☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo
Ou: como uma feira paulista, uma estação de trem, uma velha máquina de algodão-doce e os olhos azuis de uma jovem de 1999 continuaram executando um programa dentro da memória quase trinta anos depois
START GIOVANNA1999
Alguns programas nunca foram feitos para terminar.
Há momentos em que os milhões de chimpanzés que habitam minha cabeça fazem silêncio.
É raro.
Normalmente existe uma chuva permanente de ideias, pensamentos, lembranças, absurdos, projetos e associações aparentemente impossíveis. Um chimpanzé pensa em mainframe, outro em história, outro em alguma viagem realizada décadas atrás, enquanto um quarto provavelmente tenta descobrir por que determinada palavra japonesa parece portuguesa.
Mas existem pequenos gatilhos capazes de interromper tudo.
Não importa quanto tempo tenha passado.
Não importa onde eu esteja.
O gatilho acontece e o CPD para.
Um deles é o pastel.
Sim.
Pastel.
Aquela pequena massa frita que talvez algum historiador do futuro considere simples demais para merecer registro, mas que qualquer paulista criado entre feiras livres sabe que pertence a uma categoria muito mais elevada da existência.
Pastel não é apenas comida.
Pastel é memória.
E, no meu caso, pastel também é Giovanna.
O sacramento dominical do paulista
Para compreender essa história, talvez seja necessário explicar às gerações futuras o que significava uma feira livre paulista.
Imagino algum leitor em 2126 consultando este texto enquanto um robô doméstico sintetiza sua refeição molecularmente perfeita e perguntando:
— Mas por que alguém sairia de casa para comprar legumes numa rua?
Porque era muito melhor assim, meu caro descendente.
A feira tinha sons.
Cheiros.
Gente gritando preços.
Crianças.
Senhoras discutindo a qualidade do tomate.
Sacolas.
Caixas.
Frutas cortadas para degustação.
E, em algum ponto estratégico daquele pequeno caos urbano, estava a barraca de pastel.
Ao lado dela, quase obrigatoriamente, caldo de cana.
Ou garapa.
Cada região adotava sua palavra.
O pastel chegava quente demais para ser comido imediatamente, embora invariavelmente tentássemos.
A primeira mordida quebrava a casquinha crocante e libertava uma pequena nuvem de vapor capaz de queimar o céu da boca de qualquer pessoa impaciente.
Dentro poderia haver carne.
Queijo.
Palmito.
Pizza.
Frango.
Ou dezenas de outras invenções.
Mas havia ainda um ingrediente secreto que jamais aparecia na placa:
o óleo.
Não qualquer óleo.
O óleo ancestral da feira.
Depois de fritar uma quantidade arqueológica de pastéis, aquele óleo parecia possuir memória própria.
O pastel de queijo carregava talvez uma lembrança distante do pastel de carne.
A carne poderia ter conhecido o palmito.
O palmito certamente havia cruzado com algum pastel de pizza.
Era quase uma rede neural gastronômica treinada durante milhares de frituras.
E aquilo era delicioso.
O velho japonês que a história transformou em “chinês”
Existe ainda uma história humana por trás das barracas de pastel paulistas.
São Paulo recebeu uma enorme imigração japonesa ao longo do século XX. Essas famílias chegaram, trabalharam, criaram filhos, atravessaram preconceitos, guerras, transformações econômicas e adaptações culturais.
Em determinado período de nossa história, especialmente sob o peso do preconceito antijaponês relacionado à Segunda Guerra Mundial, identidades precisaram ser escondidas, adaptadas ou reinterpretadas.
No imaginário popular paulista surgiu então aquela figura que muitas crianças da minha geração conheceram simplesmente como:
“o chinês da feira”.
Muitas vezes era japonês.
Ou descendente de japoneses.
A história real é muito mais complexa que essa pequena frase, naturalmente. Envolve imigração, racismo, sobrevivência, assimilação e empreendedorismo.
Mas décadas depois algo extraordinário havia acontecido.
O pastel tinha deixado de parecer japonês, chinês ou estrangeiro.
Tornara-se simplesmente paulista.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da cultura.
Ela mistura pessoas, histórias, ingredientes e circunstâncias até que ninguém consiga mais separar completamente as origens.
O resultado vira tradição.
1991 — Pastel, Márcia e Freddie Mercury
Minha história pessoal com pastel também possui algumas pequenas ramificações.
Em 1991, ano em que Freddie Mercury morreu, houve Márcia.
Márcia era filha de uma pasteleira.
Tivemos um breve relacionamento.
É curioso como o cérebro cataloga acontecimentos. Alguém poderia imaginar que uma relação com a filha de uma mulher que fazia pastéis seria suficiente para criar a grande associação gastronômica da minha vida.
Não foi.
O cérebro decidiu outra coisa.
Passaram-se alguns anos.
Outra cidade entrou no mapa.
Outro tempo.
Outra jovem.
E então o índice foi criado definitivamente.
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2021/11/marcia-pastel-freddie-mercury-o.html
Amparo SP
Chegamos a Amparo, interior de São Paulo.
Cidade marcada pelo ciclo do café e por uma arquitetura que ainda guarda fragmentos daquela época em que fortunas atravessavam o interior paulista junto com trilhos, fazendas e estações ferroviárias.
Ali existia uma pastelaria próxima à antiga estação.
Sua própria existência carregava história.
Originalmente aquele tipo de estabelecimento atendia viajantes que chegavam ou partiam pelos trens. Pessoas desciam carregando malas, notícias, saudades, negócios e expectativas.
Comiam alguma coisa.
Tomavam alguma bebida.
Esperavam.
Depois seguiam viagem.
Quando a ferrovia perdeu importância e os trens desapareceram daquela rotina, estabelecimentos como aquele deveriam, segundo a lógica econômica, desaparecer também.
Mas alguns sobrevivem.
Mudam de dono.
Mudam detalhes.
Perdem parte da história.
Ganham outras histórias.
E continuam funcionando.
São pequenos fósseis comerciais vivos.
Em 1999, aquela pastelaria ainda vendia pastéis.
E eu estava lá.
Mas não estava sozinho.
Giovanna
Giovanna tinha lindos olhos azuis.
Quanto ao cabelo, existe uma divergência histórica que provavelmente jamais será resolvida.
Para mim, castanho-claro.
Para ela, loiro-escuro.
Considerando que este é meu registro para a posteridade, deixarei documentadas ambas as versões para que futuros arqueólogos não iniciem uma guerra acadêmica sobre o assunto.
Era 1999.
Éramos jovens.
E havia Amparo para zanzar.
Gosto da palavra zanzar porque ela descreve perfeitamente aquilo.
Não estávamos realizando uma missão.
Não havia roteiro turístico.
Não havia aplicativo indicando os dez lugares obrigatórios para fotografar.
Não precisávamos registrar cada minuto para provar aos outros que tínhamos estado ali.
Nós simplesmente andávamos.
Sentávamos num banco de praça.
Conversávamos.
Explorávamos alguma construção antiga dos tempos áureos do café.
Entrávamos numa loja de R$ 1,99.
Comíamos alguma coisa.
Voltávamos a andar.
Hoje parece extraordinariamente simples.
Talvez fosse justamente isso que tornasse aquilo extraordinário.
A pastelaria da estação
Em algum momento dessas tardes havia pastel.
Não sei se naquele instante pensei:
“Preciso memorizar isto porque daqui a quase trinta anos ainda vou lembrar.”
Certamente não.
Ninguém vive assim.
Grandes acontecimentos normalmente anunciam sua importância.
Casamentos possuem cerimônias.
Formaturas possuem fotografias.
Viagens possuem passagens.
Nascimentos possuem documentos.
Mas ninguém entrega um certificado dizendo:
ATENÇÃO: esta tarde aparentemente banal será importante para você em 27 anos. Favor prestar atenção.
A vida simplesmente acontece.
Comemos o pastel.
Conversamos.
Talvez tenhamos rido de alguma bobagem cujo conteúdo desapareceu completamente da minha memória.
E seguimos andando.
O problema — ou talvez a maravilha — é que meu cérebro executou silenciosamente:
COMMIT;
A transação foi gravada.
Pastel passou a apontar para Giovanna.
E nunca mais consegui desfazer essa associação.
O índice secreto da memória
Se nossa memória funcionasse como um banco de dados organizado, talvez existisse algo parecido com:
GIOVANNA → AMPARO → 1999
Mas memória humana é uma péssima DBA.
Ela cria índices sem consultar ninguém.
No meu caso, aparentemente fez:
PASTEL → GIOVANNA
AMPARO → GIOVANNA
PRAÇA → GIOVANNA
LOJA DE 1,99 → GIOVANNA
E ainda faltava um dos mais poderosos.
ALGODÃO-DOCE → GIOVANNA
A máquina impossível de algodão-doce
Amparo possuía outra pequena maravilha.
Uma velha máquina de algodão-doce.
Na minha lembrança, era uma máquina antiquíssima, do começo do século XX, mantida funcionando graças ao empenho de alguém que se recusava a permitir que aquele artefato simplesmente desaparecesse.
Talvez algum pesquisador futuro consiga determinar sua fabricação, modelo e história com maior precisão.
Para mim, naquele momento, importava outra coisa:
ela ainda funcionava.
Aquilo era maravilhoso.
Uma máquina criada em outro tempo continuava executando perfeitamente sua função.
Açúcar entrava.
O mecanismo girava.
E surgia uma nuvem doce.
Como alguém que passou boa parte da vida trabalhando com mainframes, reconheço hoje uma filosofia familiar:
— Isso ainda está funcionando?
— Sim.
— Há quanto tempo?
— Ninguém sabe exatamente.
— Não deveríamos substituir?
— Não toque.
Há coisas que sobrevivem simplesmente porque alguém continuou cuidando delas.
E aquela máquina continuava produzindo algodão-doce para novas gerações.
Açúcar transformado em nuvem
Algodão-doce é uma invenção maravilhosa justamente porque é quase completamente absurda.
Pegamos açúcar.
Transformamos em fios.
Enrolamos numa vareta.
E produzimos uma nuvem comestível.
Não existe praticamente nenhuma justificativa adulta para aquilo.
Não é sofisticado.
Não demonstra status.
Não é uma experiência gastronômica complexa.
Não precisamos discutir terroir.
Não há harmonização.
É açúcar.
É infância.
É diversão.
É inútil.
E talvez por isso seja tão importante.
Em algum momento de 1999, Giovanna e eu também comemos algodão-doce.
O segundo índice foi criado.
Décadas depois, ainda funciona.
START GIOVANNA1999
Hoje posso estar vivendo um dia completamente diferente.
Outro século.
Outra rotina.
Outros problemas.
Outras pessoas.
Outro eu.
Então aparece um pastel.
Mordo.
A casquinha quebra.
Sinto o recheio quente.
O cheiro chega.
E algum chimpanzé responsável pelo arquivo morto da minha memória abandona sua mesa, corre por um corredor empoeirado do CPD cerebral e grita:
— CHEFE! ENCONTREI UMA COISA!
Antes que minha parte racional compreenda o que aconteceu, o JOB já foi submetido:
START GIOVANNA1999
E estou novamente em Amparo.
Não fisicamente.
Mas suficientemente perto.
Vejo a praça.
A estação.
As construções.
Uma loja de R$ 1,99.
Pastéis.
Algodão-doce.
Olhos azuis.
E aquele cabelo castanho-claro que, caso Giovanna algum dia leia isto, certamente continuará alegando ser loiro-escuro.
Alguns bugs não precisam ser corrigidos.
A felicidade que não sabia que era felicidade
Com o passar dos anos comecei a perceber algo.
As lembranças mais persistentes nem sempre pertencem aos acontecimentos que, na época, pareciam mais importantes.
Viajei.
Conheci lugares extraordinários.
Vi monumentos.
Atravessei países.
Vivi acontecimentos históricos.
Trabalhei com tecnologias gigantescas.
Conheci muita gente.
Entretanto, algumas memórias que atravessaram décadas são absurdamente pequenas.
Um gosto.
Uma rua.
Uma conversa.
Um banco de praça.
Um alimento simples.
Talvez exista uma explicação.
Há momentos que lembramos porque alguma coisa extraordinária aconteceu.
Mas existem outros que lembramos porque, sem perceber naquele instante, estávamos extraordinariamente felizes fazendo coisas absolutamente ordinárias.
Esses são perigosos.
Não precisam de fotografias.
Não precisam de aniversários.
Não precisam sequer que pensemos conscientemente neles.
Ficam esperando.
Até que algum cheiro, música, palavra ou sabor encontre a chave.
A garapa de Luxor e o pastel de Amparo
Anos depois eu sentiria algo semelhante muito longe dali.
No Egito, em Luxor, antiga Tebas, encontrei caldo de cana.
Garapa.
Em meio a uma viagem cercada por milhares de anos de história, templos, faraós e monumentos capazes de atravessar civilizações, uma coisa aparentemente banal conseguiu me atingir profundamente:
caldo de cana.
Porque sabor não respeita geografia.
Também não respeita calendário.
Uma bebida simples podia aproximar o Egito do Brasil durante alguns segundos.
Assim como um pastel comprado décadas depois pode aproximar 2026 de 1999.
Talvez comida seja uma das máquinas do tempo mais eficientes inventadas pela humanidade.
Não era sobre o pastel
Naturalmente, nunca foi realmente sobre pastel.
Também não era sobre algodão-doce.
Nem sobre a loja de R$ 1,99.
Nem sequer apenas sobre Giovanna.
Era sobre aquele conjunto específico de circunstâncias que jamais poderá ser reproduzido exatamente.
Aquela idade.
Aquela cidade.
Aquele momento histórico.
Aquela companhia.
A ausência de pressa.
A possibilidade de simplesmente caminhar sem destino.
O futuro ainda não havia acontecido.
Muitas decisões ainda não tinham sido tomadas.
Muitas pessoas ainda não tinham chegado.
Outras ainda não tinham partido.
Nós não sabíamos disso.
Estávamos apenas vivendo uma tarde.
Para quem estiver lendo isto no futuro
Talvez você seja um descendente.
Talvez seja alguém que encontrou este texto perdido pela internet.
Talvez nem saiba quem foram aquelas pessoas.
Isso pouco importa.
Quero lhe deixar algo muito mais importante do que os nomes.
Quando estiver vivendo um momento simples, não o despreze por ser simples.
Coma o pastel.
Compre o algodão-doce.
Sente no banco.
Entre naquela lojinha aparentemente inútil.
Caminhe sem destino.
Converse.
Observe os prédios.
Ria da bobagem.
Não transforme necessariamente tudo em fotografia.
Não tente fazer cada segundo parecer extraordinário.
Apenas esteja lá.
Porque você não sabe quais desses momentos seu cérebro escolherá guardar.
Daqui a vinte, quarenta ou sessenta anos talvez você não consiga lembrar o assunto daquela conversa.
Talvez esqueça a roupa.
Talvez o estabelecimento desapareça.
A estação poderá virar museu.
A loja poderá ser demolida.
A velha máquina finalmente poderá parar.
Até as pessoas poderão seguir caminhos completamente diferentes.
Mas então, numa tarde qualquer, alguém colocará um pastel diante de você.
Você dará a primeira mordida.
E alguma coisa acontecerá.
O presente ficará silencioso.
Uma porta será aberta.
E por alguns segundos você terá novamente vinte e tantos anos.
Estará numa praça.
Ao seu lado haverá alguém que o tempo levou para outro caminho.
Você poderá quase ouvir sua voz.
Talvez até veja aqueles olhos.
Então compreenderá uma coisa que eu demorei muitos anos para aprender:
a vida não é formada apenas pelos grandes acontecimentos que contamos aos outros.
Boa parte dela está escondida nas pequenas coisas que aparentemente não mereciam ser guardadas.
Mas foram.
Meu pastel guardou uma cidade.
Meu algodão-doce guardou uma época.
Uma velha máquina guardou uma tarde.
E Giovanna acabou guardada em todos eles.
Talvez a memória seja justamente isso.
Um gigantesco CPD administrado por milhões de chimpanzés, cheio de arquivos sem documentação, programas que ninguém ousa apagar e índices criados sem qualquer lógica aparente.
De vez em quando um deles encontra uma fita esquecida.
Coloca para rodar.
O CPD inteiro fica em silêncio.
E nós chamamos aquilo de saudade.
Epílogo — O último pastel
Algum dia comerei meu último pastel.
Naturalmente não saberei que é o último.
Provavelmente reclamarei que tem pouco recheio.
Talvez esteja quente demais.
Talvez o óleo esteja naquele glorioso estágio arqueológico em que já possui conhecimento acumulado de quinze mil pastéis anteriores.
Vou morder.
A casquinha fará crack.
O vapor subirá.
E espero que, onde quer que meus milhões de chimpanzés estejam naquele momento, algum deles ainda conheça o comando.
START GIOVANNA1999
Então, por alguns segundos, pouco importará quantas décadas tenham passado.
Haverá novamente uma estação.
Uma pastelaria.
Uma praça.
Uma loja de R$ 1,99.
Uma máquina centenária transformando açúcar em nuvem.
Uma jovem de olhos azuis.
Um sujeito olhando para o cabelo dela e insistindo que aquilo era castanho-claro.
E uma tarde qualquer de 1999 que ninguém presente sabia ser histórica.
Não foi histórica para o Brasil.
Não mudou São Paulo.
Não apareceu nos jornais.
Não modificou o destino de Amparo.
Mas ficou registrada em algum lugar muito menor e, paradoxalmente, muito mais resistente.
Minha memória.
Se você estiver lendo isto muitas décadas depois de mim, talvez aquela pastelaria não exista mais.
Talvez aquela máquina esteja finalmente num museu.
Talvez ninguém mais saiba quem foi Giovanna.
Agora você sabe.
Ela foi uma jovem de olhos azuis que, durante algumas tardes de 1999, zanzou comigo por Amparo.
E isso bastou para que, décadas depois, um simples pastel ainda fosse capaz de parar o CPD.
Não subestime as pequenas felicidades.
Algumas delas executam para sempre.
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