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Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
Bellacosa Mainframe e o anime Nana uma ode a juventude niponica
🌸 Nana: Amor, Amizade e a Alma da Juventude Japonesa
Criadora: Ai Yazawa Ano de lançamento: 2000 (mangá), 2006 (anime) Gênero: Drama, romance, slice-of-life, música Sinopse sem spoiler:Nana acompanha a vida de duas jovens com o mesmo nome que se cruzam em Tóquio. Cada uma busca realização pessoal, amor e independência, enquanto enfrenta os desafios de crescer na grande cidade.
🏙️ Contexto social do Japão no início dos anos 2000
Urbanização e vida adulta: Muitas jovens migravam do interior para Tóquio em busca de carreira, liberdade e identidade própria.
Mudança de papéis femininos: Crescia a busca por independência econômica e emocional, num país ainda muito pautado por tradições de gênero.
Pressão social e solidão: Apesar da modernização, existia grande pressão por sucesso profissional e pessoal, levando a dilemas emocionais e existenciais.
Nana reflete exatamente esses temas: sonhos versus realidade, amizade versus isolamento, escolhas pessoais versus expectativas sociais.
🎵 Impacto cultural do anime
Moda e estilo:
Roupas, cortes de cabelo e acessórios inspirados em Nana se tornaram tendências jovens no Japão e na Ásia.
O estilo “punk chic” da Nana musical, por exemplo, influenciou moda urbana feminina.
Identificação com personagens:
O público-alvo (jovens adultas) se reconheceu nas inseguranças, ambições e conflitos da vida urbana retratada.
Temas como amizade profunda, amores complexos e decisões difíceis criaram uma conexão emocional intensa.
Discussão de temas sociais:
Aborda carreira, relacionamentos e saúde emocional de maneira honesta.
Contribuiu para debates sobre independência feminina, pressão social e escolhas de vida no Japão moderno.
Música e indústria cultural:
Banda fictícia presente no anime influenciou o gosto musical da época.
Canções da trilha sonora se tornaram populares, aumentando o interesse por bandas de rock e pop feminino no Japão.
💡 Curiosidades Bellacosa
Ai Yazawa, a criadora, é conhecida por retratar mulheres jovens de forma realista, com nuances emocionais raramente vistas em outros shōjo ou josei.
O anime/mangá é considerado um marco do josei, gênero que fala para mulheres jovens adultas, diferente do shōjo mais adolescente.
Nana influenciou revistas de moda, playlists de música e até atitudes sociais de jovens adultas, como morar sozinha, viajar e se expressar com estilo próprio.
🧠 Reflexão Bellacosa
Nana não é apenas romance ou drama. É um espelho da juventude urbana japonesa: cheia de sonhos, conflitos, estilo e emoções à flor da pele.
O impacto social não veio de superpoderes ou batalhas épicas, mas da identificação profunda com os dilemas reais da vida moderna, especialmente para mulheres que precisavam equilibrar independência e relações humanas.
✨ Em resumo: Nana mostrou que um anime pode ser culturalmente transformador, influenciando moda, música e, principalmente, a maneira como jovens japonesas enxergam sua vida e escolhas.
Bellacosa Mainframe e o jovem que parou no tempo neet
🕯️ NEET – O Jovem que Parou no Tempo
Enquanto o mundo corre em ritmo acelerado, há quem decida — ou seja empurrado — para o silêncio dos quartos. O termo NEET, nascido na Inglaterra e adotado no Japão, descreve uma geração invisível, suspensa entre o sonho e o desencanto. Mas no Japão, essa palavra ganhou uma profundidade cultural que transcende estatísticas: tornou-se um retrato psicológico da era moderna.
📖 O que significa NEET?
A palavra NEET vem da expressão inglesa:
Not in Education, Employment or Training
(Não está em Educação, Emprego ou Treinamento)
Ou seja, um NEET é uma pessoa — geralmente jovem — que não estuda, não trabalha e não está em nenhum processo de capacitação.
No Japão, o termo é usado de forma mais restrita e emocional: descreve jovens adultos isolados da vida social e produtiva, muitas vezes sem propósito ou motivação.
🗾 Origem e contexto japonês
O termo surgiu no Reino Unido nos anos 1990, como categoria estatística.
Mas no Japão, ele ganhou alma própria por volta dos anos 2000, quando sociólogos e o governo começaram a estudar o fenômeno de jovens que simplesmente desistiam da competição social.
O Japão pós-bolha econômica (anos 90) foi um país onde o sucesso profissional deixou de ser garantido. A estabilidade das gerações anteriores desapareceu. O resultado?
Milhares de jovens, incapazes de se encaixar no modelo rígido de sucesso japonês — estudo, emprego vitalício, casamento — recuaram para dentro de si.
🏠 NEET x Hikikomori
Embora os termos às vezes se confundam, há uma diferença importante:
Termo
Significado
NEET
Não trabalha nem estuda, mas ainda mantém certo contato com o mundo (pode sair, navegar na internet, etc.)
Hikikomori
Recluso social extremo, isolado por meses ou anos em seu quarto, evitando qualquer interação humana
Um NEET pode evoluir para hikikomori, mas nem todo hikikomori é NEET — alguns possuem renda ou trabalham remotamente.
💭 O lado emocional e filosófico
Ser NEET, no Japão, não é apenas uma questão econômica.
É um sintoma de uma sociedade exausta — onde o fracasso é tabu e o descanso, pecado.
Muitos jovens se tornam NEETs por ansiedade, medo da rejeição ou simplesmente por sentirem que a vida perdeu o sentido dentro do sistema hipercompetitivo japonês.
Eles vivem em um estado entre a infância e a adultez — um limbo silencioso.
“No Japão moderno, até o vazio tem disciplina.”
— Bellacosa
📺 NEETs nos animes — espelhos da solidão moderna
Os animes retrataram o fenômeno com uma sensibilidade rara.
Alguns exemplos:
🌀 Welcome to the NHK (NHK ni Youkoso!)
O protagonista, Satou Tatsuhiro, é um NEET e hikikomori que acredita em conspirações da emissora NHK para manipular jovens a se isolarem.
A obra é um retrato cru e melancólico da solidão urbana, misturada a delírios e humor sombrio.
Curiosidade: “NHK” no título é uma sátira: em vez da emissora real, representa “Nihon Hikikomori Kyokai” — “Associação Japonesa dos Reclusos”.
👾 Re:Zero – Subaru Natsuki
Antes de ser transportado para outro mundo, Subaru é um jovem NEET japonês — sem trabalho, sem estudos, vivendo no conforto preguiçoso da rotina vazia.
O anime transforma esse isolamento em metáfora: recomeçar até acertar.
🌙 No Game No Life
Os irmãos Sora e Shiro são NEETs brilhantes — gênios dos jogos que se recusam a viver na sociedade.
Transportados para um mundo onde tudo se decide em jogos, finalmente encontram um propósito.
É uma fábula sobre escapismo elevado à arte.
🕹️ Curiosidades sobre o fenômeno
Estima-se que existam mais de 1 milhão de NEETs no Japão.
Muitos sobrevivem com ajuda dos pais, o que gerou o termo “parasite single” (solteiro parasita).
O governo japonês criou programas de reinserção social e estágios “de recomeço”, mas a adesão é baixa.
NEETs costumam se refugiar em internet cafés, fóruns online e jogos — espaços onde podem existir sem pressão.
💡 Dicas culturais para compreender o NEET
Evite julgamentos rápidos.
Ser NEET não é necessariamente preguiça — é muitas vezes o reflexo de uma sociedade sem espaço para o erro.
Observe o silêncio nos animes.
Em muitas obras, a solidão e a pausa são mais eloquentes do que o diálogo.
O silêncio é o idioma dos que se retiraram do mundo.
Entenda o escapismo como arte.
Para muitos criadores japoneses, fugir da realidade é uma forma de resistência — transformar o isolamento em estética.
🌌 NEET: um símbolo do Japão contemporâneo
O NEET é o fantasma do sucesso moderno — o reflexo de uma geração que questiona o custo de “vencer”.
Enquanto o mundo exige produtividade, o NEET se torna um símbolo da recusa — uma existência que diz:
“Prefiro não ser do que ser mal.”
“Os NEETs não são um erro do sistema.
São o espelho que mostra que o sistema é insustentável.”
— Bellacosa
☯️ Epílogo
Nos animes, o NEET é tanto um aviso quanto um pedido de empatia.
É o jovem que se perdeu em meio à hiperconectividade e às expectativas impossíveis.
Mas também é o símbolo de uma verdade universal: há momentos na vida em que o mundo parece longe demais — e tudo o que resta é tentar redescobrir o sentido de existir.
Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo
Ou: como uma feira paulista, uma estação de trem, uma velha máquina de algodão-doce e os olhos azuis de uma jovem de 1999 continuaram executando um programa dentro da memória quase trinta anos depois
START GIOVANNA1999
Alguns programas nunca foram feitos para terminar.
Há momentos em que os milhões de chimpanzés que habitam minha cabeça fazem silêncio.
É raro.
Normalmente existe uma chuva permanente de ideias, pensamentos, lembranças, absurdos, projetos e associações aparentemente impossíveis. Um chimpanzé pensa em mainframe, outro em história, outro em alguma viagem realizada décadas atrás, enquanto um quarto provavelmente tenta descobrir por que determinada palavra japonesa parece portuguesa.
Mas existem pequenos gatilhos capazes de interromper tudo.
Não importa quanto tempo tenha passado.
Não importa onde eu esteja.
O gatilho acontece e o CPD para.
Um deles é o pastel.
Sim.
Pastel.
Aquela pequena massa frita que talvez algum historiador do futuro considere simples demais para merecer registro, mas que qualquer paulista criado entre feiras livres sabe que pertence a uma categoria muito mais elevada da existência.
Pastel não é apenas comida.
Pastel é memória.
E, no meu caso, pastel também é Giovanna.
O sacramento dominical do paulista
Para compreender essa história, talvez seja necessário explicar às gerações futuras o que significava uma feira livre paulista.
Imagino algum leitor em 2126 consultando este texto enquanto um robô doméstico sintetiza sua refeição molecularmente perfeita e perguntando:
— Mas por que alguém sairia de casa para comprar legumes numa rua?
Porque era muito melhor assim, meu caro descendente.
A feira tinha sons.
Cheiros.
Gente gritando preços.
Crianças.
Senhoras discutindo a qualidade do tomate.
Sacolas.
Caixas.
Frutas cortadas para degustação.
E, em algum ponto estratégico daquele pequeno caos urbano, estava a barraca de pastel.
Ao lado dela, quase obrigatoriamente, caldo de cana.
Ou garapa.
Cada região adotava sua palavra.
O pastel chegava quente demais para ser comido imediatamente, embora invariavelmente tentássemos.
A primeira mordida quebrava a casquinha crocante e libertava uma pequena nuvem de vapor capaz de queimar o céu da boca de qualquer pessoa impaciente.
Dentro poderia haver carne.
Queijo.
Palmito.
Pizza.
Frango.
Ou dezenas de outras invenções.
Mas havia ainda um ingrediente secreto que jamais aparecia na placa:
o óleo.
Não qualquer óleo.
O óleo ancestral da feira.
Depois de fritar uma quantidade arqueológica de pastéis, aquele óleo parecia possuir memória própria.
O pastel de queijo carregava talvez uma lembrança distante do pastel de carne.
A carne poderia ter conhecido o palmito.
O palmito certamente havia cruzado com algum pastel de pizza.
Era quase uma rede neural gastronômica treinada durante milhares de frituras.
E aquilo era delicioso.
O velho japonês que a história transformou em “chinês”
Existe ainda uma história humana por trás das barracas de pastel paulistas.
São Paulo recebeu uma enorme imigração japonesa ao longo do século XX. Essas famílias chegaram, trabalharam, criaram filhos, atravessaram preconceitos, guerras, transformações econômicas e adaptações culturais.
Em determinado período de nossa história, especialmente sob o peso do preconceito antijaponês relacionado à Segunda Guerra Mundial, identidades precisaram ser escondidas, adaptadas ou reinterpretadas.
No imaginário popular paulista surgiu então aquela figura que muitas crianças da minha geração conheceram simplesmente como:
“o chinês da feira”.
Muitas vezes era japonês.
Ou descendente de japoneses.
A história real é muito mais complexa que essa pequena frase, naturalmente. Envolve imigração, racismo, sobrevivência, assimilação e empreendedorismo.
Mas décadas depois algo extraordinário havia acontecido.
O pastel tinha deixado de parecer japonês, chinês ou estrangeiro.
Tornara-se simplesmente paulista.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da cultura.
Ela mistura pessoas, histórias, ingredientes e circunstâncias até que ninguém consiga mais separar completamente as origens.
O resultado vira tradição.
1991 — Pastel, Márcia e Freddie Mercury
Minha história pessoal com pastel também possui algumas pequenas ramificações.
Em 1991, ano em que Freddie Mercury morreu, houve Márcia.
Márcia era filha de uma pasteleira.
Tivemos um breve relacionamento.
É curioso como o cérebro cataloga acontecimentos. Alguém poderia imaginar que uma relação com a filha de uma mulher que fazia pastéis seria suficiente para criar a grande associação gastronômica da minha vida.
Cidade marcada pelo ciclo do café e por uma arquitetura que ainda guarda fragmentos daquela época em que fortunas atravessavam o interior paulista junto com trilhos, fazendas e estações ferroviárias.
Ali existia uma pastelaria próxima à antiga estação.
Sua própria existência carregava história.
Originalmente aquele tipo de estabelecimento atendia viajantes que chegavam ou partiam pelos trens. Pessoas desciam carregando malas, notícias, saudades, negócios e expectativas.
Comiam alguma coisa.
Tomavam alguma bebida.
Esperavam.
Depois seguiam viagem.
Quando a ferrovia perdeu importância e os trens desapareceram daquela rotina, estabelecimentos como aquele deveriam, segundo a lógica econômica, desaparecer também.
Mas alguns sobrevivem.
Mudam de dono.
Mudam detalhes.
Perdem parte da história.
Ganham outras histórias.
E continuam funcionando.
São pequenos fósseis comerciais vivos.
Em 1999, aquela pastelaria ainda vendia pastéis.
E eu estava lá.
Mas não estava sozinho.
Giovanna
Giovanna tinha lindos olhos azuis.
Quanto ao cabelo, existe uma divergência histórica que provavelmente jamais será resolvida.
Para mim, castanho-claro.
Para ela, loiro-escuro.
Considerando que este é meu registro para a posteridade, deixarei documentadas ambas as versões para que futuros arqueólogos não iniciem uma guerra acadêmica sobre o assunto.
Era 1999.
Éramos jovens.
E havia Amparo para zanzar.
Gosto da palavra zanzar porque ela descreve perfeitamente aquilo.
Não estávamos realizando uma missão.
Não havia roteiro turístico.
Não havia aplicativo indicando os dez lugares obrigatórios para fotografar.
Não precisávamos registrar cada minuto para provar aos outros que tínhamos estado ali.
Nós simplesmente andávamos.
Sentávamos num banco de praça.
Conversávamos.
Explorávamos alguma construção antiga dos tempos áureos do café.
Entrávamos numa loja de R$ 1,99.
Comíamos alguma coisa.
Voltávamos a andar.
Hoje parece extraordinariamente simples.
Talvez fosse justamente isso que tornasse aquilo extraordinário.
A pastelaria da estação
Em algum momento dessas tardes havia pastel.
Não sei se naquele instante pensei:
“Preciso memorizar isto porque daqui a quase trinta anos ainda vou lembrar.”
Certamente não.
Ninguém vive assim.
Grandes acontecimentos normalmente anunciam sua importância.
Casamentos possuem cerimônias.
Formaturas possuem fotografias.
Viagens possuem passagens.
Nascimentos possuem documentos.
Mas ninguém entrega um certificado dizendo:
ATENÇÃO: esta tarde aparentemente banal será importante para você em 27 anos. Favor prestar atenção.
A vida simplesmente acontece.
Comemos o pastel.
Conversamos.
Talvez tenhamos rido de alguma bobagem cujo conteúdo desapareceu completamente da minha memória.
E seguimos andando.
O problema — ou talvez a maravilha — é que meu cérebro executou silenciosamente:
COMMIT;
A transação foi gravada.
Pastel passou a apontar para Giovanna.
E nunca mais consegui desfazer essa associação.
O índice secreto da memória
Se nossa memória funcionasse como um banco de dados organizado, talvez existisse algo parecido com:
GIOVANNA → AMPARO → 1999
Mas memória humana é uma péssima DBA.
Ela cria índices sem consultar ninguém.
No meu caso, aparentemente fez:
PASTEL → GIOVANNA
AMPARO → GIOVANNA
PRAÇA → GIOVANNA
LOJA DE 1,99 → GIOVANNA
E ainda faltava um dos mais poderosos.
ALGODÃO-DOCE → GIOVANNA
A máquina impossível de algodão-doce
Amparo possuía outra pequena maravilha.
Uma velha máquina de algodão-doce.
Na minha lembrança, era uma máquina antiquíssima, do começo do século XX, mantida funcionando graças ao empenho de alguém que se recusava a permitir que aquele artefato simplesmente desaparecesse.
Talvez algum pesquisador futuro consiga determinar sua fabricação, modelo e história com maior precisão.
Para mim, naquele momento, importava outra coisa:
ela ainda funcionava.
Aquilo era maravilhoso.
Uma máquina criada em outro tempo continuava executando perfeitamente sua função.
Açúcar entrava.
O mecanismo girava.
E surgia uma nuvem doce.
Como alguém que passou boa parte da vida trabalhando com mainframes, reconheço hoje uma filosofia familiar:
— Isso ainda está funcionando?
— Sim.
— Há quanto tempo?
— Ninguém sabe exatamente.
— Não deveríamos substituir?
— Não toque.
Há coisas que sobrevivem simplesmente porque alguém continuou cuidando delas.
E aquela máquina continuava produzindo algodão-doce para novas gerações.
Açúcar transformado em nuvem
Algodão-doce é uma invenção maravilhosa justamente porque é quase completamente absurda.
Pegamos açúcar.
Transformamos em fios.
Enrolamos numa vareta.
E produzimos uma nuvem comestível.
Não existe praticamente nenhuma justificativa adulta para aquilo.
Não é sofisticado.
Não demonstra status.
Não é uma experiência gastronômica complexa.
Não precisamos discutir terroir.
Não há harmonização.
É açúcar.
É infância.
É diversão.
É inútil.
E talvez por isso seja tão importante.
Em algum momento de 1999, Giovanna e eu também comemos algodão-doce.
O segundo índice foi criado.
Décadas depois, ainda funciona.
START GIOVANNA1999
Hoje posso estar vivendo um dia completamente diferente.
Outro século.
Outra rotina.
Outros problemas.
Outras pessoas.
Outro eu.
Então aparece um pastel.
Mordo.
A casquinha quebra.
Sinto o recheio quente.
O cheiro chega.
E algum chimpanzé responsável pelo arquivo morto da minha memória abandona sua mesa, corre por um corredor empoeirado do CPD cerebral e grita:
— CHEFE! ENCONTREI UMA COISA!
Antes que minha parte racional compreenda o que aconteceu, o JOB já foi submetido:
START GIOVANNA1999
E estou novamente em Amparo.
Não fisicamente.
Mas suficientemente perto.
Vejo a praça.
A estação.
As construções.
Uma loja de R$ 1,99.
Pastéis.
Algodão-doce.
Olhos azuis.
E aquele cabelo castanho-claro que, caso Giovanna algum dia leia isto, certamente continuará alegando ser loiro-escuro.
Alguns bugs não precisam ser corrigidos.
A felicidade que não sabia que era felicidade
Com o passar dos anos comecei a perceber algo.
As lembranças mais persistentes nem sempre pertencem aos acontecimentos que, na época, pareciam mais importantes.
Viajei.
Conheci lugares extraordinários.
Vi monumentos.
Atravessei países.
Vivi acontecimentos históricos.
Trabalhei com tecnologias gigantescas.
Conheci muita gente.
Entretanto, algumas memórias que atravessaram décadas são absurdamente pequenas.
Um gosto.
Uma rua.
Uma conversa.
Um banco de praça.
Um alimento simples.
Talvez exista uma explicação.
Há momentos que lembramos porque alguma coisa extraordinária aconteceu.
Mas existem outros que lembramos porque, sem perceber naquele instante, estávamos extraordinariamente felizes fazendo coisas absolutamente ordinárias.
Esses são perigosos.
Não precisam de fotografias.
Não precisam de aniversários.
Não precisam sequer que pensemos conscientemente neles.
Ficam esperando.
Até que algum cheiro, música, palavra ou sabor encontre a chave.
A garapa de Luxor e o pastel de Amparo
Anos depois eu sentiria algo semelhante muito longe dali.
No Egito, em Luxor, antiga Tebas, encontrei caldo de cana.
Garapa.
Em meio a uma viagem cercada por milhares de anos de história, templos, faraós e monumentos capazes de atravessar civilizações, uma coisa aparentemente banal conseguiu me atingir profundamente:
caldo de cana.
Porque sabor não respeita geografia.
Também não respeita calendário.
Uma bebida simples podia aproximar o Egito do Brasil durante alguns segundos.
Assim como um pastel comprado décadas depois pode aproximar 2026 de 1999.
Talvez comida seja uma das máquinas do tempo mais eficientes inventadas pela humanidade.
Não era sobre o pastel
Naturalmente, nunca foi realmente sobre pastel.
Também não era sobre algodão-doce.
Nem sobre a loja de R$ 1,99.
Nem sequer apenas sobre Giovanna.
Era sobre aquele conjunto específico de circunstâncias que jamais poderá ser reproduzido exatamente.
Aquela idade.
Aquela cidade.
Aquele momento histórico.
Aquela companhia.
A ausência de pressa.
A possibilidade de simplesmente caminhar sem destino.
O futuro ainda não havia acontecido.
Muitas decisões ainda não tinham sido tomadas.
Muitas pessoas ainda não tinham chegado.
Outras ainda não tinham partido.
Nós não sabíamos disso.
Estávamos apenas vivendo uma tarde.
Para quem estiver lendo isto no futuro
Talvez você seja um descendente.
Talvez seja alguém que encontrou este texto perdido pela internet.
Talvez nem saiba quem foram aquelas pessoas.
Isso pouco importa.
Quero lhe deixar algo muito mais importante do que os nomes.
Quando estiver vivendo um momento simples, não o despreze por ser simples.
Coma o pastel.
Compre o algodão-doce.
Sente no banco.
Entre naquela lojinha aparentemente inútil.
Caminhe sem destino.
Converse.
Observe os prédios.
Ria da bobagem.
Não transforme necessariamente tudo em fotografia.
Não tente fazer cada segundo parecer extraordinário.
Apenas esteja lá.
Porque você não sabe quais desses momentos seu cérebro escolherá guardar.
Daqui a vinte, quarenta ou sessenta anos talvez você não consiga lembrar o assunto daquela conversa.
Talvez esqueça a roupa.
Talvez o estabelecimento desapareça.
A estação poderá virar museu.
A loja poderá ser demolida.
A velha máquina finalmente poderá parar.
Até as pessoas poderão seguir caminhos completamente diferentes.
Mas então, numa tarde qualquer, alguém colocará um pastel diante de você.
Você dará a primeira mordida.
E alguma coisa acontecerá.
O presente ficará silencioso.
Uma porta será aberta.
E por alguns segundos você terá novamente vinte e tantos anos.
Estará numa praça.
Ao seu lado haverá alguém que o tempo levou para outro caminho.
Você poderá quase ouvir sua voz.
Talvez até veja aqueles olhos.
Então compreenderá uma coisa que eu demorei muitos anos para aprender:
a vida não é formada apenas pelos grandes acontecimentos que contamos aos outros.
Boa parte dela está escondida nas pequenas coisas que aparentemente não mereciam ser guardadas.
Mas foram.
Meu pastel guardou uma cidade.
Meu algodão-doce guardou uma época.
Uma velha máquina guardou uma tarde.
E Giovanna acabou guardada em todos eles.
Talvez a memória seja justamente isso.
Um gigantesco CPD administrado por milhões de chimpanzés, cheio de arquivos sem documentação, programas que ninguém ousa apagar e índices criados sem qualquer lógica aparente.
De vez em quando um deles encontra uma fita esquecida.
Coloca para rodar.
O CPD inteiro fica em silêncio.
E nós chamamos aquilo de saudade.
Epílogo — O último pastel
Algum dia comerei meu último pastel.
Naturalmente não saberei que é o último.
Provavelmente reclamarei que tem pouco recheio.
Talvez esteja quente demais.
Talvez o óleo esteja naquele glorioso estágio arqueológico em que já possui conhecimento acumulado de quinze mil pastéis anteriores.
Vou morder.
A casquinha fará crack.
O vapor subirá.
E espero que, onde quer que meus milhões de chimpanzés estejam naquele momento, algum deles ainda conheça o comando.
START GIOVANNA1999
Então, por alguns segundos, pouco importará quantas décadas tenham passado.
Haverá novamente uma estação.
Uma pastelaria.
Uma praça.
Uma loja de R$ 1,99.
Uma máquina centenária transformando açúcar em nuvem.
Uma jovem de olhos azuis.
Um sujeito olhando para o cabelo dela e insistindo que aquilo era castanho-claro.
E uma tarde qualquer de 1999 que ninguém presente sabia ser histórica.
Não foi histórica para o Brasil.
Não mudou São Paulo.
Não apareceu nos jornais.
Não modificou o destino de Amparo.
Mas ficou registrada em algum lugar muito menor e, paradoxalmente, muito mais resistente.
Minha memória.
Se você estiver lendo isto muitas décadas depois de mim, talvez aquela pastelaria não exista mais.
Talvez aquela máquina esteja finalmente num museu.
Talvez ninguém mais saiba quem foi Giovanna.
Agora você sabe.
Ela foi uma jovem de olhos azuis que, durante algumas tardes de 1999, zanzou comigo por Amparo.
E isso bastou para que, décadas depois, um simples pastel ainda fosse capaz de parar o CPD.
Estamos no parque Luis Latorre, vulgarmente conhecido como parque da Juventude. Em volta da lagoa tem uma pocinha cercada utilizada para a garotada se refrescar e fazerem brincadeiras.
Eu e o formiguinha as vezes vamos pilotar a lancha Speedy, onde aproveitamos para passar bons bocados e dia desses estávamos ali, quando surgiu uma garça, o animal esta tão domesticado que não tem medo dos humanos e fica por ali de boa, a espera de algum alimento.
E eu aproveito para capturar estes momentos, filmando e fotografando a maluquinha da garça.
Bellacosa Mainframe e a chegada do Papai Noel em Itatiba
🎅 A Chegada do Papai Noel em Itatiba — 2015
🚁 Quando o bom velhinho chegou do céu
Dezembro de 2015. O clima de Natal já tomava conta de Itatiba, no interior de São Paulo, e naquele dia uma atração especial levou crianças e famílias ao Parque da Juventude: a chegada do Papai Noel.
Mas ele não apareceu de trenó puxado por renas.
Dessa vez, o bom velhinho resolveu modernizar o transporte e chegou de helicóptero! 🚁🎅
O barulho das hélices anunciava de longe que alguma coisa diferente estava acontecendo. Para as crianças, acompanhar um helicóptero pousando tão perto já seria uma aventura. Quando dele saiu ninguém menos que o Papai Noel, estava completo o espetáculo.
Era uma daquelas festas simples que acabam ficando guardadas na memória.
Além da chegada do Papai Noel, acontecia no local uma exposição de carros antigos, reunindo diferentes gerações em torno das máquinas que fizeram parte da história das estradas brasileiras.
E ainda havia mais.
Os bombeiros também participaram da festa, permitindo que a criançada conhecesse de perto um de seus veículos. Entre brincadeiras, curiosidade e muita agitação, ainda aconteceu a tradicional distribuição de balas e rebuçados.
🍬🍬🍬
Para quem era criança, era simplesmente uma festa.
Para quem olha essas imagens tantos anos depois, porém, existe outra coisa ali.
Existe um pequeno pedaço da história de Itatiba em 2015.
As pessoas, os carros, o parque, o helicóptero, os bombeiros e principalmente aquela expectativa infantil pela chegada do homem vestido de vermelho ficaram registrados pelas lentes da câmera.
O vídeo que naquela época mostrava apenas um passeio de Natal hoje virou uma pequena cápsula do tempo.
E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes de manter um blog durante tantos anos.
Sem perceber, vamos documentando a cidade.
🎅 Feliz Natal, Itatiba!
E que o Papai Noel da próxima vez não esqueça onde estacionou o trenó. 🎄🚁
O parque da Juventude em Itatiba teve dois super eventos este ano. Simultaneamente teve a chegada do Papai Noel e a exposição de carros antigos.
A criançada foi a gloria com direito a chuva de balas e rebuçados. Brincadeiras em cima do carro de bombeiro e ver de pertinho o pouso e decolagem de um helicóptero.
Bellacosa Mainframe e as memorias de infância em Urupês
URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS
Se Ibitinga foi meu laboratório de aventuras, Urupês foi meu estaleiro de horizontes — aquela fase da vida em que o menino paulistano, criado entre filmes, fotos, câmeras e luzes, descobria que existia um mundo inteiro além da cinzenta e opressora capital paulista.
O caminho até Urupês já era um acontecimento. Estradas vazias, quase hipnotizantes, com apenas o ronco do fusquinha vermelho (aquele guerreiro 1960 que enfrentava cascalho, poeira, barro e buracos como se fosse um tanque de guerra miniaturizado). As cidades dormiam ao redor da estrada. Só o vento, o sol e algum caminhoneiro perdido sabiam que vocês passavam por ali.
E ali, naquele pequeno ponto no mapa do Noroeste paulista, ficavam os parentes espanhóis espalhados, meio raiz, meio lenda, sempre com a oficina de tratores como um farol, uma fazenda ou uma história para contar.
Tinha o primo Eduardo da oficina de tratores, tinha o velho Wilson, meu pai, naquela época moço na casa dos trinta anos, uma figura única, boa praça, carismático, sarrista, centro das atenções onde estivesse, um contador de causos, de piadas e de vergonhas alheias — inclusive aquela famosa e indecente do vereador e o galinheiro, que você jura que um dia vai contar.
Mas o que pega na memória mesmo não é o povo — é o ambiente.
Urupês tinha cheiro.
Cheiro de lenha queimada no fogão, cheiro de terra molhada depois da chuva, cheiro de curral, de capim amassado pelo cascos dos bois.
Urupês tinha sons.
O bater da chuva no telhado sem forro.
O rangido dos móveis antigos.
O canto enlouquecido das maritacas.
O mugir manso do gado.
E o coro dos grilos ao entardecer, aquele som que parecia dizer:
— Fica mais, menino. Você não precisa ir embora tão cedo.
Urupês tinha perigos.
Perigos verdadeiros, naturais, selvagens, como a galinha choca possuída pelo demônio que me perseguiu quintal adentro, defendendo o pintainho que achei que podia pegar como quem pega um brinquedo.
Ali você aprendi rápido o conceito de “instinto maternal”, “risco de vida” e “corre senão ela te acerta”.
Urupês tinha magia.
Calhambeques semi-abandonados que se tornavam naves espaciais.
Café colhido na hora, seco no rancho, torrado e moido.
Riachos que viravam mundos.
Ninhos de joão-de-barro que pareciam pequenas cidades.
Tucanos, maritacas e papagaios que faziam mais barulho que o trânsito de São Paulo.
Cavalos que pareciam saídos de livros de aventura.
E o mais importante:
Urupês te deu dimensão.
Me fez perceber que meu mundo era muito maior que o quarteirão cinzento da cidade grande. Que existia um mundo imenso além da Vila Rio Branco na Ponte Rasa.
Que fronteiras não eram paredes.
Que horizontes eram convites.
Talvez tenha sido ali — entre poeira, galinha furiosa, cheiro de lenha e viagens intermináveis — que nasceu a minha vocação de não aceitar limites.
De ser alguém sempre em movimento, buscando, aprendendo, explorando, criando.
Um menino que viu o mundo se abrir em quilômetros antes de se abrir em mãos.
E Urupês, assim como Ibitinga, ficou marcado no meu peito como essas memórias que aquecem em dia frio e lembram:
— Sim, eu vim daqui. Eu me fiz aqui. E tudo isso ainda vive em mim.
Bellacosa Mainframe em uma visita ao Parque do Ibirapuera
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🌳 O Ibirapuera — Meu Imenso Quintal de Adolescência
Amigos, encontros, planetas, livros e memórias espalhadas por um dos maiores parques de São Paulo
Tenho uma ligação histórica com o Parque do Ibirapuera.
Quando olho para essas fotografias de 1997, percebo que elas não registram simplesmente mais uma visita ao parque. O Ibirapuera já fazia parte da minha vida havia muitos anos.
Minha primeira lembrança vem de 1987 ou 1988 — a data exata se perdeu em algum lugar da memória. Fui até lá por causa de uma Bienal do Livro e descobri aquele lugar gigantesco no meio de São Paulo.
Para um jovem curioso, aquilo parecia não ter fim.
Havia o Pavilhão da Bienal, a Oca, o Planetário, os museus, o lago, enormes áreas verdes, caminhos que desapareciam entre as árvores e sempre alguma coisa nova esperando depois da próxima curva.
Depois vieram outras visitas.
Em 1994, passei uma tarde extremamente agradável por ali com a Patricia, do Enigma. Em outra ocasião daquele mesmo período fui ao Planetário com a Cristiani e, por uma dessas coincidências que transformam um passeio comum em memória, acabei encontrando o Maelo.
Anos mais tarde voltei com a Paty de Interlagos.
Pessoas diferentes.
Momentos diferentes.
O mesmo Ibirapuera.
Talvez seja por isso que gosto de pensar nele como meu imenso quintal de adolescência.
Não era preciso existir um grande planejamento para aproveitar o parque.
Podíamos simplesmente caminhar.
Comprar uma água de coco.
Comer pipoca.
Seguir alguma trilha em meio ao verde.
Parar diante do lago.
Observar os cisnes, gansos, marrecos e garças.
Entrar no Planetário e, durante alguns minutos, deixar São Paulo para viajar pelo Universo.
Depois sair novamente para o sol e continuar andando.
O parque permitia essas pequenas viagens dentro de uma viagem.
Havia também o Pavilhão da Bienal, a Oca e tantos outros espaços que faziam o Ibirapuera parecer uma pequena cidade dedicada à cultura, à ciência, à arte e ao lazer.
E havia a presença da história.
Do outro lado daquele universo verde ergue-se o imponente Obelisco, guardando a memória dos que morreram na Revolução Constitucionalista de 1932.
Quando somos jovens, muitas vezes passamos diante desses monumentos sem compreender completamente o peso das histórias que carregam.
Décadas depois, olhamos novamente e enxergamos outras coisas.
Talvez seja isso que também aconteça com nossas próprias fotografias.
Em 1997, quando registrei mais uma tarde no Ibirapuera, provavelmente não estava pensando em construir um documento histórico da minha juventude.
Estava apenas vivendo.
Fotografando.
Caminhando.
Observando os animais.
Visitando lugares que já conhecia e descobrindo outros detalhes.
Mas o tempo fez seu trabalho.
Hoje aquelas fotografias não mostram somente o Parque do Ibirapuera.
Elas carregam todas as outras visitas que não aparecem dentro do enquadramento.
Em algum lugar entre aquelas árvores ainda consigo imaginar o jovem que chegou ali pela primeira vez para conhecer uma Bienal do Livro.
Em outro caminho está a tarde com Patricia.
Perto do Planetário aparecem Cristiani e o encontro inesperado com Maelo.
Em outra época surge Paty de Interlagos.
E então aparece o Vagner de 1997, novamente caminhando com uma câmera pela mão, fotografando o lago e seus habitantes.
É curioso perceber como determinados lugares tornam-se marcadores físicos da nossa própria linha do tempo.
As pessoas mudam.
Os relacionamentos mudam.
Nós mudamos.
Mas o lago continua ali.
A Oca continua ali.
O Pavilhão continua ali.
O Planetário continua apontando para as estrelas.
E o velho Ibirapuera continua recebendo novas gerações que compram pipoca, tomam água de coco e caminham sem destino entre suas árvores.
Talvez algum jovem esteja fazendo exatamente isso agora.
Sem imaginar que aquela tarde aparentemente comum poderá tornar-se, trinta ou quarenta anos depois, uma de suas melhores lembranças.
Foi assim comigo.
Por isso, quando digo que conheço o Parque do Ibirapuera, não estou falando apenas de conhecer seus caminhos.
Existem pedaços da minha juventude espalhados por eles.
E talvez essa seja a verdadeira razão pela qual determinados lugares nunca deixam completamente de nos pertencer.
O Ibirapuera foi parque, museu, planetário, biblioteca de lembranças, ponto de encontro e cenário de pequenas aventuras.
Durante alguns dos melhores anos da juventude, foi também algo muito mais simples.
Um final de semana delicioso para se passear no parque, uma ida ao planetário, passeio pelo lago e uma visita ao museu da Imigração Japonesa.
Neste passeio dediquei-me mais a registrar a vida animal existente no parque: galinhas de angola, cisneis, gansos, garças e marrecos se alimentam no lago e recebem agradinhos dos visitantes: milhos e paezinhos.
Mas existem tantas coisas legais a espera de serem descobertas.
Minha tia Maria, da Vila Alpina, segundo minha mãe, nasceu em Salto, uma cidade marcada pela forte imigração espanhola e localizada às margens do Rio Tietê, entre Itu e Sorocaba.
Ao passear por suas ruas, descobri que Salto é muito mais do que imaginava. A cidade reúne história, natureza, arqueologia, fé e patrimônio industrial em um único lugar.
Uma das experiências mais marcantes foi visitar o Santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira da cidade. Localizado no alto de uma colina, o santuário oferece uma vista privilegiada da região. Uma trilha em espiral conduz o visitante até um mirante, onde é possível contemplar a paisagem e compreender por que aquele ponto se tornou um símbolo da cidade.
Outro aspecto fascinante são as margens do Rio Tietê. Ali encontram-se importantes vestígios do passado industrial paulista: antigas tecelagens, ruínas arqueológicas, uma elegante ponte pênsil e a famosa Ilha dos Amores, cercada por lendas e histórias populares que atravessam gerações.
Infelizmente, a beleza do lugar contrasta com a realidade do rio. A poluição do Tietê ainda é evidente, acumulando lixo, espuma e um forte odor, lembrando que esse patrimônio natural ainda espera pela recuperação que merece.
Nos arredores da cidade existe ainda o Parque da Rocha Moutonnée, um dos mais importantes sítios geológicos do Brasil. A enorme formação rochosa preserva marcas deixadas pelas geleiras que cobriram o sul do continente durante a Era Glacial, oferecendo uma rara oportunidade de observar evidências de um passado com centenas de milhões de anos.
Salto acabou se revelando uma surpresa extremamente agradável. É uma cidade que reúne história, ciência, religiosidade, arqueologia, geologia e memória em um único roteiro, mostrando que, muitas vezes, os lugares mais interessantes estão muito mais próximos do que imaginamos.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
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Mainframe desde 1988