✨ Bem-vindo ao meu espaço! ✨
Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
Bellacosa Mainframe e o guia para otaku santuarios no Japão
🎌 Guia Bellacosa: Os Santuários Otaku do Japão
🗾 Um roteiro espiritual, cultural e geek pelos templos sagrados do fandom japonês
Se o Monte Fuji é o símbolo da alma japonesa, Akihabara é o templo da alma otaku.
Mas ela não está sozinha! O Japão é um país repleto de santuários dedicados à cultura pop — verdadeiras mecas do colecionismo, cosplay, idols e mangás.
Pegue seu suéter da SEGA, sua câmera e um pasmo respeitoso, porque hoje o Bellacosa te leva num roteiro otaku místico, do neon de Tóquio às ruazinhas secretas de Osaka.
🏮 1. Akihabara — A Meca Suprema
📍 Tóquio, Distrito de Chiyoda
A palavra Akihabara (秋葉原) significa “Campo das Folhas de Outono”, mas o que floresce ali é pura eletricidade geek ⚡
Desde os anos 1980, Akiba (apelido carinhoso) evoluiu de mercado eletrônico para epicentro da cultura otaku mundial.
💾 O que visitar:
Radio Kaikan: prédio histórico com 10 andares de figures, cards e model kits.
Super Potato: loja lendária de retro games — parece um museu dos anos 80 com cheiro de cartucho.
Mandarake Complex: sete andares de mangás, doujinshi e itens raros (leia as placas antes de entrar nas áreas 18+).
Don Quijote Akihabara: o shopping maluco onde fica o teatro do grupo AKB48, as idols mais icônicas do Japão.
🎀 Curiosidade Bellacosa:
Akihabara tem um templo real dentro do caos: Kanda Myojin, dedicado aos deuses da tecnologia.
Otaku de todo o mundo vão lá abençoar seus notebooks e comprar ema (tábuas votivas) com personagens de anime desenhados à mão!
🎎 2. Nakano Broadway — O Tesouro dos Colecionadores
📍 Nakano, bairro de Tóquio
Enquanto Akihabara brilha, Nakano Broadway é o esconderijo misterioso dos fãs veteranos.
É um shopping antigo, com corredores apertados e lojas secretas, cada uma especializada em algo: figures vintage, artbooks raros, VHS originais, bonecos da era Shōwa…
🏮 Pontos obrigatórios:
Mandarake Main Store: o “quartel-general” da franquia Mandarake.
Robot Robot: loja de brinquedos retrô dos anos 70–90.
Daily Chiko: sorvete gigante em espiral com até 8 sabores (faça a foto com moderação 😅).
💡 Dica Bellacosa: Nakano é mais silenciosa e menos turística.
É o lugar certo para negociar, garimpar e conversar com vendedores que vivem colecionando há décadas.
🏙️ 3. Ikebukuro — O Santuário das Otomes
📍 Tóquio, Distrito de Toshima
Ikebukuro é o coração do fandom feminino.
Ali nasceu o termo “Otome Road”, uma rua cheia de lojas voltadas para mulheres otaku — focadas em BL (Boys’ Love), doujinshi, idols e jogos otome.
🌸 Lugares icônicos:
Animate Ikebukuro Flagship: maior loja da Animate no Japão! Três andares de produtos, mangás e eventos.
K-Books e Lashinbang: lojas rivais com seções especializadas em BL e figures masculinos.
Butlers Café: o “inverso” dos maid cafés — garçons de luvas brancas servindo como mordomos vitorianos.
🎀 Curiosidade Bellacosa:
Nos arredores está o Sunshine City, onde ocorrem shows, eventos e cafés temáticos com personagens populares.
É a Disneyland dos sentimentos otaku femininos.
🎰 4. Nipponbashi (Den Den Town) — A Akihabara de Osaka
📍 Namba, Osaka
Enquanto Tóquio tem Akiba, Osaka tem Den Den Town (でんでんタウン).
É um distrito elétrico cheio de lojas geeks, fliperamas e otaku roots.
Mais barato, mais direto, mais barulhento — o jeito Osaka de ser.
🎮 Visitas essenciais:
Super Potato Osaka: filial da lendária loja de games clássicos.
Jungle: figures e action figures de tokusatsu, robôs e idols.
Nipponbashi Street Festa: um dos maiores desfiles de cosplay do Japão, realizado todo mês de março.
💡 Dica Bellacosa:
Os habitantes de Osaka são mais comunicativos e brincalhões.
Diferente da reserva de Tóquio, aqui pode puxar papo — mas sempre com educação e bom humor.
🧧 5. Odaiba — O Futuro em Forma de Ilha
📍 Baía de Tóquio
Odaiba é o parque tecnológico do Japão, uma ilha artificial que mistura shoppings, museus e vistas futuristas.
Mas também é lar de dois marcos sagrados do fandom:
🚀 Gundam Base Tokyo:
Um espaço imenso dedicado à franquia Mobile Suit Gundam.
Tem maquetes, exposição, loja e o Gundam tamanho real — um robô de 18 metros que se move!
🎡 DiverCity & Palette Town:
Shoppings com cafés temáticos, jogos e lojas de franquias de anime.
E de brinde: vista para a Rainbow Bridge e a Estátua da Liberdade japonesa.
💡 Curiosidade Bellacosa:
O Gundam de Odaiba é tão amado que recebe oferendas de fãs — mini figures, flores e até cartas de agradecimento.
🦊 6. Kanda Myojin — O Templo dos Deuses Tecnológicos
📍 Próximo a Akihabara
Poucos sabem, mas existe um santuário xintoísta que protege otakus, engenheiros e programadores.
No Kanda Myojin, os amuletos (omamori) incluem bênçãos para:
💻 Equipamentos eletrônicos
📱 Conexão Wi-Fi estável (sim, é real)
🧠 Sucesso em provas de certificação e TI
✨ Dica Bellacosa:
Compre um ema e desenhe seu personagem favorito pedindo proteção.
O local é tão popular que já teve colaborações oficiais com Love Live!, Fate/Grand Order e Idolmaster.
🌌 7. Ikuta Shrine e Washinomiya Shrine — Os Templos dos Animes
Além do mundo urbano, o Japão possui templos rurais que se tornaram locais de peregrinação otaku (seichi junrei).
⛩️ Ikuta Shrine (Kobe) — conhecido por The Melancholy of Haruhi Suzumiya.
⛩️ Washinomiya Shrine (Saitama) — cenário real de Lucky☆Star, que virou ponto de encontro anual de cosplayers.
💡 Curiosidade Bellacosa:
Durante o Ano Novo, fãs vestidos de suas personagens favoritas vão rezar juntos — uma mistura mágica de fé, humor e fandom.
🎯 Roteiro Bellacosa de Viagem Otaku (7 Dias de Iluminação Geek)
Dia
Cidade
Local
Foco
1
Tóquio
Akihabara
Games e figures
2
Tóquio
Kanda Myojin + Odaiba
Cultura pop e espiritualidade
3
Tóquio
Nakano Broadway
Colecionismo retrô
4
Tóquio
Ikebukuro
Fandom feminino
5
Osaka
Nipponbashi
Cultura otaku alternativa
6
Kobe
Ikuta Shrine
Anime e espiritualidade
7
Saitama
Washinomiya Shrine
Peregrinação otaku
🏁 Conclusão Bellacosa
O Japão é mais do que o berço do anime — é um país que transformou paixão em cultura, consumo em arte e devoção em identidade.
Ser otaku lá é honrar a tradição da curiosidade e da imaginação humana.
🌸 Então, padawan, quando visitar esses lugares, lembre-se:
“Você não está apenas comprando um figure — está participando de um ritual milenar de amor, respeito e nostalgia.”
💮 Bellacosa Mainframe Japão — onde o sagrado encontra o geek.
🍷 PARMA — O DIA EM QUE FUI PROCURAR VERDI E ACABEI CANTANDO PARABÉNS PARA UM DESCONHECIDO
Ou: como uma pizza no café da manhã, alguns italianos lutando contra uma massa de macarrão, uma lombriga chamada Brigitte e uma jarra de vinho transformaram um almoço qualquer numa das minhas melhores lembranças da Europa
Há viagens que planejamos.
Compramos passagem, estudamos mapas, escolhemos museus, anotamos endereços, calculamos horários de trem e fazemos uma lista quase militar daquilo que precisamos conhecer.
E existem as outras.
As viagens que acontecem enquanto estamos ocupados executando o roteiro.
Minha história em Parma pertence à segunda categoria.
Eu fui até lá por causa de Giuseppe Verdi.
Voltei carregando a lembrança de um velhinho cujo nome provavelmente nem guardei.
E, décadas depois, ainda consigo descer aquelas escadas.
🎼 O MOTIVO ERA VERDI
Minha ida a Parma não começou pela gastronomia.
Não fui caçar restaurante famoso.
Não havia uma lista de estabelecimentos recomendados.
Não estava procurando estrelas Michelin.
Meu interesse era outro.
Eu queria conhecer um pouco mais do universo de Giuseppe Verdi.
E havia ainda uma conexão brasileira que tornava aquilo especialmente interessante para mim: Antônio Carlos Gomes, nosso grande compositor, viveu e trabalhou na Itália e pertenceu àquele extraordinário universo musical italiano do século XIX.
Portanto, naquele dia meu programa era essencialmente cultural.
Verdi.
Carlos Gomes.
Igrejas.
Ruelas.
Arquitetura.
História.
E andar.
Principalmente andar.
Eu sempre conheci cidades dessa maneira.
Coloco os pés na rua e começo a zanzar.
🍕 NOVE DA MANHÃ E O CAFÉ DA MANHÃ DOS CAMPEÕES
Cheguei de trem.
Era cedo, aproximadamente nove horas da manhã.
E eu já havia tomado aquilo que considero um café da manhã perfeitamente defensável:
pizza de trancio.
Nada de cereal integral.
Nada de iogurte cuidadosamente fotografado ao lado de três morangos.
Pizza.
Afinal, estávamos na Itália.
Alimentado e feliz, comecei a andar pelas ruas.
Foi então que passei diante de um restaurante.
Nada particularmente espetacular do lado de fora.
Não me lembro de estrelas.
Não parecia pertencer àquela categoria de estabelecimentos diante dos quais turistas fazem peregrinação.
Estava meio fora de mão.
E estava fechado.
Mas havia uma vitrine.
E atrás daquela vitrine acontecia uma guerra.
🍝 OS BRAVOS ITALIANOS LUTANDO CONTRA O MACARRÃO
Parei.
Lá dentro havia pessoas trabalhando com massa.
Não estavam montando pratos bonitos para Instagram.
O restaurante nem tinha aberto.
Era preparação.
Farinha.
Massa.
Bancada.
Braços trabalhando.
Italianos travando uma batalha corpo a corpo contra aquilo que algumas horas depois seria servido aos clientes.
Fiquei olhando.
Tirei fotografia.
Passei alguns minutos diante daquela vitrine simplesmente acompanhando o trabalho.
Talvez para eles fosse apenas mais uma manhã.
Para mim havia alguma coisa fascinante naquilo.
Era possível ver o back-end da cozinha funcionando antes da abertura do front-end.
Desci as escadas porque a sala onde se comia ficava no porão.
Lá embaixo encontrei exatamente o tipo de lugar que adoro descobrir viajando.
Poucas pessoas.
Nenhuma multidão.
Nenhum grupo turístico.
Nenhuma juventude fazendo fila para fotografar o prato da moda.
Havia principalmente gente de idade.
Rostos de quem parecia morar ali.
Pessoas que não haviam viajado milhares de quilômetros para conhecer Parma.
Elas eram Parma.
Conversei com o garçom.
Expliquei que era brasileiro.
Um andarilho.
E fiz talvez o melhor pedido possível naquele lugar:
— Me surpreenda.
O homem abriu um baita sorriso.
Anotou alguma coisa.
Foi embora.
Naquele instante percebi que havia cometido algo maravilhoso:
eu tinha entregado meu almoço aos italianos.
🍷 O SUMO DOS DEUSES
Pedi vinho da casa.
Veio numa jarra.
Nada de cerimônia.
Nada de uma garrafa acompanhada de uma palestra de quinze minutos sobre notas de carvalho, frutas vermelhas colhidas durante determinada fase da Lua ou o estado emocional das uvas.
Era vinho.
Na jarra.
Sumo dos deuses.
Chegou uma entrada.
Comecei a comer.
E observar.
Os clientes conversavam.
Os garçons circulavam.
O porão tinha vida.
Eu estava sozinho, mas não me sentia isolado.
E então chegou a comida.
Aquela mesma cozinha que eu havia espionado através do vidro às nove da manhã finalmente havia terminado seu processamento batch.
Era hora de consumir a produção.
🏛️ O LEGIONÁRIO VOLTOU DA GÁLIA
Aqui preciso confessar que provavelmente abandonei parte da elegância.
Estava com fome.
Tinha caminhado.
A comida estava maravilhosa.
O vinho estava ajudando.
Em algum momento comecei a comer com as mãos aquilo que permitia ser comido com as mãos.
Eu devia estar com uma expressão parecida com a de um legionário romano depois de marchar 25 quilômetros e finalmente receber comida.
E aparentemente estavam se divertindo bastante vendo aquele brasileiro travar sua própria batalha contra a comida.
Vieram os primeiros olhares.
Sorrisos.
Até que puxaram conversa.
🇧🇷🤝🇮🇹 COMEÇA A DIPLOMACIA BRASIL–PARMA
Conversa vai.
Conversa vem.
Descobrem que sou brasileiro.
Explico minha peregrinação.
Falamos sobre coisas que hoje já não consigo reconstruir completamente.
Mas a barreira entre as duas mesas começa a desaparecer.
Até que eles oferecem:
— Quer experimentar isto?
Era o prato deles.
Agora havia um problema diplomático gravíssimo.
Recusar poderia provocar um incidente internacional entre Brasil e Itália.
Como patriota responsável, aceitei.
E descobri mais um sabor de Parma.
Aquilo não havia sido escolhido pelo garçom para o brasileiro.
Era aquilo que eles próprios estavam comendo.
De repente eu já não tinha apenas meu almoço.
Tinha acesso ao almoço da mesa vizinha.
Continuamos conversando.
Então veio outra oferta.
Vinho.
O vinho deles.
Aceitei novamente, desta vez já um pouco sem graça.
Mas integrado.
Comida atravessava a fronteira das mesas.
Vinho atravessava.
Histórias atravessavam.
Eu havia entrado naquele porão como um desconhecido.
Pouco tempo depois estava compartilhando comida com duas pessoas que jamais tinha visto na vida.
🎭 O PRIMEIRO PLOT TWIST
Foi durante a conversa que descobri que minha capacidade de investigação antropológica precisava de manutenção urgente.
Eles não eram casados.
A mulher era filha daquele senhor.
E havia mais.
Ela estava ali porque aquele dia era...
aniversário do pai.
Parei mentalmente por alguns segundos.
Então aquela não era simplesmente uma refeição cotidiana.
Eu havia entrado acidentalmente numa pequena celebração familiar.
A filha tinha levado o pai para almoçar.
E, no meio daquela comemoração, apareceu na mesa vizinha um brasileiro faminto comendo como se tivesse acabado de atravessar os Alpes com Aníbal.
Por alguma razão, eles resolveram conversar comigo.
Depois dividir a comida.
Depois dividir o vinho.
Eu estava sendo progressivamente absorvido por uma festa para a qual jamais havia sido convidado.
E ainda não tinha acontecido a melhor parte.
🎂 ENTÃO O GARÇOM APARECEU COM UMA TORTA
A refeição estava chegando ao fim.
Eu já havia comido maravilhosamente.
Bebido.
Conversado.
Rido.
Conhecido sabores que nem estavam no meu pedido.
Foi então que o garçom apareceu.
Carregava uma torta de aniversário.
Era para o velhinho.
E aconteceu uma dessas pequenas coisas que parecem insignificantes quando descritas rapidamente, mas que ficam armazenadas em algum lugar estranho da memória durante décadas.
Nós cantamos parabéns para ele.
A filha.
As pessoas do restaurante.
E aquele brasileiro que algumas horas antes estava do lado de fora fotografando homens fazendo macarrão através de uma vitrine.
Eu também cantei.
Para um homem cujo nome talvez eu nem tenha guardado.
Num porão em Parma.
❤️ NÃO ESTAVA NO SCRIPT
É aqui que a história deixa de ser sobre comida.
Eu tinha ido a Parma para procurar Verdi.
Queria história.
Música.
Carlos Gomes.
Igrejas.
Arquitetura.
E encontrei tudo isso.
Mas nenhuma dessas coisas estava naquele momento diante de mim.
Diante de mim havia apenas um senhor comemorando mais um ano de vida ao lado da filha.
E eu, um completo desconhecido, havia sido incorporado por alguns minutos àquela memória familiar.
Não estava no roteiro.
Não estava no bilhete do trem.
Não estava num guia turístico.
Não havia reservado aquela experiência pela internet.
Ninguém me vendeu um pacote chamado:
“Authentic Parma Experience — Lunch With Locals.”
Aconteceu.
Só isso.
Aconteceu.
🍝 A MELHOR COMIDA DA EUROPA?
Durante muitos anos, quando penso nas melhores refeições que tive na Europa, Parma aparece imediatamente.
Faço apenas uma exceção.
A comida caseira da Dona Gui, minha sogra.
Essa joga em outra categoria.
Mas, fora dela, Parma permanece em algum lugar muito especial da memória.
E hoje percebo que talvez eu tenha cometido um erro durante anos dizendo:
“Foi uma das melhores comidas que comi na Europa.”
Porque não consigo mais separar o sabor daquilo que aconteceu ao redor.
Quanto daquele macarrão era realmente macarrão?
Quanto daquele vinho era realmente vinho?
Quanto do sabor vinha do porão?
Dos velhinhos?
Da conversa?
Do prato que atravessou de uma mesa para outra?
Da jarra?
Da caminhada?
Da fome?
Da surpresa?
Do aniversário?
Da torta?
Não sei.
Talvez memória gastronômica seja justamente isso.
Comemos também o momento.
🧠 O BANCO DE DADOS QUE NÃO GUARDA APENAS SABORES
Décadas depois, algumas coisas desapareceram.
Não lembro cada palavra.
Não lembro necessariamente o nome de todos os pratos.
Talvez não consiga reconstruir perfeitamente o restaurante.
Mas consigo lembrar da sensação.
Curiosamente, enquanto escrevia esta história tantos anos depois, meus olhos ficaram marejados.
E isso talvez seja a melhor avaliação gastronômica que aquele restaurante jamais receberá de mim.
Não cinco estrelas.
Não dez pontos.
Não uma fotografia bonita.
Uma lembrança que ainda consegue provocar lágrimas décadas depois.
🚶 VIAJAR NÃO É APENAS CHEGAR
Talvez seja por isso que sempre gostei tanto de zanzar.
Quando seguimos apenas o roteiro, encontramos aquilo que fomos procurar.
Quando caminhamos sem tanta pressa, às vezes encontramos aquilo que não sabíamos que existia.
Se eu tivesse escolhido outro caminho naquela manhã, não teria visto a vitrine.
Se não tivesse parado, talvez não tivesse guardado o restaurante.
Se Brigitte não tivesse começado a reclamar às treze horas, talvez tivesse almoçado em outro lugar.
Se tivesse pedido apenas aquilo que conhecia, talvez o garçom não tivesse aberto aquele sorriso.
Se estivesse olhando para o telefone enquanto comia, talvez os dois nunca tivessem puxado conversa.
Se tivesse recusado o prato por educação, perderia um sabor.
Se tivesse recusado o vinho por vergonha, perderia outro pedaço da conversa.
Uma sequência absurda de pequenos IFs.
IF passeio = curioso
AND fome = verdadeira
AND restaurante = aquele
AND garcom = inspirado
AND mesas_vizinhas = abertas
AND viajante = disposto
THEN
memoria = inesquecivel
END-IF
Nenhum deles isoladamente significa muita coisa.
Juntos produziram uma tarde que atravessou décadas.
🍷 EPÍLOGO — O VELHINHO DE PARMA
Não sei o que aconteceu depois com aquele senhor.
Não sei quantos outros aniversários ele comemorou.
Não sei se a filha alguma vez se lembrou daquele brasileiro estranho que apareceu no almoço do pai.
Provavelmente fui apenas uma pequena curiosidade daquele dia.
Talvez tenham voltado para casa e comentado:
— Aquele brasileiro estava com fome, hein?
E dado risada.
Mas existe algo bonito nisso.
Porque eles provavelmente nunca souberam que, muitos anos depois, do outro lado do Atlântico, aquele brasileiro ainda contaria a história.
Ainda lembraria do vinho.
Ainda lembraria da comida passando de uma mesa para outra.
Ainda lembraria da torta chegando.
Ainda lembraria de cantar parabéns.
Eu fui até Parma procurar a memória de homens famosos.
Giuseppe Verdi.
Antônio Carlos Gomes.
E acabei trazendo comigo a memória de um homem anônimo.
Talvez essa seja a maior ironia daquela viagem.
Verdi entrou para a História.
Carlos Gomes entrou para a História.
Mas aquele velhinho...
entrou na minha.
E talvez seja exatamente por isso que Parma continua tendo um sabor que nenhum restaurante conseguiu reproduzir.
Porque certas receitas precisam de ingredientes que não existem numa cozinha:
fome, acaso, curiosidade, generosidade, duas mesas, uma filha, um pai, uma torta e um brasileiro que simplesmente estava passando por ali.
🍷
Buon compleanno, signore.
Onde quer que o tempo tenha levado você.
Eu ainda me lembro daquele almoço.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Porque algumas das melhores histórias da vida nunca passaram pelo ambiente de homologação.
Bellacosa Mainframe e as poeirentas estradas de terra em São Tomé das Letras
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🌙 A Cachoeira da Lua e o Caminho para Sobradinho
Quando o jovem Vagner em 1994 continuou andando e descobriu que o mundo era muito maior do que imaginava.
Existem viagens que começam quando colocamos o pé na estrada. Outras começam muito antes, quando surge aquela inquietação de descobrir o que existe depois da próxima curva.
Aquela aventura por São Thomé das Letras, seguindo pela estrada de terra em direção a Sobradinho, foi uma dessas viagens.
Para o jovem Vagner, significava aumentar mais alguns quilômetros naquele mapa invisível que vinha construindo desde menino. Cada cidade visitada empurrava um pouco mais para longe as fronteiras do mundo conhecido.
E São Thomé parecia pertencer a outro mundo. Poder voltar a essa cidade é se encher de energia e descobrir um outro mundo.
Era uma cidade cercada por histórias, lendas, cavernas, grutas, cachoeiras e formações rochosas. Havia histórias sobre a ocupação humana da região misturadas às narrativas populares, ao misticismo e aos mistérios que transformaram São Thomé das Letras em um lugar tão particular.
Mas uma das maiores descobertas estava simplesmente na paisagem.
Eu estava acostumado ao verde da Mata Atlântica, às árvores grandes, à umidade e àquela vegetação que, observada à distância, parece formar um enorme mar verde.
Ali tudo parecia diferente.
A paisagem ganhava tons amarelados, marrons e ocres. Havia muita pedra, vegetação mais baixa e menos árvores gigantescas dominando o horizonte. O céu parecia maior.
Era como descobrir que o Brasil mudava de cor conforme avançávamos pela estrada.
E nós continuávamos avançando.
Rumando sem rumo.
Essa talvez seja a melhor definição daquela aventura.
Pegávamos estradas de terra, observávamos sítios e pequenas propriedades rurais, atravessávamos caminhos desconhecidos e procurávamos cachoeiras. Nem sempre era necessário encontrar uma atração famosa.
Às vezes bastava encontrar água.
Um ribeirão.
Um córrego.
Uma pequena cachoeira escondida entre as pedras.
Depois de caminhar debaixo do sol e sentir o calor acumulado nas pedras, entrar naquela água fria era um pequeno ritual.
Primeiro os pés.
Depois as pernas.
O corpo protestava por alguns segundos contra a diferença de temperatura.
E então vinha o mergulho.
A água gelada deixava de ser inimiga e se transformava em recompensa.
Nadávamos nos ribeirões, entrávamos debaixo das pequenas quedas d'água e simplesmente aproveitávamos aquele pedaço de natureza encontrado pelo caminho. Ao redor, novos pássaros, insetos, plantas e animais reforçavam a sensação de estarmos explorando um ambiente diferente daquele que conhecíamos.
Depois era hora de continuar.
Roupa secando no próprio corpo, poeira da estrada novamente nos sapatos e mais uma curva esperando adiante.
E havia ainda outra recompensa: a comida sul-mineira.
Depois de caminhar, nadar e explorar, sentar diante daquela comida simples, generosa e cheia de sabores da terra completava a experiência. Viajar também era descobrir um lugar pelo prato.
Hoje percebo que naquela estrada para Sobradinho eu não estava apenas procurando a Cachoeira da Lua.
Estava aprendendo algo que continuaria comigo durante muitas outras viagens:
o mundo é absurdamente grande.
E uma das melhores maneiras de conhecê-lo é continuar andando.
Mesmo quando não sabemos exatamente onde a estrada vai terminar.
Porque, algumas vezes, perder-se um pouquinho é justamente a maneira de encontrar aquilo que nunca soubemos que estávamos procurando.
Estamos em busca de novas cachoeiras, rumando sem rumo pela estrada de Sobradinho, perdidos no interior de São Tomé. Vendo a bela paisagem, sítios e chácaras.
Bellacosa Mainframe e o encontro inesperado com as Indian Motors
🏍️ Indian Motorcycles Invadem Guararema
Quando fomos procurar uma velha locomotiva a vapor e encontramos uma trupe sobre duas rodas
Era um passeio por Guararema, São Paulo, daqueles em que o destino já parecia suficientemente interessante por si só.
Nossa intenção naquele dia era embarcar em uma velha locomotiva a vapor restaurada e fazer um passeio ferroviário, revivendo por alguns momentos uma época em que viajar significava ouvir o apito do trem, sentir o cheiro característico da ferrovia e observar lentamente a paisagem pela janela.
Estávamos, portanto, com a cabeça nos trilhos.
Até que ouvimos o barulho.
Primeiro veio de longe. Depois ficou cada vez mais forte.
RONC! RONC! RONC!
Em poucos instantes, aquele ambiente de nostalgia ferroviária foi invadido pelo som ensurdecedor de motores. Uma verdadeira trupe sobre duas rodas estava chegando a Guararema.
E que máquinas!
Eram motocicletas Indian, com modelos simplesmente lindíssimos. Grandes, imponentes, cromadas e com aquele desenho clássico que imediatamente remete às enormes motocicletas americanas das estradas.
Naturalmente, fomos conferir.
Por alguns minutos, a velha locomotiva que nos levara até Guararema como objetivo da viagem ganhou concorrentes inesperadas.
De um lado, uma máquina histórica sobre trilhos de aço.
Do outro, máquinas igualmente fascinantes sobre duas rodas.
Talvez tenha sido justamente esse contraste que tornou aquele momento tão especial.
Fomos a Guararema atrás do som de uma locomotiva a vapor e, antes mesmo de embarcar, fomos recebidos pelo trovão dos motores das Indian.
São essas pequenas surpresas que transformam um simples passeio em memória.
E naquele dia Guararema parecia reunir duas maneiras maravilhosas de viajar:
Bellacosa Mainframe passeando por Campos do Jordão
Um belo dia de inverno
Uma volta pelo centro de Campos de Jordao
Acompanhando os caminhos de ferro, eu observava a paisagem passar lentamente pela janela.
As casinhas típicas apareciam uma depois da outra, quase acompanhando os trilhos. Pelas ruas, havia um movimento anormal de turistas. Muitas motos cortavam o trânsito, surgindo entre carros, esquinas e pequenas multidões.
Era inverno.
Do lado de fora, a cidade parecia especialmente viva.
O roncar dos motores misturava-se a uma música disco que tocava no rádio. Uma combinação estranha, mas perfeita para aquele momento. Eu não tinha pressa. Apenas apreciava a paisagem urbana enquanto o carro avançava lentamente.
Ou tentava avançar.
O trânsito estava um verdadeiro fuá.
Carros por todos os lados, motos passando pelos espaços impossíveis, turistas atravessando, gente procurando onde estacionar, gente olhando mapas, gente simplesmente parada admirando aquilo que para os moradores provavelmente já fazia parte da rotina.
E nós seguíamos devagar.
Metro após metro.
O rádio tocando.
Os motores roncando.
Os trilhos aparecendo de vez em quando ao nosso lado.
E aquela paisagem de inverno passando lentamente pela janela.
Naquele momento, o congestionamento não parecia exatamente um problema.
🚗 BR-383 — De Quiririm até Campos do Jordão: uma janela para a estrada
Juliana no volante, Formiga no banco de trás, o Pretinho apontado para a Mantiqueira e este seu aqui fazendo aquilo que sabe fazer muito bem: olhar pela janela.
Mais uma vez estávamos nós três.
Eu, Juliana e Formiga.
E, naturalmente, havia um quarto integrante nessa pequena expedição familiar: o famoso Pretinho, nosso New Fiesta, novamente cumprindo sua missão de nos carregar para algum lugar onde pudéssemos simplesmente passear, descobrir coisas e nos divertir.
O destino daquela vez era Campos do Jordão.
Mas quem acompanha nossas aventuras sabe que, muitas vezes, o destino é apenas uma desculpa.
A verdadeira viagem acontece no caminho.
🛣️ Saindo da SP-123
Em determinado momento da viagem, deixamos o trecho da SP-123 e seguimos pela região da BR-383, avançando pelo município de Taubaté antes de começar efetivamente a ganhar a Serra da Mantiqueira.
Ao redor aparecem nomes conhecidos da zona rural e dos arredores de Taubaté:
Quiririm, Tataúba, Pinheirinho...
Pequenos bairros, propriedades, estradas vicinais e pedaços daquele interior paulista que normalmente vemos apenas durante alguns segundos pela janela.
Para muita gente aquilo é simplesmente:
"o caminho para Campos do Jordão."
Para mim, não.
Eu gosto de olhar.
🌾 Antes da serra existe o campo
Campos do Jordão normalmente rouba toda a atenção.
Quando alguém anuncia que está indo para lá, imediatamente pensamos em montanhas, araucárias, frio, chocolate quente, restaurantes, casacos e naquela arquitetura turística tão característica da cidade.
Mas existe uma transformação muito interessante antes de chegar lá.
A paisagem vai mudando.
O terreno ainda relativamente aberto começa a apresentar as montanhas no horizonte.
As pequenas elevações tornam-se maiores.
A estrada começa a serpentear.
E aquela enorme parede natural da Serra da Mantiqueira parece aproximar-se lentamente do carro.
É quase como se a natureza estivesse avisando:
"Daqui para frente, começamos a subir."
👀 Uma pequena terapia para quem vive diante de monitores
Talvez por trabalhar tanto tempo diante de computadores eu tenha desenvolvido uma relação especial com essas paisagens.
Passamos horas olhando para monitores.
Código.
Planilhas.
Documentação.
Terminais.
Janelas.
Mensagens.
Mais janelas.
Mais código.
Mais telas.
Depois de algumas horas, nosso universo inteiro parece ter sido reduzido a algumas dezenas de polegadas.
Então você entra num carro, pega uma estrada e olha pela janela.
De repente, a resolução é infinita.
Não existe pixel.
Não existe refresh rate.
Não existe placa de vídeo.
Existe simplesmente o mundo.
🌿 O verde dos campos.
☁️ As nuvens atravessando lentamente o céu.
🌤️ O azul acima da estrada.
🌳 As árvores.
⛰️ As montanhas aparecendo no horizonte.
E aquela estrada estreita seguindo em direção à serra.
É curioso pensar que nossos olhos foram construídos para enxergar tudo isso e nós os condenamos durante boa parte do dia a olhar para um retângulo luminoso a menos de um metro de distância.
🌬️ E existe uma coisa que o vídeo não consegue gravar
O ar.
Essa é uma das limitações de qualquer registro audiovisual.
Eu consigo guardar a imagem.
Consigo registrar a estrada.
Consigo capturar um pouco do movimento.
Talvez consiga preservar os sons.
Mas ainda não inventaram um botão no YouTube que permita apertar:
[ REPRODUZIR CHEIRO DO CAMPO ]
😄
Porque parte daquela experiência estava justamente ali.
Abrir um pouco a janela e aspirar aquele delicioso ar do interior.
O cheiro da vegetação.
Da terra.
Do campo.
A mudança de temperatura conforme nos aproximávamos da serra.
São informações que a câmera simplesmente não consegue armazenar.
Por enquanto.
🚗 Um vídeo sem compromisso
E talvez seja justamente isso que eu mais goste desse pequeno vídeo.
Ele não pretende ensinar nada.
Não é documentário.
Não é guia turístico.
Não é avaliação da estrada.
Não é review do carro.
Não existe roteiro.
Não existe apresentador gritando para segurar audiência.
É simplesmente a estrada.
Um pequeno fragmento de tempo capturado durante uma viagem familiar.
Eu, Juliana e Formiga seguindo tranquilamente rumo a Campos do Jordão.
O Pretinho avançando pela estrada.
A Serra da Mantiqueira crescendo diante de nós.
E a câmera registrando aquilo que meus olhos estavam vendo.
Só isso.
E isso já era suficiente.
🏃 O mundo está sempre com pressa
Talvez seja uma das coisas que mais percebo quando viajo.
As pessoas estão sempre tentando chegar.
Chegar ao hotel.
Chegar ao restaurante.
Chegar ao parque.
Chegar à atração turística.
Chegar ao próximo compromisso.
Chegar, chegar, chegar.
E nessa obsessão pelo destino, deixam passar justamente aquilo que existe entre dois pontos.
O caminho.
Uma árvore diferente.
Uma montanha.
Uma pequena cidade.
Uma placa com um nome curioso.
Uma propriedade rural.
Um riacho.
Uma igreja perdida no meio do campo.
Uma nuvem enorme.
Uma estrada bonita.
Nada disso estava no roteiro.
Portanto, para muita gente, aparentemente não merece atenção.
Mas este seu aqui sempre teve um pequeno problema:
eu olho.
😂
📹 Então eu aperto REC
Talvez alguém que estivesse conosco perguntasse:
— Mas você está filmando o quê?
E a resposta seria extremamente simples:
A estrada.
— Mas está acontecendo alguma coisa?
Sim.
Estamos viajando.
Estamos vendo o campo.
Estamos juntos.
Estamos indo para algum lugar.
Estamos vivos.
Precisaria acontecer mais alguma coisa?
A câmera não precisa estar ligada somente quando existe uma cachoeira monumental, um acidente, uma festa ou uma atração turística famosa diante dela.
Às vezes vale a pena registrar justamente o ordinário.
Porque existe uma enorme possibilidade de que aquilo que hoje parece ordinário seja justamente o que amanhã despertará nossa memória.
❄️ Sempre imaginei alguém assistindo isso no inverno
Existe ainda outra razão pela qual gosto de deixar esses pequenos vídeos disponíveis.
Às vezes imagino uma pessoa muitos quilômetros distante dali.
Talvez durante um inverno rigoroso.
Presa dentro de casa.
Lá fora está frio.
Talvez esteja chovendo.
Talvez nevando.
O céu está cinza.
As árvores perderam as folhas.
A pessoa abre o computador, entra no YouTube e, por algum daqueles mistérios dos algoritmos, encontra um pequeno vídeo perdido:
BR-383 — de Quiririm até Campos do Jordão.
Clica.
E durante alguns minutos aparece diante dela uma estrada brasileira.
🌿 Campos verdes.
☀️ Sol.
☁️ Nuvens brancas.
🌳 Vegetação.
🚗 Uma estrada seguindo tranquilamente pelo interior de São Paulo.
Talvez essa pessoa nunca tenha ouvido falar de Quiririm.
Talvez não saiba onde fica Taubaté.
Muito menos Pinheirinho ou Tataúba.
Talvez nunca tenha visitado Campos do Jordão.
Não importa.
Durante alguns minutos, aquela tela torna-se uma janela.
🪟 Uma janela para junho de 2016
E existe algo ainda mais curioso nisso tudo.
Hoje posso assistir novamente ao vídeo.
Mas não estou simplesmente vendo uma estrada.
Estou olhando através de uma janela temporal.
Do outro lado dela estão:
Juliana.
Formiga.
Eu.
O Pretinho.
Uma estrada.
Um céu azul.
Um determinado conjunto de nuvens que existiu apenas naquele instante.
Um campo iluminado pelo Sol exatamente daquela maneira.
Nenhuma dessas coisas poderá ser reproduzida exatamente igual.
Podemos voltar à mesma estrada.
Podemos passar novamente por Quiririm.
Podemos seguir outra vez para Campos do Jordão.
Mas aquele momento específico aconteceu uma única vez.
E uma câmera estava ligada.
💾 Talvez seja por isso que continuo guardando essas coisas
Quem trabalha com computadores aprende cedo uma regra fundamental:
aquilo que não foi salvo pode desaparecer.
Talvez eu tenha transportado essa filosofia para a vida.
😂
Um vídeo aqui.
Uma fotografia ali.
Um texto no blog.
Uma lembrança.
Um comentário.
Uma pequena história aparentemente sem importância.
São pequenos backups da existência.
Não guardamos apenas grandes acontecimentos.
Guardamos também uma tarde comum.
Uma viagem de carro.
Uma estrada.
Um campo.
Uma criança no banco traseiro.
Uma conversa qualquer.
Porque ninguém sabe qual dessas pequenas coisas será preciosa daqui a dez, vinte ou trinta anos.
☕ Easter egg Bellacosa Mainframe
Se você chegou até aqui esperando encontrar COBOL numa viagem para Campos do Jordão, sinto informar:
encontrou.
IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. ESTRADA.
PROCEDURE DIVISION.
PERFORM UNTIL FIM-DA-VIAGEM
OBSERVE O-CAMINHO
RESPIRE O-AR-DO-CAMPO
GUARDE A-MEMORIA
ENJOY THE RIDE
END-PERFORM.
O programa continua executando.
E espero sinceramente que o FIM-DA-VIAGEM ainda esteja muito longe.
🌄 O destino era Campos do Jordão. A lembrança ficou no caminho.
Campos do Jordão nos esperava mais adiante.
Ainda havia serra para subir.
Curvas.
Montanhas.
Passeios.
Comida.
Diversão.
E provavelmente muitas outras pequenas histórias.
Mas este vídeo ficou dedicado àquilo que quase sempre é esquecido:
o trecho entre a partida e a chegada.
Porque viajar não significa simplesmente sair do ponto A e chegar ao ponto B.
Existe todo um mundo entre eles.
Naquele dia, esse mundo tinha campos verdes, céu azul, nuvens brancas, bairros rurais de Taubaté e a Serra da Mantiqueira surgindo lentamente diante do para-brisa.
Enquanto muita gente passava por ali preocupada apenas em chegar logo a Campos do Jordão, este seu aqui estava olhando pela janela.
E resolveu apertar REC.
Talvez justamente para que, muitos anos depois, alguém pudesse apertar PLAY.
☕ Bellacosa Mainframe — porque memória também merece backup.
Um pouco confusa a nomenclatura das estradas... mas esta estradinha é federal então tem prefixo BR, mas também estadual e então ja viu SP tbm...
Aqui neste trecho estamos numa região mais plana, podemos ver os montes e colinas, porem não temos grandes aclives, apenas estrada sinuosa e estreita, bem típica dos anos 50.
Gostoso para curtir um final de semana a grande, boa viagem, boa companhia e bom tempo. Tripice qualidades e o pretinho como sempre se dando bem na estrada.
Bellacosa Mainframe e as aventuras na estrada BR-383 com Juliana subindo a serra rumo a Campos do Jordão
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🚗 BR-383 — Subindo a Serra com Juliana
10.000 quilômetros de estradas, viagens e memórias entre São Paulo e Minas Gerais
Pequenas crônicas pelas estradas da Região Sudeste do Brasil
Existem viagens que começam quando colocamos as malas no carro. Outras começam muito antes, quando alguém simplesmente pergunta:
— Vamos dar uma volta?
Entre 2013 e 2018, Juliana tornou-se personagem constante de muitos dos pequenos vídeos, fotografias e fragmentos que fui deixando espalhados pelo blog. Ela gostava de dirigir. Eu gostava de descobrir lugares. A combinação era perigosa para o hodômetro.
Foram aproximadamente 10.000 quilômetros rodando juntos, principalmente pelas estradas de São Paulo e Minas Gerais.
Litoral, interior, serras, montanhas, pequenas cidades, grandes rodovias e aquelas estradinhas que pareciam perguntar: “Vocês têm certeza de que querem continuar?”
Quase sempre continuávamos.
Campos do Jordão era uma das aventuras de que Juliana mais gostava. A subida da serra já fazia parte do passeio: curvas, túneis, muretas, paredões, precipícios e a paisagem mudando conforme ganhávamos altitude.
Mas havia também outro ponto importante naquele mapa.
Taubaté.
Mais precisamente Quiririm, onde meu pai morava. Assim, muitas dessas viagens misturavam passeio e família. Visitávamos meu pai e depois continuávamos pela estrada, subindo em direção à Mantiqueira e a Campos do Jordão.
Hoje percebo que aqueles pequenos vídeos não registraram somente rodovias.
Registraram uma época.
Uma câmera apontada através do para-brisa podia estar filmando apenas uma curva da serra. Mas, tantos anos depois, consigo enxergar muito mais naquela imagem.
Consigo lembrar quem estava dirigindo.
Para onde estávamos indo.
Quem encontraríamos pelo caminho.
E principalmente aquela sensação maravilhosa de que ainda havia uma estrada inteira pela frente.
Talvez seja por isso que estou chamando esses registros de Pequenas Crônicas pelas Estradas da Região Sudeste do Brasil.
Não são grandes documentários de viagem.
São fragmentos.
Alguns possuem poucos minutos. Outros são apenas fotografias e algumas linhas escritas às pressas.
Mas, quando colocados novamente em ordem, tornam-se pontos de um mapa muito maior.
Um mapa feito de estradas, cidades, pessoas e memória.
E naquele mapa existe uma Juliana ao volante, um Vagner olhando pela janela e milhares de quilômetros esperando para serem percorridos.
A estrada não era apenas o caminho para a aventura.
Bellacosa Maifnrame e memorias de uma viagem a Monte Verde
🌲 As Árvores e a Cidade de Monte Verde
Uma cidade aconchegante entre montanhas, casas, jardins e muito verde
Era começo de outono em Monte Verde, e lá estávamos nós passeando tranquilamente pelas ruas dessa pequena cidade escondida no alto da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais.
O clima ainda estava agradável. Nada daquele frio rigoroso que normalmente imaginamos quando alguém fala de Monte Verde. Era simplesmente um belo dia para andar sem muita pressa e observar a cidade.
E havia muito para observar.
Nossa missão naquele momento era bastante simples: encontrar um lugar para almoçar.
Mas procurar restaurante também acabou virando uma pequena exploração.
Em vez de ficarmos somente nas ruas mais movimentadas e turísticas, começamos a circular por lugares mais tranquilos. Ruas onde apareciam casas, pequenos jardins, pousadas e, principalmente, muitas árvores.
🌲🌲🌲
Talvez essa seja uma das características mais interessantes de Monte Verde.
A natureza parece fazer parte da própria cidade.
As árvores surgem entre as construções, acompanham as ruas e aparecem nos terrenos e jardins. Em alguns pontos temos quase a impressão de que as casas foram cuidadosamente colocadas no meio da vegetação.
Enquanto seguíamos procurando nosso almoço, continuávamos descobrindo pequenos detalhes.
Uma casa diferente aqui.
Um jardim acolá.
Uma rua tranquila que provavelmente passaria despercebida para quem estivesse preocupado apenas com os pontos turísticos.
E justamente por isso gosto desses passeios.
Nem sempre uma viagem precisa ser uma sequência de atrações famosas, fotografias obrigatórias e lugares marcados em um mapa.
Às vezes a melhor parte é simplesmente zanzar pela cidade.
Sem roteiro.
Sem horário.
Olhando as casas, as pessoas, os jardins e as árvores.
Naquele começo de outono de 2016, Monte Verde mostrou um pouco dessa outra face.
E pensar que tudo começou porque estávamos apenas procurando um lugar para almoçar.
Estamos no alto da montanha, curtindo os primeiros dias do outono, esta um calorzinho estamos passeando pelas ruas desta encantadora vilazinha da serra.
Um recanto de tranquilidade estamos em busca de um lugar delicioso para almoçar, circulando pelas ruas não muito turísticas, onde vemos casas normais e ainda muito verde com arvores ocupando os jardins.
Bellacosa Mainframe e o restaurante e criadoro de trutas
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🐟 Criação de Trutas em Monte Verde — Do Tanque ao Nosso Prato
Monte Verde tinha frio, montanha, lareira e aquele clima perfeito para desaparecer do mundo durante um fim de semana. Juliana era apaixonada pelo lugar e, sempre que podíamos, pegávamos a estrada para mais uma pequena aventura a dois. Em uma delas, fomos almoçar num restaurante onde a atração começava muito antes de a comida chegar à mesa.
Juliana era apaixonada por Monte Verde.
E talvez por isso não precisássemos de grandes desculpas para voltar.
Sempre que aparecia uma oportunidade, partíamos para um fim de semana por lá. Era um daqueles programas simples que funcionavam perfeitamente: viajar a dois, caminhar sem muita pressa, aproveitar o frio da serra, entrar nas lojinhas, comer alguma coisa diferente e, no final do dia, voltar para o aconchego da lareira.
Monte Verde tinha essa capacidade de transformar um simples fim de semana numa pequena viagem para longe da rotina.
E em uma dessas viagens descobrimos que até o almoço poderia virar passeio.
🐟 Um restaurante onde o almoço ainda estava nadando
Fomos almoçar em um restaurante que possuía sua própria criação de trutas.
Mas aquilo não era simplesmente um restaurante com alguns peixes decorativos nadando num laguinho.
Havia vários tanques.
E caminhando entre eles era possível observar as diferentes etapas da criação das trutas.
Peixes menores em determinados tanques, outros já maiores, diferentes estruturas, circulação constante da água, redes de proteção e todo um pequeno sistema funcionando silenciosamente diante dos visitantes.
Para quem gosta de observar como as coisas funcionam — e eu sempre gostei — aquilo era quase uma visita técnica disfarçada de almoço.
Só que havia uma diferença fundamental.
No final daquela linha de produção havia manteiga, temperos e um prato esperando por nós.
🌊 Do tanque para a cozinha
A experiência ficava ainda mais interessante porque o comensal podia escolher a própria truta.
Não era aquela abstração que normalmente existe num restaurante.
Você olha o cardápio.
Pede peixe.
Algum tempo depois aparece um filé no prato.
Pronto.
Ali não.
O peixe estava diante de nós.
Nadando.
Você acompanhava parte daquele pequeno ecossistema, observava os tanques, escolhia a truta e ela seguia para ser preparada.
Pouco tempo depois chegava à mesa.
É difícil imaginar um peixe mais fresco.
🍽️ O sabor daquilo que acabou de sair da água
E existe diferença.
Uma enorme diferença.
A sensação de comer uma truta que pouco antes estava nadando naquele mesmo lugar é completamente diferente daquela proporcionada por um peixe que passou por processamento, transporte, armazenamento, refrigeração, distribuição e finalmente chegou ao restaurante.
Ali a distância entre origem e prato podia ser medida em metros.
E o sabor acompanhava essa distância.
A carne delicada, a textura e principalmente aquela percepção de frescor faziam parte da experiência.
Não era simplesmente:
"Vamos comer truta."
Era:
"Vamos conhecer de onde vem a nossa truta."
E isso transforma uma refeição em memória.
🐟 Os tanques contavam uma história
Antes ou depois do almoço, podíamos caminhar entre os tanques e observar as várias etapas da criação.
E talvez essa fosse uma das coisas mais interessantes daquele lugar.
Quando encontramos o produto pronto no supermercado, toda a história anterior desapareceu.
Vemos apenas a embalagem.
Naquele restaurante, não.
Os tanques mostravam que existia um processo.
A truta não aparecia magicamente no prato.
Existiam diferentes fases de desenvolvimento, manejo dos peixes, alimentação, circulação da água e cuidados necessários para que chegassem ao tamanho adequado.
Era praticamente possível caminhar pela história do peixe.
Tanque → crescimento → seleção → cozinha → prato.
Uma pequena cadeia produtiva acontecendo diante dos nossos olhos.
❄️ Por que justamente trutas em Monte Verde?
Existe também uma explicação interessante para encontrarmos esse tipo de criação nas regiões serranas.
A truta-arco-íris é um peixe associado a águas frias, limpas e bem oxigenadas.
Isso ajuda a explicar por que regiões montanhosas e de clima mais frio tornaram-se tão associadas à criação e ao consumo de trutas.
Monte Verde reúne justamente o cenário que combina com essa experiência.
Montanhas.
Frio.
Água.
Turismo.
Gastronomia.
E, naturalmente, trutas.
De repente aquele peixe no prato fazia parte da própria paisagem.
🧊 E dava para levar Monte Verde para casa
A experiência ainda tinha uma continuação.
Também era possível comprar trutas congeladas para levar.
E claro que isso era interessante.
Depois do fim de semana, podíamos voltar para casa carregando um pequeno pedaço gastronômico da viagem.
Dias depois, preparar uma daquelas trutas era quase apertar um botão de RESTORE:
Monte Verde recuperado com sucesso.
O sabor trazia novamente alguma coisa daquele fim de semana.
A estrada.
O frio.
As montanhas.
A lareira.
Os passeios.
Juliana.
E aquele restaurante.
Mas havia uma coisa impossível de congelar.
❤️ O peixe congelado voltava conosco. A experiência, não.
A truta que levávamos para casa podia ser excelente.
Mas aquela que comíamos ali tinha algo que nenhuma embalagem conseguiria reproduzir.
Não era somente o frescor.
Era o contexto.
Estávamos em Monte Verde.
Estávamos passeando.
Estávamos juntos.
Tínhamos acabado de caminhar entre os tanques e observar aqueles peixes.
Escolhíamos nossa truta.
Pouco depois ela chegava preparada à mesa.
Comíamos sem pressa.
Era uma refeição inserida dentro de uma aventura.
E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, eu não me lembre apenas de ter comido uma boa truta.
Eu me lembro dos tanques.
Lembro do passeio.
Lembro da experiência de observar as várias etapas da criação.
Lembro daquela estranha satisfação de saber que o almoço estava absurdamente fresco.
E principalmente lembro que estávamos fazendo aquilo que tantas vezes fizemos juntos:
transformando um simples fim de semana numa pequena aventura.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Hoje consigo perceber uma coisa que provavelmente não pensei naquele almoço.
Nós acreditávamos estar simplesmente visitando Monte Verde novamente.
Você não sabe quais momentos serão importantes enquanto eles estão acontecendo.
Então simplesmente vive.
Décadas depois, abre uma postagem antiga, encontra algumas fotografias e percebe que aquele almoço aparentemente banal preservou muito mais que o sabor de uma truta.
Preservou quem estava sentado do outro lado da mesa.
🥚 Easter egg Bellacosa
Em algum lugar daquele criadouro havia uma espécie de processamento em batch acontecendo:
INPUT → TRUTA NO TANQUE PROCESS → COZINHA OUTPUT → TRUTA NO PRATO
A diferença é que naquele sistema havia um SLA particularmente agressivo.
Do tanque para a mesa em minutos.
E pela primeira vez na carreira deste programador COBOL, ninguém queria aumentar o tempo de retenção do arquivo.
Visitamos um criadouro de trutas perdido em Monte Verde, montes de tanques com vários estágios de criação de peixe. é divertido explorar e aprender como funciona.
Ver as bombas de agua, as redes de proteçao e o cheirinho a peixe no ar, super instrutivo ver como funciona a criação e engorda de Truta Arco-iris.
Ao fundo tinha um alambique onde pude provar uma aguinha que passarinho não bebe, no restaurante saboreamos uma truta fresquinha assada na brava.
🚋 O Bondinho Indo Embora — Uma Máquina do Tempo Sobre Trilhos
Há máquinas que merecem um lugar no museu. Outras merecem continuar trabalhando.
Mais um delicioso final de semana.
Eu, Juliana e o Formiga novamente em um daqueles lugares que, durante muito tempo, funcionaram como nosso pequeno templo sagrado da diversão familiar: o Parque Portugal, em Campinas, muito mais conhecido por todos simplesmente como Lagoa do Taquaral.
Não precisava existir uma grande programação.
Não precisava viajar centenas de quilômetros, reservar hotel ou preparar uma expedição.
Às vezes bastava chegar ao parque, caminhar, olhar as árvores, observar a lagoa, descobrir alguma coisa diferente e deixar o pequeno Formiga decidir qual seria a próxima aventura.
E naquele dia havia uma máquina do tempo esperando por nós.
Ela não tinha painel cheio de luzes.
Não precisava de plutônio.
Muito menos de um capacitor de fluxo.
Tinha trilhos.
Tinha rodas de aço.
E fazia:
Clanc... clanc... clanc...
🚋
Era o bondinho da Lagoa do Taquaral.
🚋 Um pedaço da cidade que se recusou a morrer
Para uma criança, provavelmente aquilo era simplesmente uma coisa muito divertida.
Um veículo diferente.
Entrava-se nele, sentava-se e começava o passeio.
Para um adulto, entretanto, aquele pequeno bonde carregava algo muito maior.
Ele representava uma época em que nossas cidades possuíam uma relação muito diferente com o transporte coletivo.
Antes de ônibus, automóveis e avenidas dominarem definitivamente a paisagem urbana brasileira, os trilhos atravessavam várias de nossas cidades.
Bondes transportavam trabalhadores, estudantes, famílias, comerciantes e todo tipo de passageiro.
Durante décadas fizeram parte da rotina urbana.
Então desapareceram.
Os trilhos foram arrancados ou cobertos.
As redes elétricas desapareceram.
Garagens foram demolidas.
Veículos foram desmontados, abandonados ou transformados em sucata.
Pouco a pouco, aquilo que havia sido absolutamente cotidiano virou curiosidade histórica.
Por isso gosto tanto do que acontece no Taquaral.
Porque aquele bonde não está simplesmente exposto.
Ele ainda trabalha.
🔧 Não é uma peça de museu
Existe uma diferença gigantesca entre preservar uma máquina e simplesmente guardar uma máquina.
Imagine uma locomotiva perfeitamente restaurada dentro de um museu.
Você pode observá-la.
Fotografá-la.
Ler uma placa contando quando foi construída.
Pode olhar para suas rodas, cabine, bancos e instrumentos.
Tudo isso possui enorme valor histórico.
Mas existe outra experiência completamente diferente:
ouvir a máquina funcionando.
Sentir a vibração.
Escutar as rodas passando sobre os trilhos.
Entrar.
Sentar.
E ser transportado por ela.
É exatamente isso que torna o bondinho do Taquaral tão especial para mim.
Ele continua cumprindo a função para a qual aquelas máquinas foram construídas:
transportar pessoas.
Mesmo que seja apenas durante um pequeno circuito dentro de um parque.
Mesmo que hoje seus passageiros estejam ali principalmente para passear.
Durante alguns minutos, aquela tecnologia deixa de ser passado.
Volta a ser presente.
👦 E então entra o Formiga
Para as crianças aquilo naturalmente é fantástico.
Imagine enxergar aquela geringonça pela primeira vez.
Não parece um ônibus.
Não parece um carro.
Não parece exatamente um trem.
Mas anda sobre trilhos.
Você entra e ela começa a se movimentar.
Para quem nasceu em um mundo de automóveis, ônibus e metrôs modernos, existe algo quase mágico naquele veículo antigo caminhando lentamente pelo parque.
E talvez essa seja uma das maneiras mais bonitas de ensinar história.
Sem aula.
Sem prova.
Sem obrigação de decorar datas.
A criança simplesmente entra dentro da história.
Literalmente.
O Formiga podia não saber naquele momento toda a história dos bondes brasileiros.
E não precisava saber.
Primeiro vinha a experiência.
Depois, algum dia, poderia vir a curiosidade.
"Pai, antigamente tinha isso na rua?"
E pronto.
A porta da máquina do tempo estava aberta.
👴 Os adultos fazem outra viagem
As crianças viajam pelo parque.
Os adultos muitas vezes viajam para outro lugar.
Para as histórias dos pais.
Dos avós.
Para fotografias antigas das cidades.
Para aquela São Paulo, Campinas, Santos ou Rio de Janeiro que já não existe mais.
Mesmo quem nunca utilizou regularmente um bonde urbano acaba reconhecendo alguma coisa familiar naquela imagem.
Porque os bondes permaneceram no nosso imaginário.
Nas fotografias.
Nos cartões-postais.
Nas histórias familiares.
Nos filmes.
Nos livros.
E na própria arquitetura das cidades.
Às vezes caminhamos hoje por uma avenida sem imaginar que, décadas atrás, dois trilhos passavam exatamente debaixo de nossos pés.
🚌 Então chegaram os ônibus
A história do transporte urbano mudou.
Os ônibus conquistaram as cidades brasileiras.
Tinham uma vantagem óbvia: não precisavam seguir trilhos.
Uma linha poderia ser alterada.
Um novo bairro poderia ser atendido sem construir quilômetros de infraestrutura ferroviária.
Mas essa flexibilidade também ajudou a construir cidades cada vez mais dependentes de veículos sobre pneus e, durante décadas, de motores queimando combustível pelas ruas.
O velho bonde elétrico acabou parecendo antiquado.
Curiosamente, muitas décadas depois, cidades do mundo inteiro voltariam a investir justamente em sistemas modernos de transporte elétrico sobre trilhos.
Mudaram os nomes.
Mudaram os veículos.
Mudou a tecnologia.
Mas alguns dos princípios continuam surpreendentemente familiares.
Às vezes o futuro possui uma estranha mania de reencontrar o passado.
🏛️ Máquinas precisam funcionar
Talvez seja isso que mais me fascine no Taquaral.
Existe uma oficina.
Existem outros carros.
As composições podem se revezar.
Há manutenção.
Há conhecimento envolvido.
Há pessoas capazes de fazer aquelas máquinas continuarem se movimentando.
Isso transforma o lugar em algo maior que uma exposição.
É uma espécie de museu operacional.
E aqui meu lado de homem de tecnologia inevitavelmente encontra meu lado saudosista.
Porque penso imediatamente nos mainframes.
Podemos colocar um computador antigo dentro de uma vitrine.
Podemos colocar ao lado dele uma placa:
IBM — década de 1960.
Interessante.
Mas imagine poder ligar a máquina.
Ouvir seus componentes.
Carregar um programa.
Executar alguma coisa.
Mostrar para uma pessoa jovem:
"Era assim que funcionava."
A experiência muda completamente.
O conhecimento deixa de ser abstrato.
A máquina fala.
🚋 Pequenas sobrevivências sobre trilhos
Infelizmente experiências desse tipo tornaram-se raras.
Durante algum tempo São Paulo também manteve um pequeno passeio de bonde na região do Museu da Imigração, no complexo da antiga Hospedaria dos Imigrantes.
Santos conseguiu preservar uma experiência ainda mais ampla com seus bondes históricos circulando pelo centro.
E Campinas tem essa pequena preciosidade no Taquaral.
São sobreviventes.
Pequenos fragmentos de uma enorme rede de transporte urbano que existiu no Brasil.
Talvez alguém veja apenas um carrinho antigo dando uma volta num parque.
Eu vejo outra coisa.
Vejo engenharia preservada em movimento.
⏳ Próxima parada: final do século XIX
Entrar em um desses veículos é fazer uma pequena viagem para uma tecnologia que começou a transformar nossas cidades ainda no século XIX e marcou profundamente parte do século XX.
Olhe os bancos.
As janelas.
Os controles.
A estrutura.
O desenho do veículo.
Depois imagine que aquilo não era uma atração turística.
Era transporte público.
Alguém entrava para trabalhar.
Outro passageiro carregava compras.
Uma criança ia para a escola.
Um senhor lia jornal.
Pessoas namoravam.
Discutiam.
Chegavam atrasadas.
Perdiam o bonde.
Aliás...
"Perder o bonde."
A tecnologia desapareceu de grande parte das cidades.
Mas até a expressão ficou.
😂 E talvez esse seja o maior Easter egg
O bonde conseguiu uma façanha maravilhosa.
Foi retirado das ruas, mas permaneceu estacionado dentro da língua portuguesa.
Quem nunca ouviu:
"Fulano perdeu o bonde da história."
Talvez uma criança de hoje use a expressão sem sequer imaginar como era possível literalmente perder um bonde.
No Taquaral ela pode descobrir.
E, dependendo da velocidade das perninhas...
Pode até perder um de verdade.
😂
🎥 O bondinho indo embora
Foi justamente um desses pequenos momentos que registrei.
O bondinho estava indo embora.
Nada extraordinário parecia estar acontecendo.
Nenhum grande acontecimento.
Nenhuma cerimônia.
Nenhuma data histórica.
Era apenas mais um final de semana.
Eu.
Juliana.
Formiga.
O parque.
E um velho bonde seguindo seu caminho pelos trilhos.
Na época aquilo mereceu apenas um pequeno vídeo e algumas linhas neste blog.
Anos depois percebo que havia muito mais naquela cena.
Eu estava registrando três tempos simultaneamente.
O passado, representado pelo bonde.
O presente, representado por nós três observando aquela máquina.
E o futuro, representado por uma criança conhecendo algo que havia pertencido ao cotidiano de seus bisavós.
Talvez seja justamente para isso que servem essas pequenas filmagens aparentemente sem importância.
Nós pensamos que estamos registrando um passeio.
Na verdade estamos construindo memória.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Continuo acreditando que preservar tecnologia é muito mais interessante quando conseguimos mantê-la viva.
Uma locomotiva merece correr.
Um relógio mecânico merece marcar as horas.
Uma máquina de escrever merece escrever.
Um computador antigo merece executar um programa.
E um bonde...
Bem...
um bonde merece transportar passageiros.
Por isso gosto tanto daquela pequena linha dentro da Lagoa do Taquaral.
Durante alguns minutos, crianças descobrem uma tecnologia antiga.
Adultos encontram lembranças que talvez nem sejam propriamente suas, mas herdadas de pais e avós.
E uma velha máquina continua fazendo exatamente aquilo para o qual foi construída.
Transportando pessoas.
Só existe uma diferença.
Antigamente ela transportava passageiros de um ponto da cidade para outro.
Para aqueles que não conhecem o parque do Taquaral recomendo vivamente que o visitem. Este parque é fantástico cheio de segredos para serem explorados e descobertos.
Tem um que relembra o passado glorioso dos Bondes Eletricos que percorre boa parte do parque levando os turistas a viajarem ao passado e relembrarem como era o transporte publico no passado.
As crianças deliram ao verem o bondinho passando, os trilhos no parque dão um certo charme e as plataformas estrategicamentes distribuídas permitem um bom passeio.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
IBM Z
COBOL
CICS
Db2
z/OS
Mainframe desde 1988