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sábado, 21 de maio de 2016

8119 Teatro na Estaçao Ulisses passa no Bordel

Bellacosa Mainframe e Ulisses chega ao bordel

Um Café no Bellacosa Mainframe

🔴 A luz vermelha e a ferida que ainda doía

Há cenas de teatro que assistimos.

E há cenas que, sem pedir licença, encontram alguma coisa dentro de nós.

Naquela noite, enquanto acompanhávamos a descida de Ulisses, percebi que Ana Paula estava desconfortável.

Não era simplesmente por causa da história.

Havia uma história anterior àquela história.

Em seu passado, existia a lembrança de um ex-marido que procurava bordéis, aparentemente buscando fora de casa alguma coisa que acreditava não encontrar dentro dela.

E então o teatro fez aquilo que às vezes sabe fazer de maneira quase cruel: encontrou uma cicatriz.

Uma cicatriz pode permanecer quieta durante anos. Você quase esquece que está ali. Mas basta alguma coisa arrancar aquela pequena casquinha para descobrir que, por baixo dela, talvez ainda exista uma região sensível.

E doía.

Talvez por isso aquela parte da peça tenha ficado tão marcada na minha memória.

🌑 Primeiro, não vemos nada

A construção da cena era extraordinária justamente porque o bordel não aparecia imediatamente.

Primeiro caminhávamos pela escuridão.

Não havia uma explicação.

Nenhuma placa dizendo:

“Agora vocês estão entrando em um prostíbulo.”

O teatro fazia algo muito mais inteligente.

Fazia nossos ouvidos chegarem antes dos nossos olhos.

À medida que avançávamos, começavam a surgir sons na escuridão.

Vozes.

Gritos.

Gemidos.

Risadas.

Conversas embaralhadas.

Ruídos que vinham de lugares que não conseguíamos identificar perfeitamente.

E nossa imaginação começava a construir aquilo que os olhos ainda não podiam enxergar.

Era quase como caminhar por um programa sem ter acesso ao source code.

Você recebe apenas os eventos.

Os sinais.

Os sintomas.

E tenta descobrir que sistema existe por trás deles.

👂 O cenário começava dentro da cabeça

Isso talvez seja uma das coisas mais interessantes daquela encenação.

O bordel não precisava ser completamente construído pelo cenógrafo.

Metade dele era construída pelo público.

Cada pessoa preenchia a escuridão com seu próprio repertório, seus preconceitos, suas experiências, seus medos e suas lembranças.

Então surgiu o vermelho.

Uma luz vermelha cortando a escuridão.

Depois, o neon.

BORDEL.

Pronto.

Aquilo que nossos ouvidos já haviam descoberto finalmente recebia um nome.

Mas, naquele momento, o cenário físico quase se tornava secundário.

O verdadeiro bordel já estava funcionando dentro da imaginação de cada espectador.

🍷 Ulisses entra

E então Ulisses, perdido, bêbado, ferido e à deriva, atravessa aquela fronteira.

Ele não entra simplesmente em um estabelecimento.

Ele desce mais um degrau.

Outras mulheres aparecem.

Outras figuras circulam.

Há clientes.

Há sombras.

Há vozes.

Há movimento.

Mas continuamos vendo muito pouco.

A luz vermelha domina tudo.

E isso torna a cena ainda mais poderosa.

Porque aquilo que não conseguimos enxergar completamente somos obrigados a completar.

O teatro entrega talvez vinte por cento.

Nossa cabeça produz os outros oitenta.



🔴 O vermelho não ilumina — esconde

Normalmente pensamos na luz como algo que permite enxergar.

Ali acontecia praticamente o contrário.

Aquela iluminação vermelha mostrava o suficiente para sabermos onde estávamos, mas escondia o suficiente para permitir que nossa imaginação trabalhasse.

Rostos deixavam de ser perfeitamente definidos.

Corpos transformavam-se em silhuetas.

Movimentos apareciam e desapareciam.

As pessoas que frequentavam aquele ambiente pareciam pertencer temporariamente àquele universo paralelo.

E Ulisses mergulhava nele.

Não porque o bordel fosse necessariamente o destino de sua viagem.

Mas porque ele estava perdido.

Talvez essa seja a diferença.

🧭 O homem que perdeu a bússola

Ulisses não parece entrar ali como um conquistador.

Entra como alguém que perdeu sua referência.

Existe uma enorme diferença entre procurar alguma coisa e simplesmente não saber mais para onde ir.

Naquele momento da peça, eu não enxergava um homem celebrando liberdade.

Eu enxergava um homem descendo.

E quanto mais ele descia, mais distante parecia ficar daquilo que realmente procurava.

Esse é um mecanismo humano assustadoramente comum.

Sentimos um vazio.

Tentamos preenchê-lo.

Não funciona.

Então aumentamos a dose.

Mais bebida.

Mais barulho.

Mais gente.

Mais distração.

Mais excessos.

Até que aquilo que deveria preencher o vazio passa apenas a impedir que escutemos o próprio vazio.




💔 Mas havia outra peça acontecendo ao meu lado

Enquanto Ulisses atravessava seu inferno particular, percebi que Ana Paula assistia a outra história.

O mesmo cenário.

As mesmas luzes.

Os mesmos atores.

Mas outra peça.

Porque para ela a palavra bordel possuía memória.

Possuía contexto.

Possuía perguntas.

Talvez inclusive aquela pergunta terrível que algumas pessoas acabam fazendo depois de uma traição:

“O que ele foi procurar lá que não encontrou comigo?”

É uma pergunta perigosa porque frequentemente transforma a escolha de outra pessoa em um julgamento sobre nós mesmos.

E o teatro não precisava responder.

Aliás, provavelmente nem deveria.

Bastava provocar.



🎭 É aqui que o teatro deixa de ser entretenimento

Foi então que compreendi uma coisa que aquele pequeno vídeo de 2016 jamais conseguiria registrar completamente.

Nós não estávamos simplesmente seguindo atores pelos espaços da antiga estação.

Estávamos carregando nossas próprias histórias atrás deles.

Cada espectador levava consigo um banco de dados invisível.

Amores.

Separações.

Traições.

Desejos.

Culpas.

Medos.

Lembranças.

Quando determinada cena encontrava a chave correta, fazia um SELECT numa tabela que talvez estivesse há anos sem ser consultada.

E o resultado aparecia.

Às vezes bonito.

Às vezes engraçado.

Às vezes doloroso.

Ana Paula provavelmente encontrou naquela luz vermelha registros que preferiria manter arquivados.

💾 O banco de dados emocional não possui DELETE

Talvez essa seja uma das grandes ilusões humanas.

Achamos que esquecer significa apagar.

Não significa.

Muitas vezes apenas deixamos de acessar.

O registro continua lá.

Uma música pode recuperá-lo.

Um perfume.

Uma estação ferroviária.

Uma frase.

Uma fotografia.

Ou uma placa de neon vermelha encontrada inesperadamente durante uma peça de teatro.

Para um programador COBOL, eu explicaria assim:

não era um arquivo apagado.

Era um registro marcado como inativo.

E aquela cena realizou inesperadamente um:

READ MEMORIA

STATUS: 00

Registro encontrado.

🌑 E Ulisses continuou descendo

A peça, entretanto, não parava para explicar nada disso.

Esse talvez fosse seu maior mérito.

Ulisses continuava caminhando.

Nós continuávamos seguindo.

A escuridão continuava.

As vozes continuavam surgindo de lugares que não conseguíamos localizar.

E aquela luz vermelha permanecia atrás de nós.

Mas alguma coisa já tinha mudado.

Porque descobrimos que a verdadeira cenografia não estava apenas naquela antiga estação.

Estava dentro de cada pessoa que caminhava por ela.

Para alguns, aquela sequência poderia ser engraçada.

Para outros, provocativa.

Para outros, simplesmente mais uma etapa da aventura de Ulisses.

Para Ana Paula, entretanto, havia uma ferida antiga escondida naquele corredor.

E talvez esteja justamente aí a força daquele momento.

Ulisses entrou perdido no bordel.

Nós entramos atrás dele.

Mas cada espectador levou consigo seus próprios fantasmas.

E alguns fantasmas conheciam muito bem o caminho.

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Ulisses desce ao fundo do poço


Perdido em sua noitada de bebedeira, nosso amigo Ulisses vai parar em um bordel, perdido, alcoolizado ele entra na esbornia.



O negocio esta feio, perdeu o amor próprio, choraminga, reclama se perde e agora vai ao bordel, seu pobre amor esta em casa, sozinha abandonada e ele aqui na perdição.

Incrivelmente divertida esta passagem do nosso amigo, sem eira nem beira, indo ao fundo e tentando se descobrir e reencontrar.

Sera que esta historia terminara bem?

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🎭 Teatro na Estação — Campinas 2016

Uma viagem pelos registros do Teatro na Estação, na Estação Cultura de Campinas, incluindo a passagem de Ulisses à Deriva em 21 de maio de 2016.

Esta coleção reúne vídeos, relatos e memórias registrados durante o evento Teatro na Estação, preservando diferentes momentos da programação cultural realizada na antiga estação ferroviária de Campinas.

🚂 Uma estação transformada em palco

Em maio de 2016, a Estação Cultura de Campinas recebeu apresentações em que teatro, música, performances e personagens ocuparam plataformas, vagões e antigos espaços ferroviários.

Estes registros formam uma pequena memória digital daquele encontro entre ferrovia, patrimônio histórico, teatro, música e cultura em Campinas.

Entre as apresentações estava Ulisses à Deriva, montagem relacionada ao universo de Ulysses, de James Joyce, transformando a antiga estação em mais uma parada na longa viagem de Leopold Bloom.

📺 Visor — Teatro na Estação Artigo principal carregado
↗ Abrir publicação

📚 Teatro, ferrovia e memória cultural de Campinas

O projeto Teatro na Estação ocupou a histórica Estação Cultura de Campinas com apresentações, música, teatro e performances. Estes registros publicados no Bellacosa Mainframe preservam diferentes fragmentos daquela experiência cultural.

A coleção inclui cenas relacionadas a Ulisses à Deriva, além de músicos, personagens, performances e intervenções realizadas no ambiente ferroviário.

O conjunto conecta temas como Campinas, Estação Cultura, patrimônio ferroviário, teatro brasileiro, James Joyce, Ulysses, Leopold Bloom, Molly Bloom, literatura, música e memória cultural.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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