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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Primeira Mão: Willy Wonka, COBOL e o Marketplace de Papel que Vendia de Fusca a Emprego Antes de Existir LinkedIn

 

Bellacosa Mainframe e o classificado jornal primeira mao

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Primeira Mão: Willy Wonka, COBOL e o Marketplace de Papel que Vendia de Fusca a Emprego Antes de Existir LinkedIn

🍫 Carros, empregos, apartamentos, computadores, anúncios microscópicos, telefones, bancas e o estranho mundo onde milhares de desconhecidos faziam negócios sem login, reputação, Pix ou botão “Comprar agora”

Imagine, jovem padawan do COBOL, que estamos em São Paulo.

Ano: 1995.

Você quer comprar um carro usado.

Hoje a operação seria trivial.

Abre um aplicativo.

Seleciona:

MARCA       = VOLKSWAGEN
MODELO      = GOL
ANO         >= 1992
PRECO       <= 10000
CAMBIO      = MANUAL
LOCALIZACAO = SAO PAULO

Clica em pesquisar.

Em alguns milissegundos aparecem fotografias, preços, localização, quilometragem, telefone, financiamento e talvez até avaliações do vendedor.

Em 1995?

HAHAHAHAHAHA.

Meu caro COBOLzeiro...

pegue uma cadeira.

Porque vamos visitar a fábrica de chocolate de Willy Wonka da economia analógica brasileira.

E nosso bilhete dourado chama-se:

PRIMEIRA MÃO

Um jornal que, para quem olha hoje, parece simplesmente uma pilha de classificados.

Mas não se engane.

Aquilo era muito mais interessante.

O Primeira Mão era banco de dados.

Era mecanismo de busca.

Era marketplace.

Era classificados.

Era recrutamento.

Era catálogo de automóveis.

Era imobiliária distribuída.

Era mural de empregos.

Era rede de contatos.

Era uma espécie de LinkedIn popular.

Era OLX antes da OLX.

Era Mercado Livre sem Mercado Livre.

Era busca sem Google.

E tudo isso rodando numa infraestrutura extraordinariamente sofisticada chamada:

papel + telefone + banca de jornal + seres humanos.

Coloque seu capacete.

Willy Wonka abriu o elevador de vidro.

E desta vez o botão diz:

CLASSIFICADOS.


CAPÍTULO I — NÃO HAVIA CAMPO DE PESQUISA

A primeira coisa que precisamos explicar ao programador nascido no mundo digital é algo quase arqueológico:

encontrar coisas era difícil.

Você queria comprar um carro?

Precisava descobrir quem estava vendendo.

Queria vender uma geladeira?

Precisava encontrar alguém querendo comprar.

Procurava emprego?

Precisava descobrir quem estava contratando.

Precisava contratar um programador COBOL?

Boa sorte.

Queria alugar apartamento?

Era necessário descobrir quais imóveis estavam disponíveis.

O problema fundamental era:

VENDEDOR ---------------- ??? ---------------- COMPRADOR

Hoje o ??? é preenchido por plataformas digitais.

Naquela época, frequentemente era preenchido por classificados.

O Primeira Mão transformou esse problema numa especialidade.

Em vez de produzir prioritariamente notícias e acrescentar algumas páginas de classificados, a lógica era praticamente invertida.

O anúncio era o produto.

Décadas depois, uma descrição da própria Folha sobre a versão online chamava o Primeira Mão de “o maior jornal dedicado exclusivamente a classificados do Brasil”. E isso em 1998, quando sua versão web já permitia anúncios gratuitos e pagos e pesquisa de veículos por critérios. (Folha de S.Paulo)

Perceba a loucura histórica:

quando muita gente brasileira ainda perguntava:

— Para que serve essa tal Internet?

o Primeira Mão já estava tentando portar seu modelo de negócios para ela.


CAPÍTULO II — BEM-VINDO À FÁBRICA DE CLASSIFICADOS DE WILLY WONKA

Imagine Willy Wonka diante de uma gigantesca máquina.

Ele joga de um lado:

1 FUSCA 1983
1 APARTAMENTO NA MOOCA
1 COMPUTADOR 486
1 VAGA DE PROGRAMADOR
1 GELADEIRA CONSUL
1 LOJA COMERCIAL
1 CACHORRO
1 MÁQUINA DE ESCREVER
1 TERRENO

A máquina começa:

CLAC CLAC CLAC CLAC CLAC.

Do outro lado sai:

PRIMEIRA MÃO

Só que há um detalhe.

Tudo precisa caber no papel.

Portanto, espaço significa dinheiro.

E nasce uma linguagem extraordinária.

Algo semelhante a isto:

GOL CL 94 AZ MET 2P UN DONO DOC OK TR 9999-9999

Para um jovem atual isso parece um dump hexadecimal.

Para o leitor da época:

MOVE "VOLKSWAGEN GOL CL"
   TO WS-CARRO

MOVE 1994
   TO WS-ANO

MOVE "AZUL METALICO"
   TO WS-COR

MOVE 2
   TO WS-PORTAS

MOVE "UNICO DONO"
   TO WS-HISTORICO.

Era compressão de dados humana.

Cada caractere custava espaço.

Portanto:

abrevia tudo.

É quase um protocolo de comunicação.


CAPÍTULO III — O PRIMEIRA MÃO ERA UM BANCO DE DADOS IMPRESSO

Aqui começa a diversão para o COBOLzeiro.

Um jornal de classificados não poderia simplesmente despejar anúncios aleatoriamente.

Precisava existir taxonomia.

CLASSIFICADOS
 |
 +-- VEICULOS
 |     |
 |     +-- Volkswagen
 |     +-- Chevrolet
 |     +-- Ford
 |     +-- Fiat
 |
 +-- IMOVEIS
 |     |
 |     +-- Venda
 |     +-- Aluguel
 |
 +-- EMPREGOS
 |
 +-- SERVICOS
 |
 +-- INFORMATICA
 |
 +-- NEGOCIOS
 |
 +-- DIVERSOS

Isso é banco de dados.

Só não havia SELECT.

O SQL era você.

SELECT *
FROM CARROS
WHERE MARCA = 'VOLKSWAGEN'
AND MODELO = 'GOL'
AND PRECO <= MEU_DINHEIRO;

Na versão papel:

folheie até Volkswagen e comece a passar o dedo pelas linhas.

Seu processador era:

olho humano.

Seu índice era:

a seção do jornal.

Seu cache:

a página dobrada.

Seu bookmark:

uma caneta Bic fazendo um círculo.

Seu banco de favoritos:

três anúncios rabiscados.


CAPÍTULO IV — CTRL+F ERA O DEDO

Eis uma cena clássica.

Mesa.

Café.

Primeira Mão aberto.

Caneta.

Telefone.

Você procura carro.

Encontra:

MONZA GLS 93 COMPLETO

Circula.

Outro.

Circula.

Outro.

Risca porque está caro.

Depois começa a execução do batch.

PERFORM TELEFONA-PARA-VENDEDOR
    VARYING WS-ANUNCIO
    FROM 1 BY 1
    UNTIL WS-CARRO-COMPRADO = 'S'
END-PERFORM.

— Alô, é do Monza?

— É.

— Ainda está à venda?

Esta pergunta merece entrar no museu da computação brasileira.

“Ainda está à venda?”

Porque não havia atualização em tempo real.

O anúncio podia estar no jornal.

O carro podia ter sido vendido ontem.

A publicação continuava dizendo que ele existia.

Era um banco de dados com consistência eventual brutal.


CAPÍTULO V — O PRIMEIRO MARKETPLACE?

Precisamos fazer uma precisão histórica.

Classificados são muito anteriores ao Primeira Mão.

Jornais publicam anúncios há séculos.

Portanto seria incorreto afirmar literalmente que o Primeira Mão inventou o marketplace.

Mas culturalmente podemos entendê-lo como um ancestral direto da experiência que hoje associamos aos marketplaces digitais.

A lógica era exatamente esta:

TENHO ALGO
     |
     v
PUBLICO
     |
     v
DESCONHECIDOS ENCONTRAM
     |
     v
ENTRAM EM CONTATO
     |
     v
NEGOCIAMOS
     |
     v
TRANSAÇÃO

Isso é OLX.

Isso é Facebook Marketplace.

Isso é Mercado Livre em sua essência mais primitiva.

O que mudou foi a implementação.


CAPÍTULO VI — O LOGIN ERA O TELEFONE

Hoje uma plataforma pergunta:

nome,

email,

telefone,

senha,

CPF,

localização,

foto,

verificação,

reputação.

No Primeira Mão?

Frequentemente o identificador fundamental era:

TELEFONE

E telefone naquela época significava principalmente:

telefone fixo.

Você anunciava alguma coisa.

O jornal saía.

E então:

☎️ TRIIIIIMMMMM!

— Alô?

— Estou ligando por causa do anúncio.

Pronto.

O algoritmo realizou o match.

Não havia chat interno.

Não havia proteção de identidade.

Não havia intermediador.

Não havia “denunciar usuário”.

Não havia estrelas.

O resto era humanidade.

E humanidade, como todo sysprog sabe, constitui a dependência mais imprevisível do sistema.


CAPÍTULO VII — A REPUTAÇÃO ERA COMPILADA NA CONVERSA

Hoje:

⭐⭐⭐⭐⭐

“Excelente vendedor.”

Naquela época?

— O carro é seu?

— É.

— Faz quanto tempo?

— Quatro anos.

— Está batido?

— Nunca.

— Posso levar num mecânico?

PAUSA.

O comprador executava internamente:

IF VENDEDOR-ENGASGOU
    MOVE 'SUSPEITO' TO WS-RISCO
END-IF.

Era análise antifraude por entonação de voz.

Machine Learning?

Não.

Malícia brasileira 1.0.


CAPÍTULO VIII — E ENTÃO APARECE O LINKEDIN DE PAPEL

Aqui está uma parte frequentemente esquecida.

Classificados também eram fundamentais para emprego.

Antes de LinkedIn.

Antes de Gupy.

Antes de Indeed.

Antes de Catho digital dominar esse imaginário.

Antes de você clicar:

Easy Apply.

Existia:

EMPREGOS

E milhares de trabalhadores consultavam classificados procurando oportunidades.

Para algumas categorias profissionais, os anúncios funcionavam como radar do mercado.

Você podia descobrir:

  • quem estava contratando;

  • quais profissões estavam aquecidas;

  • quais habilidades eram exigidas;

  • quais regiões concentravam vagas;

  • quais salários apareciam;

  • quais empresas estavam crescendo.

Isso é interessantíssimo.

Porque LinkedIn não serve apenas para conseguir emprego.

Ele serve para observar o mercado de trabalho.

Os classificados já faziam isso.

O profissional podia olhar aquela seção e concluir:

— Tem muita vaga pedindo CICS.

Ou:

— Estão pedindo DB2.

Ou:

— Agora apareceu esse negócio de cliente-servidor.

Ou, em algum momento traumático:

— Que diabo é Java?

O COBOLzeiro fechava o jornal lentamente.

Tomava café.

E pensava:

isso não vai pegar.

HAHAHAHAHAHA.


CAPÍTULO IX — A REDE SOCIAL SEM PERFIL

Podemos ir além.

O Primeira Mão não era rede social tecnicamente.

Mas exercia algumas funções sociais hoje absorvidas pelas redes.

Você anunciava:

vendo.

compro.

procuro.

ofereço.

contrato.

alugo.

São praticamente posts.

Compare:

1995

VDO PC 486 DX2 66 8MB HD540 MON SVGA TEL...

2026

Galera, estou vendendo meu PC. Quem tiver interesse chama inbox.

Mudou tanto assim?

A sintaxe mudou.

A função social permanece quase idêntica.


CAPÍTULO X — O JORNAL DESCOBRIU O EFEITO DE REDE

Willy Wonka agora entra correndo.

— Bellacosa! Bellacosa! Descobri uma coisa maravilhosa!

— O quê?

— Quanto mais vendedores aparecem, mais compradores vêm!

— Sim.

— E quanto mais compradores aparecem...

— Mais vendedores querem anunciar.

Wonka arregala os olhos.

EFEITO DE REDE!

Esse é o segredo estrutural dos marketplaces.

MAIS ANUNCIOS
     ↓
MAIS UTILIDADE
     ↓
MAIS LEITORES
     ↓
MAIS RESPOSTAS
     ↓
MAIS ANUNCIANTES
     ↓
MAIS ANUNCIOS

O papel podia parecer tecnologicamente primitivo.

O modelo econômico não era.


CAPÍTULO XI — O PRIMEIRA MÃO ENTRA NA INTERNET

E aqui temos um easter egg delicioso.

Em novembro de 1998, a Folha já descrevia o site primeiramao.com.br, observando que o jornal mantinha na web o mesmo conceito dos classificados impressos. O usuário podia pesquisar veículos por marca e por categorias como nacional/importado e novo/usado, além de publicar anúncios gratuitos ou pagos. (Folha de S.Paulo)

Pare.

Leia novamente.

1998.

Google havia acabado de nascer.

Facebook?

YouTube?

OLX?

Instagram?

O velho jornal de classificados já estava dizendo:

— Talvez possamos colocar nosso banco de ofertas nessa tal World Wide Web.

O COBOLzeiro olha para isso e imediatamente reconhece o problema:

modernização de legado.

O negócio estava correto.

A interface estava envelhecendo.


CAPÍTULO XII — NÃO ERA PRECISO DESTRUIR O MAINFRAME

A lógica digital era praticamente uma migração arquitetural:

ANTES

VENDEDOR
   |
   v
ANUNCIO
   |
   v
JORNAL
   |
   v
BANCA
   |
   v
LEITOR
   |
   v
TELEFONE

Depois:

VENDEDOR
   |
   v
FORMULARIO
   |
   v
DATABASE
   |
   v
SITE
   |
   v
BUSCA
   |
   v
COMPRADOR

O domínio permaneceu.

A interface mudou.

Esse é exatamente o tipo de discussão que fazemos sobre sistemas legados.

Às vezes o erro não está no negócio.

Está na camada de acesso.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL COMEÇA A VIRAR OUTRA COISA

Em 2009 encontramos outro momento curioso.

A Editora Haple lançou o Primeira Mão Jornal, semanário gratuito com tiragem declarada de 100 mil exemplares. Cerca de 75% eram distribuídos gratuitamente nas ruas às sextas-feiras; aos sábados, a publicação acompanhava o Primeira Mão Classificados. (Portal IMPRENSA)

Olhe a transformação.

O modelo clássico já estava sentindo a mudança do ecossistema.

Internet.

Portais.

Sites especializados.

Gratuidade.

Novos hábitos.

O produto tenta encontrar novas funções.

Isso acontece o tempo inteiro em tecnologia.

Quando sua funcionalidade principal começa a ser comoditizada, você procura:

VALUE-ADDED-SERVICES

CAPÍTULO XIV — E HAVIA UM GRUPO ECONÔMICO POR TRÁS

A história empresarial do Primeira Mão também passou por diferentes estruturas e associações.

Em meados dos anos 2000, fontes do setor registravam o Grupo Bandeirantes de Comunicação como sócio do jornal Primeira Mão. Em 2007, por exemplo, o Observatório da Imprensa mencionava explicitamente essa participação ao contextualizar a entrada da Band no jornal gratuito Metro. (Observatório da Imprensa)

Isso mostra que o produto não era simplesmente um jornalzinho artesanal de anúncios.

Havia valor empresarial naquilo.

Por quê?

Porque quem controla um grande ambiente de classificados controla uma coisa preciosa:

INTENÇÃO DE COMPRA.

Pense nisso.

O leitor de notícia pode estar simplesmente curioso.

Quem abre classificados de automóveis provavelmente está considerando:

comprar automóvel.

Quem consulta imóveis provavelmente pretende:

comprar ou alugar imóvel.

Quem procura emprego pretende:

mudar sua situação profissional.

Hoje empresas gastam fortunas tentando identificar intenção através de dados comportamentais.

O classificado já recebia o usuário com a intenção praticamente declarada.


CAPÍTULO XV — A BANCA ERA O APP STORE

Depois do Notícias Populares, voltamos à nossa maravilhosa banca paulistana.

O sujeito chega.

Ali está o NP berrando alguma atrocidade.

Ao lado:

Primeira Mão.

A função é completamente diferente.

NP dizia:

OLHA ISSO!

Primeira Mão dizia:

PROCURA ALGUMA COISA?

Um era economia da atenção.

O outro era economia da intenção.

Essa distinção é extraordinariamente moderna.


CAPÍTULO XVI — O PROBLEMA DA LATÊNCIA

Todo sistema tem SLA.

No jornal impresso havia um problema brutal:

latência.

Você anuncia hoje.

O jornal precisa:

receber,

processar,

diagramar,

imprimir,

distribuir,

chegar à banca,

ser comprado.

Enquanto isso, o mundo continua acontecendo.

Se o produto foi vendido, a informação impressa continua existindo.

ANUNCIO.STATUS = AVAILABLE
REALIDADE.STATUS = SOLD

Temos uma inconsistência.

A Internet destruiu essa limitação.

Agora:

UPDATE ANUNCIO
SET STATUS='VENDIDO'
WHERE ID=12345;

Commit.

Acabou.


CAPÍTULO XVII — O PROBLEMA DAS FOTOS

Outro detalhe.

Hoje ninguém imagina comprar carro sem ver 27 fotografias.

Frente.

Traseira.

Painel.

Motor.

Porta-malas.

Bancos.

Rodas.

No classificado impresso tradicional, fotografia custava espaço precioso.

Consequentemente, enorme quantidade de anúncios era simplesmente:

TEXTO.

Você comprava primeiro uma descrição.

Depois telefonava.

Depois marcava encontro.

Depois finalmente via o produto.

Hoje fazemos:

VER → INTERESSAR → CONTATAR

Frequentemente era:

LER → IMAGINAR → TELEFONAR → VISITAR → VER

A Internet removeu uma quantidade gigantesca de atrito.


CAPÍTULO XVIII — MAS ADICIONOU OUTROS

E aqui está a pegadinha de Willy Wonka.

Oompa Loompa entra cantando:

🎵 Você queria eficiência
Ganhou golpe por mensagem... 🎵

HAHAHAHA.

Porque o digital resolveu problemas e criou outros.

Hoje temos:

perfil falso,

phishing,

links fraudulentos,

PIX falso,

comprovante falso,

deepfake,

contas descartáveis,

automação criminosa,

bots.

No jornal havia golpes?

Claro.

Humanidade nunca precisou de JavaScript para praticar fraude.

Mas a escala era diferente.

Um golpista precisava publicar anúncios, atender telefones e lidar fisicamente com vítimas.

Hoje um atacante pode tentar atingir milhares de pessoas automaticamente.

Mudamos de:

FRAUDE BATCH PEQUENO

para:

FRAUD-AS-A-SERVICE CLOUD NATIVE

Parabéns pela transformação digital.


CAPÍTULO XIX — O QUE MORREU?

O papel como mecanismo dominante de classificados.

A latência de dias.

As abreviações extremas.

A dependência da banca.

O telefone fixo como principal endpoint.

A caneta circulando anúncios.

A necessidade de comprar uma publicação inteira para pesquisar produtos.

A descoberta sequencial.

O modelo de distribuição física.

Isso praticamente pertence a outro universo.

Há até registros de leitores lamentando, anos depois, o desaparecimento do jornal físico e afirmando que os anúncios impressos anteriormente geravam muitas ligações. É evidência anedótica, não estatística, mas mostra como a memória do produto permaneceu ligada à eficácia percebida do papel. (Reclame Aqui)


CAPÍTULO XX — O QUE CONTINUA EXATAMENTE IGUAL?

Quase tudo que importa.

Olhe:

1995

Vendo Gol 1994.

2026

Vendo Gol 2022.


1995:

Interessados ligar.

2026:

Chama no privado.


1995:

— Aceita troca?

2026:

— Aceita troca?


1995:

— Faz por 8 mil?

2026:

— Faz por 80?


1995:

— Qual o menor valor?

2026:

QUAL O MENOR VALOR?

HAHAHAHAHAHAHAHA.

Meu caro COBOLzeiro...

Podemos inventar inteligência artificial geral.

Podemos colonizar Marte.

Podemos construir computador quântico.

Podemos colocar COBOL numa API REST executando atrás de Kubernetes enquanto um agente de IA chama z/OS Connect.

Mas enquanto existir comércio entre seres humanos haverá alguém perguntando:

“QUAL O MENOR VALOR?”

Esse requisito é imutável.

Não altere.

Está em produção desde a Mesopotâmia.


CAPÍTULO XXI — EASTER EGG: O LINKEDIN NÃO INVENTOU O NETWORKING

Existe uma tendência curiosa de imaginar que plataformas digitais inventaram comportamentos.

Não.

Elas digitalizaram comportamentos.

LinkedIn não inventou:

procurar emprego,

mostrar experiência,

descobrir oportunidades,

observar empresas,

encontrar profissionais.

Facebook Marketplace não inventou:

vender coisas para desconhecidos.

OLX não inventou:

classificados.

Tinder não inventou:

gente tentando conhecer gente.

Google não inventou:

procurar informação.

A revolução digital fez algo diferente:

removeu brutalmente o custo de localizar pessoas e informações.

Esse é o verdadeiro salto.


CAPÍTULO XXII — O PRIMEIRA MÃO COMO DATASET DA CIDADE

Agora uma reflexão que Willy Wonka provavelmente guardaria numa sala secreta.

Imagine possuir digitalizadas todas as edições históricas do Primeira Mão.

Você teria um dataset extraordinário.

Poderíamos observar:

preço dos automóveis,

modelos populares,

mudança dos bairros,

valores imobiliários,

profissões desaparecendo,

profissões surgindo,

tecnologias chegando,

computadores sendo vendidos,

linguagem comercial,

abreviações,

salários,

serviços,

hábitos de consumo.

Seria praticamente:

SELECT *
FROM SAO_PAULO
WHERE ANO BETWEEN 1980 AND 2000;

Classificados são fósseis econômicos.

Às vezes dizem muito mais sobre uma sociedade do que editoriais sofisticados.


CAPÍTULO XXIII — UM 486 VIRA ARQUEOLOGIA

Imagine encontrar:

VDO 486 DX2 66
8MB RAM
HD 540MB
CDROM 4X
MONITOR SVGA

Na época:

MÁQUINA PODEROSA.

Hoje:

uma fotografia de celular provavelmente ocupa mais armazenamento que centenas de documentos que aquele HD guardaria.

Os classificados registravam essa evolução involuntariamente.

Pentium.

Modem.

Fax.

Impressora matricial.

CD-ROM.

Scanner.

Era a arqueologia da informática acontecendo em tempo real.


CAPÍTULO XXIV — WONKA APERTA O BOTÃO INTERNET

Estamos novamente no elevador.

Willy Wonka pergunta:

— Para onde agora?

Há botões:

BANCA
TELEFONE
FAX
INTERNET
GOOGLE
MERCADO LIVRE
LINKEDIN
FACEBOOK
OLX
WHATSAPP
IA

Charlie pergunta:

— Sr. Wonka, são sistemas diferentes?

Wonka sorri.

— Não exatamente.

E aperta:

INTERNET

O elevador dispara.

As folhas do Primeira Mão começam a voar.

Os anúncios viram registros.

Os registros entram num banco.

As categorias viram filtros.

O telefone vira chat.

A fotografia vira galeria.

A banca vira homepage.

O jornaleiro vira algoritmo.

A caneta vira favorito.

O anúncio destacado vira Sponsored.

A circulação vira pageview.

O encalhe vira bounce rate.

O número de ligações vira conversion rate.

E aquele velho jornal aparentemente desaparece.

Mas seu DNA está espalhado por toda parte.


CAPÍTULO XXV — O GRANDE EASTER EGG

Em 1998, quando a Folha descreveu o Primeira Mão na Internet, já estavam presentes elementos fundamentais do marketplace moderno:

pesquisa estruturada + categorias + anúncio gratuito + anúncio pago + inventário pesquisável. (Folha de S.Paulo)

Isso é importante.

O Primeira Mão não ficou simplesmente esperando a Internet assassiná-lo.

Ele tentou entrar nela.

O problema clássico da transformação digital aparece aqui:

digitalizar um produto não garante preservar sua posição no ecossistema.

Você pode colocar o jornal na Internet.

Mas agora está competindo com empresas nascidas na Internet.

É exatamente a diferença entre:

DIGITALIZED BUSINESS

e

DIGITAL-NATIVE BUSINESS

Uma distinção que faria qualquer arquiteto de modernização de mainframe pedir outro café.


CAPÍTULO XXVI — NÃO CONFUNDA MARCAS

Outra curiosidade necessária para evitar um S0C7 histórico.

Hoje encontramos na Internet diferentes operações usando o nome Primeira Mão, inclusive uma marca automotiva ligada ao Grupo Saga e veículos regionais com nomes semelhantes. Isso não significa automaticamente continuidade empresarial do clássico jornal paulista de classificados. Por exemplo, o aplicativo atual chamado Primeira Mão na Google Play aparece associado ao Grupo Saga e ao mercado de seminovos. (Google Play)

Nome igual não significa mesmo dataset.

COBOLzeiro sabe:

01 PRIMEIRA-MAO-A.
01 PRIMEIRA-MAO-B.

Não faça:

MOVE A TO B

sem verificar o copybook.


CAPÍTULO XXVII — O LEGADO

O legado do Primeira Mão não está apenas no papel.

Está numa ideia.

Uma ideia extremamente poderosa:

há valor em conectar quem tem alguma coisa com quem procura alguma coisa.

Isso parece banal hoje.

Não é.

Grande parte da economia digital mundial funciona exatamente assim.

Uber:

motorista ↔ passageiro.

Airbnb:

imóvel ↔ hóspede.

LinkedIn:

profissional ↔ empresa.

Marketplace:

produto ↔ comprador.

Aplicativos imobiliários:

imóvel ↔ interessado.

Sites de emprego:

vaga ↔ candidato.

O grande negócio frequentemente não é possuir o ativo.

É possuir:

O MATCH.

O Primeira Mão fazia match.

Com papel.


EPÍLOGO — O ÚLTIMO BILHETE DOURADO

Willy Wonka finalmente nos leva até a sala mais secreta da fábrica.

Não há chocolate.

Não há Oompa Loompas.

Não há elevador.

Há apenas uma banca antiga.

Sobre ela está um exemplar grosso do Primeira Mão.

Wonka entrega uma caneta Bic ao jovem programador COBOL.

— Abra.

Ele abre.

Milhares de anúncios.

Carros.

Casas.

Empregos.

Computadores.

Serviços.

Objetos.

Sonhos.

Dívidas.

Mudanças.

Pequenos negócios.

Gente tentando começar.

Gente tentando vender.

Gente procurando trabalho.

Gente comprando seu primeiro carro.

Gente procurando apartamento para casar.

Gente vendendo computador para comprar outro.

Gente transformando patrimônio em dinheiro.

Gente procurando gente.

Wonka pergunta:

— O que você está vendo?

O jovem responde:

— Classificados.

Wonka sorri.

— Não.

Aponta para as páginas.

“Você está vendo uma rede social antes da rede social.”

Mais uma página.

“Um marketplace antes do marketplace.”

Outra.

“Um mecanismo de busca antes do mecanismo de busca.”

Outra.

“Um LinkedIn sem perfil.”

Outra.

“Um banco de dados impresso.”

E finalmente fecha o jornal.

PLOFT.

Uma pequena nuvem de poeira sobe.

Wonka continua:

— A tecnologia desapareceu. O requisito não.

E essa talvez seja a melhor lição que o velho Primeira Mão pode ensinar a qualquer jovem desenvolvedor COBOL.

Nós nos apaixonamos pelas implementações.

Papel.

Terminal 3270.

Browser.

Aplicativo.

Cloud.

Container.

IA.

Mas por baixo delas existem necessidades humanas incrivelmente persistentes.

EU TENHO.
EU QUERO.
EU PRECISO.
EU OFEREÇO.
EU PROCURO.

O Primeira Mão transformava essas cinco frases em negócio.

As plataformas modernas continuam fazendo exatamente a mesma coisa.

Só trocaram:

PAPEL
  |
  v
BANCA
  |
  v
TELEFONE

por:

DATABASE
  |
  v
API
  |
  v
APP
  |
  v
ALGORITHM

E quando alguém disser que marketplace, social selling ou networking profissional são invenções absolutamente novas, procure mentalmente aquela banca.

O jornal grosso.

As páginas finas.

As letras minúsculas.

Os anúncios comprimidos.

A Bic circulando um carro.

O telefone fixo esperando tocar.

E algum sujeito em São Paulo dizendo:

— Alô?

— É do anúncio do Gol?

— É.

— Ainda está à venda?

MATCH FOUND.

Nenhum Kafka.

Nenhum Kubernetes.

Nenhum Redis.

Nenhum GraphQL.

Nenhum embedding.

Nenhum modelo de recomendação.

Nenhuma GPU.

Apenas duas pessoas, um anúncio e uma infraestrutura de papel fazendo aquilo que a tecnologia continua tentando aperfeiçoar:

encontrar alguém que procura exatamente aquilo que outra pessoa tem para oferecer.

Willy Wonka coloca a cartola.

O COBOLzeiro termina o café.

O elevador abre.

Antes de sair, aparece no terminal verde uma última mensagem:

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. PRIMEIRA-MAO.

       PROCEDURE DIVISION.

           PERFORM CONECTAR-PESSOAS
               UNTIL FIM-DO-MERCADO.

           STOP RUN.

Mas o programa não termina.

Porque FIM-DO-MERCADO nunca fica verdadeiro.

O papel desapareceu.

A banca perdeu espaço.

O telefone virou smartphone.

O classificado virou post.

O emprego virou oportunidade.

O vendedor virou usuário.

O leitor virou lead.

O anúncio virou listing.

A seção virou filtro.

O jornal virou plataforma.

E aquela velha pergunta continua atravessando todas as gerações tecnológicas, resiliente como um programa COBOL de 1974:

“Ainda está à venda?”

Só existe uma resposta apropriada para Willy Wonka:

“Sim. Mas qual o menor valor?”

RC=0000

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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