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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Big Green 2007: o Dia em que a IBM Avisou que o Data Center Ficaria sem Tomada — e Ninguém Imaginava que 19 Anos Depois Chegariam as GPUs

 

Bellacosa Mainframe e o legado do projeto Big Green de 2007

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Big Green 2007: o Dia em que a IBM Avisou que o Data Center Ficaria sem Tomada — e Ninguém Imaginava que 19 Anos Depois Chegariam as GPUs

🌱 z/VM, consolidação, Linux on System z, Project Big Green, LinuxONE, z17, IA, watts, megawatts e a perturbadora descoberta de que a resposta para a vida, o universo e tudo mais talvez continue sendo 42 — mas alguém precisa descobrir quantos kWh são necessários para calculá-la


NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Essa é provavelmente a primeira recomendação que deveria estar impressa em letras grandes e amigáveis na porta de qualquer data center moderno.

A segunda seria:

TRAGA UMA TOALHA.

A terceira, acrescentada pelo administrador do CPD:

E NÃO LIGUE MAIS NENHUM SERVIDOR SEM FALAR COM O ELETRICISTA.

Estamos em 2007.

O iPhone original acaba de aparecer.

Kubernetes não existe.

Docker não existe.

ChatGPT não existe.

Ninguém está perguntando ao computador se deve terminar o namoro.

Uma GPU ainda é, para a maioria das pessoas, aquela coisa que faz Crysis ficar bonito.

E, em algum escritório da IBM, alguém olha para milhares de servidores espalhados por data centers e percebe algo preocupante:

SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER

        ↓

       ⚡⚡⚡

A IBM então faz aquilo que empresas de tecnologia costumam fazer quando descobrem que existe um problema enorme:

dá um nome para ele.

Em 10 de maio de 2007, nasce o:

PROJECT BIG GREEN

A IBM anunciou uma iniciativa de US$ 1 bilhão por ano em tecnologias e serviços voltados a melhorar a eficiência energética dos data centers. O projeto incluía uma equipe mundial de centenas de especialistas e atacava servidores, armazenamento, refrigeração, virtualização, gerenciamento e instalações. (IBM)

O detalhe delicioso?

Dezenove anos depois estamos discutindo exatamente o mesmo problema.

Só que agora alguém estacionou um caminhão cheio de GPUs na porta.


🌌 Capítulo I — No princípio havia o mainframe

Muito antes de alguém inventar:

VMware
Docker
Kubernetes
Cloud

o mainframe já tinha descoberto uma coisa fundamental:

computador parado é computador caro.

Imagine uma máquina física utilizada por uma única aplicação:

┌────────────────────┐
│      SERVIDOR      │
│                    │
│ CPU ███░░░░░░░ 30% │
│                    │
└────────────────────┘

Setenta por cento da capacidade pode permanecer ociosa durante boa parte do tempo.

Agora multiplique:

SERVER A → 15%
SERVER B → 20%
SERVER C → 8%
SERVER D → 12%
SERVER E → 27%
SERVER F → 6%

Todos ligados.

Todos consumindo energia.

Todos ocupando rack.

Todos precisando de refrigeração.

Todos possuindo componentes.

Todos precisando ser administrados.

O mainframe desenvolveu outra filosofia:

             MAINFRAME
                 │
        ┌────────┼────────┐
        │        │        │
       VM       VM       VM
        │        │        │
      Linux    Linux    Linux
        │        │        │
      APP A    APP B    APP C

Compartilhe o monstro.


🧙 Capítulo II — z/VM, o ancestral que ninguém convidou para a festa da virtualização

Quando a indústria começou a descobrir entusiasmada a virtualização de servidores x86, havia veteranos de mainframe olhando aquilo com a mesma expressão de um elfo de 4.000 anos vendo humanos descobrirem cerveja.

— Virtualização!

— Fascinante.

— Podemos executar várias máquinas virtuais numa máquina física!

— Sim.

— Isso é revolucionário!

— Naturalmente.

— Você não parece impressionado.

— Meu avô fazia isso.

A linhagem do VM da IBM remonta aos sistemas CP/CMS dos anos 1960 e posteriormente VM/370.

Décadas depois chegamos ao z/VM.

E o conceito fundamental continuava extraordinariamente atual:

HARDWARE
   │
 z/VM
   │
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   └── Linux

Em vez de possuir cem máquinas físicas para cem workloads, você poderia consolidar muitos deles.

Essa palavra — consolidação — será importantíssima para nossa história.

Porque o problema energético não é simplesmente:

Quanto uma CPU consome?

É também:

Quantas CPUs, fontes, placas-mãe, discos, interfaces, switches e ventiladores preciso manter ligados para entregar determinada quantidade de trabalho útil?


🐋 Capítulo III — Surge a epidemia do servidor pequeno

Nos anos 1990 e 2000, servidores Unix e depois x86 se multiplicaram.

Havia uma lógica perfeitamente razoável.

Uma aplicação?

Servidor.

Outra aplicação?

Outro servidor.

Banco?

Servidor.

Web?

Servidor.

E-mail?

Servidor.

Aplicação do departamento que ninguém sabe mais quem usa?

Naturalmente:

servidor.

Logo:

             DATA CENTER

 APP1 → SERVER
 APP2 → SERVER
 APP3 → SERVER
 APP4 → SERVER
 APP5 → SERVER
 APP6 → SERVER
 APP7 → SERVER
 APP8 → SERVER
 ...

Nasceu o famoso:

server sprawl.

O problema não era apenas comprar servidores.

Era alimentá-los.

Refrigerá-los.

Conectá-los.

Atualizá-los.

Monitorá-los.

Administrá-los.

E encontrar espaço físico para colocar todos.

Então alguém da IBM provavelmente contemplou aquilo e pensou:

Vocês passaram vinte anos fugindo de computadores grandes e agora construíram um computador grande utilizando cinco mil computadores pequenos.


🌱 Capítulo IV — 10 de maio de 2007: Big Green

Chegamos ao nosso momento histórico.

A IBM anuncia o Project Big Green.

O problema identificado era essencialmente:

CRESCIMENTO DA COMPUTAÇÃO
          ↓
MAIS SERVIDORES
          ↓
MAIS ELETRICIDADE
          ↓
MAIS CALOR
          ↓
MAIS REFRIGERAÇÃO
          ↓
MAIS ELETRICIDADE

Observe a perversidade.

Energia alimenta o computador.

O computador produz calor.

Você então utiliza mais energia...

para retirar o calor produzido pela primeira energia.

Douglas Adams provavelmente teria apreciado isso.

A solução Big Green não era simplesmente:

COMPRE MAINFRAME.

Era mais abrangente.

Envolvia:

            BIG GREEN
                │
 ┌──────────────┼──────────────┐
 │              │              │
COMPUTE       STORAGE       FACILITIES
 │              │              │
virtualização gerenciamento refrigeração
 │              │              │
consolidação   dados         energia

O projeto pretendia olhar para o data center como sistema.

Essa diferença é importante.


🐧 Capítulo V — 3.900 servidores entram num bar...

E apenas aproximadamente 30 mainframes saem.

Não é piada.

Em 1º de agosto de 2007, a IBM anunciou um dos experimentos mais espetaculares dessa estratégia:

consolidar aproximadamente 3.900 servidores em cerca de 30 System z.

A empresa estabeleceu como objetivo uma redução de aproximadamente 80% no consumo energético relacionado àquele ambiente ao longo de cinco anos. (IBM)

A arquitetura conceitual era:

ANTES

Unix  Unix  x86  Unix  x86
 x86  Unix  x86  x86  Unix
 x86  x86   x86  Unix x86
 ...
      ~3.900 servidores


              ↓


DEPOIS

        ~30 SYSTEM z
              │
            z/VM
              │
      Linux Linux Linux
      Linux Linux Linux
      Linux Linux Linux

Não estavam colocando 3.900 aplicações dentro de uma gigantesca imagem z/OS.

A estrela aqui era:

Linux on System z.

Isso é essencial para entender o restante da história.


🐧 Capítulo VI — “Mas mainframe não roda só COBOL?”

Não.

E aqui mora um dos mal-entendidos mais persistentes sobre IBM Z.

Você pode ter:

IBM Z
 │
 ├── z/OS
 │    ├── COBOL
 │    ├── CICS
 │    ├── Db2
 │    └── IMS
 │
 └── Linux
      ├── Java
      ├── databases
      ├── middleware
      └── aplicações open source

Portanto, a proposta Big Green podia dizer ao cliente:

Não precisa reescrever seu servidor Linux em COBOL.

O COBOLzeiro no fundo da sala:

— Pena.

O arquiteto:

— Não ajude.

Você poderia mover workloads Linux para uma plataforma altamente consolidada.

E z/VM funcionava como peça fundamental dessa equação.


⛽ Capítulo VII — O mainframe ganha marcador de combustível

Em outubro de 2007, IBM avançou ainda mais na conversa sobre energia com aquilo que ficou conhecido como:

Mainframe Gas Gauge.

A ideia era fantástica em sua simplicidade.

Se energia virou recurso de data center, precisamos medi-la como recurso operacional.

Pense:

        PAINEL DO MAINFRAME

CPU      ███████░░░ 70%

MEMORY   ██████░░░░ 60%

I/O      █████░░░░░ 50%

POWER    ███████░░░ 70%

Isso representa uma mudança conceitual enorme.

O capacity planner tradicionalmente perguntava:

Quantos MIPS?

Quantos MSUs?

Quanto DASD?

Quanto storage?

Quanto CPU?

Agora precisava acrescentar:

Quantos WATTS?

E essa pequena pergunta de 2007 acabaria virando uma pergunta monstruosa em 2026:

QUANTOS MEGAWATTS?

🪐 Capítulo VIII — Enquanto isso, nasce outra criatura: cloud

Agora nossa história sofre uma reviravolta digna do Restaurante no Fim do Universo.

IBM tinha diagnosticado corretamente:

SERVIDORES SUBUTILIZADOS
        =
DESPERDÍCIO

Mas o mercado encontrou outra solução.

Em vez de:

MEUS 5.000 SERVIDORES
        ↓
      IBM Z

surgiu:

MEUS 5.000 SERVIDORES
        ↓
 NÃO SÃO MAIS MEUS
        ↓
      CLOUD

Genial.

O servidor desapareceu!

Exceto...

não desapareceu.

Mudou de endereço.

EMPRESA

 servidor servidor servidor

          ↓ CLOUD

HYPERSCALER

 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor

A cloud pegou vários princípios economicamente semelhantes:

consolidação, virtualização, compartilhamento, automação e melhor utilização da infraestrutura.

Só os aplicou numa escala completamente diferente.


☁️ Capítulo IX — Someone Else's Computer

A famosa piada diz:

The cloud is just someone else's computer.

É uma simplificação, mas contém uma verdade física maravilhosa.

Quando você executa:

CREATE INSTANCE

não ocorre:

☁️
✨
COMPUTADOR
✨

Em algum lugar existe:

DATA CENTER
    │
   RACK
    │
 SERVER
    │
 CPU
 RAM
 NIC
 SSD
    │
    ⚡

A cloud tornou capacidade programável.

Não tornou capacidade infinita.

Essa distinção nos traz diretamente de volta ao Big Green.


🐧 Capítulo X — 2015: LinuxONE aparece

Agora avance oito anos.

17 de agosto de 2015.

A IBM lança oficialmente:

LinuxONE

Os dois nomes originais eram deliciosamente grandiosos:

LinuxONE Emperor

LinuxONE Rockhopper

O Emperor era destinado a grandes organizações; o Rockhopper, a configurações menores. A IBM dizia que o Emperor poderia escalar para milhares de máquinas virtuais ou containers e destacava compatibilidade com software aberto. (Investing.com)

A mensagem era clara.

Você diz:

— Quero Linux.

IBM:

— Certo.

— Open source.

— Certo.

— PostgreSQL.

— Certo.

— Containers.

— Certo.

— Então não quero mainframe.

IBM:

— Temos uma surpresa sobre a caixa onde tudo isso está rodando.

😄


🌱 Capítulo XI — Big Green não morreu; sofreu um RENAME

Esta é minha interpretação histórica favorita.

Não existe uma linha simples:

PROJECT BIG GREEN
        ↓
     SUCESSO

nem:

PROJECT BIG GREEN
        ↓
     FRACASSO

O que aconteceu foi mais interessante.

O branding Big Green desapareceu gradualmente.

Mas seus princípios foram absorvidos.

              BIG GREEN
                  │
                  ↓
           CONSOLIDAÇÃO
                  │
                  ↓
          LINUX ON SYSTEM z
                  │
                  ↓
              LinuxONE
                  │
                  ↓
            HYBRID CLOUD
                  │
                  ↓
          IBM Z + LinuxONE
                  │
                  ↓
                 IA

A campanha morreu.

A pergunta permaneceu:

Quanto trabalho útil conseguimos realizar utilizando determinada quantidade de infraestrutura?


🧮 Capítulo XII — O erro de medir apenas preço por servidor

Imagine:

Arquitetura A

1.000 servidores baratos

Arquitetura B

10 máquinas extremamente caras

Perguntar:

Qual servidor é mais barato?

é quase inútil.

Precisamos calcular:

CUSTO TOTAL
────────────
TRANSAÇÕES

E também:

TRANSAÇÕES / WATT

TRANSAÇÕES / RACK

TRANSAÇÕES / m²

TRANSAÇÕES / ADMINISTRADOR

Além de:

software
licenciamento
networking
storage
backup
energia
refrigeração
operações
downtime
segurança

É o famoso:

TCO — Total Cost of Ownership.

O servidor barato pode gerar arquitetura cara.

O servidor caro pode gerar arquitetura barata.

Ou vice-versa.

A resposta correta da engenharia é aquela frase profundamente irritante:

Depende.


🤖 Capítulo XIII — Então chegou a IA

E agora nossa história enlouquece.

Durante anos, Big Green estava preocupado com:

CPU
CPU
CPU
CPU

Então chegaram os aceleradores.

GPU GPU GPU GPU
GPU GPU GPU GPU
GPU GPU GPU GPU

Modelos modernos de IA podem exigir enormes clusters de aceleradores para treinamento. A própria infraestrutura de desenvolvimento de IA generativa da IBM descreve cenários nos quais milhares de GPUs precisam cooperar em um único treinamento. (arXiv)

De repente:

WATTS
  ↓
kW
  ↓
MW
  ↓
GW?

E alguém na sala diz:

— Precisamos escalar o cluster.

O eletricista pergunta:

— Quanto?

O cientista de dados responde:

— Muito.

— Isso não é unidade.

— Então... absurdamente muito.


⚡ Capítulo XIV — O último megawatt

Agora ligamos este artigo à nossa investigação anterior sobre data centers brasileiros.

O limite computacional moderno começa a envolver:

CPU
GPU
RAM
STORAGE
NETWORK
    │
    ↓
POWER
    │
    ↓
COOLING
    │
    ↓
SUBSTATION
    │
    ↓
TRANSMISSION
    │
    ↓
GENERATION

Eis o detalhe quase filosófico:

quanto mais abstrata ficou a computação...

mais importante voltou a ficar a infraestrutura física.

SERVER
   ↓
VM
   ↓
CONTAINER
   ↓
KUBERNETES
   ↓
CLOUD
   ↓
AI
   ↓
...
   ↓
USINA ELÉTRICA

Parabéns.

Depois de cinquenta anos subindo camadas de abstração, encontramos a tomada.


🧠 Capítulo XV — 8 de abril de 2025: z17 encontra a IA

Agora chegamos ao IBM z17.

A IBM anunciou o sistema em 8 de abril de 2025, descrevendo-o como seu primeiro mainframe inteiramente projetado para a era da IA.

No coração está o:

Telum II.

Acelerador de IA integrado ao processador.

A IBM afirma, para uma configuração e modelo de referência específicos, capacidade superior a 450 bilhões de operações de inferência em um dia, com resposta de aproximadamente 1 ms. O z17 foi anunciado com 50% mais capacidade diária de inferência de IA que o z16. (IBM Brasil Newsroom)

Anúncio oficial do IBM z17 — 8 de abril de 2025

Isso representa uma estratégia muito interessante.

Em vez de:

TRANSAÇÃO
    │
    ↓
MAINFRAME
    │
    ↓
NETWORK
    │
    ↓
GPU FARM
    │
    ↓
AI
    │
    ↓
NETWORK
    │
    ↓
MAINFRAME

certos modelos de inferência podem operar muito próximos da própria transação:

TRANSAÇÃO
    │
    ├── BUSINESS LOGIC
    │
    └── AI INFERENCE
            │
            ↓
         DECISION

Fraude é um exemplo perfeito.


💳 Capítulo XVI — IA perto do dinheiro

Imagine uma compra:

R$ 7.850
03:17
local incomum
dispositivo novo
comportamento estranho

O sistema tradicional pode executar regras:

IF VALOR > LIMITE
   PERFORM ANALISE-FRAUDE
END-IF.

Agora podemos adicionar modelos:

TRANSACTION
     │
     ↓
AI MODEL
     │
     ├── normal → APPROVE
     │
     └── anomalous → REVIEW/BLOCK

Quanto menor a latência entre:

TRANSAÇÃO

e:

INFERÊNCIA

melhor.

Portanto, IA no mainframe não significa necessariamente:

treinar o próximo GPT no z/OS.

Esse seria um entendimento errado.

A proposta mais interessante é:

inferência empresarial próxima dos dados e das transações.


🐬 Capítulo XVII — E as GPUs não vão embora

Isso também precisa ficar claro.

z17 não matou GPU.

LinuxONE não matou x86.

Cloud não matou mainframe.

Mainframe não matou cloud.

A arquitetura futura provavelmente será:

                   WORKLOAD

                      │
       ┌──────────────┼──────────────┐
       │              │              │
       ↓              ↓              ↓
     IBM Z          GPU FARM       CLOUD
       │              │              │
transactional AI   training      elastic compute
core banking       huge models   applications
low latency        HPC           analytics

O segredo será:

colocar cada workload onde ele faz mais sentido.


🏗️ Capítulo XVIII — 7 de julho de 2026: o mainframe entra no rack

E chegamos a um acontecimento recentíssimo.

Em 7 de julho de 2026, IBM anunciou novas configurações compactas para z17 e LinuxONE 5, incluindo single-frame e rack-mount em toda a família.

Pela primeira vez, IBM oferece rack mount ao lado das opções tradicionais em todo o portfólio Z/LinuxONE. (IBM Newsroom)

IBM z17 e LinuxONE 5 compactos — anúncio de 7 de julho de 2026

E leia o contexto escolhido pela própria IBM.

O anúncio fala explicitamente sobre organizações enfrentando baixa disponibilidade de espaço em data centers e altos custos por capacidade elétrica. (IBM Newsroom)

É quase possível ouvir um fantasma de 2007 dizendo:

— Big Green.


🌱 Capítulo XIX — O círculo fecha

Agora podemos montar nossa linha do tempo.

1960s
CP/CMS
   │
   ↓
1970s
VM/370
   │
   ↓
z/VM
   │
   ↓
LINUX ON MAINFRAME
   │
   ↓
2007
PROJECT BIG GREEN
   │
   ↓
CONSOLIDAÇÃO
EFICIÊNCIA
ENERGIA
   │
   ↓
2015
LinuxONE
   │
   ↓
HYBRID CLOUD
   │
   ↓
2025
z17 + TELUM II
   │
   ↓
2026
z17 / LinuxONE 5
RACK MOUNT
   │
   ↓
AI + DATACENTERS
   │
   ↓
MEGAWATTS

Essa não é uma evolução linear planejada desde os anos 1960.

Seria absurdo afirmar isso.

Mas existe uma continuidade conceitual extraordinária:

aumentar utilização e consolidar trabalho.


🧪 Capítulo XX — O grande teste: realidade versus marketing

Agora precisamos fazer aquilo que todo COBOLzeiro deveria aprender cedo:

IF MARKETING
   PERFORM VALIDATE-CLAIM
END-IF

Quando IBM diz:

80% menos energia

ou:

milhares de servidores consolidados

pergunte:

comparado com quê?

Depois:

qual workload?

Depois:

qual utilização?

Depois:

qual configuração?

Depois:

inclui storage?

Depois:

inclui refrigeração?

Depois:

inclui software?

Depois:

qual período?

Isso vale para IBM.

AWS.

Microsoft.

Google.

NVIDIA.

Qualquer fabricante.

Um benchmark sem contexto é como:

DISPLAY "42".

Pode ser a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

Mas continuamos sem saber qual era a pergunta.


🌍 Capítulo XXI — Big Green estava certo?

Agora podemos finalmente julgar.

Previsão:

Energia se tornará restrição importante dos data centers.

Correta.

Previsão:

Consolidação será importante.

Correta.

Previsão:

Virtualização aumentará utilização.

Correta.

Previsão:

Precisaremos medir energia como recurso computacional.

Corretíssima.

Previsão implícita:

Mainframe absorverá enormes quantidades do server sprawl mundial.

Não aconteceu na dimensão que aquela narrativa comercial poderia sugerir.

O mercado escolheu também:

x86
+
virtualization
+
hyperscale
+
cloud

E depois:

containers
+
Kubernetes

Mas isso não refutou o problema.

Encontrou outra maneira de administrá-lo.


☁️ Capítulo XXII — Cloud é o Big Green do outro lado do espelho?

Existe uma provocação interessante aqui.

IBM dizia:

CONSOLIDE
MUITOS SERVIDORES
EM MENOS SISTEMAS.

Hyperscalers disseram:

ENTREGUE OS SERVIDORES
PARA NÓS.

NÓS CONSOLIDAMOS.

São arquiteturas radicalmente diferentes.

Mas existe parentesco econômico:

EVITAR OCIOSIDADE
       +
COMPARTILHAR RECURSOS
       +
AUTOMATIZAR
       +
AUMENTAR UTILIZAÇÃO

A cloud não destruiu necessariamente a tese do Big Green.

Em certo sentido, industrializou parte dela.


🧑‍🚀 Capítulo XXIII — Guia do Mochileiro para o programador COBOL

Se você está começando agora, grave estas regras.

1. Não confunda máquina virtual com máquina imaginária.

Existe hardware embaixo.

2. Não confunda elasticidade com infinito.

AUTO-SCALING != MAGIC

3. Aprenda virtualização.

Entender z/VM ajuda enormemente a compreender cloud.

4. Aprenda capacity planning.

CPU continua existindo.

Memória continua acabando.

5. Acrescente energia ao modelo mental.

O capacity planner moderno precisa entender:

COMPUTE
+
POWER
+
COOLING

6. Não transforme arquitetura em religião.

Mainframe não é resposta para tudo.

Cloud não é resposta para tudo.

GPU não é resposta para tudo.

Kubernetes definitivamente não precisa rodar sua torradeira.

Ainda.

7. Sempre procure o custo sistêmico.

Não compare simplesmente:

CPU A vs CPU B

Compare:

SERVIÇO ENTREGUE
────────────────
CUSTO TOTAL

🐳 Capítulo XXIV — O elefante, a baleia e o mainframe

Douglas Adams escreveu sobre criaturas gigantescas surgindo em lugares improváveis.

Nossa indústria também possui algumas.

Durante décadas disseram que o mainframe desapareceria.

Ele viu:

client/server
Unix
Windows NT
Java
x86
VMware
cloud
containers
Kubernetes
serverless
AI

passarem pela porta.

Em 2026 ele continua sentado no CPD.

Agora alguém pergunta:

— Você ainda está aqui?

IBM Z responde:

— Sim.

— Mas agora temos IA.

— Também.

— Linux?

— Sim.

— Containers?

— Sim.

— APIs?

— Sim.

— Cloud híbrida?

— Sim.

— Eficiência energética?

O mainframe olha para uma pasta empoeirada:

PROJECT BIG GREEN
2007

— Engraçado você perguntar.


⚡ Capítulo XXV — O paradoxo final da abstração

A história da computação moderna parece uma tentativa constante de esconder a física.

Primeiro escondemos hardware com:

OPERATING SYSTEM

Depois:

VIRTUAL MACHINE

Depois:

CONTAINER

Depois:

ORCHESTRATOR

Depois:

CLOUD

Depois:

SERVERLESS

Serverless!

O próprio nome é maravilhoso.

É como chamar restaurante de:

KITCHENLESS

porque você não consegue ver a cozinha.

🤣

Então chegou IA consumindo tanta infraestrutura que fomos obrigados a seguir a abstração ao contrário:

AI
 ↓
MODEL
 ↓
GPU
 ↓
SERVER
 ↓
RACK
 ↓
DATA CENTER
 ↓
SUBSTATION
 ↓
POWER GRID
 ↓
POWER PLANT

Encontramos novamente a física.


🌌 Capítulo XXVI — E finalmente descobrimos a pergunta cuja resposta é 42

Deep Thought levou 7,5 milhões de anos para calcular:

42.

Infelizmente ninguém sabia exatamente qual era a pergunta.

Em 2026 finalmente descobrimos.

Um arquiteto entra no data center.

Pergunta:

— Quantas GPUs ainda posso instalar nesse rack?

O facility manager consulta o painel.

Olha a alimentação elétrica.

Consulta refrigeração.

Volta.

42.

O arquiteto fica emocionado.

— A resposta para a vida, o universo e tudo mais!

— Não.

— Não?

— Depois da quadragésima segunda derruba o disjuntor.


☕ Epílogo — O Restaurante no Fim do Data Center

São 23h59.

Em algum lugar do universo, existe um restaurante construído ao lado do último data center ainda com capacidade elétrica disponível.

Sentados à mesa estão:

um programador COBOL de 1978;

um administrador VM de 1985;

um especialista Linux de 2000;

um engenheiro Big Green de 2007;

um arquiteto cloud de 2017;

um engenheiro Kubernetes de 2020;

e um cientista de IA de 2026.

O garçom aproxima-se.

— O que desejam?

O COBOLzeiro:

— Café.

O administrador VM:

— Café.

O arquiteto cloud:

— Café serverless.

O garçom:

— Senhor, alguém ainda precisa fazer o café.

— Estragou a arquitetura.

O cientista de IA abre o notebook.

— Vou executar um modelo de 400 bilhões de parâmetros para decidir o que pedir.

As luzes piscam.

Todos olham para ele.

WARNING

DATA CENTER POWER
98%

O engenheiro Big Green lentamente tira uma pasta da mochila.

Na capa:

IBM
PROJECT BIG GREEN

10 MAY 2007

O cientista de IA pergunta:

— O que é isso?

— Uma mensagem do passado.

— Sobre inteligência artificial?

— Não.

— Cloud?

— Não.

— GPUs?

— Também não.

— Então sobre o quê?

O engenheiro abre o documento.

Tomadas.

Silêncio.

O veterano do z/VM começa a rir.

O COBOLzeiro levanta sua caneca.

Porque finalmente percebe a extraordinária circularidade daquela história:

z/VM
   │
   ↓
VIRTUALIZAÇÃO
   │
   ↓
CONSOLIDAÇÃO
   │
   ↓
BIG GREEN
   │
   ↓
LINUX ON SYSTEM z
   │
   ↓
LinuxONE
   │
   ↓
HYBRID CLOUD
   │
   ↓
z17
   │
   ↓
IA
   │
   ↓
MEGAWATTS
   │
   ↓
...

E depois de sessenta anos de engenharia:

        ┌───────────────┐
        │               │
        │    TOMADA     │
        │      ⚡       │
        │               │
        └───────────────┘

Voltamos ao início.

O velho engenheiro IBM fecha a pasta.

— Em 2007 chamamos isso de Big Green.

O engenheiro Kubernetes pergunta:

— E hoje?

Ele olha para o painel:

POWER CAPACITY: 99%

Pensa alguns segundos.

— Hoje chamamos de terça-feira.


🌱 A moral do Guia do Mochileiro do Mainframe

O Project Big Green de 2007 não venceu o mundo como marca comercial. Cloud e hyperscale acabaram seguindo caminhos diferentes daqueles que uma estratégia centrada no System z poderia sugerir.

Mas sua tese central envelheceu extraordinariamente bem:

Computação não deve ser medida apenas pela potência do processador, mas pelo trabalho útil entregue em relação aos recursos físicos necessários para sustentá-la.

A IBM passou daquela discussão para Linux on System z, depois LinuxONE — lançado em 2015 — e hoje chega ao z17, anunciado em 8 de abril de 2025 com Telum II e aceleração de IA integrada. (Investing.com)

Em julho de 2026, quando a IBM anunciou versões compactas e rack-mount de z17 e LinuxONE 5, voltou a mencionar explicitamente um mundo no qual espaço e capacidade elétrica dos data centers tornaram-se recursos cada vez mais preciosos. (IBM Newsroom)

Portanto:

2007

IBM:
"PRECISAMOS PENSAR
EM COMPUTAÇÃO POR WATT."


2026

IA:
"PRECISO DE OUTRO
CLUSTER DE GPUs."


DATA CENTER:
"PRECISO DE OUTRA
SUBESTAÇÃO."


REDE ELÉTRICA:
"PRECISO DE OUTRA
LINHA DE TRANSMISSÃO."


IBM BIG GREEN:
        ☕

Talvez a maior piada cósmica seja justamente essa.

Passamos décadas discutindo se o futuro seria mainframe, Unix, x86, cloud, Kubernetes ou IA.

E esquecemos que todos eles pertencem à mesma arquitetura fundamental:

//UNIVERSE JOB

//STEP01 EXEC PGM=COMPUTE

//POWER   DD *
          ELECTRICITY
/*

Sem POWER:

IEF450I
UNIVERSE - ABEND=S0WATT

E se isso acontecer...

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Pegue sua toalha.

Pegue seu café.

E, antes de pedir mais 10.000 GPUs,

pergunte ao pessoal do Facilities.

Fim do café — e lembre-se: 42 continua sendo uma excelente resposta, desde que o disjuntor aguente.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Corrida pelo Último Megawatt: Nubank, Itaú, Santander, AWS, IA e o Dia em que o Mainframe Descobriu que seu Novo Concorrente Não Era a Cloud — Era a Usina Elétrica

 

Bellacosa Mainframe e a corrida pelo ultimo megawatt

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Corrida pelo Último Megawatt: Nubank, Itaú, Santander, AWS, IA e o Dia em que o Mainframe Descobriu que seu Novo Concorrente Não Era a Cloud — Era a Usina Elétrica

⚡ AWS, Gravity, Datomic, Kubernetes, IBM Z, LinuxONE, IA, data centers, energia, contingência e o estranho futuro em que milhões de transações bancárias disputam megawatts com GPUs — enquanto o coronel Potter pergunta quem foi o gênio que colocou o plano de DR inteiro na mesma região


São 06h13.

Algum lugar do interior de São Paulo.

Dentro de uma barraca improvisada que inexplicavelmente contém três monitores, um terminal 3270, um cluster Kubernetes e uma cafeteira que certamente reprovaria numa auditoria elétrica, o radar começa a apitar.

BIP.

BIP.

BIP.

Radar O'Reilly entra correndo.

— Coronel! Temos problemas!

Sherman Potter nem levanta os olhos.

— Coreia?

— Pior.

— Produção?

— Muito pior.

— Fale, Radar.

Ele coloca um relatório sobre a mesa.

NUBANK
AWS
ITAÚ
SANTANDER
IA
DATA CENTERS
GPU
MAINFRAME

DEMANDA: ↑↑↑↑↑

ENERGIA DISPONÍVEL: ¯\_(ツ)_/¯

Hawkeye Pierce aparece com uma caneca.

— Quem foi atingido?

Radar responde:

— Ninguém ainda.

— Então por que estamos acordados?

— Porque todos querem construir data centers ao mesmo tempo.

Hawkeye observa o documento.

— Qual o diagnóstico?

Do outro lado da barraca, um velho sysprog que ninguém lembra de ter contratado olha para o RMF e responde:

Falta de megawatt.

Silêncio.

Potter franze a testa.

— Achei que estávamos falando de computadores.

O sysprog toma o café.

— Coronel, chegamos ao ponto em que falar de computadores significa falar de usinas elétricas.

Bem-vindo ao M*A*S*H tecnológico.

Hoje nosso paciente é o sistema bancário brasileiro.

E talvez precisemos operar.


🩺 1. O diagnóstico mudou

Durante décadas, quando discutíamos capacidade bancária, falávamos de:

CPU
MIPS
MSU
MEMÓRIA
I/O
STORAGE
TPS

Depois veio a cloud.

O discurso mudou para:

vCPU
containers
pods
nodes
autoscaling
serverless
regions
availability zones

Parecia que havíamos eliminado a limitação física.

Precisava de mais capacidade?

scale-out

Mais?

scale-out

Mais?

scale-out

Só havia um pequeno problema.

Cada scale-out eventualmente precisa virar:

CPU REAL
RAM REAL
SSD REAL
SWITCH REAL
RACK REAL
ENERGIA REAL
REFRIGERAÇÃO REAL

E eis a grande ironia da cloud:

o computador desapareceu da visão do programador, mas nunca desapareceu do planeta.

A nuvem é uma extraordinária abstração de recursos físicos.

Não uma violação das leis da termodinâmica.


🩺 2. O primeiro paciente: Nubank

O Nubank talvez seja o melhor exemplo brasileiro dessa transformação.

Ele não começou com um grande legado IBM Z para depois migrar.

Nasceu digital.

Sua história tecnológica pública inclui:

AWS
Clojure
Datomic
Kafka
Kubernetes
microservices
machine learning

E chegou a uma escala impressionante.

Em abril de 2025, a engenharia do Nu revelou operar mais de 4.000 microsserviços, processando aproximadamente 72 bilhões de eventos Kafka diariamente e lidando rotineiramente com milhões de requisições por segundo. (Building Nubank)

Em julho de 2026, outra publicação trouxe um número quase surreal:

mais de 21.000 databases em produção, distribuídos entre Brasil, México e Colômbia.

A camada de database é administrada diretamente por apenas cinco engenheiros, graças a automação, self-service e ownership distribuído. (Building Nubank)

O COBOLzeiro lê:

21.000 DATABASES

e pergunta:

— Vocês estão bem?

Sim.

É uma consequência da granularidade de uma arquitetura de microsserviços.


🩺 3. O dia em que a cloud mostrou que também possui teto

A história técnica do Nubank é particularmente interessante porque seu crescimento obrigou a empresa a enfrentar limites de capacidade e quotas.

Nos primeiros tempos, infraestrutura concentrada em poucas contas AWS foi apelidada internamente de:

Pangeia.

Um supercontinente.

            PANGEIA

    ┌────────────────────┐
    │     AWS ACCOUNT    │
    │                    │
    │   serviços         │
    │   Datomic          │
    │   Kafka            │
    │   Kubernetes       │
    │   serviços         │
    │   serviços         │
    └────────────────────┘

Funcionou.

Até crescer demais.

A concentração aumentava blast radius, complicava isolamento entre ambientes e pressionava limites.

Então surgiu a:

Continental Drift.

A Deriva Continental.

         PANGEIA
            |
            ↓

 ┌────────┐ ┌────────┐ ┌────────┐
 │ACCOUNT │ │ACCOUNT │ │ACCOUNT │
 │   A    │ │   B    │ │   C    │
 └────────┘ └────────┘ └────────┘

Domínios separados.

Recursos separados.

Falhas mais isoladas.

Quotas menos concentradas. (Building Nubank)

É arquitetura distribuída aprendendo uma das regras mais antigas da engenharia:

não coloque todos os ovos na mesma cesta.

O mainframe chama Potter.

— Coronel?

— Sim?

— Parallel Sysplex mandou lembranças.


🩺 4. Mas atenção: Nubank NÃO esgotou a AWS brasileira

Aqui precisamos colocar uma etiqueta vermelha no prontuário.

NUBANK ESGOTOU TODA A AWS BRASIL

FALSO.

Não há evidência disso.

O que relatos técnicos do Nubank mostram é que determinados modelos de crescimento chegaram a encontrar limites de recursos/capacidade.

Isso é diferente.

Imagine:

AWS BRASIL

████████████████████████████████████████

Nubank não fez:

████████████████████████████████████████
NUBANK

A situação é mais parecida com:

PRECISO:

tipo específico de recurso
+
determinada região/AZ
+
determinada configuração
+
grande quantidade
+
agora

E naquele contexto a resposta pode ser:

CAPACITY NOT AVAILABLE

A própria documentação da AWS reconhece que Availability Zones podem tornar-se capacity constrained, a ponto de o provedor restringir criação de determinados recursos zonais. (Documentação AWS)

Cloud possui estoque.

Só que você não vê o almoxarifado.


🩺 5. Entra Itaú — e agora a coisa fica realmente grande

O segundo paciente é o Itaú Unibanco.

E aqui precisamos atualizar uma informação importante.

A intenção pública divulgada pelo banco é realmente radical.

Durante o AWS re:Invent 2024, em dezembro de 2024, Ricardo Guerra, CIO do Itaú, anunciou o plano de migrar 100% dos sistemas para cloud, incluindo sistemas que atualmente executam no mainframe.

Na ocasião, 65% das aplicações já estavam em cloud.

A meta divulgada foi:

2017
  |
início da jornada
  |
  v
2024
  |
65% aplicações cloud
  |
  v
2028
  |
migração prevista
  |
  v
2030
  |
estabilização prevista

Portanto, a história do 2030 possui uma nuance importante.

A migração foi anunciada para 2028, seguida de aproximadamente dois anos previstos para estabilização. (BR About Amazon)

E estamos falando do coração do banco.

Os 35% restantes descritos em 2024 eram fundamentalmente rotinas contábeis — justamente a lógica mais profundamente associada ao core. (BR About Amazon)

Isso muda completamente nossa discussão.


🩺 6. Porque Itaú não é uma fintech de garagem

Migrar um sistema web é uma coisa.

Migrar:

CORE
CONTABILIDADE
LEDGER
TRANSAÇÕES
BATCH
INTEGRAÇÕES
DÉCADAS DE REGRAS

é outra.

É quase como anunciar:

“Vamos trocar o motor do avião.”

Pergunta:

— Quando?

Resposta:

— Durante o voo.

Hawkeye:

— Excelente. Quem trouxe paraquedas?

O Itaú afirma que, desde o início dessa transformação, incidentes de alto impacto na experiência dos clientes diminuíram 99%, enquanto o custo por transação caiu 55%. (BR About Amazon)

O projeto utiliza inclusive IA generativa para ajudar na modernização de aplicações mainframe através do Amazon Q Developer. (BR About Amazon)

Ou seja:

MAINFRAME
   |
   v
ANÁLISE / MODERNIZAÇÃO
   |
   +── IA GENERATIVA
   |
   v
AWS

Isso é uma mudança arquitetural monumental.


🩺 7. Agora entra Santander carregando Gravity

O Santander escolheu outro caminho fascinante.

O nome é:

Gravity.

Em 19 de junho de 2025, o Santander anunciou ter concluído a migração de toda a infraestrutura tecnológica core da operação espanhola para Gravity, sua plataforma cloud-based de core banking. (Santander)

E a escala espanhola já é enorme:

> 4,3 bilhões
transações/ano

picos:
~33.000 transações/segundo

O Santander anunciou ainda que Brasil e México estavam entre os próximos rollouts; com esses avanços, esperava atingir aproximadamente 80% da infraestrutura tecnológica core global migrada para cloud. (Santander)

Quando concluída, Gravity deverá lidar com mais de:

1 trilhão de operações técnicas por ano.

(Santander)

Radar olha para Potter.

— Coronel, acho que vamos precisar de outra extensão elétrica.


🩺 8. A parte brilhante do Gravity: execução paralela

Aqui o COBOLzeiro deveria prestar muita atenção.

O Santander não simplesmente diz:

MAINFRAME OFF

CLOUD ON

BOA SORTE.

Gravity permite processamento simultâneo.

Conceitualmente:

               TRANSAÇÃO
                   |
          ┌────────┴────────┐
          |                 |
          v                 v
     MAINFRAME            CLOUD
          |                 |
          └───────┬─────────┘
                  |
               COMPARE
                  |
           RESULTADO IGUAL?
                  |
                 SIM
                  |
              CUTOVER

O Santander descreve justamente capacidade de processar simultaneamente em mainframe e cloud, permitindo testes em tempo real antes da transição definitiva. (Santander)

Para quem viveu migração bancária:

isso é música.

Você não confia na apresentação do PowerPoint.

Você reconcilia.


🩺 9. E então chegam as fintechs

Agora acrescente:

Nubank
Mercado Pago
PicPay
Inter
C6
Neon
fintech A
fintech B
fintech C

Mais:

e-commerce
streaming
governo
SaaS
telecom
indústria

Todos querendo cloud.

O problema começa a parecer:

                     DATACENTER

 BANCO ────────────────┐
 FINTECH ──────────────┤
 VAREJO ───────────────┤
 GOVERNO ──────────────┼──► COMPUTE
 TELECOM ──────────────┤
 STREAMING ────────────┤
 SaaS ─────────────────┘

Até aí tudo bem.

Então alguém abre a porta.

Entra um sujeito carregando 20.000 GPUs.

— Bom dia.

— Quem é você?

Inteligência Artificial.

Hawkeye fecha os olhos.

— Estamos ferrados.


🩺 10. IA mudou a unidade de medida

Aplicações empresariais tradicionais consomem energia.

Mas infraestrutura moderna de IA aumentou dramaticamente a densidade computacional.

Agora falamos de:

GPU
GPU
GPU
GPU
GPU
GPU

+
HBM
+
NETWORK FABRIC
+
STORAGE
+
COOLING

O gargalo começa a migrar de:

TEMOS CPU?

para:

TEMOS ENERGIA?

e depois:

TEMOS SUBESTAÇÃO?

e finalmente:

A REDE DE TRANSMISSÃO CONSEGUE ENTREGAR?

A Empresa de Pesquisa Energética brasileira já trata data centers explicitamente como grandes cargas cujo crescimento afeta diretamente o planejamento de expansão da transmissão. (EPE)

Isso é importantíssimo.

Data center deixou de ser apenas assunto de CIO.

Virou assunto de planejamento energético nacional.


⚡ 11. O Brasil descobriu o problema

E aqui os números ficam extraordinários.

Depois do REDATA, instituído em setembro de 2025, ocorreu forte crescimento dos pedidos relacionados a novos data centers.

Segundo a EPE, em apenas pouco mais de 60 dias apareceram 6,4 GW adicionais em projetos solicitando estudos para conexão à Rede Básica.

O pipeline passou de:

SET/2025
19,8 GW

   ↓

NOV/2025
26,2 GW

(EPE)

26,2 GIGAWATTS.

Agora não estamos mais discutindo servidor.

Estamos discutindo infraestrutura elétrica em escala industrial.

E a própria EPE ressalva corretamente que isso é pipeline de projetos, não capacidade que certamente será construída: implantação depende de transmissão, telecomunicações, viabilidade financeira, garantias e outros fatores. (EPE)


⚡ 12. Onde estão querendo colocar tudo isso?

Principalmente onde você provavelmente imaginou:

São Paulo.

Segundo a EPE, existe forte concentração de projetos no estado, especialmente nas regiões metropolitanas de:

SÃO PAULO

     e

CAMPINAS

(EPE)

Não é coincidência.

A região concentra:

  • mercado financeiro;

  • empresas;

  • telecomunicações;

  • fibras;

  • IXs;

  • mão de obra;

  • infraestrutura;

  • consumidores;

  • provedores;

  • ecossistema tecnológico.

São Paulo é para processamento brasileiro algo próximo do que Wall Street é para finanças americanas:

gravidade.

Quanto mais infraestrutura existe, mais infraestrutura quer ficar perto dela.


⚡ 13. Mas isso cria concentração geográfica

Imagine:

BRASIL

                  Brasília
                     ●

       São Paulo
     ████████████

        Campinas
      █████████

 Rio ●

 Sul ●

 Nordeste ●

É apenas uma representação conceitual, não um mapa quantitativo.

Mas o problema é real.

Concentração produz eficiência.

Também produz risco.

Energia.

Fibra.

Subestações.

Eventos climáticos.

Falhas regionais.

Interrupções de backbone.

Se boa parte da infraestrutura crítica brasileira convergir para o mesmo eixo geográfico, surge uma pergunta desconfortável:

Quantas arquiteturas “distribuídas” estão fisicamente concentradas nos mesmos lugares?

Essa é uma pergunta extraordinariamente importante.


⚡ 14. AWS Brasil também possui geografia

A AWS possui a região brasileira sa-east-1.

Ela contém atualmente três Availability Zones:

sae1-az1
sae1-az2
sae1-az3

(Documentação AWS)

Cada AZ consiste em um ou mais data centers fisicamente separados, com energia, rede e conectividade redundantes; as zonas são conectadas por redes metropolitanas de baixa latência e alta largura de banda. (Documentação AWS)

Essa arquitetura permite:

          REGION

     ┌──────┼──────┐
     │      │      │
    AZ1    AZ2    AZ3

Se AZ1 falhar:

AZ1 💥

AZ2 ✓
AZ3 ✓

desde que sua aplicação tenha sido realmente projetada para isso.

Esse último pedaço da frase deveria estar escrito em letras garrafais.


🩺 15. “Estamos na AWS” NÃO é plano de contingência

Esta talvez seja a lição mais importante do artigo.

Alguém pergunta:

— Temos DR?

Resposta:

— Sim. Estamos na cloud.

ERRADO.

Cloud é infraestrutura.

DR é arquitetura.

Você pode construir:

APPLICATION
     |
    AZ1

e possuir um belo single point of failure.

Melhor:

       APPLICATION
          |
      ┌───┴───┐
      │       │
     AZ1     AZ2

Melhor ainda para certos sistemas críticos:

             APPLICATION
                  |
       ┌──────────┴──────────┐
       │                     │
    REGION A              REGION B
       │                     │
    AZ1/AZ2               AZ1/AZ2

E em casos extremos:

AWS
 |
 +── REGION A
 +── REGION B

PRIVATE CLOUD

IBM Z

A pergunta não é:

“Qual cloud você usa?”

É:

“Qual falha você consegue sobreviver?”


🩺 16. Multi-cloud resolve?

Talvez.

Mas existe um preço.

Você pode fazer:

              BANK
                |
       ┌────────┼────────┐
       │        │        │
      AWS      GCP     AZURE

Bonito.

Agora mantenha:

IAM
network
database
observability
deployment
security
skills
CI/CD
DR
data synchronization

em três plataformas.

Parabéns.

Você acabou de trocar:

RISCO DE CONCENTRAÇÃO

por:

COMPLEXIDADE OPERACIONAL

Arquitetura é frequentemente escolher qual problema você prefere possuir.


⚡ 17. O sistema elétrico brasileiro entrou oficialmente no war room

A EPE projeta que o consumo total de eletricidade brasileiro poderá chegar a aproximadamente 939 TWh em 2035 no cenário de referência.

O crescimento médio projetado é 3,3% ao ano. (EPE)

Mas existe algo mais interessante.

Cargas especiais — incluindo data centers, hidrogênio e eletromobilidade — podem representar parcela significativa da demanda futura, dependendo do cenário.

O próprio planejamento já considera data centers explicitamente. (EPE)

E o Brasil prevê cerca de:

R$ 120 bilhões

em investimentos no sistema de transmissão até 2035, no cenário de referência do PDE. (EPE)

O velho sysprog observa.

— Então precisamos fazer upgrade do backbone.

O engenheiro elétrico responde:

— Exatamente.

— Fibra?

— Não.

— Ethernet?

— Não.

— Então o quê?

500 kV.

Silêncio.


⚡ 18. São Paulo já precisa abrir espaço elétrico

A EPE informou que estudos concluídos recomendaram cerca de R$ 1,6 bilhão em novos investimentos de transmissão para São Paulo, capazes de liberar aproximadamente 4 GW de margem de conexão.

Outros estudos poderiam acrescentar cerca de mais 5 GW de margem no estado. (EPE)

Veja como a conversa evoluiu.

Ontem:

Precisamos de mais EC2.

Hoje:

Precisamos de mais 4 GW.

O programador pede:

kubectl scale deployment

e em algum lugar um engenheiro elétrico responde:

Calma, campeão.


🩺 19. E então IBM entra no centro cirúrgico

Agora chegamos à IBM.

Seria tentador imaginar IBM olhando Itaú, Santander e Nubank e dizendo:

CLOUD É MODA.

Não.

A resposta estratégica da IBM é muito mais sofisticada:

HYBRID CLOUD.

Não:

MAINFRAME
    OU
CLOUD

mas:

              ENTERPRISE

                  |
       ┌──────────┼──────────┐
       │          │          │
       v          v          v
     IBM Z      CLOUD     LinuxONE
       │          │          │
     CICS     Kubernetes    Linux
     COBOL      APIs       Containers
     Db2         AI          AI
       │          │          │
       └──────────┼──────────┘
                  |
                DATA

IBM percebeu que tentar impedir cloud seria inútil.

A estratégia é fazer IBM Z participar do ecossistema moderno.


🩺 20. z17 entra na guerra

E em 7 de julho de 2026 aconteceu algo simbolicamente importante.

IBM expandiu z17 e LinuxONE 5 com configurações single-frame e rack-mount.

Pela primeira vez, rack mount passou a estar disponível através de toda essa família Z/LinuxONE. (IBM Newsroom)

Isso significa colocar arquitetura Z mais naturalmente dentro da infraestrutura contemporânea de data centers.

E o comunicado da IBM toca justamente no nosso assunto:

organizações enfrentando disponibilidade extremamente baixa de espaço em data centers e custos elevados de capacidade. (IBM Newsroom)

IBM está dizendo:

Quer falar de densidade computacional? Ótimo. Vamos conversar.


⚡ 21. O mainframe encontra sua velha arma: densidade

O argumento histórico de sistemas distribuídos era:

commodity hardware
+
scale-out
=
economia

Mas quando chegamos a milhares de servidores:

SERVERS
+
NETWORK
+
STORAGE
+
COOLING
+
ENERGY
+
RACKS
+
SOFTWARE
+
OPERATIONS

precisamos mudar a métrica.

Não pergunte apenas:

Quanto custa uma VM?

Pergunte:

TRANSAÇÕES / WATT

TRANSAÇÕES / RACK

TRANSAÇÕES / m²

TRANSAÇÕES / ADMINISTRADOR

TRANSAÇÕES / DÓLAR

Agora IBM Z volta a uma conversa na qual sempre foi extremamente confortável.

Consolidação.


⚡ 22. LinuxONE torna a discussão ainda mais divertida

Porque alguém pode responder:

— Mas não quero COBOL.

IBM:

— Tudo bem.

— Quero Linux.

— Temos.

— Containers.

— Temos.

— Kubernetes.

— Temos.

— Java.

— Temos.

— Open source.

— Temos.

CLOUD-NATIVE
     |
     v
CONTAINERS
     |
     v
LINUX
     |
     v
LINUXONE

Ou seja, a batalha não é necessariamente:

MAINFRAME vs CLOUD

Pode ser:

QUAL ARQUITETURA
EXECUTA ESTE WORKLOAD
COM MELHOR

CUSTO
RESILIÊNCIA
DENSIDADE
SEGURANÇA
LATÊNCIA
ENERGIA?

Essa é uma discussão muito mais madura.


🩺 23. O futuro provavelmente será heterogêneo

Não acredito que o banco de 2035 necessariamente terá:

100% MAINFRAME

nem:

100% PUBLIC CLOUD

A tendência mais interessante é:

                    BANCO 2035

                        |
       ┌────────────────┼────────────────┐
       │                │                │
       v                v                v
     IBM Z          PUBLIC CLOUD     PRIVATE CLOUD
       │                │                │
   ledger/core        digital           dados
   settlement         analytics          IA
   high TPS             APIs          containers
       │                │                │
       └────────────────┼────────────────┘
                        |
                    APIs/EVENTS

Santander pode avançar muito mais na direção cloud.

Itaú declarou uma estratégia extremamente agressiva de migração.

Nubank já nasceu cloud-native.

Outras instituições poderão escolher misturas diferentes.

E isso é saudável.


⚠️ 24. Existe, porém, um risco novo: concentração sistêmica

Aqui está algo que merece atenção de bancos centrais, reguladores, CIOs e arquitetos.

No passado:

BANCO A → DC A

BANCO B → DC B

BANCO C → DC C

Agora imagine:

BANCO A ───┐
BANCO B ───┤
FINTECH A ─┤
FINTECH B ─┼──► HYPERSCALER / REGION
VAREJO ────┤
GOVERNO ───┤
SAAS ──────┘

Individualmente, cada empresa pode ter aumentado sua resiliência.

Coletivamente, podemos ter criado uma nova concentração.

Isso é o paradoxo.

Diversificação lógica pode esconder concentração física.

Dez bancos podem possuir arquiteturas diferentes...

executando em instalações que dependem dos mesmos corredores de fibra, da mesma região metropolitana ou de partes relacionadas do mesmo sistema elétrico.


⚠️ 25. E temos soberania

Outro problema.

Dados financeiros são infraestrutura estratégica.

Perguntas inevitáveis surgem:

Onde estão os dados?

Quem controla a infraestrutura?

Quem fabrica os processadores?

Quem controla o hypervisor?

Quem controla o software?

Quem possui as chaves?

Quem consegue desligar?

Qual legislação prevalece?

Cloud traz eficiência extraordinária.

Mas concentração em empresas estrangeiras também introduz questões de soberania tecnológica.

Isso não significa:

“cloud estrangeira é ruim”.

Significa:

infraestrutura crítica exige análise geopolítica além da análise técnica.

O CIO de 2035 precisará conversar com:

CISO
CFO
regulador
engenheiro elétrico
jurídico
geopolítica

O emprego ficou mais interessante.


⚠️ 26. Água também entra na conversa

Data centers precisam dissipar calor.

Dependendo da tecnologia de refrigeração, disponibilidade hídrica também pode ser relevante.

Então o site selection passa a considerar:

ENERGIA
+
ÁGUA
+
FIBRA
+
LATÊNCIA
+
TERRENO
+
IMPOSTOS
+
CLIMA
+
RISCO
+
MÃO DE OBRA

O data center moderno é quase uma cidade industrial.

A aplicação continua dizendo:

POST /payment

Mas atrás dela pode existir uma infraestrutura de centenas de milhões ou bilhões.


⚡ 27. A IA piora tudo — e pode ajudar

Aqui existe outro paradoxo maravilhoso.

IA aumenta brutalmente demanda computacional.

Mas IA também pode otimizar:

cooling
capacity
scheduling
energy
fraud
operations
predictive maintenance

Então:

IA
 |
 +── consome energia
 |
 └── ajuda a economizar energia

M*A*S*H teria orgulho.

Criamos um paciente que também trabalha no hospital.


🩺 28. Como deveria ser a contingência bancária?

Para um sistema realmente crítico, eu pensaria em camadas.

Nível 1 — aplicação

retry
timeout
circuit breaker
idempotency

Nível 2 — compute

multiple instances
autoscaling

Nível 3 — AZ

AZ A
AZ B
AZ C

Nível 4 — região

REGION A
REGION B

Nível 5 — plataforma

Dependendo do risco:

PUBLIC CLOUD
+
PRIVATE INFRASTRUCTURE

Nível 6 — dados

replication
backup
immutable backup
reconciliation

Nível 7 — operação

runbook
war room
chaos testing
DR exercise

Porque existe uma diferença enorme entre:

TEMOS DR

e:

TESTAMOS DR NA SEMANA PASSADA.

A segunda frase vale muito mais.


🩺 29. E não esqueça o modo degradado

Bancos deveriam perguntar:

Se 30% da infraestrutura desaparecer, precisamos realmente desligar 100% do banco?

Talvez não.

Imagine:

NORMAL MODE

PIX
CARTÃO
INVESTIMENTOS
EXTRATOS
MARKETING
RECOMENDAÇÕES
CHATBOT
ANALYTICS

Durante crise:

SURVIVAL MODE

PIX
CARTÃO
SALDO
AUTENTICAÇÃO

todo o resto:
WAIT

Aviação, telecomunicações e sistemas críticos conhecem bem esse conceito.

Preservar funções essenciais pode ser melhor que tentar manter tudo e perder tudo.


🩺 30. A grande pergunta do iniciante COBOL

Depois de tudo isso, o jovem programador pergunta:

— Então mainframe venceu?

Não.

— Cloud venceu?

Também não.

— Então quem venceu?

O velho sysprog aponta para a tomada.

— Ele.

Porque:

COBOL precisa energia.

CICS precisa energia.

Db2 precisa energia.

Kubernetes precisa energia.

Datomic precisa energia.

Kafka precisa energia.

GPU precisa MUITA energia.

Não existe:

cloud computing

sem:

electricity

A física é o sistema operacional abaixo de todos os sistemas operacionais.


☕ 31. O verdadeiro capacity planner de 2035

Talvez o capacity planner futuro não esteja olhando apenas:

CPU 73%

Ele estará olhando:

CPU ............ 73%

GPU ............ 91%

POWER .......... 87%

COOLING ........ 79%

GRID CAPACITY .. 93%

WATER .......... 68%

CARBON ......... 74%

NETWORK ........ 61%

E então perguntará:

Posso executar esse treinamento de IA agora?

Resposta:

JOB HELD

REASON:

POWER CAPACITY

O velho JES2 começa a rir em algum lugar.


🏥 Epílogo — 23h47 no M*A*S*H

Radar entra novamente.

— Coronel!

Potter olha assustado.

— O que caiu agora?

— Nada.

— Então por que está correndo?

— O pessoal da aplicação pediu mais 5.000 GPUs.

Potter olha para Hawkeye.

Hawkeye olha para B.J.

B.J. olha para Klinger.

Klinger, inexplicavelmente vestido de eletricista, pergunta:

— Quantos megawatts?

Radar consulta o papel.

Silêncio.

Potter suspira.

— Ligue para a cloud.

Radar pega o telefone.

Espera.

Desliga.

— E então?

— Disseram que precisamos falar com a concessionária.

O velho sysprog começa a rir.

Hawkeye pergunta:

— Qual a graça?

Ele abre um relatório antigo.

Na capa:

CAPACITY PLANNING
IBM MAINFRAME
1987

— Passamos quarenta anos tentando explicar que recurso computacional não é infinito.

Toma o último gole do café.

— A cloud finalmente concordou conosco.

Potter aponta para o mapa do Brasil.

São Paulo.

Campinas.

Fibra.

Subestações.

AWS.

Bancos.

Fintechs.

IA.

Data centers.

Linhas de transmissão.

Usinas.

E finalmente percebe que o diagrama correto nunca foi:

CLIENTE
  |
 APP
  |
CLOUD

Era:

                    CLIENTE
                       |
                      APP
                       |
                      API
                       |
                 MICROSERVIÇOS
                       |
             KUBERNETES / IBM Z
                       |
                DATA CENTER
                       |
                    RACK
                       |
                    CPU/GPU
                       |
                 SUBESTAÇÃO
                       |
                  TRANSMISSÃO
                       |
                    GERAÇÃO
                       |
                       ⚡

E lá embaixo, escondido sob todas as abstrações modernas, estava o verdadeiro ROOT.

Não Kubernetes.

Não AWS.

Não Clojure.

Não COBOL.

Não z/OS.

Não Linux.

Mas:

//POWER    JOB
//         EXEC PGM=ELETRICIDADE

Sem ele:

IEF450I CLOUD - ABEND=S0WATT

Hawkeye observa a tela.

— Podemos reiniciar?

O engenheiro elétrico responde:

— A usina?

— É.

— Não recomendo.

Potter fecha o prontuário.

Diagnóstico final

O futuro bancário brasileiro não será decidido apenas pela disputa:

mainframe versus cloud.

Será decidido pela capacidade de combinar computação, energia, telecomunicações, resiliência, segurança, soberania, economia e arquitetura.

O Nubank mostrou que uma instituição cloud-native pode alcançar escala bancária monumental.

O Itaú declarou uma rota para levar até seu coração transacional para cloud.

O Santander está transformando seu core através do Gravity.

AWS e outras hyperscalers continuam expandindo infraestrutura.

IBM responde apostando em hybrid cloud, IA, LinuxONE, z17 e densidade computacional.

E a IA acrescenta uma demanda gigantesca que nenhum capacity planner bancário de 1990 imaginaria.

Enquanto isso, o Brasil possui projetos de data centers que somavam 26,2 GW de pedidos em processo no MME em novembro de 2025, embora apenas uma fração disso necessariamente venha a se materializar. São Paulo concentra grande parte dessa corrida e já exige bilhões em expansão da transmissão. (EPE)

Portanto, talvez a grande discussão da próxima década não seja:

“COBOL ou Java?”

Nem:

“IBM Z ou AWS?”

Nem mesmo:

“Mainframe ou Kubernetes?”

Talvez seja:

“Onde estão os próximos 500 megawatts, quanto custam, como chegam até o data center e o que acontece com meu banco se eles desaparecerem?”

E quando essa pergunta finalmente chegar à reunião de arquitetura, haverá um velho sysprog no fundo da sala.

Ele não dirá nada.

Apenas abrirá o RMF.

Pegará o café.

E sorrirá.

Porque, depois de cinquenta anos de revoluções tecnológicas, alguém finalmente redescobriu a primeira lei não escrita do CPD:

Você pode virtualizar o servidor. Pode abstrair o storage. Pode containerizar a aplicação. Pode distribuir o banco. Pode chamar o datacenter de cloud. Pode até pedir para uma IA escrever o código.

Mas ainda não inventaram autoscaling para a tomada.

Fim do café.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

🔮 CAPÍTULO 7 — MAGIA: QUANDO O PODER VEM DO CONHECIMENTO

 


🔮 CAPÍTULO 7 — MAGIA: QUANDO O PODER VEM DO CONHECIMENTO

“Entre estudo, fé e alquimia, o herói descobre que o impossível é apenas um conceito”

“Todo mago é um herege, todo feiticeiro é um filósofo, e todo conjurador é um poeta das leis invisíveis.”
Mestre Bellacosa, Grimório das Masmorras


🌌 A Essência da Magia no RPG

A magia não é apenas um conjunto de feitiços e efeitos mecânicos.
Ela é uma extensão da vontade, inteligência e filosofia do personagem.

Funções narrativas da magia:

  1. Ferramenta de resolução de problemas: combate, exploração, interação.

  2. Símbolo de conhecimento: poder que exige estudo, prática e ética.

  3. Motor de conflito: atraindo aliados e inimigos.

  4. Expressão de identidade: cada tipo de magia reflete a visão de mundo do personagem.

🧭 Nota do Mestre:

“O mago não domina apenas o feitiço; ele domina a curiosidade e o medo.”


⚔️ Tipos de Magia

“Como as estrelas, a magia se divide em constelações — mas todas brilham com o mesmo mistério.”

Tipo de MagiaFonteUso ComumPerigo Intrínseco
Arcana/ElementalEstudo e talentoAtaques, defesa, manipulação do ambienteFogo, gelo ou eletricidade fora de controle; desgaste mental
DivinaFé, oração, devoçãoCura, bênçãos, proteçãoFanatismo, corrupção divina, pactos injustos
NecromanciaPactos, magia proibidaControle de mortos, sombrasAlienação moral, maldições, perseguição
Psíquica/MentalTreinamento da menteLeitura, manipulação, ilusãoDesgaste mental, perda de sanidade
AlquímicaCiência e experimentosPoções, transmutaçãoExplosões, mutações, efeitos imprevisíveis
RúnicaSímbolos antigosEncantamentos, proteção de locaisErros rúnicos podem ser catastróficos

🪶 Filosofia Bellacosa da Magia

  • A magia exige disciplina e estudo: poder sem controle é destruição.

  • Cada magia tem custo: físico, mental ou moral.

  • A magia como narrativa: não apenas causa efeito, mas também conta uma história sobre o personagem e o mundo.

📜 Quadro Filosófico Bellacosa:

“Todo feitiço é um contrato: o mago oferece tempo, concentração e ética; o mundo devolve poder e consequência.”


🔮 Dicas do Mestre para Magia

  1. Faça cada feitiço significativo: não apenas números, mas impacto narrativo.

  2. Introduza consequências: falhas, efeitos colaterais ou atenção indesejada.

  3. Varie fontes de magia: estudo, pacto, fé ou sangue — cada origem influencia dilemas morais.

  4. Crie evolução gradual: magos devem aprender, experimentar e crescer, não apenas ganhar poder de forma instantânea.

  5. Misture criatividade e lógica: magias que interagem com o mundo aumentam a imersão.


⚙️ Quadros Práticos

Custo e Recompensa da Magia

MagiaCustoRecompensaDilema Narrativo
Bola de FogoEnergia ou fadigaDestruição de inimigosPode afetar inocentes ou ambiente
Cura DivinaFé, oraçãoVida salvaQuestiona crença ou equilíbrio natural
NecromanciaÉtica e almaExércitos de mortosCorrupção moral e perseguição
TransmutaçãoMatéria e tempoTransformação útilRiscos de falha ou mutação

A Magia Como Expressão de Personagem

TipoReflexo do JogadorDilema Típico
ArcanaCuriosidade e estudoAté onde vai o sacrifício pelo poder?
DivinaDevoção e moralObediência ou consciência própria?
PsíquicaInteligência e introspecçãoManipulação ou liberdade alheia?
AlquímicaCriatividade e lógicaExperimento ou desastre?

🩸 Curiosidades Bellacosa

  • A magia de D&D foi inspirada em tradições de ocultismo, alquimia e literatura fantástica do século XIX.

  • Muitos JRPGs dividem magia entre ofensiva, defensiva e suporte, mas raramente exploram o custo psicológico ou ético.

  • Magos lendários em campanhas não são apenas poderosos — são símbolos de conhecimento, audácia e consequências.


💬 Nota Marginal do Mestre

“A magia ensina que poder sem responsabilidade é ilusão.
O herói que domina a magia deve dominar a si mesmo primeiro.”


⚔️ Encerramento do Capítulo

A magia no RPG é um reflexo do mundo e do jogador.
Ela cria drama, desafios e oportunidades de narrativa profunda.
Cada feitiço, ritual ou encantamento deve impactar a história e os personagens, lembrando que o verdadeiro poder vem do conhecimento — e de como ele é usado.

“Um herói que entende a magia entende o mundo — e aprende que cada escolha tem preço.”


🎯 Próximo Capítulo:
“O Papel do Mestre: O Demiurgo da Mesa — como conduzir, inspirar e desafiar jogadores.”

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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