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sábado, 12 de setembro de 2020

DotCom : Capítulo IX — A Internet Cresceu. A Inocência Morreu: As Lições que Mudaram a Forma de Construir Empresas de Tecnologia

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo ix

Capítulo IX — A Internet Cresceu. A Inocência Morreu: As Lições que Mudaram a Forma de Construir Empresas de Tecnologia

Como a bolha das Dot-Com transformou definitivamente a maneira como investidores, engenheiros, empreendedores e executivos passaram a enxergar inovação

"A experiência é o nome que damos aos erros que sobrevivemos para contar." — Oscar Wilde

Toda grande crise deixa cicatrizes.

Algumas desaparecem com o tempo.

Outras mudam completamente a forma como uma geração inteira pensa.

A bolha da Internet fez exatamente isso.

Depois de 2002, ninguém mais enxergava startups da mesma maneira.

Nem investidores.

Nem bancos.

Nem universidades.

Nem empresas de tecnologia.

Muito menos os engenheiros de software.

O mercado havia aprendido, da maneira mais cara possível, que uma boa ideia não basta.

Tecnologia não elimina administração.

Inovação não substitui planejamento.

E crescimento nunca poderá ocupar o lugar da sustentabilidade.

A bolha havia acabado.

Mas as verdadeiras lições estavam apenas começando.


O Fim da Ingenuidade

Antes do estouro da bolha existia uma espécie de inocência coletiva.

Muitos acreditavam que bastava criar um site interessante.

Os usuários apareceriam.

Os investidores chegariam.

O dinheiro entraria.

O lucro surgiria naturalmente.

Depois da crise...

Essa narrativa desapareceu.

Empreendedores passaram a ouvir perguntas muito diferentes.

Qual é seu modelo de negócios?

Quem paga sua conta?

Quanto custa conquistar um cliente?

Qual é sua margem?

Quando pretende atingir o ponto de equilíbrio?

Essas perguntas continuam sendo feitas até hoje.

E isso não aconteceu por acaso.

Foi a bolha que ensinou investidores a fazê-las.


O Lucro Voltou a Ser Elegante

Durante a euforia, falar em lucro parecia quase antiquado.

Empresas comemoravam prejuízos crescentes como sinal de expansão.

Após o colapso...

Lucro voltou a ser uma palavra respeitada.

Não significava abandonar crescimento.

Significava demonstrar que crescimento poderia ser sustentável.

Nascia uma nova mentalidade.

Crescer rapidamente era importante.

Mas sobreviver era indispensável.


O Fluxo de Caixa Tornou-se Rei

Existe uma frase muito conhecida no mundo empresarial.

"Revenue is vanity. Profit is sanity. Cash is reality."

"Receita é vaidade.

Lucro é bom senso.

Caixa é realidade."

Poucas frases resumem tão bem as consequências da bolha.

Empresas descobriram que o dinheiro disponível hoje vale muito mais do que projeções otimistas para daqui a cinco anos.

Fluxo de caixa passou a ocupar lugar central nas reuniões de conselho.

Sem caixa...

Não existe inovação.

Não existe pesquisa.

Não existe expansão.

Não existe empresa.


O Cliente Tornou-se Mais Importante que o Investidor

Durante a primeira onda das Dot-Com, muitas startups pareciam desenvolver produtos principalmente para convencer investidores.

Após a crise...

O foco mudou completamente.

Empresas passaram a perguntar:

O cliente realmente precisa disso?

Quanto ele pagaria?

Ele voltaria a comprar?

Indicaria o serviço para outras pessoas?

Esse retorno ao cliente talvez tenha sido uma das maiores transformações da indústria.

A tecnologia voltou a servir pessoas.

E não apenas apresentações em PowerPoint.


Engenharia Voltou ao Centro das Decisões

Outro efeito extremamente importante foi a valorização da engenharia.

Durante a bolha, muitos projetos eram lançados rapidamente.

A prioridade era chegar primeiro.

Depois da crise...

Chegar primeiro deixou de ser suficiente.

Era necessário chegar preparado.

Arquitetura.

Escalabilidade.

Segurança.

Disponibilidade.

Performance.

Monitoramento.

Esses temas passaram a ocupar espaço nas reuniões estratégicas.

As empresas perceberam que software não é apenas código.

É infraestrutura.

É operação.

É continuidade do negócio.


O Nascimento da Cultura DevOps

Curiosamente, muitas práticas que hoje consideramos modernas começaram a ganhar força justamente após esse período.

Integração contínua.

Automação de deploy.

Testes automatizados.

Infraestrutura como código.

Monitoramento.

Observabilidade.

Resposta rápida a incidentes.

Anos depois tudo isso seria conhecido como DevOps.

A raiz, porém, estava em um aprendizado simples.

Corrigir problemas cedo custa muito menos do que reconstruir empresas depois.


A Segurança Deixou de Ser Opcional

No final dos anos 1990, segurança frequentemente era tratada como detalhe técnico.

Após a crise, e com o crescimento do comércio eletrônico, isso mudou radicalmente.

Clientes precisavam confiar na Internet.

Empresas precisavam proteger dados.

Bancos precisavam garantir transações.

Começaram a ganhar importância:

criptografia;

autenticação;

certificados digitais;

firewalls;

gestão de identidade;

auditoria.

Hoje esses elementos parecem naturais.

Naquela época representavam uma enorme evolução.


Governança Também Evoluiu

Outro conceito que amadureceu foi a governança corporativa.

Conselhos de administração tornaram-se mais ativos.

Investidores exigiram maior transparência.

Relatórios financeiros passaram a ser analisados com muito mais rigor.

Empresas de tecnologia deixaram de ser vistas como "casos especiais".

Passaram a seguir princípios semelhantes aos de qualquer organização sólida.

Essa mudança fortaleceu todo o ecossistema.


Enquanto Isso... O Mainframe Apenas Continuava Fazendo Seu Trabalho

Existe algo quase filosófico nessa comparação.

Enquanto startups aprendiam conceitos como:

alta disponibilidade;

controle de mudanças;

gestão de configuração;

auditoria;

planejamento de capacidade;

recuperação de desastres...

Os profissionais de mainframe olhavam tudo isso com certa familiaridade.

Esses princípios sempre fizeram parte do ambiente corporativo.

Muito antes da Web.

Muito antes da nuvem.

Muito antes da IA.

Para um administrador de z/OS, manter disponibilidade, controlar mudanças e garantir continuidade nunca foi diferencial.

Era simplesmente parte do trabalho.

Talvez por isso o universo mainframe tenha atravessado tantas revoluções tecnológicas sem perder relevância.


O Investidor Tornou-se Mais Maduro

Os fundos de Venture Capital também evoluíram.

Continuaram financiando inovação.

Mas passaram a exigir muito mais disciplina.

Modelos financeiros.

Planejamento.

Execução.

Capacidade da equipe.

Governança.

Não significa que novas bolhas deixaram de existir.

Mas os critérios ficaram muito mais sofisticados.

Hoje uma startup dificilmente consegue investimentos relevantes apresentando apenas uma boa ideia.

Ela precisa demonstrar capacidade real de transformar visão em negócio.


O Mercado Descobriu o Valor da Resiliência

Antes da bolha, velocidade parecia ser a principal vantagem competitiva.

Depois dela...

Resiliência ganhou importância.

Empresas começaram a investir em:

continuidade operacional;

redundância;

backup;

recuperação de desastres;

gestão de riscos;

planejamento estratégico.

A pergunta deixou de ser:

"Como crescer rapidamente?"

Passou a incluir:

"Como continuar funcionando quando tudo der errado?"

Essa mudança continua extremamente atual.


A Universidade Também Mudou

A crise influenciou até mesmo o ensino de computação.

Cursos passaram a enfatizar:

engenharia de software;

arquitetura;

gestão de projetos;

qualidade;

bancos de dados;

segurança;

redes;

empreendedorismo.

O profissional de tecnologia deixou de ser visto apenas como programador.

Passou a ser um engenheiro de sistemas completos.

Essa visão continua moldando a formação de novos profissionais.


O Paralelo com a Era da Inteligência Artificial

Estamos novamente diante de uma tecnologia transformadora.

A Inteligência Artificial desperta entusiasmo semelhante ao observado na Internet dos anos 1990.

Mas existe uma diferença importante.

Hoje carregamos a memória da bolha.

Empresas perguntam:

Como governar modelos?

Como proteger dados?

Como controlar custos de inferência?

Como auditar decisões?

Como evitar alucinações?

Como integrar IA aos sistemas existentes?

Essas perguntas demonstram maturidade.

A indústria aprendeu que inovação precisa caminhar junto com engenharia.


O Que Nunca Mudou

Apesar de todas as transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas, alguns princípios permaneceram praticamente inalterados.

Resolver problemas reais.

Respeitar limitações técnicas.

Controlar recursos.

Planejar crescimento.

Construir sistemas confiáveis.

Investir em pessoas.

Esses princípios eram verdadeiros antes da Internet.

Continuam verdadeiros na era da Inteligência Artificial.

Provavelmente permanecerão válidos por muitas décadas.


Lições para o Padawan COBOL

Todo programa COBOL bem escrito possui uma característica interessante.

Ele pode ser antigo.

Mas continua compreensível.

Continua confiável.

Continua executando sua função.

Isso acontece porque foi desenvolvido seguindo princípios sólidos.

Empresas também.

A bolha das Dot-Com mostrou que tecnologias mudam rapidamente.

Princípios de engenharia mudam muito pouco.

No universo da Frota Estelar, um jovem cadete costuma ficar fascinado por novos motores de dobra, armamentos experimentais e tecnologias recém-descobertas. Já um engenheiro veterano sabe que nenhuma inovação substitui a integridade do casco, a confiabilidade dos sistemas de suporte à vida e a disciplina da tripulação.

A mesma lógica vale para a computação.

Frameworks surgem.

Linguagens aparecem.

Modelos de IA evoluem.

Mas os fundamentos continuam.

E é justamente por dominar esses fundamentos que um Programador COBOL Padawan pode compreender não apenas o passado da tecnologia, mas também antecipar muitos dos desafios do seu futuro.

No próximo capítulo ampliaremos ainda mais essa visão, comparando a bolha da Internet com outras grandes bolhas econômicas da história — das tulipas holandesas do século XVII às criptomoedas, NFTs, metaverso e Inteligência Artificial — mostrando que, embora as tecnologias mudem, o comportamento humano continua surpreendentemente parecido.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

DotCom : Capítulo VIII — Das Cinzas ao Renascimento: Como o Colapso das Dot-Com Preparou o Mundo para a Era Digital

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo viii

Capítulo VIII — Das Cinzas ao Renascimento: Como o Colapso das Dot-Com Preparou o Mundo para a Era Digital

Por que a maior crise da Internet foi, paradoxalmente, o evento que tornou possível o nascimento de Google, Facebook, YouTube, smartphones, computação em nuvem e Inteligência Artificial

"Uma floresta devastada por um incêndio parece morta. Mas, sob a terra, as sementes finalmente encontram espaço para crescer."

À primeira vista, o estouro da bolha da Internet parece uma história de fracasso.

Empresas quebraram.

Investidores perderam fortunas.

Milhares de profissionais ficaram desempregados.

Projetos desapareceram.

Wall Street entrou em pânico.

Entretanto...

Se observarmos a história com um pouco mais de distância, perceberemos algo surpreendente.

A bolha não destruiu a revolução digital.

Ela a tornou possível.

Pode parecer contraditório.

Mas muitas das empresas que hoje dominam nossa vida cotidiana só conseguiram crescer porque a crise eliminou os excessos da primeira geração da Internet.

Foi como uma gigantesca atualização de software.

Dolorosa.

Cara.

Mas necessária.


A Internet Sobreviveu

Existe um erro muito comum quando se fala sobre o ano 2000.

As pessoas imaginam que a Internet quase desapareceu.

Nada poderia estar mais distante da realidade.

Na verdade...

Enquanto investidores fugiam das ações de tecnologia, engenheiros continuavam trabalhando.

Cabos continuavam sendo instalados.

Servidores continuavam sendo fabricados.

Protocolos continuavam evoluindo.

Universidades continuavam pesquisando.

Empresas continuavam conectando filiais.

A infraestrutura da Internet nunca parou de crescer.

Quem entrou em crise foi o mercado financeiro.

Não a tecnologia.

Essa distinção é extremamente importante.


A Infraestrutura Ficou Pronta

Durante a euforia das Dot-Com foram investidos bilhões de dólares em infraestrutura.

Data centers.

Cabos submarinos.

Centrais telefônicas.

Equipamentos ópticos.

Backbones internacionais.

Links de alta velocidade.

Na época, muitos analistas afirmavam que havia capacidade demais.

Parecia desperdício.

Mas alguns anos depois...

Essa mesma infraestrutura permitiu uma explosão de crescimento.

É uma ironia fascinante.

Boa parte da Internet moderna utiliza uma base construída justamente durante a bolha.

O investimento parecia exagerado.

O tempo mostrou que ele apenas havia chegado cedo demais.


A Banda Larga Mudou Tudo

No início dos anos 2000 começou outra transformação silenciosa.

A Internet discada começou a ser substituída por conexões de banda larga.

Pela primeira vez, os computadores permaneciam conectados o tempo todo.

Adeus ao barulho do modem.

Adeus à linha telefônica ocupada.

Adeus à espera para estabelecer conexão.

Essa mudança alterou completamente a maneira como as pessoas utilizavam a Internet.

Ela deixou de ser uma atividade ocasional.

Passou a fazer parte da rotina diária.

Foi uma mudança de comportamento.

E mudanças de comportamento costumam gerar novas oportunidades de negócios.


A Web Aprendeu a Conversar

Durante a primeira geração da Internet, a maioria dos sites era estática.

Empresas publicavam informações.

Usuários apenas liam.

Pouco depois da crise começou a surgir um conceito completamente diferente.

A Web participativa.

As pessoas deixaram de ser apenas consumidoras.

Passaram a produzir conteúdo.

Escrever.

Fotografar.

Comentar.

Compartilhar.

Avaliar.

Nascia aquilo que mais tarde seria conhecido como Web 2.0.

A Internet deixava de ser uma biblioteca.

Transformava-se numa gigantesca praça pública.


Google Encontrou Seu Momento

Quando a poeira da crise começou a baixar, o Google estava preparado.

Sua infraestrutura crescia.

Seu algoritmo melhorava.

Seu modelo de publicidade tornava-se extremamente eficiente.

Enquanto centenas de concorrentes desapareciam, o Google concentrava cada vez mais usuários.

O curioso é que sua maior vantagem não era apenas tecnológica.

Era econômica.

Cada pesquisa gerava informações valiosas.

Cada anúncio era mais relevante.

Cada clique aperfeiçoava o sistema.

Criava-se um ciclo virtuoso.

Quanto mais pessoas utilizavam o Google...

Melhor ele ficava.


Amazon Deixou de Ser Apenas uma Livraria

Outro sobrevivente aproveitou o período para se reinventar.

A Amazon começou vendendo livros.

Mas Jeff Bezos nunca desejou construir apenas uma livraria online.

Seu objetivo era criar "a loja de tudo".

Após sobreviver à bolha, a empresa acelerou sua expansão.

Vieram:

eletrônicos.

roupas.

brinquedos.

computadores.

móveis.

alimentos.

E, posteriormente...

Serviços em nuvem.

Poucos imaginavam que uma empresa criada para vender livros se tornaria uma das maiores fornecedoras mundiais de infraestrutura para Inteligência Artificial.

Mas foi exatamente isso que aconteceu.


O Nascimento da Computação em Nuvem

Existe uma conexão direta entre a bolha da Internet e a computação em nuvem.

Durante a crise, muitas empresas perceberam que manter enormes infraestruturas próprias era caro.

Ao mesmo tempo, gigantes como Amazon possuíam data centers subutilizados.

A solução parecia natural.

Alugar capacidade computacional.

Em vez de comprar servidores...

Empresas passariam a contratar processamento sob demanda.

Hoje chamamos isso de Cloud Computing.

Na época era uma ideia revolucionária.

Mais uma vez...

A crise incentivou eficiência.


O Mundo Tornou-se Mobile

Enquanto a Internet amadurecia, outra revolução aproximava-se silenciosamente.

Os telefones celulares.

No início serviam apenas para chamadas.

Depois enviavam mensagens.

Pouco depois começaram a acessar páginas simples.

Então surgiu um dispositivo que mudaria tudo.

O smartphone.

Quando o iPhone foi lançado em 2007, encontrou uma Internet completamente diferente daquela de 1999.

Mais rápida.

Mais estável.

Mais madura.

A infraestrutura construída durante a bolha finalmente encontrou um ambiente capaz de utilizá-la plenamente.


Redes Sociais: A Segunda Onda

Pouco depois vieram:

Facebook.

YouTube.

LinkedIn.

Twitter.

Wikipedia.

Flickr.

Essas empresas nasceram em um mundo muito diferente daquele enfrentado pelas primeiras Dot-Com.

Agora existia:

banda larga.

computadores mais rápidos.

servidores mais baratos.

infraestrutura consolidada.

consumidores acostumados à Internet.

meios de pagamento mais seguros.

A primeira geração havia preparado o terreno.

A segunda pôde finalmente construir sobre ele.


Enquanto Isso... Os Mainframes Evoluíam Silenciosamente

Existe um aspecto pouco comentado dessa história.

Enquanto todos observavam o crescimento da Web, o universo corporativo também evoluía.

Mainframes passaram a oferecer:

Linux.

Java.

Serviços Web.

XML.

SOA.

Virtualização avançada.

Mais tarde vieram:

OpenShift.

Containers.

APIs REST.

Kubernetes.

Watsonx.

Aceleradores para Inteligência Artificial.

Ou seja...

O mainframe não ficou parado esperando o futuro.

Ele evoluiu junto com ele.

Talvez de maneira menos chamativa.

Mas extremamente consistente.


A Internet Aprendeu a Ganhar Dinheiro

Outra consequência importante da crise foi o amadurecimento dos modelos de negócios.

As empresas passaram a compreender melhor como gerar receita.

Publicidade segmentada.

Assinaturas.

Software como Serviço.

Marketplace.

Serviços financeiros.

Computação em nuvem.

Economia de plataforma.

Esses modelos praticamente definem a economia digital atual.

Curiosamente...

Quase todos foram refinados após o colapso das Dot-Com.


O Investidor Também Mudou

Os investidores aprenderam muito.

Antes financiavam praticamente qualquer startup.

Depois passaram a analisar:

modelo de negócios.

custos.

retenção de clientes.

receita recorrente.

fluxo de caixa.

capacidade de execução.

Não significa que novas bolhas nunca mais ocorreram.

Mas a qualidade das análises tornou-se muito maior.

Pelo menos durante algum tempo.


A Computação Entrou na Vida de Todos

Talvez a consequência mais profunda da crise tenha sido cultural.

Nos anos 1980, computadores eram ferramentas de especialistas.

Nos anos 1990, tornaram-se objetos domésticos.

Nos anos 2000, passaram a conectar pessoas.

Na década seguinte tornaram-se companheiros permanentes através dos smartphones.

Hoje...

A Inteligência Artificial amplia novamente essa transformação.

Tudo isso faz parte da mesma jornada iniciada muito antes da bolha.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo parecido.

Existe enorme entusiasmo.

Investimentos bilionários.

Milhares de startups.

Novos modelos surgindo praticamente todos os meses.

Provavelmente veremos empresas desaparecerem.

Outras serão adquiridas.

Algumas mudarão completamente de estratégia.

Entretanto...

Mesmo que isso aconteça, a Inteligência Artificial continuará evoluindo.

Assim como aconteceu com a Internet.

A tecnologia não depende do destino individual de cada empresa.

Ela continua seu caminho.


A Grande Ironia da História

Se a bolha da Internet nunca tivesse existido...

Talvez a revolução digital fosse muito mais lenta.

Parece estranho afirmar isso.

Mas pense.

A euforia atraiu investimentos gigantescos.

Esses investimentos construíram infraestrutura.

Essa infraestrutura permaneceu.

Anos depois, novas empresas utilizaram exatamente essa base para criar produtos muito mais maduros.

Em outras palavras.

O dinheiro especulativo desapareceu.

Os cabos ficaram.

Os data centers ficaram.

Os engenheiros ficaram.

O conhecimento ficou.

As lições ficaram.

E foi exatamente isso que possibilitou o nascimento da Internet moderna.


Lições para o Padawan COBOL

Um programa COBOL raramente nasce perfeito.

Ao longo dos anos ele recebe correções.

Melhorias.

Novos módulos.

Integrações.

Refatorações.

Depois de décadas, muitas vezes continua executando sua função original, mas tornou-se muito mais robusto.

A Internet passou pelo mesmo processo.

A bolha das Dot-Com foi um enorme "debug" coletivo.

Ela eliminou erros de arquitetura empresarial, expôs modelos insustentáveis e obrigou toda a indústria a amadurecer.

No universo da Frota Estelar existe uma máxima entre os engenheiros da USS Enterprise:

"Nenhuma nave chega à classe Galaxy sem antes aprender com os erros das classes anteriores."

A Internet também.

A primeira geração abriu o caminho.

A segunda consolidou a economia digital.

A terceira trouxe computação em nuvem e smartphones.

A quarta nos conduz agora à era da Inteligência Artificial.

Cada geração parece completamente nova.

Na realidade...

Todas são capítulos da mesma história.

E é justamente essa continuidade que um bom engenheiro — seja de software, seja de sistemas mainframe — aprende a enxergar.

No próximo capítulo veremos como a bolha das Dot-Com mudou definitivamente a forma como investidores, empresas e governos passaram a avaliar tecnologia, inaugurando uma nova era de governança, gestão de riscos e inovação sustentável.