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domingo, 23 de outubro de 2022

Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo

Ou: como uma feira paulista, uma estação de trem, uma velha máquina de algodão-doce e os olhos azuis de uma jovem de 1999 continuaram executando um programa dentro da memória quase trinta anos depois

START GIOVANNA1999


Alguns programas nunca foram feitos para terminar.

Há momentos em que os milhões de chimpanzés que habitam minha cabeça fazem silêncio.

É raro.

Normalmente existe uma chuva permanente de ideias, pensamentos, lembranças, absurdos, projetos e associações aparentemente impossíveis. Um chimpanzé pensa em mainframe, outro em história, outro em alguma viagem realizada décadas atrás, enquanto um quarto provavelmente tenta descobrir por que determinada palavra japonesa parece portuguesa.

Mas existem pequenos gatilhos capazes de interromper tudo.

Não importa quanto tempo tenha passado.

Não importa onde eu esteja.

O gatilho acontece e o CPD para.

Um deles é o pastel.

Sim.

Pastel.



Aquela pequena massa frita que talvez algum historiador do futuro considere simples demais para merecer registro, mas que qualquer paulista criado entre feiras livres sabe que pertence a uma categoria muito mais elevada da existência.

Pastel não é apenas comida.

Pastel é memória.

E, no meu caso, pastel também é Giovanna.



O sacramento dominical do paulista

Para compreender essa história, talvez seja necessário explicar às gerações futuras o que significava uma feira livre paulista.

Imagino algum leitor em 2126 consultando este texto enquanto um robô doméstico sintetiza sua refeição molecularmente perfeita e perguntando:

— Mas por que alguém sairia de casa para comprar legumes numa rua?

Porque era muito melhor assim, meu caro descendente.

A feira tinha sons.

Cheiros.

Gente gritando preços.

Crianças.

Senhoras discutindo a qualidade do tomate.

Sacolas.

Caixas.

Frutas cortadas para degustação.

E, em algum ponto estratégico daquele pequeno caos urbano, estava a barraca de pastel.

Ao lado dela, quase obrigatoriamente, caldo de cana.

Ou garapa.

Cada região adotava sua palavra.

O pastel chegava quente demais para ser comido imediatamente, embora invariavelmente tentássemos.

A primeira mordida quebrava a casquinha crocante e libertava uma pequena nuvem de vapor capaz de queimar o céu da boca de qualquer pessoa impaciente.

Dentro poderia haver carne.

Queijo.

Palmito.

Pizza.

Frango.

Ou dezenas de outras invenções.

Mas havia ainda um ingrediente secreto que jamais aparecia na placa:

o óleo.

Não qualquer óleo.

O óleo ancestral da feira.

Depois de fritar uma quantidade arqueológica de pastéis, aquele óleo parecia possuir memória própria.

O pastel de queijo carregava talvez uma lembrança distante do pastel de carne.

A carne poderia ter conhecido o palmito.

O palmito certamente havia cruzado com algum pastel de pizza.

Era quase uma rede neural gastronômica treinada durante milhares de frituras.

E aquilo era delicioso.



O velho japonês que a história transformou em “chinês”

Existe ainda uma história humana por trás das barracas de pastel paulistas.

São Paulo recebeu uma enorme imigração japonesa ao longo do século XX. Essas famílias chegaram, trabalharam, criaram filhos, atravessaram preconceitos, guerras, transformações econômicas e adaptações culturais.

Em determinado período de nossa história, especialmente sob o peso do preconceito antijaponês relacionado à Segunda Guerra Mundial, identidades precisaram ser escondidas, adaptadas ou reinterpretadas.

No imaginário popular paulista surgiu então aquela figura que muitas crianças da minha geração conheceram simplesmente como:

“o chinês da feira”.

Muitas vezes era japonês.

Ou descendente de japoneses.

A história real é muito mais complexa que essa pequena frase, naturalmente. Envolve imigração, racismo, sobrevivência, assimilação e empreendedorismo.

Mas décadas depois algo extraordinário havia acontecido.

O pastel tinha deixado de parecer japonês, chinês ou estrangeiro.

Tornara-se simplesmente paulista.

Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da cultura.

Ela mistura pessoas, histórias, ingredientes e circunstâncias até que ninguém consiga mais separar completamente as origens.

O resultado vira tradição.



1991 — Pastel, Márcia e Freddie Mercury

Minha história pessoal com pastel também possui algumas pequenas ramificações.

Em 1991, ano em que Freddie Mercury morreu, houve Márcia.

Márcia era filha de uma pasteleira.

Tivemos um breve relacionamento.



É curioso como o cérebro cataloga acontecimentos. Alguém poderia imaginar que uma relação com a filha de uma mulher que fazia pastéis seria suficiente para criar a grande associação gastronômica da minha vida.

Não foi.

O cérebro decidiu outra coisa.

Passaram-se alguns anos.

Outra cidade entrou no mapa.

Outro tempo.

Outra jovem.

E então o índice foi criado definitivamente.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2021/11/marcia-pastel-freddie-mercury-o.html



Amparo SP

Chegamos a Amparo, interior de São Paulo.

Cidade marcada pelo ciclo do café e por uma arquitetura que ainda guarda fragmentos daquela época em que fortunas atravessavam o interior paulista junto com trilhos, fazendas e estações ferroviárias.

Ali existia uma pastelaria próxima à antiga estação.

Sua própria existência carregava história.

Originalmente aquele tipo de estabelecimento atendia viajantes que chegavam ou partiam pelos trens. Pessoas desciam carregando malas, notícias, saudades, negócios e expectativas.

Comiam alguma coisa.

Tomavam alguma bebida.

Esperavam.

Depois seguiam viagem.

Quando a ferrovia perdeu importância e os trens desapareceram daquela rotina, estabelecimentos como aquele deveriam, segundo a lógica econômica, desaparecer também.

Mas alguns sobrevivem.

Mudam de dono.

Mudam detalhes.

Perdem parte da história.

Ganham outras histórias.

E continuam funcionando.

São pequenos fósseis comerciais vivos.


Em 1999, aquela pastelaria ainda vendia pastéis.

E eu estava lá.

Mas não estava sozinho.



Giovanna

Giovanna tinha lindos olhos azuis.

Quanto ao cabelo, existe uma divergência histórica que provavelmente jamais será resolvida.

Para mim, castanho-claro.

Para ela, loiro-escuro.

Considerando que este é meu registro para a posteridade, deixarei documentadas ambas as versões para que futuros arqueólogos não iniciem uma guerra acadêmica sobre o assunto.

Era 1999.

Éramos jovens.

E havia Amparo para zanzar.

Gosto da palavra zanzar porque ela descreve perfeitamente aquilo.

Não estávamos realizando uma missão.

Não havia roteiro turístico.

Não havia aplicativo indicando os dez lugares obrigatórios para fotografar.

Não precisávamos registrar cada minuto para provar aos outros que tínhamos estado ali.

Nós simplesmente andávamos.

Sentávamos num banco de praça.

Conversávamos.

Explorávamos alguma construção antiga dos tempos áureos do café.

Entrávamos numa loja de R$ 1,99.

Comíamos alguma coisa.

Voltávamos a andar.

Hoje parece extraordinariamente simples.

Talvez fosse justamente isso que tornasse aquilo extraordinário.


A pastelaria da estação

Em algum momento dessas tardes havia pastel.

Não sei se naquele instante pensei:

“Preciso memorizar isto porque daqui a quase trinta anos ainda vou lembrar.”

Certamente não.

Ninguém vive assim.

Grandes acontecimentos normalmente anunciam sua importância.

Casamentos possuem cerimônias.

Formaturas possuem fotografias.

Viagens possuem passagens.

Nascimentos possuem documentos.

Mas ninguém entrega um certificado dizendo:

ATENÇÃO: esta tarde aparentemente banal será importante para você em 27 anos. Favor prestar atenção.

A vida simplesmente acontece.

Comemos o pastel.

Conversamos.

Talvez tenhamos rido de alguma bobagem cujo conteúdo desapareceu completamente da minha memória.

E seguimos andando.

O problema — ou talvez a maravilha — é que meu cérebro executou silenciosamente:

COMMIT;

A transação foi gravada.

Pastel passou a apontar para Giovanna.

E nunca mais consegui desfazer essa associação.


O índice secreto da memória

Se nossa memória funcionasse como um banco de dados organizado, talvez existisse algo parecido com:

GIOVANNA → AMPARO → 1999

Mas memória humana é uma péssima DBA.

Ela cria índices sem consultar ninguém.

No meu caso, aparentemente fez:

PASTEL → GIOVANNA

AMPARO → GIOVANNA

PRAÇA → GIOVANNA

LOJA DE 1,99 → GIOVANNA

E ainda faltava um dos mais poderosos.

ALGODÃO-DOCE → GIOVANNA


A máquina impossível de algodão-doce

Amparo possuía outra pequena maravilha.

Uma velha máquina de algodão-doce.

Na minha lembrança, era uma máquina antiquíssima, do começo do século XX, mantida funcionando graças ao empenho de alguém que se recusava a permitir que aquele artefato simplesmente desaparecesse.

Talvez algum pesquisador futuro consiga determinar sua fabricação, modelo e história com maior precisão.

Para mim, naquele momento, importava outra coisa:

ela ainda funcionava.

Aquilo era maravilhoso.

Uma máquina criada em outro tempo continuava executando perfeitamente sua função.

Açúcar entrava.

O mecanismo girava.

E surgia uma nuvem doce.

Como alguém que passou boa parte da vida trabalhando com mainframes, reconheço hoje uma filosofia familiar:

— Isso ainda está funcionando?

— Sim.

— Há quanto tempo?

— Ninguém sabe exatamente.

— Não deveríamos substituir?

— Não toque.

Há coisas que sobrevivem simplesmente porque alguém continuou cuidando delas.

E aquela máquina continuava produzindo algodão-doce para novas gerações.


Açúcar transformado em nuvem

Algodão-doce é uma invenção maravilhosa justamente porque é quase completamente absurda.

Pegamos açúcar.

Transformamos em fios.

Enrolamos numa vareta.

E produzimos uma nuvem comestível.

Não existe praticamente nenhuma justificativa adulta para aquilo.

Não é sofisticado.

Não demonstra status.

Não é uma experiência gastronômica complexa.

Não precisamos discutir terroir.

Não há harmonização.

É açúcar.

É infância.

É diversão.

É inútil.

E talvez por isso seja tão importante.

Em algum momento de 1999, Giovanna e eu também comemos algodão-doce.

O segundo índice foi criado.

Décadas depois, ainda funciona.


START GIOVANNA1999

Hoje posso estar vivendo um dia completamente diferente.

Outro século.

Outra rotina.

Outros problemas.

Outras pessoas.

Outro eu.

Então aparece um pastel.

Mordo.

A casquinha quebra.

Sinto o recheio quente.

O cheiro chega.

E algum chimpanzé responsável pelo arquivo morto da minha memória abandona sua mesa, corre por um corredor empoeirado do CPD cerebral e grita:

— CHEFE! ENCONTREI UMA COISA!

Antes que minha parte racional compreenda o que aconteceu, o JOB já foi submetido:

START GIOVANNA1999

E estou novamente em Amparo.

Não fisicamente.

Mas suficientemente perto.

Vejo a praça.

A estação.

As construções.

Uma loja de R$ 1,99.

Pastéis.

Algodão-doce.

Olhos azuis.

E aquele cabelo castanho-claro que, caso Giovanna algum dia leia isto, certamente continuará alegando ser loiro-escuro.

Alguns bugs não precisam ser corrigidos.


A felicidade que não sabia que era felicidade

Com o passar dos anos comecei a perceber algo.

As lembranças mais persistentes nem sempre pertencem aos acontecimentos que, na época, pareciam mais importantes.

Viajei.

Conheci lugares extraordinários.

Vi monumentos.

Atravessei países.

Vivi acontecimentos históricos.

Trabalhei com tecnologias gigantescas.

Conheci muita gente.

Entretanto, algumas memórias que atravessaram décadas são absurdamente pequenas.

Um gosto.

Uma rua.

Uma conversa.

Um banco de praça.

Um alimento simples.

Talvez exista uma explicação.

Há momentos que lembramos porque alguma coisa extraordinária aconteceu.

Mas existem outros que lembramos porque, sem perceber naquele instante, estávamos extraordinariamente felizes fazendo coisas absolutamente ordinárias.

Esses são perigosos.

Não precisam de fotografias.

Não precisam de aniversários.

Não precisam sequer que pensemos conscientemente neles.

Ficam esperando.

Até que algum cheiro, música, palavra ou sabor encontre a chave.


A garapa de Luxor e o pastel de Amparo

Anos depois eu sentiria algo semelhante muito longe dali.

No Egito, em Luxor, antiga Tebas, encontrei caldo de cana.

Garapa.

Em meio a uma viagem cercada por milhares de anos de história, templos, faraós e monumentos capazes de atravessar civilizações, uma coisa aparentemente banal conseguiu me atingir profundamente:

caldo de cana.

Porque sabor não respeita geografia.

Também não respeita calendário.

Uma bebida simples podia aproximar o Egito do Brasil durante alguns segundos.

Assim como um pastel comprado décadas depois pode aproximar 2026 de 1999.

Talvez comida seja uma das máquinas do tempo mais eficientes inventadas pela humanidade.


Não era sobre o pastel

Naturalmente, nunca foi realmente sobre pastel.

Também não era sobre algodão-doce.

Nem sobre a loja de R$ 1,99.

Nem sequer apenas sobre Giovanna.

Era sobre aquele conjunto específico de circunstâncias que jamais poderá ser reproduzido exatamente.

Aquela idade.

Aquela cidade.

Aquele momento histórico.

Aquela companhia.

A ausência de pressa.

A possibilidade de simplesmente caminhar sem destino.

O futuro ainda não havia acontecido.

Muitas decisões ainda não tinham sido tomadas.

Muitas pessoas ainda não tinham chegado.

Outras ainda não tinham partido.

Nós não sabíamos disso.

Estávamos apenas vivendo uma tarde.


Para quem estiver lendo isto no futuro

Talvez você seja um descendente.

Talvez seja alguém que encontrou este texto perdido pela internet.

Talvez nem saiba quem foram aquelas pessoas.

Isso pouco importa.

Quero lhe deixar algo muito mais importante do que os nomes.

Quando estiver vivendo um momento simples, não o despreze por ser simples.

Coma o pastel.

Compre o algodão-doce.

Sente no banco.

Entre naquela lojinha aparentemente inútil.

Caminhe sem destino.

Converse.

Observe os prédios.

Ria da bobagem.

Não transforme necessariamente tudo em fotografia.

Não tente fazer cada segundo parecer extraordinário.

Apenas esteja lá.

Porque você não sabe quais desses momentos seu cérebro escolherá guardar.

Daqui a vinte, quarenta ou sessenta anos talvez você não consiga lembrar o assunto daquela conversa.

Talvez esqueça a roupa.

Talvez o estabelecimento desapareça.

A estação poderá virar museu.

A loja poderá ser demolida.

A velha máquina finalmente poderá parar.

Até as pessoas poderão seguir caminhos completamente diferentes.

Mas então, numa tarde qualquer, alguém colocará um pastel diante de você.

Você dará a primeira mordida.

E alguma coisa acontecerá.

O presente ficará silencioso.

Uma porta será aberta.

E por alguns segundos você terá novamente vinte e tantos anos.

Estará numa praça.

Ao seu lado haverá alguém que o tempo levou para outro caminho.

Você poderá quase ouvir sua voz.

Talvez até veja aqueles olhos.

Então compreenderá uma coisa que eu demorei muitos anos para aprender:

a vida não é formada apenas pelos grandes acontecimentos que contamos aos outros.

Boa parte dela está escondida nas pequenas coisas que aparentemente não mereciam ser guardadas.

Mas foram.

Meu pastel guardou uma cidade.

Meu algodão-doce guardou uma época.

Uma velha máquina guardou uma tarde.

E Giovanna acabou guardada em todos eles.

Talvez a memória seja justamente isso.

Um gigantesco CPD administrado por milhões de chimpanzés, cheio de arquivos sem documentação, programas que ninguém ousa apagar e índices criados sem qualquer lógica aparente.

De vez em quando um deles encontra uma fita esquecida.

Coloca para rodar.

O CPD inteiro fica em silêncio.

E nós chamamos aquilo de saudade.


Epílogo — O último pastel

Algum dia comerei meu último pastel.

Naturalmente não saberei que é o último.

Provavelmente reclamarei que tem pouco recheio.

Talvez esteja quente demais.

Talvez o óleo esteja naquele glorioso estágio arqueológico em que já possui conhecimento acumulado de quinze mil pastéis anteriores.

Vou morder.

A casquinha fará crack.

O vapor subirá.

E espero que, onde quer que meus milhões de chimpanzés estejam naquele momento, algum deles ainda conheça o comando.

START GIOVANNA1999

Então, por alguns segundos, pouco importará quantas décadas tenham passado.

Haverá novamente uma estação.

Uma pastelaria.

Uma praça.

Uma loja de R$ 1,99.

Uma máquina centenária transformando açúcar em nuvem.

Uma jovem de olhos azuis.

Um sujeito olhando para o cabelo dela e insistindo que aquilo era castanho-claro.

E uma tarde qualquer de 1999 que ninguém presente sabia ser histórica.

Não foi histórica para o Brasil.

Não mudou São Paulo.

Não apareceu nos jornais.

Não modificou o destino de Amparo.

Mas ficou registrada em algum lugar muito menor e, paradoxalmente, muito mais resistente.

Minha memória.

Se você estiver lendo isto muitas décadas depois de mim, talvez aquela pastelaria não exista mais.

Talvez aquela máquina esteja finalmente num museu.

Talvez ninguém mais saiba quem foi Giovanna.

Agora você sabe.

Ela foi uma jovem de olhos azuis que, durante algumas tardes de 1999, zanzou comigo por Amparo.

E isso bastou para que, décadas depois, um simples pastel ainda fosse capaz de parar o CPD.

Não subestime as pequenas felicidades.

Algumas delas executam para sempre.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

MUSEUS PRÓXIMOS A LINHA: AZUL, VERDE, VERMELHA E AMARELA.

MUSEUS DA LINHA VERDE DO METRÔ

Metrô de São Paulo


**VILA MADALENA***
Museu da Pessoa
Museu do Objeto Brasileiro
***SUMARÉ***
Unibes cultural
Casa Guilherme de Almeida
***CLINICAS***
Museu Histórico Prof. Carlos da Silva Lacaz - FMUSP
Museu do Futebol
***CONSOLAÇÃO***
Instituto Moreira Sales
Cemitério da Consolação
Centro de Memoria da Faculdade Ibero Americana
Museu Ceroplástico
***TRIANON-MASP***
Museu de Arte de São Paulo
Centro de Pesquisa e Formação do SESC
Centro de Cultura FIESP
***BRIGADEIRO***
Museu Herculano Pires - Itaú Cultural
Acervo Historico Irmã Heinrich
Japan House
Museu do Óculos
Museu do BIxiga
Museu do instituo Pasteur
Casa das Rosas
***PARAÍSO***
Centro Cultural de São Paulo –CCSP
***ANA ROSA,CHÁCARA KLABI ou AACD-Servidor****
OCA
Obelisco
Lasar Segall
Casa Modernista
Museu Afro Brasil
Museu do Bombeiro
Museu de Arte Moderna
Planeta dos Insetos
Museu da Matemática
Museu do Instituto Biológico
Museu de Arte Contemporânea
***IMIGRANTES***
Museu Vicente de Azevedo
***ALTO DO IPIRANGA OU IPIRANGA ****
Museu do Ipiranga
Museu de Zoologia
Monumento a Independência
Casa do Grito
***SACOMÃ***
Museu Botânico

--MUSEUS PRÓXIMOS A LINHA AZUL DO METRÔ--

*METRÔ CARANDIRU
#museupenitenciario
#museuabertodearteurbana
*METRÔ TIETÊ
#museuabertodearteurbana
#arquivodoestado
#museudodentista
#museudaportuguesa
*METRÔ ARMÊNIA
#museudotransporte
*METRÔ LIBERDADE
#museudajustiça
#museutribunaldejustiça
*METRÔ SÃO JOAQUIM
#museudaimigraçãojaponesa
#vilaitororo
*METRÔ VERGUEIRO
#centroculturalsaopaulo
*METRÔ PARAÍSO
#casadasrosas
#japahouse
#irmãbeata
#itaucultural
*METRÔ ANA ROSA OU VILA MARIANA
#museudeartecontemporanea
#museudoinstitutobiologico
#oca
#museudeartemoderna
#museuafrobrasil
#planetadosinsetos
*METRÔ SANTA CRUZ
#museudoindio
#museulasarsegall
#casamodernista
#memorialdobombeiro
*METRO JABAQUARA
#sitiodaressaca
#museudalampada
PS: TODOS GRÁTIS AOS SÁBADOS. — com Metro/Linha Azul - São Paulo/SP.

--MUSEUS NA LINHA AMARELA DO METRÔ----

METRÔ LUZ
Pinacoteca
Museu da energia
Sala São Paulo
Memorial da resistência
Museu de Arte Sacra
METRÔ REPUBLICA
Museu da Diversidade Sexual
Museu do Teatro Municipal
Centro de Memoria do Circo
METRÔ HIGIENOPOLIS-MACKENZIE
Chácara lane
Casa amarela
Biblioteca Monteiro Lobato
Museu da Santa Casa de Misericórdia
Museu de Arte Brasileira
METRÔ PAULISTA
Instituto Moreira Sales
Cemitério da Consolação
Centro de Memoria da Faculdade Ibero Americana
Museu Ceroplástico
Museu do Futebol
Museu Histórico Prof. Carlos da Silva Lacaz - FMUSP
METRÔ OSCAR FREIRE
Museu Oscar Freire
Centro Pro-memoria Club Américo Paulistano
METRÔ FRADIQUE COUTINHO
Fundação Ema Klabin
Museu da Imagem e do Som
Museu Brasileiro de Esculturas
Paço das Artes
METRÔ FARIA LIMA
Centro de Memoria Bunge
Tomie Ohtake
Museu da Casa Brasileira
Casa do Itaim bibi
Museu objeto da casa brasileira
Museu da pessoa
VOZOTECA
METRÔ PINHEIROS
Museu do Relógio
METRÔ BUTANTÃ
Casa do Bandeirante
Museu de Oceanografia
Museu da Policia Civil
Museu do Brinquedo
Museu de Microbiologia
Museu Biológico do Instituto Butantã
Museu de Anatomia Humana
Museu de Anatomia Veterinária
Museu de Arqueologia e Etnologia - MAE
METRÔ SÃO PAULO – MORUMBI
Capela do Morumbi
Palácio dos Bandeirantes
Casa bola
Casa de Vidro
Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
Casa do Caxingui

--MUSEUS DA LINHA VERMELHA DO METRÔ--

* BARRA FUNDA
Memorial da America Latina
Memorial da Inclusão
Museu Geológico
Casa Mario de Andrade
Museu da Imprensa Automotiva
* SANTA CECILIA
Museu da Santa Casa de Misericórdia
Memoria Monteiro Lobato
* REPUBLICA
Museu da Diversidade Sexual
Centro de Memoria do Circo
* ANHANGABAÚ
Museu do Teatro Municipal
Praça das Artes
* SÉ
Solar da Marquesa
Casa da Imagem
Beco do Pinto
Caixa Cultural
Memorial de 32
Museu do Telefone
Pátio do Colégio
Centro de Memoria Sindical
Centro Cultral do Banco do Brasil
*Dom Pedro II
Catavento Cultural
*BRESSER-MOOCA
Museu da Imigração
* TATUAPÉ
Casa do Tatuapé
* CARRÃO
Casa do Regente Feijó

quarta-feira, 3 de abril de 2019

🥖 O Lanche de Pernil do Estadão – O Sanduíche que Sobreviveu à Madrugada Paulistana

 

Bellacosa Mainframe e o lendario lanche de pernil do estadão

🥖 O Lanche de Pernil do Estadão – O Sanduíche que Sobreviveu à Madrugada Paulistana

por El Jefe – Bellacosa Mainframe Midnight Lunch Edition

Há mitos urbanos, há lendas do subterrâneo da metrópole, e há o lanche de pernil do Estadão, que não é apenas comida — é instituição, rito de passagem e ressaca em forma de pão francês.

📜 Origem, ou o nascimento de um ícone boêmio
Nos anos 1960, no centro de São Paulo, bem ali na esquina da Rua Major Quedinho com a Praça da Bandeira, surgiu um pequeno bar anexo à antiga redação do jornal O Estado de S. Paulo. Jornalistas, gráficos e tipógrafos varavam madrugadas fechando edições, e quando o relógio batia 3h, o estômago exigia um herói.
Nascia o Bar Estadão, com seu sanduíche de pernil assado lentamente, banhado em molho dourado, servido em pão francês e acompanhado, sempre, de uma garrafa de refrigerante ou cerveja gelada.

🍖 A receita que o tempo não apagou
O segredo? Pernil marinado por horas em temperos simples e honestos — alho, cebola, vinagre, pimenta-do-reino e folhas de louro — e depois assado até atingir aquele ponto que faz o cheiro invadir a calçada.
O toque paulista vem do molho que escorre pelas bordas e do improviso do balcão: tem quem jure que o melhor jeito de comer é pedir “com queijo e vinagrete” — o famoso pernil completo.

🌆 O bar que nunca dorme
O Bar Estadão ficou famoso por nunca fechar. Era 24 horas, 7 dias por semana — o que, na São Paulo dos anos 1980 e 1990, era quase um ato de heroísmo gastronômico.
Taxistas, jornalistas, artistas, boêmios, policiais, e todo tipo de criatura da madrugada se encontravam ali. Era o refúgio depois da balada, o ponto de encontro de quem perdia o último ônibus, ou simplesmente o lugar onde o tempo parava entre um gole e outro.

🕰️ Adaptações e descendentes
Hoje, o lanche de pernil se espalhou pelos bairros — do centro à Zona Leste, cada boteco tem a sua versão. Alguns mais gourmetizados, outros fiéis ao espírito original: pão cascudo, carne pingando e servida em guardanapo que dissolve.
Mas nenhum supera o ritual de encostar no balcão do Estadão, pedir o seu e assistir o mestre fatiar o pernil diante do vapor perfumado.

🗞️ Lendas e fofoquices
Dizem que cronistas e colunistas do Estadão fechavam a edição do jornal e, antes de ir pra casa, “abriam o apetite da notícia” ali.
Reza a lenda que até políticos e artistas da Boca do Lixo passavam discretamente por lá, madrugada adentro. Alguns juram que o lanche já foi o responsável por selar pautas, amores e ressacas históricas.

💡 Dica do Bellacosa
Se quiser viver a experiência completa:

  • de madrugada, por volta das 2h, quando a cidade está em modo noir;

  • Peça o pernil com queijo e vinagrete;

  • E não esqueça: coma de pé, encostado no balcão, observando o vai e vem da São Paulo que nunca dorme.

Reflexão do El Jefe Midnight Lunch:
Num mundo de delivery, QR code e lanche gourmet, o pernil do Estadão continua lá, sólido como um mainframe IBM rodando desde 1968 — resistente, funcional e indispensável.
É o lanche que guarda a alma de uma cidade que aprendeu a viver sem dormir, mas nunca sem comer bem.


🕶️ Bellacosa Mainframe – Porque há tradições que resistem ao reboot da modernidade.

por El Jefe – Bellacosa Mainframe Midnight Lunch Edition

Há mitos urbanos, há lendas do subterrâneo da metrópole, e há o lanche de pernil do Estadão, que não é apenas comida — é instituição, rito de passagem e ressaca em forma de pão francês.

📜 Origem, ou o nascimento de um ícone boêmio
Nos anos 1960, no centro de São Paulo, bem ali na esquina da Rua Major Quedinho com a Praça da Bandeira, surgiu um pequeno bar anexo à antiga redação do jornal O Estado de S. Paulo. Jornalistas, gráficos e tipógrafos varavam madrugadas fechando edições, e quando o relógio batia 3h, o estômago exigia um herói.
Nascia o Bar Estadão, com seu sanduíche de pernil assado lentamente, banhado em molho dourado, servido em pão francês e acompanhado, sempre, de uma garrafa de refrigerante ou cerveja gelada.

🍖 A receita que o tempo não apagou
O segredo? Pernil marinado por horas em temperos simples e honestos — alho, cebola, vinagre, pimenta-do-reino e folhas de louro — e depois assado até atingir aquele ponto que faz o cheiro invadir a calçada.
O toque paulista vem do molho que escorre pelas bordas e do improviso do balcão: tem quem jure que o melhor jeito de comer é pedir “com queijo e vinagrete” — o famoso pernil completo.

🌆 O bar que nunca dorme
O Bar Estadão ficou famoso por nunca fechar. Era 24 horas, 7 dias por semana — o que, na São Paulo dos anos 1980 e 1990, era quase um ato de heroísmo gastronômico.
Taxistas, jornalistas, artistas, boêmios, policiais, e todo tipo de criatura da madrugada se encontravam ali. Era o refúgio depois da balada, o ponto de encontro de quem perdia o último ônibus, ou simplesmente o lugar onde o tempo parava entre um gole e outro.

🕰️ Adaptações e descendentes
Hoje, o lanche de pernil se espalhou pelos bairros — do centro à Zona Leste, cada boteco tem a sua versão. Alguns mais gourmetizados, outros fiéis ao espírito original: pão cascudo, carne pingando e servida em guardanapo que dissolve.
Mas nenhum supera o ritual de encostar no balcão do Estadão, pedir o seu e assistir o mestre fatiar o pernil diante do vapor perfumado.

🗞️ Lendas e fofoquices
Dizem que cronistas e colunistas do Estadão fechavam a edição do jornal e, antes de ir pra casa, “abriam o apetite da notícia” ali.
Reza a lenda que até políticos e artistas da Boca do Lixo passavam discretamente por lá, madrugada adentro. Alguns juram que o lanche já foi o responsável por selar pautas, amores e ressacas históricas.

💡 Dica do Bellacosa
Se quiser viver a experiência completa:

  • de madrugada, por volta das 2h, quando a cidade está em modo noir;

  • Peça o pernil com queijo e vinagrete;

  • E não esqueça: coma de pé, encostado no balcão, observando o vai e vem da São Paulo que nunca dorme.

Reflexão do El Jefe Midnight Lunch:
Num mundo de delivery, QR code e lanche gourmet, o pernil do Estadão continua lá, sólido como um mainframe IBM rodando desde 1968 — resistente, funcional e indispensável.
É o lanche que guarda a alma de uma cidade que aprendeu a viver sem dormir, mas nunca sem comer bem.


🕶️ Bellacosa Mainframe – Porque há tradições que resistem ao reboot da modernidade.


segunda-feira, 11 de março de 2019

🥙 A Esfiha Paulista – Do Deserto à Esquina da Padaria

 

Bellacosa Mainframe e a delicia arabe paulistana a esfiha

🥙 A Esfiha Paulista – Do Deserto à Esquina da Padaria
(Por Vagner Bellacosa ☕ — Bellacosa Mainframe / El Jefe Midnight Lunch Edition)


Há sabores que viajam o mundo em silêncio, cruzando oceanos e culturas até encontrar um novo lar.
E poucos se aclimataram tão bem no Brasil quanto a esfiha, esse pequeno triângulo de massa que conquistou o coração (e o estômago) do paulistano.

Na São Paulo dos anos 1950, o trânsito era tímido, o bonde ainda tocava o sino, e nas portas das colônias libanesas e sírias começava a se espalhar um aroma que ninguém conseguia identificar, mas todo mundo queria provar.
Era o começo da lenda da esfiha paulista — a comida de rua que aprendeu a falar “ô, meu!” com sotaque do Brás.




🏺 Das areias do Levante ao balcão da padaria

A esfiha original vem da Síria e do Líbano — chamada sfiha (صفيحة), “massa fina” em árabe.
No Oriente Médio, era uma massa aberta, coberta com carne temperada, cebola, pimenta e um toque de iogurte azedinho.
Assada em forno de pedra, era comida comunitária, de festa, servida em bandejas grandes, sempre acompanhada de chá forte e conversa longa.

Mas quando os imigrantes árabes chegaram ao Brasil — especialmente ao bairro do Brás, à Rua 25 de Março e à região da Aclimação, — perceberam que aqui o forno era outro, o gosto era outro, e o público... era faminto.

Foi assim que a esfiha mudou de sotaque:
ficou mais gordinha, mais suculenta e ganhou recheios que nenhum libanês imaginaria — frango com catupiry, calabresa, queijo e até chocolate.
Era o nascimento da esfiha paulista, genuinamente híbrida, com alma árabe e coração de padaria brasileira.




🏠 A lenda da primeira esfiha “à brasileira”

Dizem que tudo começou com a família Abdo, na década de 1930, que vendia esfihas abertas no centro de São Paulo.
Mas foi só nos anos 1950 que o jogo virou: surge o lendário Ragazzo primitivo — o Habib’s original das padarias, um modelo de negócio familiar, com fornadas rápidas e preços populares.

Os imigrantes perceberam que o paulistano gostava de comer com pressa, mas bem.
E a esfiha, com seu tamanho portátil e sabor explosivo, encaixou-se perfeitamente na rotina do trabalhador urbano.

💡 Curiosidade Bellacosa: o primeiro forno de esfiha em São Paulo era movido a carvão e adaptado de uma antiga fornalha de pães italianos.
Multiculturalismo em nível de BIOS.





🍕 Quando a esfiha virou fast food

Nos anos 1980, o empresário Alberto Saraiva, filho de portugueses, criou o império Habib’s, que transformou a esfiha em fenômeno popular.
Custando o equivalente a um cafezinho, o quitute se espalhou por todos os bairros, democratizando o sabor árabe e tornando-o oficialmente brasileiro.

E assim nasceu o mito da esfiha de R$ 1, o lanche do estudante, do motoboy e do programador de COBOL das madrugadas.
Uma instituição paulistana.




🌯 As adaptações do Brasil tropical

  • Esfiha fechada: o modelo “pastel árabe”, perfeito pra viagem.

  • Recheio de frango com catupiry: invenção puramente paulista, e quase patrimônio cultural da zona norte.

  • Esfiha doce: banana com canela, chocolate com morango — um heresia deliciosa.

  • Mini-esfihas de festa: microversão criada pra caber no pratinho de aniversário infantil dos anos 90.

💬 Diz a lenda que o Habib’s chegou a testar uma esfiha de feijoada — e que um protótipo ainda existe em um servidor frio no Tatuapé.


🧠 Cultura de padoca e o dialeto da massa

A esfiha é o elo perdido entre o pastel e o kibe — mistura de imigrantes e improviso, da mesma linhagem que criou o hot dog paulista com purê e o yakisoba de trailer.
Na padaria, ela é sempre a primeira a acabar.
E ninguém chama de sfiha, claro. Aqui é “me vê duas esfiha fechada e um pingado, chefe!

Esse é o verdadeiro idioma da convivência paulistana: árabe temperado com português de balcão.


Bellacosa comenta:

A esfiha paulista é a metáfora perfeita da cidade que nunca dorme:
tem raízes no Oriente, coração no Brás e alma no balcão da esquina.
Nasceu artesanal, virou fast food e, no processo, se tornou símbolo de convivência — o lanche universal que atravessa classes, religiões e bairros.

No mainframe da memória gustativa paulistana, ela é um job eterno rodando em background:
sempre pronta, sempre quente, sempre ali — firme como um commit de sabor que nunca dá erro.


💡 Dica do El Jefe Midnight Lunch

  • Quer sentir o sabor raiz? Procure esfiharias antigas da Rua Vergueiro e da Vila Mariana — forno de pedra, carne temperada com limão e aquele toque de pimenta síria.

  • Quer nostalgia 90s? Peça uma dúzia no Habib’s drive-thru e ouça “Khaled – Aïcha” no rádio.

  • Quer cultura? Sirva esfihas com café forte, conte histórias e veja a madrugada se transformar em memória.


No fim, a esfiha não é só comida.
É a prova viva de que São Paulo é um sistema operacional que roda todas as culturas.
E enquanto houver padoca aberta às 3 da manhã,
a esfiha paulista seguirá quente — e reinando.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

 

Bellacosa Mainframe e memoria de um pequeno trabalhador

Um Café no Bellacosa Mainframe

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

Ou: como um menino de 14 anos atravessou trens destruídos, marmitas, greves, caminhões militares, escola noturna, computadores de 8 bits, montanhas e uma câmera de 35 mm até descobrir que algumas jornadas levam quase uma vida inteira para chegar à estação final



Prólogo — O velho no banco

Astúrias.

Talvez Oviedo.

Talvez uma manhã fria daquelas em que o céu parece não ter decidido se vai chover.

O velho Vagner está sentado em um banco do Campo de San Francisco.

Não está fazendo nada.

E isso, por si só, já é extraordinário.

Durante boa parte da vida ele esteve indo para algum lugar.

Trem.

Ônibus.

Trabalho.

Escola.

Aeroporto.

Escritório.

Data center.

Montanha.

Outro país.

Outra cidade.

Outra aventura.

Mas agora simplesmente está sentado.

Perto dali passam crianças, aposentados, turistas, cachorros, estudantes e pessoas que provavelmente estão atrasadas para alguma coisa.

Vagner observa.

O velho ainda gosta de observar.

Certos programas nunca foram desinstalados.

Ele olha para o relógio.

5h15.

Sorri.

— Eu conheço esse horário.

E, durante alguns segundos, Astúrias desaparece.

Não existe Espanha.

Não existe aposentadoria.

Não existe velho.

Existe São Paulo.

Existe 1987.

E existe um garoto de 14 anos acordando antes do Sol.



1. 05:15 — IPL

Quem trabalha com mainframe sabe que alguns sistemas precisam começar antes que os usuários percebam que existem.

Com aquele garoto acontecia algo parecido.

Às 5h15 começava o IPL.

Não havia botão SNOOZE filosoficamente aceitável.

Era levantar.

Vestir-se.

Conferir documentos.

Dinheiro.

Marmita.

Horário.

Sair.

O mundo ainda estava escuro.

Enquanto muitos adolescentes dormiam, aquele menino já estava executando sua primeira rotina crítica do dia.

PERFORM ACORDAR
PERFORM ARRUMAR-SE
PERFORM CONFERIR-MARMITA
PERFORM CORRER-PARA-ESTACAO
PERFORM PEGAR-TREM
    UNTIL CHEGAR-AO-TRABALHO

Qualquer atraso propagava-se pelo sistema.

Perder alguns minutos em casa podia significar perder o trem.

Perder o trem podia significar perder o ônibus.

Perder o ônibus podia significar chegar atrasado.

Chegar atrasado podia significar problema no emprego.

O relógio não queria saber se chovia.

Nem se fazia frio.

Nem se havia granizo.

Nem se o transporte estava ruim.

Nem se você tinha 14 anos.

O relógio simplesmente contava.



2. O trem que podia matar

Em 1987, a ferrovia deixou de ser apenas transporte.

Um grave acidente envolvendo trens marcou São Paulo.

Para o garoto que dependia daquele sistema, porém, a tragédia não desapareceu quando saiu dos jornais.

Os trens acidentados permaneceram durante meses na região da estação Roosevelt, no Brás.

No começo estavam cobertos.

Um plástico preto escondia parte daquilo.

Mas plástico envelhece.

Rasga.

O vento abre frestas.

E aquilo que deveria desaparecer volta a aparecer.

Todos os dias, o garoto passava por ali.

Não era necessário que ninguém explicasse mortalidade para ele.

A aula estava estacionada diante da plataforma.

Aquilo podia acontecer com o trem em que ele estava.

E na manhã seguinte?

Entrava novamente.

Esse detalhe é importante.

Coragem não significa acreditar que nada acontecerá.

Às vezes coragem significa conhecer perfeitamente o risco e, mesmo assim, perceber que você precisa continuar.



3. O vilão também era o herói

Décadas depois, sentado em Astúrias, Vagner finalmente encontrou uma definição para aquele trem.

Ele era simultaneamente:

vilão e herói.

Era vilão quando estava superlotado.

Quando quebrava.

Quando atrasava.

Quando pessoas brigavam.

Quando havia batedores de carteira.

Quando o medo de assalto acompanhava o passageiro.

Quando alguém precisava viajar perigosamente junto a uma porta aberta.

Mas à noite ele se transformava.

Depois do trabalho.

Depois da escola.

Depois de um dia começado às 5h15.

Quando as luzes daquela composição apareciam ao longe, existia uma certeza extraordinária:

vou chegar em casa.

O mesmo objeto que pela manhã representava perigo, à noite representava salvação.

Talvez algumas das relações mais importantes da vida sejam assim.

Não cabem facilmente nas categorias de amor ou ódio.



4. Quando o sistema caía

Programadores mainframe aprendem cedo uma verdade:

todo sistema eventualmente falha.

E quando aquele sistema ferroviário falhava, o caos não era metafórico.

Trem quebrado significava milhares de pessoas tentando encontrar uma alternativa.

Vagner lembra de ocasiões em que voltou sobre uma locomotiva diesel porque era o espaço disponível.

Lembra também de viagens junto a portas abertas, situação em que permanecer no veículo exigia esforço físico.

Hoje, olhando retrospectivamente, não há qualquer motivo para romantizar aquilo.

Era perigosíssimo.

Mas esse é justamente o problema de analisar o passado apenas com as condições do presente.

Naquele momento a pergunta prática não era:

— Qual opção oferece melhor conforto e segurança?

Era:

Como volto para casa?

Essa diferença explica muita coisa.



5. GREVE — SYSTEM UNAVAILABLE

Então existiam as greves.

E havia uma perversidade especial quando a paralisação atingia o retorno.

O trabalhador conseguira chegar.

Cumprira sua jornada.

Agora estava dezenas de quilômetros distante de casa.

E o sistema desaparecia.

Hoje um telefone imediatamente apresentaria mapas, aplicativos, mensagens, grupos, localização e alternativas.

Naquele mundo, grande parte do sistema de informação era humano.

— Disseram que tem ônibus lá.

— Parece que vai sair um trem.

— Estão colocando caminhões.

— Vai por aquele lado.

A multidão funcionava como uma gigantesca rede peer-to-peer analógica.

E algumas vezes aparecia uma solução extraordinária:

transporte disponibilizado com apoio policial/militar.

Caminhões utilizados normalmente para transportar efetivos recebiam uma multidão desesperada para voltar para casa.

O garoto via policiais tentando organizar o embarque.

Cães.

Gritos.

Gente comprimida.

Confusão.

Décadas depois, a melhor referência cinematográfica que encontra é:

evacuação de filme de apocalipse zumbi.

Só faltavam os zumbis.

Ou talvez os zumbis fossem os próprios passageiros depois de quinze horas acordados.



6. O pau-de-arara metropolitano

Quando dezenas de pessoas deveriam ocupar determinado espaço e aparece uma multidão muito maior tentando embarcar, desaparece rapidamente qualquer ideia sofisticada de transporte.

Sobra capacidade física.

Onde cabe mais um?

Sobe.

Aperta.

Segura.

Vai.

Foi nesse tipo de situação que o garoto compreendeu corporalmente uma expressão que até então poderia parecer apenas histórica:

pau-de-arara.

Não era aventura.

Não era atração turística.

Era contingência.

E talvez tenha sido justamente daí que nasceu aquela brincadeira mental:

“Estou fazendo treinamento militar.”

Porque havia dias em que a metáfora estava perigosamente próxima da realidade.



7. 08:00 — “Bom dia!”

Talvez uma das maiores ironias daquela vida acontecesse às oito da manhã.

Depois de acordar às 5h15.

Depois do frio.

Depois da estação.

Depois do trem.

Depois da multidão.

Depois do ônibus.

Depois de proteger documentos e dinheiro.

Depois de calcular cada minuto.

O garoto chegava ao trabalho.

E alguém dizia:

— Bom dia!

E começava oficialmente a jornada.

Oficialmente.

Porque para o relógio de ponto, tudo aquilo que aconteceu antes simplesmente não existia.

Era processamento externo.

O trabalhador chegava às oito.

O sistema registrava:

ENTRADA = 08:00

Mas ninguém registrava:

JORNADA-REAL-DO-SER-HUMANO = 05:15


8. A carteira profissional era uma patente

Entretanto, seria um erro transformar toda essa história apenas em sofrimento.

Havia orgulho.

A carteira profissional assinada representava algo enorme.

Era quase uma patente militar.

Aquele adolescente havia entrado oficialmente no mundo do trabalho.

Salário.

Décimo terceiro.

Férias.

Direitos.

Possibilidade de comprar.

Possibilidade de ajudar.

Possibilidade de planejar.

Possibilidade de melhorar.

A carteira dizia:

“Você agora participa do sistema.”

E isso tinha um peso enorme.



9. A marmita era o tesouro

Todo RPG possui inventário.

O inventário daquele aventureiro tinha um item particularmente importante:

MARMITA.

Hoje é fácil subestimar aquilo.

Mas a marmita significava dinheiro, preparação e alimento para atravessar a jornada.

E havia bosses específicos.

Boss 1 — Marmita azedou.

GAME OVER no almoço.

Boss 2 — Marmita caiu.

Tesouro perdido durante o transporte.

Boss 3 — Vazou.

Dano de área na mochila.

O problema é que nem sempre havia dinheiro para simplesmente comprar outra refeição.

Portanto cuidar da marmita era logística.

Décadas depois, quando aquele garoto conseguiu proporcionar comida melhor para a família, talvez a vitória tivesse um sabor que alguém criado com abundância jamais perceberia completamente.



10. 17:15 — Não acabou

Às 17h15 terminava o expediente.

Mas não o dia.

Começava outra quest.

ESCOLA.

Outros bosses.

Outras regras.

Outras exigências.

Professor.

Matéria.

Trabalho.

Prova.

Nota.

E aqui surge um detalhe maravilhoso.

O objetivo do garoto não era simplesmente passar.

Sua meta era:

TOP 5 DA CLASSE

Pense nisso.

Acordar às 5h15.

Atravessar São Paulo.

Trabalhar.

Ir para a escola.

Sentar diante de uma prova.

E ainda pensar:

quero estar entre os cinco melhores.

Não havia bônus por cansaço.

A prova não perguntava:

TRABALHOU-HOJE? S
PEGOU-TREM-LOTADO? S
ESTA-CANSADO? S

ADD 2 TO NOTA-FINAL

Nada disso.

Nove era nove.

Dez era dez.

E o garoto queria disputar as primeiras posições.



11. O sorriso profissional

Existia ainda uma disciplina invisível.

Autocontrole.

O mundo podia estar uma porcaria.

O trem podia ter atrasado.

Alguém podia ter empurrado você.

Sua marmita podia ter sofrido um ABEND.

Você podia estar cansado.

Mas no trabalho precisava existir:

educação;

atenção;

disposição;

respeito;

controle emocional.

Uma explosão de raiva podia colocar tudo a perder.

Portanto o garoto aprendeu cedo uma das habilidades mais difíceis do mundo profissional:

não permitir que todo erro externo provoque um ABEND interno.

Isso não significa engolir tudo.

Significa compreender que nem toda batalha merece ser travada.



12. Então apareceram as recompensas

A campanha começou a produzir loot.

Primeiro, coisas fundamentais.

Melhor comida.

Depois:

melhor assistência médica.

E havia algo ainda maior.

Ele podia ajudar a mãe.

Podia ajudar os irmãos.

O dinheiro deixava de ser apenas remuneração.

Transformava-se em qualidade de vida para uma pequena comunidade chamada família.

Então chegou uma conquista memorável:

a primeira televisão colorida.

Parece banal em 2026.

Não era.

A televisão colorida dizia silenciosamente:

estamos avançando.



13. O Nintendinho entra em casa

Depois veio o videogame.

O primeiro Nintendo.

E quando sobrava algum dinheiro:

cartuchos.

Existe uma ironia deliciosa nisso.

O adolescente que havia passado o dia inteiro enfrentando fases, obstáculos e bosses chegava em casa e ligava uma máquina cujo objetivo era...

enfrentar fases, obstáculos e bosses.

Talvez Mario parecesse até relaxante.

Pelo menos Bowser não fazia greve de transporte.


14. Os computadores de 8 bits

Mas algumas máquinas tinham outra magia.

Os computadores domésticos de 8 bits mostravam uma superfície aparentemente simples.

Teclado.

Tela.

Pouca memória.

Poucas cores.

Entretanto havia alguma coisa escondida dentro deles.

E o garoto queria saber:

como isso funciona?

Essa pergunta é perigosíssima.

Porque algumas pessoas passam o resto da vida tentando respondê-la.

O computador deixa de ser eletrodoméstico.

Vira território.

Você digita alguma coisa.

A máquina responde.

Muda um valor.

Acontece outra coisa.

Erro.

Tenta novamente.

Funciona.

É uma sensação extraordinária:

eu disse para a máquina fazer alguma coisa e ela fez.

Décadas depois haveria COBOL, mainframes, bancos de dados, redes, APIs, inteligência artificial.

Mas antes de todas essas catedrais existiram pequenas máquinas de 8 bits dizendo:

READY.


15. O raio de 500 quilômetros

Quando sobrava algum dinheiro, entretanto, Vagner não comprava somente coisas.

Comprava distância.

Seu universo de aventuras tinha uma regra financeira.

Não dava para atravessar o planeta.

Tudo bem.

Qual era o mundo disponível?

Talvez 100 quilômetros.

No máximo aproximadamente 500.

E dentro daquele raio existiam montanhas.

Vales.

Trilhas.

Estradas.

Campings.

Cidades.

Histórias.

Descobriu cedo algo que muitos viajantes demoram para compreender:

aventura não é proporcional à distância.

Você pode atravessar dez mil quilômetros e não descobrir nada.

Pode caminhar vinte quilômetros e voltar diferente.


16. Caminhar porque queria

Existe uma diferença maravilhosa entre as caminhadas da semana e as caminhadas das aventuras.

Durante a semana ele caminhava porque precisava.

No fim de semana podia caminhar porque queria.

Essa diferença é liberdade.

Na cidade:

você precisa chegar ali.

Na montanha:

quero descobrir o que existe depois daquela curva.

Na cidade havia relógio.

Na trilha havia horizonte.

Na cidade havia ponto.

Na montanha havia cume.

Talvez por isso as pernas que durante a semana eram ferramentas de transporte se transformassem no fim de semana em instrumentos de descoberta.


17. Então apareceu a câmera

Em algum momento surgiu dinheiro suficiente para outra conquista.

Uma câmera fotográfica brasileira de 35 mm.

Não era Leica.

Não era Nikon profissional.

Não era equipamento de fotógrafo da National Geographic.

Sua óptica, lembrada décadas depois, merece uma definição técnica extremamente precisa:

perversa.

Fotografava mal.

E daí?

Ela possuía uma característica que nenhuma câmera moderna consegue reproduzir:

estava lá.

Foi para as aventuras.

Viu aquelas pessoas.

Viu aqueles lugares.

Recebeu aquela luz.


18. Trinta e seis oportunidades

Fotografia analógica ensinava economia.

Um filme tinha quantidade limitada de poses.

Cada clique custava.

Filme custava.

Revelação custava.

Ampliação custava.

Então antes do dedo havia pensamento.

Vale a fotografia?

Qual enquadramento?

A luz está boa?

Chego mais perto?

Espero?

Click.

Pronto.

Não havia tela traseira.

Não existia:

— Ficou ruim, faço mais vinte.

O resultado podia aparecer muito depois.

E talvez justamente por isso cada fotografia carregasse uma expectativa que desapareceu parcialmente da fotografia digital.


19. O aventureiro virou documentarista

Antes da câmera, Vagner voltava com histórias.

Depois dela, voltou também com provas.

Uma montanha.

Um acampamento.

Um amigo.

Uma estrada.

Uma cidade.

Uma roupa.

Uma mochila.

Uma paisagem.

Naquele momento ele provavelmente pensava que estava apenas tirando fotografias.

Não sabia que estava criando um arquivo histórico da própria vida.


20. NEGATIVO.MASTER

Décadas passaram.

As fotografias envelheceram.

A tecnologia mudou.

Mas os negativos permaneceram.

E então aconteceu algo maravilhoso.

As fotografias viraram imagens digitais.

As imagens digitais viraram vídeos.

Os vídeos foram parar no YouTube.

Aquele clique mecânico feito décadas atrás passou a existir em servidores distribuídos pelo planeta.

O pipeline poderia ser representado assim:

AVENTURA
   |
   V
CAMERA 35MM
   |
   V
NEGATIVO
   |
   V
FOTOGRAFIA
   |
   V
SCAN
   |
   V
VIDEO
   |
   V
YOUTUBE
   |
   V
MEMORIA

Um programador mainframe reconheceria imediatamente a arquitetura.

O negativo é o dataset master.

O scan é uma transformação.

O vídeo é aplicação.

O YouTube é distribuição.

Nunca apague o master.


21. A câmera atravessa o Atlântico

A velha câmera continuou existindo.

Em algum momento atravessou o oceano.

Foi para Portugal.

E acabou nas mãos do filho.

Para o filho?

Um cacareco.

Compreensível.

Objetivamente é uma câmera antiga com óptica limitada.

Existem telefones que fazem fotografias incomparavelmente melhores.

Mas para o velho sentado em Astúrias aquele objeto possui outra especificação.

Não é:

DEVICE TYPE = CAMERA
FORMAT = 35MM
OPTICS = QUESTIONABLE

É:

DEVICE TYPE = TIME MACHINE
VALUE = INCALCULAVEL

Por isso talvez seja hora de buscá-la.


22. “Para ele é um cacareco. Para mim foi o mundo.”

O velho repete a frase baixinho.

Uma senhora que passa pelo banco talvez olhe para ele.

Ele sorri.

Não está falando com ela.

Está falando com alguém sentado imaginariamente ao seu lado.

Um garoto de 14 anos.

O menino pergunta:

— Então a câmera era boa?

O velho ri.

— Era uma porcaria.

— Então por que você quer ela de volta?

O velho olha para as árvores.

Demora alguns segundos.

— Porque foi com ela que eu aprendi que minha vida merecia ser fotografada.

O garoto fica quieto.

Essa resposta ele ainda não consegue compreender.


23. O easter egg no banco

Talvez exista ainda outra personagem naquele parque.

Mafalda.

Em Oviedo, uma escultura da personagem de Quino está sentada justamente em um banco do Campo de San Francisco, diante do estanque.

Isso parece um easter egg bom demais para desperdiçar.

Imagine o velho Vagner passando por ela.

Mafalda continua criança.

Ele envelheceu.

Ela permanece fazendo perguntas desconfortáveis ao mundo.

Ele passou a vida tentando responder algumas delas.

Por alguns segundos olha para a menina de bronze.

— Você não envelheceu nada.

Mafalda obviamente não responde.

— Trapaceira.

E continua andando.


24. O menino finalmente pergunta

De volta ao banco, o garoto imaginário faz outra pergunta:

— A gente venceu?

Essa é difícil.

Porque vida não é videogame.

Não existe tela final.

Não aparecem créditos.

Sempre haverá alguma coisa incompleta.

Alguma escolha errada.

Alguma pessoa que partiu.

Alguma oportunidade perdida.

Alguma cicatriz.

Então o velho poderia responder com números.

Carreira.

Viagens.

Computadores.

Trabalho.

Família.

Projetos.

Mas talvez nada disso responda realmente.

Ele pensa na mãe.

Nos irmãos.

Na televisão colorida.

No Nintendo.

Nos cartuchos.

Na comida melhor.

No plano de saúde.

Na escola.

Nas notas.

Na câmera.

Nos negativos.

Nas montanhas.

Então responde:

Lutamos o bom combate.

O garoto entende.


25. Não vencemos porque ficamos ricos

Essa distinção importa.

A vitória daquela história não foi transformar pobreza em ostentação.

Foi transformar trabalho em possibilidade.

Possibilidade de comer melhor.

Possibilidade de cuidar da saúde.

Possibilidade de ajudar a família.

Possibilidade de estudar.

Possibilidade de conhecer tecnologia.

Possibilidade de comprar um videogame.

Possibilidade de fotografar.

Possibilidade de caminhar por uma montanha simplesmente porque queria.

Possibilidade de ampliar progressivamente o mapa.

Essa talvez seja uma definição muito mais interessante de prosperidade:

aumentar a quantidade de escolhas disponíveis.


26. O verdadeiro sistema legado

Programadores iniciantes costumam ouvir que sistemas legados são antigos.

Não é uma boa definição.

Legado é aquilo que continua carregando valor de uma geração para outra.

Nesse sentido, a câmera é legado.

Os negativos são legado.

As histórias são legado.

O conhecimento é legado.

Até determinadas cicatrizes são legado.

Um programa COBOL escrito quarenta anos atrás pode continuar processando porque ainda contém regras importantes.

Uma fotografia ruim feita quarenta anos atrás pode continuar valiosa porque contém pessoas e lugares que não podem ser recompilados.

Há coisas que envelhecem.

Há coisas que acumulam significado.

Não confunda as duas.


27. Dica do velho programador

Se você é um programador COBOL iniciante lendo isto, talvez esteja esperando uma grande lição técnica.

Aqui está:

não despreze sistemas antigos apenas porque parecem ruins.

Primeiro pergunte:

— O que existe aqui que não pode ser recriado?

Faça isso com programas.

Faça isso com documentos.

Faça isso com fotografias.

Faça isso com pessoas.

Uma rotina horrorosa escrita em 1987 pode conter uma regra de negócio que ninguém documentou.

Um negativo riscado pode conter a única fotografia existente de determinado momento.

Uma câmera vagabunda pode ser um cacareco para você e o mundo inteiro para outra pessoa.

Valor e qualidade técnica não são sinônimos.

Essa é uma lição que serve tanto para fotografia quanto para mainframe.


28. 05:15 outra vez

O velho olha novamente o relógio.

É curioso.

Durante décadas, 5h15 significou:

CORRA.

Agora não.

Não há trem para pegar.

Não há ponto.

Não há ônibus.

Não há prova.

Não há marmita.

Não há chefe esperando.

Ele pode simplesmente continuar sentado.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas de todas.

Ter finalmente conquistado o direito de não correr.


Epílogo — O garoto chegou

Começa uma chuva fina sobre Oviedo.

O velho levanta.

Durante alguns segundos imagina novamente o garoto.

Quatorze anos.

Marmita.

Carteira profissional.

Caderno.

Pouco dinheiro.

Uma quantidade absurda de vontade.

— Vem — diz o velho.

O garoto pergunta:

— Para onde?

Vagner olha para as ruas de Astúrias.

Sorri.

— Para casa.

O garoto olha desconfiado.

— De trem?

O velho ri.

— Hoje não.

Começam a caminhar.

Um tem mais de meio século de histórias.

O outro ainda não sabe nenhuma delas.

Mas são a mesma pessoa.

Passam pelas árvores.

Talvez pela Mafalda.

Talvez por algum turista fotografando tudo com um telefone capaz de produzir imagens que aquela velha câmera brasileira jamais sonharia registrar.

O velho pensa na câmera que ficou em Portugal.

Preciso trazê-la de volta.

Não para fotografar.

Talvez nunca mais coloque um filme nela.

Não importa.

Ela cumpriu sua missão.

Aquela pequena caixa com óptica perversa viu o mundo quando o mundo ainda era pequeno.

Primeiro o mundo tinha vinte quilômetros até o trabalho.

Depois quinhentos quilômetros de aventuras.

Depois atravessou oceanos.

E agora existe um velho caminhando tranquilamente por Astúrias.

Se algum desconhecido perguntasse quanto vale aquela câmera, talvez não houvesse resposta possível.

Porque existem objetos cujo preço pode ser pesquisado.

E existem objetos cujo valor está armazenado em outro sistema.

Um sistema sem SQL.

Sem backup.

Sem REST API.

Sem documentação.

Chamado memória.

E nesse sistema existe um registro que jamais deve receber DELETE:

01 PRIMEIRA-CAMERA.
   05 FABRICACAO        PIC X(10) VALUE 'BRASILEIRA'.
   05 FILME             PIC X(04) VALUE '35MM'.
   05 OTICA             PIC X(10) VALUE 'PERVERSA'.
   05 VALOR-COMERCIAL   PIC 9(09)V99 VALUE ZEROS.
   05 VALOR-PARA-MIM    PIC X(12) VALUE 'FOI O MUNDO'.

O compilador reclama:

VALOR-PARA-MIM não cabe no campo.

O velho programador olha para a mensagem.

Sorri.

Claro que não cabe.

Nunca coube.


Um Café no Bellacosa Mainframe

Alguns sistemas sobrevivem porque ninguém conseguiu substituí-los.

Algumas fotografias sobrevivem porque ninguém consegue repeti-las.

E algumas histórias sobrevivem porque, depois de quase quarenta anos, o garoto das 5h15 finalmente encontrou tempo para sentar em um banco e contá-las.




Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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