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domingo, 19 de junho de 2016

SP 70 e seu longo tunel

Bellacosa Mainframe e os tuneis da Carvalho Pinto

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚗 SP-070 e seu longo túnel — Do Fusquinha Vermelho ao Pretinho

Uma viagem pela Carvalho Pinto, os túneis rumo ao Vale do Paraíba, o Pretinho da Juliana e uma buzina que, décadas antes, transformava o Fusquinha vermelho do meu pai numa pequena locomotiva dentro da montanha.

Quando publiquei este pequeno vídeo em 2016, escrevi poucas linhas.

Era apenas mais um daqueles fragmentos de viagem que eu gostava — e continuo gostando — de guardar.

Estávamos percorrendo a SP-070, Rodovia Governador Carvalho Pinto, seguindo em direção ao Vale do Paraíba. No volante estava Juliana e conosco estava seu famoso Pretinho, o Ford New Fiesta 2013 que durante anos nos levou para mil e uma aventuras.

Naquele momento, entretanto, minha preocupação cinematográfica era bastante simples:

Quero gravar o barulho do motor dentro do túnel.

Naturalmente, o vento resolveu participar da produção e praticamente destruiu minha sofisticadíssima engenharia de áudio.

😂

Mas hoje, dez anos depois daquela publicação, percebo que existe muito mais dentro desse pequeno vídeo.

Porque atravessar aqueles túneis também significa atravessar várias décadas das minhas próprias memórias.


🛣️ Antes da Carvalho Pinto existia outro Vale do Paraíba

Para minhas memórias pessoais, a SP-070 é uma estrada relativamente nova.

Quando eu era garoto, durante os anos 1970 e 1980, viajar para o Vale do Paraíba significava conhecer outro mapa rodoviário.

Íamos visitar meus tios Santiago e Deise e meus primos Andreia e Marcelo.

E havia basicamente dois mundos possíveis.

Um deles era a famosa — e naquela época bastante temida — Via Dutra.

O outro era formado pelas estradas antigas que atravessavam as cidades do Vale.

Entre elas estava a SP-066, uma daquelas rotas que faziam a viagem parecer muito menos uma ligação entre dois pontos e muito mais uma sucessão de pequenas descobertas.

Cidade.

Estrada.

Outra cidade.

Curva.

Comércio.

Posto.

Igreja.

Casas.

Mais estrada.

Hoje entramos numa rodovia expressa e pensamos principalmente no destino.

Naquelas viagens, entretanto, a própria estrada fazia parte da aventura.



🚗 E naturalmente havia o Fusquinha vermelho

Quem acompanha estas histórias já conhece outro personagem recorrente do Bellacosa Mainframe.

O velho Fusquinha vermelho do meu pai.

Aquele Volkswagen não era apenas um automóvel.

Era praticamente nosso módulo de transporte familiar.

E meu pai possuía alguns algoritmos próprios de economia de combustível.

Um deles provavelmente faria qualquer instrutor moderno de direção defensiva arrancar os poucos cabelos restantes da cabeça:

nas descidas, colocava o Fusquinha na banguela.

😱

O motor diminuía o giro.

O carro descia embalado.

E dentro daquele Fusquinha estava uma família inteira acreditando que aquilo fazia parte da mais avançada tecnologia automobilística disponível.

Era outra época.


📯 Então aparecia um túnel

E túnel possuía uma regra.

Não uma regra escrita.

Muito menos uma regra do Código de Trânsito.

Era uma espécie de protocolo distribuído entre motoristas brasileiros:

ENTROU NO TÚNEL?

BUZINA!

Meu pai afundava o dedo na buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

O som batia nas paredes.

Voltava.

Multiplicava-se.

E imediatamente outros motoristas percebiam o chamado.

FÓÓÓM!

FOM-FOM!

FÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Em poucos segundos o túnel inteiro transformava-se numa sinfonia absolutamente caótica de buzinas.

Ninguém havia combinado nada.

Não existia WhatsApp.

Não existia grupo de motoristas.

Não havia aplicativo.

Bastava alguém buzinar.

Outro respondia.

Depois outro.

Era praticamente um protocolo de comunicação veicular analógico.

TCP/IP?

Nada disso.

TÚNEL/IP.

🤣



🔊 O túnel era nosso amplificador

Para uma criança aquilo era fantástico.

A buzina que normalmente produzia um som relativamente banal de repente parecia gigantesca.

O túnel funcionava como uma enorme caixa acústica.

O som refletia nas paredes, no teto e no pavimento e retornava aos nossos ouvidos.

Talvez ninguém dentro daqueles carros estivesse pensando em acústica, reflexão de ondas ou reverberação.

Nós simplesmente sabíamos uma coisa:

dentro do túnel a buzina ficava muito mais legal.

E isso bastava.



🛣️ Então chegou a Carvalho Pinto

Décadas depois, o mapa mudou.

Durante os anos 1990 surgiu a Rodovia Governador Carvalho Pinto.

Uma estrada moderna, larga, planejada como via expressa e conectada à Ayrton Senna, antigamente conhecida como Rodovia dos Trabalhadores, mas após o acidente com nosso querido piloto de Formula 1 foi rebatizada.

Para quem havia conhecido as antigas viagens pelo Vale do Paraíba, aquilo representava uma transformação gigantesca.

A Carvalho Pinto criou uma nova alternativa à congestionada Via Dutra.

De repente o Vale parecia diferente.

São José dos Campos.

Taubaté.

Quiririm.

E, seguindo adiante, nosso destino naquela aventura:

🏔️ Campos do Jordão.

Mas existe uma coisa curiosa sobre estradas.

Podemos construir novas pistas.

Novos viadutos.

Novos túneis.

Novos sistemas de segurança.

Mas não conseguimos construir uma estrada sem que nossas antigas estradas apareçam dentro dela.


🚘 Agora quem dirigia era Juliana

E chegamos novamente ao pequeno vídeo de 2016.

Desta vez não havia Fusquinha vermelho.

Havia o Pretinho.

O Ford New Fiesta 2013 da Juliana.

E quem estava ao volante também não era meu pai.

Era ela.

O Pretinho acabou tornando-se outro personagem das nossas histórias.

Campos do Jordão.

Taubaté.

Quiririm.

Piracicaba.

Passeios.

Estradas.

Finais de semana.

Pequenas viagens que talvez naquele momento parecessem absolutamente comuns, mas que hoje constituem uma espécie de arquivo distribuído das nossas vidas.

E naquele dia estávamos novamente entrando em um túnel.


🎥 “Vou gravar o ronco do motor!”

Minha ideia parecia excelente.

O carro entra no túnel.

O motor produz aquele ronco.

As paredes refletem o som.

Bellacosa registra tudo para a posteridade.

Hollywood poderia começar a ficar preocupada.

Só havia um pequeno problema.

O vento.

😂

O microfone da câmera captou muito mais vento do que motor.

Minha sofisticada produção audiovisual transformou-se praticamente num teste aerodinâmico.

Mas o vídeo permaneceu.

E ainda bem.

Porque dez anos depois percebo que o verdadeiro áudio daquela gravação não estava no microfone.

Estava na minha memória.


📯 Faltava uma buzina

Ao atravessar aquele túnel moderno da Carvalho Pinto, alguma parte do cérebro inevitavelmente voltava para décadas antes.

Para o Fusquinha vermelho.

Para meu pai.

Para aquelas viagens familiares.

E principalmente para aquela mão descendo sobre a buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Hoje aquele comportamento não combina exatamente com as regras modernas de trânsito.

O Código de Trânsito permite essencialmente o toque breve da buzina como advertência. Usá-la prolongada e sucessivamente simplesmente para produzir uma sinfonia dentro do túnel pode resultar em infração.

Portanto:

crianças, não reproduzam o experimento do velho Bellacosa. 😂

Mas existe uma diferença importante entre repetir uma prática antiga e preservar sua memória.

E aquela memória merece continuar existindo.


🕰️ Duas estradas, dois carros, duas épocas

Talvez seja isso que mais me fascine neste pequeno vídeo.

Na superfície temos simplesmente:

um Ford entrando num túnel.

Mas quando faço um DISPLAY MEMORY, aparece outra coisa.

Anos 1970/80

🚗 Fusquinha vermelho
👨 Meu pai dirigindo
🛣️ Dutra e velhas estradas do Vale
📯 Buzina dentro do túnel
👨‍👩‍👧‍👦 Família viajando

Depois:

2016

🚘 Ford New Fiesta 2013 — o Pretinho
👩 Juliana dirigindo
🛣️ Carvalho Pinto
🏔️ Destino: Campos do Jordão
📍 Taubaté e Quiririm pelo caminho
🎥 Bellacosa tentando gravar o ronco do motor

Os equipamentos mudaram.

As estradas mudaram.

Os carros mudaram.

Os motoristas mudaram.

Mas existe uma linha invisível ligando as duas viagens.


💾 Talvez seja para isso que servem esses pequenos vídeos

Quando gravei aquilo, certamente não estava pensando:

“Estou produzindo um documento histórico para meu eu do futuro.”

Eu estava apenas filmando uma viagem.

Mas talvez seja justamente assim que construímos nossos arquivos mais importantes.

Sem perceber.

Uma fotografia.

Trinta segundos de vídeo.

Um carro passando.

Uma pessoa rindo.

Uma estrada.

Um túnel.

Naquele momento parece banal.

Dez anos depois é memória.

Trinta anos depois talvez seja história.


🥚 Easter egg — o verdadeiro túnel não estava na Carvalho Pinto

Talvez exista ainda outro túnel escondido nesta história.

Não aquele feito de concreto atravessando uma montanha.

Mas aquele existente dentro da memória.

Em 2016, o Pretinho entrou no túnel da Carvalho Pinto.

Por alguns segundos tudo ficou escuro.

Depois apareceu novamente a luz na saída.

Mas dentro da minha cabeça outro veículo entrou junto.

Um pequeno Fusquinha vermelho.

Meu pai estava ao volante.

Nós estávamos novamente indo visitar Santiago, Deise, Andreia e Marcelo.

E justamente quando os dois carros — separados por décadas — pareciam ocupar o mesmo túnel...

meu pai colocou o dedo na buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Talvez o eco que eu estivesse tentando gravar em 2016 já estivesse reverberando havia quarenta anos.

Bellacosa Mainframe

Algumas estradas levam até uma cidade.

Outras levam de volta para casa.

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Indo para Taubate pela Carvalho Pinto.


Para aqueles que curtem viajar... não existe prazer maior que entrar num túnel. Eu ainda sou da época em que a rapaziada buzinava só para fazer eco.

Este túnel moderno e longo na SP 70 torna a viagem mais divertida, pois permite visualizar coisas diferentes entrando no coração da montanha.



Pena que o audio ficou horrível, mas queria ter gravado o som dos motores no túnel e no fim foi apenas o vento.

sábado, 18 de junho de 2016

BR 383 de Quiririm ate Campos do Jordao

Bellacosa Mainframe passando pela br 383

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚗 BR-383 — De Quiririm até Campos do Jordão: uma janela para a estrada

Juliana no volante, Formiga no banco de trás, o Pretinho apontado para a Mantiqueira e este seu aqui fazendo aquilo que sabe fazer muito bem: olhar pela janela.

Mais uma vez estávamos nós três.

Eu, Juliana e Formiga.

E, naturalmente, havia um quarto integrante nessa pequena expedição familiar: o famoso Pretinho, nosso New Fiesta, novamente cumprindo sua missão de nos carregar para algum lugar onde pudéssemos simplesmente passear, descobrir coisas e nos divertir.

O destino daquela vez era Campos do Jordão.

Mas quem acompanha nossas aventuras sabe que, muitas vezes, o destino é apenas uma desculpa.

A verdadeira viagem acontece no caminho.



🛣️ Saindo da SP-123

Em determinado momento da viagem, deixamos o trecho da SP-123 e seguimos pela região da BR-383, avançando pelo município de Taubaté antes de começar efetivamente a ganhar a Serra da Mantiqueira.

Ao redor aparecem nomes conhecidos da zona rural e dos arredores de Taubaté:

Quiririm, Tataúba, Pinheirinho...

Pequenos bairros, propriedades, estradas vicinais e pedaços daquele interior paulista que normalmente vemos apenas durante alguns segundos pela janela.

Para muita gente aquilo é simplesmente:

"o caminho para Campos do Jordão."

Para mim, não.

Eu gosto de olhar.



🌾 Antes da serra existe o campo

Campos do Jordão normalmente rouba toda a atenção.

Quando alguém anuncia que está indo para lá, imediatamente pensamos em montanhas, araucárias, frio, chocolate quente, restaurantes, casacos e naquela arquitetura turística tão característica da cidade.

Mas existe uma transformação muito interessante antes de chegar lá.

A paisagem vai mudando.

O terreno ainda relativamente aberto começa a apresentar as montanhas no horizonte.

As pequenas elevações tornam-se maiores.

A estrada começa a serpentear.

E aquela enorme parede natural da Serra da Mantiqueira parece aproximar-se lentamente do carro.

É quase como se a natureza estivesse avisando:

"Daqui para frente, começamos a subir."



👀 Uma pequena terapia para quem vive diante de monitores

Talvez por trabalhar tanto tempo diante de computadores eu tenha desenvolvido uma relação especial com essas paisagens.

Passamos horas olhando para monitores.

Código.

Planilhas.

Documentação.

Terminais.

Janelas.

Mensagens.

Mais janelas.

Mais código.

Mais telas.

Depois de algumas horas, nosso universo inteiro parece ter sido reduzido a algumas dezenas de polegadas.

Então você entra num carro, pega uma estrada e olha pela janela.

De repente, a resolução é infinita.

Não existe pixel.

Não existe refresh rate.

Não existe placa de vídeo.

Existe simplesmente o mundo.

🌿 O verde dos campos.

☁️ As nuvens atravessando lentamente o céu.

🌤️ O azul acima da estrada.

🌳 As árvores.

⛰️ As montanhas aparecendo no horizonte.

E aquela estrada estreita seguindo em direção à serra.

É curioso pensar que nossos olhos foram construídos para enxergar tudo isso e nós os condenamos durante boa parte do dia a olhar para um retângulo luminoso a menos de um metro de distância.


🌬️ E existe uma coisa que o vídeo não consegue gravar

O ar.

Essa é uma das limitações de qualquer registro audiovisual.

Eu consigo guardar a imagem.

Consigo registrar a estrada.

Consigo capturar um pouco do movimento.

Talvez consiga preservar os sons.

Mas ainda não inventaram um botão no YouTube que permita apertar:

[ REPRODUZIR CHEIRO DO CAMPO ]

😄

Porque parte daquela experiência estava justamente ali.

Abrir um pouco a janela e aspirar aquele delicioso ar do interior.

O cheiro da vegetação.

Da terra.

Do campo.

A mudança de temperatura conforme nos aproximávamos da serra.

São informações que a câmera simplesmente não consegue armazenar.

Por enquanto.


🚗 Um vídeo sem compromisso

E talvez seja justamente isso que eu mais goste desse pequeno vídeo.

Ele não pretende ensinar nada.

Não é documentário.

Não é guia turístico.

Não é avaliação da estrada.

Não é review do carro.

Não existe roteiro.

Não existe apresentador gritando para segurar audiência.

É simplesmente a estrada.

Um pequeno fragmento de tempo capturado durante uma viagem familiar.

Eu, Juliana e Formiga seguindo tranquilamente rumo a Campos do Jordão.

O Pretinho avançando pela estrada.

A Serra da Mantiqueira crescendo diante de nós.

E a câmera registrando aquilo que meus olhos estavam vendo.

Só isso.

E isso já era suficiente.


🏃 O mundo está sempre com pressa

Talvez seja uma das coisas que mais percebo quando viajo.

As pessoas estão sempre tentando chegar.

Chegar ao hotel.

Chegar ao restaurante.

Chegar ao parque.

Chegar à atração turística.

Chegar ao próximo compromisso.

Chegar, chegar, chegar.

E nessa obsessão pelo destino, deixam passar justamente aquilo que existe entre dois pontos.

O caminho.

Uma árvore diferente.

Uma montanha.

Uma pequena cidade.

Uma placa com um nome curioso.

Uma propriedade rural.

Um riacho.

Uma igreja perdida no meio do campo.

Uma nuvem enorme.

Uma estrada bonita.

Nada disso estava no roteiro.

Portanto, para muita gente, aparentemente não merece atenção.

Mas este seu aqui sempre teve um pequeno problema:

eu olho.

😂


📹 Então eu aperto REC

Talvez alguém que estivesse conosco perguntasse:

— Mas você está filmando o quê?

E a resposta seria extremamente simples:

A estrada.

— Mas está acontecendo alguma coisa?

Sim.

Estamos viajando.

Estamos vendo o campo.

Estamos juntos.

Estamos indo para algum lugar.

Estamos vivos.

Precisaria acontecer mais alguma coisa?

A câmera não precisa estar ligada somente quando existe uma cachoeira monumental, um acidente, uma festa ou uma atração turística famosa diante dela.

Às vezes vale a pena registrar justamente o ordinário.

Porque existe uma enorme possibilidade de que aquilo que hoje parece ordinário seja justamente o que amanhã despertará nossa memória.


❄️ Sempre imaginei alguém assistindo isso no inverno

Existe ainda outra razão pela qual gosto de deixar esses pequenos vídeos disponíveis.

Às vezes imagino uma pessoa muitos quilômetros distante dali.

Talvez durante um inverno rigoroso.

Presa dentro de casa.

Lá fora está frio.

Talvez esteja chovendo.

Talvez nevando.

O céu está cinza.

As árvores perderam as folhas.

A pessoa abre o computador, entra no YouTube e, por algum daqueles mistérios dos algoritmos, encontra um pequeno vídeo perdido:

BR-383 — de Quiririm até Campos do Jordão.

Clica.

E durante alguns minutos aparece diante dela uma estrada brasileira.

🌿 Campos verdes.

☀️ Sol.

☁️ Nuvens brancas.

🌳 Vegetação.

🚗 Uma estrada seguindo tranquilamente pelo interior de São Paulo.

Talvez essa pessoa nunca tenha ouvido falar de Quiririm.

Talvez não saiba onde fica Taubaté.

Muito menos Pinheirinho ou Tataúba.

Talvez nunca tenha visitado Campos do Jordão.

Não importa.

Durante alguns minutos, aquela tela torna-se uma janela.


🪟 Uma janela para junho de 2016

E existe algo ainda mais curioso nisso tudo.

Hoje posso assistir novamente ao vídeo.

Mas não estou simplesmente vendo uma estrada.

Estou olhando através de uma janela temporal.

Do outro lado dela estão:

Juliana.

Formiga.

Eu.

O Pretinho.

Uma estrada.

Um céu azul.

Um determinado conjunto de nuvens que existiu apenas naquele instante.

Um campo iluminado pelo Sol exatamente daquela maneira.

Nenhuma dessas coisas poderá ser reproduzida exatamente igual.

Podemos voltar à mesma estrada.

Podemos passar novamente por Quiririm.

Podemos seguir outra vez para Campos do Jordão.

Mas aquele momento específico aconteceu uma única vez.

E uma câmera estava ligada.


💾 Talvez seja por isso que continuo guardando essas coisas

Quem trabalha com computadores aprende cedo uma regra fundamental:

aquilo que não foi salvo pode desaparecer.

Talvez eu tenha transportado essa filosofia para a vida.

😂

Um vídeo aqui.

Uma fotografia ali.

Um texto no blog.

Uma lembrança.

Um comentário.

Uma pequena história aparentemente sem importância.

São pequenos backups da existência.

Não guardamos apenas grandes acontecimentos.

Guardamos também uma tarde comum.

Uma viagem de carro.

Uma estrada.

Um campo.

Uma criança no banco traseiro.

Uma conversa qualquer.

Porque ninguém sabe qual dessas pequenas coisas será preciosa daqui a dez, vinte ou trinta anos.


☕ Easter egg Bellacosa Mainframe

Se você chegou até aqui esperando encontrar COBOL numa viagem para Campos do Jordão, sinto informar:

encontrou.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. ESTRADA.

       PROCEDURE DIVISION.
           PERFORM UNTIL FIM-DA-VIAGEM
               OBSERVE O-CAMINHO
               RESPIRE O-AR-DO-CAMPO
               GUARDE A-MEMORIA
               ENJOY THE RIDE
           END-PERFORM.

O programa continua executando.

E espero sinceramente que o FIM-DA-VIAGEM ainda esteja muito longe.


🌄 O destino era Campos do Jordão. A lembrança ficou no caminho.

Campos do Jordão nos esperava mais adiante.

Ainda havia serra para subir.

Curvas.

Montanhas.

Passeios.

Comida.

Diversão.

E provavelmente muitas outras pequenas histórias.

Mas este vídeo ficou dedicado àquilo que quase sempre é esquecido:

o trecho entre a partida e a chegada.

Porque viajar não significa simplesmente sair do ponto A e chegar ao ponto B.

Existe todo um mundo entre eles.

Naquele dia, esse mundo tinha campos verdes, céu azul, nuvens brancas, bairros rurais de Taubaté e a Serra da Mantiqueira surgindo lentamente diante do para-brisa.

Enquanto muita gente passava por ali preocupada apenas em chegar logo a Campos do Jordão, este seu aqui estava olhando pela janela.

E resolveu apertar REC.

Talvez justamente para que, muitos anos depois, alguém pudesse apertar PLAY.

Bellacosa Mainframe — porque memória também merece backup.

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Estrada coringa SP123 ou BR383


Um pouco confusa a nomenclatura das estradas... mas esta estradinha é federal então tem prefixo BR, mas também estadual e então ja viu SP tbm...



Aqui neste trecho estamos numa região mais plana, podemos ver os montes e colinas, porem não temos grandes aclives, apenas estrada sinuosa e estreita, bem típica dos anos 50.

Gostoso para curtir um final de semana a grande, boa viagem, boa companhia e bom tempo. Tripice qualidades e o pretinho como sempre se dando bem na estrada.

BR 383 Subindo a serra

Bellacosa Mainframe e as aventuras na estrada BR-383 com Juliana subindo a serra rumo a Campos do Jordão

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🚗 BR-383 — Subindo a Serra com Juliana

10.000 quilômetros de estradas, viagens e memórias entre São Paulo e Minas Gerais

Pequenas crônicas pelas estradas da Região Sudeste do Brasil

Existem viagens que começam quando colocamos as malas no carro. Outras começam muito antes, quando alguém simplesmente pergunta:

— Vamos dar uma volta?


Entre 2013 e 2018, Juliana tornou-se personagem constante de muitos dos pequenos vídeos, fotografias e fragmentos que fui deixando espalhados pelo blog. Ela gostava de dirigir. Eu gostava de descobrir lugares. A combinação era perigosa para o hodômetro.

Foram aproximadamente 10.000 quilômetros rodando juntos, principalmente pelas estradas de São Paulo e Minas Gerais.

Litoral, interior, serras, montanhas, pequenas cidades, grandes rodovias e aquelas estradinhas que pareciam perguntar: “Vocês têm certeza de que querem continuar?”

Quase sempre continuávamos.

Campos do Jordão era uma das aventuras de que Juliana mais gostava. A subida da serra já fazia parte do passeio: curvas, túneis, muretas, paredões, precipícios e a paisagem mudando conforme ganhávamos altitude.

Mas havia também outro ponto importante naquele mapa.

Taubaté.

Mais precisamente Quiririm, onde meu pai morava. Assim, muitas dessas viagens misturavam passeio e família. Visitávamos meu pai e depois continuávamos pela estrada, subindo em direção à Mantiqueira e a Campos do Jordão.

Hoje percebo que aqueles pequenos vídeos não registraram somente rodovias.

Registraram uma época.

Uma câmera apontada através do para-brisa podia estar filmando apenas uma curva da serra. Mas, tantos anos depois, consigo enxergar muito mais naquela imagem.

Consigo lembrar quem estava dirigindo.

Para onde estávamos indo.

Quem encontraríamos pelo caminho.

E principalmente aquela sensação maravilhosa de que ainda havia uma estrada inteira pela frente.

Talvez seja por isso que estou chamando esses registros de Pequenas Crônicas pelas Estradas da Região Sudeste do Brasil.

Não são grandes documentários de viagem.

São fragmentos.

Alguns possuem poucos minutos. Outros são apenas fotografias e algumas linhas escritas às pressas.

Mas, quando colocados novamente em ordem, tornam-se pontos de um mapa muito maior.

Um mapa feito de estradas, cidades, pessoas e memória.

E naquele mapa existe uma Juliana ao volante, um Vagner olhando pela janela e milhares de quilômetros esperando para serem percorridos.

A estrada não era apenas o caminho para a aventura.

A estrada era a aventura.

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Um túnel em meio a serra.


Curioso que o quotidiano nos faz deixar de prestar atenção nas coisas normais, estáticas e acabamos não nos apercebendo das belezas que nos cercam.



Olhar pela janela do carro em movimento, ver a serra a estrada e seus pequenos detalhes. Túneis e muretas, abismos e encostas.

São tantas coisas para apreciar e as vezes viajamos em tão alta velocidade que nem nos apercebemos destes detalhes.



sexta-feira, 25 de março de 2016

Uma libélula na janela

Bellacosa Mainframe e a libelula na janela

Um Café no Bellacosa Mainframe

🪷 Uma Libélula na Janela — Duas Crianças Separadas por Décadas

Às vezes basta uma vidraça, uma libélula e duas crianças curiosas — mesmo que uma delas já tenha crescido há algumas décadas.

Era março de 2016.

Estávamos em Sorocaba, na casa da Daniela e de seu marido, Pedro. Daniela, irmã da Juliana e tia do João, tinha uma característica que sempre achei muito especial: quando podia, inventava algum motivo para reunir a família.

E nem precisava existir motivo.

Não era aniversário.

Não era Natal.

Não era casamento.

Não havia solenidade, discurso ou obrigação.

Era simplesmente:

— Vamos nos encontrar?

E pronto.

Família reunida, comida na mesa, conversa, risadas e algumas horas juntos.

Talvez sejam justamente esses encontros aparentemente sem importância que, muitos anos depois, descobrimos terem sido alguns dos mais importantes.



🍽️ Bacalhau, vinho e sofá

Naquele dia tivemos um delicioso bacalhau.

Comemos, conversamos, rimos bastante e fizemos aquilo que normalmente acontece depois de uma boa refeição familiar: começamos lentamente a escorregar pelo sofá.

Aquela deliciosa preguiça pós-almoço.

Barriga cheia.

Conversa ficando mais lenta.

Corpo procurando a posição perfeita entre sentado e deitado.

Nenhuma aventura parecia programada para aquela tarde.

Até aparecer o Formiga.

João, nosso querido Formiga, tinha encontrado alguma coisa.

Na enorme vidraça que fazia parte da sala havia pousado um inseto diferente.

Ele não sabia exatamente o que era.

E havia aquela mistura maravilhosa que as crianças possuem diante do desconhecido:

receio e curiosidade.

Primeiro olhou de longe.

Depois resolveu chamar alguém para investigar.

E lá fui eu.



🔍 Tio, vem ver isso aqui...

Aproximamo-nos da vidraça.

Olhei para o inseto.

Uma libélula.

Para o Formiga aquilo era novidade.

Para mim, porém, aquela pequena criatura imediatamente abriu uma gaveta que estava fechada havia décadas.

De repente eu não estava apenas naquela sala em Sorocaba.

Uma parte de mim havia voltado para Quiririm.

E o Vagner adulto encontrou novamente o Vaguinho.


🌾 As libélulas da minha infância

Na minha infância em Quiririm, libélulas não eram exatamente uma raridade.

A paisagem ajudava.

Havia plantações de arroz, áreas alagadas, pântanos, riachos e muita água. Era justamente o tipo de ambiente onde esses insetos apareciam com frequência.

Para nós, crianças, faziam parte daquele pequeno universo.

E uma de nossas brincadeiras era tentar capturá-las.

Não existia Google.

Não havia celular.

Não existia aplicativo identificando espécies pela câmera.

A descoberta começava olhando.

Chegando perto.

Observando.

Tentando entender.

Às vezes tentando pegar.

A natureza era simultaneamente nosso playground, laboratório e Discovery Channel.

Enquanto olhava aquela libélula na vidraça de Sorocaba, comecei a contar essas histórias para o Formiga.

E aconteceu algo curioso.

Durante alguns minutos, desapareceram as décadas que nos separavam.

Não havia mais exatamente um adulto ensinando uma criança.

Havia duas crianças investigando uma libélula.

Uma delas apenas estava algumas décadas atrasada no calendário.

📹 Vamos filmar!

Foi quando tive a ideia de pegar a filmadora.

Se havia aprendido alguma coisa ao longo da vida era que momentos aparentemente banais desaparecem depressa demais.

Na época escrevi uma frase no blog:

“Toda oportunidade é única.”

E aquela era uma delas.

Não porque estivesse acontecendo alguma coisa extraordinária.

Justamente pelo contrário.

Era uma tarde absolutamente comum.

Uma família reunida.

Um bacalhau já devidamente devorado.

Adultos espalhados pelos sofás.

Uma criança.

Uma vidraça.

E uma libélula.

Mas a vida é construída principalmente desses momentos.

Então comecei a filmar.

🪷 Um pequeno laboratório na vidraça

Agora tínhamos um espécime para observar.

Começamos a reparar em tudo.

As asas.

O formato do corpo.

Os enormes olhos.

As pernas.

A maneira como permanecia parada.

Depois o voo.

A mudança repentina de direção.

A forma como tentava compreender aquele estranho obstáculo transparente chamado vidro.

Para qualquer outro adulto passando pela sala, provavelmente seria apenas:

— Ah, uma libélula.

Para o Vaguinho e seu parça Formiga, entretanto, aquilo havia se transformado num excelente exemplar para estudo comportamental.

Observávamos.

Comentávamos.

Criávamos hipóteses.

Comparávamos movimentos.

Tentávamos descobrir o que ela faria em seguida.

Era ciência?

Formalmente, claro que não.

Mas ali estava talvez uma das raízes mais importantes da ciência:

a curiosidade.

Antes de existir laboratório, existe uma pergunta.

Antes da resposta, alguém precisa olhar para alguma coisa e pensar:

“Que negócio é esse?”

👦 Vaguinho encontra Formiga

Talvez seja essa a parte da história de que mais gosto hoje.

A libélula conectou duas épocas.

De um lado estava o Formiga, conhecendo aquele inseto.

Do outro estava eu, recordando as libélulas que havia observado quando criança em Quiririm.

O menino diante daquela vidraça em 2016 estava descobrindo.

O menino que eu havia sido décadas antes estava lembrando.

E o adulto no meio dos dois estava tentando preservar aquele encontro.

É engraçado como nossa idade biológica às vezes perde completamente a importância.

Coloque diante de mim uma locomotiva, um aquário, uma máquina antiga, um computador, um inseto estranho ou qualquer mecanismo interessante e existe uma boa possibilidade de o Vagner desaparecer durante alguns minutos.

Quem assume é o Vaguinho.

— Como funciona?

— Por que faz isso?

— Olha aquilo!

— Você viu?

Talvez envelhecer bem tenha alguma relação com conseguir manter essa criança funcionando em algum endereço escondido da memória.

🧠 Curiosidade não deveria ter prazo de validade

Existe uma coisa fantástica nas crianças: elas ainda não aprenderam quais coisas “não são importantes”.

Uma libélula pode ser um acontecimento.

Uma pedra diferente pode parar uma caminhada.

Um besouro pode render quinze minutos de investigação.

Uma locomotiva pode consumir uma tarde inteira.

Adultos tornam-se eficientes demais.

Olham e classificam:

Inseto.

Pronto.

Resolvido.

A criança pergunta:

Que inseto?

Por que essas asas são assim?

Como ele voa?

Onde vive?

Ele morde?

O que come?

Por que veio parar aqui?

E cada resposta produz outras cinco perguntas.

Naquela tarde, resolvi participar do jogo.

🕰️ Dez anos depois...

E aqui está talvez a parte mais interessante de ter registrado tudo.

Em 2016 aquilo parecia apenas um pequeno vídeo.

Uma postagem minúscula no blog.

Um daqueles registros que fazemos quase sem pensar.

Mas os anos passam.

As crianças crescem.

As casas mudam.

As famílias mudam.

As rotinas mudam.

Nós mudamos.

E aquele pequeno arquivo permanece congelado no tempo.

Daniela criando mais um daqueles encontros familiares sem grandes objetivos.

Pedro em sua casa.

Juliana.

João ainda pequeno.

O bacalhau.

As risadas.

O sofá.

A enorme vidraça.

E uma libélula que provavelmente jamais imaginou que acabaria registrada na internet e lembrada uma década depois.

Talvez seja justamente por isso que sempre gostei de fotografar, filmar e escrever.

No momento do registro nunca sabemos realmente o valor futuro de uma memória presente.

🪷 Comunicado oficial da Sociedade Protetora das Libélulas

Antes que algum defensor dos direitos dos insetos abra uma investigação contra o Vaguinho e o Formiga, deixo registrada uma informação fundamental:

nenhuma libélula foi ferida durante a produção desta história.

O espécime foi observado, analisado, admirado e posteriormente liberado para continuar normalmente sua existência.

Ao final da experiência, cada espécie seguiu sua vida.

Os Homo sapiens ficaram com uma história para contar.

E a libélula provavelmente saiu voando enquanto pensava:

“Mas o que raios queriam aqueles dois?”

Nunca saberemos.

☕ O verdadeiro tesouro daquela tarde

Revendo essa pequena história tantos anos depois, percebo que a protagonista talvez nem fosse realmente a libélula.

Era a curiosidade compartilhada.

Eu poderia simplesmente ter dito:

— É uma libélula, Formiga.

E voltado para o sofá.

Assunto encerrado em três segundos.

Mas fomos olhar.

Depois fomos observar.

Depois veio uma história da minha infância.

Depois apareceu a filmadora.

Depois nasceu uma memória.

E dez anos mais tarde aquela memória ainda existe.

Talvez educar uma criança não seja apenas entregar respostas.

Às vezes é simplesmente aceitar o convite quando ela aparece dizendo:

— Vem ver uma coisa!

Levantar do sofá.

Ir até a janela.

Olhar junto.

E demonstrar que o mundo continua sendo um lugar suficientemente interessante para merecer nossa atenção.

Naquela tarde, uma libélula pousou numa vidraça em Sorocaba.

Para a maioria das pessoas seria apenas um inseto.

Para duas crianças curiosas separadas por algumas décadas, porém, havia acabado de chegar uma pequena aula de biologia, comportamento, memória e vida.

O Formiga ganhou uma história sobre o Vaguinho de Quiririm.

O Vaguinho ganhou alguns minutos para voltar à infância.

Eu ganhei uma lembrança.

E a libélula?

Bem...

Ela conseguiu escapar daqueles dois estranhos pesquisadores e provavelmente viveu o restante de sua vida sem jamais compreender como uma simples parada numa janela havia provocado tamanha comoção.

Toda oportunidade é única.

Ainda bem que naquele dia resolvi levantar do sofá.

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Toda a oportunidade é única.


Após um fabuloso bacalhau regado há um bom vinho branco do Minho. Estou sentando no sofá curtindo aquela preguiça das boas.



Quando o formiga em pânico vem correndo em minha Direcção com medo de uma libélula. Dizendo que a professora disse que ela era perigosa.

Levanto pego a filmadora e aqui estou eu, filmando uma aleluinha a tarde. Ela era pequenina e a vidraça deixou ela muito atrapalhada, tentando fugir mas mesmo assim presa em casa.

O registro esta aqui.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

🎄 Taubaté e o final boss Bailinhos, amigo secreto e luz meia-boca

 

Bellacosa Mainframe e o bailinho escolar

🎄 Taubaté e o final boss: Bailinhos, amigo secreto e luz meia-boca

Memórias doces das escolas de Taubaté

Esta é, sem dúvida, uma das lembranças mais doces que carrego de Taubaté. Um conjunto de eventos simples, mas carregados de significado, vividos entre 1983 e 1984 no Quiririm e depois em 1985 e 1986 no Parque Sabará, nas escolas Deputado Cesar Costa e Amador Bueno da Veiga.

Naquele tempo, existia um ritual sagrado de fim de ano. Cada sala, de forma quase autônoma — algo bem stand-alone, sem centralização — escolhia um dia para fazer sua festinha de confraternização. Tinha de tudo: amigo secreto, comes e bebes, musiquinha, risadas e aquele clima de “missão cumprida” por mais um ano letivo finalizado sem abend.





Lembro com carinho da primeira caneta “de adulto” que ganhei da Adriana, ainda na quarta série em 1984 no Deputado Cesar Costa no Quiririm. Para muitos era só uma caneta. Para mim, era quase um upgrade de sistema operacional, um sinal claro de que eu estava subindo de versão.

Os comes e bebes tinham sua própria organização social:
rapazes levavam bebidas, meninas traziam quitutes.
Quando dava, fazíamos uma vaquinha — crowdfunding analógico raiz — para melhorar o cardápio. E, claro, sempre surgia alguém com aquele toca-fitas parrudo estilo boombox, com dois alto-falantes, orgulho tecnológico da época, pronto para animar o bailinho.



No quinto ano, ganhei uma das minhas melhores memórias: a Gisele me ensinando a dançar música lenta. Dois passinhos para lá, um prá cá, corpos colados, mão na cintura e no ombro. Gisele, Gisele, danadinha. Nada de exageros. O som tinha que ficar baixo, porque outras salas ainda estavam em aula. Mesmo assim, era mágico.

Chegávamos mais cedo para preparar a sala:
arrastar cadeiras, empurrar mesas, criar um salão improvisado.
Fechávamos as cortinas para dar aquele escurinho estratégico e íamos ao painel de luzes desligar metade das lâmpadas. Um dimmer manual, na raça.

A professora coordenadora ficava ali, presente, fiscalizando — nosso RACF humano, garantindo que nada saísse do controle. E não saía. Era tudo muito saudável:
o bailinho,
o baile da vassoura,
as risadas,
a confraternização.



Claro que os outros professores apareciam para dar um alozinho, era um dia que as barreiras se quebravam, não existiam professores e alunos, apenas colegas de viagem, que terminaram com sucesso mais uma jornada. O Ômega escolar, vencer o chefe final e avançar para o nível seguinte.

Era a alegria pura de terminar mais um ano, passar de série, estreitar laços, criar histórias. Coisa simples. Coisa de interior nos anos 1980. Mas que rendia causos infinitos:
casalzinhos se formando,
paqueras evoluindo,
a chance de dançar com a mais gata da turma,
a zoação dos que amarelaram na hora H.

Troca de presentes, música baixa, luz meia-boca, coração acelerado.
Nada sofisticado. Nada artificial. Tudo real.



Hoje, muitos nomes se perderam na memória. Mas naquela época, cada colega era parte ativa do meu mundo. E lembrar desses momentos ainda anima o coração, como um job antigo que, quando relido, continua funcionando perfeitamente — sem precisar de manutenção.

Bons tempos. Tempos doces. Tempos que não dão rollback, mas deixam logs eternos na alma.


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Conheça as regras da dança da vassoura:

Momentos divertidos em bailinhos fosse na escola, fosse festas na garagem, onde houvesse um baile e uma pessoa espirituosa com uma vassoura disponivel


Regras da Dança da Vassoura

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/10/danca-da-vassoura.html


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

🥥 Travessuras no Quiririm — As Guerras Territoriais dos Cecapianos

 


🥥 Travessuras no Quiririm — As Guerras Territoriais dos Cecapianos

Crônica ao estilo Bellacosa Mainframe, para o blog El Jefe Midnight Lunch

Existem infâncias que são parques de diversão.
A minha, em 1984, no Quiririm e no recém-criado Fabrilar e no enorme conjunt Cecap, era mais parecida com um tabuleiro de War misturado com Os Goonies.

Cada garoto tinha seu território.
Cada território tinha sua lei.
E cada lei era respeitada como se fosse JCL em produção:
errou, abend imediato.

E assim vivíamos numa espécie de guerra fria infantil, onde nem a ONU ousaria meter o bedelho.


🏘️ Os Três Povos do Vale Encantado

Naquele microcosmo taubateano, existiam três facções principais:



🏰 1. Os Cecapianos

Nascidos nos sobrados brancos, erguidos como fortalezas modernas.
Crianças com trilhas, bosques e quadras como reinos particulares.
Uma sociedade organizada, com líderes tribais, hierarquia e fronteiras bem definidas.

🌽 2. Os Quiririm Raiz

Moradores antigos, herdeiros da tradição italiana e dos quintais cheios de frutas.
Conheciam cada árvore, cada jabuticabeira, cada pedra do caminho.
E defendiam suas áreas com fervor digno de cavalaria medieval.


🏭 3. Os Fabrilarenses

Vindo do recente conjunto habitacional, criado por último, eram considerados os nômades urbanos, os NOVATOS — rápidos, espertos e com fama de brigões.
Para eles, território era motivo de honra.



🎒 A Escola: Nosso Acordo de Paz de Genebra

A EEPG Deputado César Costa era o único campo neutro.
Lá as três facções conviviam como se fosse um servidor compartilhado:

  • Nada de briga

  • Nada de provocações

  • Nada de declarar guerra no recreio

Porque ali, meus amigos, era campo santo.
Lugar onde até os mais valentões viravam alunos comportados.

Mas bastava cruzar o portão para o mundo se dividir de novo em fronteiras invisíveis.


🍒 As Expedições Secretas: Goiabas, Pitangas e Jaboticabas

O ápice das aventuras?
Invasões frutíferas.

Entrar escondido no território do Quiririm para comer jaboticaba era tipo missão impossível:

  • avançar rastejando

  • vigiar os coqueiros

  • fazer reconhecimento de área

  • calcular rota de fuga

  • subir no pé de fruta como quem toma uma torre de castelo

E então, claro…
ser descoberto.

A fuga era cinematográfica:
correria, gritos, galhos arranhando braços, risada nervosa e…
os cascudos ritualísticos quando capturado.
Nada grave.
Era o protocolo diplomático da época.


🌰 Guerras de Coquinhos e Mamonas — Nosso Paintball Pré-histórico

Se hoje a molecada brinca de laser tag, nós tínhamos:

Coquinhos + Bodoques

e

Mamonas + Pontaria treinada

As batalhas eram épicas:

  • Quadra D vs. Quadra B

  • Quadra B vs. Quadra E

  • Quadras unidas vs. Fabrilarenses

  • Quiririm vs. Todo mundo

Os líderes organizavam o ataque:
posições estratégicas atrás de muros, sincronização na contagem regressiva, estilingues preparados.

O impacto dos coquinhos deixava marcas de guerra.
Cicatrizes que hoje viraram memes pessoais.



🚴‍♂️ A Arte de Fugir, Brincar e Crescer

Vivíamos uma liberdade que o mundo moderno nem sonha mais.

  • Correr até perder o fôlego

  • Fugir de perseguições que eram parte do jogo

  • Se esconder atrás de eucaliptos

  • Brincar de pega-pega nos campinhos

  • Jogar taco nas ruas de terra

  • Disputar quem encontrava primeiro um riacho limpo

  • Receber os primeiros beijinhos roubados

E cada dia parecia maior que o anterior.
Dias de verão infinito.
Dias de infância verdadeira.



🌄 Epílogo: O Reino Que Só Criança Enxerga

Crescer no Quiririm, no Cecap, no meio daquela geopolítica infantil, foi viver numa pequena epopeia.

Numa era sem celular, sem internet, sem videogames modernos, a gente tinha:

  • território,

  • aventura,

  • guerra,

  • diplomacia,

  • fuga,

  • risos,

  • e descobertas.

Tudo isso sem que nenhum adulto percebesse a complexidade estratégica envolvida.

Aquela “guerra fria” era na verdade uma das fases mais quentes e doces da vida.

E no fim, todos nós — quiririnenses, cecapianos, fabrilarenses — crescemos juntos, cada um guardando suas histórias como quem guarda o mapa de um tesouro.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Quiririm, 1984 — pedalando para o interior do interior

 Quiririm, 1984 — pedalando para o interior do interior



Nos mudamos do Quiririm e antes de partir, relembro mais algumas memorias,  direto do dataset de memórias carregado em fita magnética.




Algumas memórias de 1984, no Quiririm, voltam com cheiro de terra molhada e barulho de corrente de bicicleta mal lubrificada. Era comum, quase rotina, eu e o Celo montarmos nas bikes e seguirmos estrada afora em direção ao Tataúba e ao Pinheirinho. Não era passeio turístico, era deslocamento raiz, sem capacete, sem GPS, só com coragem, curiosidade e uma noção meio vaga de onde ficava a volta.

Meu pai, seu Wilson, às vezes ia fotografar festas nesses distritos rurais. Batizados, casamentos, quermesses, aniversários simples, mas cheios de significado. A máquina fotográfica era quase um artefato mágico naquele cenário. Fazer amizade era inevitável, e dessas amizades nasciam convites:
“Depois da festa passem lá em casa pra tomar um leite.”

E lá íamos nós.

Era o interior do interior, aquele São Paulo que não aparecia nos livros da escola nem no jornal da televisão. Antigas famílias colonas, gente que vivia da terra, num ritmo completamente diferente do nosso. O tempo ali parecia rodar em outro clock. O dia começava no raiar do sol e terminava quando a luz ia embora, porque em muitos lugares não tinha eletricidade.

Lembro das pescarias, esticando até o Rio Paraíba do Sul, das varas improvisadas, da paciência infinita dos adultos, do silêncio quebrado só pelo vento e pelos insetos. Do leite tirado na hora, morno, direto da vaca. Do cheiro do fogão a lenha, da comida simples e absurda de boa. Da primeira vez que entrei numa privada no meio do mato, experiência antropológica que nenhum manual prepara.

Tinha estrada de terra, poeira no seco, lama na chuva, cercas, pastos, mato alto e uma sensação constante de estar vivendo algo que já estava desaparecendo. Aquilo me lembrava aventuras ainda mais antigas, de Pirassununga, Ibitinga, Novo Horizonte, Urupês Catanduva. Era como revisitar um backup de infância que eu nem sabia que existia.

A vida no campo era pobre e dura. Trabalho pesado, repetitivo, sem descanso, do nascer ao pôr do sol. Nada romantizado. E, nesse cenário, a fotografia do seu Wilson era um luxo raro. Um registro precioso. Um pedaço de memória congelado para presentear parentes, guardar na gaveta, mostrar para quem não pôde ir. Aquela foto era prova de que aquele dia tinha existido.

Eu observava tudo com olhos atentos. Aquilo não era só passeio, era aprendizado. Um São Paulo completamente diferente daquele que eu conhecia, daquele que a escola ensinava, daquele que aparecia nos mapas.

Pedalar até o Tataúba e o Pinheirinho não era apenas ir longe. Era atravessar camadas do tempo, visitar um modo de vida que já naquela época dava sinais de fim. E eu, pequeno operador da própria história, ia armazenando tudo em memória permanente, sem saber que décadas depois estaria aqui, dando RECALL nessas lembranças e rodando esse programa de saudade chamado vida.


domingo, 13 de janeiro de 2013

Mais uma mudança em Taubaté



Mais uma mudança em Taubaté

O CECAP foi um bairro especial. Daqueles locais magicos que ficam na memoria, nos lembrando deste e daquele momento, daqueles famosos e se.


Daqueles que entram em produção e ficam marcados no histórico do sistema para sempre. Foi um ambiente divertido, cheio de rotas alternativas, backdoors naturais e mapas secretos que só a molecada conhecia. Percorremos campos de arroz como se fossem territórios proibidos, atravessamos riachos e lagoas, exploramos trilhas que levavam ao Tataúba e ao Pinheirinho, sempre com aquele sentimento de aventura que hoje não cabe mais no mundo asfaltado.

Tinha a cooperativa da Volkswagen, as idas até Caçapava, as olarias, a barulhenta máquina de descascar arroz cuspindo grãos como se fosse um batch job sem JCL otimizado. Tinha os caquis furtados com técnica ninja, as jabuticabas roubadas em grupo, as iças coletadas em operação coordenada e, acima de tudo, os bons amigos. Companheiros de jornada, de ralada, de riso e de cascudo.



Mas sistemas instáveis sempre geram mudanças inesperadas.

Seu Wilson, inquieto, inconstante, aquele operador que nunca deixa o ambiente estabilizar, arrumou mais uma casa. E lá fomos nós novamente. Shutdown controlado? Nada. Foi power off mesmo.

Estamos agora em 1985.
Novo endereço: Jardim Garcez, no Parque Sabará, ainda em Taubaté, mas do outro lado do mapa. Outro extremo da cidade. Próximo de Tremembé, colado em fazendas, perto do Rio Paraíba do Sul. Um cenário completamente diferente, quase outro datacenter.

Nova casa.
Nova escola.
Novos colegas.

Aquela sensação clássica de quem acabou de dar IPL num sistema desconhecido: tudo parece estranho, os nomes não fazem sentido, os comandos ainda não funcionam direito. A gente observa, testa, mede, erra, aprende. É assim que sempre foi.

O CECAP ficou para trás, arquivado na memória como um dataset histórico, daqueles que você não apaga nunca, mesmo sabendo que não volta mais a usá-lo. As aventuras continuam, mas agora em outro ambiente, com outras regras, outros perigos, outros aliados.

E eu sigo, pequeno operador da própria vida, carregando experiências de um bairro que me ensinou a explorar, a dividir, a sobreviver e a rir. Agora é esperar os próximos eventos, porque se tem uma coisa que aprendi cedo é que, na minha história, a estabilidade nunca dura muito.

Vamos ver o que acontece.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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