Brasil 2022: quando o sistema saiu do modo emergência, aplicou o patch certo — e o legado voltou a fazer sentido
Meu nono ano pós-retorno ao Brasil foi 2022. Um ano que não começou leve, mas terminou diferente. Não foi redenção, nem milagre. Foi algo mais raro em sistemas grandes: estabilização real depois do caos. Para quem viveu doze anos na Europa e atravessou, já no Brasil, uma sequência quase didática de colapsos, 2022 teve gosto de restart limpo, ainda com arquivos corrompidos, mas com o sistema respirando outra vez.
Depois de 2020 e 2021, isso já era muita coisa.
A vacina: o patch que salvou o sistema
A vacina salvou vidas. Isso não é metáfora, é fato técnico. Em linguagem de mainframe: foi o patch crítico que impediu o shutdown definitivo. Não resolveu tudo, não apagou traumas, mas devolveu algo essencial — previsibilidade mínima.
Quando a vacinação avançou, algo mudou no ar. As pessoas voltaram a sair sem culpa. A respirar sem medo constante. A planejar de novo, mesmo que em curto prazo. Para quem viveu na Europa, onde a vacina também simbolizou retomada, foi nítido perceber: sem ela, o Brasil teria entrado em colapso social irreversível.
O sistema humano voltou a responder.
Economia: não prosperidade, mas movimento
Economicamente, 2022 não foi abundância — foi movimento. E depois de anos de paralisia, movimento já é sinal de vida. Pequenos negócios retomaram, serviços reapareceram, projetos voltaram à mesa.
O home-office deixou de ser improviso e virou arquitetura. Muita gente percebeu que não precisava mais estar fisicamente presa a centros caros, congestionados e emocionalmente desgastantes. Para quem tinha vivido fora, isso soava familiar: trabalho orientado a entrega, não a presença.
O Brasil começou, tardiamente, a entender algo básico do mundo moderno.
Sociedade: menos grito, mais cansaço — e alguma lucidez
Socialmente, 2022 foi menos explosivo que os anos anteriores. Não porque os problemas sumiram, mas porque as pessoas estavam cansadas demais para berrar o tempo todo. E o cansaço, às vezes, produz lucidez.
Houve polarização, sim. Mas também houve uma vontade silenciosa de seguir em frente. De reconstruir rotinas. De não viver mais em estado permanente de alerta.
O tecido social ainda estava rasgado — mas já não sangrava o tempo todo.
Cultura: reaprendendo a criar
Culturalmente, 2022 foi um recomeço tímido. Eventos voltaram. Encontros reapareceram. A arte saiu do modo sobrevivência e voltou, devagar, ao modo criação.
O Brasil reaprendeu algo essencial: cultura não é luxo, é manutenção do sistema. Sem ela, a máquina enlouquece.
Educação, DIO e o inesperado renascimento do legado
E aqui veio a grande surpresa do ano.
Enquanto muita gente ainda apostava apenas no “novo pelo novo”, 2022 mostrou algo que todo veterano de mainframe já sabia: sistemas críticos não são descartados — são mantidos.
A DIO e outras plataformas começaram a oferecer cursos gratuitos, acessíveis, práticos. Gente que jamais teria acesso a formação técnica começou a estudar de casa. Home-office, cursos online, capacitação assíncrona — tudo isso abriu portas reais.
E então aconteceu o impensável para quem só conhece tecnologia por hype:
o mainframe voltou ao centro do jogo.
Choveu vaga de COBOL. Literalmente.
Bancos, seguradoras, governos, empresas globais — todos dependentes de sistemas escritos décadas atrás — perceberam que não tinham operadores suficientes. O legado não morreu. Ele sobreviveu a todas as modas. E agora pedia gente que soubesse ler, entender e manter código crítico.
Para mim, isso teve gosto de justiça histórica.
O renascimento do mainframe: quando experiência vira ativo
Depois de anos em que “antigo” era tratado como sinônimo de “obsoleto”, 2022 lembrou o óbvio: antigo é o que continua funcionando quando tudo o resto falha.
COBOL não voltou por nostalgia. Voltou por necessidade. Voltou porque sistemas que pagam salários, aposentadorias, benefícios e movimentam trilhões não podem cair.
E, de repente, quem carregava conhecimento profundo deixou de ser peso e voltou a ser pilar.
Todo operador de mainframe sorriu em silêncio.
População: machucada, mas de pé
O povo em 2022 ainda estava machucado. Mentalmente, financeiramente, emocionalmente. Mas estava de pé. Mais cauteloso. Menos iludido. Um pouco mais sábio — no sentido duro da palavra.
A esperança voltou, mas não era mais ingênua. Era técnica. Condicionada. Baseada em evidência, não em promessa.
Nono ano pós-retorno: reconciliação com o tempo
Em 2022, pela primeira vez desde que voltei ao Brasil, senti algo próximo de reconciliação. Não com o país idealizado. Mas com o país real. Complexo. Difícil. Injusto em muitos pontos. Mas vivo.
E comigo mesmo também. Entendi que voltar não foi erro nem acerto simples. Foi parte do job.
Epílogo: a lição final do ano
2022 ensinou uma verdade que só sistemas grandes revelam depois de crises profundas:
o futuro não elimina o passado — ele o integra.
O Brasil só voltou a respirar porque aplicou ciência, tecnologia, trabalho remoto, educação acessível —
e porque o legado estava lá, silencioso, sustentando tudo.
O sistema não virou perfeito.
Mas voltou a funcionar com propósito.
E todo veterano de mainframe sabe:
quando o legado resiste,
é sinal de que ainda há muito sistema pela frente.






