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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Parma: fui procurar Verdi e acabei num aniversário italiano

  

Bellacosa Mainframe memorias de Parma

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🍷 PARMA — O DIA EM QUE FUI PROCURAR VERDI E ACABEI CANTANDO PARABÉNS PARA UM DESCONHECIDO

Ou: como uma pizza no café da manhã, alguns italianos lutando contra uma massa de macarrão, uma lombriga chamada Brigitte e uma jarra de vinho transformaram um almoço qualquer numa das minhas melhores lembranças da Europa

Há viagens que planejamos.

Compramos passagem, estudamos mapas, escolhemos museus, anotamos endereços, calculamos horários de trem e fazemos uma lista quase militar daquilo que precisamos conhecer.

E existem as outras.

As viagens que acontecem enquanto estamos ocupados executando o roteiro.

Minha história em Parma pertence à segunda categoria.

Eu fui até lá por causa de Giuseppe Verdi.

Voltei carregando a lembrança de um velhinho cujo nome provavelmente nem guardei.

E, décadas depois, ainda consigo descer aquelas escadas.



🎼 O MOTIVO ERA VERDI

Minha ida a Parma não começou pela gastronomia.

Não fui caçar restaurante famoso.

Não havia uma lista de estabelecimentos recomendados.

Não estava procurando estrelas Michelin.

Meu interesse era outro.

Eu queria conhecer um pouco mais do universo de Giuseppe Verdi.

E havia ainda uma conexão brasileira que tornava aquilo especialmente interessante para mim: Antônio Carlos Gomes, nosso grande compositor, viveu e trabalhou na Itália e pertenceu àquele extraordinário universo musical italiano do século XIX.

Portanto, naquele dia meu programa era essencialmente cultural.

Verdi.

Carlos Gomes.

Igrejas.

Ruelas.

Arquitetura.

História.

E andar.

Principalmente andar.

Eu sempre conheci cidades dessa maneira.

Coloco os pés na rua e começo a zanzar.



🍕 NOVE DA MANHÃ E O CAFÉ DA MANHÃ DOS CAMPEÕES

Cheguei de trem.

Era cedo, aproximadamente nove horas da manhã.

E eu já havia tomado aquilo que considero um café da manhã perfeitamente defensável:

pizza de trancio.

Nada de cereal integral.

Nada de iogurte cuidadosamente fotografado ao lado de três morangos.

Pizza.

Afinal, estávamos na Itália.

Alimentado e feliz, comecei a andar pelas ruas.

Foi então que passei diante de um restaurante.

Nada particularmente espetacular do lado de fora.

Não me lembro de estrelas.

Não parecia pertencer àquela categoria de estabelecimentos diante dos quais turistas fazem peregrinação.

Estava meio fora de mão.

E estava fechado.

Mas havia uma vitrine.

E atrás daquela vitrine acontecia uma guerra.


🍝 OS BRAVOS ITALIANOS LUTANDO CONTRA O MACARRÃO

Parei.

Lá dentro havia pessoas trabalhando com massa.

Não estavam montando pratos bonitos para Instagram.

O restaurante nem tinha aberto.

Era preparação.

Farinha.

Massa.

Bancada.

Braços trabalhando.

Italianos travando uma batalha corpo a corpo contra aquilo que algumas horas depois seria servido aos clientes.

Fiquei olhando.

Tirei fotografia.

Passei alguns minutos diante daquela vitrine simplesmente acompanhando o trabalho.

Talvez para eles fosse apenas mais uma manhã.

Para mim havia alguma coisa fascinante naquilo.

Era possível ver o back-end da cozinha funcionando antes da abertura do front-end.

O batch gastronômico estava em plena execução.

09:00

RESTAURANT = CLOSED
CUSTOMERS = 0
PASTA_BATCH = RUNNING
BRAZILIAN_OBSERVER = DETECTED

Guardei mentalmente o lugar.

E continuei andando.


⛪ VERDI, IGREJAS E QUILÔMETROS DEPOIS

Fui cumprir minha missão.

Visitei lugares ligados a Verdi.

Entrei em igrejas.

Observei prédios.

Atravessei ruas.

Fotografei.

Andei sem pressa.

Esse sempre foi um dos meus maiores prazeres viajando pela Europa: permitir que a cidade aparecesse entre um destino e outro.

Não apenas chegar.

Percorrer.

O problema é que existe um componente biológico que invariavelmente interfere nos grandes projetos culturais da humanidade.

A fome.

Por volta das treze horas, minha barriga começou a apresentar os primeiros alertas operacionais.

E então acordou uma velha companheira de viagem.

Brigitte.

Minha lombriga de estimação.

Brigitte é responsável por importantes decisões gastronômicas da minha vida.

Naquele momento ela assumiu o controle da navegação.

WARNING: FUEL LEVEL CRITICAL

BRIGITTE:
"Vagner..."

VAGNER:
"Que foi?"

BRIGITTE:
"Lembra daqueles italianos fazendo macarrão?"

VAGNER:
"..."

BRIGITTE:
"VOLTA."

Obedeci.


🪜 DESCENDO PARA OUTRA PARMA

Retornei ao restaurante.

Agora estava aberto.

Entrei.

E imediatamente veio aquele aroma.

Desci as escadas porque a sala onde se comia ficava no porão.

Lá embaixo encontrei exatamente o tipo de lugar que adoro descobrir viajando.

Poucas pessoas.

Nenhuma multidão.

Nenhum grupo turístico.

Nenhuma juventude fazendo fila para fotografar o prato da moda.

Havia principalmente gente de idade.

Rostos de quem parecia morar ali.

Pessoas que não haviam viajado milhares de quilômetros para conhecer Parma.

Elas eram Parma.

Conversei com o garçom.

Expliquei que era brasileiro.

Um andarilho.

E fiz talvez o melhor pedido possível naquele lugar:

— Me surpreenda.

O homem abriu um baita sorriso.

Anotou alguma coisa.

Foi embora.

Naquele instante percebi que havia cometido algo maravilhoso:

eu tinha entregado meu almoço aos italianos.


🍷 O SUMO DOS DEUSES

Pedi vinho da casa.

Veio numa jarra.

Nada de cerimônia.

Nada de uma garrafa acompanhada de uma palestra de quinze minutos sobre notas de carvalho, frutas vermelhas colhidas durante determinada fase da Lua ou o estado emocional das uvas.

Era vinho.

Na jarra.

Sumo dos deuses.

Chegou uma entrada.

Comecei a comer.

E observar.

Os clientes conversavam.

Os garçons circulavam.

O porão tinha vida.

Eu estava sozinho, mas não me sentia isolado.

E então chegou a comida.

Aquela mesma cozinha que eu havia espionado através do vidro às nove da manhã finalmente havia terminado seu processamento batch.

Era hora de consumir a produção.


🏛️ O LEGIONÁRIO VOLTOU DA GÁLIA

Aqui preciso confessar que provavelmente abandonei parte da elegância.

Estava com fome.

Tinha caminhado.

A comida estava maravilhosa.

O vinho estava ajudando.

Em algum momento comecei a comer com as mãos aquilo que permitia ser comido com as mãos.

Eu devia estar com uma expressão parecida com a de um legionário romano depois de marchar 25 quilômetros e finalmente receber comida.

Não estava degustando.

Estava mandando ver.

HUNGER_LEVEL = LEGIONARY
WINE_BUFFER = LOADED
CUTLERY = OPTIONAL
CUSTOMER_HAPPINESS = 100%

E foi aí que percebi uma mesa ao lado.

Havia dois velhinhos.

Pela minha observação rápida, concluí:

casados.

Um casal de idosos almoçando tranquilamente.

Eles começaram a me observar.

E aparentemente estavam se divertindo bastante vendo aquele brasileiro travar sua própria batalha contra a comida.

Vieram os primeiros olhares.

Sorrisos.

Até que puxaram conversa.


🇧🇷🤝🇮🇹 COMEÇA A DIPLOMACIA BRASIL–PARMA

Conversa vai.

Conversa vem.

Descobrem que sou brasileiro.

Explico minha peregrinação.

Falamos sobre coisas que hoje já não consigo reconstruir completamente.

Mas a barreira entre as duas mesas começa a desaparecer.

Até que eles oferecem:

— Quer experimentar isto?

Era o prato deles.

Agora havia um problema diplomático gravíssimo.

Recusar poderia provocar um incidente internacional entre Brasil e Itália.

Como patriota responsável, aceitei.

E descobri mais um sabor de Parma.

Aquilo não havia sido escolhido pelo garçom para o brasileiro.

Era aquilo que eles próprios estavam comendo.

De repente eu já não tinha apenas meu almoço.

Tinha acesso ao almoço da mesa vizinha.

Continuamos conversando.

Então veio outra oferta.

Vinho.

O vinho deles.

Aceitei novamente, desta vez já um pouco sem graça.

Mas integrado.

Comida atravessava a fronteira das mesas.

Vinho atravessava.

Histórias atravessavam.

Eu havia entrado naquele porão como um desconhecido.

Pouco tempo depois estava compartilhando comida com duas pessoas que jamais tinha visto na vida.


🎭 O PRIMEIRO PLOT TWIST

Foi durante a conversa que descobri que minha capacidade de investigação antropológica precisava de manutenção urgente.

Eles não eram casados.

A mulher era filha daquele senhor.

E havia mais.

Ela estava ali porque aquele dia era...

aniversário do pai.

Parei mentalmente por alguns segundos.

Então aquela não era simplesmente uma refeição cotidiana.

Eu havia entrado acidentalmente numa pequena celebração familiar.

A filha tinha levado o pai para almoçar.

E, no meio daquela comemoração, apareceu na mesa vizinha um brasileiro faminto comendo como se tivesse acabado de atravessar os Alpes com Aníbal.

Por alguma razão, eles resolveram conversar comigo.

Depois dividir a comida.

Depois dividir o vinho.

Eu estava sendo progressivamente absorvido por uma festa para a qual jamais havia sido convidado.

E ainda não tinha acontecido a melhor parte.


🎂 ENTÃO O GARÇOM APARECEU COM UMA TORTA

A refeição estava chegando ao fim.

Eu já havia comido maravilhosamente.

Bebido.

Conversado.

Rido.

Conhecido sabores que nem estavam no meu pedido.

Foi então que o garçom apareceu.

Carregava uma torta de aniversário.

Era para o velhinho.

E aconteceu uma dessas pequenas coisas que parecem insignificantes quando descritas rapidamente, mas que ficam armazenadas em algum lugar estranho da memória durante décadas.

Nós cantamos parabéns para ele.

A filha.

As pessoas do restaurante.

E aquele brasileiro que algumas horas antes estava do lado de fora fotografando homens fazendo macarrão através de uma vitrine.

Eu também cantei.

Para um homem cujo nome talvez eu nem tenha guardado.

Num porão em Parma.


❤️ NÃO ESTAVA NO SCRIPT

É aqui que a história deixa de ser sobre comida.

Eu tinha ido a Parma para procurar Verdi.

Queria história.

Música.

Carlos Gomes.

Igrejas.

Arquitetura.

E encontrei tudo isso.

Mas nenhuma dessas coisas estava naquele momento diante de mim.

Diante de mim havia apenas um senhor comemorando mais um ano de vida ao lado da filha.

E eu, um completo desconhecido, havia sido incorporado por alguns minutos àquela memória familiar.

Não estava no roteiro.

Não estava no bilhete do trem.

Não estava num guia turístico.

Não havia reservado aquela experiência pela internet.

Ninguém me vendeu um pacote chamado:

“Authentic Parma Experience — Lunch With Locals.”

Aconteceu.

Só isso.

Aconteceu.


🍝 A MELHOR COMIDA DA EUROPA?

Durante muitos anos, quando penso nas melhores refeições que tive na Europa, Parma aparece imediatamente.

Faço apenas uma exceção.

A comida caseira da Dona Gui, minha sogra.

Essa joga em outra categoria.

Mas, fora dela, Parma permanece em algum lugar muito especial da memória.

E hoje percebo que talvez eu tenha cometido um erro durante anos dizendo:

“Foi uma das melhores comidas que comi na Europa.”

Porque não consigo mais separar o sabor daquilo que aconteceu ao redor.

Quanto daquele macarrão era realmente macarrão?

Quanto daquele vinho era realmente vinho?

Quanto do sabor vinha do porão?

Dos velhinhos?

Da conversa?

Do prato que atravessou de uma mesa para outra?

Da jarra?

Da caminhada?

Da fome?

Da surpresa?

Do aniversário?

Da torta?

Não sei.

Talvez memória gastronômica seja justamente isso.

Comemos também o momento.


🧠 O BANCO DE DADOS QUE NÃO GUARDA APENAS SABORES

Décadas depois, algumas coisas desapareceram.

Não lembro cada palavra.

Não lembro necessariamente o nome de todos os pratos.

Talvez não consiga reconstruir perfeitamente o restaurante.

Mas consigo lembrar da sensação.

Curiosamente, enquanto escrevia esta história tantos anos depois, meus olhos ficaram marejados.

E isso talvez seja a melhor avaliação gastronômica que aquele restaurante jamais receberá de mim.

Não cinco estrelas.

Não dez pontos.

Não uma fotografia bonita.

Uma lembrança que ainda consegue provocar lágrimas décadas depois.


🚶 VIAJAR NÃO É APENAS CHEGAR

Talvez seja por isso que sempre gostei tanto de zanzar.

Quando seguimos apenas o roteiro, encontramos aquilo que fomos procurar.

Quando caminhamos sem tanta pressa, às vezes encontramos aquilo que não sabíamos que existia.

Se eu tivesse escolhido outro caminho naquela manhã, não teria visto a vitrine.

Se não tivesse parado, talvez não tivesse guardado o restaurante.

Se Brigitte não tivesse começado a reclamar às treze horas, talvez tivesse almoçado em outro lugar.

Se tivesse pedido apenas aquilo que conhecia, talvez o garçom não tivesse aberto aquele sorriso.

Se estivesse olhando para o telefone enquanto comia, talvez os dois nunca tivessem puxado conversa.

Se tivesse recusado o prato por educação, perderia um sabor.

Se tivesse recusado o vinho por vergonha, perderia outro pedaço da conversa.

Uma sequência absurda de pequenos IFs.

IF passeio = curioso
AND fome = verdadeira
AND restaurante = aquele
AND garcom = inspirado
AND mesas_vizinhas = abertas
AND viajante = disposto
THEN
    memoria = inesquecivel
END-IF

Nenhum deles isoladamente significa muita coisa.

Juntos produziram uma tarde que atravessou décadas.


🍷 EPÍLOGO — O VELHINHO DE PARMA

Não sei o que aconteceu depois com aquele senhor.

Não sei quantos outros aniversários ele comemorou.

Não sei se a filha alguma vez se lembrou daquele brasileiro estranho que apareceu no almoço do pai.

Provavelmente fui apenas uma pequena curiosidade daquele dia.

Talvez tenham voltado para casa e comentado:

— Aquele brasileiro estava com fome, hein?

E dado risada.

Mas existe algo bonito nisso.

Porque eles provavelmente nunca souberam que, muitos anos depois, do outro lado do Atlântico, aquele brasileiro ainda contaria a história.

Ainda lembraria do vinho.

Ainda lembraria da comida passando de uma mesa para outra.

Ainda lembraria da torta chegando.

Ainda lembraria de cantar parabéns.

Eu fui até Parma procurar a memória de homens famosos.

Giuseppe Verdi.

Antônio Carlos Gomes.

E acabei trazendo comigo a memória de um homem anônimo.

Talvez essa seja a maior ironia daquela viagem.

Verdi entrou para a História.

Carlos Gomes entrou para a História.

Mas aquele velhinho...

entrou na minha.

E talvez seja exatamente por isso que Parma continua tendo um sabor que nenhum restaurante conseguiu reproduzir.

Porque certas receitas precisam de ingredientes que não existem numa cozinha:

fome, acaso, curiosidade, generosidade, duas mesas, uma filha, um pai, uma torta e um brasileiro que simplesmente estava passando por ali.

🍷

Buon compleanno, signore.

Onde quer que o tempo tenha levado você.

Eu ainda me lembro daquele almoço.


Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque algumas das melhores histórias da vida nunca passaram pelo ambiente de homologação.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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