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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

 

Bellacosa Mainframe e o jornal noticias populares

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Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

🩸 Crime, sexo, Bebê-Diabo, ditadura, censura, bancas, manchetes impossíveis e a extraordinária história do jornal que transformou São Paulo num filme de Quentin Tarantino décadas antes de Tarantino filmar Pulp Fiction

Imagine, jovem padawan do COBOL, que você saiu do trabalho em 1987.

Não existe smartphone.

Não existe Google.

Não existe X.

Não existe Instagram.

Não existe portal de notícias.

Não existe WhatsApp.

E, evidentemente, ninguém recebeu ainda no grupo da família um vídeo de procedência duvidosa acompanhado da mensagem:

URGENTE!!! REPASSEM ANTES QUE APAGUEM!!!

Para descobrir o que aconteceu no mundo, você passa diante de uma banca de jornal.

E ali está o algoritmo de recomendação de 1987.

Só que feito de madeira, metal, barbante e pregadores.

Dezenas de jornais e revistas estão expostos. Alguns pendurados. Outros sobrepostos. As capas disputam fisicamente alguns centímetros do seu campo de visão.

Folha.

Estadão.

Jornal da Tarde.

Gazeta Esportiva.

Revistas.

Quadrinhos.

E então aparece uma coisa que parece ter sido diagramada por alguém que misturou jornalismo policial, filme B, programa de auditório, revista masculina, conversa de boteco e uma quantidade preocupante de café.

NOTÍCIAS POPULARES.

O NP.

Você não precisava comprar.

Bastava enxergar a manchete.

E a manchete praticamente agarrava você pelo colarinho.

O jornal circulou de 1963 a 2001 e ficou marcado justamente pela combinação de textos curtos, muitas fotografias e títulos de enorme impacto. Em sua fase clássica, crime, sexo, violência, escatologia, celebridades, futebol e acontecimentos sobrenaturais conviviam alegremente no mesmo produto editorial.

Se Quentin Tarantino tivesse nascido no Brás e trabalhado como repórter policial antes de dirigir cinema, talvez alguma coisa parecida tivesse acontecido.

Só faltava Samuel L. Jackson entrar na redação e perguntar:

E o fechamento, motherf...?


CAPÍTULO I — ERA UMA VEZ UMA INTERNET DE PAPEL

Para compreender o Notícias Populares é preciso cometer um erro muito comum em manutenção de legado:

não analisar o programa sem analisar o ambiente em que ele executava.

Um COBOL de 1973 parece estranho quando retirado de seu contexto.

O NP também.

O Brasil que viu o jornal nascer, em 15 de outubro de 1963, era muito diferente do Brasil digital.

A televisão estava crescendo.

O rádio tinha enorme importância.

O país atravessava urbanização acelerada.

Milhares de pessoas migravam para grandes centros industriais.

São Paulo crescia violentamente.

Havia trabalhadores com pouca escolarização formal e enormes desigualdades educacionais.

Aqui vale corrigir uma simplificação importante.

Não seria justo dizer simplesmente:

“O NP existia porque o povo brasileiro não sabia ler.”

Não.

O fenômeno é mais interessante.

Existiam índices elevados de analfabetismo e escolarização limitada, mas também existia uma enorme população leitora com diferentes graus de letramento, habituada a formas mais diretas e orais de comunicação.

O NP compreendeu isso extraordinariamente bem.

Ele reduziu a complexidade sintática.

Usou títulos enormes.

Preferiu frases curtas.

Explorou fotografias.

Empregou vocabulário cotidiano.

Transformou assuntos complexos em narrativas.

Em linguagem de sistemas:

INPUT:
acontecimento complexo

PROCESS:
simplificação
personificação
emoção
imagem
humor
sexo
violência
curiosidade

OUTPUT:
MANCHETE IMPOSSÍVEL DE IGNORAR

Isso também explica por que chamar seu público simplesmente de “ignorante” seria perder justamente a parte mais interessante da história.

O leitor do NP podia ter pouca educação formal e, ao mesmo tempo, possuir enorme conhecimento prático do trabalho, da cidade, do transporte, do sindicato, do futebol e da sobrevivência urbana.

O jornal aprendeu a falar a língua desse público.


CAPÍTULO II — O NASCIMENTO ÀS VÉSPERAS DO GOLPE

Aqui a história fica politicamente muito mais interessante.

O NP foi lançado em 1963 pelo empresário Herbert Levy, tendo Jean Mellé como figura fundamental de sua concepção e primeira direção editorial. A intenção original envolvia disputar o público popular da Última Hora, jornal associado a Samuel Wainer e ao campo político ligado ao trabalhismo. Fontes históricas descrevem o projeto inicial como uma tentativa de criar um jornal popular politicamente conservador.

E olhe a data:

1963.

Um ano antes do golpe militar de 1964.

O Brasil fervia.

João Goulart.

Reformas de Base.

Movimento sindical.

Guerra Fria.

Anticomunismo.

Conflitos empresariais.

Estados Unidos e União Soviética disputando influência mundial.

As Forças Armadas no centro da crise.

E havia a Última Hora falando diretamente com parcelas populares.

A ideia era disputar esse espaço.

Só que aconteceu uma coisa deliciosamente digna de sistema legado.

O requisito original perdeu importância.

O produto sobreviveu.

Depois do golpe de 1964, aquele propósito político inicial tornou-se menos necessário. Em 1965, o jornal passou para o controle do grupo que viria a constituir o Grupo Folha.

É o equivalente jornalístico de:

* ESTA ROTINA FOI CRIADA PARA UMA REGRA DE 1963.
* A REGRA NÃO EXISTE MAIS.
* A ROTINA CONTINUA SENDO EXECUTADA.

Todo COBOLzeiro imediatamente se sente em casa.


CAPÍTULO III — IMPRENSA AMARELA NÃO É LISTA TELEFÔNICA

Quando falamos em imprensa amarela, não estamos falando das antigas Páginas Amarelas do telefone.

Estamos falando de yellow journalism ou yellow press.

O conceito nasceu ligado à imprensa sensacionalista de grande circulação: manchetes enormes, acontecimentos dramáticos, crimes, escândalos, histórias humanas, sexo, curiosidades e exploração emocional.

No Brasil popularizou-se também a expressão:

imprensa marrom.

A tradição remonta à penny press e à yellow press do século XIX e reaparece em diferentes formatos no jornalismo popular brasileiro.

O NP levou a fórmula a um nível quase industrial.

Se fosse arquitetura de software:

NOTÍCIA
   |
   +--> medo
   |
   +--> sexo
   |
   +--> curiosidade
   |
   +--> indignação
   |
   +--> humor
   |
   +--> identificação popular
   |
   +--> MANCHETE

Era um engagement engine analógico.


CAPÍTULO IV — O ALGORITMO ERA A BANCA

Aqui está uma coisa que uma geração criada com celulares talvez tenha dificuldade de visualizar.

A banca de jornal era uma interface gráfica urbana.

E era maravilhosa.

Havia revistas penduradas.

Jornais dobrados.

Capas sobrepostas.

Publicações presas em varais e expositores.

Gente esperando ônibus.

Gente saindo do trabalho.

Gente parando alguns minutos.

Gente que não comprava absolutamente nada, mas lia todas as manchetes disponíveis.

Era o Google News da calçada.

O jornaleiro era o algoritmo.

— Chegou aquela revista?

— Chegou.

— Tem jornal do concurso?

— Ali.

— Saiu o resultado do jogo?

— Primeira página.

E havia um fenômeno importantíssimo:

uma única cópia tinha dezenas de leitores visuais.

Hoje contamos pageviews.

Na banca, ninguém sabia quantos olhos haviam processado uma capa.

O NP compreendeu perfeitamente essa economia da atenção.

Sua primeira página precisava funcionar a cinco metros de distância.

Isso significa:

tipografia enorme + fotografia + poucas palavras + emoção.

É praticamente a ciência moderna da thumbnail do YouTube aplicada em papel-jornal.


CAPÍTULO V — TARANTINO ENTRA NA REDAÇÃO

Agora imaginemos Quentin Tarantino analisando uma pilha de Notícias Populares.

Ele provavelmente reconheceria imediatamente vários elementos de sua própria gramática cinematográfica.

Violência exagerada.

Humor dentro da tragédia.

Personagens marginais.

Sexo.

Grotesco.

Cultura popular.

Diálogos aparentemente absurdos.

Criminalidade.

Situações inacreditáveis.

O extraordinário misturado ao cotidiano.

Uma pessoa pega o ônibus.

Outra mata o vizinho.

Outra encontra um lobisomem.

Uma celebridade desapareceu.

Alguém viu um disco voador.

Uma mulher está seminua na contracapa.

O Corinthians perdeu.

Tudo pertence ao mesmo universo narrativo.

É quase:

Pulp Journalism.


CAPÍTULO VI — AS MANCHETES

Algumas manchetes tornaram-se parte do folclore jornalístico brasileiro.

Uma das mais famosas foi:

“Nasceu o Diabo em São Paulo”

Apareceu em 1975 e iniciou a lendária saga do Bebê-Diabo. O sucesso foi tão grande que a história continuou durante várias edições, transformando uma narrativa inicialmente ligada ao nascimento de uma criança com deformidades em uma verdadeira novela sobrenatural.

Outra manchete documentada pela própria história do jornal:

“Violada em pleno auditório”

O contexto?

Sérgio Ricardo havia quebrado o violão durante o Festival de Música Popular Brasileira de 1967.

O “violado” era o violão.

A construção deliberadamente ambígua fazia o resto.

Também apareceu:

“Desapareceu Roberto Carlos”

O contato com o cantor não havia sido conseguido nos Estados Unidos, e a história ganhou dimensão espetacular.

Havia ainda lobisomens, discos voadores, crimes improváveis, histórias sexuais e personagens urbanos transformados em celebridades instantâneas. O acervo histórico preserva, por exemplo, uma primeira página de 1974 dedicada a um suposto lobisomem pernambucano.

O NP compreendia algo fundamental:

a manchete não precisava contar a história inteira.

Precisava obrigar você a executar:

READ NEXT RECORD

CAPÍTULO VII — O BEBÊ-DIABO ERA O CLICKBAIT ANTES DO CLICK

O Bebê-Diabo merece uma parada especial.

A capa anuncia:

NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO.

Venda espetacular.

E alguém percebe:

— Meu Deus.

— O quê?

— Vendeu tudo.

— Então o Diabo volta amanhã.

E voltou.

A criatura passou a protagonizar novas histórias.

Aparecia aqui.

Desaparecia ali.

Assustava gente.

Era visto em telhados.

Pegava táxi.

A narrativa continuou por semanas. A história acabou reconhecida como uma construção ficcional da redação e tornou-se talvez o exemplo máximo da mistura de jornalismo, folclore urbano e entretenimento que caracterizou o NP.

Hoje chamaríamos isso de:

retenção de audiência.

Ou:

story arc.

Ou:

conteúdo serializado.

Em 1975:

vende jornal pra cacete.


CAPÍTULO VIII — CRIME: ESPREME QUE SAI SANGUE

A fama do NP também vinha de sua cobertura policial.

Assassinatos.

Acidentes.

Corpos.

Criminosos.

Vítimas.

Delegacias.

Tragédias.

A violência podia aparecer de maneira gráfica que dificilmente seria aceita por muitos veículos generalistas atuais.

Essa estética produziu a célebre descrição:

“espreme que sai sangue”.

Mas há uma contradição importante.

A cobertura policial também dava visibilidade a personagens que raramente apareciam nas páginas nobres da grande imprensa.

Operário.

Empregada doméstica.

Morador da periferia.

Desempregado.

Prostituta.

Motorista.

Pequeno comerciante.

Migrante.

Criminoso de bairro.

Vítima desconhecida.

Era frequentemente uma representação brutal e exploratória.

Mas era representação.

O sujeito que jamais apareceria na coluna social podia ocupar meia primeira página do NP.


CAPÍTULO IX — SEXO VENDE. E O NP SABIA.

E chegamos ao subsistema que provavelmente teria recebido:

PROGRAM-ID. SEX-SELLS.

O NP utilizou extensamente erotismo.

Mulheres seminuas.

Nudez.

Modelos.

Atrizes.

Histórias sexuais.

Duplo sentido.

Escândalos amorosos.

Personagens sexualizados.

Em determinadas fases, mulheres nuas ou seminuas na contracapa tornaram-se parte reconhecível da fórmula editorial. Décadas depois, reproduções históricas dessas capas chegaram a enfrentar moderação automática nas redes sociais justamente por conter nudez.

Isso também revela uma mudança cultural enorme.

Aquilo que podia ficar pendurado numa banca no meio da rua, visível a qualquer transeunte, posteriormente poderia ser removido de uma plataforma digital.

A censura mudou de arquitetura.

Antes:

ESTADO
   |
CENSOR
   |
JORNAL

Hoje pode existir:

PLATAFORMA
   |
POLÍTICA DE CONTEÚDO
   |
ALGORITMO
   |
POST

Mudamos o middleware.

A discussão permaneceu.


CAPÍTULO X — DITADURA, CENSURA E A GRANDE CONTRADIÇÃO

O NP atravessou praticamente todo o regime militar brasileiro de 1964 a 1985.

E isso torna sua história fascinante.

Durante a ditadura, a imprensa brasileira conviveu com censura, pressões políticas, autocensura e perseguição a jornalistas.

Mas jornais não foram afetados exatamente da mesma maneira.

E o NP possuía uma característica peculiar.

Grande parte de sua energia editorial estava direcionada para:

crime, sexo, celebridades, futebol, bizarrices e cotidiano.

Enquanto jornais políticos podiam travar batalhas sobre governo, economia e repressão, o NP podia colocar um lobisomem na capa.

Há aqui uma ironia quase tarantinesca:

em um país onde determinados assuntos políticos eram perigosos demais para imprimir, um Bebê-Diabo podia tornar-se protagonista nacional.

Isso não significa que o jornal estivesse fora do sistema político ou imune à censura.

Significa que seu modelo editorial ocupava um espaço diferente.


CAPÍTULO XI — MAS QUEM CENSURA O MAU GOSTO?

Depois aparece outra discussão.

Não censura política.

Censura moral.

Até onde um jornal pode mostrar um cadáver?

Até onde pode explorar sexualmente uma capa?

Até onde pode publicar nudez?

Até onde pode transformar sofrimento humano em entretenimento?

Em 1994, a própria Folha registrava que o NP havia vencido disputas judiciais contra tentativas de obrigá-lo a circular lacrado, enquanto enfrentava outras controvérsias judiciais relacionadas ao conteúdo publicado.

Essa discussão continua atualíssima.

Troque:

banca

por:

timeline

e o problema reaparece.

Quem decide?

O Estado?

A plataforma?

O editor?

O algoritmo?

O leitor?


CAPÍTULO XII — HUMOR: O COMPONENTE QUE MUITA GENTE ESQUECE

Quem reduz o NP apenas a sangue e mulheres nuas perde uma característica fundamental:

ele podia ser tremendamente engraçado.

Às vezes propositalmente.

Às vezes involuntariamente.

Às vezes não havia sequer como saber.

O título possuía ritmo de piada.

Preparação.

Suspense.

Punchline.

A realidade era convertida em espetáculo linguístico.

Era quase uma tradição de boteco aplicada ao jornalismo.

O leitor podia pensar simultaneamente:

— Isso é horrível.

— Isso é absurdo.

— Isso não pode ser verdade.

— HAHAHAHAHAHAHA.

— Quanto custa?

Essa combinação é profundamente tarantinesca.

Você ri de alguma coisa da qual talvez não devesse rir.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL TAMBÉM ERA SERVIÇO

Mas existe outro NP escondido atrás do Bebê-Diabo.

O jornal do trabalhador.

Emprego.

Sindicato.

Transporte.

Problemas urbanos.

Futebol.

Serviços.

Histórias dos bairros.

Problemas que afetavam diretamente as classes populares.

Essa dimensão é importante porque impede uma caricatura fácil.

O NP não era simplesmente:

CRIME + PEITO + DEMÔNIO

Era uma mistura muito mais complicada de jornalismo popular, serviço, entretenimento, sensacionalismo e exploração comercial da curiosidade humana.

Essa ambiguidade explica parte de sua longevidade.


CAPÍTULO XIV — 113 MIL EXEMPLARES

O negócio funcionou.

E muito.

Em 1986, a circulação média chegou a aproximadamente 113 mil exemplares diários.

Depois caiu para 71 mil em 1988.

Uma reforma gráfica e editorial iniciada em 1990 recuperou público, levando novamente a circulação para cerca de 104 mil exemplares naquele ano.

Observe o detalhe.

Não estamos falando de impressão de página web.

Cada exemplar precisava:

ser impresso,

dobrado,

empacotado,

transportado,

distribuído,

entregue à banca

e finalmente comprado.

Era uma infraestrutura física monstruosa.


CAPÍTULO XV — AS BANCAS ERAM AS REDES SOCIAIS

Imagine uma manhã em São Paulo.

Ônibus chegando.

Gente atravessando rua.

Café.

Cigarro.

Buzina.

Jornaleiro abrindo pacotes.

Os jornais são colocados no varal.

Um sujeito para.

Outro olha por cima do ombro.

Outro comenta:

— Você viu isso?

Pronto.

Temos:

POST       = capa
FEED       = banca
LIKE       = comentário
SHARE      = contar para colega
TRENDING   = multidão olhando
ALGORITHM  = jornaleiro
CLICK      = comprar

E havia algo maravilhoso:

o lurker analógico.

O cidadão que lia todas as manchetes e jamais comprava jornal algum.

O terror do modelo de monetização desde 1972.


CAPÍTULO XVI — TARANTINO ENCONTRA O NP

Agora podemos voltar ao nosso diretor imaginário.

Tarantino provavelmente compreenderia o Notícias Populares porque ambos trabalham com uma pergunta semelhante:

Até onde podemos levar a cultura popular antes que ela se transforme em grotesco?

Em Tarantino, a violência pode ser horrível e engraçada.

No NP também.

O sexo pode ser desejo, exploração e piada.

No NP também.

O criminoso pode virar personagem.

No NP também.

O absurdo pode coexistir com acontecimentos reais.

No NP também.

E principalmente:

ninguém está tentando parecer elegante.

O produto assume sua vulgaridade.

Isso é fundamental.

O NP não queria parecer o New York Times.

Ele queria que você parasse diante da banca.


CAPÍTULO XVII — ENTÃO VEIO A TELEVISÃO E ROUBOU O CÓDIGO-FONTE

Nos anos 1990 apareceu um concorrente devastador.

A televisão percebeu:

— Espera aí.

Crime funciona.

Tragédia funciona.

Perseguição funciona.

Repórter gritando funciona.

Popular funciona.

Programas como Aqui Agora levaram parte dessa estética para a televisão.

Depois outros programas policiais continuaram explorando a fórmula.

O que antes precisava ser imaginado através de uma fotografia agora aparecia:

em movimento.

Com som.

Sirene.

Repórter.

Helicóptero.

Ao vivo.

O NP encontrou um problema clássico de TI:

sua interface foi copiada por uma plataforma tecnologicamente mais atraente.


CAPÍTULO XVIII — O FIM

Em 20 de janeiro de 2001, saiu a última edição.

A circulação havia despencado para cerca de 20 mil exemplares diários.

Para comparar:

1986:

113.000

2001:

20.000

O Grupo Folha decidiu concentrar seu jornalismo popular no Agora São Paulo, que naquele momento circulava aproximadamente 118 mil exemplares por dia. A direção afirmou que o modelo do NP havia se esgotado.

Também pesavam a dificuldade comercial, a resistência de anunciantes, mudanças no mercado e a concorrência de novas formas de jornalismo popular.

O processo vinha ocorrendo havia anos:

1994 — 99 mil.

1996 — 74 mil.

1998 — 48 mil.

2001 — 20 mil.

O batch estava morrendo lentamente.

Até alguém executar:

//NP      JOB
//STEP01  EXEC PGM=ENCERRA
//SYSOUT  DD SYSOUT=*
//

RC=0000

37 anos.

Fim.


CAPÍTULO XIX — OU TALVEZ NÃO

Porque aqui está o maior easter egg desta história.

O Notícias Populares morreu?

O jornal, sim.

A arquitetura?

HAHAHAHAHAHA.

Não.

Olhe sua timeline.

URGENTE!

CHOCANTE!

VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!

VEJA O QUE ACONTECEU!

IMAGENS FORTES!

POLÊMICA!

BOMBA!

ABSURDO!

Reconheceu?

O NP não desapareceu.

Ele foi portado para a Web.


CAPÍTULO XX — O NP ERA UM ALGORITMO HUMANO

A redação havia descoberto empiricamente coisas que hoje chamamos de:

  • engagement;

  • click-through rate;

  • emotional triggering;

  • visual hierarchy;

  • retention;

  • cliffhanger;

  • serialização;

  • curiosity gap;

  • personalização por público;

  • linguagem otimizada;

  • conteúdo viral.

Não havia machine learning.

Havia jornalista.

Não havia dashboard em tempo real.

Havia:

VENDEU?

Se a resposta fosse sim:

PERFORM FAZ-DE-NOVO
    UNTIL CIRCULACAO = ZERO
END-PERFORM.

O Bebê-Diabo foi praticamente um mecanismo de retenção serializado.


CAPÍTULO XXI — E O “POVO SEM LETRAMENTO”?

Voltamos ao ponto mais delicado.

É tentador olhar para aquelas capas hoje e concluir:

“Funcionavam porque o público era ignorante.”

Seria uma conclusão confortável.

E provavelmente errada.

Porque as mesmas técnicas funcionam hoje com:

executivos,

engenheiros,

médicos,

advogados,

professores,

programadores,

mestres,

doutores

e pessoas com três monitores exibindo dashboards.

O problema não é simplesmente alfabetização.

É psicologia humana.

Medo chama atenção.

Sexo chama atenção.

Perigo chama atenção.

Curiosidade chama atenção.

Violência chama atenção.

O extraordinário chama atenção.

Somos Homo sapiens antes de sermos usuários autenticados.

A diferença é que o NP precisava convencer um cidadão caminhando pela calçada.

Hoje o recomendador sabe exatamente qual Bebê-Diabo mostrar para cada pessoa.

E isso é muito mais poderoso.


CAPÍTULO XXII — O VERDADEIRO LEGADO

O Notícias Populares é uma cápsula cultural brasileira.

Nele encontramos simultaneamente:

ditadura,

urbanização,

migração,

violência,

desigualdade,

sexualidade,

machismo,

humor,

moralismo,

religiosidade,

superstição,

televisão,

futebol,

celebridades,

criminalidade,

publicidade,

censura,

liberdade de imprensa

e cultura popular.

Por isso suas capas parecem absurdas hoje.

Elas são snapshots de memória.

SYS1.BRASIL.HISTORIA.NP

Cada edição preserva não apenas aquilo que aconteceu.

Preserva aquilo que uma sociedade desejava ver.

E talvez isso seja ainda mais importante.


EPÍLOGO — PULP FICTION NA BANCA

Imagine a cena final.

São Paulo.

Final dos anos 1980.

Seis horas da manhã.

Ônibus passando.

Um bar abrindo.

Café sendo servido num copo americano.

A banca está cheia.

O jornaleiro prende jornais no varal.

Um trabalhador aproxima-se.

Olha uma capa.

Para.

Franze a testa.

Outro sujeito olha também.

Um terceiro aproxima-se.

Ninguém sabe ainda que existe uma coisa chamada Internet comercial.

Ninguém ouviu falar em SEO.

Não existe trending topic.

Não existe feed personalizado.

Não existe recomendador.

Não existe botão compartilhar.

Mas existe uma manchete enorme anunciando alguma combinação absolutamente improvável de:

crime + sexo + tragédia + celebridade + sobrenatural.

O primeiro homem comenta:

— Você viu essa porra?

O segundo responde:

— Vi.

O terceiro pergunta:

— O que aconteceu?

E a informação começa a circular.

Tarantino poderia congelar a imagem exatamente aí.

Entraria uma guitarra surf dos anos 1960.

A tela ficaria vermelha.

E surgiria:

NOTÍCIAS POPULARES

Nada mais que a verdade.

Corta.

Créditos.

Mas o COBOLzeiro permanece sentado diante do terminal.

Porque ele percebeu uma coisa inquietante.

O Notícias Populares foi encerrado em 2001.

O código-fonte comportamental que fazia o Notícias Populares funcionar continua executando.

A banca virou feed.

O varal virou timeline.

A manchete virou thumbnail.

O jornaleiro virou algoritmo.

O Bebê-Diabo virou conteúdo viral.

A disputa por centímetros de papel virou disputa por pixels.

E as centenas de pessoas que paravam diante das bancas para ler gratuitamente as manchetes viraram bilhões de dedos fazendo:

SCROLL
SCROLL
SCROLL
STOP

Talvez o maior legado do NP seja justamente esse.

Ele demonstrou, muito antes do Facebook, do YouTube, do TikTok e dos recomendadores modernos, que existe uma disputa feroz pelo recurso computacional mais caro do planeta:

a atenção humana.

E nisso, meu caro COBOLzeiro...

o velho Notícias Populares tinha um algoritmo absolutamente infernal.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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