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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

 

Bellacosa Mainframe e o jornal gazeta esportiva

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Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

⚽ Futebol, rádio, bancas, tabelas, resultados, São Silvestre, Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo e a extraordinária época em que descobrir o placar de um jogo podia exigir comprar um jornal — enquanto John Belushi berrava que o juiz era ladrão

Se o Notícias Populares era a interface brasileira para descobrir quem havia matado quem, onde apareceu o lobisomem e se o Bebê-Diabo havia sido visto novamente no telhado de alguma residência paulistana...

existia outra máquina de papel rodando em produção.

Só que essa processava uma matéria-prima ainda mais perigosa.

FUTEBOL.

Seu nome:

A GAZETA ESPORTIVA

E antes que algum jovem desenvolvedor COBOL pergunte:

— Bellacosa, mas era apenas um jornal de esportes?

HAHAHAHAHAHAHAHA.

Meu caro...

Dizer que a Gazeta Esportiva era “um jornal de esportes” é como dizer que um IBM Z é “um computador grande”.

Tecnicamente correto.

Culturalmente criminoso.

Durante décadas, a Gazeta Esportiva foi banco de dados, arquivo histórico, placar, agenda, tabela de classificação, serviço estatístico, catálogo de jogadores, calendário esportivo e combustível para discussões capazes de destruir amizades antes mesmo da invenção das redes sociais.

Se Quentin Tarantino foi nosso guia para o Notícias Populares, aqui precisamos de alguém diferente.

Precisamos de um homem capaz de olhar para uma derrota por 1 a 0 e reagir como se o Império Romano tivesse acabado.

Precisamos de:

JOHN BELUSHI.

Camisa parcialmente aberta.

Gravata torta.

Café na mão.

Gazeta Esportiva debaixo do braço.

Ele invade a redação:

QUEM ESCALOU ESSE TIME?!

Bem-vindo.

O batch de domingo acabou.

Segunda-feira começou.

E o SYSOUT tem 64 páginas.


CAPÍTULO I — ANTES DO GOOGLE EXISTIA PAPEL

Precisamos novamente transportar o jovem programador para uma época estranha.

Uma época em que você não podia perguntar:

“Quem ganhou o jogo ontem?”

para um retângulo luminoso no bolso.

Não havia Google.

Não havia OneFootball.

Não havia SofaScore.

Não havia ESPN no celular.

Não havia notificações push.

Não havia grupo do WhatsApp.

Não havia X.

Não havia geolocalização do jogador.

Não havia mapa de calor.

Não havia xG.

Não havia VAR.

Aliás...

talvez devêssemos ter parado no “não havia VAR” e apreciado alguns segundos de silêncio.

Você queria informação esportiva?

Havia rádio.

Televisão.

E havia:

JORNAL.

Na manhã seguinte, o torcedor caminhava até a banca.

E lá estava ela.

A Gazeta Esportiva.

O equivalente esportivo de executar:

DISPLAY MATCH-RESULTS
DISPLAY LEAGUE-TABLE
DISPLAY PLAYER-RATINGS
DISPLAY NEXT-ROUND
DISPLAY COMPLETE-DISASTER

Só que impresso.


CAPÍTULO II — TUDO COMEÇOU COM UM QUARTO DE PÁGINA

A origem da Gazeta Esportiva é quase uma aula de escalabilidade.

Em 1918, já sob a administração de Cásper Líbero, o jornal A Gazeta criou uma pequena seção dedicada aos esportes.

Tamanho?

Aproximadamente:

UM QUARTO DE PÁGINA.

Isso mesmo.

O monstro começou como feature pequena.

A popularidade cresceu.

E em 24 de dezembro de 1928, aquela seção evoluiu para um suplemento esportivo, então chamado A Gazeta — Edição Esportiva.

O COBOLzeiro reconhece imediatamente.

V1.0
COLUNA ESPORTIVA

V2.0
SUPLEMENTO

V3.0
JORNAL INDEPENDENTE

V4.0
PORTAL WEB

Nunca subestime aquele programinha de 400 linhas que alguém chama de:

“solução temporária”.


CAPÍTULO III — CÁSPER LÍBERO, O ARQUITETO

Para compreender a Gazeta Esportiva precisamos conhecer Cásper Líbero.

Ele adquiriu A Gazeta em 1918 e iniciou uma série de transformações editoriais. Esporte tornou-se uma das áreas nas quais investiu intensamente.

Mas sua importância vai muito além de simplesmente publicar resultados.

Cásper percebeu algo fundamental:

ESPORTE É CONTEÚDO E EVENTO.

Essa combinação é poderosíssima.

Você não apenas cobre uma competição.

Você pode ajudar a criá-la.

A marca Gazeta ficou ligada a eventos esportivos que atravessariam gerações.

O caso mais extraordinário?

CORRIDA INTERNACIONAL DE SÃO SILVESTRE.

Criada em 1925.

Também surgiu a tradicional Prova Ciclística Nove de Julho, criada em 1933.

Isso significa que o ecossistema não era:

EVENTO
  |
  v
JORNAL COBRE

Era muito mais interessante:

JORNAL
  |
  +----> PROMOVE EVENTO
  |
  +----> COBRE EVENTO
  |
  +----> CRIA AUDIÊNCIA
  |
  +----> FORTALECE MARCA
  |
  +----> AUMENTA INTERESSE

Hoje chamaríamos isso de:

ecossistema de conteúdo.

Em 1925 chamavam de:

trabalhar.


CAPÍTULO IV — A TRAGÉDIA DE CÁSPER

Cásper Líbero não chegou a ver a Gazeta Esportiva transformar-se no grande diário independente que se tornaria.

Ele morreu em 27 de agosto de 1943, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara.

Mas deixou algo extraordinário.

Um testamento determinando a criação de uma fundação.

Como não teve filhos, seu patrimônio foi destinado à instituição que preservaria seu projeto de comunicação.

Nasceu a:

FUNDAÇÃO CÁSPER LÍBERO.

Instituída em 1944, ela permanece responsável por um ecossistema que inclui Gazeta Esportiva, TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e outras atividades.

Isso diferencia profundamente a história empresarial da Gazeta.

Não estamos falando simplesmente de:

PROPRIETÁRIO
   |
HERDEIROS
   |
VENDA

Existe uma estrutura institucional criada a partir da vontade testamentária de seu fundador.

É quase um:

PERFORM LEGADO
    UNTIL FOREVER
END-PERFORM.

CAPÍTULO V — 10 DE OUTUBRO DE 1947: GO LIVE

Chegamos ao grande deployment.

10 de outubro de 1947.

A Gazeta Esportiva deixa definitivamente sua condição de suplemento e torna-se um jornal diário independente dedicado ao esporte.

O projeto havia sido pensado antes.

A Copa de 1938 parecia uma oportunidade.

Depois veio a Segunda Guerra Mundial.

Houve nova tentativa em 1943.

Então Cásper morreu.

Finalmente:

1947.

GO LIVE.

A primeira edição diária apresentava o jornal como moderno, dinâmico e comprometido com independência e ética jornalística.

E nasceu uma expressão que se tornaria praticamente identidade:

“O MAIS COMPLETO.”

Isso era marketing.

Mas havia uma ambição real por trás.

Não se pretendia falar apenas de futebol.

A proposta era cobrir:

futebol,

atletismo,

basquete,

automobilismo,

ciclismo,

boxe,

natação,

tênis

e muitas outras modalidades.

Era uma espécie de:

SPORTS.*

CAPÍTULO VI — MAS VAMOS PARAR DE FINGIR: FUTEBOL ERA O MONSTRO

Sim.

Havia outras modalidades.

Mas estamos no Brasil.

Portanto chega John Belushi chutando a porta:

E O CORINTHIANS?!

HAHAHAHAHAHA.

Futebol era inevitavelmente o grande motor de atenção.

Corinthians.

Palmeiras.

São Paulo.

Santos.

Portuguesa.

Clubes do interior.

Seleção Brasileira.

Campeonatos estaduais.

Nacionais.

Mundiais.

Transferências.

Escalações.

Crises.

Cartolas.

Técnicos.

Juízes.

E aquela instituição brasileira que existe desde antes de a humanidade dominar o fogo:

A CORNETA.


CAPÍTULO VII — A BANCA ERA O SOFASCORE

Voltemos à banca.

Segunda-feira de manhã.

São Paulo.

Um trabalhador chega.

Vê a Gazeta.

A manchete anuncia a rodada.

Ele não precisa comprar imediatamente.

Olha.

Outro sujeito para.

Mais um.

— Você viu o jogo?

— Vi.

— Aquilo não foi pênalti.

Pronto.

THREAD CRIADA.

Outro responde:

— Foi pênalti sim.

ENGAGEMENT +100%.

Chega um palmeirense.

CONFLITO DETECTADO.

Chega um corintiano.

CPU 97%.

Chega um santista lembrando do Pelé.

HISTORICAL QUERY STARTED.

Chega o dono da banca:

— Vocês vão comprar o jornal ou vão ficar discutindo aí?

A rede social brasileira já funcionava perfeitamente.

Sem Internet.


CAPÍTULO VIII — A SEGUNDA-FEIRA ERA O WAR ROOM

O domingo terminava.

Mas o futebol não.

Na segunda-feira começava:

A AUTÓPSIA.

Quem jogou bem?

Quem jogou mal?

O juiz errou?

O técnico enlouqueceu?

O atacante perdeu gol?

Quem foi expulso?

Como ficou a classificação?

Quem joga na próxima rodada?

Era praticamente uma reunião pós-incidente.

INCIDENT:
DERROTA POR 3 X 0

SEVERITY:
SEV-1

ROOT CAUSE:
EM INVESTIGAÇÃO

POSSIBLE CAUSES:
- técnico
- goleiro
- zagueiro
- gramado
- juiz
- diretoria
- Mercúrio retrógrado

John Belushi sobe na mesa:

— NÃO FOI DERROTA!

Todos olham.

— FOI SABOTAGEM!


CAPÍTULO IX — A GAZETA ERA BANCO DE DADOS

Aqui entra o COBOL.

Para gerações inteiras, jornal esportivo era também:

DATASET.

Resultados.

Classificações.

Artilharia.

Escalações.

Calendários.

Estatísticas.

Histórico.

Você queria saber como estava o campeonato?

Não executava API.

Consultava tabela.

01 CAMPEONATO.
   05 TIME.
   05 PONTOS.
   05 JOGOS.
   05 VITORIAS.
   05 EMPATES.
   05 DERROTAS.
   05 GOLS-PRO.
   05 GOLS-CONTRA.

A tabela classificatória era praticamente um arquivo sequencial que todo brasileiro sabia interpretar.

Curiosamente, milhões de pessoas que jamais ouviram falar em banco relacional entendiam perfeitamente:

ordenação, agregação, chave, ranking e atualização incremental.


CAPÍTULO X — 1958: BRASIL CAMPEÃO

Então acontece 1958.

Brasil campeão mundial.

Pelé.

Garrincha.

Didi.

Nilton Santos.

Bellini.

Suécia.

O futebol brasileiro explode simbolicamente.

Segundo registros históricos, a Gazeta alcançou cerca de 400 mil exemplares nas grandes tiragens associadas à Copa de 1958.

Imagine imprimir centenas de milhares de jornais.

Não é pageview.

Não é request HTTP.

Cada cópia exige:

papel,

tinta,

máquina,

energia,

operários,

caminhão,

distribuição,

banca.

É infraestrutura física.


CAPÍTULO XI — 1970: O MAINFRAME ENTRA EM OVERLOAD

E então chegamos ao México.

Pelé.

Jairzinho.

Tostão.

Rivelino.

Carlos Alberto Torres.

Brasil tricampeão.

A Seleção que virou mitologia.

Em 23 de junho de 1970, a Gazeta Esportiva registrou seu recorde histórico:

534.530 EXEMPLARES.

Em um único dia.

MEIO MILHÃO.

John Belushi olha para a rotativa.

— MAIS PAPEL!

— Não cabe!

— MAIS TINTA!

— Estamos no limite!

— ENTÃO OVERCLOCKA A ROTATIVA!

Isso é escala.


CAPÍTULO XII — A COR DO JORNAL ERA A PAIXÃO

A experiência do jornal esportivo não era apenas informacional.

Era ritual.

Comprar.

Dobrar.

Carregar debaixo do braço.

Ler no ônibus.

Ler no bar.

Ler no trabalho escondido.

Deixar sobre a mesa.

Recortar.

Guardar.

Um resultado esportivo deixava de ser efêmero porque adquiria suporte físico.

A vitória do seu time existia em papel.

A derrota também.

Infelizmente.

E aquela página podia sobreviver décadas.


CAPÍTULO XIII — “ME DÁ A GAZETA”

Essa frase fazia sentido por si só.

O jornaleiro sabia.

A marca havia conquistado aquilo que toda empresa deseja:

atalho mental.

Gazeta = esporte.

Assim como determinados produtos tornam-se quase sinônimos de categoria, a Gazeta ocupava um lugar particular no imaginário esportivo paulista.

E isso era especialmente poderoso numa cidade onde futebol não era passatempo.

Era:

IDENTITY MANAGEMENT SYSTEM.

CAPÍTULO XIV — E O INTERIOR?

Aqui há outro ponto importante.

A Gazeta não se limitava ao eixo dos quatro grandes clubes paulistas.

A imprensa esportiva impressa possuía espaço para acompanhar campeonatos, clubes e modalidades que hoje podem desaparecer rapidamente da homepage porque não geram cliques suficientes.

Guarani.

Ponte Preta.

XV de Piracicaba.

Ferroviária.

Botafogo de Ribeirão Preto.

Comercial.

Noroeste.

Portuguesa Santista.

São Bento.

Juventus.

América.

E tantos outros.

O papel tinha limite físico.

Mas o jornal esportivo precisava construir uma visão relativamente ampla do ecossistema.

Isso ajudou a preservar uma quantidade monumental de memória esportiva.


CAPÍTULO XV — E A SÃO SILVESTRE?

Aqui o legado sai da página e invade a rua.

A Corrida Internacional de São Silvestre permanece uma das marcas esportivas mais reconhecíveis associadas ao legado de Cásper Líbero.

Criada em 1925, atravessou décadas e continua sendo realizada.

Pense nisso.

Um veículo de comunicação ajudou a criar um evento.

O evento virou tradição.

A tradição sobreviveu ao jornal impresso.

Isso é branding com RETENTION PERIOD = CENTURY.


CAPÍTULO XVI — O TROFÉU INVISÍVEL DA MEMÓRIA

A Gazeta também esteve ligada à criação e distribuição de premiações esportivas, entre elas a tradicional Taça dos Invictos, associada a equipes que mantinham longas sequências sem derrota.

Isso revela outra função da imprensa esportiva:

ela não apenas relata o esporte.

Ela ajuda a construir:

mitologia.

Recordes precisam ser lembrados.

Sequências precisam ser comparadas.

Heróis precisam de narrativas.

Rivalidades precisam de arquivo.

O jornal funciona como memória externa do torcedor.


CAPÍTULO XVII — O TORCEDOR ERA O ALGORITMO DE RECOMENDAÇÃO

Hoje:

IF USER = CORINTHIANS
   RECOMMEND CORINTHIANS-CONTENT
END-IF

Na banca?

O torcedor olhava a primeira página.

Se o clube estivesse em destaque:

CLICK = BUY

Se o rival tivesse perdido vergonhosamente:

CLICK = BUY
SHARE = BUY-AND-SHOW-FRIENDS

HAHAHAHA.

Esse segundo caso provavelmente possuía CTR extraordinário.


CAPÍTULO XVIII — O HUMOR DO FUTEBOL

Aqui John Belushi assume definitivamente a redação.

Porque futebol brasileiro nunca foi apenas análise.

É absurdo.

Um sujeito passa a semana inteira dizendo:

— Futebol é só entretenimento.

Domingo, 17h43:

EU NÃO ACREDITO NESSE DESGRAÇADO!

Cinco minutos depois:

— Nunca mais assisto futebol.

Quarta-feira:

— Que horas é o jogo?

Essa é uma máquina de estados fantástica:

STATE 01 = ESPERANÇA
STATE 02 = ANSIEDADE
STATE 03 = EUFORIA
STATE 04 = ÓDIO
STATE 05 = DEPRESSÃO
STATE 06 = NUNCA-MAIS
STATE 07 = PRÓXIMA-RODADA

GO TO STATE-01.

Loop infinito.


CAPÍTULO XIX — RÁDIO, TV, JORNAL: UM ECOSSISTEMA

Outra diferença fundamental da Gazeta está no ecossistema construído pela Fundação.

Jornal.

Rádio.

Televisão.

Faculdade.

Agência.

Eventos.

Hoje falaríamos em:

OMNICHANNEL.

A Fundação Cásper Líbero mantém até hoje esse complexo de comunicação no edifício da Avenida Paulista, incluindo TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e Gazeta Esportiva digital.

A Gazeta não era apenas uma publicação isolada.

Era parte de uma arquitetura.


CAPÍTULO XX — ENTÃO CHEGA A INTERNET

E novamente nosso velho conhecido aparece.

TCP/IP.

Em 1997, segundo a própria Fundação, a Gazeta Esportiva começou sua entrada na Internet, inicialmente reproduzindo conteúdo do impresso. Outra retrospectiva oficial situa o lançamento do portal independente em 1998. As duas datas refletem etapas diferentes da migração digital.

Isso é interessante porque mostra a transição acontecendo em tempo real.

Primeiro:

PAPER → HTML

Depois:

DIGITAL-FIRST

E finalmente:

REAL-TIME

CAPÍTULO XXI — O INIMIGO DO JORNAL ESPORTIVO CHAMAVA-SE LATÊNCIA

Pense no problema.

Um jogo termina às 22h.

O jornal precisa:

fechar texto,

editar,

diagramar,

imprimir,

distribuir.

A Internet diz:

— Gol.

Agora.

Cartão vermelho.

Agora.

Fim do jogo.

Agora.

Classificação atualizada.

Agora.

Para informação esportiva, a diferença entre:

amanhã

e

agora

é brutal.

O produto possuía um problema arquitetural que nenhuma manchete conseguiria eliminar:

LATENCY = HOURS

contra:

LATENCY = SECONDS

CAPÍTULO XXII — 2001: ABEND

No início do século XXI, a situação financeira do jornal havia se tornado crítica.

Em outubro de 2001, a Fundação anunciou a decisão de encerrar a edição impressa e transferir seu conteúdo para a Internet. A Folha registrou naquele momento uma tiragem média inferior a 14 mil exemplares.

Compare.

1970:

534.530

2001:

menos de 14.000 em média

Isso não é queda.

Isso é:

IEC030I B37

O dataset ficou sem espaço para continuar fingindo que estava tudo bem.


CAPÍTULO XXIII — A ÚLTIMA CAPA

Em 19 de novembro de 2001, circulou a edição número:

27.162

A última edição impressa diária.

A manchete?

“O Futuro é Hoje!”

Poucas manchetes poderiam ser mais apropriadas.

No dia seguinte, a operação esportiva passava definitivamente para o ambiente digital.

O jornal morreu?

O suporte morreu.

A marca continuou.

E isso é muito diferente.


CAPÍTULO XXIV — MODERNIZAÇÃO SEM REWRITE

Agora o programador COBOL começa a sorrir.

Porque reconheceu tudo.

BUSINESS LOGIC:
COBRIR ESPORTES

OLD INTERFACE:
PAPEL

NEW INTERFACE:
WEB

Não foi necessário executar:

DELETE FROM BRAND;

Executou-se:

ALTER ACCESS METHOD.

Essa é uma aula maravilhosa de modernização.

A função continua.

A tecnologia muda.


CAPÍTULO XXV — O QUE MORREU?

Morreu o ritual diário específico.

O jornal debaixo do braço.

A banca como endpoint.

A tabela impressa.

O resultado congelado no papel.

A fotografia que você recortava.

A edição guardada porque seu clube foi campeão.

O sujeito lendo por cima do seu ombro no ônibus.

O jornal aberto sobre a mesa do boteco.

E talvez uma das experiências mais deliciosamente analógicas:

virar a página procurando seu time.


CAPÍTULO XXVI — O QUE NÃO MUDOU ABSOLUTAMENTE NADA?

Agora prepare-se.

1958:

— O juiz roubou.

2026:

— O juiz roubou.

1970:

— O técnico escalou errado.

2026:

— O técnico escalou errado.

1985:

— Esse presidente está destruindo o clube.

2026:

— Esse presidente está destruindo o clube.

1994:

— Esse jogador não vale tudo isso.

2026:

— Esse jogador não vale tudo isso.

O suporte tecnológico evoluiu.

O torcedor recebeu:

Internet,

smartphone,

streaming,

4K,

VAR,

GPS,

estatística avançada,

inteligência artificial,

tracking,

big data.

E usa tudo isso para concluir:

“O JUIZ É CEGO.”

Magnífico.


CAPÍTULO XXVII — A GAZETA ERA O REDDIT DO BOTECO

O jornal sozinho não era a comunidade.

Ele era o gatilho da comunidade.

A pessoa lia.

Comentava.

Discutia.

Levava ao trabalho.

Mostrava ao colega.

Discordava.

Guardava.

Recortava.

A informação saía do papel e entrava na conversa.

Hoje chamamos isso de:

engagement.

Na época chamava:

— Você viu a Gazeta?


CAPÍTULO XXVIII — JOHN BELUSHI DESCOBRE O VAR

Nosso guia finalmente chega ao futebol moderno.

Belushi observa uma sala com 37 monitores.

Linhas.

Replay.

Zoom.

Câmeras.

Computadores.

Comunicação eletrônica.

Ele pergunta:

— Tudo isso serve para decidir se foi pênalti?

— Sim.

— E funciona?

Silêncio.

Belushi pega uma Gazeta Esportiva de 1970.

— Na minha época bastava xingar o juiz!

O COBOLzeiro responde:

— Tecnicamente ainda basta.


CAPÍTULO XXIX — O ARQUIVO É UMA MÁQUINA DO TEMPO

Existe algo que frequentemente esquecemos quando falamos sobre jornais antigos.

Eles são bancos de memória.

Uma edição da Gazeta Esportiva não guarda apenas resultados.

Guarda:

ortografia,

publicidade,

preços,

nomes,

clubes desaparecidos,

estádios modificados,

patrocinadores,

uniformes,

jogadores esquecidos,

modalidades,

expectativas,

frustrações.

Você abre uma edição de 1958 e não está simplesmente lendo sobre futebol.

Está executando:

RESTORE BRASIL
FROM BACKUP
DATE '1958';

Isso é patrimônio histórico.


CAPÍTULO XXX — O GRANDE EASTER EGG: O ESPORTE SEMPRE FOI DATA-DRIVEN

Hoje adoramos falar:

data analytics no futebol.

Mas esporte sempre foi uma gigantesca fábrica de dados.

Gols.

Pontos.

Vitórias.

Derrotas.

Tempo.

Distância.

Recordes.

Classificação.

Artilharia.

Aproveitamento.

Média.

O jornal esportivo era uma camada de apresentação desse banco de dados.

Hoje temos dashboards.

Antes tínhamos tabelas.

Hoje temos APIs.

Antes tínhamos repórteres telefonando.

Hoje temos feeds em tempo real.

Antes tínhamos fechamento.

A arquitetura mudou.

O domínio continua assustadoramente parecido.


CAPÍTULO XXXI — NOTÍCIAS POPULARES X GAZETA ESPORTIVA

Agora coloque os dois jornais lado a lado numa banca imaginária.

À esquerda:

NOTÍCIAS POPULARES

NASCEU O DIABO!

À direita:

GAZETA ESPORTIVA

CORINTHIANS PERDE CLÁSSICO!

Um corintiano olha para ambos.

Compra o Notícias Populares.

Porque naquele momento:

o Bebê-Diabo parece uma notícia menos traumática.

HAHAHAHAHAHA.

Mas há uma conexão séria.

Os dois compreendiam a força da banca.

Da manchete.

Da identidade do público.

Da leitura compartilhada.

Da informação como ritual.

E principalmente:

da emoção.


CAPÍTULO XXXII — A BANCA COMO HOMEPAGE DA CIDADE

Imagine novamente São Paulo.

Década de 1970.

Ônibus.

Fumaça.

Buzinas.

Padaria.

Café.

Cigarro.

Banca.

Jornais pendurados.

Você passa.

Em alguns segundos recebe:

política,

economia,

crime,

esporte,

celebridade,

emprego,

classificados.

A banca era:

PORTAL.

Só que fisicamente instalado na calçada.

Cada jornal era um aplicativo.

Cada manchete era uma notificação.

Cada capa disputava atenção.

Cada comprador era conversão.

E a Gazeta tinha uma vantagem extraordinária:

o torcedor já chegava emocionalmente autenticado.


CAPÍTULO XXXIII — O LEGADO

O legado da Gazeta Esportiva é maior que seu período impresso.

Ele inclui a contribuição histórica para o jornalismo esportivo brasileiro, sua ligação com eventos como São Silvestre e Nove de Julho, o arquivo acumulado durante décadas e a continuidade da marca no ambiente digital.

Mas existe um legado menos tangível.

Ela pertence a uma época em que a relação com informação possuía:

peso.

Literalmente.

Você carregava informação.

Dobrava informação.

Emprestava informação.

Guardava informação.

Jogava informação fora.

A notícia tinha cheiro de tinta.


EPÍLOGO — BELUSHI, O COBOLZEIRO E A ÚLTIMA SEGUNDA-FEIRA

São Paulo.

Segunda-feira.

Sete horas da manhã.

Um bar perto de uma estação.

Café.

Pão na chapa.

Um homem entra carregando a Gazeta Esportiva.

Abre sobre o balcão.

Outro olha.

— Quanto foi?

— Dois a zero.

— Quem fez?

Ele aponta para a página.

Chega outro.

— Esse time não tem meio-campo.

Outro responde:

— Você não entende nada de futebol.

Pronto.

A rede entrou em produção.

Não existe Wi-Fi.

Não existe smartphone.

Não existe login.

Não existe perfil.

Não existe algoritmo.

Mas existe:

USER-A
USER-B
USER-C
CONTENT
ENGAGEMENT
COMMUNITY

John Belushi entra.

Olha o jornal.

Olha o placar.

Derruba o café.

DOIS A ZERO?!

O bar inteiro olha.

Belushi sobe numa cadeira.

— Acabou! Este clube morreu! Nunca mais assisto futebol! Nunca mais compro jornal! Nunca mais discuto escalação!

Silêncio.

O balconista pergunta:

— Quarta tem jogo, não tem?

Belushi desce lentamente.

Pega a Gazeta.

Folheia.

— Oito e meia.

Senta.

Pede outro café.

E talvez essa seja a melhor definição possível da Gazeta Esportiva.

Ela não vendia apenas resultados.

Vendia o próximo capítulo.

A derrota de domingo não encerrava nada.

Produzia a segunda-feira.

A segunda-feira produzia discussão.

A discussão produzia expectativa.

A expectativa produzia quarta-feira.

Quarta produzia outro jogo.

Outro resultado.

Outra manchete.

Outra Gazeta.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. TORCEDOR-BRASILEIRO.

       PROCEDURE DIVISION.

       JOGA.
           PERFORM ESPERAR-JOGO.
           PERFORM ASSISTIR-JOGO.
           PERFORM RECLAMAR-DO-JUIZ.
           PERFORM DISCUTIR-ESCALACAO.
           PERFORM LER-GAZETA.
           PERFORM PROMETER-NUNCA-MAIS.

           GO TO JOGA.

Um programador junior observa horrorizado:

— Bellacosa! Isso é um GO TO infinito!

Exatamente.

Está em produção há mais de cem anos.

Não mexa.

Ninguém sabe todas as dependências.

A Gazeta Esportiva impressa executou sua última edição em 2001.

Mas o programa continua.

A banca virou portal.

A tabela virou widget.

O rádio virou streaming.

A fotografia virou vídeo.

A coluna virou feed.

O fechamento virou atualização contínua.

O leitor virou usuário.

O assinante virou audiência.

A discussão do bar virou comentário.

O arquivo virou database.

O jornal virou URL.

Mas domingo à tarde, quando a bola bate na mão de alguém dentro da área...

todo o avanço tecnológico da humanidade é descartado.

Milhões de brasileiros executam simultaneamente:

IF PENALTI-CONTRA-MEU-TIME
    DISPLAY 'FOI SEM QUERER'
ELSE
    DISPLAY 'PENALTI CLARISSIMO'
END-IF.

Esse código jamais passou por revisão.

Jamais passará.

John Belushi pega o jornal.

O COBOLzeiro pega o café.

A rotativa começa a girar.

CLAC. CLAC. CLAC. CLAC.

534.530 exemplares.

Uma cidade acordando.

Uma banca abrindo.

Um torcedor procurando a manchete.

E um programa centenário chamado:

PAIXÃO PELO ESPORTE

continua executando.

RC=0000.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Primeira Mão: Willy Wonka, COBOL e o Marketplace de Papel que Vendia de Fusca a Emprego Antes de Existir LinkedIn

 

Bellacosa Mainframe e o classificado jornal primeira mao

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Primeira Mão: Willy Wonka, COBOL e o Marketplace de Papel que Vendia de Fusca a Emprego Antes de Existir LinkedIn

🍫 Carros, empregos, apartamentos, computadores, anúncios microscópicos, telefones, bancas e o estranho mundo onde milhares de desconhecidos faziam negócios sem login, reputação, Pix ou botão “Comprar agora”

Imagine, jovem padawan do COBOL, que estamos em São Paulo.

Ano: 1995.

Você quer comprar um carro usado.

Hoje a operação seria trivial.

Abre um aplicativo.

Seleciona:

MARCA       = VOLKSWAGEN
MODELO      = GOL
ANO         >= 1992
PRECO       <= 10000
CAMBIO      = MANUAL
LOCALIZACAO = SAO PAULO

Clica em pesquisar.

Em alguns milissegundos aparecem fotografias, preços, localização, quilometragem, telefone, financiamento e talvez até avaliações do vendedor.

Em 1995?

HAHAHAHAHAHA.

Meu caro COBOLzeiro...

pegue uma cadeira.

Porque vamos visitar a fábrica de chocolate de Willy Wonka da economia analógica brasileira.

E nosso bilhete dourado chama-se:

PRIMEIRA MÃO

Um jornal que, para quem olha hoje, parece simplesmente uma pilha de classificados.

Mas não se engane.

Aquilo era muito mais interessante.

O Primeira Mão era banco de dados.

Era mecanismo de busca.

Era marketplace.

Era classificados.

Era recrutamento.

Era catálogo de automóveis.

Era imobiliária distribuída.

Era mural de empregos.

Era rede de contatos.

Era uma espécie de LinkedIn popular.

Era OLX antes da OLX.

Era Mercado Livre sem Mercado Livre.

Era busca sem Google.

E tudo isso rodando numa infraestrutura extraordinariamente sofisticada chamada:

papel + telefone + banca de jornal + seres humanos.

Coloque seu capacete.

Willy Wonka abriu o elevador de vidro.

E desta vez o botão diz:

CLASSIFICADOS.


CAPÍTULO I — NÃO HAVIA CAMPO DE PESQUISA

A primeira coisa que precisamos explicar ao programador nascido no mundo digital é algo quase arqueológico:

encontrar coisas era difícil.

Você queria comprar um carro?

Precisava descobrir quem estava vendendo.

Queria vender uma geladeira?

Precisava encontrar alguém querendo comprar.

Procurava emprego?

Precisava descobrir quem estava contratando.

Precisava contratar um programador COBOL?

Boa sorte.

Queria alugar apartamento?

Era necessário descobrir quais imóveis estavam disponíveis.

O problema fundamental era:

VENDEDOR ---------------- ??? ---------------- COMPRADOR

Hoje o ??? é preenchido por plataformas digitais.

Naquela época, frequentemente era preenchido por classificados.

O Primeira Mão transformou esse problema numa especialidade.

Em vez de produzir prioritariamente notícias e acrescentar algumas páginas de classificados, a lógica era praticamente invertida.

O anúncio era o produto.

Décadas depois, uma descrição da própria Folha sobre a versão online chamava o Primeira Mão de “o maior jornal dedicado exclusivamente a classificados do Brasil”. E isso em 1998, quando sua versão web já permitia anúncios gratuitos e pagos e pesquisa de veículos por critérios. (Folha de S.Paulo)

Perceba a loucura histórica:

quando muita gente brasileira ainda perguntava:

— Para que serve essa tal Internet?

o Primeira Mão já estava tentando portar seu modelo de negócios para ela.


CAPÍTULO II — BEM-VINDO À FÁBRICA DE CLASSIFICADOS DE WILLY WONKA

Imagine Willy Wonka diante de uma gigantesca máquina.

Ele joga de um lado:

1 FUSCA 1983
1 APARTAMENTO NA MOOCA
1 COMPUTADOR 486
1 VAGA DE PROGRAMADOR
1 GELADEIRA CONSUL
1 LOJA COMERCIAL
1 CACHORRO
1 MÁQUINA DE ESCREVER
1 TERRENO

A máquina começa:

CLAC CLAC CLAC CLAC CLAC.

Do outro lado sai:

PRIMEIRA MÃO

Só que há um detalhe.

Tudo precisa caber no papel.

Portanto, espaço significa dinheiro.

E nasce uma linguagem extraordinária.

Algo semelhante a isto:

GOL CL 94 AZ MET 2P UN DONO DOC OK TR 9999-9999

Para um jovem atual isso parece um dump hexadecimal.

Para o leitor da época:

MOVE "VOLKSWAGEN GOL CL"
   TO WS-CARRO

MOVE 1994
   TO WS-ANO

MOVE "AZUL METALICO"
   TO WS-COR

MOVE 2
   TO WS-PORTAS

MOVE "UNICO DONO"
   TO WS-HISTORICO.

Era compressão de dados humana.

Cada caractere custava espaço.

Portanto:

abrevia tudo.

É quase um protocolo de comunicação.


CAPÍTULO III — O PRIMEIRA MÃO ERA UM BANCO DE DADOS IMPRESSO

Aqui começa a diversão para o COBOLzeiro.

Um jornal de classificados não poderia simplesmente despejar anúncios aleatoriamente.

Precisava existir taxonomia.

CLASSIFICADOS
 |
 +-- VEICULOS
 |     |
 |     +-- Volkswagen
 |     +-- Chevrolet
 |     +-- Ford
 |     +-- Fiat
 |
 +-- IMOVEIS
 |     |
 |     +-- Venda
 |     +-- Aluguel
 |
 +-- EMPREGOS
 |
 +-- SERVICOS
 |
 +-- INFORMATICA
 |
 +-- NEGOCIOS
 |
 +-- DIVERSOS

Isso é banco de dados.

Só não havia SELECT.

O SQL era você.

SELECT *
FROM CARROS
WHERE MARCA = 'VOLKSWAGEN'
AND MODELO = 'GOL'
AND PRECO <= MEU_DINHEIRO;

Na versão papel:

folheie até Volkswagen e comece a passar o dedo pelas linhas.

Seu processador era:

olho humano.

Seu índice era:

a seção do jornal.

Seu cache:

a página dobrada.

Seu bookmark:

uma caneta Bic fazendo um círculo.

Seu banco de favoritos:

três anúncios rabiscados.


CAPÍTULO IV — CTRL+F ERA O DEDO

Eis uma cena clássica.

Mesa.

Café.

Primeira Mão aberto.

Caneta.

Telefone.

Você procura carro.

Encontra:

MONZA GLS 93 COMPLETO

Circula.

Outro.

Circula.

Outro.

Risca porque está caro.

Depois começa a execução do batch.

PERFORM TELEFONA-PARA-VENDEDOR
    VARYING WS-ANUNCIO
    FROM 1 BY 1
    UNTIL WS-CARRO-COMPRADO = 'S'
END-PERFORM.

— Alô, é do Monza?

— É.

— Ainda está à venda?

Esta pergunta merece entrar no museu da computação brasileira.

“Ainda está à venda?”

Porque não havia atualização em tempo real.

O anúncio podia estar no jornal.

O carro podia ter sido vendido ontem.

A publicação continuava dizendo que ele existia.

Era um banco de dados com consistência eventual brutal.


CAPÍTULO V — O PRIMEIRO MARKETPLACE?

Precisamos fazer uma precisão histórica.

Classificados são muito anteriores ao Primeira Mão.

Jornais publicam anúncios há séculos.

Portanto seria incorreto afirmar literalmente que o Primeira Mão inventou o marketplace.

Mas culturalmente podemos entendê-lo como um ancestral direto da experiência que hoje associamos aos marketplaces digitais.

A lógica era exatamente esta:

TENHO ALGO
     |
     v
PUBLICO
     |
     v
DESCONHECIDOS ENCONTRAM
     |
     v
ENTRAM EM CONTATO
     |
     v
NEGOCIAMOS
     |
     v
TRANSAÇÃO

Isso é OLX.

Isso é Facebook Marketplace.

Isso é Mercado Livre em sua essência mais primitiva.

O que mudou foi a implementação.


CAPÍTULO VI — O LOGIN ERA O TELEFONE

Hoje uma plataforma pergunta:

nome,

email,

telefone,

senha,

CPF,

localização,

foto,

verificação,

reputação.

No Primeira Mão?

Frequentemente o identificador fundamental era:

TELEFONE

E telefone naquela época significava principalmente:

telefone fixo.

Você anunciava alguma coisa.

O jornal saía.

E então:

☎️ TRIIIIIMMMMM!

— Alô?

— Estou ligando por causa do anúncio.

Pronto.

O algoritmo realizou o match.

Não havia chat interno.

Não havia proteção de identidade.

Não havia intermediador.

Não havia “denunciar usuário”.

Não havia estrelas.

O resto era humanidade.

E humanidade, como todo sysprog sabe, constitui a dependência mais imprevisível do sistema.


CAPÍTULO VII — A REPUTAÇÃO ERA COMPILADA NA CONVERSA

Hoje:

⭐⭐⭐⭐⭐

“Excelente vendedor.”

Naquela época?

— O carro é seu?

— É.

— Faz quanto tempo?

— Quatro anos.

— Está batido?

— Nunca.

— Posso levar num mecânico?

PAUSA.

O comprador executava internamente:

IF VENDEDOR-ENGASGOU
    MOVE 'SUSPEITO' TO WS-RISCO
END-IF.

Era análise antifraude por entonação de voz.

Machine Learning?

Não.

Malícia brasileira 1.0.


CAPÍTULO VIII — E ENTÃO APARECE O LINKEDIN DE PAPEL

Aqui está uma parte frequentemente esquecida.

Classificados também eram fundamentais para emprego.

Antes de LinkedIn.

Antes de Gupy.

Antes de Indeed.

Antes de Catho digital dominar esse imaginário.

Antes de você clicar:

Easy Apply.

Existia:

EMPREGOS

E milhares de trabalhadores consultavam classificados procurando oportunidades.

Para algumas categorias profissionais, os anúncios funcionavam como radar do mercado.

Você podia descobrir:

  • quem estava contratando;

  • quais profissões estavam aquecidas;

  • quais habilidades eram exigidas;

  • quais regiões concentravam vagas;

  • quais salários apareciam;

  • quais empresas estavam crescendo.

Isso é interessantíssimo.

Porque LinkedIn não serve apenas para conseguir emprego.

Ele serve para observar o mercado de trabalho.

Os classificados já faziam isso.

O profissional podia olhar aquela seção e concluir:

— Tem muita vaga pedindo CICS.

Ou:

— Estão pedindo DB2.

Ou:

— Agora apareceu esse negócio de cliente-servidor.

Ou, em algum momento traumático:

— Que diabo é Java?

O COBOLzeiro fechava o jornal lentamente.

Tomava café.

E pensava:

isso não vai pegar.

HAHAHAHAHAHA.


CAPÍTULO IX — A REDE SOCIAL SEM PERFIL

Podemos ir além.

O Primeira Mão não era rede social tecnicamente.

Mas exercia algumas funções sociais hoje absorvidas pelas redes.

Você anunciava:

vendo.

compro.

procuro.

ofereço.

contrato.

alugo.

São praticamente posts.

Compare:

1995

VDO PC 486 DX2 66 8MB HD540 MON SVGA TEL...

2026

Galera, estou vendendo meu PC. Quem tiver interesse chama inbox.

Mudou tanto assim?

A sintaxe mudou.

A função social permanece quase idêntica.


CAPÍTULO X — O JORNAL DESCOBRIU O EFEITO DE REDE

Willy Wonka agora entra correndo.

— Bellacosa! Bellacosa! Descobri uma coisa maravilhosa!

— O quê?

— Quanto mais vendedores aparecem, mais compradores vêm!

— Sim.

— E quanto mais compradores aparecem...

— Mais vendedores querem anunciar.

Wonka arregala os olhos.

EFEITO DE REDE!

Esse é o segredo estrutural dos marketplaces.

MAIS ANUNCIOS
     ↓
MAIS UTILIDADE
     ↓
MAIS LEITORES
     ↓
MAIS RESPOSTAS
     ↓
MAIS ANUNCIANTES
     ↓
MAIS ANUNCIOS

O papel podia parecer tecnologicamente primitivo.

O modelo econômico não era.


CAPÍTULO XI — O PRIMEIRA MÃO ENTRA NA INTERNET

E aqui temos um easter egg delicioso.

Em novembro de 1998, a Folha já descrevia o site primeiramao.com.br, observando que o jornal mantinha na web o mesmo conceito dos classificados impressos. O usuário podia pesquisar veículos por marca e por categorias como nacional/importado e novo/usado, além de publicar anúncios gratuitos ou pagos. (Folha de S.Paulo)

Pare.

Leia novamente.

1998.

Google havia acabado de nascer.

Facebook?

YouTube?

OLX?

Instagram?

O velho jornal de classificados já estava dizendo:

— Talvez possamos colocar nosso banco de ofertas nessa tal World Wide Web.

O COBOLzeiro olha para isso e imediatamente reconhece o problema:

modernização de legado.

O negócio estava correto.

A interface estava envelhecendo.


CAPÍTULO XII — NÃO ERA PRECISO DESTRUIR O MAINFRAME

A lógica digital era praticamente uma migração arquitetural:

ANTES

VENDEDOR
   |
   v
ANUNCIO
   |
   v
JORNAL
   |
   v
BANCA
   |
   v
LEITOR
   |
   v
TELEFONE

Depois:

VENDEDOR
   |
   v
FORMULARIO
   |
   v
DATABASE
   |
   v
SITE
   |
   v
BUSCA
   |
   v
COMPRADOR

O domínio permaneceu.

A interface mudou.

Esse é exatamente o tipo de discussão que fazemos sobre sistemas legados.

Às vezes o erro não está no negócio.

Está na camada de acesso.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL COMEÇA A VIRAR OUTRA COISA

Em 2009 encontramos outro momento curioso.

A Editora Haple lançou o Primeira Mão Jornal, semanário gratuito com tiragem declarada de 100 mil exemplares. Cerca de 75% eram distribuídos gratuitamente nas ruas às sextas-feiras; aos sábados, a publicação acompanhava o Primeira Mão Classificados. (Portal IMPRENSA)

Olhe a transformação.

O modelo clássico já estava sentindo a mudança do ecossistema.

Internet.

Portais.

Sites especializados.

Gratuidade.

Novos hábitos.

O produto tenta encontrar novas funções.

Isso acontece o tempo inteiro em tecnologia.

Quando sua funcionalidade principal começa a ser comoditizada, você procura:

VALUE-ADDED-SERVICES

CAPÍTULO XIV — E HAVIA UM GRUPO ECONÔMICO POR TRÁS

A história empresarial do Primeira Mão também passou por diferentes estruturas e associações.

Em meados dos anos 2000, fontes do setor registravam o Grupo Bandeirantes de Comunicação como sócio do jornal Primeira Mão. Em 2007, por exemplo, o Observatório da Imprensa mencionava explicitamente essa participação ao contextualizar a entrada da Band no jornal gratuito Metro. (Observatório da Imprensa)

Isso mostra que o produto não era simplesmente um jornalzinho artesanal de anúncios.

Havia valor empresarial naquilo.

Por quê?

Porque quem controla um grande ambiente de classificados controla uma coisa preciosa:

INTENÇÃO DE COMPRA.

Pense nisso.

O leitor de notícia pode estar simplesmente curioso.

Quem abre classificados de automóveis provavelmente está considerando:

comprar automóvel.

Quem consulta imóveis provavelmente pretende:

comprar ou alugar imóvel.

Quem procura emprego pretende:

mudar sua situação profissional.

Hoje empresas gastam fortunas tentando identificar intenção através de dados comportamentais.

O classificado já recebia o usuário com a intenção praticamente declarada.


CAPÍTULO XV — A BANCA ERA O APP STORE

Depois do Notícias Populares, voltamos à nossa maravilhosa banca paulistana.

O sujeito chega.

Ali está o NP berrando alguma atrocidade.

Ao lado:

Primeira Mão.

A função é completamente diferente.

NP dizia:

OLHA ISSO!

Primeira Mão dizia:

PROCURA ALGUMA COISA?

Um era economia da atenção.

O outro era economia da intenção.

Essa distinção é extraordinariamente moderna.


CAPÍTULO XVI — O PROBLEMA DA LATÊNCIA

Todo sistema tem SLA.

No jornal impresso havia um problema brutal:

latência.

Você anuncia hoje.

O jornal precisa:

receber,

processar,

diagramar,

imprimir,

distribuir,

chegar à banca,

ser comprado.

Enquanto isso, o mundo continua acontecendo.

Se o produto foi vendido, a informação impressa continua existindo.

ANUNCIO.STATUS = AVAILABLE
REALIDADE.STATUS = SOLD

Temos uma inconsistência.

A Internet destruiu essa limitação.

Agora:

UPDATE ANUNCIO
SET STATUS='VENDIDO'
WHERE ID=12345;

Commit.

Acabou.


CAPÍTULO XVII — O PROBLEMA DAS FOTOS

Outro detalhe.

Hoje ninguém imagina comprar carro sem ver 27 fotografias.

Frente.

Traseira.

Painel.

Motor.

Porta-malas.

Bancos.

Rodas.

No classificado impresso tradicional, fotografia custava espaço precioso.

Consequentemente, enorme quantidade de anúncios era simplesmente:

TEXTO.

Você comprava primeiro uma descrição.

Depois telefonava.

Depois marcava encontro.

Depois finalmente via o produto.

Hoje fazemos:

VER → INTERESSAR → CONTATAR

Frequentemente era:

LER → IMAGINAR → TELEFONAR → VISITAR → VER

A Internet removeu uma quantidade gigantesca de atrito.


CAPÍTULO XVIII — MAS ADICIONOU OUTROS

E aqui está a pegadinha de Willy Wonka.

Oompa Loompa entra cantando:

🎵 Você queria eficiência
Ganhou golpe por mensagem... 🎵

HAHAHAHA.

Porque o digital resolveu problemas e criou outros.

Hoje temos:

perfil falso,

phishing,

links fraudulentos,

PIX falso,

comprovante falso,

deepfake,

contas descartáveis,

automação criminosa,

bots.

No jornal havia golpes?

Claro.

Humanidade nunca precisou de JavaScript para praticar fraude.

Mas a escala era diferente.

Um golpista precisava publicar anúncios, atender telefones e lidar fisicamente com vítimas.

Hoje um atacante pode tentar atingir milhares de pessoas automaticamente.

Mudamos de:

FRAUDE BATCH PEQUENO

para:

FRAUD-AS-A-SERVICE CLOUD NATIVE

Parabéns pela transformação digital.


CAPÍTULO XIX — O QUE MORREU?

O papel como mecanismo dominante de classificados.

A latência de dias.

As abreviações extremas.

A dependência da banca.

O telefone fixo como principal endpoint.

A caneta circulando anúncios.

A necessidade de comprar uma publicação inteira para pesquisar produtos.

A descoberta sequencial.

O modelo de distribuição física.

Isso praticamente pertence a outro universo.

Há até registros de leitores lamentando, anos depois, o desaparecimento do jornal físico e afirmando que os anúncios impressos anteriormente geravam muitas ligações. É evidência anedótica, não estatística, mas mostra como a memória do produto permaneceu ligada à eficácia percebida do papel. (Reclame Aqui)


CAPÍTULO XX — O QUE CONTINUA EXATAMENTE IGUAL?

Quase tudo que importa.

Olhe:

1995

Vendo Gol 1994.

2026

Vendo Gol 2022.


1995:

Interessados ligar.

2026:

Chama no privado.


1995:

— Aceita troca?

2026:

— Aceita troca?


1995:

— Faz por 8 mil?

2026:

— Faz por 80?


1995:

— Qual o menor valor?

2026:

QUAL O MENOR VALOR?

HAHAHAHAHAHAHAHA.

Meu caro COBOLzeiro...

Podemos inventar inteligência artificial geral.

Podemos colonizar Marte.

Podemos construir computador quântico.

Podemos colocar COBOL numa API REST executando atrás de Kubernetes enquanto um agente de IA chama z/OS Connect.

Mas enquanto existir comércio entre seres humanos haverá alguém perguntando:

“QUAL O MENOR VALOR?”

Esse requisito é imutável.

Não altere.

Está em produção desde a Mesopotâmia.


CAPÍTULO XXI — EASTER EGG: O LINKEDIN NÃO INVENTOU O NETWORKING

Existe uma tendência curiosa de imaginar que plataformas digitais inventaram comportamentos.

Não.

Elas digitalizaram comportamentos.

LinkedIn não inventou:

procurar emprego,

mostrar experiência,

descobrir oportunidades,

observar empresas,

encontrar profissionais.

Facebook Marketplace não inventou:

vender coisas para desconhecidos.

OLX não inventou:

classificados.

Tinder não inventou:

gente tentando conhecer gente.

Google não inventou:

procurar informação.

A revolução digital fez algo diferente:

removeu brutalmente o custo de localizar pessoas e informações.

Esse é o verdadeiro salto.


CAPÍTULO XXII — O PRIMEIRA MÃO COMO DATASET DA CIDADE

Agora uma reflexão que Willy Wonka provavelmente guardaria numa sala secreta.

Imagine possuir digitalizadas todas as edições históricas do Primeira Mão.

Você teria um dataset extraordinário.

Poderíamos observar:

preço dos automóveis,

modelos populares,

mudança dos bairros,

valores imobiliários,

profissões desaparecendo,

profissões surgindo,

tecnologias chegando,

computadores sendo vendidos,

linguagem comercial,

abreviações,

salários,

serviços,

hábitos de consumo.

Seria praticamente:

SELECT *
FROM SAO_PAULO
WHERE ANO BETWEEN 1980 AND 2000;

Classificados são fósseis econômicos.

Às vezes dizem muito mais sobre uma sociedade do que editoriais sofisticados.


CAPÍTULO XXIII — UM 486 VIRA ARQUEOLOGIA

Imagine encontrar:

VDO 486 DX2 66
8MB RAM
HD 540MB
CDROM 4X
MONITOR SVGA

Na época:

MÁQUINA PODEROSA.

Hoje:

uma fotografia de celular provavelmente ocupa mais armazenamento que centenas de documentos que aquele HD guardaria.

Os classificados registravam essa evolução involuntariamente.

Pentium.

Modem.

Fax.

Impressora matricial.

CD-ROM.

Scanner.

Era a arqueologia da informática acontecendo em tempo real.


CAPÍTULO XXIV — WONKA APERTA O BOTÃO INTERNET

Estamos novamente no elevador.

Willy Wonka pergunta:

— Para onde agora?

Há botões:

BANCA
TELEFONE
FAX
INTERNET
GOOGLE
MERCADO LIVRE
LINKEDIN
FACEBOOK
OLX
WHATSAPP
IA

Charlie pergunta:

— Sr. Wonka, são sistemas diferentes?

Wonka sorri.

— Não exatamente.

E aperta:

INTERNET

O elevador dispara.

As folhas do Primeira Mão começam a voar.

Os anúncios viram registros.

Os registros entram num banco.

As categorias viram filtros.

O telefone vira chat.

A fotografia vira galeria.

A banca vira homepage.

O jornaleiro vira algoritmo.

A caneta vira favorito.

O anúncio destacado vira Sponsored.

A circulação vira pageview.

O encalhe vira bounce rate.

O número de ligações vira conversion rate.

E aquele velho jornal aparentemente desaparece.

Mas seu DNA está espalhado por toda parte.


CAPÍTULO XXV — O GRANDE EASTER EGG

Em 1998, quando a Folha descreveu o Primeira Mão na Internet, já estavam presentes elementos fundamentais do marketplace moderno:

pesquisa estruturada + categorias + anúncio gratuito + anúncio pago + inventário pesquisável. (Folha de S.Paulo)

Isso é importante.

O Primeira Mão não ficou simplesmente esperando a Internet assassiná-lo.

Ele tentou entrar nela.

O problema clássico da transformação digital aparece aqui:

digitalizar um produto não garante preservar sua posição no ecossistema.

Você pode colocar o jornal na Internet.

Mas agora está competindo com empresas nascidas na Internet.

É exatamente a diferença entre:

DIGITALIZED BUSINESS

e

DIGITAL-NATIVE BUSINESS

Uma distinção que faria qualquer arquiteto de modernização de mainframe pedir outro café.


CAPÍTULO XXVI — NÃO CONFUNDA MARCAS

Outra curiosidade necessária para evitar um S0C7 histórico.

Hoje encontramos na Internet diferentes operações usando o nome Primeira Mão, inclusive uma marca automotiva ligada ao Grupo Saga e veículos regionais com nomes semelhantes. Isso não significa automaticamente continuidade empresarial do clássico jornal paulista de classificados. Por exemplo, o aplicativo atual chamado Primeira Mão na Google Play aparece associado ao Grupo Saga e ao mercado de seminovos. (Google Play)

Nome igual não significa mesmo dataset.

COBOLzeiro sabe:

01 PRIMEIRA-MAO-A.
01 PRIMEIRA-MAO-B.

Não faça:

MOVE A TO B

sem verificar o copybook.


CAPÍTULO XXVII — O LEGADO

O legado do Primeira Mão não está apenas no papel.

Está numa ideia.

Uma ideia extremamente poderosa:

há valor em conectar quem tem alguma coisa com quem procura alguma coisa.

Isso parece banal hoje.

Não é.

Grande parte da economia digital mundial funciona exatamente assim.

Uber:

motorista ↔ passageiro.

Airbnb:

imóvel ↔ hóspede.

LinkedIn:

profissional ↔ empresa.

Marketplace:

produto ↔ comprador.

Aplicativos imobiliários:

imóvel ↔ interessado.

Sites de emprego:

vaga ↔ candidato.

O grande negócio frequentemente não é possuir o ativo.

É possuir:

O MATCH.

O Primeira Mão fazia match.

Com papel.


EPÍLOGO — O ÚLTIMO BILHETE DOURADO

Willy Wonka finalmente nos leva até a sala mais secreta da fábrica.

Não há chocolate.

Não há Oompa Loompas.

Não há elevador.

Há apenas uma banca antiga.

Sobre ela está um exemplar grosso do Primeira Mão.

Wonka entrega uma caneta Bic ao jovem programador COBOL.

— Abra.

Ele abre.

Milhares de anúncios.

Carros.

Casas.

Empregos.

Computadores.

Serviços.

Objetos.

Sonhos.

Dívidas.

Mudanças.

Pequenos negócios.

Gente tentando começar.

Gente tentando vender.

Gente procurando trabalho.

Gente comprando seu primeiro carro.

Gente procurando apartamento para casar.

Gente vendendo computador para comprar outro.

Gente transformando patrimônio em dinheiro.

Gente procurando gente.

Wonka pergunta:

— O que você está vendo?

O jovem responde:

— Classificados.

Wonka sorri.

— Não.

Aponta para as páginas.

“Você está vendo uma rede social antes da rede social.”

Mais uma página.

“Um marketplace antes do marketplace.”

Outra.

“Um mecanismo de busca antes do mecanismo de busca.”

Outra.

“Um LinkedIn sem perfil.”

Outra.

“Um banco de dados impresso.”

E finalmente fecha o jornal.

PLOFT.

Uma pequena nuvem de poeira sobe.

Wonka continua:

— A tecnologia desapareceu. O requisito não.

E essa talvez seja a melhor lição que o velho Primeira Mão pode ensinar a qualquer jovem desenvolvedor COBOL.

Nós nos apaixonamos pelas implementações.

Papel.

Terminal 3270.

Browser.

Aplicativo.

Cloud.

Container.

IA.

Mas por baixo delas existem necessidades humanas incrivelmente persistentes.

EU TENHO.
EU QUERO.
EU PRECISO.
EU OFEREÇO.
EU PROCURO.

O Primeira Mão transformava essas cinco frases em negócio.

As plataformas modernas continuam fazendo exatamente a mesma coisa.

Só trocaram:

PAPEL
  |
  v
BANCA
  |
  v
TELEFONE

por:

DATABASE
  |
  v
API
  |
  v
APP
  |
  v
ALGORITHM

E quando alguém disser que marketplace, social selling ou networking profissional são invenções absolutamente novas, procure mentalmente aquela banca.

O jornal grosso.

As páginas finas.

As letras minúsculas.

Os anúncios comprimidos.

A Bic circulando um carro.

O telefone fixo esperando tocar.

E algum sujeito em São Paulo dizendo:

— Alô?

— É do anúncio do Gol?

— É.

— Ainda está à venda?

MATCH FOUND.

Nenhum Kafka.

Nenhum Kubernetes.

Nenhum Redis.

Nenhum GraphQL.

Nenhum embedding.

Nenhum modelo de recomendação.

Nenhuma GPU.

Apenas duas pessoas, um anúncio e uma infraestrutura de papel fazendo aquilo que a tecnologia continua tentando aperfeiçoar:

encontrar alguém que procura exatamente aquilo que outra pessoa tem para oferecer.

Willy Wonka coloca a cartola.

O COBOLzeiro termina o café.

O elevador abre.

Antes de sair, aparece no terminal verde uma última mensagem:

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. PRIMEIRA-MAO.

       PROCEDURE DIVISION.

           PERFORM CONECTAR-PESSOAS
               UNTIL FIM-DO-MERCADO.

           STOP RUN.

Mas o programa não termina.

Porque FIM-DO-MERCADO nunca fica verdadeiro.

O papel desapareceu.

A banca perdeu espaço.

O telefone virou smartphone.

O classificado virou post.

O emprego virou oportunidade.

O vendedor virou usuário.

O leitor virou lead.

O anúncio virou listing.

A seção virou filtro.

O jornal virou plataforma.

E aquela velha pergunta continua atravessando todas as gerações tecnológicas, resiliente como um programa COBOL de 1974:

“Ainda está à venda?”

Só existe uma resposta apropriada para Willy Wonka:

“Sim. Mas qual o menor valor?”

RC=0000

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

 

Bellacosa Mainframe e o jornal noticias populares

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

🩸 Crime, sexo, Bebê-Diabo, ditadura, censura, bancas, manchetes impossíveis e a extraordinária história do jornal que transformou São Paulo num filme de Quentin Tarantino décadas antes de Tarantino filmar Pulp Fiction

Imagine, jovem padawan do COBOL, que você saiu do trabalho em 1987.

Não existe smartphone.

Não existe Google.

Não existe X.

Não existe Instagram.

Não existe portal de notícias.

Não existe WhatsApp.

E, evidentemente, ninguém recebeu ainda no grupo da família um vídeo de procedência duvidosa acompanhado da mensagem:

URGENTE!!! REPASSEM ANTES QUE APAGUEM!!!

Para descobrir o que aconteceu no mundo, você passa diante de uma banca de jornal.

E ali está o algoritmo de recomendação de 1987.

Só que feito de madeira, metal, barbante e pregadores.

Dezenas de jornais e revistas estão expostos. Alguns pendurados. Outros sobrepostos. As capas disputam fisicamente alguns centímetros do seu campo de visão.

Folha.

Estadão.

Jornal da Tarde.

Gazeta Esportiva.

Revistas.

Quadrinhos.

E então aparece uma coisa que parece ter sido diagramada por alguém que misturou jornalismo policial, filme B, programa de auditório, revista masculina, conversa de boteco e uma quantidade preocupante de café.

NOTÍCIAS POPULARES.

O NP.

Você não precisava comprar.

Bastava enxergar a manchete.

E a manchete praticamente agarrava você pelo colarinho.

O jornal circulou de 1963 a 2001 e ficou marcado justamente pela combinação de textos curtos, muitas fotografias e títulos de enorme impacto. Em sua fase clássica, crime, sexo, violência, escatologia, celebridades, futebol e acontecimentos sobrenaturais conviviam alegremente no mesmo produto editorial.

Se Quentin Tarantino tivesse nascido no Brás e trabalhado como repórter policial antes de dirigir cinema, talvez alguma coisa parecida tivesse acontecido.

Só faltava Samuel L. Jackson entrar na redação e perguntar:

E o fechamento, motherf...?


CAPÍTULO I — ERA UMA VEZ UMA INTERNET DE PAPEL

Para compreender o Notícias Populares é preciso cometer um erro muito comum em manutenção de legado:

não analisar o programa sem analisar o ambiente em que ele executava.

Um COBOL de 1973 parece estranho quando retirado de seu contexto.

O NP também.

O Brasil que viu o jornal nascer, em 15 de outubro de 1963, era muito diferente do Brasil digital.

A televisão estava crescendo.

O rádio tinha enorme importância.

O país atravessava urbanização acelerada.

Milhares de pessoas migravam para grandes centros industriais.

São Paulo crescia violentamente.

Havia trabalhadores com pouca escolarização formal e enormes desigualdades educacionais.

Aqui vale corrigir uma simplificação importante.

Não seria justo dizer simplesmente:

“O NP existia porque o povo brasileiro não sabia ler.”

Não.

O fenômeno é mais interessante.

Existiam índices elevados de analfabetismo e escolarização limitada, mas também existia uma enorme população leitora com diferentes graus de letramento, habituada a formas mais diretas e orais de comunicação.

O NP compreendeu isso extraordinariamente bem.

Ele reduziu a complexidade sintática.

Usou títulos enormes.

Preferiu frases curtas.

Explorou fotografias.

Empregou vocabulário cotidiano.

Transformou assuntos complexos em narrativas.

Em linguagem de sistemas:

INPUT:
acontecimento complexo

PROCESS:
simplificação
personificação
emoção
imagem
humor
sexo
violência
curiosidade

OUTPUT:
MANCHETE IMPOSSÍVEL DE IGNORAR

Isso também explica por que chamar seu público simplesmente de “ignorante” seria perder justamente a parte mais interessante da história.

O leitor do NP podia ter pouca educação formal e, ao mesmo tempo, possuir enorme conhecimento prático do trabalho, da cidade, do transporte, do sindicato, do futebol e da sobrevivência urbana.

O jornal aprendeu a falar a língua desse público.


CAPÍTULO II — O NASCIMENTO ÀS VÉSPERAS DO GOLPE

Aqui a história fica politicamente muito mais interessante.

O NP foi lançado em 1963 pelo empresário Herbert Levy, tendo Jean Mellé como figura fundamental de sua concepção e primeira direção editorial. A intenção original envolvia disputar o público popular da Última Hora, jornal associado a Samuel Wainer e ao campo político ligado ao trabalhismo. Fontes históricas descrevem o projeto inicial como uma tentativa de criar um jornal popular politicamente conservador.

E olhe a data:

1963.

Um ano antes do golpe militar de 1964.

O Brasil fervia.

João Goulart.

Reformas de Base.

Movimento sindical.

Guerra Fria.

Anticomunismo.

Conflitos empresariais.

Estados Unidos e União Soviética disputando influência mundial.

As Forças Armadas no centro da crise.

E havia a Última Hora falando diretamente com parcelas populares.

A ideia era disputar esse espaço.

Só que aconteceu uma coisa deliciosamente digna de sistema legado.

O requisito original perdeu importância.

O produto sobreviveu.

Depois do golpe de 1964, aquele propósito político inicial tornou-se menos necessário. Em 1965, o jornal passou para o controle do grupo que viria a constituir o Grupo Folha.

É o equivalente jornalístico de:

* ESTA ROTINA FOI CRIADA PARA UMA REGRA DE 1963.
* A REGRA NÃO EXISTE MAIS.
* A ROTINA CONTINUA SENDO EXECUTADA.

Todo COBOLzeiro imediatamente se sente em casa.


CAPÍTULO III — IMPRENSA AMARELA NÃO É LISTA TELEFÔNICA

Quando falamos em imprensa amarela, não estamos falando das antigas Páginas Amarelas do telefone.

Estamos falando de yellow journalism ou yellow press.

O conceito nasceu ligado à imprensa sensacionalista de grande circulação: manchetes enormes, acontecimentos dramáticos, crimes, escândalos, histórias humanas, sexo, curiosidades e exploração emocional.

No Brasil popularizou-se também a expressão:

imprensa marrom.

A tradição remonta à penny press e à yellow press do século XIX e reaparece em diferentes formatos no jornalismo popular brasileiro.

O NP levou a fórmula a um nível quase industrial.

Se fosse arquitetura de software:

NOTÍCIA
   |
   +--> medo
   |
   +--> sexo
   |
   +--> curiosidade
   |
   +--> indignação
   |
   +--> humor
   |
   +--> identificação popular
   |
   +--> MANCHETE

Era um engagement engine analógico.


CAPÍTULO IV — O ALGORITMO ERA A BANCA

Aqui está uma coisa que uma geração criada com celulares talvez tenha dificuldade de visualizar.

A banca de jornal era uma interface gráfica urbana.

E era maravilhosa.

Havia revistas penduradas.

Jornais dobrados.

Capas sobrepostas.

Publicações presas em varais e expositores.

Gente esperando ônibus.

Gente saindo do trabalho.

Gente parando alguns minutos.

Gente que não comprava absolutamente nada, mas lia todas as manchetes disponíveis.

Era o Google News da calçada.

O jornaleiro era o algoritmo.

— Chegou aquela revista?

— Chegou.

— Tem jornal do concurso?

— Ali.

— Saiu o resultado do jogo?

— Primeira página.

E havia um fenômeno importantíssimo:

uma única cópia tinha dezenas de leitores visuais.

Hoje contamos pageviews.

Na banca, ninguém sabia quantos olhos haviam processado uma capa.

O NP compreendeu perfeitamente essa economia da atenção.

Sua primeira página precisava funcionar a cinco metros de distância.

Isso significa:

tipografia enorme + fotografia + poucas palavras + emoção.

É praticamente a ciência moderna da thumbnail do YouTube aplicada em papel-jornal.


CAPÍTULO V — TARANTINO ENTRA NA REDAÇÃO

Agora imaginemos Quentin Tarantino analisando uma pilha de Notícias Populares.

Ele provavelmente reconheceria imediatamente vários elementos de sua própria gramática cinematográfica.

Violência exagerada.

Humor dentro da tragédia.

Personagens marginais.

Sexo.

Grotesco.

Cultura popular.

Diálogos aparentemente absurdos.

Criminalidade.

Situações inacreditáveis.

O extraordinário misturado ao cotidiano.

Uma pessoa pega o ônibus.

Outra mata o vizinho.

Outra encontra um lobisomem.

Uma celebridade desapareceu.

Alguém viu um disco voador.

Uma mulher está seminua na contracapa.

O Corinthians perdeu.

Tudo pertence ao mesmo universo narrativo.

É quase:

Pulp Journalism.


CAPÍTULO VI — AS MANCHETES

Algumas manchetes tornaram-se parte do folclore jornalístico brasileiro.

Uma das mais famosas foi:

“Nasceu o Diabo em São Paulo”

Apareceu em 1975 e iniciou a lendária saga do Bebê-Diabo. O sucesso foi tão grande que a história continuou durante várias edições, transformando uma narrativa inicialmente ligada ao nascimento de uma criança com deformidades em uma verdadeira novela sobrenatural.

Outra manchete documentada pela própria história do jornal:

“Violada em pleno auditório”

O contexto?

Sérgio Ricardo havia quebrado o violão durante o Festival de Música Popular Brasileira de 1967.

O “violado” era o violão.

A construção deliberadamente ambígua fazia o resto.

Também apareceu:

“Desapareceu Roberto Carlos”

O contato com o cantor não havia sido conseguido nos Estados Unidos, e a história ganhou dimensão espetacular.

Havia ainda lobisomens, discos voadores, crimes improváveis, histórias sexuais e personagens urbanos transformados em celebridades instantâneas. O acervo histórico preserva, por exemplo, uma primeira página de 1974 dedicada a um suposto lobisomem pernambucano.

O NP compreendia algo fundamental:

a manchete não precisava contar a história inteira.

Precisava obrigar você a executar:

READ NEXT RECORD

CAPÍTULO VII — O BEBÊ-DIABO ERA O CLICKBAIT ANTES DO CLICK

O Bebê-Diabo merece uma parada especial.

A capa anuncia:

NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO.

Venda espetacular.

E alguém percebe:

— Meu Deus.

— O quê?

— Vendeu tudo.

— Então o Diabo volta amanhã.

E voltou.

A criatura passou a protagonizar novas histórias.

Aparecia aqui.

Desaparecia ali.

Assustava gente.

Era visto em telhados.

Pegava táxi.

A narrativa continuou por semanas. A história acabou reconhecida como uma construção ficcional da redação e tornou-se talvez o exemplo máximo da mistura de jornalismo, folclore urbano e entretenimento que caracterizou o NP.

Hoje chamaríamos isso de:

retenção de audiência.

Ou:

story arc.

Ou:

conteúdo serializado.

Em 1975:

vende jornal pra cacete.


CAPÍTULO VIII — CRIME: ESPREME QUE SAI SANGUE

A fama do NP também vinha de sua cobertura policial.

Assassinatos.

Acidentes.

Corpos.

Criminosos.

Vítimas.

Delegacias.

Tragédias.

A violência podia aparecer de maneira gráfica que dificilmente seria aceita por muitos veículos generalistas atuais.

Essa estética produziu a célebre descrição:

“espreme que sai sangue”.

Mas há uma contradição importante.

A cobertura policial também dava visibilidade a personagens que raramente apareciam nas páginas nobres da grande imprensa.

Operário.

Empregada doméstica.

Morador da periferia.

Desempregado.

Prostituta.

Motorista.

Pequeno comerciante.

Migrante.

Criminoso de bairro.

Vítima desconhecida.

Era frequentemente uma representação brutal e exploratória.

Mas era representação.

O sujeito que jamais apareceria na coluna social podia ocupar meia primeira página do NP.


CAPÍTULO IX — SEXO VENDE. E O NP SABIA.

E chegamos ao subsistema que provavelmente teria recebido:

PROGRAM-ID. SEX-SELLS.

O NP utilizou extensamente erotismo.

Mulheres seminuas.

Nudez.

Modelos.

Atrizes.

Histórias sexuais.

Duplo sentido.

Escândalos amorosos.

Personagens sexualizados.

Em determinadas fases, mulheres nuas ou seminuas na contracapa tornaram-se parte reconhecível da fórmula editorial. Décadas depois, reproduções históricas dessas capas chegaram a enfrentar moderação automática nas redes sociais justamente por conter nudez.

Isso também revela uma mudança cultural enorme.

Aquilo que podia ficar pendurado numa banca no meio da rua, visível a qualquer transeunte, posteriormente poderia ser removido de uma plataforma digital.

A censura mudou de arquitetura.

Antes:

ESTADO
   |
CENSOR
   |
JORNAL

Hoje pode existir:

PLATAFORMA
   |
POLÍTICA DE CONTEÚDO
   |
ALGORITMO
   |
POST

Mudamos o middleware.

A discussão permaneceu.


CAPÍTULO X — DITADURA, CENSURA E A GRANDE CONTRADIÇÃO

O NP atravessou praticamente todo o regime militar brasileiro de 1964 a 1985.

E isso torna sua história fascinante.

Durante a ditadura, a imprensa brasileira conviveu com censura, pressões políticas, autocensura e perseguição a jornalistas.

Mas jornais não foram afetados exatamente da mesma maneira.

E o NP possuía uma característica peculiar.

Grande parte de sua energia editorial estava direcionada para:

crime, sexo, celebridades, futebol, bizarrices e cotidiano.

Enquanto jornais políticos podiam travar batalhas sobre governo, economia e repressão, o NP podia colocar um lobisomem na capa.

Há aqui uma ironia quase tarantinesca:

em um país onde determinados assuntos políticos eram perigosos demais para imprimir, um Bebê-Diabo podia tornar-se protagonista nacional.

Isso não significa que o jornal estivesse fora do sistema político ou imune à censura.

Significa que seu modelo editorial ocupava um espaço diferente.


CAPÍTULO XI — MAS QUEM CENSURA O MAU GOSTO?

Depois aparece outra discussão.

Não censura política.

Censura moral.

Até onde um jornal pode mostrar um cadáver?

Até onde pode explorar sexualmente uma capa?

Até onde pode publicar nudez?

Até onde pode transformar sofrimento humano em entretenimento?

Em 1994, a própria Folha registrava que o NP havia vencido disputas judiciais contra tentativas de obrigá-lo a circular lacrado, enquanto enfrentava outras controvérsias judiciais relacionadas ao conteúdo publicado.

Essa discussão continua atualíssima.

Troque:

banca

por:

timeline

e o problema reaparece.

Quem decide?

O Estado?

A plataforma?

O editor?

O algoritmo?

O leitor?


CAPÍTULO XII — HUMOR: O COMPONENTE QUE MUITA GENTE ESQUECE

Quem reduz o NP apenas a sangue e mulheres nuas perde uma característica fundamental:

ele podia ser tremendamente engraçado.

Às vezes propositalmente.

Às vezes involuntariamente.

Às vezes não havia sequer como saber.

O título possuía ritmo de piada.

Preparação.

Suspense.

Punchline.

A realidade era convertida em espetáculo linguístico.

Era quase uma tradição de boteco aplicada ao jornalismo.

O leitor podia pensar simultaneamente:

— Isso é horrível.

— Isso é absurdo.

— Isso não pode ser verdade.

— HAHAHAHAHAHAHA.

— Quanto custa?

Essa combinação é profundamente tarantinesca.

Você ri de alguma coisa da qual talvez não devesse rir.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL TAMBÉM ERA SERVIÇO

Mas existe outro NP escondido atrás do Bebê-Diabo.

O jornal do trabalhador.

Emprego.

Sindicato.

Transporte.

Problemas urbanos.

Futebol.

Serviços.

Histórias dos bairros.

Problemas que afetavam diretamente as classes populares.

Essa dimensão é importante porque impede uma caricatura fácil.

O NP não era simplesmente:

CRIME + PEITO + DEMÔNIO

Era uma mistura muito mais complicada de jornalismo popular, serviço, entretenimento, sensacionalismo e exploração comercial da curiosidade humana.

Essa ambiguidade explica parte de sua longevidade.


CAPÍTULO XIV — 113 MIL EXEMPLARES

O negócio funcionou.

E muito.

Em 1986, a circulação média chegou a aproximadamente 113 mil exemplares diários.

Depois caiu para 71 mil em 1988.

Uma reforma gráfica e editorial iniciada em 1990 recuperou público, levando novamente a circulação para cerca de 104 mil exemplares naquele ano.

Observe o detalhe.

Não estamos falando de impressão de página web.

Cada exemplar precisava:

ser impresso,

dobrado,

empacotado,

transportado,

distribuído,

entregue à banca

e finalmente comprado.

Era uma infraestrutura física monstruosa.


CAPÍTULO XV — AS BANCAS ERAM AS REDES SOCIAIS

Imagine uma manhã em São Paulo.

Ônibus chegando.

Gente atravessando rua.

Café.

Cigarro.

Buzina.

Jornaleiro abrindo pacotes.

Os jornais são colocados no varal.

Um sujeito para.

Outro olha por cima do ombro.

Outro comenta:

— Você viu isso?

Pronto.

Temos:

POST       = capa
FEED       = banca
LIKE       = comentário
SHARE      = contar para colega
TRENDING   = multidão olhando
ALGORITHM  = jornaleiro
CLICK      = comprar

E havia algo maravilhoso:

o lurker analógico.

O cidadão que lia todas as manchetes e jamais comprava jornal algum.

O terror do modelo de monetização desde 1972.


CAPÍTULO XVI — TARANTINO ENCONTRA O NP

Agora podemos voltar ao nosso diretor imaginário.

Tarantino provavelmente compreenderia o Notícias Populares porque ambos trabalham com uma pergunta semelhante:

Até onde podemos levar a cultura popular antes que ela se transforme em grotesco?

Em Tarantino, a violência pode ser horrível e engraçada.

No NP também.

O sexo pode ser desejo, exploração e piada.

No NP também.

O criminoso pode virar personagem.

No NP também.

O absurdo pode coexistir com acontecimentos reais.

No NP também.

E principalmente:

ninguém está tentando parecer elegante.

O produto assume sua vulgaridade.

Isso é fundamental.

O NP não queria parecer o New York Times.

Ele queria que você parasse diante da banca.


CAPÍTULO XVII — ENTÃO VEIO A TELEVISÃO E ROUBOU O CÓDIGO-FONTE

Nos anos 1990 apareceu um concorrente devastador.

A televisão percebeu:

— Espera aí.

Crime funciona.

Tragédia funciona.

Perseguição funciona.

Repórter gritando funciona.

Popular funciona.

Programas como Aqui Agora levaram parte dessa estética para a televisão.

Depois outros programas policiais continuaram explorando a fórmula.

O que antes precisava ser imaginado através de uma fotografia agora aparecia:

em movimento.

Com som.

Sirene.

Repórter.

Helicóptero.

Ao vivo.

O NP encontrou um problema clássico de TI:

sua interface foi copiada por uma plataforma tecnologicamente mais atraente.


CAPÍTULO XVIII — O FIM

Em 20 de janeiro de 2001, saiu a última edição.

A circulação havia despencado para cerca de 20 mil exemplares diários.

Para comparar:

1986:

113.000

2001:

20.000

O Grupo Folha decidiu concentrar seu jornalismo popular no Agora São Paulo, que naquele momento circulava aproximadamente 118 mil exemplares por dia. A direção afirmou que o modelo do NP havia se esgotado.

Também pesavam a dificuldade comercial, a resistência de anunciantes, mudanças no mercado e a concorrência de novas formas de jornalismo popular.

O processo vinha ocorrendo havia anos:

1994 — 99 mil.

1996 — 74 mil.

1998 — 48 mil.

2001 — 20 mil.

O batch estava morrendo lentamente.

Até alguém executar:

//NP      JOB
//STEP01  EXEC PGM=ENCERRA
//SYSOUT  DD SYSOUT=*
//

RC=0000

37 anos.

Fim.


CAPÍTULO XIX — OU TALVEZ NÃO

Porque aqui está o maior easter egg desta história.

O Notícias Populares morreu?

O jornal, sim.

A arquitetura?

HAHAHAHAHAHA.

Não.

Olhe sua timeline.

URGENTE!

CHOCANTE!

VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!

VEJA O QUE ACONTECEU!

IMAGENS FORTES!

POLÊMICA!

BOMBA!

ABSURDO!

Reconheceu?

O NP não desapareceu.

Ele foi portado para a Web.


CAPÍTULO XX — O NP ERA UM ALGORITMO HUMANO

A redação havia descoberto empiricamente coisas que hoje chamamos de:

  • engagement;

  • click-through rate;

  • emotional triggering;

  • visual hierarchy;

  • retention;

  • cliffhanger;

  • serialização;

  • curiosity gap;

  • personalização por público;

  • linguagem otimizada;

  • conteúdo viral.

Não havia machine learning.

Havia jornalista.

Não havia dashboard em tempo real.

Havia:

VENDEU?

Se a resposta fosse sim:

PERFORM FAZ-DE-NOVO
    UNTIL CIRCULACAO = ZERO
END-PERFORM.

O Bebê-Diabo foi praticamente um mecanismo de retenção serializado.


CAPÍTULO XXI — E O “POVO SEM LETRAMENTO”?

Voltamos ao ponto mais delicado.

É tentador olhar para aquelas capas hoje e concluir:

“Funcionavam porque o público era ignorante.”

Seria uma conclusão confortável.

E provavelmente errada.

Porque as mesmas técnicas funcionam hoje com:

executivos,

engenheiros,

médicos,

advogados,

professores,

programadores,

mestres,

doutores

e pessoas com três monitores exibindo dashboards.

O problema não é simplesmente alfabetização.

É psicologia humana.

Medo chama atenção.

Sexo chama atenção.

Perigo chama atenção.

Curiosidade chama atenção.

Violência chama atenção.

O extraordinário chama atenção.

Somos Homo sapiens antes de sermos usuários autenticados.

A diferença é que o NP precisava convencer um cidadão caminhando pela calçada.

Hoje o recomendador sabe exatamente qual Bebê-Diabo mostrar para cada pessoa.

E isso é muito mais poderoso.


CAPÍTULO XXII — O VERDADEIRO LEGADO

O Notícias Populares é uma cápsula cultural brasileira.

Nele encontramos simultaneamente:

ditadura,

urbanização,

migração,

violência,

desigualdade,

sexualidade,

machismo,

humor,

moralismo,

religiosidade,

superstição,

televisão,

futebol,

celebridades,

criminalidade,

publicidade,

censura,

liberdade de imprensa

e cultura popular.

Por isso suas capas parecem absurdas hoje.

Elas são snapshots de memória.

SYS1.BRASIL.HISTORIA.NP

Cada edição preserva não apenas aquilo que aconteceu.

Preserva aquilo que uma sociedade desejava ver.

E talvez isso seja ainda mais importante.


EPÍLOGO — PULP FICTION NA BANCA

Imagine a cena final.

São Paulo.

Final dos anos 1980.

Seis horas da manhã.

Ônibus passando.

Um bar abrindo.

Café sendo servido num copo americano.

A banca está cheia.

O jornaleiro prende jornais no varal.

Um trabalhador aproxima-se.

Olha uma capa.

Para.

Franze a testa.

Outro sujeito olha também.

Um terceiro aproxima-se.

Ninguém sabe ainda que existe uma coisa chamada Internet comercial.

Ninguém ouviu falar em SEO.

Não existe trending topic.

Não existe feed personalizado.

Não existe recomendador.

Não existe botão compartilhar.

Mas existe uma manchete enorme anunciando alguma combinação absolutamente improvável de:

crime + sexo + tragédia + celebridade + sobrenatural.

O primeiro homem comenta:

— Você viu essa porra?

O segundo responde:

— Vi.

O terceiro pergunta:

— O que aconteceu?

E a informação começa a circular.

Tarantino poderia congelar a imagem exatamente aí.

Entraria uma guitarra surf dos anos 1960.

A tela ficaria vermelha.

E surgiria:

NOTÍCIAS POPULARES

Nada mais que a verdade.

Corta.

Créditos.

Mas o COBOLzeiro permanece sentado diante do terminal.

Porque ele percebeu uma coisa inquietante.

O Notícias Populares foi encerrado em 2001.

O código-fonte comportamental que fazia o Notícias Populares funcionar continua executando.

A banca virou feed.

O varal virou timeline.

A manchete virou thumbnail.

O jornaleiro virou algoritmo.

O Bebê-Diabo virou conteúdo viral.

A disputa por centímetros de papel virou disputa por pixels.

E as centenas de pessoas que paravam diante das bancas para ler gratuitamente as manchetes viraram bilhões de dedos fazendo:

SCROLL
SCROLL
SCROLL
STOP

Talvez o maior legado do NP seja justamente esse.

Ele demonstrou, muito antes do Facebook, do YouTube, do TikTok e dos recomendadores modernos, que existe uma disputa feroz pelo recurso computacional mais caro do planeta:

a atenção humana.

E nisso, meu caro COBOLzeiro...

o velho Notícias Populares tinha um algoritmo absolutamente infernal.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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