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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

🌑 A solidão na estrada, rumo ao adeus

 


🌑 A solidão na estrada, rumo ao adeus

(Por Vagner Bellacosa – Bellacosa Mainframe)

No dia 20 de dezembro de 2021, a morte de meu pai ainda era uma notícia em suspenso, um pressentimento que pairava no ar como um fio de fumaça.


Mas o que realmente me feriu naquele dia não foi a morte em si — foi a reação da pessoa que deveria estar ao meu lado.

Minha namorada, na época, se chateou.
Disse que a perda do meu pai, tão próxima ao aniversário dela, era uma infelicidade, que “estragava a data”, que “marcaria para sempre aquele dia”.
Ouvi, em silêncio, tentando entender como a morte de um pai poderia ser tratada como um contratempo de calendário.
Ali percebi, com uma clareza quase cruel, o quanto estava sozinho — mesmo acompanhado.

Peguei o ônibus, naquela longa viagem rumo ao féretro e encarei os 300 quilômetros entre Campinas e Taubaté. Pensando num ciclo que terminaria ali, o adeus definitivo a Taubaté




A viagem prosseguiu com a alma em pedaços, tentando costurar o pensamento ao som do motor, sentindo o peso invisível da ausência. As inúmeras paradas pelo caminho, o chacoalhar do ônibus, as lembranças das primeiras idas ao Quiririm, ainda na década de 70. Pensando como a vida mudou e algumas coisas ficaram paradas no tempo.

Ao mesmo tempo, procurando não pensar no que ficou em Campinas, em tantos falatorios e por fim, tão pouca ação. Pensei que talvez ela pudesse ter vindo comigo — não por obrigação, mas por reciprocidade.


Afinal, eu mesmo já estivera ao seu lado em despedidas, em enterros de conhecidos dela, em momentos onde só a presença importava.

Mas dessa vez, não.



Dessa vez, era eu, o volante, a estrada e o eco das minhas próprias lembranças.

A cada quilômetro, crescia uma certeza amarga:
em muitas das minhas dores, sempre estive só.
E talvez essa solidão tenha sido o verdadeiro luto que começou naquele dia —
não o da morte do meu pai, mas o da ilusão de companhia.



Cheguei a Taubaté com o coração já em meio luto.
O silêncio da estrada parecia me preparar para o silêncio final que viria no dia seguinte.
Aquela viagem foi, no fundo, o velório antecipado —
do meu pai, da relação, e de uma parte minha que ainda acreditava que amor e presença eram sinônimos.




domingo, 10 de dezembro de 2017

SP 125 Oswaldo Cruz : Saindo de Taubaté

Nossa viagem não para


Estamos saindo de Taubaté e já estamos na rodovia SP 125 Oswaldo Cruz sempre rumo a Ubatuba, curiosamente talvez por estarmos cansados e com fome, nada de excepcional aconteceu.

Todos queremos chegar logo já vão mais de 5 horas no carro, fizemos uma parada em São José dos Campos, mas o corpo e a paciente estão se esgotando.

Por acaso a coisa mais interessante foi o GPS se perder e indicar o meu do mato como se fosse uma pista, incrível por que a SP 125 existe neste trassado há de 50 anos.

Essas empresas picaretas só querem ganhar dinheiro conosco tentando vender atualizações ou mapas bugados, mas fazer o que é sempre assim somos o elo mais fraco destas transações comerciais.

Deixemos de reclamação e vamos olhar a estrada.



terça-feira, 8 de agosto de 2017

SP 125: Taubaté e sua zona de serra

Saindo de Taubaté rumo a Serra do Mar.


As ultimas casas ficaram para trás, o GPS voltou ao normal, vamos passando por chácaras, sítios, fazendas, bosques e florestas a paisagem vai ficando cada vez selvagem, um descanso para os olhos e lá longe vemos a serra do Mar com seu bioma de Mata Atlântica.

Estamos próximos a uma interessante cidade escondida no alto da serra, por hora vamos apreciando a estrada e que em breve publicaremos mais vídeos, o cansaço vai batendo forte nosso amigo Formiguinha dormiu de novo, eu estou quieto apreciando a paisagem que remete a minha infância.

Esta rodovia continua com seu traçado quase original, notem pela sinuosidade de pista, os vários trechos estreitos, estamos ansiosos por chegar, vou parando por aqui, espero que apreciem a vista. Os arredores de Taubaté que outrora abrigou caminhos de mula rumo aos portos do litoral norte, trazendo as riquezas das minas gerais em Minas Gerais e posteriormente o café do vale do Paraíba.



segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SP 125: Passando por Taubaté rumo a Ubatuba

O GPS ficou lelé da cuca.


Cada vez estamos mais próximos de Ubatuba, em nossa aventura a viagem está no trecho entre Taubaté e São Luis do Paraitinga, quando era garota e morava por aqui este bairro era composto por chácaras e sítios, havia poucas casas e agora passado mais de 30 anos, veja como ficou.

Curiosamente neste trecho nosso GPS ficou completamente maluco, provavelmente houve alterações nas estradas e nós não atualizamos nosso mapa virtual. Estamos neste momento na Rodovia Oswaldo Cruz que liga Taubaté até Ubatuba, passando por Redenção da Serra e São Luiz do Paraitinga.

Estamos no trecho inicial agora são faltam 91 quilômetros para chegarmos até Ubatuba, mais para frente faramos uma nova parada que será motivo de novos vídeos, mas voltando a problemas reais, deu a louca no GPS, eita aventura louca, o gps esta falhando, estamos no meio do caminho para Ubatuba, passamos pelos bairros periféricos de Taubaté e o gps doido continua nos mandando para o meio do nada.




sábado, 15 de outubro de 2016

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Bellacosa Mainframe e o primeiro bailinho escolar

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Existem lembranças que sobrevivem ao tempo não pela grandiosidade dos acontecimentos, mas pela delicadeza dos detalhes, sei que já falei antes, mas mesmo assim é uma memoria tão doce, que resolvi reviver, relembrar, colorir um pouco mais.

Uma delas aconteceu em 1986, na saudosa Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, em Taubaté.

Era costume nos anos 1980 que, durante a Semana do Professor e também próximo ao encerramento do ano letivo, as salas organizassem pequenas festas. Os rapazes ajudavam comprando refrigerantes, salgadinhos e doces. As garotas traziam quitutes preparados em casa. A sala era decorada com cartolinas, desenhos e enfeites improvisados. Os professores visitavam cada turma, experimentavam as guloseimas e participavam da confraternização.

Era simples.

Mas para nós parecia um grande evento social.

O ponto alto da festa acontecia quando alguém trazia um rádio ou um toca-fitas. Bastava fechar as cortinas, apagar as luzes e colocar uma música lenta para a mágica começar.

E então surgia a lendária tradição do Baile da Vassoura.

As regras eram implacáveis.

Um rapaz começava dançando com uma vassoura. Quando desejasse, podia oferecer a vassoura para qualquer garoto que estivesse dançando.

E aí vinha a lei máxima da brincadeira:

Não podia recusar.

O escolhido era obrigado a assumir a vassoura.

A segunda regra era igualmente cruel.

Não era permitido voltar para a mesma garota.

Era preciso convidar outra parceira.

Resultado?

Uma confusão divertida de trocas, risadas, provocações e, vez ou outra, algum beijo roubado que se tornava assunto durante semanas.

Mas entre tantas festas, uma ficou gravada para sempre na memória.

Havia uma colega chamada Gisele.

Uma amiga querida.

Daquelas pessoas que iluminavam os ambientes sem perceber.

Em determinado momento da festa, ela veio me chamar para dançar.

Eu, tímido até dizer chega, aproximei-me e confessei quase em segredo:

— Eu não sei dançar.

Qualquer outra pessoa talvez desistisse.

Mas não a Gisele.

Com aquele brilho maroto nos olhos que só algumas garotas possuem, ela simplesmente sorriu e respondeu:

— Não tem problema. Eu ensino.

E me levou mesmo assim para o meio da pista improvisada da sala do Sexto Ano A.

A música tocava baixinho.

As luzes permaneciam apagadas.

E ali ficamos.

Coladinhos.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Nada extraordinário aconteceu.

Não houve beijo cinematográfico.

Não houve declaração de amor.

Não houve final de novela.

Mas houve algo muito mais raro.

A descoberta da ternura.

Aquela sensação boa de alguém pegar sua mão quando você não sabe exatamente o que fazer.

Décadas se passaram.

Muitas pessoas cruzaram meu caminho.

Muitas cidades ficaram para trás.

Muitas histórias foram vividas.

Mas vez ou outra fecho os olhos e volto para aquela sala.

Ouço novamente a música.

Vejo as cortinas fechadas.

Escuto as risadas dos colegas.

E enxergo a doce Gisele me conduzindo pela pista improvisada.

Talvez seja por isso que Taubaté ainda ocupe um espaço tão especial dentro de mim.

Porque a cidade não foi feita apenas de ruas, bicicletas, açudes e aventuras.

Ela também foi feita de momentos pequenos.

Momentos aparentemente insignificantes.

Mas que continuam vivos quarenta anos depois.

E entre todas as lembranças daquele tempo mágico, ainda existe um garoto tímido aprendendo a dançar.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Guiado por uma amiga que jamais imaginaria que aquele gesto simples se transformaria numa das memórias mais doces de toda uma vida.

Ps: Não foi a primeira festa escolar, me recordo das turmas de 1983, 1984 e 1985, mas a Gisele foi unica e a festa de 1986 foi memoravel

Bailinhos escolares

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/10/taubate-e-o-final-boss-bailinhos-amigo.html

domingo, 19 de junho de 2016

SP 70 e seu longo tunel

Bellacosa Mainframe e os tuneis da Carvalho Pinto

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚗 SP-070 e seu longo túnel — Do Fusquinha Vermelho ao Pretinho

Uma viagem pela Carvalho Pinto, os túneis rumo ao Vale do Paraíba, o Pretinho da Juliana e uma buzina que, décadas antes, transformava o Fusquinha vermelho do meu pai numa pequena locomotiva dentro da montanha.

Quando publiquei este pequeno vídeo em 2016, escrevi poucas linhas.

Era apenas mais um daqueles fragmentos de viagem que eu gostava — e continuo gostando — de guardar.

Estávamos percorrendo a SP-070, Rodovia Governador Carvalho Pinto, seguindo em direção ao Vale do Paraíba. No volante estava Juliana e conosco estava seu famoso Pretinho, o Ford New Fiesta 2013 que durante anos nos levou para mil e uma aventuras.

Naquele momento, entretanto, minha preocupação cinematográfica era bastante simples:

Quero gravar o barulho do motor dentro do túnel.

Naturalmente, o vento resolveu participar da produção e praticamente destruiu minha sofisticadíssima engenharia de áudio.

😂

Mas hoje, dez anos depois daquela publicação, percebo que existe muito mais dentro desse pequeno vídeo.

Porque atravessar aqueles túneis também significa atravessar várias décadas das minhas próprias memórias.


🛣️ Antes da Carvalho Pinto existia outro Vale do Paraíba

Para minhas memórias pessoais, a SP-070 é uma estrada relativamente nova.

Quando eu era garoto, durante os anos 1970 e 1980, viajar para o Vale do Paraíba significava conhecer outro mapa rodoviário.

Íamos visitar meus tios Santiago e Deise e meus primos Andreia e Marcelo.

E havia basicamente dois mundos possíveis.

Um deles era a famosa — e naquela época bastante temida — Via Dutra.

O outro era formado pelas estradas antigas que atravessavam as cidades do Vale.

Entre elas estava a SP-066, uma daquelas rotas que faziam a viagem parecer muito menos uma ligação entre dois pontos e muito mais uma sucessão de pequenas descobertas.

Cidade.

Estrada.

Outra cidade.

Curva.

Comércio.

Posto.

Igreja.

Casas.

Mais estrada.

Hoje entramos numa rodovia expressa e pensamos principalmente no destino.

Naquelas viagens, entretanto, a própria estrada fazia parte da aventura.



🚗 E naturalmente havia o Fusquinha vermelho

Quem acompanha estas histórias já conhece outro personagem recorrente do Bellacosa Mainframe.

O velho Fusquinha vermelho do meu pai.

Aquele Volkswagen não era apenas um automóvel.

Era praticamente nosso módulo de transporte familiar.

E meu pai possuía alguns algoritmos próprios de economia de combustível.

Um deles provavelmente faria qualquer instrutor moderno de direção defensiva arrancar os poucos cabelos restantes da cabeça:

nas descidas, colocava o Fusquinha na banguela.

😱

O motor diminuía o giro.

O carro descia embalado.

E dentro daquele Fusquinha estava uma família inteira acreditando que aquilo fazia parte da mais avançada tecnologia automobilística disponível.

Era outra época.


📯 Então aparecia um túnel

E túnel possuía uma regra.

Não uma regra escrita.

Muito menos uma regra do Código de Trânsito.

Era uma espécie de protocolo distribuído entre motoristas brasileiros:

ENTROU NO TÚNEL?

BUZINA!

Meu pai afundava o dedo na buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

O som batia nas paredes.

Voltava.

Multiplicava-se.

E imediatamente outros motoristas percebiam o chamado.

FÓÓÓM!

FOM-FOM!

FÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Em poucos segundos o túnel inteiro transformava-se numa sinfonia absolutamente caótica de buzinas.

Ninguém havia combinado nada.

Não existia WhatsApp.

Não existia grupo de motoristas.

Não havia aplicativo.

Bastava alguém buzinar.

Outro respondia.

Depois outro.

Era praticamente um protocolo de comunicação veicular analógico.

TCP/IP?

Nada disso.

TÚNEL/IP.

🤣



🔊 O túnel era nosso amplificador

Para uma criança aquilo era fantástico.

A buzina que normalmente produzia um som relativamente banal de repente parecia gigantesca.

O túnel funcionava como uma enorme caixa acústica.

O som refletia nas paredes, no teto e no pavimento e retornava aos nossos ouvidos.

Talvez ninguém dentro daqueles carros estivesse pensando em acústica, reflexão de ondas ou reverberação.

Nós simplesmente sabíamos uma coisa:

dentro do túnel a buzina ficava muito mais legal.

E isso bastava.



🛣️ Então chegou a Carvalho Pinto

Décadas depois, o mapa mudou.

Durante os anos 1990 surgiu a Rodovia Governador Carvalho Pinto.

Uma estrada moderna, larga, planejada como via expressa e conectada à Ayrton Senna, antigamente conhecida como Rodovia dos Trabalhadores, mas após o acidente com nosso querido piloto de Formula 1 foi rebatizada.

Para quem havia conhecido as antigas viagens pelo Vale do Paraíba, aquilo representava uma transformação gigantesca.

A Carvalho Pinto criou uma nova alternativa à congestionada Via Dutra.

De repente o Vale parecia diferente.

São José dos Campos.

Taubaté.

Quiririm.

E, seguindo adiante, nosso destino naquela aventura:

🏔️ Campos do Jordão.

Mas existe uma coisa curiosa sobre estradas.

Podemos construir novas pistas.

Novos viadutos.

Novos túneis.

Novos sistemas de segurança.

Mas não conseguimos construir uma estrada sem que nossas antigas estradas apareçam dentro dela.


🚘 Agora quem dirigia era Juliana

E chegamos novamente ao pequeno vídeo de 2016.

Desta vez não havia Fusquinha vermelho.

Havia o Pretinho.

O Ford New Fiesta 2013 da Juliana.

E quem estava ao volante também não era meu pai.

Era ela.

O Pretinho acabou tornando-se outro personagem das nossas histórias.

Campos do Jordão.

Taubaté.

Quiririm.

Piracicaba.

Passeios.

Estradas.

Finais de semana.

Pequenas viagens que talvez naquele momento parecessem absolutamente comuns, mas que hoje constituem uma espécie de arquivo distribuído das nossas vidas.

E naquele dia estávamos novamente entrando em um túnel.


🎥 “Vou gravar o ronco do motor!”

Minha ideia parecia excelente.

O carro entra no túnel.

O motor produz aquele ronco.

As paredes refletem o som.

Bellacosa registra tudo para a posteridade.

Hollywood poderia começar a ficar preocupada.

Só havia um pequeno problema.

O vento.

😂

O microfone da câmera captou muito mais vento do que motor.

Minha sofisticada produção audiovisual transformou-se praticamente num teste aerodinâmico.

Mas o vídeo permaneceu.

E ainda bem.

Porque dez anos depois percebo que o verdadeiro áudio daquela gravação não estava no microfone.

Estava na minha memória.


📯 Faltava uma buzina

Ao atravessar aquele túnel moderno da Carvalho Pinto, alguma parte do cérebro inevitavelmente voltava para décadas antes.

Para o Fusquinha vermelho.

Para meu pai.

Para aquelas viagens familiares.

E principalmente para aquela mão descendo sobre a buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Hoje aquele comportamento não combina exatamente com as regras modernas de trânsito.

O Código de Trânsito permite essencialmente o toque breve da buzina como advertência. Usá-la prolongada e sucessivamente simplesmente para produzir uma sinfonia dentro do túnel pode resultar em infração.

Portanto:

crianças, não reproduzam o experimento do velho Bellacosa. 😂

Mas existe uma diferença importante entre repetir uma prática antiga e preservar sua memória.

E aquela memória merece continuar existindo.


🕰️ Duas estradas, dois carros, duas épocas

Talvez seja isso que mais me fascine neste pequeno vídeo.

Na superfície temos simplesmente:

um Ford entrando num túnel.

Mas quando faço um DISPLAY MEMORY, aparece outra coisa.

Anos 1970/80

🚗 Fusquinha vermelho
👨 Meu pai dirigindo
🛣️ Dutra e velhas estradas do Vale
📯 Buzina dentro do túnel
👨‍👩‍👧‍👦 Família viajando

Depois:

2016

🚘 Ford New Fiesta 2013 — o Pretinho
👩 Juliana dirigindo
🛣️ Carvalho Pinto
🏔️ Destino: Campos do Jordão
📍 Taubaté e Quiririm pelo caminho
🎥 Bellacosa tentando gravar o ronco do motor

Os equipamentos mudaram.

As estradas mudaram.

Os carros mudaram.

Os motoristas mudaram.

Mas existe uma linha invisível ligando as duas viagens.


💾 Talvez seja para isso que servem esses pequenos vídeos

Quando gravei aquilo, certamente não estava pensando:

“Estou produzindo um documento histórico para meu eu do futuro.”

Eu estava apenas filmando uma viagem.

Mas talvez seja justamente assim que construímos nossos arquivos mais importantes.

Sem perceber.

Uma fotografia.

Trinta segundos de vídeo.

Um carro passando.

Uma pessoa rindo.

Uma estrada.

Um túnel.

Naquele momento parece banal.

Dez anos depois é memória.

Trinta anos depois talvez seja história.


🥚 Easter egg — o verdadeiro túnel não estava na Carvalho Pinto

Talvez exista ainda outro túnel escondido nesta história.

Não aquele feito de concreto atravessando uma montanha.

Mas aquele existente dentro da memória.

Em 2016, o Pretinho entrou no túnel da Carvalho Pinto.

Por alguns segundos tudo ficou escuro.

Depois apareceu novamente a luz na saída.

Mas dentro da minha cabeça outro veículo entrou junto.

Um pequeno Fusquinha vermelho.

Meu pai estava ao volante.

Nós estávamos novamente indo visitar Santiago, Deise, Andreia e Marcelo.

E justamente quando os dois carros — separados por décadas — pareciam ocupar o mesmo túnel...

meu pai colocou o dedo na buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Talvez o eco que eu estivesse tentando gravar em 2016 já estivesse reverberando havia quarenta anos.

Bellacosa Mainframe

Algumas estradas levam até uma cidade.

Outras levam de volta para casa.

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Indo para Taubate pela Carvalho Pinto.


Para aqueles que curtem viajar... não existe prazer maior que entrar num túnel. Eu ainda sou da época em que a rapaziada buzinava só para fazer eco.

Este túnel moderno e longo na SP 70 torna a viagem mais divertida, pois permite visualizar coisas diferentes entrando no coração da montanha.



Pena que o audio ficou horrível, mas queria ter gravado o som dos motores no túnel e no fim foi apenas o vento.

sábado, 18 de junho de 2016

BR 383 de Quiririm ate Campos do Jordao

Bellacosa Mainframe passando pela br 383

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚗 BR-383 — De Quiririm até Campos do Jordão: uma janela para a estrada

Juliana no volante, Formiga no banco de trás, o Pretinho apontado para a Mantiqueira e este seu aqui fazendo aquilo que sabe fazer muito bem: olhar pela janela.

Mais uma vez estávamos nós três.

Eu, Juliana e Formiga.

E, naturalmente, havia um quarto integrante nessa pequena expedição familiar: o famoso Pretinho, nosso New Fiesta, novamente cumprindo sua missão de nos carregar para algum lugar onde pudéssemos simplesmente passear, descobrir coisas e nos divertir.

O destino daquela vez era Campos do Jordão.

Mas quem acompanha nossas aventuras sabe que, muitas vezes, o destino é apenas uma desculpa.

A verdadeira viagem acontece no caminho.



🛣️ Saindo da SP-123

Em determinado momento da viagem, deixamos o trecho da SP-123 e seguimos pela região da BR-383, avançando pelo município de Taubaté antes de começar efetivamente a ganhar a Serra da Mantiqueira.

Ao redor aparecem nomes conhecidos da zona rural e dos arredores de Taubaté:

Quiririm, Tataúba, Pinheirinho...

Pequenos bairros, propriedades, estradas vicinais e pedaços daquele interior paulista que normalmente vemos apenas durante alguns segundos pela janela.

Para muita gente aquilo é simplesmente:

"o caminho para Campos do Jordão."

Para mim, não.

Eu gosto de olhar.



🌾 Antes da serra existe o campo

Campos do Jordão normalmente rouba toda a atenção.

Quando alguém anuncia que está indo para lá, imediatamente pensamos em montanhas, araucárias, frio, chocolate quente, restaurantes, casacos e naquela arquitetura turística tão característica da cidade.

Mas existe uma transformação muito interessante antes de chegar lá.

A paisagem vai mudando.

O terreno ainda relativamente aberto começa a apresentar as montanhas no horizonte.

As pequenas elevações tornam-se maiores.

A estrada começa a serpentear.

E aquela enorme parede natural da Serra da Mantiqueira parece aproximar-se lentamente do carro.

É quase como se a natureza estivesse avisando:

"Daqui para frente, começamos a subir."



👀 Uma pequena terapia para quem vive diante de monitores

Talvez por trabalhar tanto tempo diante de computadores eu tenha desenvolvido uma relação especial com essas paisagens.

Passamos horas olhando para monitores.

Código.

Planilhas.

Documentação.

Terminais.

Janelas.

Mensagens.

Mais janelas.

Mais código.

Mais telas.

Depois de algumas horas, nosso universo inteiro parece ter sido reduzido a algumas dezenas de polegadas.

Então você entra num carro, pega uma estrada e olha pela janela.

De repente, a resolução é infinita.

Não existe pixel.

Não existe refresh rate.

Não existe placa de vídeo.

Existe simplesmente o mundo.

🌿 O verde dos campos.

☁️ As nuvens atravessando lentamente o céu.

🌤️ O azul acima da estrada.

🌳 As árvores.

⛰️ As montanhas aparecendo no horizonte.

E aquela estrada estreita seguindo em direção à serra.

É curioso pensar que nossos olhos foram construídos para enxergar tudo isso e nós os condenamos durante boa parte do dia a olhar para um retângulo luminoso a menos de um metro de distância.


🌬️ E existe uma coisa que o vídeo não consegue gravar

O ar.

Essa é uma das limitações de qualquer registro audiovisual.

Eu consigo guardar a imagem.

Consigo registrar a estrada.

Consigo capturar um pouco do movimento.

Talvez consiga preservar os sons.

Mas ainda não inventaram um botão no YouTube que permita apertar:

[ REPRODUZIR CHEIRO DO CAMPO ]

😄

Porque parte daquela experiência estava justamente ali.

Abrir um pouco a janela e aspirar aquele delicioso ar do interior.

O cheiro da vegetação.

Da terra.

Do campo.

A mudança de temperatura conforme nos aproximávamos da serra.

São informações que a câmera simplesmente não consegue armazenar.

Por enquanto.


🚗 Um vídeo sem compromisso

E talvez seja justamente isso que eu mais goste desse pequeno vídeo.

Ele não pretende ensinar nada.

Não é documentário.

Não é guia turístico.

Não é avaliação da estrada.

Não é review do carro.

Não existe roteiro.

Não existe apresentador gritando para segurar audiência.

É simplesmente a estrada.

Um pequeno fragmento de tempo capturado durante uma viagem familiar.

Eu, Juliana e Formiga seguindo tranquilamente rumo a Campos do Jordão.

O Pretinho avançando pela estrada.

A Serra da Mantiqueira crescendo diante de nós.

E a câmera registrando aquilo que meus olhos estavam vendo.

Só isso.

E isso já era suficiente.


🏃 O mundo está sempre com pressa

Talvez seja uma das coisas que mais percebo quando viajo.

As pessoas estão sempre tentando chegar.

Chegar ao hotel.

Chegar ao restaurante.

Chegar ao parque.

Chegar à atração turística.

Chegar ao próximo compromisso.

Chegar, chegar, chegar.

E nessa obsessão pelo destino, deixam passar justamente aquilo que existe entre dois pontos.

O caminho.

Uma árvore diferente.

Uma montanha.

Uma pequena cidade.

Uma placa com um nome curioso.

Uma propriedade rural.

Um riacho.

Uma igreja perdida no meio do campo.

Uma nuvem enorme.

Uma estrada bonita.

Nada disso estava no roteiro.

Portanto, para muita gente, aparentemente não merece atenção.

Mas este seu aqui sempre teve um pequeno problema:

eu olho.

😂


📹 Então eu aperto REC

Talvez alguém que estivesse conosco perguntasse:

— Mas você está filmando o quê?

E a resposta seria extremamente simples:

A estrada.

— Mas está acontecendo alguma coisa?

Sim.

Estamos viajando.

Estamos vendo o campo.

Estamos juntos.

Estamos indo para algum lugar.

Estamos vivos.

Precisaria acontecer mais alguma coisa?

A câmera não precisa estar ligada somente quando existe uma cachoeira monumental, um acidente, uma festa ou uma atração turística famosa diante dela.

Às vezes vale a pena registrar justamente o ordinário.

Porque existe uma enorme possibilidade de que aquilo que hoje parece ordinário seja justamente o que amanhã despertará nossa memória.


❄️ Sempre imaginei alguém assistindo isso no inverno

Existe ainda outra razão pela qual gosto de deixar esses pequenos vídeos disponíveis.

Às vezes imagino uma pessoa muitos quilômetros distante dali.

Talvez durante um inverno rigoroso.

Presa dentro de casa.

Lá fora está frio.

Talvez esteja chovendo.

Talvez nevando.

O céu está cinza.

As árvores perderam as folhas.

A pessoa abre o computador, entra no YouTube e, por algum daqueles mistérios dos algoritmos, encontra um pequeno vídeo perdido:

BR-383 — de Quiririm até Campos do Jordão.

Clica.

E durante alguns minutos aparece diante dela uma estrada brasileira.

🌿 Campos verdes.

☀️ Sol.

☁️ Nuvens brancas.

🌳 Vegetação.

🚗 Uma estrada seguindo tranquilamente pelo interior de São Paulo.

Talvez essa pessoa nunca tenha ouvido falar de Quiririm.

Talvez não saiba onde fica Taubaté.

Muito menos Pinheirinho ou Tataúba.

Talvez nunca tenha visitado Campos do Jordão.

Não importa.

Durante alguns minutos, aquela tela torna-se uma janela.


🪟 Uma janela para junho de 2016

E existe algo ainda mais curioso nisso tudo.

Hoje posso assistir novamente ao vídeo.

Mas não estou simplesmente vendo uma estrada.

Estou olhando através de uma janela temporal.

Do outro lado dela estão:

Juliana.

Formiga.

Eu.

O Pretinho.

Uma estrada.

Um céu azul.

Um determinado conjunto de nuvens que existiu apenas naquele instante.

Um campo iluminado pelo Sol exatamente daquela maneira.

Nenhuma dessas coisas poderá ser reproduzida exatamente igual.

Podemos voltar à mesma estrada.

Podemos passar novamente por Quiririm.

Podemos seguir outra vez para Campos do Jordão.

Mas aquele momento específico aconteceu uma única vez.

E uma câmera estava ligada.


💾 Talvez seja por isso que continuo guardando essas coisas

Quem trabalha com computadores aprende cedo uma regra fundamental:

aquilo que não foi salvo pode desaparecer.

Talvez eu tenha transportado essa filosofia para a vida.

😂

Um vídeo aqui.

Uma fotografia ali.

Um texto no blog.

Uma lembrança.

Um comentário.

Uma pequena história aparentemente sem importância.

São pequenos backups da existência.

Não guardamos apenas grandes acontecimentos.

Guardamos também uma tarde comum.

Uma viagem de carro.

Uma estrada.

Um campo.

Uma criança no banco traseiro.

Uma conversa qualquer.

Porque ninguém sabe qual dessas pequenas coisas será preciosa daqui a dez, vinte ou trinta anos.


☕ Easter egg Bellacosa Mainframe

Se você chegou até aqui esperando encontrar COBOL numa viagem para Campos do Jordão, sinto informar:

encontrou.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. ESTRADA.

       PROCEDURE DIVISION.
           PERFORM UNTIL FIM-DA-VIAGEM
               OBSERVE O-CAMINHO
               RESPIRE O-AR-DO-CAMPO
               GUARDE A-MEMORIA
               ENJOY THE RIDE
           END-PERFORM.

O programa continua executando.

E espero sinceramente que o FIM-DA-VIAGEM ainda esteja muito longe.


🌄 O destino era Campos do Jordão. A lembrança ficou no caminho.

Campos do Jordão nos esperava mais adiante.

Ainda havia serra para subir.

Curvas.

Montanhas.

Passeios.

Comida.

Diversão.

E provavelmente muitas outras pequenas histórias.

Mas este vídeo ficou dedicado àquilo que quase sempre é esquecido:

o trecho entre a partida e a chegada.

Porque viajar não significa simplesmente sair do ponto A e chegar ao ponto B.

Existe todo um mundo entre eles.

Naquele dia, esse mundo tinha campos verdes, céu azul, nuvens brancas, bairros rurais de Taubaté e a Serra da Mantiqueira surgindo lentamente diante do para-brisa.

Enquanto muita gente passava por ali preocupada apenas em chegar logo a Campos do Jordão, este seu aqui estava olhando pela janela.

E resolveu apertar REC.

Talvez justamente para que, muitos anos depois, alguém pudesse apertar PLAY.

Bellacosa Mainframe — porque memória também merece backup.

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Estrada coringa SP123 ou BR383


Um pouco confusa a nomenclatura das estradas... mas esta estradinha é federal então tem prefixo BR, mas também estadual e então ja viu SP tbm...



Aqui neste trecho estamos numa região mais plana, podemos ver os montes e colinas, porem não temos grandes aclives, apenas estrada sinuosa e estreita, bem típica dos anos 50.

Gostoso para curtir um final de semana a grande, boa viagem, boa companhia e bom tempo. Tripice qualidades e o pretinho como sempre se dando bem na estrada.

BR 383 Subindo a serra

Bellacosa Mainframe e as aventuras na estrada BR-383 com Juliana subindo a serra rumo a Campos do Jordão

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🚗 BR-383 — Subindo a Serra com Juliana

10.000 quilômetros de estradas, viagens e memórias entre São Paulo e Minas Gerais

Pequenas crônicas pelas estradas da Região Sudeste do Brasil

Existem viagens que começam quando colocamos as malas no carro. Outras começam muito antes, quando alguém simplesmente pergunta:

— Vamos dar uma volta?


Entre 2013 e 2018, Juliana tornou-se personagem constante de muitos dos pequenos vídeos, fotografias e fragmentos que fui deixando espalhados pelo blog. Ela gostava de dirigir. Eu gostava de descobrir lugares. A combinação era perigosa para o hodômetro.

Foram aproximadamente 10.000 quilômetros rodando juntos, principalmente pelas estradas de São Paulo e Minas Gerais.

Litoral, interior, serras, montanhas, pequenas cidades, grandes rodovias e aquelas estradinhas que pareciam perguntar: “Vocês têm certeza de que querem continuar?”

Quase sempre continuávamos.

Campos do Jordão era uma das aventuras de que Juliana mais gostava. A subida da serra já fazia parte do passeio: curvas, túneis, muretas, paredões, precipícios e a paisagem mudando conforme ganhávamos altitude.

Mas havia também outro ponto importante naquele mapa.

Taubaté.

Mais precisamente Quiririm, onde meu pai morava. Assim, muitas dessas viagens misturavam passeio e família. Visitávamos meu pai e depois continuávamos pela estrada, subindo em direção à Mantiqueira e a Campos do Jordão.

Hoje percebo que aqueles pequenos vídeos não registraram somente rodovias.

Registraram uma época.

Uma câmera apontada através do para-brisa podia estar filmando apenas uma curva da serra. Mas, tantos anos depois, consigo enxergar muito mais naquela imagem.

Consigo lembrar quem estava dirigindo.

Para onde estávamos indo.

Quem encontraríamos pelo caminho.

E principalmente aquela sensação maravilhosa de que ainda havia uma estrada inteira pela frente.

Talvez seja por isso que estou chamando esses registros de Pequenas Crônicas pelas Estradas da Região Sudeste do Brasil.

Não são grandes documentários de viagem.

São fragmentos.

Alguns possuem poucos minutos. Outros são apenas fotografias e algumas linhas escritas às pressas.

Mas, quando colocados novamente em ordem, tornam-se pontos de um mapa muito maior.

Um mapa feito de estradas, cidades, pessoas e memória.

E naquele mapa existe uma Juliana ao volante, um Vagner olhando pela janela e milhares de quilômetros esperando para serem percorridos.

A estrada não era apenas o caminho para a aventura.

A estrada era a aventura.

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Um túnel em meio a serra.


Curioso que o quotidiano nos faz deixar de prestar atenção nas coisas normais, estáticas e acabamos não nos apercebendo das belezas que nos cercam.



Olhar pela janela do carro em movimento, ver a serra a estrada e seus pequenos detalhes. Túneis e muretas, abismos e encostas.

São tantas coisas para apreciar e as vezes viajamos em tão alta velocidade que nem nos apercebemos destes detalhes.



domingo, 1 de novembro de 2015

☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e as loucas historias do seu Luis


☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

Se existe uma coisa que as gerações atuais perderam sem perceber, foi a figura do contador de histórias do bairro.

Hoje temos streaming.

Temos YouTube.

Temos TikTok.

Temos inteligência artificial.

Mas nos anos 1980, no Jardim Garcez, em Taubaté, tínhamos algo muito mais poderoso:

Seu Luís.

Funcionário da prefeitura durante o dia.

Guardião da cultura popular durante a noite.

Morava na Rua 9, próximo de casa.

Um senhor simples.

Já de idade.

Mas dono de um dos maiores bancos de dados narrativos que já conheci.

Quando o sol desaparecia atrás da Serra da Mantiqueira e a noite tomava conta do bairro, começava um ritual quase sagrado.

A gurizada se reunia em frente ao portão de sua casa.

Sentávamos na calçada.

Alguns no meio-fio.

Outros encostados no muro.

Esperando.

E então o velho mestre iniciava mais uma sessão.

Sem televisão.

Sem projetor.

Sem computador.

Apenas voz, imaginação e talento.

Era melhor que qualquer streaming.

Seu Luís possuía centenas de histórias.

Talvez milhares.

Algumas certamente inventadas por ele.

Outras herdadas de seus pais.

Outras dos avós.

Outras dos bisavós.

Narrativas que atravessaram gerações até desembarcar naquela rua de terra do Parque Sabará.

Pedro Malasarte era presença constante.

E que figura extraordinária ele se tornava nas mãos do velho contador.

Ora enganava reis.

Ora enganava demônios.

Ora fugia de monstros.

Ora encontrava tesouros escondidos.

Mas não era só Pedro Malasarte.

Havia princesas aprisionadas em castelos.

Cavalos alados cruzando os céus.

Rainhas encantadas.

Monstros escondidos em matas escuras.

Bruxas vivendo em casebres de pau a pique no meio do sertão.

E fantasmas.

Muitos fantasmas.

A quantidade de assombrações que habitava aquelas histórias era suficiente para transformar qualquer ida ao banheiro durante a madrugada numa missão de alto risco.

Lembro de fragmentos.

Pequenos pedaços preservados no backup da memória.

O velho cão negro.

Que, segundo a lenda, não era um cachorro comum.

Era o próprio demo vagando pelas estradas.

Havia também a história do cavalo alado.

Uma jornada impossível.

Uma viagem onde o herói precisava alimentar a criatura com pedaços de carne durante o percurso.

Caso contrário, o animal o abandonaria entre monstros e assombrações.

Tinha a famosa sopa da pedra.

As serpentes falantes.

Os passarinhos encantados.

As bruxas.

As maldições.

As profecias.

E a magnífica Rainha Águia.

Uma criatura fantástica que protegia viajantes perdidos e os guiava para casa.

Tudo contado de forma tão vívida que era impossível não acreditar.

Pelo menos por algumas horas.

O problema surgia depois.

Na hora de dormir.

Qualquer estalo na janela.

Qualquer sombra no corredor.

Qualquer rangido da madeira.

Pronto.

Lá estava o pequeno Vagner de olhos arregalados imaginando que alguma das criaturas das histórias havia decidido fazer uma visita.

E isso era maravilhoso.

Porque as histórias cumpriam exatamente sua função.

Faziam sonhar.

Faziam imaginar.

Faziam sentir medo.

Faziam rir.

Faziam viver aventuras sem sair da calçada.

Enquanto isso, Seu Luís seguia sua performance.

Molhando o bico com uma aguardente artesanal.

Tomando um gole aqui.

Outro ali.

E aumentando gradativamente o nível de insanidade das narrativas.

Quanto mais avançava a noite, mais fantásticas ficavam as aventuras.

Era como assistir a um sistema entrando em modo turbo.

Os monstros cresciam.

Os castelos ficavam maiores.

As bruxas mais poderosas.

Os fantasmas mais assustadores.

E nós, os pequenos onis do Jardim Garcez, permanecíamos hipnotizados.

Hoje percebo que Seu Luís era muito mais do que um contador de histórias.

Ele era um arquivo vivo.

Um servidor humano de memórias.

Um preservador da tradição oral.

Um homem simples que carregava séculos de cultura popular dentro da cabeça.

Muitas dessas histórias morreram com ele.

Outras sobreviveram apenas em fragmentos.

Mas algumas ainda vivem.

Espalhadas pelas lembranças dos garotos que um dia sentaram naquela calçada.

Esperando ansiosamente pela próxima aventura.

E talvez seja justamente por isso que ainda me lembro dele.

Porque existem pessoas que passam pela nossa vida.

E existem pessoas que ajudam a construir nossa imaginação.

Seu Luís pertence à segunda categoria.

E suspeito que boa parte do escritor, sonhador, contador de causos e aventureiro que existe em mim tenha nascido ali.

Sentado numa calçada de Taubaté.

Ouvindo um velho contador de histórias transformar uma rua comum em um reino encantado.


domingo, 5 de abril de 2015

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

 

Bellacosa Mainframe e a liberdade de andar de bicicleta por Taubate

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

Existem cidades onde moramos.

E existem cidades que moram dentro de nós.

Taubaté é uma delas.

Em 1985, após mais uma mudança daquelas que pareciam rotina na família Bellacosa, desembarquei no Jardim Garcez, no Parque Sabará. Eu tinha pouco mais de dez anos e não fazia ideia de que estava entrando em um dos períodos mais felizes de toda a minha vida.

A casa ficava na Rua 9, número 51.

Hoje é apenas um endereço.

Mas para mim foi um portal.

Ali começava um mundo novo.

O bairro ainda era jovem. Muitas ruas eram de terra. Havia terrenos vazios, campos de futebol improvisados, mato, riachos, pastos e uma sensação constante de que tudo ainda estava sendo descoberto.

O fim da cidade parecia também o começo da aventura.

Próximo de casa existia um pasto. Cortando caminho por ele, chegávamos a um estábulo onde comprávamos leite fresco. Coisa simples, comum para quem viveu aquela época, mas que hoje parece cena de filme.

Lembro do cheiro da terra molhada.

Das minas d'água.

Das bicas onde bebíamos água gelada sem medo.

Dos riachos onde eu procurava peixinhos para aquário.

Dos enormes açudes onde mergulhávamos sem pensar muito nas consequências e saíamos cobertos de lodo até as orelhas.

Era uma infância em contato direto com a natureza.

Claro que existiam perigos.

Cobras.

Aranhas.

Buracos.

Espinhos.

Mas o sentimento predominante era outro:

Liberdade.

Uma palavra que talvez as gerações atuais tenham dificuldade de compreender em toda sua dimensão.

Nós saíamos de manhã.

Voltávamos quando o sol começava a desaparecer.

Sem celular.

Sem GPS.

Sem aplicativo de localização.

Sem ninguém monitorando cada passo.

O mundo era nosso.

E nós pertencíamos ao mundo.

Foi também em Taubaté que a bicicleta deixou de ser brinquedo para virar extensão do meu corpo.

Minha velha Monareta me levava para todos os lugares.

E quando digo todos, não estou exagerando.

Pedalava por bairros inteiros.

Explorava ruas desconhecidas.

Atravessava regiões que para mim pareciam outros países.

Taubaté era gigantesca aos olhos de um garoto.

Cada bairro escondia um mistério.

Cada rua levava a uma nova descoberta.

Cada esquina tinha potencial para virar uma aventura.

E havia também os livros.

Ah, a Biblioteca Municipal de Taubaté...

Ali encontrei centenas de mundos.

Enquanto alguns exploravam florestas, eu explorava estantes.

Enquanto alguns caçavam tesouros, eu encontrava civilizações inteiras dentro das páginas.

Aquele lugar ajudou a formar quem sou.

Muitas das viagens que fiz no futuro começaram primeiro dentro daqueles livros.

Mas Taubaté não era feita apenas de lugares.

Era feita de pessoas.

Amigos.

Colegas.

Paqueras.

Primeiros amores.

Primeiros beijos.

Primeiras decepções.

Primeiras descobertas sobre o coração humano.

Hoje conto algumas dessas histórias e já imagino alguém pensando:

— Ah, lá vem o tiozão inventando moda...

Mas não.

Foram tempos mágicos.

Tempos em que tudo parecia possível.

Tempos em que o mundo ainda possuía aquele brilho especial que só existe entre a infância e a adolescência.

Houve também a escola.

A lendária Amador Bueno da Veiga.

As fugas estratégicas da educação física.

As brincadeiras.

As bagunças.

Os bailinhos escolares.

As amizades.

As lendas.

A famosa Loira do Banheiro.

E a outra loira lendária...

A diretora.

Que causava muito mais medo que qualquer fantasma.

Hoje rio ao lembrar.

Mas na época era assunto seríssimo.

Olho para trás e percebo que nem tudo foi perfeito.

Houve tristezas.

Houve dores.

Houve problemas.

Houve acontecimentos que marcaram.

Mas a memória é curiosa.

Ela não mente.

Mas escolhe aquilo que merece permanecer iluminado.

E quando penso em Taubaté, o que ficou foi o sol.

Foi a liberdade.

Foi a bicicleta.

Foi a biblioteca.

Foi o cheiro do mato.

Foi o sabor das pitangas.

Foi a água gelada da bica.

Foi o açude.

Foi a aventura.

Foi a felicidade simples.

Talvez por isso, décadas depois, ainda exista um pedaço do meu coração morando naquela Rua 9.

Talvez por isso, quando penso em lar, uma parte da minha alma ainda esteja pedalando pelas ruas de terra do Parque Sabará.

E suspeito que ela nunca mais voltou de lá.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e o lendario mendigo Tonico da Viola

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

Todo bairro tem sua lenda.

Todo bairro possui aquele personagem que parece existir fora das regras normais da realidade.

Uma figura tão marcante que, décadas depois, continua viva na memória coletiva.

No Jardim Garcez, em Taubaté, esse personagem atendia pelo nome de:

Tonico da Viola.

Ou pelo menos era assim que todos o chamavam.

Porque, na verdade, ninguém sabia muito sobre ele.

Ninguém sabia sua idade.

Ninguém sabia de onde tinha vindo.

Ninguém sabia para onde ia.

E talvez ninguém soubesse sequer seu verdadeiro nome.

Para nós, os garotos do bairro, ele parecia existir desde o início dos tempos.

Como uma criatura saída de uma lenda sertaneja.

Como um personagem esquecido entre as páginas de algum livro de Monteiro Lobato.

Tonico era um andarilho.

Daqueles que carregavam a própria vida nas costas.

Vivia cercado por sacolas, trouxas, sacos amarrados por barbantes e cordas.

Parecia que todo seu patrimônio cabia naquele emaranhado de objetos pendurados pelo corpo.

Nas costas carregava uma velha viola.

Ou melhor.

Os restos de uma viola.

O instrumento já estava tão gasto pelo tempo, pelo sol e pela chuva que parecia ter sobrevivido a uma guerra.

Um enorme chapéu de palha completava a figura.

Magro.

Barbudo.

Sujo.

Queimado de sol.

Com olhos fundos.

E aquele ar permanente de quem conversava com coisas invisíveis aos demais mortais.

Para uma criança, aquilo era fascinante.

E assustador.

Ao mesmo tempo.

As histórias sobre Tonico eram infinitas.

Cada morador tinha uma versão diferente.

Alguns juravam que havia sido fazendeiro.

Outros diziam que perdera a família inteira.

Uns afirmavam que tinha ficado louco por amor.

Outros garantiam que era um antigo músico famoso.

Havia até quem jurasse que ele possuía poderes sobrenaturais.

Nenhuma história batia com a outra.

Mas todas eram contadas com absoluta convicção.

O mais curioso era que, apesar da aparência assustadora, Tonico nunca fez mal a ninguém.

Nunca.

Era um homem pacífico.

Às vezes aparecia na porta da escola.

Outras vezes era visto dormindo debaixo de uma árvore.

Ou em algum pasto.

Ou próximo aos riachos.

Ou simplesmente caminhando sem rumo pelas ruas de terra.

Como uma alma livre.

Sem destino.

Sem relógio.

Sem endereço.

Sem patrão.

Sem compromisso com nada além da próxima curva da estrada.

Quando tinha fome, pedia um prato de comida.

E quase sempre alguém ajudava.

Quando não conseguia ajuda, improvisava.

Fazia uma pequena fogueira.

Pegava uma velha panela amassada.

Misturava o que encontrasse.

E preparava sua refeição.

Aquilo despertava a curiosidade da molecada.

Ficávamos observando de longe.

Tentando entender aquele universo paralelo.

Tentando decifrar aquele homem.

Às vezes ele estava feliz.

Muito feliz.

Pegava a viola.

Ou o que restava dela.

E começava a cantar.

Canções sem dono.

Modas antigas.

Trechos de histórias.

Versos improvisados.

Ninguém entendia tudo.

Mas todos paravam para ouvir.

Em outros dias aparecia embriagado.

E então começava outro espetáculo.

Palavrões.

Improvisos.

Discussões imaginárias.

Conversas com pessoas invisíveis.

A molecada ria até perder o fôlego.

Mas sempre mantendo uma distância respeitosa.

Porque havia algo nele que inspirava cautela.

Especialmente o olhar.

Ah, aquele olhar...

Os cães do bairro pareciam compreender algo que nós não entendíamos.

Quando Tonico surgia na rua, muitos cachorros fugiam imediatamente.

Os mais valentes avançavam.

Latiam.

Rosnavam.

Cercavam.

Mas bastava Tonico parar.

Virar lentamente a cabeça.

E encarar o animal.

Pronto.

O cão recuava.

Muitas vezes ganindo.

Como se tivesse visto algo que não deveria ver.

Aquilo alimentava ainda mais as lendas.

E nós, é claro, adorávamos cada detalhe.

Anos depois, indo para a Biblioteca Municipal de Taubaté, ainda o encontrava.

Caminhando pelo centro.

Sem destino.

Sem pressa.

Sem rumo aparente.

Enquanto todos corriam atrás de alguma coisa, Tonico parecia não perseguir nada.

Era uma figura quase impossível de enquadrar.

Mendigo?

Filósofo?

Louco?

Poeta?

Andarilho?

Músico?

Talvez um pouco de tudo.

Talvez nada disso.

Hoje penso que ele representava algo raro.

A liberdade absoluta.

Aquela liberdade que assusta.

Que não possui amarras.

Que não possui endereço.

Que não possui garantias.

Tonico da Viola era um homem sem posses.

Mas também sem correntes.

E talvez por isso tenha permanecido tão vivo na memória.

Porque enquanto todos nós pertencíamos ao bairro...

Parecia que o bairro inteiro pertencia a ele.

E quando o sol desaparecia atrás dos morros de Taubaté e uma figura magra de chapéu de palha surgia caminhando pela estrada de terra, a molecada já sabia:

A lenda estava passando novamente.

sábado, 11 de outubro de 2014

🧹 A Dança da Vassoura

 

Bellacosa Mainframe e o famoso baile da dança das vassouras


🧹 A Dança da Vassoura

Regras oficiais, caos controlado e diversão garantida

Se você nunca ouviu falar da dança da vassoura, sente-se, jovem padawan: isso aqui era engenharia social aplicada ao bailinho escolar.

A dança da vassoura não era castigo. Muito pelo contrário.
Ela era o modo bônus, o feature escondido do sistema.

🔹 O setup (ambiente de produção)

  • Bailinho rolando

  • Música lenta ou animada (não importa)

  • Vários pares dançando

  • Um rapaz sem par

  • Uma vassoura emprestada da tia da limpeza (recurso compartilhado)

Esse rapaz passa a dançar com a vassoura.
Mas atenção: isso não é humilhação.
É poder absoluto temporário.



🔹 A Regra de Ouro

O rapaz que dança com a vassoura ganha um super bônus:

👉 Ele pode escolher qualquer par que esteja dançando
👉 Tocar no ombro da garota
👉 Substituí-la pela vassoura

A garota passa a dançar com ele
E o rapaz “desalojado” assume a vassoura.

Swap de processos em tempo real.




🔹 Restrições importantes (porque até diversão tem governança)

  • ❌ Não pode voltar ao mesmo par imediatamente

  • ❌ Não pode recusar o convite (“não” não existe no protocolo)

  • ✅ Tem que ir atrapalhar outro par

  • ✅ O objetivo é movimentar todo mundo

Ou seja:
ninguém fica parado,
ninguém fica excluído,
todo mundo dança com todo mundo.




🔹 A dinâmica real (ou: caos elegante)

Enquanto a música toca:

  • pares se desfazem

  • novos pares se formam

  • risadas explodem

  • a sala vira um sysplex emocional

  • a vassoura circula como token de controle

É democracia dançante.
É inclusão forçada com sorriso no rosto.
É zoação sem crueldade.


🔹 Por que isso funcionava tão bem?

Porque:

  • Quebrava a timidez

  • Evitava panelinhas

  • Misturava a turma inteira

  • Criava histórias que duram décadas

Era impossível ficar invisível.
Em algum momento, todo mundo dançava.


🔹 Easter egg social dos anos 80

  • Quem “amarelava” virava lenda

  • Quem segurava a vassoura com estilo virava herói

  • Casal que se conheceu na dança da vassoura?
    História registrada em memória não volátil


🔹 Versão Bellacosa Mainframe (tradução técnica)

  • Música = job em execução

  • Vassoura = controle de concorrência

  • Par = sessão ativa

  • Troca = context switch

  • Zoação = logging habilitado

  • Diversão = SLA cumprido com sucesso


No fim das contas, a dança da vassoura era isso:
uma forma simples, genial e inocente de dançar, zoar, misturar e aproximar.

Sem aplicativo.
Sem algoritmo.
Sem like.

Só gente, música, risada…
e uma vassoura rodando em produção.

🧹💃🕺

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

🥥 Travessuras no Quiririm — As Guerras Territoriais dos Cecapianos

 


🥥 Travessuras no Quiririm — As Guerras Territoriais dos Cecapianos

Crônica ao estilo Bellacosa Mainframe, para o blog El Jefe Midnight Lunch

Existem infâncias que são parques de diversão.
A minha, em 1984, no Quiririm e no recém-criado Fabrilar e no enorme conjunt Cecap, era mais parecida com um tabuleiro de War misturado com Os Goonies.

Cada garoto tinha seu território.
Cada território tinha sua lei.
E cada lei era respeitada como se fosse JCL em produção:
errou, abend imediato.

E assim vivíamos numa espécie de guerra fria infantil, onde nem a ONU ousaria meter o bedelho.


🏘️ Os Três Povos do Vale Encantado

Naquele microcosmo taubateano, existiam três facções principais:



🏰 1. Os Cecapianos

Nascidos nos sobrados brancos, erguidos como fortalezas modernas.
Crianças com trilhas, bosques e quadras como reinos particulares.
Uma sociedade organizada, com líderes tribais, hierarquia e fronteiras bem definidas.

🌽 2. Os Quiririm Raiz

Moradores antigos, herdeiros da tradição italiana e dos quintais cheios de frutas.
Conheciam cada árvore, cada jabuticabeira, cada pedra do caminho.
E defendiam suas áreas com fervor digno de cavalaria medieval.


🏭 3. Os Fabrilarenses

Vindo do recente conjunto habitacional, criado por último, eram considerados os nômades urbanos, os NOVATOS — rápidos, espertos e com fama de brigões.
Para eles, território era motivo de honra.



🎒 A Escola: Nosso Acordo de Paz de Genebra

A EEPG Deputado César Costa era o único campo neutro.
Lá as três facções conviviam como se fosse um servidor compartilhado:

  • Nada de briga

  • Nada de provocações

  • Nada de declarar guerra no recreio

Porque ali, meus amigos, era campo santo.
Lugar onde até os mais valentões viravam alunos comportados.

Mas bastava cruzar o portão para o mundo se dividir de novo em fronteiras invisíveis.


🍒 As Expedições Secretas: Goiabas, Pitangas e Jaboticabas

O ápice das aventuras?
Invasões frutíferas.

Entrar escondido no território do Quiririm para comer jaboticaba era tipo missão impossível:

  • avançar rastejando

  • vigiar os coqueiros

  • fazer reconhecimento de área

  • calcular rota de fuga

  • subir no pé de fruta como quem toma uma torre de castelo

E então, claro…
ser descoberto.

A fuga era cinematográfica:
correria, gritos, galhos arranhando braços, risada nervosa e…
os cascudos ritualísticos quando capturado.
Nada grave.
Era o protocolo diplomático da época.


🌰 Guerras de Coquinhos e Mamonas — Nosso Paintball Pré-histórico

Se hoje a molecada brinca de laser tag, nós tínhamos:

Coquinhos + Bodoques

e

Mamonas + Pontaria treinada

As batalhas eram épicas:

  • Quadra D vs. Quadra B

  • Quadra B vs. Quadra E

  • Quadras unidas vs. Fabrilarenses

  • Quiririm vs. Todo mundo

Os líderes organizavam o ataque:
posições estratégicas atrás de muros, sincronização na contagem regressiva, estilingues preparados.

O impacto dos coquinhos deixava marcas de guerra.
Cicatrizes que hoje viraram memes pessoais.



🚴‍♂️ A Arte de Fugir, Brincar e Crescer

Vivíamos uma liberdade que o mundo moderno nem sonha mais.

  • Correr até perder o fôlego

  • Fugir de perseguições que eram parte do jogo

  • Se esconder atrás de eucaliptos

  • Brincar de pega-pega nos campinhos

  • Jogar taco nas ruas de terra

  • Disputar quem encontrava primeiro um riacho limpo

  • Receber os primeiros beijinhos roubados

E cada dia parecia maior que o anterior.
Dias de verão infinito.
Dias de infância verdadeira.



🌄 Epílogo: O Reino Que Só Criança Enxerga

Crescer no Quiririm, no Cecap, no meio daquela geopolítica infantil, foi viver numa pequena epopeia.

Numa era sem celular, sem internet, sem videogames modernos, a gente tinha:

  • território,

  • aventura,

  • guerra,

  • diplomacia,

  • fuga,

  • risos,

  • e descobertas.

Tudo isso sem que nenhum adulto percebesse a complexidade estratégica envolvida.

Aquela “guerra fria” era na verdade uma das fases mais quentes e doces da vida.

E no fim, todos nós — quiririnenses, cecapianos, fabrilarenses — crescemos juntos, cada um guardando suas histórias como quem guarda o mapa de um tesouro.



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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