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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

SP 360 - Estrada dos Bambus

Bellacosa Mainframe percorrendo a SP 360 e sua caverna de Bambus

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🎋 A estrada que atravessou minha vida

A SP-360 nunca foi apenas uma estrada para mim.

Quando olho para ela hoje, percebo que seus quilômetros acabaram costurando diferentes capítulos da minha própria biografia. Mudaram os anos, mudaram as pessoas, mudaram os carros, mudaram os motivos da viagem. Mas a estrada continuou ali.

Entre 1993 e 1996, atravessar aqueles caminhos estava associado a Cristiani, a Cris. Amparo era o destino.

Anos depois, entre 1999 e 2002, a paisagem voltou a aparecer pela janela. Dessa vez havia outra história sendo escrita e outro nome associado à viagem: Giovana.

Dois tempos.

Duas garotas.

A mesma estrada.

A mesma cidade: Amparo.

Talvez seja justamente isso que transforme certas rodovias em algo muito maior do que uma sequência de quilômetros, curvas, pontes e placas. Algumas estradas acabam funcionando como linhas do tempo. Basta passar novamente por determinado lugar para alguma memória que parecia arquivada reaparecer.

Depois vieram outros caminhos. Passei muitos anos fora do Brasil e, quando retornei em 2013, voltei também a cruzar a SP-360.

Mas agora havia uma diferença importante: comecei a registrar esses pequenos momentos.

Uma estrada que antes guardava minhas lembranças começou também a aparecer nas fotografias e nos vídeos.

Foi assim que, em 2016, registrei um dos trechos mais bonitos dessa rota, próximo de Morungaba: os bambus crescendo dos dois lados da pista e encontrando-se sobre a rodovia, formando uma espécie de caverna vegetal.

Entrar naquele trecho é como atravessar um pequeno portal.

A luminosidade diminui. A paisagem muda. Por alguns segundos, deixamos de simplesmente dirigir por uma rodovia e passamos por dentro da vegetação.

Os bambus se curvam sobre os viajantes como se estivessem fazendo uma reverência.

Como se saudassem quem chega.



Não surpreende que o lugar desperte a atenção de viajantes e motociclistas. Existe ali algo que nenhuma obra planejada conseguiria reproduzir exatamente da mesma maneira: uma arquitetura construída lentamente pela própria natureza.

E talvez eu goste tanto daquele pequeno túnel justamente porque ele representa perfeitamente minha relação com a SP-360.

Passei por ela inúmeras vezes.

Às vezes apaixonado.

Às vezes indo encontrar alguém.

Às vezes voltando.

Décadas depois, apenas observando e registrando.

Cristiani pertence a um capítulo. Giovana pertence a outro. Muitas outras histórias aconteceram antes e depois delas.

Os bambus cresceram.

Eu envelheci.

Amparo continuou no mapa.

E a SP-360 permaneceu ligando todos esses pontos invisíveis.

Hoje, quando revejo aquele pequeno registro de 2016, já não vejo apenas uma curiosidade da estrada.

Vejo uma velha conhecida.

Uma estrada que me viu passar aos vinte e poucos anos e me recebeu novamente depois de uma vida atravessada por outros lugares.

E naquele pequeno trecho de Morungaba, os bambus continuam inclinados sobre o asfalto.

Talvez não estejam apenas formando um túnel.

Gosto de imaginar que estejam dizendo:

— Bem-vindo de volta, viajante.

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Túnel vivo de Bambu


O trecho mais encantador da rodovia SP 360 e este ponto onde os bambus fazem um tunel dentro da estrada, são dois trechos, o primeiro com cerca de 10 metros e o segundo com 40 metros, tornando a estrada escura fazendo uma bela simbiose entre o asfalto e a natureza.


Quase chegando a Morungaba entramos no túnel,  A temperatura fica mais fresca a estrada escurece, tornando ainda mais bonito este trecho.



sábado, 10 de maio de 2014

Globo da Morte em Itatiba Parte II

Bellacosa Mainframe e o globo da morte no circo de itatiba

Um Café no Bellacosa Mainframe

🏍️ Aventuras no Globo da Morte — O Circo Mambembe que Fez o Formiguinha Pirar

Um fim de semana em Itatiba, brigadeiros da Juju, passeios pelo Parque Luís Latorre e motociclistas aparentemente malucos desafiando a gravidade dentro de uma esfera de aço

Estamos em Itatiba, em um daqueles finais de semana especiais em que o Formiga vinha ficar conosco.

E quando isso acontecia havia uma transformação interessante na casa.

Juliana ficava eufórica.

Era como se recebesse uma missão secreta:

Temos aproximadamente 48 horas. Precisamos fazer esse menino se divertir o máximo possível.

E a operação começava.

Videogame.

LEGO espalhado pela casa.

Passeios.

Guloseimas.

Brincadeiras.

Brigadeiros e outras delícias produzidas pelas mãos mágicas da Juju.

E, naturalmente, alguma coisa precisava acontecer fora de casa.

Uma de nossas rotinas era simplesmente bater perna pelo Parque Luís Latorre, passear sem grandes compromissos, deixar o Formiga gastar aquela aparentemente inesgotável reserva energética disponível exclusivamente para crianças.

Mas existia outra coisa que procurávamos aproveitar sempre que aparecia uma oportunidade:

circo.

E não estou falando dos espetáculos gigantescos que participam do Festival Internacional de Circo de Monte-Carlo, televisionados e apresentados ao mundo.

Estou falando de outra espécie de circo.

Talvez uma espécie muito mais próxima daquela que durante gerações ajudou a formar o imaginário das pequenas cidades brasileiras.

🎪 O pequeno circo familiar.

O circo mambembe.

Aquele que chega ao interior paulista transportado por alguns caminhões, ocupa temporariamente um terreno, ergue sua lona e durante alguns dias cria um pequeno universo paralelo dentro da cidade.


🎪 Uma pequena empresa familiar sobre rodas

Existe algo nesses circos que sempre me fascinou.

Não há uma gigantesca estrutura corporativa separando cada função.

Ali, todo mundo parece fazer um pouco de tudo.

A mesma artista que você encontra fazendo malabarismo no picadeiro pode ser justamente a pessoa que, pouco antes, estava vendendo o ingresso na entrada.

Outro artista que daqui a alguns minutos estará participando de algum número pode aparecer no intervalo oferecendo:

🍿 doces,

🥤 refrigerantes,

🍭 algodão-doce,

🌭 cachorro-quente,

🥟 pastel.

É quase uma pequena empresa itinerante.

Só que o escritório possui lona.

O departamento de vendas também faz malabarismo.

O pessoal da operação monta arquibancada.

E provavelmente alguém do financeiro sabe dirigir caminhão.

Quem está acostumado com grandes organizações poderia imaginar um organograma:

CEO → Diretor → Gerente → Supervisor → Operação.

No circo mambembe o organograma provavelmente seria mais simples:

Todo mundo → faz tudo.

E funciona.

A família trabalha.

Os artistas trabalham.

A lona sobe.

As luzes acendem.

A música começa.

E durante algumas horas aquele terreno qualquer de uma cidade do interior deixa de ser um terreno.

Vira um mundo mágico.

🐜 Para uma criança, porém, nada disso importava

O Formiga não estava interessado no modelo operacional do circo.

Ele queria espetáculo.

E naquele dia haveria um dos números mais tradicionais e impressionantes desse universo:


🏍️ O GLOBO DA MORTE

Ali estava ele.

Uma enorme esfera construída com estrutura metálica.

Olhando de fora já parecia existir alguma coisa errada naquele projeto.

Uma motocicleta ali dentro?

Tudo bem.

Mas então o piloto começa a acelerar.

VRUUUUUMMMMM!

Mais rápido.

VRUUUUUUUUUMMMMMM!

A moto começa a subir pelas laterais.

E alguns segundos depois acontece aquilo que qualquer criança olhando para a cena provavelmente considera impossível:

o motociclista passa de cabeça para baixo.

O Formiguinha pirou.

🏍️ O ronco que tomava conta da lona

Meu pequeno texto publicado em 2014 registrou exatamente essa sensação:

“O ronco do motor ensurdecedor, bagunça sobre duas rodas, o Formiguinha pirou com o barulho, ficou louco com as peripécias dos pilotos.”

Hoje percebo como aquela descrição curta capturou perfeitamente o ambiente.

Porque o Globo da Morte não é apenas visual.

Ele é físico.

Você sente aquelas motocicletas.

O motor acelera dentro de uma estrutura metálica fechada e coberta por uma lona.

O som invade tudo.

A motocicleta ganha velocidade.

O piloto sobe.

Desce.

Cruza novamente.

Sobe pelas grades.

E o público acompanha cada passagem.



🤫 Então acontece uma coisa curiosa

Quanto maior o barulho das motocicletas...

mais silencioso fica o público.

Existe um momento em que todo mundo parece prender a respiração.

Foi justamente isso que registrei naquele pequeno post:

“O roncar dos motores, o silêncio e atenção do público tornam ainda mais mágica a sensação.”

E continua sendo uma das coisas mais interessantes do espetáculo.

Não é necessário colocar uma placa:

SILÊNCIO.

Ninguém precisa pedir.

Todo mundo entende que aqueles pilotos estão executando alguma coisa potencialmente perigosa.

Um pequeno erro pode significar muito mais do que perder alguns pontos numa competição.

Ali não existe CTRL+Z.

Não existe restart checkpoint.

Não existe:

//RETRY EXEC PGM=GLOBOMORTE

😄

A execução é produção.

⚙️ A física não está sendo desafiada

Naturalmente dizemos que aqueles motociclistas estão “desafiando a gravidade”.

Mas existe uma pequena ironia.

Eles não estão vencendo as leis da física.

Estão sobrevivendo justamente porque aprenderam a trabalhar com elas.

Para completar uma volta vertical, a motocicleta precisa manter velocidade suficiente para que a trajetória circular continue sendo possível. A estrutura do globo, a velocidade, o raio da trajetória, a aderência e principalmente a habilidade do piloto trabalham juntos.

A gravidade continua lá.

Newton não abriu uma exceção temporária porque o circo chegou a Itatiba.

O impressionante é justamente o contrário:

aqueles motociclistas aprenderam a transformar as leis da física em espetáculo.

E fazem isso a poucos metros do público.

😳 Uma moto já parece loucura

Então naturalmente alguém teve a seguinte ideia:

“E se colocarmos mais motociclistas?”

Porque aparentemente existir apenas um sujeito correndo de motocicleta dentro de uma esfera metálica não produzia emoção suficiente.

É aí que o espetáculo fica ainda mais impressionante.

Os pilotos precisam controlar não apenas suas próprias máquinas e trajetórias, mas trabalhar com sincronização e precisão.

Para o público parece caos.

Para os pilotos precisa existir ordem.

É quase um processamento paralelo.

Cada motociclista possui sua trajetória.

Cada um possui seu tempo.

Todos compartilham o mesmo recurso.

E ninguém pode provocar uma condição de corrida.

Literalmente.

Meu cérebro de mainframe olha para aquilo hoje e pensa:

RESOURCE SHARING: CRITICAL

COLLISION DETECTION: HUMAN

FAILOVER: NÃO RECOMENDADO

SLA: VOLTAR VIVO

😂

Mas o pequeno Formiga não precisava saber de nada disso.

Ele simplesmente estava fascinado.

❤️ E talvez aí esteja a verdadeira história

Quando encontrei novamente aquela postagem de 2014, parecia ser apenas um pequeno registro sobre motociclistas.

Dois vídeos.

Algumas frases.

Um Globo da Morte.

Mas puxando um pouco mais o fio da memória apareceu todo o restante.

Apareceu Itatiba.

Apareceu o fim de semana.

Apareceu o Parque Luís Latorre.

Apareceu o LEGO.

Apareceu o videogame.

Apareceram os brigadeiros.

E apareceu Juliana tentando comprimir em um único fim de semana todas as experiências possíveis para o pequeno visitante.

De repente percebi que o Globo da Morte era apenas uma parte da história.

O verdadeiro espetáculo começava antes.

Começava quando o Formiga chegava.

🧱 LEGO, videogame e brigadeiro

Talvez para ele fossem apenas finais de semana divertidos.

Para nós havia toda uma preparação emocional.

O que vamos fazer?

Onde vamos levá-lo?

O que vamos comer?

Tem alguma coisa acontecendo na cidade?

E quando aparecia um circo...

Bingo.

Estava decidido.

E gosto particularmente de pensar que não procurávamos necessariamente o espetáculo mais sofisticado.

Não precisava existir luxo.

Não precisava existir uma produção internacional.

Bastavam uma lona, algumas arquibancadas, artistas dispostos a trabalhar e aquela velha promessa circense:

Senhoras e senhores...

...durante as próximas duas horas vocês podem esquecer o mundo lá fora.


🎪 Os gigantes pequenos do picadeiro

Hoje também olho para aqueles artistas com outro respeito.

Porque quando somos espectadores enxergamos apenas alguns minutos da apresentação.

Não vemos o resto.

Não vemos desmontar.

Carregar.

Dirigir.

Chegar à próxima cidade.

Montar novamente.

Consertar equipamentos.

Ensaiar.

Vender ingressos.

Preparar comida.

Limpar.

Receber o público.

Vestir o figurino.

Entrar no picadeiro.

Sorrir.

Apresentar.

E no dia seguinte...

fazer tudo novamente.

Talvez seja justamente isso que torne esses pequenos circos familiares tão especiais.

Não são apenas empresas de entretenimento.

São comunidades itinerantes especializadas em fabricar algumas horas de encantamento.

💾 Maio de 2014

Meu registro original era minúsculo.

Poucas linhas.

Dois vídeos.

Mas funcionou.

Doze anos depois bastou encontrar aquelas palavras para executar alguma coisa dentro da memória:

RESTORE MEMORIA.GLOBO.MORTE

E os arquivos começaram a voltar.

Itatiba.

Juju.

Formiga.

Circo.

Lona.

Doces.

Motocicletas.

Barulho.

Silêncio.

E aqueles olhos acompanhando pilotos correndo pelas grades.

Talvez seja justamente por isso que gosto tanto de revisitar estes milhares de pequenos registros.

Na época eu pensava que estava guardando vídeos.

Hoje percebo que estava deixando ponteiros para memórias.

Os vídeos não armazenaram apenas motociclistas.

Armazenaram um fim de semana.

E dentro daquele fim de semana havia uma pequena família tentando proporcionar a uma criança experiências que um dia poderiam virar lembranças.

🐜 O Formiguinha ainda está lá

O circo certamente foi embora de Itatiba.

A lona foi desmontada.

As estruturas entraram nos caminhões.

Os motociclistas partiram para outra cidade do interior.

O terreno voltou à rotina.

Talvez alguns daqueles artistas nem imaginem que, doze anos depois, alguém ainda estaria escrevendo sobre aquela apresentação.

Mas em algum lugar dentro de dois pequenos vídeos publicados em maio de 2014...

o espetáculo ainda não terminou.

O motor continua acelerando.

A motocicleta continua subindo pelas grades.

O público continua prendendo a respiração.

Juliana continua eufórica por proporcionar mais uma aventura.

E o pequeno Formiga continua olhando para aquela esfera metálica absolutamente convencido de que aqueles motociclistas são os seres humanos mais malucos do planeta.

🏍️ VRUUUUUUUUUMMMMM!

E lá vai ele outra vez.

Bellacosa Mainframe

Um circo pode permanecer apenas alguns dias numa cidade.

Uma apresentação pode durar apenas alguns minutos.

Mas algumas experiências conseguem ficar em produção por toda uma vida.

03:17:00 — GLOBE OF DEATH JOB STILL RUNNING

FORMIGA STATUS: EUPHORIC

JUJU STATUS: MISSION ACCOMPLISHED

GRAVITY STATUS: WORKING AS DESIGNED

RETURN CODE: 0000


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Aventuras no globo da morte..


Um circo mambembe numa pequena cidade do interior paulista, audazes motociclistas aprontam vários truques em suas motocicletas.



O ronco do motor ensurdecedor, bagunça sobre duas rodas, o formiguinha pirou com o barulho, ficou louco com as peripécias dos pilotos.



O roncar dos motores, o silencio e atenção do publico tornam ainda mais magico a sensação. Rodando e subindo correndo e subindo pelas grades.

Globo da Morte em Itatiba

Aventuras no globo da morte..

O globo da morte sempre foi uma das atrações mais emocionantes dos tradicionais circos mambembes que percorrem as pequenas cidades do interior paulista. Sob a lona iluminada, o cheiro de serragem mistura-se à expectativa do público, enquanto o ronco dos motores anuncia que o espetáculo está prestes a começar. Em poucos segundos, os motociclistas aceleram com coragem e precisão, desafiando a gravidade dentro da gigantesca esfera metálica.

Cada volta aumenta a adrenalina. As motos sobem pelas grades, cruzam-se em alta velocidade e executam manobras sincronizadas que exigem anos de treinamento, confiança e absoluto controle. O barulho ensurdecedor dos motores faz o chão vibrar, e até o pequeno Formiguinha parece enlouquecer com tanta agitação, correndo de um lado para o outro, fascinado com a velocidade e o espetáculo.

Enquanto isso, o público prende a respiração. O silêncio entre uma manobra e outra contrasta com o rugido das motocicletas, tornando cada segundo ainda mais mágico. Crianças, adultos e idosos acompanham atentos, aplaudindo cada demonstração de coragem e habilidade.

O globo da morte representa muito mais do que uma simples atração circense. É um símbolo da dedicação dos artistas itinerantes que, com talento e paixão, mantêm viva uma das mais tradicionais formas de entretenimento popular brasileiro, levando emoção, aventura e encantamento por onde passam.

Um circo mambembe numa pequena cidade do interior paulista, audazes motociclistas aprontam vários truques em suas motocicletas.



O ronco do motor ensurdecedor, bagunça sobre duas rodas, o formiguinha pirou com o barulho, ficou louco com as peripécias dos pilotos.



O roncar dos motores, o silencio e atenção do publico tornam ainda mais magico a sensação. Rodando e subindo correndo e subindo pelas grades.

domingo, 7 de março de 2010

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

 

Bellacosa Mainframe e as memorias de infância em Urupês

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

Se Ibitinga foi meu laboratório de aventuras, Urupês foi meu estaleiro de horizontes — aquela fase da vida em que o menino paulistano, criado entre filmes, fotos, câmeras e luzes, descobria que existia um mundo inteiro além da cinzenta e opressora capital paulista.

O caminho até Urupês já era um acontecimento. Estradas vazias, quase hipnotizantes, com apenas o ronco do fusquinha vermelho (aquele guerreiro 1960 que enfrentava cascalho, poeira, barro e buracos como se fosse um tanque de guerra miniaturizado). As cidades dormiam ao redor da estrada. Só o vento, o sol e algum caminhoneiro perdido sabiam que vocês passavam por ali.

E ali, naquele pequeno ponto no mapa do Noroeste paulista, ficavam os parentes espanhóis espalhados, meio raiz, meio lenda, sempre com a oficina de tratores como um farol, uma fazenda ou uma história para contar.
Tinha o primo Eduardo da oficina de tratores, tinha o velho Wilson, meu pai, naquela época moço na casa dos trinta anos, uma figura única, boa praça, carismático, sarrista, centro das atenções onde estivesse, um contador de causos, de piadas e de vergonhas alheias — inclusive aquela famosa e indecente do vereador e o galinheiro, que você jura que um dia vai contar.

Mas o que pega na memória mesmo não é o povo — é o ambiente.


Urupês tinha cheiro.

Cheiro de lenha queimada no fogão, cheiro de terra molhada depois da chuva, cheiro de curral, de capim amassado pelo cascos dos bois.

Urupês tinha sons.

O bater da chuva no telhado sem forro.
O rangido dos móveis antigos.
O canto enlouquecido das maritacas.
O mugir manso do gado.
E o coro dos grilos ao entardecer, aquele som que parecia dizer:
Fica mais, menino. Você não precisa ir embora tão cedo.



Urupês tinha perigos.

Perigos verdadeiros, naturais, selvagens, como a galinha choca possuída pelo demônio que me perseguiu quintal adentro, defendendo o pintainho que achei que podia pegar como quem pega um brinquedo.
Ali você aprendi rápido o conceito de “instinto maternal”, “risco de vida” e “corre senão ela te acerta”.

Urupês tinha magia.

Calhambeques semi-abandonados que se tornavam naves espaciais.
Café colhido na hora, seco no rancho, torrado e moido.
Riachos que viravam mundos.
Ninhos de joão-de-barro que pareciam pequenas cidades.
Tucanos, maritacas e papagaios que faziam mais barulho que o trânsito de São Paulo.
Cavalos que pareciam saídos de livros de aventura.

E o mais importante:


Urupês te deu dimensão.

Me fez perceber que meu mundo era muito maior que o quarteirão cinzento da cidade grande.
Que existia um mundo imenso além da Vila Rio Branco na Ponte Rasa.

Que fronteiras não eram paredes.
Que horizontes eram convites.

Talvez tenha sido ali — entre poeira, galinha furiosa, cheiro de lenha e viagens intermináveis — que nasceu a minha vocação de não aceitar limites.
De ser alguém sempre em movimento, buscando, aprendendo, explorando, criando.

Um menino que viu o mundo se abrir em quilômetros antes de se abrir em mãos.

E Urupês, assim como Ibitinga, ficou marcado no meu peito como essas memórias que aquecem em dia frio e lembram:
Sim, eu vim daqui. Eu me fiz aqui. E tudo isso ainda vive em mim.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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