no Buta, 1992) talvez seja uma das declarações de amor mais bonitas já animadas sobre máquinas voadoras e os homens absurdos que insistiam em pilotá-las.

Marco Pagot não é “o Barão Vermelho japonês”.

Seria forçar a barra até o parafuso espanar.

Mas o universo de Porco Rosso respira exatamente a mitologia que ajudou a transformar pilotos como Richthofen em personagens maiores que a própria biografia:

o ás individualista;

o piloto reconhecido pela máquina;

o duelo aéreo quase cavalheiresco;

a reputação construída nos céus;

a aeronave como extensão da personalidade;

e aquele romantismo de uma época em que o piloto ainda conseguia enxergar o rosto do homem tentando derrubá-lo.

Miyazaki pega esse imaginário, mistura Adriático, entreguerras, fascismo, hidroaviões e melancolia e produz algo completamente seu.

O resultado é curioso:

talvez alguém que jamais tenha lido uma única página sobre Manfred von Richthofen já conheça perfeitamente o arquétipo cultural que homens como ele ajudaram a construir.

🇯🇵 O Barão não desapareceu. Ele foi parar no Japão.

E Porco Rosso é apenas uma das portas.

Anime, mangá e jogos japoneses possuem uma longa paixão por ases, pilotos lendários, máquinas personalizadas, esquadrões de elite e rivais identificados por cores.

Às vezes Richthofen aparece diretamente.

Em outras, aparece apenas sua sombra cultural:

o piloto excepcional + a máquina característica + a cor distintiva + o apelido + a reputação quase mitológica.

Depois de um século copiando e remixando esse arquétipo, já nem sempre percebemos de onde ele veio.

O “Red Baron” deixou de ser apenas uma pessoa e tornou-se um trope.

E isso talvez seja uma forma de imortalidade ainda mais poderosa que aparecer em primeiro lugar numa busca.

🤖 O algoritmo pode esquecer o nome enquanto a cultura preserva o padrão

Aqui os chimpanzés acabaram de encontrar outro problema.

Nós argumentamos no artigo:

memória histórica ≠ relevância algorítmica.

Agora precisamos acrescentar:

memória cultural ≠ lembrança consciente da origem.

Uma cultura pode esquecer quem criou determinado arquétipo enquanto continua reproduzindo o arquétipo durante gerações.

O jovem assiste a um anime.

Aparece um piloto lendário.

A máquina possui uma cor característica.

Todos reconhecem seu nome.

Os inimigos temem encontrá-lo.

Ele possui uma aura quase aristocrática.

Nosso jovem pensa:

— Personagem maneiro.

Em algum lugar do além, Manfred olha para a tela:

— Moment mal... eu conheço esse sujeito.

🐒

☕ Portanto, correção registrada

Cazuza não matou o Barão Vermelho.

Suzane não matou o Barão Vermelho.

Google não matou o Barão Vermelho.

E nós também não conseguiremos.

Porque talvez Manfred tenha conseguido uma façanha ainda maior do que dominar uma palavra-chave:

virou arquétipo.

O nome pode cair para a segunda página.

O apelido pode virar banda.

O sobrenome pode virar true crime.

Mas coloque novamente no céu um piloto extraordinário, uma máquina inconfundível, uma cor que todos reconhecem e uma reputação que chega antes do avião...

e alguma coisa daquele velho Barão estará voando junto.

Mesmo que ninguém perceba.

Mea culpa, Herr Richthofen.

Pode guardar o Fokker.

Os chimpanzés corrigiram o registro.

☕🐒✈️🐷

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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