☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta linuxone. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta linuxone. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Leonardo da Vinci Entra no CPD — O Dia em que o IBM Z Aprendeu Arm sem Esquecer COBOL

 

Bellacosa Mainframe e o ibm z aprendendo Arm o proximo passo nos cpds

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Leonardo da Vinci Entra no CPD — O Dia em que o IBM Z Aprendeu Arm sem Esquecer COBOL

Ou: como um processador de 2 nm, onze núcleos, três alfabetos de máquina e vinte e dois milhões de desenvolvedores transformaram o mainframe numa oficina renascentista — sem ninguém recompilar a folha de pagamento numa tarde de sexta-feira

Imagine que Leonardo da Vinci, depois de desenhar máquinas voadoras, estudar o corpo humano, projetar pontes e encher cadernos com anotações escritas ao contrário, receba um crachá temporário para visitar um moderno CPD.

Ele atravessa a porta dupla, observa as luzes do IBM Z e pergunta:

— Qual é a função desta grande máquina negra?

O programador COBOL iniciante responde:

— Processar contas bancárias, cartões, seguros, folhas de pagamento, reservas, impostos e quase tudo que não pode dar errado.

Leonardo examina os cabos, aproxima o ouvido do gabinete e conclui:

— Então não é apenas uma máquina. É uma cidade fortificada feita de silício.

Em agosto de 2026, a IBM anunciou um projeto que pode abrir um novo portão nessa cidade: seu primeiro processador de mainframe com duas arquiteturas, preparado para executar nativamente instruções IBM Z e Arm. O futuro chip, destinado a gerações posteriores do IBM Z e LinuxONE, foi anunciado com tecnologia de 2 nanômetros, 11 núcleos acima de 5,7 GHz, aceleradores de inteligência artificial, uma DPU dedicada a I/O e uma grande estrutura de cache.

Mas o que significa colocar Arm no mainframe? COBOL passará a executar em celular? Um aplicativo Android poderá entrar no JES2? O z/OS será substituído? E onde entram x86-64, AArch64 e s390x nessa oficina?

Vamos abrir o capô sob a tutela imaginária de Leonardo da Vinci.



Prólogo — O computador não entende COBOL

Esta revelação costuma assustar o padawan: o processador não entende COBOL, Java, Python ou C.

O processador entende instruções de máquina.

Quando escrevemos:

COMPUTE TOTAL = PRECO * QUANTIDADE

o compilador examina a frase COBOL e produz uma sequência de instruções compatível com a arquitetura de destino. Em um IBM Z, o resultado contém instruções da arquitetura Z. O fonte é legível para humanos; o executável é preparado para o processador e para o ambiente operacional.

Leonardo talvez comparasse isso aos seus projetos. O desenho de uma ponte representa uma ideia. Para construí-la, porém, alguém precisa converter o desenho em medidas, cortes, encaixes e operações compatíveis com os materiais disponíveis.

O código-fonte é o desenho. O compilador é o mestre da oficina. O binário é a coleção de ordens entregues às ferramentas.


1. ISA: o alfabeto secreto do processador

ISA significa Instruction Set Architecture, ou arquitetura do conjunto de instruções. Ela define o contrato entre software e processador:

  • instruções reconhecidas;

  • registradores disponíveis;

  • maneiras de acessar memória;

  • operações matemáticas e lógicas;

  • desvios e chamadas;

  • tratamento de exceções;

  • operações atômicas;

  • estados privilegiados usados pelo sistema operacional.

Três arquiteturas importantes nesta conversa são:

ArquiteturaOnde aparece principalmenteNome visto em ferramentas
x86-64PCs e servidores Intel/AMDx86_64, amd64
AArch64Arm de 64 bits, celulares, Apple Silicon e cloudaarch64, arm64
IBM ZMainframes e LinuxONEs390x em Linux

Elas podem realizar tarefas equivalentes, mas codificam as ordens de maneiras diferentes. É como escrever a mesma receita em português, italiano e japonês: o bolo pode ser o mesmo, mas não se lê um texto japonês aplicando automaticamente as regras do italiano.

Um programa compilado para x86-64 não se transforma em AArch64 apenas porque foi copiado. Da mesma forma, uma imagem arm64 não roda nativamente numa máquina que compreenda somente s390x.

Curiosidade de oficina

AMD64 e x86-64 normalmente designam a mesma arquitetura básica. O nome AMD64 existe porque foi a AMD que criou a extensão de 64 bits do x86 que venceu no mercado; a Intel depois adotou uma implementação compatível, comercialmente chamada Intel 64.

O pequeno detalhe histórico rende um belo easter egg: durante anos muita gente associou “x86” automaticamente à Intel, mas a estrada de 64 bits usada pela maioria dos PCs foi traçada pela concorrente.



2. x86-64: o palácio construído sem demolir as alas antigas

A linhagem x86 começou com o Intel 8086, lançado em 1978, e atravessou diversas gerações. Sua grande força foi preservar compatibilidade.

8086 → 80286 → 80386 → x86 de 32 bits → x86-64

É um palácio ampliado durante décadas. Novas alas foram construídas, corredores foram modernizados, elevadores foram instalados, mas várias portas antigas continuam ali porque alguém ainda pode precisar atravessá-las.

Essa herança aparece nos registradores:

RAX = 64 bits
EAX = 32 bits inferiores
 AX = 16 bits inferiores
 AL = 8 bits inferiores
 AH = outros 8 bits históricos

Também aparece nas instruções de comprimento variável. Uma instrução x86-64 pode ocupar quantidades diferentes de bytes. O processador precisa decodificar onde cada instrução começa, quais prefixos possui, quais operandos utiliza e onde termina.

Historicamente, x86 é classificada como CISC — Complex Instruction Set Computer. Algumas instruções podem realizar operações relativamente complexas ou trabalhar diretamente com valores na memória.

Mas não confunda complexidade da ISA com incompetência. Processadores AMD e Intel modernos são extraordinárias obras de engenharia. Internamente, eles frequentemente decompõem instruções x86 complexas em micro-operações menores, executam-nas fora de ordem, especulam desvios e reorganizam resultados mantendo a aparência exigida pelo programa.

Leonardo reconheceria a técnica: uma alavanca visível ao operador pode acionar uma engrenagem, que aciona três rodas, que movem seis peças. A interface externa parece simples; o mecanismo interno faz uma coreografia.



3. AArch64: uma nova oficina para os 64 bits

AArch64 é o estado de execução de 64 bits introduzido pela arquitetura Armv8-A. Também aparece como ARM64.

Ao contrário do x86-64, que estendeu uma longa linhagem, AArch64 foi desenhada como uma arquitetura de 64 bits mais regular. Suas instruções normalmente possuem 32 bits de comprimento, ou quatro bytes.

Ela oferece 31 registradores gerais visíveis, normalmente chamados X0 a X30. Para acessar os 32 bits inferiores, usa-se W0 a W30.

X0 = registrador de 64 bits
W0 = parte de 32 bits de X0

AArch64 segue a tradição RISC — Reduced Instruction Set Computer — e uma filosofia load/store. Operações aritméticas trabalham principalmente com registradores. Para manipular um valor guardado na memória, normalmente fazemos três movimentos conceituais:

  1. carregar o valor;

  2. executar a operação;

  3. gravar o resultado, se necessário.

Exemplo didático:

ldr x0, [x1]      // traz um valor da memória
add x0, x0, x2    // soma usando registradores
str x0, [x1]      // devolve o resultado à memória

Isso não quer dizer que Arm seja uma arquitetura “simples” ou “fraca”. Apple Silicon, AWS Graviton, Ampere e outros projetos demonstram que Arm pode alimentar computadores pessoais e servidores de alto desempenho.

RISC e CISC explicam estilos arquiteturais, não determinam sozinhos quem vence uma corrida. Frequência, cache, memória, processo de fabricação, unidades vetoriais, quantidade de núcleos, compilador e workload pesam enormemente.

Dica para o padawan

Nunca escreva numa apresentação que “Arm é mais rápido porque é RISC” ou “x86 é melhor porque possui instruções mais poderosas”. Isso seria como afirmar que COBOL sempre vence Java porque COMPUTE parece mais empresarial.

Peça o benchmark, conheça o workload e verifique o custo total.

4. A mesma aplicação, binários diferentes

Considere este pequeno programa em C:

int soma(int a, int b) {
    return a + b;
}

Um compilador para x86-64 poderia gerar, de forma simplificada:

mov eax, edi
add eax, esi
ret

Em AArch64, o mesmo fonte poderia resultar em:

add w0, w0, w1
ret

A finalidade é igual. Os registradores, instruções e bytes produzidos são diferentes.

Daí nasce uma regra essencial:

Fonte portátil não significa binário portátil.

Para portar uma aplicação, talvez baste recompilar. Porém, talvez o programa contenha assembler, bibliotecas fechadas, suposições sobre tamanho de dados, drivers particulares ou dependências não disponíveis. Nesses casos, a travessia torna-se mais trabalhosa.

Em COBOL conhecemos esse problema. Um fonte escrito seguindo padrões pode ser adaptado entre plataformas, mas um executável compilado para z/OS não é simplesmente copiado para IBM i, Windows ou Linux e executado como se nada tivesse acontecido.

5. ISA não é sistema operacional

Mesmo dois computadores que usem a mesma arquitetura podem não executar o mesmo binário.

Compare:

AArch64 + Linux
AArch64 + macOS
AArch64 + Windows

Todos podem usar processadores que entendem AArch64. Entretanto, os programas dependem também de:

  • formato do executável;

  • ABI, a interface binária da aplicação;

  • convenções de chamada;

  • bibliotecas;

  • carregador;

  • chamadas de sistema;

  • serviços do sistema operacional.

Portanto, um programa Linux Arm não se torna automaticamente um aplicativo macOS apenas porque ambos usam Arm.

Leonardo desenharia camadas concêntricas:

Aplicação
Bibliotecas e runtime
Sistema operacional
Virtualização e firmware
ISA
Microarquitetura e silício

O anúncio da IBM começa profundamente nas camadas inferiores, mas seu valor comercial dependerá de todas as camadas superiores.

6. Containers: o contêiner leva a casa, não leva o terreno

Existe um mito segundo o qual um container roda em qualquer lugar. Ele roda em qualquer ambiente compatível, o que é diferente.

Uma imagem OCI pode ser publicada para:

linux/amd64
linux/arm64
linux/s390x
linux/ppc64le

Um fornecedor pode manter o mesmo nome lógico, mas armazenar variantes com binários apropriados. O registry examina a arquitetura solicitada e entrega a imagem correta por meio de um índice ou manifesto multiarch.

O container empacota aplicação, bibliotecas e configuração, mas normalmente compartilha o kernel do host e continua dependendo da ISA. Ele leva os móveis e as paredes internas; não leva um planeta novo debaixo da casa.

Passo a passo para verificar uma imagem

  1. Consulte a documentação do fornecedor.

  2. Procure amd64, arm64 ou s390x nas plataformas suportadas.

  3. Examine o manifesto multiarch com uma ferramenta OCI ou Docker.

  4. Confirme que todas as dependências possuem a mesma arquitetura.

  5. Teste em ambiente controlado.

  6. Não confunda “iniciou” com “é oficialmente suportado”.

Essa última diferença evita muitos ABENDs administrativos. Uma aplicação pode funcionar no laboratório e ainda assim não possuir suporte do fabricante para produção.

7. Endianness: quando Leonardo escreve os bytes ao contrário

Leonardo ficou famoso por suas anotações espelhadas. Isso nos oferece uma analogia perfeita para endianness: a ordem em que os bytes de um número aparecem na memória.

Considere 0x12345678:

Big-endian:     12 34 56 78
Little-endian:  78 56 34 12

x86-64 é normalmente little-endian. Linux AArch64 também é normalmente little-endian. Linux s390x tradicionalmente trabalha em big-endian.

Ao trocar JSON, XML, mensagens MQ ou Protocol Buffers corretamente serializados, a camada de comunicação trata a representação. Ao compartilhar estruturas binárias brutas, o programador precisa ter cuidado.

Imagine gravar o tamanho de um pagamento em quatro bytes e o destinatário lê-los na ordem oposta. O valor de um cafezinho pode chegar ao sistema de liquidação vestido de aquisição corporativa.

Easter egg número 1

Se encontrar 0x4C454F perdido num exemplo hexadecimal, converta os bytes para ASCII. Leonardo deixou sua assinatura na oficina.

8. Emulação não é execução nativa

Quando um processador não entende a ISA de um programa, um tradutor pode intervir.

Binário x86-64
      ↓ tradução
Instruções AArch64
      ↓
Processador Arm

Rosetta 2 nos Macs Apple Silicon e mecanismos do Windows on Arm mostram que tradução pode oferecer excelente experiência. QEMU consegue emular diversas arquiteturas. Porém, existe uma camada adicional e nem toda instrução, extensão ou comportamento terá desempenho idêntico ao nativo.

Execução nativa ocorre quando o hardware compreende diretamente a ISA para a qual o binário foi produzido.

É exatamente por isso que o anúncio da IBM chama atenção: a empresa declara que não está colocando núcleos Arm separados nem oferecendo mera emulação. A proposta é integrar a ISA Arm aos próprios núcleos do futuro processador de mainframe.

9. O processador bilíngue da IBM

Segundo a IBM, cada núcleo poderá executar nativamente instruções IBM Z e Arm. Ambientes Linux Arm-native poderão operar simultaneamente com z/OS e Linux on IBM Z.

Isso não significa misturar instruções Arm dentro de um programa COBOL arbitrariamente. Tampouco significa copiar um APK para uma biblioteca de carga e executar:

//LEONARDO JOB CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP01   EXEC PGM=MONALISA
//STEPLIB  DD DSN=ANDROID.ARM64.LOAD,DISP=SHR

O JES2 provavelmente responderia com a serenidade de um monge e a crueldade de um auditor.

O cenário é de ambientes distintos sobre a mesma plataforma:

Processador dual-architecture
├── contexto IBM Z
│   ├── z/OS
│   └── Linux s390x
└── contexto Arm
    └── Linux AArch64

O hardware fala dois idiomas; sistemas operacionais e aplicações ainda ocupam seus ambientes apropriados.

10. O grande prêmio: levar o cálculo até os dados

Mainframes guardam dados críticos de bancos, seguradoras, governos, companhias aéreas e grandes varejistas. Hoje, um componente moderno frequentemente consulta esses dados atravessando redes, gateways e camadas de integração.

Aplicação externa → API → integração → CICS → Db2

Cada seta pode significar latência, criptografia, credenciais, filas, cópias, custo e um novo ponto de falha.

Se um serviço Arm-native puder operar dentro da mesma plataforma física, próximo ao CICS, IMS e Db2, torna-se possível mover parte do processamento até os dados em vez de exportar dados para todo processamento novo.

Exemplo: autorização de cartão

  1. CICS recebe a solicitação.

  2. COBOL valida conta, limite e regras consolidadas.

  3. Db2 fornece histórico relevante.

  4. Um serviço Arm-native executa uma biblioteca de análise comportamental.

  5. Um acelerador de IA calcula a probabilidade de fraude.

  6. O resultado volta à transação.

  7. RACF, criptografia e auditoria protegem e registram o processo.

COBOL não é substituído pela IA. O programa transacional ganha um conselheiro especializado.

O chip anunciado também inclui aceleração de inferência voltada a fraude durante transações e uma DPU dedicada a I/O. Isso combina com a tradição Z de não tratar movimentação de dados como tarefa secundária.

11. DPU: o mestre de logística da oficina

DPU significa Data Processing Unit. Ela pode descarregar tarefas relacionadas à movimentação e ao processamento de dados que, de outra forma, ocupariam os núcleos gerais.

Leonardo provavelmente desenharia a DPU como o encarregado do porto:

  • recebe cargas;

  • organiza filas;

  • movimenta contêineres;

  • controla rotas;

  • deixa o mestre artesão trabalhar na peça principal.

No mainframe, isso é quase uma tradição familiar. A plataforma sempre utilizou inteligência e componentes especializados para I/O, evitando que a CPU central carregue sozinha todos os baldes da cidade.

12. Frequência não é desempenho

O processador foi anunciado com mais de 5,7 GHz. O número impressiona, mas não pode ser usado sozinho para comparar máquinas.

Desempenho depende de:

  • instruções concluídas por ciclo;

  • previsão de desvios;

  • latência e tamanho dos caches;

  • largura de memória;

  • unidades vetoriais;

  • aceleração específica;

  • quantidade de núcleos;

  • sistema operacional;

  • compilador;

  • comportamento do workload.

Um motor girando mais depressa não necessariamente transporta mais carga. Precisamos conhecer torque, transmissão, peso e terreno.

No IBM Z importam também throughput sustentado, disponibilidade, isolamento, capacidade de recuperação e latência previsível. Ganhar uma corrida de dez segundos é diferente de processar milhões de transações diariamente sem derrubar a ponte.

13. O ecossistema Arm entra no castelo

A IBM aponta um universo superior a 22 milhões de desenvolvedores Arm. Esse é um dos argumentos estratégicos mais fortes.

Muitos projetos modernos são publicados primeiro para amd64 e arm64. Algumas bibliotecas, agentes, ferramentas de IA e imagens de containers não chegam a s390x, ou chegam posteriormente.

Ao executar Arm nativamente, o IBM Z pode reduzir a necessidade de portar cada componente antes de usá-lo. Isso poderá ampliar opções para:

  • containers;

  • microsserviços;

  • inferência de IA;

  • agentes de automação;

  • observabilidade;

  • segurança;

  • processamento de eventos;

  • ferramentas cloud-native.

Mas ampliar o mercado também amplia a cadeia de suprimentos. Uma imagem abandonada e repleta de vulnerabilidades não se torna segura apenas porque entrou num mainframe.

Serão indispensáveis:

  • SBOM;

  • assinatura de imagens;

  • verificação de procedência;

  • varredura de vulnerabilidades;

  • controle de privilégios;

  • política de atualização;

  • suporte do fornecedor;

  • observabilidade.

O RACF não asperge água benta sobre um container com senha admin123.

14. As perguntas que ainda não possuem resposta completa

O anúncio descreve uma direção tecnológica, não um manual de planejamento.

Ainda precisamos conhecer detalhes como:

  1. Uma LPAR será definida como Z ou Arm?

  2. PR/SM administrará os dois contextos de que maneira?

  3. z/VM ou KVM hospedarão guests Arm?

  4. Como HMC mostrará capacidade e consumo?

  5. Como serão dumps, traces e contadores de desempenho?

  6. OpenShift agendará pods s390x e arm64 no mesmo conjunto?

  7. Como funcionará compartilhamento de I/O e memória?

  8. Quais sistemas operacionais e versões serão suportados?

  9. Como será o licenciamento?

  10. Workloads Arm afetarão métricas tradicionais de software?

A TechChannel estimou disponibilidade em aproximadamente dois anos com base na cadência da IBM. Isso apontaria para algo por volta de 2028, mas não é uma data oficial de produto. A própria IBM classifica declarações futuras como objetivos sujeitos a alteração.

Dica de arquiteto

Separe sempre três colunas em suas anotações:

CategoriaExemplo
Confirmado2 nm, 11 núcleos, mais de 5,7 GHz e duas ISAs nativas
Objetivo declaradoLinux Arm-native ao lado de z/OS e Linux Z
Ainda não detalhadoLPAR, preços, licenciamento e versões suportadas

Essa disciplina impede que uma promessa de arquitetura seja apresentada ao cliente como feature disponível na próxima terça-feira.

15. Um roteiro de estudos para o programador COBOL

O iniciante não precisa abandonar COBOL e correr desesperadamente para assembler Arm. Pode avançar por etapas.

Etapa 1 — Entenda a pilha

Aprenda a distinguir:

fonte → compilador → objeto → linkedição → executável → sistema operacional → ISA

No mundo z/OS, relacione isso a compile, link-edit/binder, load module ou program object e execução via batch ou subsistema.

Etapa 2 — Reconheça arquiteturas

Memorize os três rótulos:

amd64  = x86-64
arm64  = AArch64
s390x  = IBM Z em Linux

Etapa 3 — Observe imagens multiarch

Escolha uma imagem conhecida, consulte seu manifesto e veja quais plataformas são publicadas. Perceba que o nome lógico pode esconder binários diferentes.

Etapa 4 — Aprenda integração

Estude:

  • APIs REST;

  • JSON;

  • MQ;

  • z/OS Connect;

  • CICS web services;

  • autenticação e autorização.

O futuro profissional valioso será a ponte entre o core e os serviços modernos.

Etapa 5 — Faça um laboratório mental

Desenhe uma aplicação COBOL que consulta Db2 e chama um serviço antifraude. Marque:

  • onde começa a transação;

  • quais dados saem;

  • qual identidade é usada;

  • qual timeout existe;

  • o que acontece se o serviço falhar;

  • como a operação será auditada.

Etapa 6 — Nunca esqueça o rollback

Se a análise Arm demorar ou ficar indisponível, a transação deve saber se recusa, aprova com limites ou encaminha para revisão. Modernização sem tratamento de falha é apenas uma demonstração com gravata.

16. O que isso representa para a carreira mainframe

O anúncio não reduz o valor do especialista Z; ele aumenta o território que esse profissional pode conectar.

As empresas precisarão de pessoas que compreendam simultaneamente:

COBOL + CICS + IMS + Db2 + RACF
                 ↕
Linux + Arm + containers + APIs + IA

O profissional raro não será necessariamente quem sabe decorar toda instrução de três arquiteturas. Será quem entende os contratos entre elas, reconhece riscos e desenha uma solução suportável.

O padawan COBOL deve aprender a conversar com desenvolvedores cloud sem desprezar o legado e sem aceitar que toda arquitetura nova seja automaticamente revolucionária.

Leonardo dominava pintura, anatomia, mecânica e hidráulica não porque confundia as disciplinas, mas porque sabia enxergar relações entre elas.

Esse é o modelo do novo arquiteto de mainframe.

17. Easter eggs da sala de máquinas

Alguns pequenos segredos para quem chegou até aqui:

  • Leonardo escrevia parte de suas notas de maneira espelhada; por isso ele foi escolhido como tutor da seção de endianness.

  • “A máquina voadora” simboliza tecnologias que podem ser tecnicamente brilhantes e ainda depender de materiais, operação e contexto para funcionar comercialmente.

  • O programa MONALISA no JCL não existe — ao menos até algum chimpanzé do Bellacosa Mainframe registrá-lo num PDS.

  • Se a futura plataforma receber um serviço chamado VITRUVIAN, verifique se ele escala proporcionalmente ou apenas posa dentro de um círculo.

  • O verdadeiro boss final não apareceu no silício: chama-se licenciamento.


Conclusão — O códice do mainframe bilíngue

x86-64, AArch64 e s390x são alfabetos de máquina diferentes. Um mesmo código-fonte pode ser compilado para mais de um deles, mas os binários produzidos não são intercambiáveis. Containers carregam aplicações e dependências, porém continuam presos à arquitetura e ao kernel compatível. Emulação traduz; execução nativa entrega as instruções diretamente ao hardware apropriado.

O projeto da IBM é histórico porque pretende colocar duas ISAs dentro dos próprios núcleos do futuro processador: IBM Z e Arm. Isso poderá permitir ambientes Linux AArch64 ao lado de z/OS e Linux s390x, aproximando software moderno dos dados e das transações centrais.

Não significa que z/OS executará qualquer aplicativo Arm, que COBOL será substituído ou que todas as dificuldades de integração desaparecerão. Sistemas operacionais, ABIs, bibliotecas, segurança, virtualização, endianness, suporte e licenciamento continuarão importando.

A grande mudança é outra:

Durante décadas, o software precisou aprender o idioma do mainframe. Agora o próprio mainframe está aprendendo um novo idioma sem esquecer aquele que protegeu sua história.

Leonardo fecha o caderno, observa o IBM Z e faz seu último desenho: de um lado, um programa COBOL sustentando as contas do banco; do outro, um serviço Arm trazendo IA e software cloud-native. Entre ambos, uma ponte feita de APIs, segurança, virtualização e disciplina operacional.

Antes de sair, ele escreve no quadro — desta vez da esquerda para a direita:

ISA NÃO É SISTEMA OPERACIONAL.
CONTAINER NÃO É EMULADOR.
FREQUÊNCIA NÃO É DESEMPENHO.
MODERNIZAÇÃO NÃO É APAGAR O PASSADO.

O programador iniciante pergunta:

— Mestre Leonardo, então qual é a verdadeira inovação?

Ele aponta para a máquina e responde:

— Não obrigar o passado e o futuro a disputarem a mesma cadeira. Construir uma mesa grande o suficiente para que ambos trabalhem juntos.

No fundo do CPD, alguém submete um job. O JES2 aceita. O serviço Arm responde. O Db2 confirma o COMMIT.

E, por uma vez, ninguém recebeu S0C7 por tentar interpretar os bytes ao contrário.


Fontes consultadas



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Homens de Preto no Data Center — Quando o Agente J Encontrou uma GPU no LinuxONE e Perguntou: “Isso Aqui É CUDA ou o Igor Colou um RTX no PCIe?”

 

Bellacosa Mainframe e a possivel ponte em ibm z e nvidia sera????

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Homens de Preto no Data Center — Quando o Agente J Encontrou uma GPU no LinuxONE e Perguntou: “Isso Aqui É CUDA ou o Igor Colou um RTX no PCIe?”

Ou: IBM colocou Arm dentro do futuro processador Z, NVIDIA já fala essa língua, o jovem padawan COBOL descobriu que uma placa gráfica não é um pendrive grande — e o Agente J precisou explicar DMA, IOMMU e LPAR antes que alguém chamasse o serviço de manutenção cósmica



Prólogo — uma luz estranha em Armonk

Agente J entrou na sala de máquinas com o Neuralyzer numa mão e um copo de café na outra.

— K, tem uma criatura de silício dizendo que o próximo IBM Z e LinuxONE pode executar Arm nativamente.

— Não a apague da memória, J. A IBM anunciou isso em 24 de agosto de 2026, durante o Hot Chips. É uma das notícias mais importantes para quem trabalha com mainframe desde que alguém resolveu chamar servidor de “legado” sem perceber que o legado estava pagando a conta do banco.

O anúncio descreve um futuro processador de dupla arquitetura para IBM Z e LinuxONE: em vez de haver um núcleo IBM de um lado e um núcleo Arm pendurado do outro, cada núcleo é projetado para executar instruções IBM e Arm de forma nativa. A meta é permitir ambientes Linux Arm ao lado de z/OS e do Linux que já vive em Z/LinuxONE. São planos de produto futuros, sujeitos a mudança; não existe, hoje, um menu da HMC com o botão “instalar CUDA e chamar a NVIDIA”. Mas o desenho muda a conversa inteira.

Para um programador COBOL iniciante, a notícia pode parecer distante. “Eu só quero meu READ, meu WRITE, um Db2 que não dê -911 e um CICS que não transforme a sexta-feira em incidente.” Justamente por isso ela importa. Mainframe não está virando PC gamer; está tentando deixar de ser uma ilha para uma parte maior da economia de software chegar perto daquilo que ele faz melhor: transações, dados críticos, disponibilidade e paranoia institucional bem aplicada.

Easter egg #1: o Agente J não disse “paranoia”. Ele disse “controle de acesso preventivo contra organismos com DMA”. O RACF aprovou a redação.


1. Primeiro: o que a IBM anunciou — e o que ela não anunciou

Vamos separar o café do conhaque.

A IBM anunciou uma direção arquitetural: processador futuro de 2 nm, 11 núcleos acima de 5,7 GHz, aceleradores de inferência e uma DPU de I/O no chip. O ponto realmente extraordinário é a implementação de AArch64/Arm em hardware, não por emulação. A IBM e a Arm dizem que a intenção é executar Linux Arm nativo simultaneamente com ambientes IBM tradicionais e herdar a escala, segurança e resiliência do Z/LinuxONE.

Ela não anunciou:

  • uma GPU NVIDIA certificada para Z ou LinuxONE;

  • CUDA em z/OS;

  • um driver NVIDIA s390x;

  • um DGX escondido dentro de um frame;

  • compatibilidade automática com qualquer placa comprada numa promoção suspeita.

Essa distinção protege você de duas doenças profissionais: o entusiasmo que vende PowerPoint como produto e o ceticismo que chama de “marketing” qualquer coisa que ainda não chegou ao rack. A posição correta é mais interessante: existe agora uma ponte arquitetural plausível; atravessá-la exige engenharia, qualificação e acordo comercial.



2. Por que Arm muda o problema da NVIDIA

Historicamente, Linux no IBM Z usa a arquitetura s390x. É excelente no seu território, mas possui um custo invisível: cada fornecedor externo precisa decidir se mantém outra compilação, outro pipeline de testes, outro driver de kernel, outra equipe de suporte e outra matriz de versões para um mercado menor que x86 e Arm.

Imagine que você escreveu um programa COBOL para ler um arquivo VSAM. Não basta entregar o fonte a alguém: é preciso compilador, copybooks, JCL, permissões RACF, dataset correto, testes e alguém responsável quando o job abendar às 02h17. Com uma GPU é igual, só que o “copybook” envolve firmware, PCIe, memória, interrupções e DMA.

NVIDIA já mantém uma pilha madura para Linux AArch64: driver, CUDA Toolkit, compiladores, bibliotecas como cuDNN e NCCL, PyTorch, TensorFlow e uma multidão de aplicações que nasceram para Arm em nuvens e servidores. Grace, Graviton, Ampere e Cobalt ajudaram a transformar Arm server em destino comercial sério.

Assim, a pergunta deixa de ser “NVIDIA, você pode criar e sustentar s390x?” e passa a ser “IBM, o seu ambiente Arm parece suficientemente um servidor Arm convencional para a pilha existente funcionar e ser suportada?”.

É uma diferença brutal:

Problema antigoProblema possível no novo cenário
Portar uma arquitetura inteiraQualificar uma plataforma Arm
Criar cadeia de ferramentasReutilizar uma cadeia AArch64
Testar um mercado exóticoTestar uma variante enterprise de Arm
Manter driver específico s390xAdaptar/validar driver Arm já existente

Não é garantia. É a troca de “construa uma estrada no oceano” por “a estrada chegou à fronteira; vamos inspecionar a ponte”.

3. Falar Arm não basta: o passaporte chamado SystemReady

Uma CPU saber executar instruções Arm é como o Agente J aprender um idioma alienígena. Útil, mas não informa em qual lado da rua ele deve dirigir, qual tomada existe no hotel ou se o passaporte abre a porta da alfândega.

Para Linux e drivers, o mundo abaixo da aplicação importa muito. Eles precisam reconhecer um ambiente previsível: firmware de boot, tabelas de hardware, relógios, controladores de interrupção, memória, PCIe, IOMMU, ACPI/UEFI e regras de descoberta de dispositivos. É isso que padrões como Arm SBSA, requisitos de boot e o programa Arm SystemReady tentam normalizar.

Relatos técnicos do Hot Chips indicam AArch64 v9.3, SVE/SVE2, operação little-endian do lado Arm e direção SystemReady. A consequência pretendida é preciosa: distribuições e binários Arm “de prateleira” teriam muito menos motivo para perguntar “que bicho é este?”. A própria NVIDIA construiu Grace mirando SBSA/SystemReady porque padrões reduzem o número de adaptações especiais que software precisa carregar.

Em linguagem de sala verde: SystemReady é a diferença entre receber um fonte COBOL e torcer para que compile, ou receber o fonte mais o padrão de dataset, o JCL, as PROCs, os parâmetros e a documentação de instalação. O primeiro funciona numa demo. O segundo tem chance de sobreviver à produção.

4. “Mas a GPU é PCIe; não é só encaixar?”

Não. E aqui o Agente J recolhe delicadamente a chave de fenda da mão do Igor.

PCIe é uma interconexão, não um contrato completo de convivência. A GPU precisa ser enumerada pelo sistema, expor regiões de memória mapeada (MMIO/BARs), gerar interrupções, ser reinicializada após falha, conversar com o driver e receber energia e refrigeração adequadas. O driver precisa enxergar topologia correta, páginas de memória, acesso DMA, recursos de virtualização e mecanismos de erro.

E uma GPU não fica esperando a CPU carregar cada byte como um garçom levando café de colher em colher. Ela usa DMA — Direct Memory Access. Simplificando, depois de autorizada, transfere dados diretamente entre sua memória e a memória do host. Isso é essencial para desempenho: modelos, tensores e lotes de inferência seriam ridiculamente lentos se cada movimento tivesse de passar pela CPU como um MOVE de bilhões de bytes.

No notebook de Igor, um driver malcomportado pode congelar a tela e produzir uma noite de palavrões. Em um LinuxONE, a máquina hospeda muitos clientes lógicos, com isolamento e disponibilidade que não podem depender de boa vontade de uma placa. Aí entra a IOMMU.

5. IOMMU: o segurança que não deixa a GPU passear pelo prédio

IOMMU significa, em essência, unidade que traduz e controla endereços de memória usados por dispositivos de I/O. Pense nela como o segurança de um edifício bancário. A GPU do LPAR A recebeu autorização para entrar na sala A-17; isso não lhe dá licença para testar todas as portas do corredor, muito menos alcançar a memória do LPAR B ou do ambiente de gestão.

Uma configuração segura precisa associar dispositivo, função virtual, LPAR e faixas de memória de maneira estrita. O driver pede uma operação; hardware e firmware garantem que o dispositivo veja apenas o que lhe foi atribuído. A ideia se parece com RACF: autenticar o usuário é apenas o começo; é a autorização de cada recurso que impede o desastre.

Mas atenção: “há IOMMU” não é uma frase mágica. Drivers NVIDIA têm requisitos e particularidades conforme GPU, kernel, topologia PCIe e virtualização. Há recursos de alta performance, como comunicação direta entre GPU e NIC, que podem depender de decisões de ACS, peer-to-peer e posicionamento físico. Em outras palavras: a placa pode funcionar para inferência simples e ainda não estar pronta para cada truque de HPC, NVLink ou multi-GPU.

6. LPAR, z/VM e a diferença entre dividir e bagunçar

Um LPAR é uma partição lógica: uma máquina dentro da máquina, separada por hardware e firmware. Para o iniciante, compare-o a uma região CICS muito séria, com seu próprio universo operacional — só que o isolamento não é mera convenção de software.

O caminho inicial mais sensato seria algo parecido com isto:

  1. A IBM certifica um modelo específico de GPU e o respectivo drawer PCIe.

  2. A HMC/firmware atribui a função física ou virtual a uma LPAR Arm Linux.

  3. Esse Linux vê um dispositivo PCIe compatível, carrega driver NVIDIA Arm64 e o CUDA runtime.

  4. O aplicativo usa a GPU; o IOMMU restringe o DMA à memória autorizada.

  5. Telemetria, manutenção, falhas e troca de peça entram no modelo operacional IBM.

O primeiro alvo não precisa ser compartilhar uma placa com trinta tenants. Pass-through para uma LPAR, bem cercado, já seria uma vitória enorme. Depois vêm os chefes de fase: MIG, vGPU, SR-IOV, cobrança, reset seletivo, migração, isolamento multi-tenant e recuperação automática.

7. Spyre: o precedente que ajuda, sem virar atalho enganoso

A IBM já vende o Spyre Accelerator para z17 e LinuxONE Emperor 5. É uma placa PCIe orientada a inferência e fine-tuning, com runtime, driver, firmware e integração de software próprios. A solução suporta até 48 placas em sistemas Z/LinuxONE e foi desenhada com appliances de suporte, funções virtuais, monitoramento e redundância de caminhos.

Isso importa porque prova uma coisa concreta: IBM não está começando agora a discutir “como colocar um acelerador poderoso, que faz DMA, num mainframe particionado sem transformar o equipamento numa lan house cósmica”. Ela já tem práticas para atribuição, saúde do dispositivo, tolerância a falha e operação.

Mas Spyre não é uma GPU NVIDIA pintada de azul. Ele é uma solução vertical: IBM controla hardware, firmware, compilador, runtime e o suporte. CUDA traria outro ecossistema, outra cadência de drivers e outra responsabilidade dividida. Spyre diminui o risco de integração; não elimina a negociação com NVIDIA.

8. Telum, Spyre e CUDA não são três nomes para a mesma coisa

TecnologiaOnde brilhaExemplo
TelumInferência muito próxima da transaçãoPontuar fraude durante a autorização
SpyreIA empresarial integrada e eficienteServir modelos e fine-tuning controlado
GPU NVIDIA/CUDAEcossistema amplo e computação aceleradaPyTorch, visão, LLMs, analytics e bibliotecas CUDA

O desenho vencedor não é substituir um pelo outro. É usar cada peça onde tem vocação.

Uma transação chega pelo CICS. O programa COBOL executa regras, chama Db2 e precisa decidir agora: aprovar, bloquear ou pedir segundo fator. Telum pode atender a inferência ultrarrápida. Um serviço Arm Linux pode, assíncronamente ou numa etapa apropriada, executar análise mais pesada em CUDA: enriquecer evento, correlacionar fraude, gerar explicação para analista, fazer busca vetorial, analisar imagens de documento ou retreinar um modelo.

O COBOL não precisa aprender CUDA para participar. Ele precisa aprender a pedir serviço de forma confiável: API, MQ, eventos, timeouts, idempotência, commit e rollback. O padawan que entende isso não vira passageiro do futuro; vira o adulto na sala quando alguém propõe chamar um modelo de 70 bilhões de parâmetros no meio de uma transação de 80 milissegundos.

Easter egg #2: o Agente J proibiu CALL 'CHATGPT' dentro do caminho crítico. Igor perguntou se ao menos poderia fazer um GOTO 9999 para o modelo. O Agente K desligou o monitor.

9. O inimigo físico: potência, calor e topologia

É tentador imaginar oito B200 surgindo de um drawer como alienígenas de um ovo. Só que uma GPU de datacenter de ponta pode consumir centenas de watts; sistemas HGX/NVSwitch exigem potência, refrigeração, espaço e rede próprios. NVLink não é “PCIe com café forte”.

Portanto, mesmo que CUDA se torne viável, o primeiro produto provável seria uma GPU PCIe específica e homologada para inferência ou aceleração selecionada, entregue a uma LPAR Arm. Um superpod para treinar modelo de fronteira provavelmente continuará sendo infraestrutura dedicada, conectada ao Z/LinuxONE por rede rápida e governada como outro domínio.

Mainframe não precisa vencer um DGX no campeonato errado. O valor está em reduzir a distância entre dado crítico, transação, segurança e capacidade de IA — sem copiar meio banco para uma plataforma externa só para fazer uma pergunta ao modelo.

10. Roteiro prático para o programador COBOL iniciante

Você não precisa comprar uma GPU nem decorar registradores Arm amanhã. Faça esta trilha:

  1. Domine transação. Entenda CICS, Db2, VSAM, unidade de trabalho, syncpoint, COMMIT e ROLLBACK. IA sem integridade transacional é Igor vendendo PIX por e-mail.

  2. Aprenda a fronteira. Veja JSON, HTTP, APIs REST, MQ e eventos. Seu COBOL continuará sendo o coração de muitos processos; ele precisa conversar sem acoplamento burro.

  3. Conheça Linux e containers. Não para abandonar Z, mas para entender onde os serviços Arm e IA vão viver. Um container não é uma LPAR; ambos isolam, mas em níveis diferentes.

  4. Entenda os quatro D’s. Dados, DMA, dispositivos e dependências. Pergunte sempre: onde o dado nasce, quem pode movê-lo, quem o enxerga e como o processo se recupera?

  5. Aprenda observabilidade. Latência, throughput, erro, saturação, logs e rastreamento. “A IA ficou lenta” não é diagnóstico; é o equivalente moderno a “deu ABEND”.

  6. Pense em governança. Modelo pode errar, vazar, enviesar e mudar. Dados bancários ou pessoais não ganham permissão para viajar só porque a demo ficou bonita.

11. As perguntas que realmente importam agora

Quando surgirem detalhes, não pergunte primeiro “quantos teraflops?”. Pergunte:

  • Qual nível de certificação SystemReady a IBM entregará?

  • Quais distribuições Arm bootam sem alteração?

  • Como PCIe e IOMMU aparecem para a LPAR Arm?

  • Haverá GPU pass-through? Virtualização? MIG/vGPU?

  • Quais modelos, drivers e versões CUDA serão homologados?

  • Como são feitos reset, firmware update, diagnóstico e failover?

  • Qual é a latência entre o dado em z/OS/Db2 e o serviço acelerado?

  • O caso de uso justifica trazer a IA para perto, ou MQ/API para infraestrutura externa já resolve melhor?

Essas perguntas são mais maduras que “roda Doom?”. Embora, em nome da ciência, o Agente J tenha anotado a segunda numa planilha confidencial.

Epílogo — a ponte não é o destino

A IBM não entregou CUDA no mainframe em agosto de 2026. Entregou algo talvez mais estratégico: uma tentativa de tornar o próximo Z/LinuxONE um anfitrião Arm suficientemente padrão para que ecossistemas já existentes possam reconhecê-lo.

Para NVIDIA, isso pode converter um port caro e exclusivo para s390x em uma qualificação de plataforma Arm. Para IBM, é uma maneira ousada de reduzir o isolamento histórico de sua arquitetura. Para clientes, pode significar aproximar software moderno e aceleradores dos dados mais críticos sem abandonar as qualidades que fizeram o mainframe sobreviver a cada funeral prematuro anunciado desde os anos 1980.

E para nós, do COBOL, a lição é confortavelmente simples: o futuro não exige que você esqueça o que sabe. Exige que você entenda onde seu programa termina, onde o serviço começa, como o dado atravessa a fronteira e quem responde quando a GPU, o driver ou o universo resolve dar ABEND.

O Agente K guardou o Neuralyzer.

— Então não apagamos a memória do anúncio?

— Não, J. Só colocamos uma nota no rodapé: “promissor, tecnicamente difícil, comercialmente aberto e absolutamente incapaz de ser instalado pelo Igor numa sexta-feira às 17h58”.

E, por uma vez, até o RACF concordou.


Fontes para continuar a investigação

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

CSI Las Vegas — O Caso do Agente Fantasma Afinal : Onde Mora o IBM Bob?

Bellacosa Mainframe e o caso do agente fantasma onde o ibm bob habita?

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

CSI Las Vegas — O Caso do Agente Fantasma

Afinal... Onde Mora o IBM Bob?

"Toda investigação começa com uma pergunta aparentemente simples. No CSI Las Vegas aprendemos que, muitas vezes, a resposta está escondida exatamente onde ninguém pensa em procurar."

A pergunta chegou ao laboratório Bellacosa Mainframe numa tarde qualquer.

"O IBM Bob mora dentro do Mainframe?"

Silêncio.

O programador COBOL olha para o SDSF.

O operador observa a JES2.

O Sysprog abre a SYS1.PROCLIB.

O Administrador RACF consulta os Started Tasks.

Nada.

Nenhum PROC chamado BOB.

Nenhuma SYS.BOB.LIB.

Nenhum BOBLOAD.

Nenhum BOBPROC.

Nenhum STC.

Então...

Onde diabos mora esse agente?

Pegue sua lanterna.

Hoje investigaremos uma das maiores cenas do crime da Inteligência Artificial aplicada ao IBM Z.


Cena do Crime

CSI Las Vegas.

Sala escura.

Monitores iluminando o laboratório.

Na parede um enorme diagrama do z/OS.

Grissom aproxima-se.

— Catherine...

Onde está o Bob?

Nick responde:

— Não encontramos nenhum dataset.

Sara consulta o catálogo.

LISTCAT LEVEL(SYS.BOB)

Resultado:

ENTRY NOT FOUND

Brass pergunta:

— Então ele não existe?

Grissom sorri.

— Existe.

Só não mora onde vocês estão procurando.



A Primeira Hipótese

Todo programador COBOL imagina algo parecido com isto.

SYS1.PROCLIB

↓

SYS1.PARMLIB

↓

SYS1.LINKLIB

↓

USER.COBOL

↓

COPYLIB

↓

JCLLIB

↓

SYS.BOB.LIB

Seria maravilhoso.

Uma biblioteca contendo:

BOB

BOBINIT

BOBPROC

BOBLOAD

BOBCFG

Mas isso simplesmente não existe.

Pelo menos não na arquitetura atual.


O Grande Engano

Nós, profissionais de mainframe, fomos treinados durante quarenta anos para acreditar que:

"Se executa alguma coisa...

ela deve morar em algum dataset."

É natural pensar assim.

O CICS mora em bibliotecas.

O DB2 mora em bibliotecas.

O IMS mora em bibliotecas.

O MQ mora em bibliotecas.

O RACF possui módulos.

O DFSORT possui módulos.

Até o ISPF possui bibliotecas.

Então...

onde mora Bob?

A resposta muda completamente nossa forma de pensar.



Bob não mora no z/OS

Bob é um serviço.

Mais precisamente,

um AI Software Engineer Service.

Ele vive em infraestrutura moderna.

Pode estar:

  • IBM Cloud

  • Linux

  • Kubernetes

  • OpenShift

  • LinuxONE

  • Cloud privada

  • Data Center corporativo

Mas normalmente

não dentro do Address Space do z/OS.


Pense no Banco de Dados

Imagine um programa COBOL.

READ CLIENTE

Os dados não estão no COBOL.

Estão no VSAM.

Agora imagine:

EXEC SQL
SELECT *
FROM CLIENTES

O DB2 não mora no COBOL.

Ele responde ao COBOL.

Bob faz exatamente isso.



O Novo Modelo Mental

Em vez disso,

pense assim.

                 IBM Bob

             AI Service

                 │

      HTTPS / MCP / APIs

                 │

      IBM Z Open Editor

                 │

          Seu Programa

                 │

              Mainframe

O Bob está do outro lado da conversa.


Quem faz a ponte?

Aqui entra um personagem novo.

O MCP.

Model Context Protocol.

Imagine o velho VTAM.

Ele ligava terminais.

O MCP liga Inteligências Artificiais.


Antes

3270

↓

VTAM

↓

CICS


Hoje

Bob

↓

MCP

↓

Git

↓

Filesystem

↓

Mainframe

↓

Cloud

↓

SQLite

↓

Appwrite

↓

GitHub

É o mesmo conceito.

Mudou apenas o protocolo.


O Investigador encontra uma pista

Sara abre o VS Code.

Existe um programa COBOL.

CLIENTE.CBL

Bob consegue explicar.

Grissom pergunta.

Como?

Será que Bob entrou no PDS?

Não.

Quem abriu o programa foi o editor.

O editor entregou o conteúdo ao Bob.


Quem entrega os COPYBOOKs?

Outra pergunta excelente.

Imagine.

COPY CLIENTE.

COPY CONTA.

COPY BMSMAP.

O editor conhece o projeto.

Ele resolve os COPYBOOKs.

Quando Bob precisa entender o código,

ele recebe esse contexto.

Não porque entrou no Mainframe.

Mas porque alguém lhe mostrou.


A mesma lógica vale para

  • JCL

  • PROC

  • SYSIN

  • SQL

  • REXX

  • CLIST

  • HLASM

Tudo depende do contexto entregue.



Então Bob nunca acessa o Mainframe?

Aí está o detalhe interessante.

Ele pode acessar.

Mas através de portas autorizadas.

Nunca "invadindo" o z/OS.

Por exemplo.


Caminho 1

VS Code

↓

Zowe Explorer

↓

z/OSMF

↓

REST

↓

Mainframe

Caminho 2

Bob

↓

MCP

↓

Git

↓

Pipeline

↓

DBB

↓

Mainframe

Caminho 3

Bob

↓

SSH

↓

USS

↓

Linux

Tudo depende da arquitetura.


LinuxONE entra na investigação

Agora a história fica muito mais interessante.

Imagine um datacenter IBM.

Rack

↓

IBM Z

+

LinuxONE

↓

Rede interna

↓

Storage

↓

OpenShift

O LinuxONE é um monstro.

Ele roda Linux.

Mas não é um Linux qualquer.

Ele compartilha muitas características do IBM Z.

Alta disponibilidade.

Segurança.

Virtualização.

Criptografia.

Escalabilidade absurda.


E se Bob morasse no LinuxONE?

Agora estamos falando.

Imagine.

LinuxONE

↓

OpenShift

↓

Container

↓

IBM Bob

Esse cenário faz muito sentido.

Porque:

  • baixa latência

  • segurança

  • sem sair do datacenter

  • integração corporativa


Bob e OpenShift

Imagine.

Pod

↓

IBM Bob

↓

MCP Server

↓

REST APIs

Tudo rodando localmente.

O Mainframe conversa pela rede interna.

Muito parecido com:

CICS

↓

MQ

↓

Application Server


O papel do Telum

Agora entra outro personagem.

Telum.

O processador do IBM Z.

Muita gente pensa:

"O Telum roda Bob."

Não exatamente.


O que Telum realmente faz?

Telum possui IA embarcada.

Mas ela foi criada para inferência transacional.

Exemplo.

Fraude bancária.

Cartão de crédito.

Detecção de risco.

Scoring.

Machine Learning.

Tudo isso acontece durante a própria transação.


Imagine.

Cliente compra.

↓

CICS.

↓

COBOL.

↓

DB2.

↓

Telum AI.

↓

Fraude detectada.

↓

Autoriza.

↓

Resposta.

Tudo em poucos milissegundos.


Então Bob usa Telum?

Hoje,

não diretamente.

Bob é um agente.

Telum é um acelerador de IA.

São papéis diferentes.

É como comparar.

Compilador COBOL

e

CPU

O compilador usa a CPU.

Mas não mora nela.


Poderia usar?

Perfeitamente.

Imagine uma arquitetura futura.

IBM Bob

↓

LLM

↓

Agente

↓

Inferência Telum

↓

Mainframe

Algumas decisões poderiam ser aceleradas pelo hardware.


O Grande Sonho do Sysprog

Agora imagine uma empresa.

Tudo dentro do próprio datacenter.

                  Firewall

                     │

────────────────────────────────────

             IBM Z

────────────────────────────────────

       z/OS

         │

    z/OSMF

         │

    REST APIs

────────────────────────────────────

     LinuxONE

────────────────────────────────────

 OpenShift Cluster

      │

 IBM Bob

 MCP Server

 Vector Database

 Granite LLM

 watsonx

────────────────────────────────────

      Storage

────────────────────────────────────

Observe.

Bob continua não morando no z/OS.

Mas mora ao lado.

Dentro da mesma empresa.


Como um Sysprog enxergaria isso?

Algo parecido com:

Users

↓

VS Code

↓

Bob

↓

MCP

↓

z/OSMF

↓

RACF

↓

Datasets

↓

JES2

↓

CICS

↓

DB2

Cada camada conversa apenas com a seguinte.


O papel do RACF

Outra pergunta importante.

Bob pode ler qualquer dataset?

Não.

Quem manda continua sendo o RACF.

Imagine.

USER

↓

RACF

↓

Permissão

↓

Dataset

Bob nunca deveria ultrapassar essas permissões.

Ele atua com as credenciais autorizadas.


E o Sysadmin?

O Sysadmin enxerga diferente.

Ele pensa.

CPU.

Containers.

Pods.

TLS.

Certificados.

Load Balancer.

Storage.

OpenShift.

Logs.

Monitoramento.

Prometheus.

Grafana.

Para ele,

Bob é apenas mais um serviço corporativo.


O Sysprog pensa diferente

Ele pensa.

SYS1.PARMLIB

LPAR

SMF

RMF

APF

LINKLIST

JES

RACF

WLM

Por isso existe a confusão.

Bob pertence mais ao universo DevOps do que ao universo clássico do z/OS.


E se IBM decidisse integrar tudo?

Agora começa a ficção científica.

Imagine.

IBM.BOB.STC

Started Task.

BOBPROC

PROC.

SYS1.BOBLIB

Biblioteca.

BOBCFG

Parâmetros.

BOBMCP

Servidor.

Tudo hospedado em USS.

Não é impossível.

Na verdade,

USS já permite executar aplicações Linux-like dentro do z/OS.

Poderíamos imaginar:

USS

↓

Container

↓

Granite

↓

MCP

↓

Bob

Embora hoje esse não seja o modelo oficial.


Easter Egg nº 1

Lembra quando dizíamos:

"O Mainframe é um computador enorme."

Hoje essa definição está errada.

O IBM Z virou um grande orquestrador.

Ele conversa com:

  • Linux

  • Cloud

  • Kubernetes

  • APIs

  • IA

  • Containers

O computador deixou de ser uma ilha.


Easter Egg nº 2

Nos anos 1980 perguntávamos:

"Onde está o programa?"

Hoje perguntamos:

"Onde está o serviço?"

É uma mudança filosófica enorme.


Easter Egg nº 3

Daqui a alguns anos,

talvez um novo programador pergunte:

"Onde mora o Agente?"

E o Sysprog responderá:

"Não importa onde ele mora.

Importa apenas qual identidade RACF ele usa."


Veredito do CSI Las Vegas

Grissom fecha a pasta da investigação.

Na primeira página está escrito:

O Caso do Agente Fantasma

Conclusão:

O IBM Bob não desapareceu.

Nunca esteve escondido em uma SYS.BOB.LIB.

Nunca foi um módulo APF.

Nunca ocupou uma PDSE ao lado dos seus COPYBOOKs.

Ele representa uma nova geração de software: serviços inteligentes distribuídos, acessados por protocolos modernos e integrados ao ecossistema corporativo.

Para o programador COBOL, isso pode parecer estranho no início. Afinal, passamos décadas procurando tudo em bibliotecas, PROCs, LOADLIBs e datasets catalogados. Mas o mundo mudou.

Hoje, o código continua vivendo no z/OS. Os dados continuam protegidos pelo RACF. Os JOBs continuam passando pelo JES2. O CICS continua processando milhões de transações e o Db2 continua armazenando o coração do negócio.

A novidade é que surgiu um novo colega de equipe.

Ele não mora na estante das bibliotecas.

Ele mora na rede.

Pode estar em um cluster OpenShift sobre LinuxONE, em uma nuvem privada IBM, integrado ao watsonx e aos modelos Granite, conversando com o z/OS por z/OSMF, Zowe, MCP e APIs seguras.

É como um consultor extremamente experiente sentado do outro lado do vidro da sala de operações. Ele não toca diretamente nos datasets nem invade o sistema. Observa o contexto que você lhe fornece, analisa, sugere, documenta, revisa e acelera o trabalho.

Talvez essa seja a maior transformação desde o surgimento do CICS ou do Db2: o conhecimento deixou de estar preso a uma biblioteca física e passou a existir como um serviço inteligente, distribuído, colaborativo e conectado.

E quem sabe, daqui a alguns anos, ao abrir um console do z/OS, o Sysprog encontre finalmente aquele velho sonho realizado:

===> START BOB

IEF403I BOB - STARTED

IBM AI Software Engineer ready.

Waiting for next mission...

Nesse dia, provavelmente Grissom apenas sorriria e diria:

"O agente nunca esteve perdido. Nós é que estávamos procurando no lugar errado."

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Big Green 2007: o Dia em que a IBM Avisou que o Data Center Ficaria sem Tomada — e Ninguém Imaginava que 19 Anos Depois Chegariam as GPUs

 

Bellacosa Mainframe e o legado do projeto Big Green de 2007

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Big Green 2007: o Dia em que a IBM Avisou que o Data Center Ficaria sem Tomada — e Ninguém Imaginava que 19 Anos Depois Chegariam as GPUs

🌱 z/VM, consolidação, Linux on System z, Project Big Green, LinuxONE, z17, IA, watts, megawatts e a perturbadora descoberta de que a resposta para a vida, o universo e tudo mais talvez continue sendo 42 — mas alguém precisa descobrir quantos kWh são necessários para calculá-la


NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Essa é provavelmente a primeira recomendação que deveria estar impressa em letras grandes e amigáveis na porta de qualquer data center moderno.

A segunda seria:

TRAGA UMA TOALHA.

A terceira, acrescentada pelo administrador do CPD:

E NÃO LIGUE MAIS NENHUM SERVIDOR SEM FALAR COM O ELETRICISTA.

Estamos em 2007.

O iPhone original acaba de aparecer.

Kubernetes não existe.

Docker não existe.

ChatGPT não existe.

Ninguém está perguntando ao computador se deve terminar o namoro.

Uma GPU ainda é, para a maioria das pessoas, aquela coisa que faz Crysis ficar bonito.

E, em algum escritório da IBM, alguém olha para milhares de servidores espalhados por data centers e percebe algo preocupante:

SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER
SERVER

        ↓

       ⚡⚡⚡

A IBM então faz aquilo que empresas de tecnologia costumam fazer quando descobrem que existe um problema enorme:

dá um nome para ele.

Em 10 de maio de 2007, nasce o:

PROJECT BIG GREEN

A IBM anunciou uma iniciativa de US$ 1 bilhão por ano em tecnologias e serviços voltados a melhorar a eficiência energética dos data centers. O projeto incluía uma equipe mundial de centenas de especialistas e atacava servidores, armazenamento, refrigeração, virtualização, gerenciamento e instalações. (IBM)

O detalhe delicioso?

Dezenove anos depois estamos discutindo exatamente o mesmo problema.

Só que agora alguém estacionou um caminhão cheio de GPUs na porta.


🌌 Capítulo I — No princípio havia o mainframe

Muito antes de alguém inventar:

VMware
Docker
Kubernetes
Cloud

o mainframe já tinha descoberto uma coisa fundamental:

computador parado é computador caro.

Imagine uma máquina física utilizada por uma única aplicação:

┌────────────────────┐
│      SERVIDOR      │
│                    │
│ CPU ███░░░░░░░ 30% │
│                    │
└────────────────────┘

Setenta por cento da capacidade pode permanecer ociosa durante boa parte do tempo.

Agora multiplique:

SERVER A → 15%
SERVER B → 20%
SERVER C → 8%
SERVER D → 12%
SERVER E → 27%
SERVER F → 6%

Todos ligados.

Todos consumindo energia.

Todos ocupando rack.

Todos precisando de refrigeração.

Todos possuindo componentes.

Todos precisando ser administrados.

O mainframe desenvolveu outra filosofia:

             MAINFRAME
                 │
        ┌────────┼────────┐
        │        │        │
       VM       VM       VM
        │        │        │
      Linux    Linux    Linux
        │        │        │
      APP A    APP B    APP C

Compartilhe o monstro.


🧙 Capítulo II — z/VM, o ancestral que ninguém convidou para a festa da virtualização

Quando a indústria começou a descobrir entusiasmada a virtualização de servidores x86, havia veteranos de mainframe olhando aquilo com a mesma expressão de um elfo de 4.000 anos vendo humanos descobrirem cerveja.

— Virtualização!

— Fascinante.

— Podemos executar várias máquinas virtuais numa máquina física!

— Sim.

— Isso é revolucionário!

— Naturalmente.

— Você não parece impressionado.

— Meu avô fazia isso.

A linhagem do VM da IBM remonta aos sistemas CP/CMS dos anos 1960 e posteriormente VM/370.

Décadas depois chegamos ao z/VM.

E o conceito fundamental continuava extraordinariamente atual:

HARDWARE
   │
 z/VM
   │
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   ├── Linux
   └── Linux

Em vez de possuir cem máquinas físicas para cem workloads, você poderia consolidar muitos deles.

Essa palavra — consolidação — será importantíssima para nossa história.

Porque o problema energético não é simplesmente:

Quanto uma CPU consome?

É também:

Quantas CPUs, fontes, placas-mãe, discos, interfaces, switches e ventiladores preciso manter ligados para entregar determinada quantidade de trabalho útil?


🐋 Capítulo III — Surge a epidemia do servidor pequeno

Nos anos 1990 e 2000, servidores Unix e depois x86 se multiplicaram.

Havia uma lógica perfeitamente razoável.

Uma aplicação?

Servidor.

Outra aplicação?

Outro servidor.

Banco?

Servidor.

Web?

Servidor.

E-mail?

Servidor.

Aplicação do departamento que ninguém sabe mais quem usa?

Naturalmente:

servidor.

Logo:

             DATA CENTER

 APP1 → SERVER
 APP2 → SERVER
 APP3 → SERVER
 APP4 → SERVER
 APP5 → SERVER
 APP6 → SERVER
 APP7 → SERVER
 APP8 → SERVER
 ...

Nasceu o famoso:

server sprawl.

O problema não era apenas comprar servidores.

Era alimentá-los.

Refrigerá-los.

Conectá-los.

Atualizá-los.

Monitorá-los.

Administrá-los.

E encontrar espaço físico para colocar todos.

Então alguém da IBM provavelmente contemplou aquilo e pensou:

Vocês passaram vinte anos fugindo de computadores grandes e agora construíram um computador grande utilizando cinco mil computadores pequenos.


🌱 Capítulo IV — 10 de maio de 2007: Big Green

Chegamos ao nosso momento histórico.

A IBM anuncia o Project Big Green.

O problema identificado era essencialmente:

CRESCIMENTO DA COMPUTAÇÃO
          ↓
MAIS SERVIDORES
          ↓
MAIS ELETRICIDADE
          ↓
MAIS CALOR
          ↓
MAIS REFRIGERAÇÃO
          ↓
MAIS ELETRICIDADE

Observe a perversidade.

Energia alimenta o computador.

O computador produz calor.

Você então utiliza mais energia...

para retirar o calor produzido pela primeira energia.

Douglas Adams provavelmente teria apreciado isso.

A solução Big Green não era simplesmente:

COMPRE MAINFRAME.

Era mais abrangente.

Envolvia:

            BIG GREEN
                │
 ┌──────────────┼──────────────┐
 │              │              │
COMPUTE       STORAGE       FACILITIES
 │              │              │
virtualização gerenciamento refrigeração
 │              │              │
consolidação   dados         energia

O projeto pretendia olhar para o data center como sistema.

Essa diferença é importante.


🐧 Capítulo V — 3.900 servidores entram num bar...

E apenas aproximadamente 30 mainframes saem.

Não é piada.

Em 1º de agosto de 2007, a IBM anunciou um dos experimentos mais espetaculares dessa estratégia:

consolidar aproximadamente 3.900 servidores em cerca de 30 System z.

A empresa estabeleceu como objetivo uma redução de aproximadamente 80% no consumo energético relacionado àquele ambiente ao longo de cinco anos. (IBM)

A arquitetura conceitual era:

ANTES

Unix  Unix  x86  Unix  x86
 x86  Unix  x86  x86  Unix
 x86  x86   x86  Unix x86
 ...
      ~3.900 servidores


              ↓


DEPOIS

        ~30 SYSTEM z
              │
            z/VM
              │
      Linux Linux Linux
      Linux Linux Linux
      Linux Linux Linux

Não estavam colocando 3.900 aplicações dentro de uma gigantesca imagem z/OS.

A estrela aqui era:

Linux on System z.

Isso é essencial para entender o restante da história.


🐧 Capítulo VI — “Mas mainframe não roda só COBOL?”

Não.

E aqui mora um dos mal-entendidos mais persistentes sobre IBM Z.

Você pode ter:

IBM Z
 │
 ├── z/OS
 │    ├── COBOL
 │    ├── CICS
 │    ├── Db2
 │    └── IMS
 │
 └── Linux
      ├── Java
      ├── databases
      ├── middleware
      └── aplicações open source

Portanto, a proposta Big Green podia dizer ao cliente:

Não precisa reescrever seu servidor Linux em COBOL.

O COBOLzeiro no fundo da sala:

— Pena.

O arquiteto:

— Não ajude.

Você poderia mover workloads Linux para uma plataforma altamente consolidada.

E z/VM funcionava como peça fundamental dessa equação.


⛽ Capítulo VII — O mainframe ganha marcador de combustível

Em outubro de 2007, IBM avançou ainda mais na conversa sobre energia com aquilo que ficou conhecido como:

Mainframe Gas Gauge.

A ideia era fantástica em sua simplicidade.

Se energia virou recurso de data center, precisamos medi-la como recurso operacional.

Pense:

        PAINEL DO MAINFRAME

CPU      ███████░░░ 70%

MEMORY   ██████░░░░ 60%

I/O      █████░░░░░ 50%

POWER    ███████░░░ 70%

Isso representa uma mudança conceitual enorme.

O capacity planner tradicionalmente perguntava:

Quantos MIPS?

Quantos MSUs?

Quanto DASD?

Quanto storage?

Quanto CPU?

Agora precisava acrescentar:

Quantos WATTS?

E essa pequena pergunta de 2007 acabaria virando uma pergunta monstruosa em 2026:

QUANTOS MEGAWATTS?

🪐 Capítulo VIII — Enquanto isso, nasce outra criatura: cloud

Agora nossa história sofre uma reviravolta digna do Restaurante no Fim do Universo.

IBM tinha diagnosticado corretamente:

SERVIDORES SUBUTILIZADOS
        =
DESPERDÍCIO

Mas o mercado encontrou outra solução.

Em vez de:

MEUS 5.000 SERVIDORES
        ↓
      IBM Z

surgiu:

MEUS 5.000 SERVIDORES
        ↓
 NÃO SÃO MAIS MEUS
        ↓
      CLOUD

Genial.

O servidor desapareceu!

Exceto...

não desapareceu.

Mudou de endereço.

EMPRESA

 servidor servidor servidor

          ↓ CLOUD

HYPERSCALER

 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor
 servidor servidor servidor

A cloud pegou vários princípios economicamente semelhantes:

consolidação, virtualização, compartilhamento, automação e melhor utilização da infraestrutura.

Só os aplicou numa escala completamente diferente.


☁️ Capítulo IX — Someone Else's Computer

A famosa piada diz:

The cloud is just someone else's computer.

É uma simplificação, mas contém uma verdade física maravilhosa.

Quando você executa:

CREATE INSTANCE

não ocorre:

☁️
✨
COMPUTADOR
✨

Em algum lugar existe:

DATA CENTER
    │
   RACK
    │
 SERVER
    │
 CPU
 RAM
 NIC
 SSD
    │
    ⚡

A cloud tornou capacidade programável.

Não tornou capacidade infinita.

Essa distinção nos traz diretamente de volta ao Big Green.


🐧 Capítulo X — 2015: LinuxONE aparece

Agora avance oito anos.

17 de agosto de 2015.

A IBM lança oficialmente:

LinuxONE

Os dois nomes originais eram deliciosamente grandiosos:

LinuxONE Emperor

LinuxONE Rockhopper

O Emperor era destinado a grandes organizações; o Rockhopper, a configurações menores. A IBM dizia que o Emperor poderia escalar para milhares de máquinas virtuais ou containers e destacava compatibilidade com software aberto. (Investing.com)

A mensagem era clara.

Você diz:

— Quero Linux.

IBM:

— Certo.

— Open source.

— Certo.

— PostgreSQL.

— Certo.

— Containers.

— Certo.

— Então não quero mainframe.

IBM:

— Temos uma surpresa sobre a caixa onde tudo isso está rodando.

😄


🌱 Capítulo XI — Big Green não morreu; sofreu um RENAME

Esta é minha interpretação histórica favorita.

Não existe uma linha simples:

PROJECT BIG GREEN
        ↓
     SUCESSO

nem:

PROJECT BIG GREEN
        ↓
     FRACASSO

O que aconteceu foi mais interessante.

O branding Big Green desapareceu gradualmente.

Mas seus princípios foram absorvidos.

              BIG GREEN
                  │
                  ↓
           CONSOLIDAÇÃO
                  │
                  ↓
          LINUX ON SYSTEM z
                  │
                  ↓
              LinuxONE
                  │
                  ↓
            HYBRID CLOUD
                  │
                  ↓
          IBM Z + LinuxONE
                  │
                  ↓
                 IA

A campanha morreu.

A pergunta permaneceu:

Quanto trabalho útil conseguimos realizar utilizando determinada quantidade de infraestrutura?


🧮 Capítulo XII — O erro de medir apenas preço por servidor

Imagine:

Arquitetura A

1.000 servidores baratos

Arquitetura B

10 máquinas extremamente caras

Perguntar:

Qual servidor é mais barato?

é quase inútil.

Precisamos calcular:

CUSTO TOTAL
────────────
TRANSAÇÕES

E também:

TRANSAÇÕES / WATT

TRANSAÇÕES / RACK

TRANSAÇÕES / m²

TRANSAÇÕES / ADMINISTRADOR

Além de:

software
licenciamento
networking
storage
backup
energia
refrigeração
operações
downtime
segurança

É o famoso:

TCO — Total Cost of Ownership.

O servidor barato pode gerar arquitetura cara.

O servidor caro pode gerar arquitetura barata.

Ou vice-versa.

A resposta correta da engenharia é aquela frase profundamente irritante:

Depende.


🤖 Capítulo XIII — Então chegou a IA

E agora nossa história enlouquece.

Durante anos, Big Green estava preocupado com:

CPU
CPU
CPU
CPU

Então chegaram os aceleradores.

GPU GPU GPU GPU
GPU GPU GPU GPU
GPU GPU GPU GPU

Modelos modernos de IA podem exigir enormes clusters de aceleradores para treinamento. A própria infraestrutura de desenvolvimento de IA generativa da IBM descreve cenários nos quais milhares de GPUs precisam cooperar em um único treinamento. (arXiv)

De repente:

WATTS
  ↓
kW
  ↓
MW
  ↓
GW?

E alguém na sala diz:

— Precisamos escalar o cluster.

O eletricista pergunta:

— Quanto?

O cientista de dados responde:

— Muito.

— Isso não é unidade.

— Então... absurdamente muito.


⚡ Capítulo XIV — O último megawatt

Agora ligamos este artigo à nossa investigação anterior sobre data centers brasileiros.

O limite computacional moderno começa a envolver:

CPU
GPU
RAM
STORAGE
NETWORK
    │
    ↓
POWER
    │
    ↓
COOLING
    │
    ↓
SUBSTATION
    │
    ↓
TRANSMISSION
    │
    ↓
GENERATION

Eis o detalhe quase filosófico:

quanto mais abstrata ficou a computação...

mais importante voltou a ficar a infraestrutura física.

SERVER
   ↓
VM
   ↓
CONTAINER
   ↓
KUBERNETES
   ↓
CLOUD
   ↓
AI
   ↓
...
   ↓
USINA ELÉTRICA

Parabéns.

Depois de cinquenta anos subindo camadas de abstração, encontramos a tomada.


🧠 Capítulo XV — 8 de abril de 2025: z17 encontra a IA

Agora chegamos ao IBM z17.

A IBM anunciou o sistema em 8 de abril de 2025, descrevendo-o como seu primeiro mainframe inteiramente projetado para a era da IA.

No coração está o:

Telum II.

Acelerador de IA integrado ao processador.

A IBM afirma, para uma configuração e modelo de referência específicos, capacidade superior a 450 bilhões de operações de inferência em um dia, com resposta de aproximadamente 1 ms. O z17 foi anunciado com 50% mais capacidade diária de inferência de IA que o z16. (IBM Brasil Newsroom)

Anúncio oficial do IBM z17 — 8 de abril de 2025

Isso representa uma estratégia muito interessante.

Em vez de:

TRANSAÇÃO
    │
    ↓
MAINFRAME
    │
    ↓
NETWORK
    │
    ↓
GPU FARM
    │
    ↓
AI
    │
    ↓
NETWORK
    │
    ↓
MAINFRAME

certos modelos de inferência podem operar muito próximos da própria transação:

TRANSAÇÃO
    │
    ├── BUSINESS LOGIC
    │
    └── AI INFERENCE
            │
            ↓
         DECISION

Fraude é um exemplo perfeito.


💳 Capítulo XVI — IA perto do dinheiro

Imagine uma compra:

R$ 7.850
03:17
local incomum
dispositivo novo
comportamento estranho

O sistema tradicional pode executar regras:

IF VALOR > LIMITE
   PERFORM ANALISE-FRAUDE
END-IF.

Agora podemos adicionar modelos:

TRANSACTION
     │
     ↓
AI MODEL
     │
     ├── normal → APPROVE
     │
     └── anomalous → REVIEW/BLOCK

Quanto menor a latência entre:

TRANSAÇÃO

e:

INFERÊNCIA

melhor.

Portanto, IA no mainframe não significa necessariamente:

treinar o próximo GPT no z/OS.

Esse seria um entendimento errado.

A proposta mais interessante é:

inferência empresarial próxima dos dados e das transações.


🐬 Capítulo XVII — E as GPUs não vão embora

Isso também precisa ficar claro.

z17 não matou GPU.

LinuxONE não matou x86.

Cloud não matou mainframe.

Mainframe não matou cloud.

A arquitetura futura provavelmente será:

                   WORKLOAD

                      │
       ┌──────────────┼──────────────┐
       │              │              │
       ↓              ↓              ↓
     IBM Z          GPU FARM       CLOUD
       │              │              │
transactional AI   training      elastic compute
core banking       huge models   applications
low latency        HPC           analytics

O segredo será:

colocar cada workload onde ele faz mais sentido.


🏗️ Capítulo XVIII — 7 de julho de 2026: o mainframe entra no rack

E chegamos a um acontecimento recentíssimo.

Em 7 de julho de 2026, IBM anunciou novas configurações compactas para z17 e LinuxONE 5, incluindo single-frame e rack-mount em toda a família.

Pela primeira vez, IBM oferece rack mount ao lado das opções tradicionais em todo o portfólio Z/LinuxONE. (IBM Newsroom)

IBM z17 e LinuxONE 5 compactos — anúncio de 7 de julho de 2026

E leia o contexto escolhido pela própria IBM.

O anúncio fala explicitamente sobre organizações enfrentando baixa disponibilidade de espaço em data centers e altos custos por capacidade elétrica. (IBM Newsroom)

É quase possível ouvir um fantasma de 2007 dizendo:

— Big Green.


🌱 Capítulo XIX — O círculo fecha

Agora podemos montar nossa linha do tempo.

1960s
CP/CMS
   │
   ↓
1970s
VM/370
   │
   ↓
z/VM
   │
   ↓
LINUX ON MAINFRAME
   │
   ↓
2007
PROJECT BIG GREEN
   │
   ↓
CONSOLIDAÇÃO
EFICIÊNCIA
ENERGIA
   │
   ↓
2015
LinuxONE
   │
   ↓
HYBRID CLOUD
   │
   ↓
2025
z17 + TELUM II
   │
   ↓
2026
z17 / LinuxONE 5
RACK MOUNT
   │
   ↓
AI + DATACENTERS
   │
   ↓
MEGAWATTS

Essa não é uma evolução linear planejada desde os anos 1960.

Seria absurdo afirmar isso.

Mas existe uma continuidade conceitual extraordinária:

aumentar utilização e consolidar trabalho.


🧪 Capítulo XX — O grande teste: realidade versus marketing

Agora precisamos fazer aquilo que todo COBOLzeiro deveria aprender cedo:

IF MARKETING
   PERFORM VALIDATE-CLAIM
END-IF

Quando IBM diz:

80% menos energia

ou:

milhares de servidores consolidados

pergunte:

comparado com quê?

Depois:

qual workload?

Depois:

qual utilização?

Depois:

qual configuração?

Depois:

inclui storage?

Depois:

inclui refrigeração?

Depois:

inclui software?

Depois:

qual período?

Isso vale para IBM.

AWS.

Microsoft.

Google.

NVIDIA.

Qualquer fabricante.

Um benchmark sem contexto é como:

DISPLAY "42".

Pode ser a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

Mas continuamos sem saber qual era a pergunta.


🌍 Capítulo XXI — Big Green estava certo?

Agora podemos finalmente julgar.

Previsão:

Energia se tornará restrição importante dos data centers.

Correta.

Previsão:

Consolidação será importante.

Correta.

Previsão:

Virtualização aumentará utilização.

Correta.

Previsão:

Precisaremos medir energia como recurso computacional.

Corretíssima.

Previsão implícita:

Mainframe absorverá enormes quantidades do server sprawl mundial.

Não aconteceu na dimensão que aquela narrativa comercial poderia sugerir.

O mercado escolheu também:

x86
+
virtualization
+
hyperscale
+
cloud

E depois:

containers
+
Kubernetes

Mas isso não refutou o problema.

Encontrou outra maneira de administrá-lo.


☁️ Capítulo XXII — Cloud é o Big Green do outro lado do espelho?

Existe uma provocação interessante aqui.

IBM dizia:

CONSOLIDE
MUITOS SERVIDORES
EM MENOS SISTEMAS.

Hyperscalers disseram:

ENTREGUE OS SERVIDORES
PARA NÓS.

NÓS CONSOLIDAMOS.

São arquiteturas radicalmente diferentes.

Mas existe parentesco econômico:

EVITAR OCIOSIDADE
       +
COMPARTILHAR RECURSOS
       +
AUTOMATIZAR
       +
AUMENTAR UTILIZAÇÃO

A cloud não destruiu necessariamente a tese do Big Green.

Em certo sentido, industrializou parte dela.


🧑‍🚀 Capítulo XXIII — Guia do Mochileiro para o programador COBOL

Se você está começando agora, grave estas regras.

1. Não confunda máquina virtual com máquina imaginária.

Existe hardware embaixo.

2. Não confunda elasticidade com infinito.

AUTO-SCALING != MAGIC

3. Aprenda virtualização.

Entender z/VM ajuda enormemente a compreender cloud.

4. Aprenda capacity planning.

CPU continua existindo.

Memória continua acabando.

5. Acrescente energia ao modelo mental.

O capacity planner moderno precisa entender:

COMPUTE
+
POWER
+
COOLING

6. Não transforme arquitetura em religião.

Mainframe não é resposta para tudo.

Cloud não é resposta para tudo.

GPU não é resposta para tudo.

Kubernetes definitivamente não precisa rodar sua torradeira.

Ainda.

7. Sempre procure o custo sistêmico.

Não compare simplesmente:

CPU A vs CPU B

Compare:

SERVIÇO ENTREGUE
────────────────
CUSTO TOTAL

🐳 Capítulo XXIV — O elefante, a baleia e o mainframe

Douglas Adams escreveu sobre criaturas gigantescas surgindo em lugares improváveis.

Nossa indústria também possui algumas.

Durante décadas disseram que o mainframe desapareceria.

Ele viu:

client/server
Unix
Windows NT
Java
x86
VMware
cloud
containers
Kubernetes
serverless
AI

passarem pela porta.

Em 2026 ele continua sentado no CPD.

Agora alguém pergunta:

— Você ainda está aqui?

IBM Z responde:

— Sim.

— Mas agora temos IA.

— Também.

— Linux?

— Sim.

— Containers?

— Sim.

— APIs?

— Sim.

— Cloud híbrida?

— Sim.

— Eficiência energética?

O mainframe olha para uma pasta empoeirada:

PROJECT BIG GREEN
2007

— Engraçado você perguntar.


⚡ Capítulo XXV — O paradoxo final da abstração

A história da computação moderna parece uma tentativa constante de esconder a física.

Primeiro escondemos hardware com:

OPERATING SYSTEM

Depois:

VIRTUAL MACHINE

Depois:

CONTAINER

Depois:

ORCHESTRATOR

Depois:

CLOUD

Depois:

SERVERLESS

Serverless!

O próprio nome é maravilhoso.

É como chamar restaurante de:

KITCHENLESS

porque você não consegue ver a cozinha.

🤣

Então chegou IA consumindo tanta infraestrutura que fomos obrigados a seguir a abstração ao contrário:

AI
 ↓
MODEL
 ↓
GPU
 ↓
SERVER
 ↓
RACK
 ↓
DATA CENTER
 ↓
SUBSTATION
 ↓
POWER GRID
 ↓
POWER PLANT

Encontramos novamente a física.


🌌 Capítulo XXVI — E finalmente descobrimos a pergunta cuja resposta é 42

Deep Thought levou 7,5 milhões de anos para calcular:

42.

Infelizmente ninguém sabia exatamente qual era a pergunta.

Em 2026 finalmente descobrimos.

Um arquiteto entra no data center.

Pergunta:

— Quantas GPUs ainda posso instalar nesse rack?

O facility manager consulta o painel.

Olha a alimentação elétrica.

Consulta refrigeração.

Volta.

42.

O arquiteto fica emocionado.

— A resposta para a vida, o universo e tudo mais!

— Não.

— Não?

— Depois da quadragésima segunda derruba o disjuntor.


☕ Epílogo — O Restaurante no Fim do Data Center

São 23h59.

Em algum lugar do universo, existe um restaurante construído ao lado do último data center ainda com capacidade elétrica disponível.

Sentados à mesa estão:

um programador COBOL de 1978;

um administrador VM de 1985;

um especialista Linux de 2000;

um engenheiro Big Green de 2007;

um arquiteto cloud de 2017;

um engenheiro Kubernetes de 2020;

e um cientista de IA de 2026.

O garçom aproxima-se.

— O que desejam?

O COBOLzeiro:

— Café.

O administrador VM:

— Café.

O arquiteto cloud:

— Café serverless.

O garçom:

— Senhor, alguém ainda precisa fazer o café.

— Estragou a arquitetura.

O cientista de IA abre o notebook.

— Vou executar um modelo de 400 bilhões de parâmetros para decidir o que pedir.

As luzes piscam.

Todos olham para ele.

WARNING

DATA CENTER POWER
98%

O engenheiro Big Green lentamente tira uma pasta da mochila.

Na capa:

IBM
PROJECT BIG GREEN

10 MAY 2007

O cientista de IA pergunta:

— O que é isso?

— Uma mensagem do passado.

— Sobre inteligência artificial?

— Não.

— Cloud?

— Não.

— GPUs?

— Também não.

— Então sobre o quê?

O engenheiro abre o documento.

Tomadas.

Silêncio.

O veterano do z/VM começa a rir.

O COBOLzeiro levanta sua caneca.

Porque finalmente percebe a extraordinária circularidade daquela história:

z/VM
   │
   ↓
VIRTUALIZAÇÃO
   │
   ↓
CONSOLIDAÇÃO
   │
   ↓
BIG GREEN
   │
   ↓
LINUX ON SYSTEM z
   │
   ↓
LinuxONE
   │
   ↓
HYBRID CLOUD
   │
   ↓
z17
   │
   ↓
IA
   │
   ↓
MEGAWATTS
   │
   ↓
...

E depois de sessenta anos de engenharia:

        ┌───────────────┐
        │               │
        │    TOMADA     │
        │      ⚡       │
        │               │
        └───────────────┘

Voltamos ao início.

O velho engenheiro IBM fecha a pasta.

— Em 2007 chamamos isso de Big Green.

O engenheiro Kubernetes pergunta:

— E hoje?

Ele olha para o painel:

POWER CAPACITY: 99%

Pensa alguns segundos.

— Hoje chamamos de terça-feira.


🌱 A moral do Guia do Mochileiro do Mainframe

O Project Big Green de 2007 não venceu o mundo como marca comercial. Cloud e hyperscale acabaram seguindo caminhos diferentes daqueles que uma estratégia centrada no System z poderia sugerir.

Mas sua tese central envelheceu extraordinariamente bem:

Computação não deve ser medida apenas pela potência do processador, mas pelo trabalho útil entregue em relação aos recursos físicos necessários para sustentá-la.

A IBM passou daquela discussão para Linux on System z, depois LinuxONE — lançado em 2015 — e hoje chega ao z17, anunciado em 8 de abril de 2025 com Telum II e aceleração de IA integrada. (Investing.com)

Em julho de 2026, quando a IBM anunciou versões compactas e rack-mount de z17 e LinuxONE 5, voltou a mencionar explicitamente um mundo no qual espaço e capacidade elétrica dos data centers tornaram-se recursos cada vez mais preciosos. (IBM Newsroom)

Portanto:

2007

IBM:
"PRECISAMOS PENSAR
EM COMPUTAÇÃO POR WATT."


2026

IA:
"PRECISO DE OUTRO
CLUSTER DE GPUs."


DATA CENTER:
"PRECISO DE OUTRA
SUBESTAÇÃO."


REDE ELÉTRICA:
"PRECISO DE OUTRA
LINHA DE TRANSMISSÃO."


IBM BIG GREEN:
        ☕

Talvez a maior piada cósmica seja justamente essa.

Passamos décadas discutindo se o futuro seria mainframe, Unix, x86, cloud, Kubernetes ou IA.

E esquecemos que todos eles pertencem à mesma arquitetura fundamental:

//UNIVERSE JOB

//STEP01 EXEC PGM=COMPUTE

//POWER   DD *
          ELECTRICITY
/*

Sem POWER:

IEF450I
UNIVERSE - ABEND=S0WATT

E se isso acontecer...

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Pegue sua toalha.

Pegue seu café.

E, antes de pedir mais 10.000 GPUs,

pergunte ao pessoal do Facilities.

Fim do café — e lembre-se: 42 continua sendo uma excelente resposta, desde que o disjuntor aguente.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...