Translate

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

DotCom : Capítulo VIII — Das Cinzas ao Renascimento: Como o Colapso das Dot-Com Preparou o Mundo para a Era Digital

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo viii

Capítulo VIII — Das Cinzas ao Renascimento: Como o Colapso das Dot-Com Preparou o Mundo para a Era Digital

Por que a maior crise da Internet foi, paradoxalmente, o evento que tornou possível o nascimento de Google, Facebook, YouTube, smartphones, computação em nuvem e Inteligência Artificial

"Uma floresta devastada por um incêndio parece morta. Mas, sob a terra, as sementes finalmente encontram espaço para crescer."

À primeira vista, o estouro da bolha da Internet parece uma história de fracasso.

Empresas quebraram.

Investidores perderam fortunas.

Milhares de profissionais ficaram desempregados.

Projetos desapareceram.

Wall Street entrou em pânico.

Entretanto...

Se observarmos a história com um pouco mais de distância, perceberemos algo surpreendente.

A bolha não destruiu a revolução digital.

Ela a tornou possível.

Pode parecer contraditório.

Mas muitas das empresas que hoje dominam nossa vida cotidiana só conseguiram crescer porque a crise eliminou os excessos da primeira geração da Internet.

Foi como uma gigantesca atualização de software.

Dolorosa.

Cara.

Mas necessária.


A Internet Sobreviveu

Existe um erro muito comum quando se fala sobre o ano 2000.

As pessoas imaginam que a Internet quase desapareceu.

Nada poderia estar mais distante da realidade.

Na verdade...

Enquanto investidores fugiam das ações de tecnologia, engenheiros continuavam trabalhando.

Cabos continuavam sendo instalados.

Servidores continuavam sendo fabricados.

Protocolos continuavam evoluindo.

Universidades continuavam pesquisando.

Empresas continuavam conectando filiais.

A infraestrutura da Internet nunca parou de crescer.

Quem entrou em crise foi o mercado financeiro.

Não a tecnologia.

Essa distinção é extremamente importante.


A Infraestrutura Ficou Pronta

Durante a euforia das Dot-Com foram investidos bilhões de dólares em infraestrutura.

Data centers.

Cabos submarinos.

Centrais telefônicas.

Equipamentos ópticos.

Backbones internacionais.

Links de alta velocidade.

Na época, muitos analistas afirmavam que havia capacidade demais.

Parecia desperdício.

Mas alguns anos depois...

Essa mesma infraestrutura permitiu uma explosão de crescimento.

É uma ironia fascinante.

Boa parte da Internet moderna utiliza uma base construída justamente durante a bolha.

O investimento parecia exagerado.

O tempo mostrou que ele apenas havia chegado cedo demais.


A Banda Larga Mudou Tudo

No início dos anos 2000 começou outra transformação silenciosa.

A Internet discada começou a ser substituída por conexões de banda larga.

Pela primeira vez, os computadores permaneciam conectados o tempo todo.

Adeus ao barulho do modem.

Adeus à linha telefônica ocupada.

Adeus à espera para estabelecer conexão.

Essa mudança alterou completamente a maneira como as pessoas utilizavam a Internet.

Ela deixou de ser uma atividade ocasional.

Passou a fazer parte da rotina diária.

Foi uma mudança de comportamento.

E mudanças de comportamento costumam gerar novas oportunidades de negócios.


A Web Aprendeu a Conversar

Durante a primeira geração da Internet, a maioria dos sites era estática.

Empresas publicavam informações.

Usuários apenas liam.

Pouco depois da crise começou a surgir um conceito completamente diferente.

A Web participativa.

As pessoas deixaram de ser apenas consumidoras.

Passaram a produzir conteúdo.

Escrever.

Fotografar.

Comentar.

Compartilhar.

Avaliar.

Nascia aquilo que mais tarde seria conhecido como Web 2.0.

A Internet deixava de ser uma biblioteca.

Transformava-se numa gigantesca praça pública.


Google Encontrou Seu Momento

Quando a poeira da crise começou a baixar, o Google estava preparado.

Sua infraestrutura crescia.

Seu algoritmo melhorava.

Seu modelo de publicidade tornava-se extremamente eficiente.

Enquanto centenas de concorrentes desapareciam, o Google concentrava cada vez mais usuários.

O curioso é que sua maior vantagem não era apenas tecnológica.

Era econômica.

Cada pesquisa gerava informações valiosas.

Cada anúncio era mais relevante.

Cada clique aperfeiçoava o sistema.

Criava-se um ciclo virtuoso.

Quanto mais pessoas utilizavam o Google...

Melhor ele ficava.


Amazon Deixou de Ser Apenas uma Livraria

Outro sobrevivente aproveitou o período para se reinventar.

A Amazon começou vendendo livros.

Mas Jeff Bezos nunca desejou construir apenas uma livraria online.

Seu objetivo era criar "a loja de tudo".

Após sobreviver à bolha, a empresa acelerou sua expansão.

Vieram:

eletrônicos.

roupas.

brinquedos.

computadores.

móveis.

alimentos.

E, posteriormente...

Serviços em nuvem.

Poucos imaginavam que uma empresa criada para vender livros se tornaria uma das maiores fornecedoras mundiais de infraestrutura para Inteligência Artificial.

Mas foi exatamente isso que aconteceu.


O Nascimento da Computação em Nuvem

Existe uma conexão direta entre a bolha da Internet e a computação em nuvem.

Durante a crise, muitas empresas perceberam que manter enormes infraestruturas próprias era caro.

Ao mesmo tempo, gigantes como Amazon possuíam data centers subutilizados.

A solução parecia natural.

Alugar capacidade computacional.

Em vez de comprar servidores...

Empresas passariam a contratar processamento sob demanda.

Hoje chamamos isso de Cloud Computing.

Na época era uma ideia revolucionária.

Mais uma vez...

A crise incentivou eficiência.


O Mundo Tornou-se Mobile

Enquanto a Internet amadurecia, outra revolução aproximava-se silenciosamente.

Os telefones celulares.

No início serviam apenas para chamadas.

Depois enviavam mensagens.

Pouco depois começaram a acessar páginas simples.

Então surgiu um dispositivo que mudaria tudo.

O smartphone.

Quando o iPhone foi lançado em 2007, encontrou uma Internet completamente diferente daquela de 1999.

Mais rápida.

Mais estável.

Mais madura.

A infraestrutura construída durante a bolha finalmente encontrou um ambiente capaz de utilizá-la plenamente.


Redes Sociais: A Segunda Onda

Pouco depois vieram:

Facebook.

YouTube.

LinkedIn.

Twitter.

Wikipedia.

Flickr.

Essas empresas nasceram em um mundo muito diferente daquele enfrentado pelas primeiras Dot-Com.

Agora existia:

banda larga.

computadores mais rápidos.

servidores mais baratos.

infraestrutura consolidada.

consumidores acostumados à Internet.

meios de pagamento mais seguros.

A primeira geração havia preparado o terreno.

A segunda pôde finalmente construir sobre ele.


Enquanto Isso... Os Mainframes Evoluíam Silenciosamente

Existe um aspecto pouco comentado dessa história.

Enquanto todos observavam o crescimento da Web, o universo corporativo também evoluía.

Mainframes passaram a oferecer:

Linux.

Java.

Serviços Web.

XML.

SOA.

Virtualização avançada.

Mais tarde vieram:

OpenShift.

Containers.

APIs REST.

Kubernetes.

Watsonx.

Aceleradores para Inteligência Artificial.

Ou seja...

O mainframe não ficou parado esperando o futuro.

Ele evoluiu junto com ele.

Talvez de maneira menos chamativa.

Mas extremamente consistente.


A Internet Aprendeu a Ganhar Dinheiro

Outra consequência importante da crise foi o amadurecimento dos modelos de negócios.

As empresas passaram a compreender melhor como gerar receita.

Publicidade segmentada.

Assinaturas.

Software como Serviço.

Marketplace.

Serviços financeiros.

Computação em nuvem.

Economia de plataforma.

Esses modelos praticamente definem a economia digital atual.

Curiosamente...

Quase todos foram refinados após o colapso das Dot-Com.


O Investidor Também Mudou

Os investidores aprenderam muito.

Antes financiavam praticamente qualquer startup.

Depois passaram a analisar:

modelo de negócios.

custos.

retenção de clientes.

receita recorrente.

fluxo de caixa.

capacidade de execução.

Não significa que novas bolhas nunca mais ocorreram.

Mas a qualidade das análises tornou-se muito maior.

Pelo menos durante algum tempo.


A Computação Entrou na Vida de Todos

Talvez a consequência mais profunda da crise tenha sido cultural.

Nos anos 1980, computadores eram ferramentas de especialistas.

Nos anos 1990, tornaram-se objetos domésticos.

Nos anos 2000, passaram a conectar pessoas.

Na década seguinte tornaram-se companheiros permanentes através dos smartphones.

Hoje...

A Inteligência Artificial amplia novamente essa transformação.

Tudo isso faz parte da mesma jornada iniciada muito antes da bolha.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo parecido.

Existe enorme entusiasmo.

Investimentos bilionários.

Milhares de startups.

Novos modelos surgindo praticamente todos os meses.

Provavelmente veremos empresas desaparecerem.

Outras serão adquiridas.

Algumas mudarão completamente de estratégia.

Entretanto...

Mesmo que isso aconteça, a Inteligência Artificial continuará evoluindo.

Assim como aconteceu com a Internet.

A tecnologia não depende do destino individual de cada empresa.

Ela continua seu caminho.


A Grande Ironia da História

Se a bolha da Internet nunca tivesse existido...

Talvez a revolução digital fosse muito mais lenta.

Parece estranho afirmar isso.

Mas pense.

A euforia atraiu investimentos gigantescos.

Esses investimentos construíram infraestrutura.

Essa infraestrutura permaneceu.

Anos depois, novas empresas utilizaram exatamente essa base para criar produtos muito mais maduros.

Em outras palavras.

O dinheiro especulativo desapareceu.

Os cabos ficaram.

Os data centers ficaram.

Os engenheiros ficaram.

O conhecimento ficou.

As lições ficaram.

E foi exatamente isso que possibilitou o nascimento da Internet moderna.


Lições para o Padawan COBOL

Um programa COBOL raramente nasce perfeito.

Ao longo dos anos ele recebe correções.

Melhorias.

Novos módulos.

Integrações.

Refatorações.

Depois de décadas, muitas vezes continua executando sua função original, mas tornou-se muito mais robusto.

A Internet passou pelo mesmo processo.

A bolha das Dot-Com foi um enorme "debug" coletivo.

Ela eliminou erros de arquitetura empresarial, expôs modelos insustentáveis e obrigou toda a indústria a amadurecer.

No universo da Frota Estelar existe uma máxima entre os engenheiros da USS Enterprise:

"Nenhuma nave chega à classe Galaxy sem antes aprender com os erros das classes anteriores."

A Internet também.

A primeira geração abriu o caminho.

A segunda consolidou a economia digital.

A terceira trouxe computação em nuvem e smartphones.

A quarta nos conduz agora à era da Inteligência Artificial.

Cada geração parece completamente nova.

Na realidade...

Todas são capítulos da mesma história.

E é justamente essa continuidade que um bom engenheiro — seja de software, seja de sistemas mainframe — aprende a enxergar.

No próximo capítulo veremos como a bolha das Dot-Com mudou definitivamente a forma como investidores, empresas e governos passaram a avaliar tecnologia, inaugurando uma nova era de governança, gestão de riscos e inovação sustentável.

Sem comentários:

Enviar um comentário