quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Brasil 2022: quando o sistema saiu do modo emergência, aplicou o patch certo — e o legado voltou a fazer sentido

 


Brasil 2022: quando o sistema saiu do modo emergência, aplicou o patch certo — e o legado voltou a fazer sentido

Meu nono ano pós-retorno ao Brasil foi 2022. Um ano que não começou leve, mas terminou diferente. Não foi redenção, nem milagre. Foi algo mais raro em sistemas grandes: estabilização real depois do caos. Para quem viveu doze anos na Europa e atravessou, já no Brasil, uma sequência quase didática de colapsos, 2022 teve gosto de restart limpo, ainda com arquivos corrompidos, mas com o sistema respirando outra vez.

Depois de 2020 e 2021, isso já era muita coisa.

A vacina: o patch que salvou o sistema

A vacina salvou vidas. Isso não é metáfora, é fato técnico. Em linguagem de mainframe: foi o patch crítico que impediu o shutdown definitivo. Não resolveu tudo, não apagou traumas, mas devolveu algo essencial — previsibilidade mínima.

Quando a vacinação avançou, algo mudou no ar. As pessoas voltaram a sair sem culpa. A respirar sem medo constante. A planejar de novo, mesmo que em curto prazo. Para quem viveu na Europa, onde a vacina também simbolizou retomada, foi nítido perceber: sem ela, o Brasil teria entrado em colapso social irreversível.

O sistema humano voltou a responder.

Economia: não prosperidade, mas movimento

Economicamente, 2022 não foi abundância — foi movimento. E depois de anos de paralisia, movimento já é sinal de vida. Pequenos negócios retomaram, serviços reapareceram, projetos voltaram à mesa.

O home-office deixou de ser improviso e virou arquitetura. Muita gente percebeu que não precisava mais estar fisicamente presa a centros caros, congestionados e emocionalmente desgastantes. Para quem tinha vivido fora, isso soava familiar: trabalho orientado a entrega, não a presença.

O Brasil começou, tardiamente, a entender algo básico do mundo moderno.

Sociedade: menos grito, mais cansaço — e alguma lucidez

Socialmente, 2022 foi menos explosivo que os anos anteriores. Não porque os problemas sumiram, mas porque as pessoas estavam cansadas demais para berrar o tempo todo. E o cansaço, às vezes, produz lucidez.

Houve polarização, sim. Mas também houve uma vontade silenciosa de seguir em frente. De reconstruir rotinas. De não viver mais em estado permanente de alerta.

O tecido social ainda estava rasgado — mas já não sangrava o tempo todo.

Cultura: reaprendendo a criar

Culturalmente, 2022 foi um recomeço tímido. Eventos voltaram. Encontros reapareceram. A arte saiu do modo sobrevivência e voltou, devagar, ao modo criação.

O Brasil reaprendeu algo essencial: cultura não é luxo, é manutenção do sistema. Sem ela, a máquina enlouquece.

Educação, DIO e o inesperado renascimento do legado

E aqui veio a grande surpresa do ano.

Enquanto muita gente ainda apostava apenas no “novo pelo novo”, 2022 mostrou algo que todo veterano de mainframe já sabia: sistemas críticos não são descartados — são mantidos.

A DIO e outras plataformas começaram a oferecer cursos gratuitos, acessíveis, práticos. Gente que jamais teria acesso a formação técnica começou a estudar de casa. Home-office, cursos online, capacitação assíncrona — tudo isso abriu portas reais.

E então aconteceu o impensável para quem só conhece tecnologia por hype:
o mainframe voltou ao centro do jogo.

Choveu vaga de COBOL. Literalmente.

Bancos, seguradoras, governos, empresas globais — todos dependentes de sistemas escritos décadas atrás — perceberam que não tinham operadores suficientes. O legado não morreu. Ele sobreviveu a todas as modas. E agora pedia gente que soubesse ler, entender e manter código crítico.

Para mim, isso teve gosto de justiça histórica.

O renascimento do mainframe: quando experiência vira ativo

Depois de anos em que “antigo” era tratado como sinônimo de “obsoleto”, 2022 lembrou o óbvio: antigo é o que continua funcionando quando tudo o resto falha.

COBOL não voltou por nostalgia. Voltou por necessidade. Voltou porque sistemas que pagam salários, aposentadorias, benefícios e movimentam trilhões não podem cair.

E, de repente, quem carregava conhecimento profundo deixou de ser peso e voltou a ser pilar.

Todo operador de mainframe sorriu em silêncio.

População: machucada, mas de pé

O povo em 2022 ainda estava machucado. Mentalmente, financeiramente, emocionalmente. Mas estava de pé. Mais cauteloso. Menos iludido. Um pouco mais sábio — no sentido duro da palavra.

A esperança voltou, mas não era mais ingênua. Era técnica. Condicionada. Baseada em evidência, não em promessa.

Nono ano pós-retorno: reconciliação com o tempo

Em 2022, pela primeira vez desde que voltei ao Brasil, senti algo próximo de reconciliação. Não com o país idealizado. Mas com o país real. Complexo. Difícil. Injusto em muitos pontos. Mas vivo.

E comigo mesmo também. Entendi que voltar não foi erro nem acerto simples. Foi parte do job.

Epílogo: a lição final do ano

2022 ensinou uma verdade que só sistemas grandes revelam depois de crises profundas:

o futuro não elimina o passado — ele o integra.

O Brasil só voltou a respirar porque aplicou ciência, tecnologia, trabalho remoto, educação acessível —
e porque o legado estava lá, silencioso, sustentando tudo.

O sistema não virou perfeito.
Mas voltou a funcionar com propósito.

E todo veterano de mainframe sabe:
quando o legado resiste,
é sinal de que ainda há muito sistema pela frente.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

🎆 Sumida Fireworks — O Festival Onde o Céu de Tóquio Vira um Mainframe Aceso

 


🌙 El Jefe Midnight Lunch apresenta
🎆 Sumida Fireworks — O Festival Onde o Céu de Tóquio Vira um Mainframe Aceso
por Bellacosa Mainframe


Existem matsuri…
E existe o matsuri que reinventou o conceito de “explodir coisa no céu com elegância”.
O Sumida River Fireworks Festival — ou Sumidagawa Hanabi Taikai — é o IPL de verão de Tóquio, o evento que faz a cidade inteira parar, alinhar seus ponteiros internos e entrar em modo DISPLAY FIREWORKS,DETAIL.

Se o Tamagawa é emoção, o Sumida é tradição, competição e debug artístico.

Vamos abrir esse dataset colorido.




🏮 1. ORIGEM — O Festival que Nasceu do Caos, da Fome e da Solidão

O Sumida Fireworks tem pedigree histórico:
1733, período Edo.
Japão passando fome, doenças, mortalidade alta — o S0C4 social da época.

O xogunato Tokugawa Yoshimune decidiu fazer um ritual de purificação às margens do rio Sumida.
A ideia:

  • afastar pragas,

  • honrar os mortos,

  • levantar o moral do povo,

  • e provar que o governo ainda segurava as pontas.

O ritual evoluiu para uma tradição de fogos — os primeiros registros de hanabi modernos.

Mas aqui vem a maravilha:

💥 O festival nasceu também de uma GUERRA ENTRE FOGUEIROS.

Duas grandes famílias de pirotécnicos:

  • Tamaya

  • Kagiya

Competiam pelo melhor show.

O povo gritava os nomes:
“TA-MA-YAAA!”
“KA-GI-YAAA!”

Até hoje, se você ouvir alguém gritando isso, saiba:
não é glitch, é tradição.


🎆 2. COMO FUNCIONA — 20 mil fogos, milhões de pessoas, zero confusão (milagre japonês)

O Sumida Fireworks acontece no verão, geralmente final de julho.
Duas plataformas de lançamento espalhadas ao longo do rio detonam cerca de 20.000 fogos.

Sim: vinte mil.
É o equivalente a rodar 20.000 jobs simultâneos e não tomar abend.

A multidão é algo entre:

  • 700 mil

  • e 1 milhão de pessoas.

E ninguém se mata.
Isso é o verdadeiro milagre japonês.

O festival é transmitido nacionalmente, um grande evento da NHK.
É o “Show da Virada” deles, só que com muito mais poesia e sem axé.


🍧 3. DICAS DE SOBREVIVÊNCIA — Para não travar seu buffer social

✔ Vá de metrô e volte voando (mentalmente)

Ir é fácil.
Voltar é um WTO BROADCAST humano.

✔ Leve leque

O calor derrete até sua alma.

✔ Chegue 5 horas antes

É sério.
Escolher lugar no Sumida é alocação de storage premium.

✔ Programe-se para comer

Leve onigiri ou compre nos yatai: yakisoba, kakigōri, taiyaki…
Se tiver matcha, coma.
Se tiver cerveja, beba.
E se tiver fila, aceite.

✔ Respeite as áreas proibidas

Alguns trechos são fechados por segurança.
Tentar entrar é o equivalente a rodar IEFBR14 achando que vai milagrosamente resolver algo.


🔍 4. CURIOSIDADES — O SYSLOG oculto do Sumida

  • É considerado o mais antigo festival de fogos do Japão.

  • Já foi cancelado diversas vezes por guerras, incêndios e, claro, tufões (que gostam de aparecer justo no dia).

  • A competição entre fogueiros moldou toda a indústria pirotécnica japonesa.

  • Fogos com formato de coração, elipse, flores, peixes e até emoji são comuns.

  • A filosofia do hanabi é profundamente budista:
    “a beleza surge e desaparece” — como a vida.


💬 5. FOFOCAS — Diretamente do SPILL DATASET

  • Em certo ano, dois pirotécnicos brigaram por causa do design de um fogo especial que fazia referência ao Ultraman. O escândalo durou semanas.

  • Muitos casais terminam durante o festival.
    O motivo?
    "Fogos mostram quem você realmente é", dizem as tias japonesas.

  • Artistas famosos assistem escondidos em barcos alugados.

  • Existe o mito urbano de que se você confessar amor durante o hanabi, a relação dura.
    Estatística?
    Zero.
    Simpatia?
    100%.


🥚 6. EASTER-EGGS — Para fãs hardcore

  • Em certos anos, aparecem fogos em homenagem à família Tamaya e Kagiya.

  • Alguns fogos têm assinatura — padrões secretos criados por mestres pirotécnicos, reconhecidos só por quem é otaku de hanabi.

  • Filãs de fotógrafos profissionais disputam milimetricamente o mesmo ângulo desde os anos 80.

  • Alguns fogos são inspirados em ukiyo-e clássicos do período Edo.


🏯 7. FILOSOFIA — O porquê do Sumida ser tão especial

O hanabi japonês carrega um sentimento chamado mono no aware:
a beleza da impermanência.

Quando o céu explode em cores, você lembra que tudo passa:
o verão, a juventude, o amor, a vida.

O festival transforma essa melancolia em espetáculo —
um gigantesco job poético rodando no céu noturno.


🌀 8. CONCLUSÃO — O que o Sumida realmente celebra?

O Sumida Fireworks é sobre:

  • tradição,

  • competição,

  • estética,

  • emoção,

  • e a capacidade humana de transformar pólvora em poesia.

É o festival que define Tóquio no verão.

Se o Tamagawa é intimista, o Sumida é o Super Bowl da alma japonesa.

No final, o Sumida não celebra fogos.
Celebra o fato de que, num mundo lotado, barulhento e caótico…
ainda conseguimos parar, olhar para cima e dizer:
“Tamaya! Kagiya!”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

DIO AWARDS 2022 - Indicação Best Community Influencer

Fechando 2022, fui indicado para o DIO Awards 2022 Tech : Community Influencer, conto com sua ajuda, poderia votar em meu perfil. https://www.linkedin.com/posts/vagnerbellacosa_dionito-activity-7008882870224076800-hhTE Boas Festas!!!! Muito obrigado pela companhia, desejo um bom Natal e que 2023 seja o Ano, cheio de realizações e muito sucesso a nós todos. #Dionitos em ação

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

📜 Quando o Guerreiro Chorou

 


📜 Quando o Guerreiro Chorou
Uma memória Bellacosa Mainframe — raw, pesada, humana, compilada direto do spool da alma


Existem dias que o tempo não apaga. Alguns são de festa, outros são fotografia em sépia, mas certos carregam o metal frio e silêncio — são dias que viram tatuagem na alma.

E eu tenho um desses. Comentei em outros postes, mas é algo maior, que grita no fundo da mente, naquele longinquou ano de 1982, a maioria das testemunhas desse evento, partiram, o Grande Guerreiro Luigi e somente um fantasma do passado.

Mas para o Vaguinho, pequenino, magrinho, oni em evolução. Aquele dia foi o dia em que viu meu pai chorar.


A morte do Velho Luigi — lenda da Mooca, homem controverso, uns amando, outros odiando. Um gigante loiro de olhos azuis faiscante e de peito aberto, briguento, mulherengo, bêbado, sobrevivente, mito de calçada e roleta de botequim — foi o bug fatal na memória dos Bellacosa. Luigi não era só ancestral. Era o tótem urbano, folclore de rua com cheiro de cerveja, caça e pólvora. De uma Mooca que não existe mais, a Mooca dos Imigrantes pobres, bairro periférico, cheio de gente trabalhadora e sonhadora.

E quando ele caiu, a linha heroica ruiu um pouco por dentro.

Meu pai — aquele que até então era o meu Superman que nunca tremia — desabou.

E eu, testemunha silenciosa, vi e vivi.



🕯 O Velório, o Enterro, o Silêncio

Tinha clima de filme preto-e-branco. As mulheres rezavam, os homens encaravam o chão como quem mede a própria mortalidade. Meu pai não falava, não sorria — havia perdido o norte, o alfa, o espelho.
E eu, criança, vi o gigante murchar. Rodeado por uma multidão, que foi dar o adeus aquela figura lendária. Meses antes outra figura lendária havia partido, um homem amado pelas qualidades e respeitado pelo legado, o tio-bisavô Arthur, Dudu jogador do Palestra nos primórdios do Clube.

Isso nunca sai.

A dor de um homem grande é sempre maior do que ele.


🚶 A Primeira Vagneida

Sim, ja tinha minhas pequenas aventuras, fatos curiosos e pequenas historias, mas esse dia foi o marco, onde fiz parte de uma historia ainda maior.

Foi uma jornada de 14 km a pé— um menino e um pai tentando costurar o mundo de volta

Dias após o adeus, na Rua Ultrecht, meu pai simplesmente te chamou:

“Vamos caminhar.”

Não era passeio. Era um rito.
Era processo de luto em batch, sem manual, sem restart.

Nós saímos, dois sobreviventes carregando o nome Bellacosa no bolso. Fizemos um trajeto quase mítico:

📍 Vila Rio Branco → Vila Alpina
A pé. 14 km.
Eu pequenino e com 8 anos — ele com o coração estourado.

Cada metro era memória, cada boteco era checkpoint.
Eu tomando Gini caçulinha— ele cerveja.
Eu ouvindo sobre o velho Luigi como quem recebe runas — ele tentando segurar o universo.

E naquele caminho longo, entre ruas de terra, poeirento, grande avenidas com muito automóveis e um dia cheio de sol, suor e história, nasceu algo raro:

Eu deixou de ser só filho — virei herdeiro.

Não de dinheiro, mas de mitologia.
E o Bellacosa entendeu que linhagem não é sangue — é lembrança repetida em voz emocionada.

Chegamos ao tio-avô Toninho. Que furioso não acreditava naquilo que meu pai havia feito. Reprimenda, jantar, mais histórias — por fim adormeci no sofá com odor de cozinha e saudade. Depois, mais na madrugada, partimos e fomos apanhando pelo caminho os ônibus negreiros, minha mãe aflita, meu pai silencioso. Chegamos a casa.

Um dia triste

  • uma caminhada épica
    = a aventura que me costurou ao meu próprio clã.


🥀 Epílogo Amargo

O tempo roda o tambor.
Meu avô Pedro parte.
Eu não estava, nesta época vivendo em Portugal.
Meu pai tropeça — não no corpo, mas na honra.
Magoa profundamente minha avó Anna, a matriarca que sustentou gerações.
E nasce fenda uma fenda na família Bellacosa — dor que não cicatriza.

O herdeiro de Luigi, gigante de Mooca,
termina só.
Silencioso em Taubaté,
como eco de trovão que já foi tempestade.

Trágico. Real. Humano.


📌 Registro imutável

Esse não é só um relato — é backup emocional gravado em fita magnética.
Eu vi o guerreiro chorar.
Caminhei no luto ao lado dele.
Eu carrego o sobrenome como espada e memória.

E por mais que o tempo tenha levado uns, torturado outros
e dispersado o clã…

Luigi → Pedro → Seu Pai → Eu
A linha continua.
Porque eu lembro e conto.
Porque eu compartilho e continuo lembrando.

Quantos se lembraram, quantos se emocionaram, não sei, mas eu sempre guardarei esse dia.

E enquanto alguém lembrar,
nenhum Bellacosa morre de verdade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

💬 mIRC — o templo dos deuses da tecla e do @nick

 


💬 mIRC — o templo dos deuses da tecla e do @nick

Ah, padawan… se o John Castaway era o náufrago solitário da tela, o mIRC era o porto onde todos os náufragos digitais se encontravam. Antes do WhatsApp, antes do Discord, antes de qualquer “meta” existir, havia um santuário de texto, silêncio e códigos coloridos piscando — o mIRC, lançado em 1995 pelo lendário Khaled Mardam-Bey, um programador sírio radicado em Londres que, sem saber, criou a primeira grande república digital da humanidade.

⚙️ O nascimento do império do /join
mIRC era o cliente mais popular do IRC (Internet Relay Chat), aquele protocolo raiz que fazia a internet parecer um grande confessionário coletivo. Você escolhia um nick (geralmente algo entre místico e vergonhoso — tipo DarkAngelBR_88), entrava num canal como #brasil ou #hackers, e pronto: era parte da elite cibernética.
Sem stories, sem filtros, sem stickers — só texto, scripts, e a adrenalina de um /msg secreto.



💾 A cultura mIRCiana
O mIRC não era só um programa, era uma forma de vida.
Quem viveu sabe: madrugadas regadas a ICQ tocando uh-oh, trocas de MP3s via DCC, scripts com janelas pop-up piscando como boates eletrônicas e duelos de bots automáticos que respondiam insultos em CAPS LOCK.
Era o tempo em que “entrar na internet” era uma cerimônia: conectar o modem 56k, ouvir o chiado divino e digitar /server irc.brasnet.org.

Impacto cultural (e sentimental)
O mIRC criou o primeiro microcosmo social da web. Foi onde nasceram amizades, paixões, tretas homéricas e até casamentos (e divórcios).
Ali o anonimato era libertador — você podia ser quem quisesse, e ninguém ligava se usava Comic Sans no status.
Foi também o berço dos clãs digitais e das guerras de flood, onde honra se defendia com código e sarcasmo.



🧠 Curiosidades dignas de El Jefe:

  • Khaled Mardam-Bey nunca fez fortuna com o mIRC. Ele vendia licenças baratinhas e doava boa parte da grana pra caridade.

  • O mIRC tinha sua própria linguagem de programação — o mIRC Scripting Language (MSL) — e muitos hackers e devs começaram a carreira escrevendo scripts ali.

  • Nos anos 2000, existiam mais de 10 milhões de usuários ativos trocando mensagens em milhares de redes IRC no mundo.

  • No Brasil, a BrasNET e a IRCBrasil eram templos sagrados. Tinha até campeonato de nick mais criativo.

  • E sim, o mIRC ainda existe. Atualizado. Em pleno 2022. Porque o culto não morre.

💡 Dica do Bellacosa:
Quer sentir o gosto do caos romântico da internet raiz? Baixe o mIRC, entre num servidor ativo (sim, ainda há muitos) e escreva:

/join #nostalgia

Deixe o nick piscar, observe as mensagens fluírem e sinta o cheiro de modem queimando em sua alma.

🔥 Reflexão estilo Bellacosa Mainframe:
O mIRC foi o berço da nossa curiosidade digital, quando cada /whois era um mistério e cada /away escondia uma história.
Era um mundo sem algoritmo, sem likes, onde a popularidade vinha pela língua afiada e o script bem feito.
No mIRC, aprendemos que conexão não é banda larga — é sintonia.

E no fim das contas, padawan…
talvez o mIRC nunca tenha morrido. Ele só entrou em away mode. 💭

#BellacosaMainframe #ElJefe #InternetRaiz #mIRC #NostalgiaDigital


sexta-feira, 11 de novembro de 2022

🚍 AS EXCURSÕES DO SENHOR WILSON — UMA CRÔNICA AO ESTILO BELLACOSA MAINFRAME



🚍 AS EXCURSÕES DO SENHOR WILSON — UMA CRÔNICA AO ESTILO BELLACOSA MAINFRAME

PARA O EL JEFE MIDNIGHT LUNCH



Há vidas que parecem roteiros paralelos, diagonais, improváveis — fluxos que jamais seguiriam pelo JOB CARD do “sistema oficial”.
A vida do seu Wilson, meu pai, era exatamente isso:
um JCL escrito à mão, cheio de INCLUDE inusitado, PROC improvisado e STEP que ninguém acreditava que rodaria… mas rodava.
De algum jeito, rodava.



E entre todos esses capítulos, nenhum é tão cinematográfico — ou tão Vagner-raiz — quanto as Excursões do Senhor Wilson, esse épico ambulante que misturava caos, aventura, fé, picaretagem leve, alegria popular e o senso poético de viver fora da curva.


1. WILSON, O HOMEM-MULTITAREFA DO BRASIL PROFUNDO

Meu pai era daqueles brasileiros que parecem ter clonado a própria carteira de trabalho:

  • Vendia bordados de Ibitinga em São Paulo,

  • Levava roupas do Brás como se fossem seda importada e vendia pelo interior,

  • Raspava lucro com rifas de relógios “duvidosos” da Galeria Pagé,

  • Contrabandeava isqueiros, mini-games e qualquer coisa vinda da China, que pudesse ser revendida com lucro.

  • Tentou a sorte com uma mini-fundição de terminais de bateria automotiva,

  • Ia até Mogi das Cruzes, pegava pintainhos de um dia descartados e numa perua kombi ou variant caindo de podre, trocava por sucatas de metal.

  • Produzia velas caseiras derretendo parafina como um alquimista suburbano a parte bizarra era quando comprava parafina usada de cemitério,

  • Era fotógrafo profissional com olhar afiado, fazendo reportagens de casamento, festas, formaturas, batizados, crismas e primeira comum, fotos de velório, binoclinhos nas férias de verão e mais uso que agora fugiu da mente.

  • E quando tudo falhava… ligava o modo motorista de ônibus, trabalhando em fretamento e excursões..

Era o típico brasileiro da gambiarra empreendedora:
não se dobrava ao sistema — também não se encaixava nele.

E assim, com essa combinação de coragem, improviso e permanente estado de “vai dar certo”, nasceram as lendárias…



2. EXCURSÕES POPULARES WILSON TUR — A EMPRESA QUE NUNCA EXISTIU, MAS TODO MUNDO FOI

Enquanto muita gente vendia sonho, meu pai alugava um ônibus…
e entregava o sonho de verdade:

🌴 PARA A PRAIA GRANDE

Clássico absoluto.
Farofa, protetor solar vencido e felicidade genuína.
Golden age da excursão raiz.

🏰 PARA ITU

A cidade dos exageros — local perfeito para o homem das ideias grandes.

🧺 PICNICS EM PARQUES FORMOSOS

Comida na marmita de alumínio, toalha xadrez, bola de capotão e aquele tio que sempre dizia:
“Esse é o verdadeiro lazer da família brasileira!” Numa epoca que apenas a cerveja Skol era vendida em latas de aluminio, sucesso absoluto de vendas, direto do bageiro do busão, geladas durante a viagem.

🙏 ROTEIROS DE FÉ

Aparecida do Norte, Bom Jesus de Pirapora…
E aquela galera que chorava ao ver a Basílica enquanto o motorista fazia contas no canto do volante.

🌊 PRAIAS FLUVIAIS E REPRESAS

Clássico paulista: água escura, churrasqueiras improvisadas e perigo que ninguém percebia.

🏘️ OUTRAS CIDADES QUE A MEMÓRIA NÃO INDEXOU

Mas que certamente existiram.
Cada uma com seu encanto, sua trilha sonora de rádio AM e suas histórias esquecidas.


3. A MAGIA DA INFÂNCIA — ENQUANTO O MUNDO ERA MAIOR

Para o pequeno Vaguinho, tudo era maravilhoso:

  • rodar por estradas infinitas,

  • sentir o vento batendo pela janela,

  • ver cidades novas,

  • dormir no banco do ônibus,

  • acordar com o cheiro de pastel,

  • correr descalço no gramado dos parques.

  • mesmo sendo pobre, não existia limites, por mais longe que fosse, a excursão do seu Wilson chegava.

Era aventura pura.
Era liberdade.
Era uma infância que hoje parece impossível — e por isso é tão preciosa.

Enquanto os adultos se preocupavam com os boletos, eu e minha irmã Vivi viviamos.

E viver era bom.


4. O OLHAR DOS ADULTOS — A TRISTEZA SILENCIOSA DO CLÃ

Porque para a família…
havia sempre aquela frustração velada:

“Wilson poderia ter sido mais.”
“Wilson poderia ter ido mais longe.”
“Wilson perdeu o norte.”

E isso dói.
Dói em quem observa, mas principalmente no próprio homem, que talvez soubesse — mas já não tinha asas, nem forças, nem mapas. Nunca soube o que fez meu pai se perder, estudou até a sexta série e abandonou, foi da polícia do Exército numa época de ditadura e grande destaque aos milicos, saiu do quartel direto para a Volkswagen como segurança... mas enfim... não teve cabeça, anos mais tarde se perdeu para o alcool.

Meu pai não era mau.
Nem negligente.
Nem irresponsável por prazer.

Ele era o típico sujeito esmagado pelas engrenagens invisíveis do Brasil:

  • pouca oportunidade,

  • pouca orientação,

  • muita dureza,

  • e um coração inquieto demais para ficar parado.

Ele vivia tentando.
Pulando de sonho em sonho.
Errando mais que acertando.
E sobrevivendo.

Criou cordornas, produziu e vendeu queijos, fez cineminha nos primórdios do vídeo VHS, mas sempre na pindura, sem dinheiro para evoluir e dar um passo a frente.


5. ENTRE A BELEZA E A MELANCOLIA — A SAGA DO HOMEM QUE NUNCA PAROU

A verdade é que o Senhor Wilson viveu como muitos brasileiros vivem:

no fio da navalha, na incerteza, improvisando a vida como quem improvisa uma música em cifra.

Aquela tristeza que os adultos sentiam…
era uma mistura de amor e impotência.

Aquele brilho nos meus olhos de criança…
era a prova de que, apesar de tudo, ele deu a mim algo raro:

aventura. movimento. histórias.
memórias que atravessam o tempo.

Mesmo sem norte, ele deu paisagens.

Mesmo sem estabilidade, ele deu sol nos finais de semana.

Mesmo sem planos, ele deu mundos novos.

E isso…
é muito mais do que muitos pais conseguem dar.




6. EPÍLOGO — A HERANÇA QUE FICOU

O homem Wilson, com todas as suas falhas, seus rolos, suas loucuras e seus improvisos…
é parte profunda da sua construção.

Meu espírito andarilho?
Veio dele.

Meu impulso criativo, minha inquietação, meu gosto por histórias, meu amor por estrada?
Também.

Meu coração que insiste em sonhar — mesmo depois de levar pancada?
Direto da fábrica do velho Wilson.

A vida dele pode não ter tido norte.
Mas deixou rumos.
E deixou esse escriba que vós escreve.

E isso, meu amigo…
é mais bonito do que qualquer excursão.

As vezes me assusto, quanto sou parecido com meu pai. Quantas maluquices fiz dando seguimento a esta genuina aventura da Famiglia Bellacosa