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sábado, 10 de maio de 2014

Globo da Morte em Itatiba

Aventuras no globo da morte..

O globo da morte sempre foi uma das atrações mais emocionantes dos tradicionais circos mambembes que percorrem as pequenas cidades do interior paulista. Sob a lona iluminada, o cheiro de serragem mistura-se à expectativa do público, enquanto o ronco dos motores anuncia que o espetáculo está prestes a começar. Em poucos segundos, os motociclistas aceleram com coragem e precisão, desafiando a gravidade dentro da gigantesca esfera metálica.

Cada volta aumenta a adrenalina. As motos sobem pelas grades, cruzam-se em alta velocidade e executam manobras sincronizadas que exigem anos de treinamento, confiança e absoluto controle. O barulho ensurdecedor dos motores faz o chão vibrar, e até o pequeno Formiguinha parece enlouquecer com tanta agitação, correndo de um lado para o outro, fascinado com a velocidade e o espetáculo.

Enquanto isso, o público prende a respiração. O silêncio entre uma manobra e outra contrasta com o rugido das motocicletas, tornando cada segundo ainda mais mágico. Crianças, adultos e idosos acompanham atentos, aplaudindo cada demonstração de coragem e habilidade.

O globo da morte representa muito mais do que uma simples atração circense. É um símbolo da dedicação dos artistas itinerantes que, com talento e paixão, mantêm viva uma das mais tradicionais formas de entretenimento popular brasileiro, levando emoção, aventura e encantamento por onde passam.

Um circo mambembe numa pequena cidade do interior paulista, audazes motociclistas aprontam vários truques em suas motocicletas.



O ronco do motor ensurdecedor, bagunça sobre duas rodas, o formiguinha pirou com o barulho, ficou louco com as peripécias dos pilotos.



O roncar dos motores, o silencio e atenção do publico tornam ainda mais magico a sensação. Rodando e subindo correndo e subindo pelas grades.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Carlos Zéfiro e os Catecismos Proibidos: o Funcionário Público que à Noite Virava o Herói Secreto da Sacanagem Brasileira

 

Bellacosa Mainframe e carlos zefiro autor dos famosos catecismos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Carlos Zéfiro e os Catecismos Proibidos: o Funcionário Público que à Noite Virava o Herói Secreto da Sacanagem Brasileira

📚 Antes da Internet, do streaming e da aba anônima, existiu um homem que desenhava escondido, assinava com outro nome e abastecia uma rede clandestina de pequenos quadrinhos eróticos que atravessaram gerações — de fã para fã

Há heróis que recebem uma espada.

Outros recebem uma armadura.

Alguns são atropelados por um caminhão, acordam num isekai e descobrem que receberam do deus local a habilidade MAGIC LEVEL 999.

Carlos Zéfiro recebeu algo muito mais perigoso.

Papel, lápis e imaginação.

E nasceu no Brasil.

Isso, por si só, já aumentava consideravelmente a dificuldade do jogo.

Estamos falando de uma época anterior à Internet, anterior ao streaming, anterior ao computador pessoal e até anterior à possibilidade de um adolescente apagar rapidamente o histórico do navegador quando escutava a mãe aproximando-se pelo corredor.

Era outro mundo.

Um Brasil de moral pública rígida, controle dos costumes, censura em diferentes períodos, polícia, bancas de jornal, publicações escondidas e uma gigantesca distância entre aquilo que a sociedade dizia oficialmente que fazia e aquilo que seres humanos efetivamente faziam quando ninguém estava olhando.

E nesse cenário apareceu uma personagem quase mitológica:

Carlos Zéfiro.

Só havia um pequeno problema.

Carlos Zéfiro não existia.

Ou melhor:

existia.

Mas também não existia.

Bem-vindo ao primeiro grande ALIAS da nossa história.



🧙‍♂️ O homem por trás do pseudônimo

Por trás de Carlos Zéfiro estava Alcides Aguiar Caminha, nascido em 1921.

Funcionário público.

Homem de família.

Compositor.

Uma existência aparentemente incompatível com a persona que, clandestinamente, se tornaria um dos grandes nomes do erotismo gráfico popular brasileiro.

Durante décadas, a identidade de Carlos Zéfiro permaneceu escondida.

E isso não era mero marketing.

Era proteção.

Hoje podemos olhar para um quadrinho erótico antigo numa exposição, num livro ou num acervo histórico e discutir tranquilamente sua importância para a cultura brasileira.

Naquele mundo, a situação era outra.

Produzir material considerado obsceno podia trazer problemas jurídicos, profissionais, familiares e sociais.

Para um funcionário público, o risco ganhava uma dimensão adicional.

Então Alcides fez aquilo que qualquer programador experiente faria diante de uma aplicação perigosa:

separou os ambientes.

AMBIENTE CORPORATIVO

USER:
ALCIDES-CAMINHA

PROFILE:
funcionário público
pai de família
compositor
cidadão respeitável


AMBIENTE NOTURNO

USER:
CARLOS-ZEFIRO

PROFILE:
autor clandestino
desenhista
contador de histórias
fornecedor oficial de imaginação
para gerações de brasileiros


SECURITY RULE:

DO NOT JOIN TABLES

Funcionou durante décadas.


📖 Mas que diabos eram os “catecismos”?

Aqui encontramos uma deliciosa armadilha linguística brasileira.

Diga para alguém:

“Tenho uma coleção de catecismos antigos.”

A pessoa provavelmente imaginará religião.

Doutrina.

Primeira comunhão.

Orações.

Carlos Zéfiro tinha outra documentação em mente.

😏

Os pequenos quadrinhos eróticos que circularam clandestinamente pelo Brasil ficaram conhecidos como catecismos.

Eram publicações pequenas, discretas, baratas e fáceis de esconder.

Características perfeitas para uma época em que o leitor precisava executar:

IF MOTHER-APPROACHING = TRUE
    MOVE CATECISMO TO UNDER-MATTRESS
END-IF

Não havia botão para minimizar.

A tecnologia de privacidade era o colchão.


🗞️ A Internet brasileira antes da Internet

É aqui que Carlos Zéfiro fica realmente interessante para nossa arqueologia cultural.

Hoje você encontra conteúdo em segundos.

Naquele mundo era necessário existir uma rede física de distribuição.

Alguém imprimia.

Alguém transportava.

Alguém conhecia alguém.

Uma banca recebia.

O jornaleiro sabia.

O cliente sabia que ele sabia.

E provavelmente ambos sabiam que não era necessário explicar demais.

Imagine:

— Bom dia.

— Bom dia.

— Chegou... aquilo?

— Jornal?

— Não.

— Revista esportiva?

— Não.

Silêncio.

😏

Catecismo?

— Agora estamos conversando.

Era praticamente um protocolo.

CLIENT
   ↓
BANCA
   ↓
JORNALEIRO
   ↓
DISTRIBUIDOR
   ↓
PUBLICAÇÃO

Sem Google.

Sem CDN.

Sem fibra óptica.

Sem recomendação algorítmica.

P2P analógico.


🇧🇷 O Brasil oficial e o Brasil real

E aqui precisamos tomar cuidado para não transformar Carlos Zéfiro em algo que ele provavelmente não pretendia ser.

Ele não precisa virar retrospectivamente um revolucionário político.

Não temos necessidade de colocar uma boina de Che Guevara em sua cabeça e declarar:

“COMPANHEIROS! A REVOLUÇÃO SERÁ ILUSTRADA!”

Seria engraçado.

Mas seria má História.

O que torna o fenômeno interessante é justamente outra coisa.

Durante boa parte do século XX, o Brasil manteve fortes mecanismos de controle político, social e moral.

A repressão política ganhou formas particularmente brutais em determinados períodos, especialmente durante o Estado Novo e posteriormente durante a ditadura militar.

Mas o controle dos costumes e das publicações consideradas obscenas possui raízes ainda anteriores.

E, paralelamente ao Brasil oficial, sempre existiu outro país.

O país das conversas escondidas.

Das piadas.

Das revistas.

Dos bordéis.

Dos sambas.

Dos desejos.

Das coisas vendidas debaixo do balcão.

Carlos Zéfiro habitava esse Brasil subterrâneo.


✏️ O programador COBOL que fazia eroge

Agora chegamos à analogia inevitável.

Imagine um programador COBOL exemplar.

Segunda-feira:

IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. FOLPAG01.

Terça:

processa folha de pagamento.

Quarta:

corrige S0C7.

Quinta:

reunião com auditoria.

Sexta:

fecha batch.

23h47:

abre o projeto paralelo.

EROGE.

🤣

Essa é a imagem que me fascina em Carlos Zéfiro.

Não porque sua profissão fosse programação — evidentemente não era.

Mas porque conhecemos perfeitamente esse fenômeno humano.

A pessoa possui uma identidade profissional séria e outra produção criativa completamente diferente.

O burocrata também desenha.

O engenheiro toca guitarra.

O contador escreve poesia.

O programador faz cosplay.

E o funcionário público sério e aparentemente convencional...

produz catecismos eróticos à noite.

Pessoas são pessoas.


🎨 E não eram simplesmente desenhos

Aqui está outro ponto que merece sobreviver.

Zéfiro contava histórias.

Havia personagens.

Situações.

Sedução.

Começo.

Desenvolvimento.

Conclusão.

Evidentemente o objetivo era erótico.

Ninguém comprava aquilo esperando encontrar a próxima edição de Os Lusíadas.

Mas existia narrativa.

Isso importa.

Porque quando reduzimos essas publicações apenas ao conteúdo sexual, apagamos sua posição dentro da própria história dos quadrinhos brasileiros.

Havia composição.

Sequência.

Diálogo.

Desenho.

Ritmo.

Produção.

Distribuição.

Público.

Era uma indústria cultural clandestina, ainda que artesanal.


🕵️ O pseudônimo como firewall

E por décadas ninguém sabia ao certo quem era Carlos Zéfiro.

Isso transformou o autor numa espécie de lenda urbana.

Quem era?

Onde estava?

Quantas pessoas seriam responsáveis?

Seria realmente um único homem?

O pseudônimo começou a adquirir vida própria.

Até que finalmente o homem e a personagem puderam ser conectados.

SELECT *
FROM CULTURA_BRASILEIRA A
JOIN FUNCIONARIO_PUBLICO B
ON A.CARLOS_ZEFIRO = B.ALCIDES_CAMINHA;

1 ROW RETURNED.

🤣

Era ele.

O homem comum e o personagem clandestino pertenciam ao mesmo banco de dados.


🏺 O catecismo virou artefato arqueológico

E aconteceu então uma das transformações que mais gosto na História.

Aquilo que precisava ser escondido começou a ser preservado.

Colecionadores guardaram exemplares.

Pesquisadores estudaram.

Jornalistas escreveram.

Historiadores dos quadrinhos documentaram.

Pequenos pedaços frágeis de papel sobreviveram.

Pense nisso.

Não foram impressos para durar séculos.

Não eram pergaminhos.

Não estavam protegidos numa biblioteca real.

Eram baratos.

Manipulados.

Emprestados.

Escondidos.

Talvez esquecidos dentro de gavetas.

Alguns certamente foram queimados ou jogados fora.

Outros desapareceram na umidade.

Mas alguns sobreviveram.

OBJECT:
CATECISMO

ORIGINAL STATUS:
CLANDESTINO

CURRENT STATUS:
COLECIONÁVEL
DOCUMENTO HISTÓRICO
OBJETO DE PESQUISA
MEMÓRIA DOS QUADRINHOS BRASILEIROS

O tempo executou o mais extraordinário dos UPDATE.


🌎 Zéfiro não estava sozinho no planeta

E aqui podemos executar um JOIN internacional.

Os Estados Unidos tiveram suas Tijuana Bibles, pequenos quadrinhos pornográficos clandestinos que circularam décadas antes.

A Europa desenvolveu diversas tradições de quadrinhos eróticos.

O Japão construiria posteriormente enormes ecossistemas de mangá adulto, dōjinshi, visual novels e eroge.

Não são fenômenos idênticos.

Não devem ser tratados como se fossem a mesma coisa.

Mas compartilham uma característica humana:

quando existe demanda cultural que o mercado oficial não deseja ou não pode atender, aparecem circuitos paralelos.


💾 Do catecismo ao eMule

Agora chegamos ao grande salto.

1960:

papel.

1980:

VHS.

1990:

BBS e disquetes.

2000:

fansubs, CDs graváveis e P2P.

2026:

arquivos digitais espalhados pelo planeta.

Mudou a tecnologia.

O comportamento é reconhecível.

CATECISMO
    ↓
EMPRÉSTIMO
    ↓
OUTRO LEITOR
    ↓
OUTRO LEITOR


ARQUIVO DIGITAL
    ↓
P2P
    ↓
OUTRO USUÁRIO
    ↓
OUTRO USUÁRIO

O protocolo fundamental continua sendo:

de fã para fã.


🧙‍♂️ O herói improvável

É tentador transformar Carlos Zéfiro num personagem maior que a própria vida.

Talvez seja justo.

Mas seu maior charme está justamente no contrário.

Por trás da lenda havia um homem.

Trabalhava.

Tinha contas.

Tinha família.

Possuía obrigações.

E encontrava tempo para criar.

Não precisava imaginar que décadas depois pesquisadores discutiriam sua importância.

Talvez jamais imaginasse que seus pequenos quadrinhos clandestinos acabariam entrando na história cultural brasileira.

Ele simplesmente continuou produzindo.

Página após página.

História após história.

Catecismo após catecismo.


☕ O último café

Hoje um jovem possui no bolso acesso instantâneo a uma quantidade de conteúdo que faria um adolescente brasileiro de 1965 acreditar que havia morrido e acordado no Valhalla.

🤣

Por isso é fácil olhar para um catecismo antigo e rir.

Mas olhe novamente.

Aquele pedaço de papel contém uma infraestrutura inteira desaparecida.

O desenhista.

O impressor.

O distribuidor.

O jornaleiro.

O comprador.

O amigo que pediu emprestado.

O sujeito que escondeu.

O colecionador que não jogou fora.

O pesquisador que documentou.

Cada um executou uma pequena parte do sistema.

E graças a eles podemos olhar para aquilo hoje e dizer:

“O brasileiro também era brasileiro quando ninguém estava olhando.”

Talvez seja esse o maior legado de Carlos Zéfiro.

Ele não documentou o Brasil que aparecia nos discursos oficiais.

Documentou desejos, fantasias, hipocrisias, curiosidades e uma dimensão clandestina da vida cotidiana.

E enquanto historiadores registravam presidentes, generais, crises e revoluções...

num quarto qualquer havia um funcionário público desenhando.

Silenciosamente.

Sob pseudônimo.

Sem saber que décadas depois seu nome sobreviveria.

Não apenas como autor de sacanagem.

Mas como parte da história dos quadrinhos brasileiros.

Carlos Zéfiro fez COMMIT.

O Brasil tentou esconder.

Os leitores fizeram BACKUP.

E o arquivo chegou até nós.

De fã para fã.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

🥤 A Origem da Tubaína — O “Refrigerante do Povo” que Virou Ícone Nacional

 

Bellacosa Mainframe e a origem da tubaina

🥤 A Origem da Tubaína — O “Refrigerante do Povo” que Virou Ícone Nacional

Se existe um refrigerante que pode ser chamado de “SPOOL da infância brasileira”, esse refrigerante é a Tubaína. Ela não é apenas uma bebida: é um dataset cultural distribuído em milhares de versões, cada uma com seu label caseiro, sua micro-história e seus segredos de sabor guardados como PDS protegido no RACF.

Mas afinal… de onde veio essa lenda?


🌱 A Origem – Muito Antes da Fanta e da Coca Pensarem em Chegar Aqui

A Tubaína surgiu no interior do estado de São Paulo, entre o fim dos anos 1930 e início dos anos 1940. Não existe um único inventor, nem uma fábrica original certificada como “a primeira”.
E é justamente isso que faz parte do charme.

Tubaína nasceu como:

  • bebida artesanal,

  • produzida em pequenas fábricas e engarrafadoras familiares,

  • que usavam xaropes de frutas, açúcar e gás carbônico para criar um refrigerante barato e acessível.

O nome “Tubaína” teria duas origens possíveis:

🅰️ Versão 1 — Do Tupi “tubaina” = bebida fermentada / bebida de raiz

Registros linguísticos apontam que “tubaina” aparece como variação de palavras indígenas relacionadas a bebida local ou fruta macerada.

🅱️ Versão 2 — Marca que virou nome genérico

Outra versão, muito forte entre historiadores de indústria, diz que Tubaína era originalmente o nome de um xarope-base distribuído para fábricas pequenas, que passaram a engarrafar refrigerantes com essa marca — e com o tempo, “virou sinônimo de qualquer refrigerante barato do interior”.
Um clássico caso Aspirina / Gilete / Maizena / Xerox.



🏭 As Primeiras Fábricas – O Brasil Raiz Engarrafado

Entre as primeiras e mais conhecidas estão:

  • Tubaína Zarco – Piracicaba/SP

  • Tubaína Bacharel – São João da Boa Vista/SP

  • Turbaína Ferraspari – Jundiai/SP

  • Tubaína Joaninha – Taubaté/SP

  • Tubaína Arco Íris – Mococa/SP

  • Tubaína Vivi – diversas cidades do interior

  • Sanbra/J. Macedo, que vendia xaropes Tubaína para engarrafadores

Essas pequenas fábricas se espalharam como jobs submitting in batch, cada uma com sua receita própria — mais doce, mais artificial, mais frutada ou mais “doce de bar”.



🎨 O Sabor – Uma Mistura Única (E Bagunçada) de Identidade Brasileira

O sabor da Tubaína era, e é, uma alquimia:

  • ramalhete de frutas artificiais,

  • base de guaraná ou tutti-frutti,

  • açúcar para adoçar a vida,

  • e cor âmbar ou avermelhada, levemente translúcida.

Era um sabor que gritava: “sou simples, sou barata, sou boa!”

Em muitos lugares, Tubaína era bebida em garrafa de 600 ml, com tampa de metal que você abria na quina da mesa, e com aquele som clássico que parecia um IEFC001I anunciando início do serviço.


🧃 Por que a Tubaína virou febre?

Simples:

  • Era barata (metade do preço dos grandes refrigerantes).

  • Era local (tradição regional fortíssima).

  • Era familiar (produzida por fábricas do bairro).

  • Era democrática (vendida no bar, no campinho, no mercadinho).

  • Era saborosa de um jeito despretensioso.

E claro:
Toda cidade tinha “a melhor Tubaína do mundo”.
Cada uma com seu fã-clube.


🥚 Easter-Egg — Tubaína era a bebida “clandestina” dos anos 60/70

Acredite:
Algumas versões de Tubaína tinham teor alcoólico leve, por causa da fermentação natural dos xaropes artesanais.

Era tão discreto que ninguém falava disso… mas todo mundo sabia.
Tipo um dataset uncataloged que só o operador raiz conhecia.


📜 A Situação Atual – A Sobrevivente do Brasil Raiz

Hoje, a Tubaína:

  • segue viva em centenas de microfábricas pelo Brasil,

  • tem festivais próprios (como o Tubaína Fest, em São Paulo),

  • virou produto gourmet em algumas versões,

  • e ganhou um renascimento nostálgico nas redes sociais.

Marcas atuais de destaque:

  • Tubaína São João

  • Dore

  • Frevo

  • Itubaína Retrô (da Schin) – a versão industrial mais famosa

  • Tubaína Xereta


🔍 Curiosidades — Pacote Bellacosa

  • 🔸 “Tubaína” é praticamente um open-source beverage — cada região fez sua fork.

  • 🔸 Garrafas retornáveis de Tubaína foram ícones dos anos 50 a 90.

  • 🔸 Em muitos lugares, “Tubaína” virou sinônimo de qualquer refri de garrafa marrom, mesmo que o rótulo dissesse outro nome.

  • 🔸 Tubaína é considerada por alguns historiadores como o primeiro refrigerante realmente popular do Brasil, antes da Coca dominar tudo.

  • 🔸 Existe um museu informal da Tubaína, com rótulos de mais de 700 marcas coletadas pelo interior paulista.


🥤✨ Conclusão – Tubaína: A Bebida Mais Brasileira Que Já Houve

Tubaína é memória líquida.
É o refrigerante da infância, do boteco, do campinho, da padaria com balcão de mármore, do mercadinho com cheiro de madeira e sabão em pedra.

Ela não veio de corporações gigantes.
Ela nasceu como obra de milhares de pequenos criadores, todos querendo fazer uma bebida gostosa, barata e acessível — um verdadeiro cluster de boa vontade e criatividade.

A origem exata pode ser múltipla.
Mas a essência é uma só:

Tubaína é o sabor do Brasil raiz.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

 

Bellacosa Mainframe e o jornal noticias populares

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Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

🩸 Crime, sexo, Bebê-Diabo, ditadura, censura, bancas, manchetes impossíveis e a extraordinária história do jornal que transformou São Paulo num filme de Quentin Tarantino décadas antes de Tarantino filmar Pulp Fiction

Imagine, jovem padawan do COBOL, que você saiu do trabalho em 1987.

Não existe smartphone.

Não existe Google.

Não existe X.

Não existe Instagram.

Não existe portal de notícias.

Não existe WhatsApp.

E, evidentemente, ninguém recebeu ainda no grupo da família um vídeo de procedência duvidosa acompanhado da mensagem:

URGENTE!!! REPASSEM ANTES QUE APAGUEM!!!

Para descobrir o que aconteceu no mundo, você passa diante de uma banca de jornal.

E ali está o algoritmo de recomendação de 1987.

Só que feito de madeira, metal, barbante e pregadores.

Dezenas de jornais e revistas estão expostos. Alguns pendurados. Outros sobrepostos. As capas disputam fisicamente alguns centímetros do seu campo de visão.

Folha.

Estadão.

Jornal da Tarde.

Gazeta Esportiva.

Revistas.

Quadrinhos.

E então aparece uma coisa que parece ter sido diagramada por alguém que misturou jornalismo policial, filme B, programa de auditório, revista masculina, conversa de boteco e uma quantidade preocupante de café.

NOTÍCIAS POPULARES.

O NP.

Você não precisava comprar.

Bastava enxergar a manchete.

E a manchete praticamente agarrava você pelo colarinho.

O jornal circulou de 1963 a 2001 e ficou marcado justamente pela combinação de textos curtos, muitas fotografias e títulos de enorme impacto. Em sua fase clássica, crime, sexo, violência, escatologia, celebridades, futebol e acontecimentos sobrenaturais conviviam alegremente no mesmo produto editorial.

Se Quentin Tarantino tivesse nascido no Brás e trabalhado como repórter policial antes de dirigir cinema, talvez alguma coisa parecida tivesse acontecido.

Só faltava Samuel L. Jackson entrar na redação e perguntar:

E o fechamento, motherf...?


CAPÍTULO I — ERA UMA VEZ UMA INTERNET DE PAPEL

Para compreender o Notícias Populares é preciso cometer um erro muito comum em manutenção de legado:

não analisar o programa sem analisar o ambiente em que ele executava.

Um COBOL de 1973 parece estranho quando retirado de seu contexto.

O NP também.

O Brasil que viu o jornal nascer, em 15 de outubro de 1963, era muito diferente do Brasil digital.

A televisão estava crescendo.

O rádio tinha enorme importância.

O país atravessava urbanização acelerada.

Milhares de pessoas migravam para grandes centros industriais.

São Paulo crescia violentamente.

Havia trabalhadores com pouca escolarização formal e enormes desigualdades educacionais.

Aqui vale corrigir uma simplificação importante.

Não seria justo dizer simplesmente:

“O NP existia porque o povo brasileiro não sabia ler.”

Não.

O fenômeno é mais interessante.

Existiam índices elevados de analfabetismo e escolarização limitada, mas também existia uma enorme população leitora com diferentes graus de letramento, habituada a formas mais diretas e orais de comunicação.

O NP compreendeu isso extraordinariamente bem.

Ele reduziu a complexidade sintática.

Usou títulos enormes.

Preferiu frases curtas.

Explorou fotografias.

Empregou vocabulário cotidiano.

Transformou assuntos complexos em narrativas.

Em linguagem de sistemas:

INPUT:
acontecimento complexo

PROCESS:
simplificação
personificação
emoção
imagem
humor
sexo
violência
curiosidade

OUTPUT:
MANCHETE IMPOSSÍVEL DE IGNORAR

Isso também explica por que chamar seu público simplesmente de “ignorante” seria perder justamente a parte mais interessante da história.

O leitor do NP podia ter pouca educação formal e, ao mesmo tempo, possuir enorme conhecimento prático do trabalho, da cidade, do transporte, do sindicato, do futebol e da sobrevivência urbana.

O jornal aprendeu a falar a língua desse público.


CAPÍTULO II — O NASCIMENTO ÀS VÉSPERAS DO GOLPE

Aqui a história fica politicamente muito mais interessante.

O NP foi lançado em 1963 pelo empresário Herbert Levy, tendo Jean Mellé como figura fundamental de sua concepção e primeira direção editorial. A intenção original envolvia disputar o público popular da Última Hora, jornal associado a Samuel Wainer e ao campo político ligado ao trabalhismo. Fontes históricas descrevem o projeto inicial como uma tentativa de criar um jornal popular politicamente conservador.

E olhe a data:

1963.

Um ano antes do golpe militar de 1964.

O Brasil fervia.

João Goulart.

Reformas de Base.

Movimento sindical.

Guerra Fria.

Anticomunismo.

Conflitos empresariais.

Estados Unidos e União Soviética disputando influência mundial.

As Forças Armadas no centro da crise.

E havia a Última Hora falando diretamente com parcelas populares.

A ideia era disputar esse espaço.

Só que aconteceu uma coisa deliciosamente digna de sistema legado.

O requisito original perdeu importância.

O produto sobreviveu.

Depois do golpe de 1964, aquele propósito político inicial tornou-se menos necessário. Em 1965, o jornal passou para o controle do grupo que viria a constituir o Grupo Folha.

É o equivalente jornalístico de:

* ESTA ROTINA FOI CRIADA PARA UMA REGRA DE 1963.
* A REGRA NÃO EXISTE MAIS.
* A ROTINA CONTINUA SENDO EXECUTADA.

Todo COBOLzeiro imediatamente se sente em casa.


CAPÍTULO III — IMPRENSA AMARELA NÃO É LISTA TELEFÔNICA

Quando falamos em imprensa amarela, não estamos falando das antigas Páginas Amarelas do telefone.

Estamos falando de yellow journalism ou yellow press.

O conceito nasceu ligado à imprensa sensacionalista de grande circulação: manchetes enormes, acontecimentos dramáticos, crimes, escândalos, histórias humanas, sexo, curiosidades e exploração emocional.

No Brasil popularizou-se também a expressão:

imprensa marrom.

A tradição remonta à penny press e à yellow press do século XIX e reaparece em diferentes formatos no jornalismo popular brasileiro.

O NP levou a fórmula a um nível quase industrial.

Se fosse arquitetura de software:

NOTÍCIA
   |
   +--> medo
   |
   +--> sexo
   |
   +--> curiosidade
   |
   +--> indignação
   |
   +--> humor
   |
   +--> identificação popular
   |
   +--> MANCHETE

Era um engagement engine analógico.


CAPÍTULO IV — O ALGORITMO ERA A BANCA

Aqui está uma coisa que uma geração criada com celulares talvez tenha dificuldade de visualizar.

A banca de jornal era uma interface gráfica urbana.

E era maravilhosa.

Havia revistas penduradas.

Jornais dobrados.

Capas sobrepostas.

Publicações presas em varais e expositores.

Gente esperando ônibus.

Gente saindo do trabalho.

Gente parando alguns minutos.

Gente que não comprava absolutamente nada, mas lia todas as manchetes disponíveis.

Era o Google News da calçada.

O jornaleiro era o algoritmo.

— Chegou aquela revista?

— Chegou.

— Tem jornal do concurso?

— Ali.

— Saiu o resultado do jogo?

— Primeira página.

E havia um fenômeno importantíssimo:

uma única cópia tinha dezenas de leitores visuais.

Hoje contamos pageviews.

Na banca, ninguém sabia quantos olhos haviam processado uma capa.

O NP compreendeu perfeitamente essa economia da atenção.

Sua primeira página precisava funcionar a cinco metros de distância.

Isso significa:

tipografia enorme + fotografia + poucas palavras + emoção.

É praticamente a ciência moderna da thumbnail do YouTube aplicada em papel-jornal.


CAPÍTULO V — TARANTINO ENTRA NA REDAÇÃO

Agora imaginemos Quentin Tarantino analisando uma pilha de Notícias Populares.

Ele provavelmente reconheceria imediatamente vários elementos de sua própria gramática cinematográfica.

Violência exagerada.

Humor dentro da tragédia.

Personagens marginais.

Sexo.

Grotesco.

Cultura popular.

Diálogos aparentemente absurdos.

Criminalidade.

Situações inacreditáveis.

O extraordinário misturado ao cotidiano.

Uma pessoa pega o ônibus.

Outra mata o vizinho.

Outra encontra um lobisomem.

Uma celebridade desapareceu.

Alguém viu um disco voador.

Uma mulher está seminua na contracapa.

O Corinthians perdeu.

Tudo pertence ao mesmo universo narrativo.

É quase:

Pulp Journalism.


CAPÍTULO VI — AS MANCHETES

Algumas manchetes tornaram-se parte do folclore jornalístico brasileiro.

Uma das mais famosas foi:

“Nasceu o Diabo em São Paulo”

Apareceu em 1975 e iniciou a lendária saga do Bebê-Diabo. O sucesso foi tão grande que a história continuou durante várias edições, transformando uma narrativa inicialmente ligada ao nascimento de uma criança com deformidades em uma verdadeira novela sobrenatural.

Outra manchete documentada pela própria história do jornal:

“Violada em pleno auditório”

O contexto?

Sérgio Ricardo havia quebrado o violão durante o Festival de Música Popular Brasileira de 1967.

O “violado” era o violão.

A construção deliberadamente ambígua fazia o resto.

Também apareceu:

“Desapareceu Roberto Carlos”

O contato com o cantor não havia sido conseguido nos Estados Unidos, e a história ganhou dimensão espetacular.

Havia ainda lobisomens, discos voadores, crimes improváveis, histórias sexuais e personagens urbanos transformados em celebridades instantâneas. O acervo histórico preserva, por exemplo, uma primeira página de 1974 dedicada a um suposto lobisomem pernambucano.

O NP compreendia algo fundamental:

a manchete não precisava contar a história inteira.

Precisava obrigar você a executar:

READ NEXT RECORD

CAPÍTULO VII — O BEBÊ-DIABO ERA O CLICKBAIT ANTES DO CLICK

O Bebê-Diabo merece uma parada especial.

A capa anuncia:

NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO.

Venda espetacular.

E alguém percebe:

— Meu Deus.

— O quê?

— Vendeu tudo.

— Então o Diabo volta amanhã.

E voltou.

A criatura passou a protagonizar novas histórias.

Aparecia aqui.

Desaparecia ali.

Assustava gente.

Era visto em telhados.

Pegava táxi.

A narrativa continuou por semanas. A história acabou reconhecida como uma construção ficcional da redação e tornou-se talvez o exemplo máximo da mistura de jornalismo, folclore urbano e entretenimento que caracterizou o NP.

Hoje chamaríamos isso de:

retenção de audiência.

Ou:

story arc.

Ou:

conteúdo serializado.

Em 1975:

vende jornal pra cacete.


CAPÍTULO VIII — CRIME: ESPREME QUE SAI SANGUE

A fama do NP também vinha de sua cobertura policial.

Assassinatos.

Acidentes.

Corpos.

Criminosos.

Vítimas.

Delegacias.

Tragédias.

A violência podia aparecer de maneira gráfica que dificilmente seria aceita por muitos veículos generalistas atuais.

Essa estética produziu a célebre descrição:

“espreme que sai sangue”.

Mas há uma contradição importante.

A cobertura policial também dava visibilidade a personagens que raramente apareciam nas páginas nobres da grande imprensa.

Operário.

Empregada doméstica.

Morador da periferia.

Desempregado.

Prostituta.

Motorista.

Pequeno comerciante.

Migrante.

Criminoso de bairro.

Vítima desconhecida.

Era frequentemente uma representação brutal e exploratória.

Mas era representação.

O sujeito que jamais apareceria na coluna social podia ocupar meia primeira página do NP.


CAPÍTULO IX — SEXO VENDE. E O NP SABIA.

E chegamos ao subsistema que provavelmente teria recebido:

PROGRAM-ID. SEX-SELLS.

O NP utilizou extensamente erotismo.

Mulheres seminuas.

Nudez.

Modelos.

Atrizes.

Histórias sexuais.

Duplo sentido.

Escândalos amorosos.

Personagens sexualizados.

Em determinadas fases, mulheres nuas ou seminuas na contracapa tornaram-se parte reconhecível da fórmula editorial. Décadas depois, reproduções históricas dessas capas chegaram a enfrentar moderação automática nas redes sociais justamente por conter nudez.

Isso também revela uma mudança cultural enorme.

Aquilo que podia ficar pendurado numa banca no meio da rua, visível a qualquer transeunte, posteriormente poderia ser removido de uma plataforma digital.

A censura mudou de arquitetura.

Antes:

ESTADO
   |
CENSOR
   |
JORNAL

Hoje pode existir:

PLATAFORMA
   |
POLÍTICA DE CONTEÚDO
   |
ALGORITMO
   |
POST

Mudamos o middleware.

A discussão permaneceu.


CAPÍTULO X — DITADURA, CENSURA E A GRANDE CONTRADIÇÃO

O NP atravessou praticamente todo o regime militar brasileiro de 1964 a 1985.

E isso torna sua história fascinante.

Durante a ditadura, a imprensa brasileira conviveu com censura, pressões políticas, autocensura e perseguição a jornalistas.

Mas jornais não foram afetados exatamente da mesma maneira.

E o NP possuía uma característica peculiar.

Grande parte de sua energia editorial estava direcionada para:

crime, sexo, celebridades, futebol, bizarrices e cotidiano.

Enquanto jornais políticos podiam travar batalhas sobre governo, economia e repressão, o NP podia colocar um lobisomem na capa.

Há aqui uma ironia quase tarantinesca:

em um país onde determinados assuntos políticos eram perigosos demais para imprimir, um Bebê-Diabo podia tornar-se protagonista nacional.

Isso não significa que o jornal estivesse fora do sistema político ou imune à censura.

Significa que seu modelo editorial ocupava um espaço diferente.


CAPÍTULO XI — MAS QUEM CENSURA O MAU GOSTO?

Depois aparece outra discussão.

Não censura política.

Censura moral.

Até onde um jornal pode mostrar um cadáver?

Até onde pode explorar sexualmente uma capa?

Até onde pode publicar nudez?

Até onde pode transformar sofrimento humano em entretenimento?

Em 1994, a própria Folha registrava que o NP havia vencido disputas judiciais contra tentativas de obrigá-lo a circular lacrado, enquanto enfrentava outras controvérsias judiciais relacionadas ao conteúdo publicado.

Essa discussão continua atualíssima.

Troque:

banca

por:

timeline

e o problema reaparece.

Quem decide?

O Estado?

A plataforma?

O editor?

O algoritmo?

O leitor?


CAPÍTULO XII — HUMOR: O COMPONENTE QUE MUITA GENTE ESQUECE

Quem reduz o NP apenas a sangue e mulheres nuas perde uma característica fundamental:

ele podia ser tremendamente engraçado.

Às vezes propositalmente.

Às vezes involuntariamente.

Às vezes não havia sequer como saber.

O título possuía ritmo de piada.

Preparação.

Suspense.

Punchline.

A realidade era convertida em espetáculo linguístico.

Era quase uma tradição de boteco aplicada ao jornalismo.

O leitor podia pensar simultaneamente:

— Isso é horrível.

— Isso é absurdo.

— Isso não pode ser verdade.

— HAHAHAHAHAHAHA.

— Quanto custa?

Essa combinação é profundamente tarantinesca.

Você ri de alguma coisa da qual talvez não devesse rir.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL TAMBÉM ERA SERVIÇO

Mas existe outro NP escondido atrás do Bebê-Diabo.

O jornal do trabalhador.

Emprego.

Sindicato.

Transporte.

Problemas urbanos.

Futebol.

Serviços.

Histórias dos bairros.

Problemas que afetavam diretamente as classes populares.

Essa dimensão é importante porque impede uma caricatura fácil.

O NP não era simplesmente:

CRIME + PEITO + DEMÔNIO

Era uma mistura muito mais complicada de jornalismo popular, serviço, entretenimento, sensacionalismo e exploração comercial da curiosidade humana.

Essa ambiguidade explica parte de sua longevidade.


CAPÍTULO XIV — 113 MIL EXEMPLARES

O negócio funcionou.

E muito.

Em 1986, a circulação média chegou a aproximadamente 113 mil exemplares diários.

Depois caiu para 71 mil em 1988.

Uma reforma gráfica e editorial iniciada em 1990 recuperou público, levando novamente a circulação para cerca de 104 mil exemplares naquele ano.

Observe o detalhe.

Não estamos falando de impressão de página web.

Cada exemplar precisava:

ser impresso,

dobrado,

empacotado,

transportado,

distribuído,

entregue à banca

e finalmente comprado.

Era uma infraestrutura física monstruosa.


CAPÍTULO XV — AS BANCAS ERAM AS REDES SOCIAIS

Imagine uma manhã em São Paulo.

Ônibus chegando.

Gente atravessando rua.

Café.

Cigarro.

Buzina.

Jornaleiro abrindo pacotes.

Os jornais são colocados no varal.

Um sujeito para.

Outro olha por cima do ombro.

Outro comenta:

— Você viu isso?

Pronto.

Temos:

POST       = capa
FEED       = banca
LIKE       = comentário
SHARE      = contar para colega
TRENDING   = multidão olhando
ALGORITHM  = jornaleiro
CLICK      = comprar

E havia algo maravilhoso:

o lurker analógico.

O cidadão que lia todas as manchetes e jamais comprava jornal algum.

O terror do modelo de monetização desde 1972.


CAPÍTULO XVI — TARANTINO ENCONTRA O NP

Agora podemos voltar ao nosso diretor imaginário.

Tarantino provavelmente compreenderia o Notícias Populares porque ambos trabalham com uma pergunta semelhante:

Até onde podemos levar a cultura popular antes que ela se transforme em grotesco?

Em Tarantino, a violência pode ser horrível e engraçada.

No NP também.

O sexo pode ser desejo, exploração e piada.

No NP também.

O criminoso pode virar personagem.

No NP também.

O absurdo pode coexistir com acontecimentos reais.

No NP também.

E principalmente:

ninguém está tentando parecer elegante.

O produto assume sua vulgaridade.

Isso é fundamental.

O NP não queria parecer o New York Times.

Ele queria que você parasse diante da banca.


CAPÍTULO XVII — ENTÃO VEIO A TELEVISÃO E ROUBOU O CÓDIGO-FONTE

Nos anos 1990 apareceu um concorrente devastador.

A televisão percebeu:

— Espera aí.

Crime funciona.

Tragédia funciona.

Perseguição funciona.

Repórter gritando funciona.

Popular funciona.

Programas como Aqui Agora levaram parte dessa estética para a televisão.

Depois outros programas policiais continuaram explorando a fórmula.

O que antes precisava ser imaginado através de uma fotografia agora aparecia:

em movimento.

Com som.

Sirene.

Repórter.

Helicóptero.

Ao vivo.

O NP encontrou um problema clássico de TI:

sua interface foi copiada por uma plataforma tecnologicamente mais atraente.


CAPÍTULO XVIII — O FIM

Em 20 de janeiro de 2001, saiu a última edição.

A circulação havia despencado para cerca de 20 mil exemplares diários.

Para comparar:

1986:

113.000

2001:

20.000

O Grupo Folha decidiu concentrar seu jornalismo popular no Agora São Paulo, que naquele momento circulava aproximadamente 118 mil exemplares por dia. A direção afirmou que o modelo do NP havia se esgotado.

Também pesavam a dificuldade comercial, a resistência de anunciantes, mudanças no mercado e a concorrência de novas formas de jornalismo popular.

O processo vinha ocorrendo havia anos:

1994 — 99 mil.

1996 — 74 mil.

1998 — 48 mil.

2001 — 20 mil.

O batch estava morrendo lentamente.

Até alguém executar:

//NP      JOB
//STEP01  EXEC PGM=ENCERRA
//SYSOUT  DD SYSOUT=*
//

RC=0000

37 anos.

Fim.


CAPÍTULO XIX — OU TALVEZ NÃO

Porque aqui está o maior easter egg desta história.

O Notícias Populares morreu?

O jornal, sim.

A arquitetura?

HAHAHAHAHAHA.

Não.

Olhe sua timeline.

URGENTE!

CHOCANTE!

VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!

VEJA O QUE ACONTECEU!

IMAGENS FORTES!

POLÊMICA!

BOMBA!

ABSURDO!

Reconheceu?

O NP não desapareceu.

Ele foi portado para a Web.


CAPÍTULO XX — O NP ERA UM ALGORITMO HUMANO

A redação havia descoberto empiricamente coisas que hoje chamamos de:

  • engagement;

  • click-through rate;

  • emotional triggering;

  • visual hierarchy;

  • retention;

  • cliffhanger;

  • serialização;

  • curiosity gap;

  • personalização por público;

  • linguagem otimizada;

  • conteúdo viral.

Não havia machine learning.

Havia jornalista.

Não havia dashboard em tempo real.

Havia:

VENDEU?

Se a resposta fosse sim:

PERFORM FAZ-DE-NOVO
    UNTIL CIRCULACAO = ZERO
END-PERFORM.

O Bebê-Diabo foi praticamente um mecanismo de retenção serializado.


CAPÍTULO XXI — E O “POVO SEM LETRAMENTO”?

Voltamos ao ponto mais delicado.

É tentador olhar para aquelas capas hoje e concluir:

“Funcionavam porque o público era ignorante.”

Seria uma conclusão confortável.

E provavelmente errada.

Porque as mesmas técnicas funcionam hoje com:

executivos,

engenheiros,

médicos,

advogados,

professores,

programadores,

mestres,

doutores

e pessoas com três monitores exibindo dashboards.

O problema não é simplesmente alfabetização.

É psicologia humana.

Medo chama atenção.

Sexo chama atenção.

Perigo chama atenção.

Curiosidade chama atenção.

Violência chama atenção.

O extraordinário chama atenção.

Somos Homo sapiens antes de sermos usuários autenticados.

A diferença é que o NP precisava convencer um cidadão caminhando pela calçada.

Hoje o recomendador sabe exatamente qual Bebê-Diabo mostrar para cada pessoa.

E isso é muito mais poderoso.


CAPÍTULO XXII — O VERDADEIRO LEGADO

O Notícias Populares é uma cápsula cultural brasileira.

Nele encontramos simultaneamente:

ditadura,

urbanização,

migração,

violência,

desigualdade,

sexualidade,

machismo,

humor,

moralismo,

religiosidade,

superstição,

televisão,

futebol,

celebridades,

criminalidade,

publicidade,

censura,

liberdade de imprensa

e cultura popular.

Por isso suas capas parecem absurdas hoje.

Elas são snapshots de memória.

SYS1.BRASIL.HISTORIA.NP

Cada edição preserva não apenas aquilo que aconteceu.

Preserva aquilo que uma sociedade desejava ver.

E talvez isso seja ainda mais importante.


EPÍLOGO — PULP FICTION NA BANCA

Imagine a cena final.

São Paulo.

Final dos anos 1980.

Seis horas da manhã.

Ônibus passando.

Um bar abrindo.

Café sendo servido num copo americano.

A banca está cheia.

O jornaleiro prende jornais no varal.

Um trabalhador aproxima-se.

Olha uma capa.

Para.

Franze a testa.

Outro sujeito olha também.

Um terceiro aproxima-se.

Ninguém sabe ainda que existe uma coisa chamada Internet comercial.

Ninguém ouviu falar em SEO.

Não existe trending topic.

Não existe feed personalizado.

Não existe recomendador.

Não existe botão compartilhar.

Mas existe uma manchete enorme anunciando alguma combinação absolutamente improvável de:

crime + sexo + tragédia + celebridade + sobrenatural.

O primeiro homem comenta:

— Você viu essa porra?

O segundo responde:

— Vi.

O terceiro pergunta:

— O que aconteceu?

E a informação começa a circular.

Tarantino poderia congelar a imagem exatamente aí.

Entraria uma guitarra surf dos anos 1960.

A tela ficaria vermelha.

E surgiria:

NOTÍCIAS POPULARES

Nada mais que a verdade.

Corta.

Créditos.

Mas o COBOLzeiro permanece sentado diante do terminal.

Porque ele percebeu uma coisa inquietante.

O Notícias Populares foi encerrado em 2001.

O código-fonte comportamental que fazia o Notícias Populares funcionar continua executando.

A banca virou feed.

O varal virou timeline.

A manchete virou thumbnail.

O jornaleiro virou algoritmo.

O Bebê-Diabo virou conteúdo viral.

A disputa por centímetros de papel virou disputa por pixels.

E as centenas de pessoas que paravam diante das bancas para ler gratuitamente as manchetes viraram bilhões de dedos fazendo:

SCROLL
SCROLL
SCROLL
STOP

Talvez o maior legado do NP seja justamente esse.

Ele demonstrou, muito antes do Facebook, do YouTube, do TikTok e dos recomendadores modernos, que existe uma disputa feroz pelo recurso computacional mais caro do planeta:

a atenção humana.

E nisso, meu caro COBOLzeiro...

o velho Notícias Populares tinha um algoritmo absolutamente infernal.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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