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quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

☕ Por que é errado ser politicamente correto?



Por que é errado ser politicamente correto?

☕ Antes que alguém se ofenda com o título...

Calma. O café nem esfriou ainda.

Antes que alguém abra o teclado, estale os dedos e comece a preparar uma resposta de dezessete parágrafos explicando por que este texto representa tudo aquilo que há de errado na humanidade, talvez seja importante esclarecer uma coisa: não existe nada de errado em respeitar as pessoas.

Aliás, deveria ser exatamente o contrário.

Durante boa parte da vida aprendemos algumas regras bastante simples de convivência: não humilhar alguém gratuitamente, não transformar diferenças em motivo de desprezo, pensar um pouco antes de falar e, quando perceber que pisou no pé de alguém, simplesmente tirar o pé.

Não parece particularmente complicado.

O problema começa quando aquilo que deveria funcionar como bom senso ganha tantas regras, exceções, interpretações e patrulhas que conversar passa a parecer uma tentativa de atravessar um campo minado carregando uma xícara de café cheia até a borda.

Foi daí que nasceu minha curiosidade sobre o chamado politicamente correto.

Em algum momento, uma ideia essencialmente razoável — prestar atenção às palavras e respeitar quem está do outro lado — entrou no liquidificador da política, das redes sociais, dos algoritmos, das guerras culturais e, naturalmente, da extraordinária capacidade humana de transformar qualquer coisa em discussão.

E chegamos a uma situação curiosa.

De um lado, pessoas com medo de dizer qualquer coisa.

Do outro, pessoas orgulhosas de dizer absolutamente qualquer coisa.

No meio delas existe provavelmente a maioria de nós, tentando descobrir se ainda podemos contar uma piada, discordar educadamente, cometer um erro, pedir desculpas, aprender alguma coisa e continuar a conversa.

Talvez seja justamente aí que esteja a questão.

O problema nunca foi aprender a respeitar.

O problema começa quando deixamos de conversar.

Então coloque o café na mesa, desligue por alguns minutos o botão imaginário do “cancelar” e venha comigo explorar esse estranho manual moderno de convivência que ninguém recebeu, todo mundo parece conhecer e absolutamente ninguém consegue interpretar da mesma maneira.


(Ou: como perdemos o manual de “como conversar sem ofender ninguém”)

Ah, o politicamente correto. Esse ser mítico que nasceu com boas intenções, cresceu cheio de regras e hoje vive assombrando grupos de WhatsApp, churrascos e timelines.

🌍 A origem: quando tudo era mato (e piada de tiozão)

O termo surgiu lá pelos anos 1970, entre movimentos sociais e universidades — especialmente nos EUA. A ideia era simples: usar linguagem inclusiva e respeitosa pra não reforçar preconceitos.
Mas como toda boa invenção humana... o pessoal exagerou.

Virou um jogo de tabuleiro moderno:

  • “Pode falar isso?”

  • “Depende do contexto.”

  • “E se for ironia?”

  • “Depende da intenção.”

  • “E se for meme?”

  • “Depende do algoritmo.”

Resultado: ninguém sabe mais quando está sendo gentil ou cancelável.

🧠 A razão: o medo do “cancelamento”

O politicamente correto nasceu da empatia, mas virou um manual de etiqueta com 18 volumes e notas de rodapé.
Hoje, em vez de dizer “bom dia”, muita gente pensa:

“Será que ofendo alguém que não acredita em dias bons?”

O medo de errar nos transformou em robôs sociais: sorrimos, concordamos, mas pensamos “lá vem textão”.

📜 A evolução (ou involução)

Nos anos 2000, o “politicamente correto” começou a virar arma política.
Um grupo dizia “seja mais sensível”, o outro retrucava “vocês estão mimando o mundo”.
E assim nasceu a guerra santa da internet: os ofendidos versus os debochados.

Curiosamente, ambos querem o mesmo: liberdade pra falar — só divergem em como.

🤯 Curiosidades

  • O termo “politicamente correto” era originalmente uma brincadeira entre ativistas de esquerda — usado de forma irônica!

  • Em 1990, o New York Times publicou uma série de artigos sobre o tema, e o termo explodiu.

  • No Brasil, o auge veio nos anos 2010, quando descobrimos o poder de um “lacrou” e um “cancelado” no mesmo post.

  • A internet transformou a empatia em um campo minado sem tutorial.

☕ Dicas pra sobreviver ao politicamente correto

  1. Fale com empatia, mas não viva em pânico.

  2. Pergunte antes de ofender (funciona em 80% dos casos).

  3. Evite generalizações, a menos que seja pra falar mal de fila de banco.

  4. Aprenda e siga em frente. Errar é humano, repetir é “cringe”.

  5. Lembre-se: humor sem maldade é possível — só dá mais trabalho.

💬 Comentário final do Bellacosa

Ser politicamente correto não é errado — o problema é esquecer que humor, contexto e intenção ainda existem.
O segredo é simples: respeito com leveza.
Nem tanto o “mimimi”, nem tanto o “tiozão do pavê”.

Ou como diria o filósofo do boteco digital:

“Se você não pode rir de nada, então estamos ferrados. Mas se você ri de tudo, o problema é você.”

No fim das contas, o politicamente correto é igual café: na dose certa, desperta consciência; em excesso, dá azia social.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Brasil 2014: o ano em que o sistema entrou em produção sem homologação

 

Bellacosa Mainframe e o Brasil na retrospectiva 2014

Brasil 2014: o ano em que o sistema entrou em produção sem homologação

Meu primeiro ano completo de volta ao Brasil foi 2014. Em linguagem de mainframe, 2013 tinha sido o stress test. 2014 foi quando alguém decidiu colocar o sistema em produção mesmo sabendo que vários checks tinham falhado. Eu vinha de doze anos na Europa, acostumado a ambientes previsíveis, cheios de regras, mas também cheios de pactos silenciosos entre Estado e cidadão. No Brasil, o pacto parecia ter expirado — e ninguém renovou o contrato.

O país acordou em 2014 tentando seguir a rotina como se nada tivesse acontecido. Mas quem trabalha com sistemas críticos sabe: depois de um incident report, o ambiente nunca mais é o mesmo.

Economia: quando o caixa ainda tem dinheiro, mas o futuro já foi comprometido

Economicamente, 2014 foi um ano estranho. O consumo ainda respirava por aparelhos, sustentado por crédito, desonerações e discursos otimistas. Era como rodar um sistema em overclock: funciona, mas esquenta demais. Para quem tinha vivido fora, o sinal era claro — o modelo estava exaurido.

Na Europa, crise significava aperto explícito. No Brasil, crise era negada em release notes. O cidadão comum sentia no supermercado, no aluguel, no transporte. Não era colapso, era erosão. Um data corruption lenta, quase elegante, mas contínua.

O ex-imigrante volta achando que entende inflação. Em 2014, descobre que entende, mas subestimou o impacto emocional dela. Porque inflação não é só número — é a sensação diária de que o esforço nunca fecha a conta.

Sociedade: um país dividido rodando o mesmo sistema

O que mais me marcou em 2014 foi a mudança de clima social. As ruas que em 2013 tinham sido confusas, mas plurais, agora estavam polarizadas. Era como se o sistema tivesse sido clonado em dois ambientes incompatíveis, ambos dizendo ser o oficial.

Famílias, amigos, colegas de trabalho — todo mundo virou especialista em política de um dia para o outro. Mas não no sentido europeu do debate público estruturado. Era mais parecido com debug feito aos gritos, sem documentação, com cada operador jurando que o erro estava no código do outro.

Para quem voltou de fora, isso dói mais. Porque você traz a esperança de reconectar, de pertencer novamente. E encontra um ambiente onde qualquer tentativa de nuance é vista como defeito.

Cultura: espetáculo como cortina de fumaça

2014 também foi o ano do grande espetáculo. Copa do Mundo, campanhas publicitárias, narrativas de país alegre, resiliente, criativo. Do lado humano, foi quase esquizofrênico. De manhã, protestos; à tarde, festa; à noite, medo do amanhã.

Na Europa, eventos dessa magnitude vêm acompanhados de debates longos, relatórios, balanços. No Brasil, a cultura do improviso virou virtude oficial. O famoso “depois a gente vê” foi promovido a metodologia.

Culturalmente, percebi um Brasil mais cansado de pensar e mais disposto a sentir. Emoção substituiu análise. Meme substituiu argumento. Era entretenimento rodando em foreground, enquanto processos críticos travavam em background.

População: adaptação como mecanismo de sobrevivência

O brasileiro de 2014 não era apático. Era adaptativo. Vi gente fazendo milagres com pouco, reinventando rotinas, criando pequenos sistemas paralelos para sobreviver. Isso impressiona quem vem da Europa, onde o cidadão confia mais no sistema do que na própria criatividade.

Mas adaptação constante cobra preço. A população estava mais irritada, mais desconfiada, menos paciente. O sorriso continuava lá, mas era um sorriso de quem já viu dump demais e aprendeu a salvar o trabalho com mais frequência.

Como ex-imigrante, senti algo curioso: eu tinha voltado para casa, mas ainda operava com mentalidade de compliance. O Brasil de 2014 não recompensava isso. Aqui, sobrevivia melhor quem sabia contornar, não quem seguia o manual.

Primeiro ano pós-retorno: o choque silencioso

Meu primeiro ano de volta não foi de euforia, foi de reaprendizado. Aprender a atravessar a rua de novo, a negociar prazos irreais, a lidar com a informalidade que a Europa tinha me feito desaprender. 2014 me ensinou que o Brasil não quebra — ele se dobra.

Mas também mostrou algo preocupante: sistemas que se dobram demais perdem integridade.

2014 foi o ano em que o Brasil seguiu funcionando, mas com alerts ignorados, patches improvisados e operadores discutindo entre si enquanto o usuário final só queria que o sistema respondesse.

No fim daquele ano, eu já sabia: o problema não era mais saber se algo ia falhar. A pergunta real era quando — e quem estaria no console quando isso acontecesse.

E todo veterano de mainframe conhece essa sensação incômoda:
o sistema ainda está no ar,
mas ninguém confia totalmente no uptime.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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