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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Big Green 2007: o Dia em que a IBM Avisou que o Data Center Ficaria sem Tomada — e Ninguém Imaginava que 19 Anos Depois Chegariam as GPUs

 

Bellacosa Mainframe e o legado do projeto Big Green de 2007

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Big Green 2007: o Dia em que a IBM Avisou que o Data Center Ficaria sem Tomada — e Ninguém Imaginava que 19 Anos Depois Chegariam as GPUs

🌱 z/VM, consolidação, Linux on System z, Project Big Green, LinuxONE, z17, IA, watts, megawatts e a perturbadora descoberta de que a resposta para a vida, o universo e tudo mais talvez continue sendo 42 — mas alguém precisa descobrir quantos kWh são necessários para calculá-la


NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Essa é provavelmente a primeira recomendação que deveria estar impressa em letras grandes e amigáveis na porta de qualquer data center moderno.

A segunda seria:

TRAGA UMA TOALHA.

A terceira, acrescentada pelo administrador do CPD:

E NÃO LIGUE MAIS NENHUM SERVIDOR SEM FALAR COM O ELETRICISTA.

Estamos em 2007.

O iPhone original acaba de aparecer.

Kubernetes não existe.

Docker não existe.

ChatGPT não existe.

Ninguém está perguntando ao computador se deve terminar o namoro.

Uma GPU ainda é, para a maioria das pessoas, aquela coisa que faz Crysis ficar bonito.

E, em algum escritório da IBM, alguém olha para milhares de servidores espalhados por data centers e percebe algo preocupante:

SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER

        ↓

       ⚡⚡⚡

A IBM então faz aquilo que empresas de tecnologia costumam fazer quando descobrem que existe um problema enorme:

dá um nome para ele.

Em 10 de maio de 2007, nasce o:

PROJECT BIG GREEN

A IBM anunciou uma iniciativa de US$ 1 bilhão por ano em tecnologias e serviços voltados a melhorar a eficiência energética dos data centers. O projeto incluía uma equipe mundial de centenas de especialistas e atacava servidores, armazenamento, refrigeração, virtualização, gerenciamento e instalações. (IBM)

O detalhe delicioso?

Dezenove anos depois estamos discutindo exatamente o mesmo problema.

Só que agora alguém estacionou um caminhão cheio de GPUs na porta.


🌌 Capítulo I — No princípio havia o mainframe

Muito antes de alguém inventar:

VMware
Docker
Kubernetes
Cloud

o mainframe já tinha descoberto uma coisa fundamental:

computador parado é computador caro.

Imagine uma máquina física utilizada por uma única aplicação:

┌────────────────────┐
│      SERVIDOR      │
│                    │
│ CPU ███░░░░░░░ 30% │
│                    │
└────────────────────┘

Setenta por cento da capacidade pode permanecer ociosa durante boa parte do tempo.

Agora multiplique:

SERVER A → 15%
SERVER B → 20%
SERVER C → 8%
SERVER D → 12%
SERVER E → 27%
SERVER F → 6%

Todos ligados.

Todos consumindo energia.

Todos ocupando rack.

Todos precisando de refrigeração.

Todos possuindo componentes.

Todos precisando ser administrados.

O mainframe desenvolveu outra filosofia:

             MAINFRAME
                 │
        ┌────────┼────────┐
        │        │        │
       VM       VM       VM
        │        │        │
      Linux    Linux    Linux
        │        │        │
      APP A    APP B    APP C

Compartilhe o monstro.


🧙 Capítulo II — z/VM, o ancestral que ninguém convidou para a festa da virtualização

Quando a indústria começou a descobrir entusiasmada a virtualização de servidores x86, havia veteranos de mainframe olhando aquilo com a mesma expressão de um elfo de 4.000 anos vendo humanos descobrirem cerveja.

— Virtualização!

— Fascinante.

— Podemos executar várias máquinas virtuais numa máquina física!

— Sim.

— Isso é revolucionário!

— Naturalmente.

— Você não parece impressionado.

— Meu avô fazia isso.

A linhagem do VM da IBM remonta aos sistemas CP/CMS dos anos 1960 e posteriormente VM/370.

Décadas depois chegamos ao z/VM.

E o conceito fundamental continuava extraordinariamente atual:

HARDWARE
   │
 z/VM
   │
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   └── Linux

Em vez de possuir cem máquinas físicas para cem workloads, você poderia consolidar muitos deles.

Essa palavra — consolidação — será importantíssima para nossa história.

Porque o problema energético não é simplesmente:

Quanto uma CPU consome?

É também:

Quantas CPUs, fontes, placas-mãe, discos, interfaces, switches e ventiladores preciso manter ligados para entregar determinada quantidade de trabalho útil?


🐋 Capítulo III — Surge a epidemia do servidor pequeno

Nos anos 1990 e 2000, servidores Unix e depois x86 se multiplicaram.

Havia uma lógica perfeitamente razoável.

Uma aplicação?

Servidor.

Outra aplicação?

Outro servidor.

Banco?

Servidor.

Web?

Servidor.

E-mail?

Servidor.

Aplicação do departamento que ninguém sabe mais quem usa?

Naturalmente:

servidor.

Logo:

             DATA CENTER

 APP1 → SERVER
 APP2 → SERVER
 APP3 → SERVER
 APP4 → SERVER
 APP5 → SERVER
 APP6 → SERVER
 APP7 → SERVER
 APP8 → SERVER
 ...

Nasceu o famoso:

server sprawl.

O problema não era apenas comprar servidores.

Era alimentá-los.

Refrigerá-los.

Conectá-los.

Atualizá-los.

Monitorá-los.

Administrá-los.

E encontrar espaço físico para colocar todos.

Então alguém da IBM provavelmente contemplou aquilo e pensou:

Vocês passaram vinte anos fugindo de computadores grandes e agora construíram um computador grande utilizando cinco mil computadores pequenos.


🌱 Capítulo IV — 10 de maio de 2007: Big Green

Chegamos ao nosso momento histórico.

A IBM anuncia o Project Big Green.

O problema identificado era essencialmente:

CRESCIMENTO DA COMPUTAÇÃO
          ↓
MAIS SERVIDORES
          ↓
MAIS ELETRICIDADE
          ↓
MAIS CALOR
          ↓
MAIS REFRIGERAÇÃO
          ↓
MAIS ELETRICIDADE

Observe a perversidade.

Energia alimenta o computador.

O computador produz calor.

Você então utiliza mais energia...

para retirar o calor produzido pela primeira energia.

Douglas Adams provavelmente teria apreciado isso.

A solução Big Green não era simplesmente:

COMPRE MAINFRAME.

Era mais abrangente.

Envolvia:

            BIG GREEN
                │
 ┌──────────────┼──────────────┐
 │              │              │
COMPUTE       STORAGE       FACILITIES
 │              │              │
virtualização gerenciamento refrigeração
 │              │              │
consolidação   dados         energia

O projeto pretendia olhar para o data center como sistema.

Essa diferença é importante.


🐧 Capítulo V — 3.900 servidores entram num bar...

E apenas aproximadamente 30 mainframes saem.

Não é piada.

Em 1º de agosto de 2007, a IBM anunciou um dos experimentos mais espetaculares dessa estratégia:

consolidar aproximadamente 3.900 servidores em cerca de 30 System z.

A empresa estabeleceu como objetivo uma redução de aproximadamente 80% no consumo energético relacionado àquele ambiente ao longo de cinco anos. (IBM)

A arquitetura conceitual era:

ANTES

Unix  Unix  x86  Unix  x86
 x86  Unix  x86  x86  Unix
 x86  x86   x86  Unix x86
 ...
      ~3.900 servidores


              ↓


DEPOIS

        ~30 SYSTEM z
              │
            z/VM
              │
      Linux Linux Linux
      Linux Linux Linux
      Linux Linux Linux

Não estavam colocando 3.900 aplicações dentro de uma gigantesca imagem z/OS.

A estrela aqui era:

Linux on System z.

Isso é essencial para entender o restante da história.


🐧 Capítulo VI — “Mas mainframe não roda só COBOL?”

Não.

E aqui mora um dos mal-entendidos mais persistentes sobre IBM Z.

Você pode ter:

IBM Z
 │
 ├── z/OS
 │    ├── COBOL
 │    ├── CICS
 │    ├── Db2
 │    └── IMS
 │
 └── Linux
      ├── Java
      ├── databases
      ├── middleware
      └── aplicações open source

Portanto, a proposta Big Green podia dizer ao cliente:

Não precisa reescrever seu servidor Linux em COBOL.

O COBOLzeiro no fundo da sala:

— Pena.

O arquiteto:

— Não ajude.

Você poderia mover workloads Linux para uma plataforma altamente consolidada.

E z/VM funcionava como peça fundamental dessa equação.


⛽ Capítulo VII — O mainframe ganha marcador de combustível

Em outubro de 2007, IBM avançou ainda mais na conversa sobre energia com aquilo que ficou conhecido como:

Mainframe Gas Gauge.

A ideia era fantástica em sua simplicidade.

Se energia virou recurso de data center, precisamos medi-la como recurso operacional.

Pense:

        PAINEL DO MAINFRAME

CPU      ███████░░░ 70%

MEMORY   ██████░░░░ 60%

I/O      █████░░░░░ 50%

POWER    ███████░░░ 70%

Isso representa uma mudança conceitual enorme.

O capacity planner tradicionalmente perguntava:

Quantos MIPS?

Quantos MSUs?

Quanto DASD?

Quanto storage?

Quanto CPU?

Agora precisava acrescentar:

Quantos WATTS?

E essa pequena pergunta de 2007 acabaria virando uma pergunta monstruosa em 2026:

QUANTOS MEGAWATTS?

🪐 Capítulo VIII — Enquanto isso, nasce outra criatura: cloud

Agora nossa história sofre uma reviravolta digna do Restaurante no Fim do Universo.

IBM tinha diagnosticado corretamente:

SERVIDORES SUBUTILIZADOS
        =
DESPERDÍCIO

Mas o mercado encontrou outra solução.

Em vez de:

MEUS 5.000 SERVIDORES
        ↓
      IBM Z

surgiu:

MEUS 5.000 SERVIDORES
        ↓
 NÃO SÃO MAIS MEUS
        ↓
      CLOUD

Genial.

O servidor desapareceu!

Exceto...

não desapareceu.

Mudou de endereço.

EMPRESA

 servidor servidor servidor

          ↓ CLOUD

HYPERSCALER

 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor

A cloud pegou vários princípios economicamente semelhantes:

consolidação, virtualização, compartilhamento, automação e melhor utilização da infraestrutura.

Só os aplicou numa escala completamente diferente.


☁️ Capítulo IX — Someone Else's Computer

A famosa piada diz:

The cloud is just someone else's computer.

É uma simplificação, mas contém uma verdade física maravilhosa.

Quando você executa:

CREATE INSTANCE

não ocorre:

☁️
✨
COMPUTADOR
✨

Em algum lugar existe:

DATA CENTER
    │
   RACK
    │
 SERVER
    │
 CPU
 RAM
 NIC
 SSD
    │
    ⚡

A cloud tornou capacidade programável.

Não tornou capacidade infinita.

Essa distinção nos traz diretamente de volta ao Big Green.


🐧 Capítulo X — 2015: LinuxONE aparece

Agora avance oito anos.

17 de agosto de 2015.

A IBM lança oficialmente:

LinuxONE

Os dois nomes originais eram deliciosamente grandiosos:

LinuxONE Emperor

LinuxONE Rockhopper

O Emperor era destinado a grandes organizações; o Rockhopper, a configurações menores. A IBM dizia que o Emperor poderia escalar para milhares de máquinas virtuais ou containers e destacava compatibilidade com software aberto. (Investing.com)

A mensagem era clara.

Você diz:

— Quero Linux.

IBM:

— Certo.

— Open source.

— Certo.

— PostgreSQL.

— Certo.

— Containers.

— Certo.

— Então não quero mainframe.

IBM:

— Temos uma surpresa sobre a caixa onde tudo isso está rodando.

😄


🌱 Capítulo XI — Big Green não morreu; sofreu um RENAME

Esta é minha interpretação histórica favorita.

Não existe uma linha simples:

PROJECT BIG GREEN
        ↓
     SUCESSO

nem:

PROJECT BIG GREEN
        ↓
     FRACASSO

O que aconteceu foi mais interessante.

O branding Big Green desapareceu gradualmente.

Mas seus princípios foram absorvidos.

              BIG GREEN
                  │
                  ↓
           CONSOLIDAÇÃO
                  │
                  ↓
          LINUX ON SYSTEM z
                  │
                  ↓
              LinuxONE
                  │
                  ↓
            HYBRID CLOUD
                  │
                  ↓
          IBM Z + LinuxONE
                  │
                  ↓
                 IA

A campanha morreu.

A pergunta permaneceu:

Quanto trabalho útil conseguimos realizar utilizando determinada quantidade de infraestrutura?


🧮 Capítulo XII — O erro de medir apenas preço por servidor

Imagine:

Arquitetura A

1.000 servidores baratos

Arquitetura B

10 máquinas extremamente caras

Perguntar:

Qual servidor é mais barato?

é quase inútil.

Precisamos calcular:

CUSTO TOTAL
────────────
TRANSAÇÕES

E também:

TRANSAÇÕES / WATT

TRANSAÇÕES / RACK

TRANSAÇÕES / m²

TRANSAÇÕES / ADMINISTRADOR

Além de:

software
licenciamento
networking
storage
backup
energia
refrigeração
operações
downtime
segurança

É o famoso:

TCO — Total Cost of Ownership.

O servidor barato pode gerar arquitetura cara.

O servidor caro pode gerar arquitetura barata.

Ou vice-versa.

A resposta correta da engenharia é aquela frase profundamente irritante:

Depende.


🤖 Capítulo XIII — Então chegou a IA

E agora nossa história enlouquece.

Durante anos, Big Green estava preocupado com:

CPU
CPU
CPU
CPU

Então chegaram os aceleradores.

GPU GPU GPU GPU
GPU GPU GPU GPU
GPU GPU GPU GPU

Modelos modernos de IA podem exigir enormes clusters de aceleradores para treinamento. A própria infraestrutura de desenvolvimento de IA generativa da IBM descreve cenários nos quais milhares de GPUs precisam cooperar em um único treinamento. (arXiv)

De repente:

WATTS
  ↓
kW
  ↓
MW
  ↓
GW?

E alguém na sala diz:

— Precisamos escalar o cluster.

O eletricista pergunta:

— Quanto?

O cientista de dados responde:

— Muito.

— Isso não é unidade.

— Então... absurdamente muito.


⚡ Capítulo XIV — O último megawatt

Agora ligamos este artigo à nossa investigação anterior sobre data centers brasileiros.

O limite computacional moderno começa a envolver:

CPU
GPU
RAM
STORAGE
NETWORK
    │
    ↓
POWER
    │
    ↓
COOLING
    │
    ↓
SUBSTATION
    │
    ↓
TRANSMISSION
    │
    ↓
GENERATION

Eis o detalhe quase filosófico:

quanto mais abstrata ficou a computação...

mais importante voltou a ficar a infraestrutura física.

SERVER
   ↓
VM
   ↓
CONTAINER
   ↓
KUBERNETES
   ↓
CLOUD
   ↓
AI
   ↓
...
   ↓
USINA ELÉTRICA

Parabéns.

Depois de cinquenta anos subindo camadas de abstração, encontramos a tomada.


🧠 Capítulo XV — 8 de abril de 2025: z17 encontra a IA

Agora chegamos ao IBM z17.

A IBM anunciou o sistema em 8 de abril de 2025, descrevendo-o como seu primeiro mainframe inteiramente projetado para a era da IA.

No coração está o:

Telum II.

Acelerador de IA integrado ao processador.

A IBM afirma, para uma configuração e modelo de referência específicos, capacidade superior a 450 bilhões de operações de inferência em um dia, com resposta de aproximadamente 1 ms. O z17 foi anunciado com 50% mais capacidade diária de inferência de IA que o z16. (IBM Brasil Newsroom)

Anúncio oficial do IBM z17 — 8 de abril de 2025

Isso representa uma estratégia muito interessante.

Em vez de:

TRANSAÇÃO
    │
    ↓
MAINFRAME
    │
    ↓
NETWORK
    │
    ↓
GPU FARM
    │
    ↓
AI
    │
    ↓
NETWORK
    │
    ↓
MAINFRAME

certos modelos de inferência podem operar muito próximos da própria transação:

TRANSAÇÃO
    │
    ├── BUSINESS LOGIC
    │
    └── AI INFERENCE
            │
            ↓
         DECISION

Fraude é um exemplo perfeito.


💳 Capítulo XVI — IA perto do dinheiro

Imagine uma compra:

R$ 7.850
03:17
local incomum
dispositivo novo
comportamento estranho

O sistema tradicional pode executar regras:

IF VALOR > LIMITE
   PERFORM ANALISE-FRAUDE
END-IF.

Agora podemos adicionar modelos:

TRANSACTION
     │
     ↓
AI MODEL
     │
     ├── normal → APPROVE
     │
     └── anomalous → REVIEW/BLOCK

Quanto menor a latência entre:

TRANSAÇÃO

e:

INFERÊNCIA

melhor.

Portanto, IA no mainframe não significa necessariamente:

treinar o próximo GPT no z/OS.

Esse seria um entendimento errado.

A proposta mais interessante é:

inferência empresarial próxima dos dados e das transações.


🐬 Capítulo XVII — E as GPUs não vão embora

Isso também precisa ficar claro.

z17 não matou GPU.

LinuxONE não matou x86.

Cloud não matou mainframe.

Mainframe não matou cloud.

A arquitetura futura provavelmente será:

                   WORKLOAD

                      │
       ┌──────────────┼──────────────┐
       │              │              │
       ↓              ↓              ↓
     IBM Z          GPU FARM       CLOUD
       │              │              │
transactional AI   training      elastic compute
core banking       huge models   applications
low latency        HPC           analytics

O segredo será:

colocar cada workload onde ele faz mais sentido.


🏗️ Capítulo XVIII — 7 de julho de 2026: o mainframe entra no rack

E chegamos a um acontecimento recentíssimo.

Em 7 de julho de 2026, IBM anunciou novas configurações compactas para z17 e LinuxONE 5, incluindo single-frame e rack-mount em toda a família.

Pela primeira vez, IBM oferece rack mount ao lado das opções tradicionais em todo o portfólio Z/LinuxONE. (IBM Newsroom)

IBM z17 e LinuxONE 5 compactos — anúncio de 7 de julho de 2026

E leia o contexto escolhido pela própria IBM.

O anúncio fala explicitamente sobre organizações enfrentando baixa disponibilidade de espaço em data centers e altos custos por capacidade elétrica. (IBM Newsroom)

É quase possível ouvir um fantasma de 2007 dizendo:

— Big Green.


🌱 Capítulo XIX — O círculo fecha

Agora podemos montar nossa linha do tempo.

1960s
CP/CMS
   │
   ↓
1970s
VM/370
   │
   ↓
z/VM
   │
   ↓
LINUX ON MAINFRAME
   │
   ↓
2007
PROJECT BIG GREEN
   │
   ↓
CONSOLIDAÇÃO
EFICIÊNCIA
ENERGIA
   │
   ↓
2015
LinuxONE
   │
   ↓
HYBRID CLOUD
   │
   ↓
2025
z17 + TELUM II
   │
   ↓
2026
z17 / LinuxONE 5
RACK MOUNT
   │
   ↓
AI + DATACENTERS
   │
   ↓
MEGAWATTS

Essa não é uma evolução linear planejada desde os anos 1960.

Seria absurdo afirmar isso.

Mas existe uma continuidade conceitual extraordinária:

aumentar utilização e consolidar trabalho.


🧪 Capítulo XX — O grande teste: realidade versus marketing

Agora precisamos fazer aquilo que todo COBOLzeiro deveria aprender cedo:

IF MARKETING
   PERFORM VALIDATE-CLAIM
END-IF

Quando IBM diz:

80% menos energia

ou:

milhares de servidores consolidados

pergunte:

comparado com quê?

Depois:

qual workload?

Depois:

qual utilização?

Depois:

qual configuração?

Depois:

inclui storage?

Depois:

inclui refrigeração?

Depois:

inclui software?

Depois:

qual período?

Isso vale para IBM.

AWS.

Microsoft.

Google.

NVIDIA.

Qualquer fabricante.

Um benchmark sem contexto é como:

DISPLAY "42".

Pode ser a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

Mas continuamos sem saber qual era a pergunta.


🌍 Capítulo XXI — Big Green estava certo?

Agora podemos finalmente julgar.

Previsão:

Energia se tornará restrição importante dos data centers.

Correta.

Previsão:

Consolidação será importante.

Correta.

Previsão:

Virtualização aumentará utilização.

Correta.

Previsão:

Precisaremos medir energia como recurso computacional.

Corretíssima.

Previsão implícita:

Mainframe absorverá enormes quantidades do server sprawl mundial.

Não aconteceu na dimensão que aquela narrativa comercial poderia sugerir.

O mercado escolheu também:

x86
+
virtualization
+
hyperscale
+
cloud

E depois:

containers
+
Kubernetes

Mas isso não refutou o problema.

Encontrou outra maneira de administrá-lo.


☁️ Capítulo XXII — Cloud é o Big Green do outro lado do espelho?

Existe uma provocação interessante aqui.

IBM dizia:

CONSOLIDE
MUITOS SERVIDORES
EM MENOS SISTEMAS.

Hyperscalers disseram:

ENTREGUE OS SERVIDORES
PARA NÓS.

NÓS CONSOLIDAMOS.

São arquiteturas radicalmente diferentes.

Mas existe parentesco econômico:

EVITAR OCIOSIDADE
       +
COMPARTILHAR RECURSOS
       +
AUTOMATIZAR
       +
AUMENTAR UTILIZAÇÃO

A cloud não destruiu necessariamente a tese do Big Green.

Em certo sentido, industrializou parte dela.


🧑‍🚀 Capítulo XXIII — Guia do Mochileiro para o programador COBOL

Se você está começando agora, grave estas regras.

1. Não confunda máquina virtual com máquina imaginária.

Existe hardware embaixo.

2. Não confunda elasticidade com infinito.

AUTO-SCALING != MAGIC

3. Aprenda virtualização.

Entender z/VM ajuda enormemente a compreender cloud.

4. Aprenda capacity planning.

CPU continua existindo.

Memória continua acabando.

5. Acrescente energia ao modelo mental.

O capacity planner moderno precisa entender:

COMPUTE
+
POWER
+
COOLING

6. Não transforme arquitetura em religião.

Mainframe não é resposta para tudo.

Cloud não é resposta para tudo.

GPU não é resposta para tudo.

Kubernetes definitivamente não precisa rodar sua torradeira.

Ainda.

7. Sempre procure o custo sistêmico.

Não compare simplesmente:

CPU A vs CPU B

Compare:

SERVIÇO ENTREGUE
────────────────
CUSTO TOTAL

🐳 Capítulo XXIV — O elefante, a baleia e o mainframe

Douglas Adams escreveu sobre criaturas gigantescas surgindo em lugares improváveis.

Nossa indústria também possui algumas.

Durante décadas disseram que o mainframe desapareceria.

Ele viu:

client/server
Unix
Windows NT
Java
x86
VMware
cloud
containers
Kubernetes
serverless
AI

passarem pela porta.

Em 2026 ele continua sentado no CPD.

Agora alguém pergunta:

— Você ainda está aqui?

IBM Z responde:

— Sim.

— Mas agora temos IA.

— Também.

— Linux?

— Sim.

— Containers?

— Sim.

— APIs?

— Sim.

— Cloud híbrida?

— Sim.

— Eficiência energética?

O mainframe olha para uma pasta empoeirada:

PROJECT BIG GREEN
2007

— Engraçado você perguntar.


⚡ Capítulo XXV — O paradoxo final da abstração

A história da computação moderna parece uma tentativa constante de esconder a física.

Primeiro escondemos hardware com:

OPERATING SYSTEM

Depois:

VIRTUAL MACHINE

Depois:

CONTAINER

Depois:

ORCHESTRATOR

Depois:

CLOUD

Depois:

SERVERLESS

Serverless!

O próprio nome é maravilhoso.

É como chamar restaurante de:

KITCHENLESS

porque você não consegue ver a cozinha.

🤣

Então chegou IA consumindo tanta infraestrutura que fomos obrigados a seguir a abstração ao contrário:

AI
 ↓
MODEL
 ↓
GPU
 ↓
SERVER
 ↓
RACK
 ↓
DATA CENTER
 ↓
SUBSTATION
 ↓
POWER GRID
 ↓
POWER PLANT

Encontramos novamente a física.


🌌 Capítulo XXVI — E finalmente descobrimos a pergunta cuja resposta é 42

Deep Thought levou 7,5 milhões de anos para calcular:

42.

Infelizmente ninguém sabia exatamente qual era a pergunta.

Em 2026 finalmente descobrimos.

Um arquiteto entra no data center.

Pergunta:

— Quantas GPUs ainda posso instalar nesse rack?

O facility manager consulta o painel.

Olha a alimentação elétrica.

Consulta refrigeração.

Volta.

42.

O arquiteto fica emocionado.

— A resposta para a vida, o universo e tudo mais!

— Não.

— Não?

— Depois da quadragésima segunda derruba o disjuntor.


☕ Epílogo — O Restaurante no Fim do Data Center

São 23h59.

Em algum lugar do universo, existe um restaurante construído ao lado do último data center ainda com capacidade elétrica disponível.

Sentados à mesa estão:

um programador COBOL de 1978;

um administrador VM de 1985;

um especialista Linux de 2000;

um engenheiro Big Green de 2007;

um arquiteto cloud de 2017;

um engenheiro Kubernetes de 2020;

e um cientista de IA de 2026.

O garçom aproxima-se.

— O que desejam?

O COBOLzeiro:

— Café.

O administrador VM:

— Café.

O arquiteto cloud:

— Café serverless.

O garçom:

— Senhor, alguém ainda precisa fazer o café.

— Estragou a arquitetura.

O cientista de IA abre o notebook.

— Vou executar um modelo de 400 bilhões de parâmetros para decidir o que pedir.

As luzes piscam.

Todos olham para ele.

WARNING

DATA CENTER POWER
98%

O engenheiro Big Green lentamente tira uma pasta da mochila.

Na capa:

IBM
PROJECT BIG GREEN

10 MAY 2007

O cientista de IA pergunta:

— O que é isso?

— Uma mensagem do passado.

— Sobre inteligência artificial?

— Não.

— Cloud?

— Não.

— GPUs?

— Também não.

— Então sobre o quê?

O engenheiro abre o documento.

Tomadas.

Silêncio.

O veterano do z/VM começa a rir.

O COBOLzeiro levanta sua caneca.

Porque finalmente percebe a extraordinária circularidade daquela história:

z/VM
   │
   ↓
VIRTUALIZAÇÃO
   │
   ↓
CONSOLIDAÇÃO
   │
   ↓
BIG GREEN
   │
   ↓
LINUX ON SYSTEM z
   │
   ↓
LinuxONE
   │
   ↓
HYBRID CLOUD
   │
   ↓
z17
   │
   ↓
IA
   │
   ↓
MEGAWATTS
   │
   ↓
...

E depois de sessenta anos de engenharia:

        ┌───────────────┐
        │               │
        │    TOMADA     │
        │      ⚡       │
        │               │
        └───────────────┘

Voltamos ao início.

O velho engenheiro IBM fecha a pasta.

— Em 2007 chamamos isso de Big Green.

O engenheiro Kubernetes pergunta:

— E hoje?

Ele olha para o painel:

POWER CAPACITY: 99%

Pensa alguns segundos.

— Hoje chamamos de terça-feira.


🌱 A moral do Guia do Mochileiro do Mainframe

O Project Big Green de 2007 não venceu o mundo como marca comercial. Cloud e hyperscale acabaram seguindo caminhos diferentes daqueles que uma estratégia centrada no System z poderia sugerir.

Mas sua tese central envelheceu extraordinariamente bem:

Computação não deve ser medida apenas pela potência do processador, mas pelo trabalho útil entregue em relação aos recursos físicos necessários para sustentá-la.

A IBM passou daquela discussão para Linux on System z, depois LinuxONE — lançado em 2015 — e hoje chega ao z17, anunciado em 8 de abril de 2025 com Telum II e aceleração de IA integrada. (Investing.com)

Em julho de 2026, quando a IBM anunciou versões compactas e rack-mount de z17 e LinuxONE 5, voltou a mencionar explicitamente um mundo no qual espaço e capacidade elétrica dos data centers tornaram-se recursos cada vez mais preciosos. (IBM Newsroom)

Portanto:

2007

IBM:
"PRECISAMOS PENSAR
EM COMPUTAÇÃO POR WATT."


2026

IA:
"PRECISO DE OUTRO
CLUSTER DE GPUs."


DATA CENTER:
"PRECISO DE OUTRA
SUBESTAÇÃO."


REDE ELÉTRICA:
"PRECISO DE OUTRA
LINHA DE TRANSMISSÃO."


IBM BIG GREEN:
        ☕

Talvez a maior piada cósmica seja justamente essa.

Passamos décadas discutindo se o futuro seria mainframe, Unix, x86, cloud, Kubernetes ou IA.

E esquecemos que todos eles pertencem à mesma arquitetura fundamental:

//UNIVERSE JOB

//STEP01 EXEC PGM=COMPUTE

//POWER   DD *
          ELECTRICITY
/*

Sem POWER:

IEF450I
UNIVERSE - ABEND=S0WATT

E se isso acontecer...

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Pegue sua toalha.

Pegue seu café.

E, antes de pedir mais 10.000 GPUs,

pergunte ao pessoal do Facilities.

Fim do café — e lembre-se: 42 continua sendo uma excelente resposta, desde que o disjuntor aguente.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

24 Horas em 2007: Jack Bauer, COBOL e o Dia em que a IBM Descobriu que o Próximo Terrorista do Data Center Era a Conta de Luz

 

Bellacosa Mainframe e a ibm 2007 apresenta o big green

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

24 Horas em 2007: Jack Bauer, COBOL e o Dia em que a IBM Descobriu que o Próximo Terrorista do Data Center Era a Conta de Luz

🌱 Project Big Green, System z, z/VM, Linux, Java, SOA, VMware, Windows Vista, Oracle, software corporativo, o fantasma do Y2K e uma viagem ao ano em que todo mundo dizia que COBOL estava morrendo — enquanto a IBM preparava 3.900 servidores para entrar em aproximadamente 30 mainframes


THE FOLLOWING TAKES PLACE
BETWEEN 00:00 AND 24:00

ON MAY 10, 2007.

EVENTS OCCUR IN REAL TIME.

00:00:01

TIC.

00:00:02

TIC.

00:00:03

TIC.

Jack Bauer entra correndo no data center.

— Onde está a bomba?

O operador aponta para uma fileira interminável de racks.

— Não temos bomba, senhor Bauer.

— Então por que me chamaram?

— Temos 4.000 servidores.

Jack observa as máquinas.

— E?

— A maioria passa boa parte do tempo subutilizada.

— Continue.

— Todos consomem eletricidade.

— Continue.

— Produzem calor.

— Continue.

— Então usamos mais eletricidade para retirar o calor produzido pela eletricidade que usamos para alimentar os computadores.

Jack permanece imóvel durante cinco segundos.

Isso, em 24 Horas, equivale a uma tese de doutorado.

— Meu Deus.

Do fundo da sala surge um senhor usando crachá da IBM.

— Exatamente.

E naquele 10 de maio de 2007, a IBM anunciou oficialmente o Project Big Green: uma iniciativa de cerca de US$ 1 bilhão por ano em tecnologias e serviços voltados à eficiência energética dos data centers.

O que parecia uma campanha ecológica era, na realidade, resposta a um problema econômico e físico que começava a aterrorizar CIOs:

os data centers estavam ficando sem energia, refrigeração e espaço para continuar colocando servidores.

E o mais extraordinário é perceber que a história aconteceu 19 anos antes de começarmos a discutir clusters de IA em megawatts.

Mas, para entender por que Big Green causou tanto barulho, precisamos voltar ao mundo tecnológico de 2007.

E ele era muito diferente do nosso.


01:00 — IBM não estava morrendo. Muito pelo contrário.

Existe uma tentação histórica de imaginar a IBM dos anos 2000 como uma companhia envelhecida tentando desesperadamente salvar o mainframe.

Os números contam outra história.

A IBM havia acabado de executar uma transformação empresarial gigantesca. Em 2005 concluíra a venda de seu negócio de PCs para a Lenovo e estava concentrando capital em negócios considerados de maior valor: software, serviços, middleware, consultoria e infraestrutura empresarial. Essa mudança continuaria sendo destacada pela própria IBM nos relatórios seguintes. (IBM)

A evolução financeira é reveladora:

AnoReceita IBMLucro líquido
2005~US$ 91,1 bilhões~US$ 7,9 bilhões
2006~US$ 91,4 bilhões~US$ 9,5 bilhões
2007~US$ 98,8 bilhões~US$ 10,4 bilhões

Ou seja:

2005 → 2007

RECEITA
US$ 91,1 bi ───────────► US$ 98,8 bi

LUCRO
US$ 7,9 bi ────────────► US$ 10,4 bi

Isso é importante para interpretar Big Green.

Não era:

IBM EM PÂNICO
       ↓
PRECISAMOS INVENTAR
ALGUMA COISA VERDE
PARA SALVAR A EMPRESA

Era muito mais:

IBM LUCRATIVA
       ↓
SERVIÇOS + SOFTWARE
       ↓
VIRTUALIZAÇÃO
       ↓
DATA CENTERS CRESCENDO
       ↓
CLIENTES COM PROBLEMAS DE ENERGIA
       ↓
HUM...
       ↓
ISSO PODE VIRAR NEGÓCIO.

Jack Bauer aprovaria.


02:00 — A IBM de 2007 já não era primordialmente “uma fabricante de computadores”

Isso também é fundamental.

A IBM possuía System z, System p, System i, System x, storage e chips.

Mas o coração econômico da companhia estava se deslocando fortemente para serviços e software.

Naquela IBM encontrávamos marcas como:

WebSphere
Tivoli
Lotus
Rational
DB2 / Information Management

Mais Global Technology Services.

Mais Global Business Services.

Mais outsourcing.

Mais consultoria.

Mais financiamento.

Hardware continuava estratégico, especialmente porque funcionava como âncora de ecossistemas inteiros.

O mainframe talvez fosse o melhor exemplo:

SYSTEM z
   │
   ├── z/OS
   ├── COBOL
   ├── CICS
   ├── IMS
   ├── DB2
   ├── MQ
   ├── RACF
   ├── Tivoli
   ├── serviços
   └── contratos

O valor econômico não estava simplesmente na caixa preta.

Estava no ecossistema ao redor dela.


03:00 — Enquanto isso, o mercado mundial de software parecia um clube muito exclusivo

O software mundial de 2007 já era gigantesco, mas possuía uma concentração impressionante.

Dependendo da metodologia e da definição de “software” usada pelos institutos de pesquisa, os números absolutos variam. Portanto, é perigoso misturar Gartner, IDC e receitas contábeis das empresas como se medissem exatamente o mesmo universo.

Mas a hierarquia geral era bastante clara:

              SOFTWARE 2007

                MICROSOFT
                    │
                   IBM
                    │
                 ORACLE
                    │
                   SAP
                    │
               outros

A Microsoft era uma potência extraordinária. Seu próprio ano fiscal de 2007 terminou com US$ 51,1 bilhões de receita e US$ 14,1 bilhões de lucro líquido. (Microsoft)

Mas “mercado de software” escondia vários mundos.

Desktop

WINDOWS
OFFICE

Microsoft era gigantesca.

Banco de dados

Oracle
IBM DB2
Microsoft SQL Server

ERP

SAP
Oracle

Middleware

IBM WebSphere
BEA WebLogic
Oracle
Microsoft

Gerenciamento

IBM Tivoli
CA
BMC
HP

Desenvolvimento

Java
.NET
C/C++
COBOL
PHP
Perl
Python
Ruby

E aqui aparece uma diferença fundamental em relação a 2026:

SaaS ainda não havia virado o modelo mental dominante do software empresarial.

A licença perpétua + manutenção ainda reinava em enorme parte do mercado.


04:00 — O mundo estava apaixonado por três letras: SOA

Se você entrasse numa conferência corporativa em 2007 e dissesse:

“SOA”

provavelmente alguém lhe ofereceria um emprego.

Service-Oriented Architecture era uma das grandes obsessões da época.

O diagrama típico parecia:

               PORTAL
                  │
              WEB SERVICE
                  │
                  ↓
                 ESB
          ┌───────┼───────┐
          │       │       │
        JAVA    CICS    SAP
          │       │       │
          └───────┼───────┘
                  │
                DATA

REST existia.

Mas no grande enterprise o vocabulário estava repleto de:

SOAP
WSDL
XML
ESB
SOA
Web Services

Para um COBOLzeiro isso significava algo importantíssimo.

A estratégia frequentemente não era:

DELETE COBOL

mas:

        COBOL/CICS
            │
            ↓
       WEB SERVICE
            │
            ↓
            SOA

A modernização começava a significar expor o legado, e não necessariamente eliminá-lo.


05:00 — E Java era o garoto bonito do CPD

Se COBOL era o senhor de terno cinza sentado no fundo da sala, Java era o jovem arquiteto chegando com mochila e UML.

No enterprise:

Java
Java EE
WebSphere
WebLogic
J2EE/Java EE
Spring

estavam por toda parte.

Microsoft respondia com:

.NET
C#
Visual Studio
Windows Server
SQL Server

Linux crescia fortemente no servidor.

Unix ainda tinha enorme relevância:

AIX
Solaris
HP-UX

E x86 multiplicava-se dentro dos data centers.

É justamente aí que nasce nosso problema.


06:00 — SERVER SPRAWL

O administrador instala:

APP A → SERVER A

Depois:

APP B → SERVER B

Depois:

DATABASE → SERVER C

Depois:

WEB → SERVER D

Depois:

TEST → SERVER E

Cinco anos depois:

SERVER001
SERVER002
SERVER003
...
SERVER1847
SERVER1848
SERVER1849

Alguém pergunta:

— Quem usa SERVER0932?

Silêncio.

— Podemos desligá-lo?

Silêncio ainda maior.

Jack Bauer coloca a arma sobre a mesa.

— Vou perguntar novamente.

O problema do server sprawl era extremamente real.

E então VMware apareceu no centro da história.


07:00 — VMware faz o mundo x86 descobrir virtualização

2007 foi um ano espetacular para virtualização.

A VMware já tinha tecnologia madura de virtualização de servidores e tornou-se símbolo de uma transformação gigantesca:

ANTES

APP A → SERVER
APP B → SERVER
APP C → SERVER


DEPOIS

       SERVER
         │
    HYPERVISOR
    ┌────┼────┐
    VM   VM   VM
    │    │    │
   APP  APP  APP

Em 14 de agosto de 2007, a VMware fez seu IPO.

O entusiasmo do mercado foi enorme.

E havia veteranos de mainframe assistindo aquilo com uma expressão curiosa.

— Virtualização?

— Sim!

— Várias máquinas virtuais compartilhando hardware?

— Exatamente!

— Fascinante.

— Isso vai revolucionar a informática!

— Meu caro... sente-se. Precisamos conversar sobre CP/CMS, VM/370 e z/VM.

😄


08:00 — O mainframe tinha uma arma secreta chamada z/VM

Em junho de 2007, z/VM 5.3 tornou-se disponível, trazendo melhorias de escalabilidade em processadores, memória, rede e I/O justamente porque os workloads Linux virtualizados estavam crescendo. (IBM)

O conceito:

             SYSTEM z
                 │
               z/VM
                 │
      ┌──────────┼──────────┐
      │          │          │
    Linux      Linux      Linux
      │          │          │
    APP A      APP B      APP C

IBM olhava para milhares de servidores distribuídos e dizia:

Por que não consolidá-los?

E então o relógio começou a correr.


09:00 — 10 de maio de 2007: PROJECT BIG GREEN

09:00:00

TIC

09:00:01

TIC

IBM anuncia:

PROJECT BIG GREEN.

A proposta envolvia aproximadamente US$ 1 bilhão por ano de recursos dedicados a produtos e serviços de eficiência energética.

Havia centenas de especialistas.

A metodologia envolvia essencialmente:

DIAGNOSE
    ↓
BUILD
    ↓
VIRTUALIZE
    ↓
MANAGE
    ↓
COOL

Não era simplesmente:

“Compre um mainframe porque ele é verde.”

Era uma estratégia de data center.

E isso importa muito.


10:00 — Por que energia virou assunto em 2007?

Porque os números começavam a assustar.

O relatório entregue ao Congresso dos Estados Unidos pela EPA naquele ano estimou que servidores e data centers americanos haviam consumido aproximadamente 61 bilhões de kWh em 2006, cerca de 1,5% do consumo total de eletricidade dos EUA, a um custo aproximado de US$ 4,5 bilhões. O consumo havia aproximadamente dobrado desde 2000. (IBM)

A indústria percebeu:

COMPUTAÇÃO ↑

SERVIDORES ↑

ELETRICIDADE ↑

CALOR ↑

REFRIGERAÇÃO ↑

ELETRICIDADE ↑

E surgiu uma palavra que hoje parece óbvia:

eficiência.


11:00 — O mercado inicialmente enxergou muito marketing

Naturalmente.

Quando IBM disse:

Big Green

a imprensa imediatamente descobriu o irresistível:

Big Blue goes Green.

E houve ironia.

The Register publicou uma manchete maravilhosa:

“IBM: Dinosaurs were green.”

O dinossauro era, naturalmente, o mainframe.

A piada escondia uma mudança narrativa muito inteligente.

Durante anos o ataque ao mainframe era:

GRANDE
CARO
CENTRALIZADO
ANTIGO

IBM começou a responder:

E seus 4.000 servidores são exatamente o quê?

😂

A campanha tentava transformar uma fraqueza de imagem — “uma máquina enorme” — em vantagem:

consolidação.


12:00 — 3.900 servidores entram no CTU

Em 1º de agosto de 2007, IBM fez algo fundamental.

Não ficou apenas no PowerPoint.

Anunciou que consolidaria aproximadamente:

3.900 servidores

em cerca de:

30 System z

rodando Linux. O objetivo declarado era reduzir o consumo energético daquele ambiente em aproximadamente 80% ao longo de cinco anos. (IBM)

A imprensa percebeu imediatamente o tamanho da história.

O desenho era quase absurdo:

██████████████████████████████████████
          3.900 SERVIDORES
██████████████████████████████████████

                   │
                   │
                   ▼

       ███████████████████
       ~30 SYSTEM z
       ███████████████████

A cobertura contemporânea mencionava também economia prevista de centenas de milhões de dólares e redução enorme do espaço físico.

Aquilo transformou Big Green de slogan em case interno da própria IBM.


13:00 — Isso fez explodir as vendas de mainframe imediatamente?

Não.

E essa nuance é importantíssima.

2007 estava no final do ciclo tecnológico do System z9.

O z9 Enterprise Class havia aparecido em 2005.

O próximo grande salto — System z10 — chegaria em fevereiro de 2008.

Portanto, não devemos olhar Big Green e concluir:

BIG GREEN
    ↓
VENDAS SYSTEM z EXPLODEM

Hardware enterprise possui ciclos.

Clientes aguardam novas gerações.

Capacidade instalada cresce mesmo quando receita de hardware não acompanha linearmente.

E mainframe possui outra peculiaridade:

HARDWARE
    │
    ├── SOFTWARE
    ├── LICENCIAMENTO
    ├── MANUTENÇÃO
    ├── SERVIÇOS
    └── CAPACIDADE

O valor para IBM nunca esteve simplesmente na venda da caixa.


14:00 — E o COBOL? Ah, o pobre COBOL...

Agora chegamos à parte culturalmente deliciosa.

Era 2007.

Sete anos depois do Y2K.

Durante o período 1997–1999, COBOLzeiro tinha virado quase uma unidade monetária.

PRECISAMOS CORRIGIR DATAS.

CHAMEM COBOLZEIROS.

QUANTOS?

TODOS.

Então chegou:

01/01/2000

O mundo não explodiu.

Parabéns.

O prêmio recebido pelo COBOL foi aproximadamente:

“Obrigado. Agora você pode voltar para o porão.”

😂


15:00 — O paradoxo pós-Y2K

A percepção popular era:

COBOL
 =
LINGUAGEM VELHA
 =
LEGADO
 =
MANUTENÇÃO
 =
MORTE EVENTUAL

Nas universidades, Java, C++, .NET e linguagens Web eram muito mais atraentes.

O estudante perguntava:

— Qual linguagem devo aprender?

Resposta típica:

Java
C++
C#
PHP

Dificilmente:

COBOL + JCL + CICS + DB2 + VSAM

Mas havia um problema.

Os sistemas não receberam o memorando sobre a morte do COBOL.


16:00 — Enquanto todo mundo declarava COBOL morto...

Dentro dos bancos:

COBOL → PROCESSANDO

Seguradoras:

COBOL → PROCESSANDO

Governos:

COBOL → PROCESSANDO

Varejo:

COBOL → PROCESSANDO

Grandes empresas:

COBOL → PROCESSANDO

A diferença fundamental era:

COBOL tinha deixado de ser tecnologicamente “sexy”.

Isso não significava que tivesse deixado de ser economicamente relevante.

E essa distinção continua sendo crucial.


17:00 — A IBM também não estava abandonando COBOL

Esse detalhe destrói a narrativa de “linguagem congelada”.

Naquele período a IBM continuava evoluindo Enterprise COBOL e todo o ecossistema ao redor do mainframe.

O mundo mainframe de 2007 incluía tecnologias contemporâneas como:

Enterprise COBOL
CICS Transaction Server
DB2
IMS
MQ
WebSphere
XML
Web Services
Java
Linux
Rational

O objetivo era integrar.

Um programa COBOL poderia continuar fazendo:

       READ CONTA
       COMPUTE SALDO = SALDO - VALOR
       REWRITE CONTA.

enquanto externamente alguém enxergava:

SOAP
   │
WSDL
   │
XML
   │
SERVICE

O legado estava ganhando uma porta nova.


18:00 — O problema real não era COBOL. Era conhecimento

Começava a ficar evidente outro problema.

Quem conhecia:

COBOL
JCL
CICS
DB2
IMS
VSAM
RACF
TSO
ISPF

tinha frequentemente começado décadas antes.

E as universidades estavam formando principalmente:

Java
C++
.NET
Web

Nascia o problema que nos acompanharia por décadas:

mainframe skills gap.

O perigo não era simplesmente:

“Ninguém sabe escrever PERFORM.”

Era:

“Quem sabe por que aquele programa de 1987 faz exatamente aquilo às 02h13 do terceiro dia útil?”

Essa informação não está no manual de COBOL.

Está no conhecimento institucional.


19:00 — O COBOL estava morto e recebendo versão nova

Existe algo deliciosamente mainframe nisso.

A indústria:

COBOL está morto.

IBM:

ENTERPRISE COBOL
NEW VERSION

Indústria:

Mainframe está morto.

IBM:

SYSTEM z

Indústria:

Virtualização é o futuro.

IBM:

z/VM

Indústria:

Linux é o futuro.

IBM:

LINUX ON SYSTEM z

Indústria:

SOA é o futuro.

IBM:

CICS WEB SERVICES

O mainframe desenvolveu uma extraordinária habilidade histórica:

deixar os outros anunciarem sua morte enquanto instala a próxima release.


20:00 — Enquanto isso, fora do CPD, 2007 enlouquecia

Esse talvez seja o detalhe mais divertido.

Em janeiro, a Microsoft lançou Windows Vista e Office 2007 para consumidores mundialmente. (Source)

E também em janeiro, Steve Jobs apresentou algo chamado:

iPhone.

A Apple descreveu-o como combinação de telefone, iPod e dispositivo de Internet. (Apple)

Não existia App Store ainda.

Kubernetes?

Não.

Docker?

Não.

ChatGPT?

Não.

Instagram?

Não.

WhatsApp?

Não.

TikTok?

Nem pensar.

Windows Azure?

Ainda não.

Mas existiam:

BlackBerry
Nokia
Symbian
Windows Mobile

E o iPhone estava prestes a destruir boa parte desse universo.


21:00 — E a cloud era apenas uma criança

AWS já existia.

S3 havia aparecido em 2006.

EC2 também havia iniciado sua história.

Mas em 2007 ninguém em uma grande reunião bancária normal dizia:

“Vamos desligar o mainframe e colocar o core inteiro na AWS.”

Seria provavelmente acompanhado educadamente até a porta.

😂

Cloud computing ainda estava emergindo.

O próprio IBM responderia naquele ano.

Em novembro de 2007 apareceu:

Blue Cloud.

Observe a sequência histórica:

MAIO 2007
BIG GREEN
     │
     ↓
ENERGY + CONSOLIDATION


NOVEMBRO 2007
BLUE CLOUD
     │
     ↓
VIRTUALIZATION + AUTOMATION
+ DISTRIBUTED COMPUTING

Em poucos meses IBM estava discutindo simultaneamente eficiência física do data center e o embrião daquilo que viraria cloud computing.

Isso é extraordinariamente importante em retrospecto.


22:00 — 2007 foi o ano em que várias placas tectônicas começaram a se mover

Olhe esta fotografia:

Área2007
DesktopWindows dominava
Enterprise developmentJava/.NET
IntegraçãoSOA, SOAP, XML, WSDL
MainframeIBM System z9
Virtualização x86VMware
Mainframe virtualizationz/VM
UnixAIX, Solaris, HP-UX
Linuxcrescimento empresarial
DatabaseOracle, DB2, SQL Server
ERPSAP/Oracle
Cloudembrionária
MobileBlackBerry/Nokia, iPhone chegando
Containersinexistentes no sentido atual
Kubernetesinexistente
DevOpstermo ainda não estabelecido
IA generativaficção científica para o mercado
COBOL“morto”, porém trabalhando normalmente

É isso que torna Big Green tão fascinante.

Ele não nasceu no nosso mundo.

Nasceu antes do nosso mundo.


23:00 — O verdadeiro significado de Big Green aparece

Imagine Jack Bauer olhando dois monitores.

No primeiro:

2007

SERVER SPRAWL
       ↓
POWER
       ↓
COOLING
       ↓
COST

No segundo:

2026

CLOUD
       ↓
GPU
       ↓
AI
       ↓
MEGAWATTS
       ↓
GRID CAPACITY

Jack pergunta:

— Qual é a diferença?

O sysprog responde:

— Escala.

— Só isso?

— Basicamente.

Big Green identificou corretamente uma verdade física:

a capacidade computacional pode crescer mais rapidamente do que a infraestrutura física capaz de alimentá-la e refrigerá-la.

O que IBM não poderia prever completamente era como o mercado resolveria o problema.

A IBM apostava fortemente em:

CONSOLIDAÇÃO
       ↓
VIRTUALIZAÇÃO
       ↓
SYSTEM z / Linux

O mercado também escolheu:

VMWARE
       ↓
x86 VIRTUALIZATION
       ↓
HYPERSCALE
       ↓
PUBLIC CLOUD

E posteriormente:

CONTAINERS
       ↓
KUBERNETES
       ↓
CLOUD-NATIVE

A tese física sobreviveu.

A implementação vencedora tornou-se plural.


23:30 — Então Big Green fracassou?

Não.

Mas também seria exagero dizer que Big Green fez o mercado inteiro correr para System z.

O impacto foi mais sofisticado.

Ele ajudou a legitimar energia como métrica de TI.

Antes:

CAPACITY PLANNING

CPU
MEMORY
DISK
I/O

Depois:

CAPACITY PLANNING

CPU
MEMORY
DISK
I/O

+ POWER
+ COOLING
+ SPACE

O setor inteiro caminhava nessa direção.

Virtualização crescia.

A Green Grid trabalhava em métricas para eficiência de data centers.

Performance-per-watt ganhava importância.

A indústria começou a perceber que:

energia não era apenas despesa de Facilities. Era recurso computacional.

Esse talvez seja o maior legado conceitual do Big Green.


23:45 — E havia um componente comercial brilhante

Imagine você como CIO em 2007.

Problema:

MEU DATA CENTER ESTÁ LOTADO.

IBM:

— Podemos ajudar.

Problema:

MINHA CONTA DE ENERGIA SUBIU.

IBM:

— Podemos ajudar.

Problema:

TENHO 2.000 SERVIDORES.

IBM:

— Podemos ajudar.

Problema:

PRECISO VIRTUALIZAR.

IBM:

— Temos feito isso há algumas décadas.

Problema:

QUERO LINUX.

IBM:

— Também temos.

Problema:

NÃO QUERO COBOL.

IBM:

— Quem falou em COBOL?

E aí estava a genialidade comercial:

Big Green não vendia apenas mainframe.

Vendia:

CONSULTORIA
+
HARDWARE
+
SOFTWARE
+
VIRTUALIZAÇÃO
+
STORAGE
+
ENERGY MANAGEMENT
+
DATA CENTER DESIGN
+
SERVIÇOS

Era perfeitamente alinhado à IBM pós-PC.


23:50 — E o mercado de software também estava consolidando violentamente

Outro detalhe ajuda a entender o espírito de 2007.

As gigantes estavam comprando empresas.

Oracle comprava.

SAP comprava.

IBM comprava.

Em novembro de 2007, IBM anunciou a aquisição da Cognos por aproximadamente US$ 5 bilhões, reforçando sua posição em business intelligence e performance management.

O movimento geral era:

SOFTWARE ISOLADO
       ↓
SUITE
       ↓
PLATAFORMA
       ↓
ECOSSISTEMA

Esse processo ajuda a explicar por que IBM queria ser menos:

VENDEDOR DE HARDWARE

e mais:

FORNECEDOR DA PLATAFORMA
EMPRESARIAL COMPLETA

Big Green encaixava perfeitamente nisso.


23:55 — A ironia COBOL

Jack Bauer recebe finalmente o relatório.

SUBJECT:

COBOL

STATUS:

DEAD

Ele olha para Chloe O'Brian.

— Confirme.

Chloe digita.

BANKS .............. RUNNING
INSURANCE .......... RUNNING
GOVERNMENT ......... RUNNING
RETAIL ............. RUNNING
CICS ................ RUNNING
DB2 ................. RUNNING
BATCH ............... RUNNING

Jack olha novamente.

— O relatório diz que está morto.

Chloe:

— A imprensa diz.

— E a produção?

— A produção discorda.

😂

Essa talvez seja a fotografia perfeita de COBOL em 2007.


23:57 — O erro histórico pós-Y2K

Y2K criou uma percepção distorcida.

Durante alguns anos:

COBOL = PROBLEMA DO ANO 2000

Quando Y2K acabou:

PROBLEMA ACABOU
       ↓
COBOL ACABOU

Mas COBOL nunca existiu por causa do Y2K.

Existia porque empresas tinham milhões de linhas implementando:

contabilidade
pagamentos
seguros
folha
crédito
estoque
faturamento
liquidação
cadastro
transações

Y2K era apenas uma manutenção extraordinariamente grande sobre esse patrimônio.

Quando o problema de data terminou, o patrimônio permaneceu.


23:58 — E isso explica por que Big Green e COBOL pertencem à mesma história

À primeira vista:

BIG GREEN

parece assunto de hardware.

E:

COBOL

parece assunto de software.

Mas ambos tratam da mesma pergunta empresarial:

O que fazemos com décadas de infraestrutura que ainda produz enorme valor?

Uma resposta possível:

REWRITE EVERYTHING

Outra:

USE WHAT WORKS
MORE EFFICIENTLY

Big Green estava muito mais próximo da segunda filosofia.

Consolidar.

Virtualizar.

Integrar.

Modernizar.

Reutilizar.


23:59 — Jack Bauer descobre quem era o terrorista

Jack entra no data center.

O suspeito está numa cadeira.

Ele não é russo.

Não é chinês.

Não trabalha para nenhuma organização clandestina.

É um senhor pacato usando camisa social.

Na identificação:

FACILITIES

Jack coloca as mãos sobre a mesa.

— Onde está a bomba?

— Não existe bomba.

— Então por que o data center vai cair à meia-noite?

O homem aponta para um painel.

POWER CAPACITY

███████████████████░

97%

Jack fica em silêncio.

— O que acontece quando chegar a 100%?

— Não podemos instalar mais servidores.

— Quantos servidores a aplicação pediu?

— Mais 400.

— E quanto tempo temos?

O relógio aparece.

00:00:10

TIC.

00:00:09

TIC.

Jack pega o telefone.

— Chloe!

— Estou aqui.

— Preciso de capacidade.

— Quanto?

— Muita.

— Não temos.

— Então virtualize.

— Já estamos virtualizando.

00:00:05

— Consolide.

— Em quê?

Jack olha para uma máquina preta no fundo da sala.

IBM SYSTEM z

O sysprog toma café.

— Finalmente.

00:00:03

Jack:

— Quantas máquinas virtuais cabem aí?

O sysprog:

— Quantas você trouxe?

00:00:02

Chloe interrompe.

— Jack!

— O quê?

— Descobri uma coisa.

00:00:01

— O quê?!

A cloud ainda nem chegou direito.

00:00:00

Tela preta.


☕ Epílogo — O que realmente foi 2007?

2007 foi um daqueles anos em que o futuro estava chegando por várias portas simultaneamente.

O consumidor via:

iPhone, Vista, Web 2.0.

O desenvolvedor via:

Java, .NET, Eclipse, PHP, Ruby.

O arquiteto corporativo via:

SOA, SOAP, XML, WebSphere, WebLogic.

O administrador via:

VMware, Linux, blades, SAN.

O mainframe via:

System z, z/VM, Linux, CICS, DB2, IMS, COBOL.

O CIO começava a enxergar:

energia.

E a IBM enxergou uma oportunidade de unir várias dessas histórias sob um nome:

PROJECT BIG GREEN.

O projeto não provou que todo servidor distribuído deveria virar mainframe. O mercado mostrou que VMware, x86, hyperscale e posteriormente cloud também podiam explorar consolidação e virtualização em enorme escala.

Mas Big Green acertou uma previsão extraordinariamente importante:

o crescimento da computação acabaria esbarrando na infraestrutura física necessária para sustentá-la.

Em 2007 falávamos de watts por servidor.

Hoje falamos de megawatts por data center.

Em 2007 IBM perguntava:

Quantos servidores
podemos consolidar?

Em 2026 perguntamos:

Quantas GPUs
podemos energizar?

E COBOL?

O pobre COBOL passou 2007 oficialmente morto.

Só esqueceu de parar de processar.

Talvez essa seja a grande piada histórica daquele ano.

A indústria olhava para o System z e dizia:

“Dinossauro.”

Olhava para COBOL e dizia:

“Legado.”

Olhava para milhares de pequenos servidores e dizia:

“Futuro.”

Então a conta de luz chegou.

A IBM abriu uma pasta verde.

O veterano do z/VM tomou um café.

E alguém no fundo do data center perguntou:

“Vocês têm certeza de que precisamos de uma máquina física para cada aplicação?”

TIC.

TIC.

TIC.

Dezenove anos depois, o relógio continua correndo.

Só trocamos:

SERVER SPRAWL

por:

GPU CLUSTER

e:

WATTS

por:

MEGAWATTS.

Jack Bauer ainda tem 24 horas.

O pessoal de Facilities, aparentemente, tem bem menos. ☕⚡

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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