| Bellacosa Mainframe e a exposição na Pinacoteca |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🎨 A Pinacoteca — Quando São Paulo Era o Meu Quintal
Da Estação da Luz às luzes de neon: décadas entrando pelas mesmas portas e sempre descobrindo alguma coisa nova
Existem lugares que visitamos.
E existem lugares que, de alguma maneira, crescem conosco.
A Pinacoteca de São Paulo pertence ao segundo grupo.
Muito antes de compreender completamente o que havia dentro daquele prédio, eu já conhecia sua presença. Quando criança, passava pela região com meus pais, seguindo em direção à Estação da Luz, à antiga Rodoviária ou à Estação Sorocabana.
Aquele pedaço de São Paulo fazia parte do mapa da minha infância.
Depois vieram os anos entre 1987 e 1991, quando comecei a circular constantemente pela região por causa do programa Enigma, no Teatro Franco Zampari.
São Paulo começava a deixar de ser simplesmente a enorme cidade onde eu morava.
A cidade estava virando meu quintal.
Eu gostava de sair, caminhar, explorar e descobrir.
E, quando sobrava tempo, o Parque da Luz e a Pinacoteca estavam ali.
🌳 Do Parque da Luz para dentro do museu
Era muito fácil transformar uma caminhada aparentemente comum em uma pequena aventura.
Entrar no Parque da Luz.
Caminhar entre as árvores.
Observar os prédios antigos.
E então atravessar as portas da Pinacoteca.
Depois de algumas visitas, comecei a reconhecer salas, caminhos, obras e pequenos detalhes que alguém chegando pela primeira vez provavelmente não perceberia.
Cheguei ao ponto de certa vez servir de guia para a Patricia, do Enigma.
Aquilo devia ser divertido: um moleque que já tinha explorado o lugar algumas vezes assumindo orgulhosamente o papel de guia turístico.
— Vem por aqui. Quero te mostrar uma coisa...
Eu conhecia alguns dos “segredos” daquele lugar.
Não os segredos oficiais dos historiadores da arte.
Eram os meus segredos.
Aquela sala interessante.
Aquele corredor.
Uma obra que merecia alguns minutos.
Uma passagem que levava a outra descoberta.
Décadas depois percebo que talvez tenha começado ali um hábito que carregaria pela vida inteira:
não gosto simplesmente de chegar a um lugar. Gosto de explorá-lo.
❤️ Um museu que atravessou meus relacionamentos
Com o passar dos anos, voltei outras vezes.
E também levei algumas namoradas.
Isso transformou a Pinacoteca em algo curioso dentro da minha memória.
As obras continuavam nas paredes.
O prédio permanecia ali.
O Parque da Luz continuava do lado de fora.
Mas as pessoas ao meu lado mudavam.
Cada visita criava uma camada nova sobre as anteriores.
É quase uma arqueologia afetiva.
Em algum corredor pode existir a lembrança de uma conversa.
Em determinada sala, uma risada.
Em outra exposição, uma surpresa.
Talvez seja exatamente por isso que alguns lugares se tornam especiais para nós.
Não é apenas pelo que existe neles.
É por quem fomos quando estivemos ali.
💗 E então apareceram as luzes de neon
Em 2017, lá estava eu novamente.
Dessa vez com Juliana.
Mas aquela não era simplesmente outra visita à Pinacoteca.
Era a continuação de uma tradição que havia começado décadas antes.
Só que o museu também havia mudado.
Entre obras, salas e exposições encontramos uma experiência completamente diferente: luzes, cores, neon rosa, movimento e ilusão de ótica.
Era arte brincando com nossos sentidos.
A luz modificava aquilo que enxergávamos.
As cores enganavam o cérebro.
A percepção fazia parte da própria obra.
E achei aquilo fantástico.
Porque existe uma ideia equivocada de que museu é um lugar onde entramos silenciosamente para observar objetos antigos atrás de uma barreira.
Museus podem ser exatamente o contrário.
Podem provocar.
Confundir.
Brincar.
Enganar os olhos.
Fazer alguém parar e pensar:
“Mas que diabos está acontecendo aqui?”
E essa sensação de surpresa é maravilhosa.
🧠 Quando os olhos não contam toda a verdade
Uma ilusão de ótica também carrega uma pequena lição.
Nós confiamos absurdamente em nossos olhos.
Entretanto, aquilo que chamamos de “ver” é uma interpretação produzida pelo cérebro.
Luz, sombra, contraste, perspectiva e cores podem alterar completamente nossa percepção.
Naquela instalação, portanto, o visitante não estava apenas olhando para a obra.
O próprio cérebro do visitante fazia parte dela.
Talvez seja essa uma das coisas mais interessantes da arte contemporânea.
O quadro não precisa mais terminar na moldura.
A obra pode ocupar uma sala inteira.
Pode utilizar luz.
Pode utilizar som.
Pode utilizar movimento.
E pode utilizar você.
🚶 A velha tradição continuava viva
Olhando hoje para aquela pequena postagem de 2017, percebo algo que provavelmente não pensei naquele momento.
Aquela visita com Juliana era um resgate de uma tradição muito antiga.
O garoto que caminhava por São Paulo décadas antes continuava ali.
Mais velho, naturalmente.
Com milhares de quilômetros percorridos pelo mundo.
Com outras histórias.
Outras pessoas.
Outras preocupações.
Mas ainda existia a mesma curiosidade:
“Vamos entrar ali para ver o que encontramos?”
Talvez essa seja uma das poucas coisas que nunca mudaram.
Sempre gostei de sair.
Explorar.
Descobrir.
Entrar em museus.
Percorrer estações.
Caminhar por parques.
Dobrar uma esquina simplesmente para descobrir onde aquela rua terminava.
Durante muitos anos, São Paulo foi meu enorme parque de diversões particular.
Ou melhor:
São Paulo era o meu quintal.
E naquele quintal existiam lugares quase sagrados.
A Estação da Luz.
O Parque da Luz.
As antigas estações ferroviárias.
Os teatros.
As ruas do centro.
E a Pinacoteca.
🕰️ O verdadeiro truque de ilusão
Talvez exista ainda outra ilusão escondida naquela exposição.
Não uma produzida pelo neon.
Mas pelo tempo.
Entramos novamente em um lugar conhecido e, durante alguns segundos, todas as versões de nós mesmos parecem coexistir.
O garoto passando com os pais.
O adolescente indo ao Enigma.
O jovem explorando o Parque da Luz.
O guia improvisado mostrando a Pinacoteca para Patricia.
O namorado voltando anos depois acompanhado de outras pessoas.
E finalmente o homem caminhando pelo museu com Juliana diante de uma instalação de luz neon rosa.
Todos estão separados por anos.
Mas basta atravessar determinada porta para que algumas dessas distâncias desapareçam.
Talvez seja esse o maior poder dos lugares que fazem parte da nossa história.
Eles funcionam como pequenos CHECKPOINTs da memória.
Você volta.
O sistema lê o ambiente.
Encontra registros antigos.
E silenciosamente executa:
RESTORE MEMORIES
De repente, alguma coisa que estava arquivada há trinta anos volta para a memória principal.
Easter egg encontrado.
☕ Algumas aventuras não precisam estar longe
Passei boa parte da vida viajando e descobrindo lugares.
Mas algumas das aventuras mais importantes não exigiram avião, passaporte ou milhares de quilômetros.
Às vezes bastava pegar um ônibus ou um trem.
Descer no centro de São Paulo.
E começar a andar.
A Pinacoteca foi um desses lugares.
Um templo da arte, certamente.
Mas para mim também se tornou um templo da memória.
E aquela exposição de luz, cores, ação e ilusão de ótica foi apenas mais uma camada acrescentada sobre dezenas de outras.
Naquele dia com Juliana, mais uma vez fiz aquilo que já fazia quando garoto:
entrei por uma porta sem saber exatamente o que encontraria do outro lado.
E encontrei alguma coisa.
Porque talvez a aventura nunca tenha sido apenas a exposição.
Talvez a verdadeira aventura sempre tenha sido continuar curioso o suficiente para entrar.
São Paulo era meu quintal.
A Pinacoteca era um dos seus lugares secretos.
E, felizmente, depois de tantos anos, eu ainda continuava explorando.